31.7.05

O homem da carreira 95

Sentou-se a uma mesa e num canto de um qualquer papel, como se de súbito, já tinha escrito. Chegara de uma viagem, e como se a escrevesse, de súbito tinha regressado. Havia naquela escrita a ilusão da presença. Sentou-se a uma mesa e como se a um canto, escreveu a ilusão de uma vida súbita, vivida em papel.

30.7.05

O homem impossível

E depois nem o autocarro chegava, nem ninguém ali aparecia para o apanhar. E, no entanto, o homem, transeunte ocasional daquele instante, ria-se para dentro do jantar de onde viera, como se de um compromisso ingrato já cumprido. A noite estava fria e com ela a lembrança do casaco que a sua teimosia lhe fizera não trazer. Um homem sem casaco numa noite gelada numa solitária paragem de um autocarro que não vinha. Um livro, um jornal, algo que fizesse de momento companhia ou fosse ao menos um entretém, porque às noites os autocarros que não passam nas paragens onde ninguém os espera nunca se sabe a que horas do acaso poderão sequer surgir. Sentando-se e levantando-se e passeando-se inconstante para aquecer o homem esfriado do casaco que não trouxera para o jantar que não lhe apetecia deu de repente conta de si. Era noite alta, e naquele bairro sombrio de luzes minguadas e recantos duvidosos não haveria outro transporte do que a pé, outro destino se não esperar. Foi ali que o encontraram no dia seguinte, adormecido num canto, vomitado o jantar e envergonhado de si.

Toldado de sol

Leio no Algarve o Nuno Júdice, que aqui nasceu e no mesmo ano que eu. E confronto-me com o retrato «daqueles homens que tendo perdido tudo, ou não tendo chegado sequer a juntar alguma coisa, optavam por exibir a sua velhice gasta e inútil como se fosse um património capaz de se impor aos respeito dos concidadãos». Sopra uma brisa morna, um sopro de juventude. É a promessa de que tudo é possível, apesar dos concidadãos, a começar pelos do toldo ao lado.

29.7.05

VITRIOL

O livro lá estava, na feira do livro de um inesperado local, numa noite de vento. Escondido entre tantos outros, discreto como convinha ao tema. Iniciado no problema, trouxe-o comigo. Tem como sub-título «Fragmentos» e vê-se que foi gerado com muito esforço e com a alma dorida. O autor andava a estudar as «cisões maçónicas portuguesas» e este parece ser as aparas da investigação. Saíu-lhe como uma cronologia e por isso lhe chamou «Anuário Maçónico Português». Interessaram-me do que folheei as cisões: trinta em duzentos anos. Para uma obediência que se quer da fraternidade humana, não vai mal. Sintomático, o livro vai dedicado aos maçons que entraram no Oriente Eterno, e aos que abandonaram a loja «por coerência com os princípios que sempre regeram os pedreiros-livres». Mas haja esperança: a carne deixará os ossos, mas a acácia florirá!

28.7.05

O meu cantar...

Tinha que suceder! E foi ontem. Lendo o que ficou para trás, posso dizer que quase se adivinhava o que acabou por acontecer: passou um dia e eu não escrevi. E agora, ei-lo, imenso, visível, frontal o buraco horrendo, a evidenciar o vazio e a falha. É o maior dos pesadelos, o de um dia acordar-se e faltar-nos um dente frontal; imaginarmos que ao abrir a boca todos à nossa volta notarão esse momento de degradação, evidência vergonhosa da velhice; sorrirmos com um esgar, evitarmos falar, sentirmo-nos enfim menos do que ontem. Animal carnívoro, não há nada que mais marque no humano a penúria e a precariedade do que a desdentação. Lembro-me da «Cena do Ódio» do Almada Negreiros e uma saudade imensa dessa noite: «o castigo das serpentes é-me riso nos dentes, Inferno a arder o Meu cantar!

26.7.05

A hora aziaga

Primeiro, foi a ideia de escrever aqui quotidianamente, não por obrigação, mas para não enfrentar a vergonha de terminar um dia sem que eu tivesse ao menos uma simples ideia para partilhar neste local. Depois, foram as obrigações profissionais, os deveres sociais e as necessidades animais a gastarem horas atrás de horas e pouco tempo a sobejar para vir aqui. Por vezes, foram mesmo os desejos e os sentimentos a concentrarem neles as energias sobejantes. Enfim, frequentemente o aproximar da meia-noite e a mudança de dia encontrou-me completamente vazio de mim e esgotado dos outros. É uma hora aziaga esta a da meia-noite, eu sei, em que Cinderela receia perder o sapatinho e eu temo não descalçar a bota.

O bate-chapas

Mandaram-me hoje, por graça, um chiste: «se vires homem a abrir a porta do carro para mulher entrar, ou o carro é novo, ou a mulher é nova». Uma gracinha! Pois, castigo de Deus! Ainda de goela arreganhada, amolguei a porta do carro! Da próxima rio para dentro...

25.7.05

Respeitinho!

Hoje a directora do Instituto Camões, para explicar o apoio dado a um determinado trabalho publicitário, sentiu necessidade de dizer que «publicidade é também cultura!», o que parece razoável. E, para dar exemplo que ajudasse à explicação [pois há quem não perceba se não à força de exemplos!] lembrou o Alexandre O'Neill, «que para além de poeta, também era publicitário». Bela escolha exemplificativa, mas para ser usada com prudência. É que o dito autor do magnífico «uma coisa em forma de assim», arranjou não poucos sarilhos precisamente no seu trabalho de publicitário, por causa das suas geniais tiradas culturo-publicitárias. E não foi tanto o «vá de metro, Satanás», que a companhia do Metropolitano, aliás, se recusou a comprar! O que atingiu mais foros problemáticos foi o «no colchão Lusoespuma, não se dá apenas uma!». É que, como ele próprio escreveu, «neste país em diminuitivo, respeitinho é que é preciso!».

24.7.05

Nego e t'arrenego!

Permissão para falar de mim! A revista «Única» do Expresso de ontem traz um artigo sobre o Hotel Palácio do Estoril, fixado nas historietas dos «importantes» que o frequentaram. Entre famosos do cinema e da literatura, cabeças coroadas destronadas e refugiados em fuga, lá vem a galeria dedicada aos espiões e outros «quinta-colunáveis», que por ali passaram ou terão supostamente passado. A autora da prosa seleccionou, para ilustrar o texto, uns quantos casos. Lendo o escrito, constato não sem surpresa que ela copiou na íntegra informações que eu trouxe há vários anos para o conhecimento português através de um livro que felizmente saíu já do mercado! Ou seja, fez o que já é normal nesta terra: omitiu a fonte, para não dizer mais feio. Só que Deus é grande! Se a jovem autora tivesse posto lá o meu nome, via-se que muitas das asneiras que lá vinham eram da minha lavra, fruto de uma investigação então ainda muito incipente. Assim, fica ela com a fama de ignorante. É caso para dizer: bem feito! Cá por mim, já sei: se me vierem pedir autorias, faço como o Jô Soares: nego, n-e-g-o, nego!

Cansado da estúrdia

Nasceu em Portimão e morreu na Argélia. Estudou no seminário e viveu intensamente uma vida de boémia. Escreveu obras literárias sedutoras. Foi Presidente da República durante dois anos, entre 1923 e 1925. Hoje já quase ninguém se lembra de si. Chamava-se Manuel Teixeira Gomes. Desaparecida a figura, a sua memória continua, com mais ou menos variantes. Um homem «cansado da estúrdia», assim o retrata o oficialíssimo «site» da Presidência da República. Conceito curioso. Muitos o sentimos e compartilhamos; é precisamente isso, cansados da estúrdia.

A nova censura

Somos de facto um país de velhacos! Por pura ideologia queimaram-se livros, por ordem ministerial, após o 25 de Abril e, afinal, havia muito responsável que «não sabia»! Mais, quando se falou na imprensa, anos a fio, na queima de livros, o ícone repetido à exaustão eram os autos de fé feitos na Alemanha nazi. E, no entanto, aqui tão perto, havia uma verdade próxima, mas escondida. Eis a liberdade de expressão e de informação neste país, onde ainda há esqueletos nos armários! Tudo isto só é possível por uma razão, a cumplicidade de quem sabe com quem esconde. É isto que dita a nossa história, o ser quase sempre «oficial», a hipocrisia e o jogo da conveniência a sua moral mesquinha. Ao «Cavaleiro de Oliveira» queimaram-no os da Inquisição «em efígie»! O queimado, vivo em Londres, teria comentado que nunca teria sentido tanto frio na vida. Ora isso mesmo senti eu ao ler «O Público» de hoje, onde o Adelino Gomes teve a coragem de, vencida a nova censura, contar, finalmente, a história da queima dos livros! Um frio de rachar! De rachar mesmo!

23.7.05

Muito menos e mais depressa

A frase veio a propósito. Encontrei-a num livro de um escritor que hoje passou ao esquecimento, Metzner Leone. Fala ele dos quadrúpudes como sendo animais mais espertos que os bípedes, pois se cansam menos. Só que, no caso, vinha eu a quatro rodas, esfalfando-me mais depressa!

22.7.05

Sublimado corrosivo

Ter uma apetência ao menos pelo sublime ou pelo ridículo e não fazer disso uma causa, mas ao menos uma vivência! Claro que vivido num dia de calor, atulhado em quotidiano, o homem nem nisto pensa. Talvez lhe chegue parte da ideia ao fim da tarde, antes de adormecer com a cara colada ao vidro do transporte público, a acidez do suor a corroer-lhe as entranhas, a indiferença dos outros a fazer-lhe companhia.

Sequer

O dia de ontem não existiu. Ninguém o acredita, porque a roda do tempo não pára. Só que em cada um de todos nós, mesmo nos que não o sabem, vivem-se várias vidas, como as surpreendentes esferas concêntricas chinesas, umas dentro das outras. Para além da esfera exterior, a do mundo quotidiano, que julgamos ser o único real e por causa do qual acertamos o relógio, tudo o mais corre numa tal dimensão de intemporalidade que o vector tempo não lhe faz falta nem tem sentido. Por isso, ontem, o dia não existiu, sequer.

21.7.05

Toda a gente e ninguém

Há no livro «O Ministério do Medo» de Graham Greene o personagem central, Arthur Rowes, que, tal como a maioria dos homens que vivem sozinhos, «acreditava que os seus hábitos fossem os de toda a gente». Ao reler isto compreendi a razão pela qual tais homens sós procuram companhia: precisamente para, deixando de ter os hábitos de toda a gente, passarem, enfim, a hábitos que sejam só os seus.

20.7.05

A promessa

Prometi a mim próprio que escrevia aqui todos os dias. Não estava escrito que fosse assim! Está escrito e é assim!

19.7.05

A enxaqueca

Dizem, lisonjeiros, que é a doença das pessoas inteligentes. Mas há que ser saudavelmente inteligente para perceber a lógica da afirmação. A frase não quer dizer que seja burro quem a não tenha e também não quer dizer que seja por causa de a ter que se é inteligente; o que o dito quer dizer e diz é que nos idiotas ela não surge. Só de ler isto sinto-lhe os sintomas, a aura e o enjoo. Que grande estupidez!

18.7.05

Sabendo escrever

Terminei depressa o livro dos aforismos e irritado; porque muitos não são aforismos, mas começos de poemas e porque há aforismos que Pessoa escreveu como tal e ali não estão e porque, enfim, tudo visto, o conjunto soa a um caderno espirituoso de frases irritantemente bem feitas. Mas ainda consegui encontrar no meio um «eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de mim» que eu deveria ter escrito, se soubesse escrever o que penso.

«Aforimos e afins»

Richard Zenith seleccionou e prefaciou aforismos vários de Fernando Pessoa e dos seus múltiplos heterónimos. Já me tinha cruzado com eles na livraria, mas hoje, diminuído pelo calor e por um almoço que se alongou no momento e diminuiu na quantidade, venci-me e fui, rua acima, procurá-lo para o abrir e nele encontrar a frase reconfortante para todo o indivíduo que se obstina ser mais do que mero cidadão: «não há normas, todos os homens são excepções a uma regra que não existe». Apeteceu-me pinchá-la na parede do tribunal mais abaixo; mesmo que não fosse para a aplicarem, ao menos que fosse para irem pensando nisso.

A erradicação do erro

Ler e esquecer o que se leu. Pensar num livro e nem sequer fazer ideia de como é. E, no entanto, tomá-lo nas mãos e, ao virar de umas folhas, recuperá-lo todo, na memória e nos sentimentos. Foi assim esta manhã, com o «Físico Prodigioso». Havia-o, lido linha a linha, e numa delas sublinhara a estranha expressão, de que aqueles homens «idosos e alquebrados pelo estudo, os jejuns, e as vigílias dedicadas à erradicação dos erros demoníacos, iam não sendo os mesmos». Amanhã tê-la-ei esquecido, à frase; hoje, perplexo por ela, nem faço ideia como é.