Havia uma janela panorâmica sobre o rio e nele, insignificantes pela distância, banhistas do interior, dos que não têm mar, nadavam no que lhes resta. Talvez o vinho ajudasse a recompor-me. O mundo percebe-se na lógica que têm todos os outros; mesmo quando não é comnosco, é quase sempre por nossa causa. Saudêmo-los, pois, precisamente assim, à distância, e para que tudo lhes reste e nada lhes falte.
17.7.05
À farta-brutos
Chega-se a uma cidade, dessas que agora têm universidades e institutos superiores e sítios parecidos, de onde saem doutores e procura-se uma livraria: ou o que há é uma papelaria com uns livros ao acaso ou é uma magríssima venda de banalidades romanescas e novidades literárias óbvias. Chega-se a uma cidade dessas e um súbito desejo de ser estúpido toma conta do forasteiro. É mais fácil perguntar-se onde é que se pode almoçar, à farta-brutos, precisamente!
16.7.05
Possuído de estranhos apetites
Se a vida se expressasse toda em literatura, eu procuraria hoje num livro um modo de exprimir-me. Vasculhava os poemas em negativo, para encontrar a forma de dizer não; revirava estantes de prosadores, para saber como se conjuga o verbo apetecer. No fim, teria conseguido dizer o não me apetece, porque é isso, dito sem métrica e sem estilo, o que me apeteceria, afinal, dizer. Acho que o descobri! Nem tomar banho ou sair à rua, não me apetece meter-me à estrada ou mexer-me daqui. Não me apetece ir buscar livros, lê-los ou folheá-los. Não me apetece que saibam que não me apetece. À hora, darão pela minha falta e talvez nem queiram saber. Ontem pisaram-me um pé, desiquilibraram-me por dentro, por isso, coxeio por fora, insaciavelmente, hesitante de apetências.
15.7.05
As escadas da Lello
Coincidiu. Eu tinha lido o poema do João Miguel Fernandes Jorge, «As escadas da Lello», que vem no livrinho «Março, os remadores no Douro». E tudo me fazia sentido, por ser Março o mês da coincidência e por ter coincidido eu estar no Porto, por ter comprado o livro para oferecê-lo e coincidir não me ter sido possível que o recebessem. E lembrei-me dos versos «eu queria, de novo, o entrecruzar dos corpos à hora de almoço descendo as escadas da Lello». Só que a Lello é hoje uma miséria literária, um expositor de novidades fáceis. Fundou-a José Pinto de Sousa Lello, em 30 de Junho de 1894, com o espólio da Livraria Cruz Coutinho e da livraria de Ernesto Chardon. O prédio, estranho e ímpar foi construído, propositadamente para o efeito, como se para uma catedral de livros, em 13 de Janeiro de 1906, um projecto de Xavier Esteves. Todo o seu interior tem a ver com livros, das estantes à escada, a célebre escada da Lello. Desconsolado com a falta de prosélitos, dei comigo, sem sentido, «descendo as escadas, longe dos livros, longe das nuvens, longe de tudo». Coincidiu.
Antenas parabólicas
Confesso que comecei a ler por alguém ter dito, por amabilidade, que a minha forma de escrever lhe lembrava a dele. Mas não me reconheço. Pior! Canso-me. A princípio ainda se multiplicavam as observações com significado e ricas de sentido, como a «a ciência é talvez a maior das artes», ou a «retina paspalheira da multidão inferior das esquinas», mas depois ou «A Estranha Morte do Prof. Antenas» começou a tornar-se uma novela policial barata, sem substância nem forma ou fui eu que comecei a já não ser capaz de tirar água filosófica das pedras literárias. O Mário de Sá Carneiro não tem culpa! Eu é que, com pouco tempo, ao decidir começar por este conto, que é de todos os que a Assírio & Alvim editou no volume «Céu em Fogo», um dos mais curtos, é que, se calhar, na ânsia de chegar ao fim, comecei pelo lado errado e, logo a meio, estava perdido. Enfim, antenas por antenas, a verdade é que não consigo captar nada! O programa segue, por isso, dentro de momentos...
A esperança
Não haver Deus que os salve dos que matam em nome de Deus! E no entanto, rezam, esperançados, como se isso não fosse assim...
14.7.05
O Vagão J
Os professores sabem-no. De entre a massa indiscritível uns olhos brilham ao que se diz. Para alguém faz diferença o estarmos ali, se não pelo que somos, pelo menos pelo que fazemos sentir. Passa-se o mesmo com a literatura. E, no entanto, é sempre como se da primeira vez a consciência de que para alguém tivémos um mínimo de importância. Sabem-no também os pintores de tabuletas, literatos do prático, amigos do esclarecimento: «Cuidado, um comboio pode esconder outro!». É o mesmo na vida. Para fugirmos do rápido especial de passageiros, atropela-nos a composição ronceira de mercadorias, o vagão J da rotina ferroviária.
Um fino!
O ceguinho sentara-se, acórdeão ao colo, à sombra de uma esplanada, numa pausa para uma imperial. Em torno dele chispavam, reprovadores, olhares duros dos afogueados circundantes. Habituada ao cego hirto, mão estendida e cão aos pés, no seu posto de trabalho de mendicidade profissional, a cidade não lhe perdoava este instante em que, refastelado e encervejado, ele, o pedinte, se nivelava, igualitário, a todos os demais. Ao que isto chegou!
Consoladas tribulações
E de repente tudo interage e se confunde, numa síncrese que dá sentido a quanto se viveu: foi a tristonha da Irene Lisboa, a autora da «Solidão», quem traduziu em 1958 «O Vestido Vermelho» de Stig Dagerman, o mesmo autor de um livrinho, editado pela Fenda, de quem ontem, sem pretexto, aqui falei, e que tenho aqui hoje, cedido amigavelmente, para que o leia, talvez pelo título «A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer». E é precisamente a propósito da Irene Lisboa que o Cardoso Pires, com quem há pouco e por acidente aqui estive, apelava em 1966 para uma «vigilante tristeza no meio da alegria» vendo-a então, morta, «interessar à Cidade». E é por ele, a esse respeito, ter falado na «necrofilia literária», a da recuperação dos mortos desprezados em vida e é, enfim, por ter sido sobre isso mesmo que há pouco eu escrevi, por tê-lo lido, já meio morto de cansaço, no Mário de Sá Carneiro, que glorifico o acaso e as surpresas que nos traz. É ele que, dando sim consolo à irracionalidade da vida, a ilumina feericamente com um fundamento que, de outro modo a vida já não teria.
O presente intemporal
Agora que recomecei a ler, lembro uma frase que, na folha anterior do conto do Mário de Sá Carneiro, dizia: «é que, nada há que torne alguém mais lisonjeiro ao povo do que a lenda». Curioso! Antes de me decidir por ele, estivera a folhear um livro, dos que ainda hei-de ler, pelo qual se continua a edição das obras do José Cardoso Pires, com quem me reconciliei, conhecendo-lhe, enfim, a obra. E sucedeu que, ao virar as folhas desses «Dispersos», ainda li, de soslaio, um artigo que ele publicou no falecido «Diário de Lisboa», em 7 de Abril de 1969 chamado «A estratégia do requiem» e onde, a propósito precisamente das «impunidades que a morte facilita», diz precisamente do escritor morto: ele repousa, está dócil e moldável às recuperações que queiram fazer da sua obra. Agora, sim, passou a ter existência contemporânea. Expõe-se à lenda, é um presente intemporal, e já não compromete aqueles que o ousem tocar». Ora eis que, com esta ideia da existência contemporânea dos que se foram, agora me vou.
A praia à vista
Não quis adormecer sem ler nem a ler um conto do Mário de Sá Carneiro chamado «A Estranha Morte do Prof. Antena». Pelo menos comecei-o e fui lendo até àquela parte, que é a terceira página, onde ele diz que «como o inexplicável se não explica, mas tem que ser admitido». Foi aí precisamente que eu adormeci. Inexplicavelmente, admito, afogado de cansaço, a vinte e uma páginas do fim. Acordei agora, para vir aqui.
13.7.05
A utilidade pública
«Ele tinha as calosidades judiciosas dos estadistas experimentados, a linha recta dos galopins veteranos; arquivava as gazetas que o insultavam numa estante da latrina, e dizia que as correspondências da oposição naquele sítio conseguiam o seu fim de utilidade pública». É Camilo, em 1879 e sempre. Uma barrigada de riso. Uma «literatura disssolvente».
A mentalidade provincial
São seguramente os pequenos momentos que geram os grandes pensamentos. A Biblioteca Nacional tem organizado os seus «tesouros» documentais. Um deles é um livro «História da prouincia Sãcta Cruz que vulgarme[n]te chamamos Brasil». O seu autor, Pero Magalhäes de Gandauo, um bracarense, filho de pai flamengo, de cuja biografia pouco se sabe. A edição data de 1576. Encontra-se em http://purl.pt/121/1/P0.html. O que é curioso é precisamente o implícito no texto, a imensidão continental do Brasil reduzida à «província de Santa Cruz». Calcula-se que para um povo que deu novos mundos ao mundo, o que «vulgarmente chamamos Brasil» fosse, na ocasião, uma província, entre as demais!
Precisamente assim
Eu não sei como há pessoas que escrevem sem gralhas, exprimem-se sem erros, pensam sem hesitações. No meu caso a única coisa que é fácil é a iniciativa, o espontâneo estonteante da ideia, a rapidez feérica ao escrevê-la. No mais, é um calvário de revisões, um caminhar trôpego pelos mesmos lapsos, um tropeçar frequente na inutilidade do que faço. E, no entanto, sufocaria sem a janela aberta do outro, enlouqueceria andarilho solitário no cubículo dos meus pensamentos. Vem a isto a propósito precisamente de estar aqui, erróneo, gralhado, hesitante. Magnífica situação. Mesmo as ondas de calor gorduroso da rua, até o zumbir pegajoso das moscas da tarde, nada me incomoda. Uma tarde excelente! Eu não sei como há pessoas que não escrevem mais assim!
O falar doce
Os jornais de referência ficam sempre embaraçados quando editam «mensagens» que são, afinal publicidade à prostituição. Divididos entre um princípio editorial [o do respeito pela dignidade da mulher] e um interesse financeiro [o viverem dos anúncios, sejam lá quais forem] lá tentam esconder a oferta, através da linguagem discreta dos anúncios. Claro que há sempre a ostensiva «brasileira, morenaça, boazona, fogosa, completa»; mas há também, «os lábios como lírios, os seios frutos novos para serem contemplados». É toda uma arte estilística ao serviço do que se sabe. «Começa no falar doce», diz um anúncio de hoje. Pois calculamos que sim, sem sombra de dúvida.
O verbo
Não há entrevista de editor que eu perca. Outro dia, foram os rapazes da Cavalo de Ferro, há dias foram os da Fenda, ambos no Mil Folhas. Vasco Santos, o editor, falava da refundação da sua editora e do que ele e os outros gostavam, o «não precisar de vender os livros que fazemos». E foi aí que encontrei, enfim, a forma verbal atípica que procurava eu também para me refundar: a Fenda, uma editora que «procura a arte de desentristecer». Eis!No princípio era o verbo! ...
A formiga argumentativa
Acontece a quem tem alguns livros e nem sempre os lê: aos que, como as formigas pensando no Inverno, acumulam para quando não houver. Tive a percepção, ao sair da livraria, de que já o tinha, mas ao chegar à estante, lá estava, provocador, um seu igual. Era a «Histoire de la rhétorique». Vista por fora, na edição francesa dizia-se que o livro saía sob a direcção do Michel Meyer, o sucessor em Bruxelas de Chaim Perelman. Visto de dentro, concluía-se que nele havia prosa também de Benoît Timmermans e do nosso Manuel Maria Carrilho. Gasto inútil. Pior, descobri que já tinha também comprado a tradução portuguesa, editada pela Temas & Debates em 2002, onde o português já merecia honras de menção na capa. Enfim, nada a fazer. Inútil argumentar! Em matéria de retórica, estou convencido e tenho provisões que chegam até à primavera. E sobretudo, mais do mesmo, que é uma forma sofística de argumentar pelo esgotamento do interlocutor!
Papel para escrever
Sejam compreensivos os que me viram ir abrindo e encerrando blogs e me surpreendam agora aqui. Foi nessa ânsia fazedora que encontrei talvez o modo mais lógico de me exprimir, supondo-o este. «A Revolta das Palavras» padeceu de ser a continuação de uma crónica jornalística homónima, na qual os leitores esperavam uma atenção ao real da vida e ao surreal da política que o autor não conseguia satisfazer. «O mundo em gavetas» era a expressão de um personagem, ensimesmado e revoltoso na sua passividade neurótica. «O Marceneiro Místico», uma tentativa, impossível de concretizar, a de erigir uma espiritualidade simbólica, sem religião. Tudo isso deu, afinal, em nada. Diminuído pelos equívocos que tudo engendrou, julguei [se não jurei] que não voltaria à blogoesfera, salvo num blog que, por razões profissionais, alimento agora com regularidade, depois de três meses de anemia, o «Patologia Social». Confesso que não consegui resistir ao mutismo compulsivo. Não que exija leitores, mas qual preso numa cela solitária, reclamo apenas papel para escrever. Voltei, pois. Não prometo nem espero, escrevo. Apenas isso.
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