Quando se anda sem reserva há o risco de não haver lugar. Claro que há sempre a camioneta a seguir. Quando chega, já os outros estão fartos de chegar. Muitos, fartos no sentido literal do termo.
5.8.05
4.8.05
Patrão em terra
Uma laçada dada no seio chama-se, saiba-se lá porquê, azelha. No seio de um cabo, entenda-se. É bom saber destas coisas, mesmo quando o barco fica em terra. Nessas ocasiões, em que o calor convida, o pior ainda seria uma azelhice. Aí é que nem nó de burro nos salva.
Os dentes do sáurio
Chama-se Galopim de Carvalho e não se livra de ser conhecido como o homem dos dinossauros. Ao JL de ontem disse que está sempre de férias, porque nunca pára de trabalhar. Uma verdadeira espécie em vias de extinção, eis o que é. Como cantava o madeirense Max, se o trabalho dá saúde e faz crescer os dentes, rapazes viva o descanso, que trabalhem os doentes!
3.8.05
O escriturário de serviço
O personagem vinha da política de direita decidira-se a ser escritor, à esquerda. Estava por isso trancado em hotel com mar à vista a escrevinhar o seu livro, que a crítica «progressista» recebeu então com tolerante amabilidade. Eu acabara de estacionar o carro e vinha de saca às costas para um fim de semana, ainda a ruminar as últimas indigestões profissionais do dia. O porteiro, cumprimentador e obsequiador, achou que um tipo como eu tinha direito a compartilhar do segredo local: «o senhor professor está cá, com as suas escrituras!». Espantosa palavra para aqueles escritos, «escrituras». Como, com ironia e sumo de limão, disse uma vez um notável político que já se foi, dirigindo-se a outro que ainda por cá anda: «Ó F. você também tudo o que diz, cheira a papel selado!». Já agora: o homem teve sucesso, hoje é muito ministro, o «escriturário» claro, pois o outro continua porteiro e eu ruminante.
As asas do desejo
O Vergílio Ferreira disse numa entrevista que não gostava de viajar, gostava é de ter nascido em vários sítios. Como eu ubiquamente o compreendo esta tarde, em que não estou com quem desejaria estar.
Não se aceitam devoluções
«Asperamente sensível ao som de certas palavras. asperamente sensível a todas as estridências. asperamente sensivel às vibrações metálicas e às oscilações de tom, asperamente sensível à luz do sol à lua ardente do sol. asperamente sensível aos rumores do mundo». Eu sabia que havia um modo de o dizer e onde estava quem o disse. Encontrei-o, muito escondido na estante. É um daqueles livros pequenos que se somem na mutidão dos outros. Reli, aquela invulgar pontuação, aquele extraordinário modo de o dizer. Devia recortar a folha ou copiá-la para um papelinho. Trá-la-ia no bolso para mostrar a quem passasse ou afixava-a como os mendigos fazem à sua história lancinante. A cidade ficaria a saber. Não que estendesse a mão. Só para me compreenderem qualquer aspereza, devolvendo-ma.
2.8.05
À linha!
Estou sem rede! Através deste telefone, dedos hesitantes em teclado minúsculo, eis, qual mensagem numa garrafa: não vale a pena navegar quando, sem rede, nem se consegue pescar. Ao anoitecer, a continuarmos assim, decido-me: sigo à linha e ao candeio! Maldita Netcabo!
1.8.05
«Uma vontade indomável»
Como viajava de autocarro ele teve tempo para ler e reler. Claro que o livro era, na sua simplicidade, dos que se deixava ler. A autora, uma norueguesa que casou com um húngaro e que nos fins da vida viveu na Suécia e morreu em Portugal. A capa, lindíssima, criava uma ideia que o texto desmentia: «De Budapeste ao Estoril». Claro que do Estoril há na narrativa quase nada. Mas não importa. Mesmo que não tivesse lido tudo, ter lido a singelíssima abertura já lhe valeu a pena: «A vida é um perpétuo desafio. À medida que ficamos mais velhos, que o nosso tempo começa a responder com menos energia, devemos pensar em tirar o máximo partido do tempo que nos resta». Hoje, vinha ele da visita ao hospital, a pensar que bom teria sido continuar no autocarro, em perpétuo movimento. A propósito, a autora chama-se Edle Astrup Hubary Cebrian. O livro, em português, tirado pela Oficina do Livro chama-se «Uma vontade indomável». Há nele aquelas coisas simples e óbvias, mas que nunca se sabem, nesta vida de asneiras.
31.7.05
O homem da carreira 95
Sentou-se a uma mesa e num canto de um qualquer papel, como se de súbito, já tinha escrito. Chegara de uma viagem, e como se a escrevesse, de súbito tinha regressado. Havia naquela escrita a ilusão da presença. Sentou-se a uma mesa e como se a um canto, escreveu a ilusão de uma vida súbita, vivida em papel.
30.7.05
O homem impossível
E depois nem o autocarro chegava, nem ninguém ali aparecia para o apanhar. E, no entanto, o homem, transeunte ocasional daquele instante, ria-se para dentro do jantar de onde viera, como se de um compromisso ingrato já cumprido. A noite estava fria e com ela a lembrança do casaco que a sua teimosia lhe fizera não trazer. Um homem sem casaco numa noite gelada numa solitária paragem de um autocarro que não vinha. Um livro, um jornal, algo que fizesse de momento companhia ou fosse ao menos um entretém, porque às noites os autocarros que não passam nas paragens onde ninguém os espera nunca se sabe a que horas do acaso poderão sequer surgir. Sentando-se e levantando-se e passeando-se inconstante para aquecer o homem esfriado do casaco que não trouxera para o jantar que não lhe apetecia deu de repente conta de si. Era noite alta, e naquele bairro sombrio de luzes minguadas e recantos duvidosos não haveria outro transporte do que a pé, outro destino se não esperar. Foi ali que o encontraram no dia seguinte, adormecido num canto, vomitado o jantar e envergonhado de si.
Toldado de sol
Leio no Algarve o Nuno Júdice, que aqui nasceu e no mesmo ano que eu. E confronto-me com o retrato «daqueles homens que tendo perdido tudo, ou não tendo chegado sequer a juntar alguma coisa, optavam por exibir a sua velhice gasta e inútil como se fosse um património capaz de se impor aos respeito dos concidadãos». Sopra uma brisa morna, um sopro de juventude. É a promessa de que tudo é possível, apesar dos concidadãos, a começar pelos do toldo ao lado.
29.7.05
VITRIOL
O livro lá estava, na feira do livro de um inesperado local, numa noite de vento. Escondido entre tantos outros, discreto como convinha ao tema. Iniciado no problema, trouxe-o comigo. Tem como sub-título «Fragmentos» e vê-se que foi gerado com muito esforço e com a alma dorida. O autor andava a estudar as «cisões maçónicas portuguesas» e este parece ser as aparas da investigação. Saíu-lhe como uma cronologia e por isso lhe chamou «Anuário Maçónico Português». Interessaram-me do que folheei as cisões: trinta em duzentos anos. Para uma obediência que se quer da fraternidade humana, não vai mal. Sintomático, o livro vai dedicado aos maçons que entraram no Oriente Eterno, e aos que abandonaram a loja «por coerência com os princípios que sempre regeram os pedreiros-livres». Mas haja esperança: a carne deixará os ossos, mas a acácia florirá!
28.7.05
O meu cantar...
Tinha que suceder! E foi ontem. Lendo o que ficou para trás, posso dizer que quase se adivinhava o que acabou por acontecer: passou um dia e eu não escrevi. E agora, ei-lo, imenso, visível, frontal o buraco horrendo, a evidenciar o vazio e a falha. É o maior dos pesadelos, o de um dia acordar-se e faltar-nos um dente frontal; imaginarmos que ao abrir a boca todos à nossa volta notarão esse momento de degradação, evidência vergonhosa da velhice; sorrirmos com um esgar, evitarmos falar, sentirmo-nos enfim menos do que ontem. Animal carnívoro, não há nada que mais marque no humano a penúria e a precariedade do que a desdentação. Lembro-me da «Cena do Ódio» do Almada Negreiros e uma saudade imensa dessa noite: «o castigo das serpentes é-me riso nos dentes, Inferno a arder o Meu cantar!
26.7.05
A hora aziaga
Primeiro, foi a ideia de escrever aqui quotidianamente, não por obrigação, mas para não enfrentar a vergonha de terminar um dia sem que eu tivesse ao menos uma simples ideia para partilhar neste local. Depois, foram as obrigações profissionais, os deveres sociais e as necessidades animais a gastarem horas atrás de horas e pouco tempo a sobejar para vir aqui. Por vezes, foram mesmo os desejos e os sentimentos a concentrarem neles as energias sobejantes. Enfim, frequentemente o aproximar da meia-noite e a mudança de dia encontrou-me completamente vazio de mim e esgotado dos outros. É uma hora aziaga esta a da meia-noite, eu sei, em que Cinderela receia perder o sapatinho e eu temo não descalçar a bota.
O bate-chapas
Mandaram-me hoje, por graça, um chiste: «se vires homem a abrir a porta do carro para mulher entrar, ou o carro é novo, ou a mulher é nova». Uma gracinha! Pois, castigo de Deus! Ainda de goela arreganhada, amolguei a porta do carro! Da próxima rio para dentro...
25.7.05
Respeitinho!
Hoje a directora do Instituto Camões, para explicar o apoio dado a um determinado trabalho publicitário, sentiu necessidade de dizer que «publicidade é também cultura!», o que parece razoável. E, para dar exemplo que ajudasse à explicação [pois há quem não perceba se não à força de exemplos!] lembrou o Alexandre O'Neill, «que para além de poeta, também era publicitário». Bela escolha exemplificativa, mas para ser usada com prudência. É que o dito autor do magnífico «uma coisa em forma de assim», arranjou não poucos sarilhos precisamente no seu trabalho de publicitário, por causa das suas geniais tiradas culturo-publicitárias. E não foi tanto o «vá de metro, Satanás», que a companhia do Metropolitano, aliás, se recusou a comprar! O que atingiu mais foros problemáticos foi o «no colchão Lusoespuma, não se dá apenas uma!». É que, como ele próprio escreveu, «neste país em diminuitivo, respeitinho é que é preciso!».
24.7.05
Nego e t'arrenego!
Permissão para falar de mim! A revista «Única» do Expresso de ontem traz um artigo sobre o Hotel Palácio do Estoril, fixado nas historietas dos «importantes» que o frequentaram. Entre famosos do cinema e da literatura, cabeças coroadas destronadas e refugiados em fuga, lá vem a galeria dedicada aos espiões e outros «quinta-colunáveis», que por ali passaram ou terão supostamente passado. A autora da prosa seleccionou, para ilustrar o texto, uns quantos casos. Lendo o escrito, constato não sem surpresa que ela copiou na íntegra informações que eu trouxe há vários anos para o conhecimento português através de um livro que felizmente saíu já do mercado! Ou seja, fez o que já é normal nesta terra: omitiu a fonte, para não dizer mais feio. Só que Deus é grande! Se a jovem autora tivesse posto lá o meu nome, via-se que muitas das asneiras que lá vinham eram da minha lavra, fruto de uma investigação então ainda muito incipente. Assim, fica ela com a fama de ignorante. É caso para dizer: bem feito! Cá por mim, já sei: se me vierem pedir autorias, faço como o Jô Soares: nego, n-e-g-o, nego!
Cansado da estúrdia
Nasceu em Portimão e morreu na Argélia. Estudou no seminário e viveu intensamente uma vida de boémia. Escreveu obras literárias sedutoras. Foi Presidente da República durante dois anos, entre 1923 e 1925. Hoje já quase ninguém se lembra de si. Chamava-se Manuel Teixeira Gomes. Desaparecida a figura, a sua memória continua, com mais ou menos variantes. Um homem «cansado da estúrdia», assim o retrata o oficialíssimo «site» da Presidência da República. Conceito curioso. Muitos o sentimos e compartilhamos; é precisamente isso, cansados da estúrdia.
A nova censura
Somos de facto um país de velhacos! Por pura ideologia queimaram-se livros, por ordem ministerial, após o 25 de Abril e, afinal, havia muito responsável que «não sabia»! Mais, quando se falou na imprensa, anos a fio, na queima de livros, o ícone repetido à exaustão eram os autos de fé feitos na Alemanha nazi. E, no entanto, aqui tão perto, havia uma verdade próxima, mas escondida. Eis a liberdade de expressão e de informação neste país, onde ainda há esqueletos nos armários! Tudo isto só é possível por uma razão, a cumplicidade de quem sabe com quem esconde. É isto que dita a nossa história, o ser quase sempre «oficial», a hipocrisia e o jogo da conveniência a sua moral mesquinha. Ao «Cavaleiro de Oliveira» queimaram-no os da Inquisição «em efígie»! O queimado, vivo em Londres, teria comentado que nunca teria sentido tanto frio na vida. Ora isso mesmo senti eu ao ler «O Público» de hoje, onde o Adelino Gomes teve a coragem de, vencida a nova censura, contar, finalmente, a história da queima dos livros! Um frio de rachar! De rachar mesmo!
23.7.05
Muito menos e mais depressa
A frase veio a propósito. Encontrei-a num livro de um escritor que hoje passou ao esquecimento, Metzner Leone. Fala ele dos quadrúpudes como sendo animais mais espertos que os bípedes, pois se cansam menos. Só que, no caso, vinha eu a quatro rodas, esfalfando-me mais depressa!
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