22.7.05

Sublimado corrosivo

Ter uma apetência ao menos pelo sublime ou pelo ridículo e não fazer disso uma causa, mas ao menos uma vivência! Claro que vivido num dia de calor, atulhado em quotidiano, o homem nem nisto pensa. Talvez lhe chegue parte da ideia ao fim da tarde, antes de adormecer com a cara colada ao vidro do transporte público, a acidez do suor a corroer-lhe as entranhas, a indiferença dos outros a fazer-lhe companhia.

Sequer

O dia de ontem não existiu. Ninguém o acredita, porque a roda do tempo não pára. Só que em cada um de todos nós, mesmo nos que não o sabem, vivem-se várias vidas, como as surpreendentes esferas concêntricas chinesas, umas dentro das outras. Para além da esfera exterior, a do mundo quotidiano, que julgamos ser o único real e por causa do qual acertamos o relógio, tudo o mais corre numa tal dimensão de intemporalidade que o vector tempo não lhe faz falta nem tem sentido. Por isso, ontem, o dia não existiu, sequer.

21.7.05

Toda a gente e ninguém

Há no livro «O Ministério do Medo» de Graham Greene o personagem central, Arthur Rowes, que, tal como a maioria dos homens que vivem sozinhos, «acreditava que os seus hábitos fossem os de toda a gente». Ao reler isto compreendi a razão pela qual tais homens sós procuram companhia: precisamente para, deixando de ter os hábitos de toda a gente, passarem, enfim, a hábitos que sejam só os seus.

20.7.05

A promessa

Prometi a mim próprio que escrevia aqui todos os dias. Não estava escrito que fosse assim! Está escrito e é assim!

19.7.05

A enxaqueca

Dizem, lisonjeiros, que é a doença das pessoas inteligentes. Mas há que ser saudavelmente inteligente para perceber a lógica da afirmação. A frase não quer dizer que seja burro quem a não tenha e também não quer dizer que seja por causa de a ter que se é inteligente; o que o dito quer dizer e diz é que nos idiotas ela não surge. Só de ler isto sinto-lhe os sintomas, a aura e o enjoo. Que grande estupidez!

18.7.05

Sabendo escrever

Terminei depressa o livro dos aforismos e irritado; porque muitos não são aforismos, mas começos de poemas e porque há aforismos que Pessoa escreveu como tal e ali não estão e porque, enfim, tudo visto, o conjunto soa a um caderno espirituoso de frases irritantemente bem feitas. Mas ainda consegui encontrar no meio um «eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de mim» que eu deveria ter escrito, se soubesse escrever o que penso.

«Aforimos e afins»

Richard Zenith seleccionou e prefaciou aforismos vários de Fernando Pessoa e dos seus múltiplos heterónimos. Já me tinha cruzado com eles na livraria, mas hoje, diminuído pelo calor e por um almoço que se alongou no momento e diminuiu na quantidade, venci-me e fui, rua acima, procurá-lo para o abrir e nele encontrar a frase reconfortante para todo o indivíduo que se obstina ser mais do que mero cidadão: «não há normas, todos os homens são excepções a uma regra que não existe». Apeteceu-me pinchá-la na parede do tribunal mais abaixo; mesmo que não fosse para a aplicarem, ao menos que fosse para irem pensando nisso.

A erradicação do erro

Ler e esquecer o que se leu. Pensar num livro e nem sequer fazer ideia de como é. E, no entanto, tomá-lo nas mãos e, ao virar de umas folhas, recuperá-lo todo, na memória e nos sentimentos. Foi assim esta manhã, com o «Físico Prodigioso». Havia-o, lido linha a linha, e numa delas sublinhara a estranha expressão, de que aqueles homens «idosos e alquebrados pelo estudo, os jejuns, e as vigílias dedicadas à erradicação dos erros demoníacos, iam não sendo os mesmos». Amanhã tê-la-ei esquecido, à frase; hoje, perplexo por ela, nem faço ideia como é.

17.7.05

Um mundo panorâmico

Havia uma janela panorâmica sobre o rio e nele, insignificantes pela distância, banhistas do interior, dos que não têm mar, nadavam no que lhes resta. Talvez o vinho ajudasse a recompor-me. O mundo percebe-se na lógica que têm todos os outros; mesmo quando não é comnosco, é quase sempre por nossa causa. Saudêmo-los, pois, precisamente assim, à distância, e para que tudo lhes reste e nada lhes falte.

À farta-brutos

Chega-se a uma cidade, dessas que agora têm universidades e institutos superiores e sítios parecidos, de onde saem doutores e procura-se uma livraria: ou o que há é uma papelaria com uns livros ao acaso ou é uma magríssima venda de banalidades romanescas e novidades literárias óbvias. Chega-se a uma cidade dessas e um súbito desejo de ser estúpido toma conta do forasteiro. É mais fácil perguntar-se onde é que se pode almoçar, à farta-brutos, precisamente!

16.7.05

Possuído de estranhos apetites

Se a vida se expressasse toda em literatura, eu procuraria hoje num livro um modo de exprimir-me. Vasculhava os poemas em negativo, para encontrar a forma de dizer não; revirava estantes de prosadores, para saber como se conjuga o verbo apetecer. No fim, teria conseguido dizer o não me apetece, porque é isso, dito sem métrica e sem estilo, o que me apeteceria, afinal, dizer. Acho que o descobri! Nem tomar banho ou sair à rua, não me apetece meter-me à estrada ou mexer-me daqui. Não me apetece ir buscar livros, lê-los ou folheá-los. Não me apetece que saibam que não me apetece. À hora, darão pela minha falta e talvez nem queiram saber. Ontem pisaram-me um pé, desiquilibraram-me por dentro, por isso, coxeio por fora, insaciavelmente, hesitante de apetências.

15.7.05

As escadas da Lello

Coincidiu. Eu tinha lido o poema do João Miguel Fernandes Jorge, «As escadas da Lello», que vem no livrinho «Março, os remadores no Douro». E tudo me fazia sentido, por ser Março o mês da coincidência e por ter coincidido eu estar no Porto, por ter comprado o livro para oferecê-lo e coincidir não me ter sido possível que o recebessem. E lembrei-me dos versos «eu queria, de novo, o entrecruzar dos corpos à hora de almoço descendo as escadas da Lello». Só que a Lello é hoje uma miséria literária, um expositor de novidades fáceis. Fundou-a José Pinto de Sousa Lello, em 30 de Junho de 1894, com o espólio da Livraria Cruz Coutinho e da livraria de Ernesto Chardon. O prédio, estranho e ímpar foi construído, propositadamente para o efeito, como se para uma catedral de livros, em 13 de Janeiro de 1906, um projecto de Xavier Esteves. Todo o seu interior tem a ver com livros, das estantes à escada, a célebre escada da Lello. Desconsolado com a falta de prosélitos, dei comigo, sem sentido, «descendo as escadas, longe dos livros, longe das nuvens, longe de tudo». Coincidiu.

Antenas parabólicas

Confesso que comecei a ler por alguém ter dito, por amabilidade, que a minha forma de escrever lhe lembrava a dele. Mas não me reconheço. Pior! Canso-me. A princípio ainda se multiplicavam as observações com significado e ricas de sentido, como a «a ciência é talvez a maior das artes», ou a «retina paspalheira da multidão inferior das esquinas», mas depois ou «A Estranha Morte do Prof. Antenas» começou a tornar-se uma novela policial barata, sem substância nem forma ou fui eu que comecei a já não ser capaz de tirar água filosófica das pedras literárias. O Mário de Sá Carneiro não tem culpa! Eu é que, com pouco tempo, ao decidir começar por este conto, que é de todos os que a Assírio & Alvim editou no volume «Céu em Fogo», um dos mais curtos, é que, se calhar, na ânsia de chegar ao fim, comecei pelo lado errado e, logo a meio, estava perdido. Enfim, antenas por antenas, a verdade é que não consigo captar nada! O programa segue, por isso, dentro de momentos...

A esperança

Não haver Deus que os salve dos que matam em nome de Deus! E no entanto, rezam, esperançados, como se isso não fosse assim...

14.7.05

O Vagão J

Os professores sabem-no. De entre a massa indiscritível uns olhos brilham ao que se diz. Para alguém faz diferença o estarmos ali, se não pelo que somos, pelo menos pelo que fazemos sentir. Passa-se o mesmo com a literatura. E, no entanto, é sempre como se da primeira vez a consciência de que para alguém tivémos um mínimo de importância. Sabem-no também os pintores de tabuletas, literatos do prático, amigos do esclarecimento: «Cuidado, um comboio pode esconder outro!». É o mesmo na vida. Para fugirmos do rápido especial de passageiros, atropela-nos a composição ronceira de mercadorias, o vagão J da rotina ferroviária.

Um fino!

O ceguinho sentara-se, acórdeão ao colo, à sombra de uma esplanada, numa pausa para uma imperial. Em torno dele chispavam, reprovadores, olhares duros dos afogueados circundantes. Habituada ao cego hirto, mão estendida e cão aos pés, no seu posto de trabalho de mendicidade profissional, a cidade não lhe perdoava este instante em que, refastelado e encervejado, ele, o pedinte, se nivelava, igualitário, a todos os demais. Ao que isto chegou!

Consoladas tribulações

E de repente tudo interage e se confunde, numa síncrese que dá sentido a quanto se viveu: foi a tristonha da Irene Lisboa, a autora da «Solidão», quem traduziu em 1958 «O Vestido Vermelho» de Stig Dagerman, o mesmo autor de um livrinho, editado pela Fenda, de quem ontem, sem pretexto, aqui falei, e que tenho aqui hoje, cedido amigavelmente, para que o leia, talvez pelo título «A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer». E é precisamente a propósito da Irene Lisboa que o Cardoso Pires, com quem há pouco e por acidente aqui estive, apelava em 1966 para uma «vigilante tristeza no meio da alegria» vendo-a então, morta, «interessar à Cidade». E é por ele, a esse respeito, ter falado na «necrofilia literária», a da recuperação dos mortos desprezados em vida e é, enfim, por ter sido sobre isso mesmo que há pouco eu escrevi, por tê-lo lido, já meio morto de cansaço, no Mário de Sá Carneiro, que glorifico o acaso e as surpresas que nos traz. É ele que, dando sim consolo à irracionalidade da vida, a ilumina feericamente com um fundamento que, de outro modo a vida já não teria.

O presente intemporal

Agora que recomecei a ler, lembro uma frase que, na folha anterior do conto do Mário de Sá Carneiro, dizia: «é que, nada há que torne alguém mais lisonjeiro ao povo do que a lenda». Curioso! Antes de me decidir por ele, estivera a folhear um livro, dos que ainda hei-de ler, pelo qual se continua a edição das obras do José Cardoso Pires, com quem me reconciliei, conhecendo-lhe, enfim, a obra. E sucedeu que, ao virar as folhas desses «Dispersos», ainda li, de soslaio, um artigo que ele publicou no falecido «Diário de Lisboa», em 7 de Abril de 1969 chamado «A estratégia do requiem» e onde, a propósito precisamente das «impunidades que a morte facilita», diz precisamente do escritor morto: ele repousa, está dócil e moldável às recuperações que queiram fazer da sua obra. Agora, sim, passou a ter existência contemporânea. Expõe-se à lenda, é um presente intemporal, e já não compromete aqueles que o ousem tocar». Ora eis que, com esta ideia da existência contemporânea dos que se foram, agora me vou.

A praia à vista

Não quis adormecer sem ler nem a ler um conto do Mário de Sá Carneiro chamado «A Estranha Morte do Prof. Antena». Pelo menos comecei-o e fui lendo até àquela parte, que é a terceira página, onde ele diz que «como o inexplicável se não explica, mas tem que ser admitido». Foi aí precisamente que eu adormeci. Inexplicavelmente, admito, afogado de cansaço, a vinte e uma páginas do fim. Acordei agora, para vir aqui.

13.7.05

A utilidade pública

«Ele tinha as calosidades judiciosas dos estadistas experimentados, a linha recta dos galopins veteranos; arquivava as gazetas que o insultavam numa estante da latrina, e dizia que as correspondências da oposição naquele sítio conseguiam o seu fim de utilidade pública». É Camilo, em 1879 e sempre. Uma barrigada de riso. Uma «literatura disssolvente».