Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.

7 comentários:
Pois é meu Amigo, à medida que vamos ficando "vintage" aprendemos a saborear melhor as coisas e deixamo-nos de pressas.
E acordar tarde não é "pecado"... é uma perguicinha a que temos todo o direito.
Mil beijos
EF
Pois é meu Amigo à medida que vamos ficando "vintage" deixamo-nos de pressas e aprendemos a saborear as coisas e a vida.
E acordar tarde não é "pecado" é uma preguicita a que temos todo o direito.
mil beijos
EF
Eu gosto muito do Ikea é uma loja prática e barata.Demora-se lá pouco tempo e compra-se o que se precisa.
Leio demasiado depressa sim, tenho esse pequeno problema desde miúda.A idade não o melhorou. Se calhar devia ter feito terapia em relação a isso, como me aconselhou um antigo namorado psi(ele lia muito devagar).
Mas ouvir livros é que não, valha-me a santa.
Gosto do cheiro a papel, de os enfiar na cama, até do peso deles nas mãos e sentir que tenho que acender a luz, porque chegou a noite.
Ler é bom, cada qual que o faça ao seu ritmo:)
Nem depressa, nem devagar - ao sabor do momento e do que estou a ler ou a reler (o que ultimamente me acontece frequentemente). O que sei é que se o que estou a ler é bom não o largo e devoro-o; não na rapidez ou não com que leio mas em sacrificar outras coisas para tudo ler.
Um abraço
cheguei. tarde. de fora de mim.
passo. apenas para te deixar um abraço.
na
pluma do tempo.
estou conyigo. ler com os olhos. nbem abertos, parar. recuar e reler. continuar de olhos bem abertos ler.
Bjs
Luz e paz
Esperamos pela Sua escrita, na “Ler devagar”!
http://www.lerdevagar.com/
Ana Vieira da Silva
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