Tem-se uma filosofia no recolhimento de uma mansarda, uma religião na solidão de uma igreja, uma sensibilidade no recanto de um bosque. Nada disso, enquanto se espera que o semáforo nos abra caminho ou à espera de vez no balcão do snack-bar. Comprendi hoje porque estou confuso dos sentimentos, seco de sensações, vazio de ideias. Tudo que aprendi com a Natureza esqueci-o nas cidades com que os homens a arrasaram. Hoje refugio-me no interior do jardim em frente e venho aqui para que se perceba, enfim, o esgotamento da espécie. É este o triunfo do mundo moderno. Plantados em filas ao longo dos passeios aplaudem os transeuntes as carretas funerárias dos que a civilização liquidou. Outros, afogados em alcool ou narcotizados em desolação, aguardam, pacientes, a sua vez.
11.8.05
10.8.05
A construção do tempo
Os antigos liam o futuro nas entranhas dos animais mortos. O hábito ficou como todas as ancestralidades. Nos blogs há o mesmo. Auguram-nos um radioso futuro, revolvendo-nos as vísceras da escrita. E desejam-nos uma longa vida, como se o voto fosse o vaticínio, como se a vida se construísse com a morte.
9.8.05
O circo do sol
A Sónia Delaunay, que por sinal se chamava Sarah, escreveu, quando em Vila do Conde pintava os seus quadros a que chamava simultâneos, que, na busca da luz, ia a caminho do sol. Aconteceu-me o mesmo, só que levei com uma carga de água no lombo!
8.8.05
O restauro da alma
À segunda-feira é a agonia de estar muita coisa fechada. Uma pessoa bem se abre em alternativas, mas o mundo parece encerrado. Depois, quer-se uma cerveja, termina-se numa Cola-Cola: o distribuidor, imagino eu, está fechado também, se calhar para férias. Resta-nos, aos poucos felizes, os que têm para nos dar a abertura da sua alma. Agora que recolhi ao local do meu ensimesmamento, uma só coisa me parece clara: extraordinária segunda-feira, magnífica circunstância. Eu sei que foi apenas uma aberta depois de vários dias sem sol. Mas uma aberta que me restaura, por dentro, a alma peregrina.
7.8.05
O perfume da escrita
Há quem tenha tanto para escrever que mal tenha tempo para ler. Aqui o problema é outro, é antes o ter tanto tempo para tanta coisa que não se tem tempo para nenhuma. Penso no que devia escrever quando leio, e no que deveria estar a ler, quando escrevo. Depois há o pior suplício, o ter de ler o que se escreve. Numa coisa a natureza dos odores ajuda: ao próprio não lhe chegam os maus cheiros das suas fezes. Daí que nem se dê por ela.
Pensando em 3D
O Almada Negreiros, esse geómetra do magnífico, escreveu no seu conto «K4, o quadrado azul» que «a perfeição só se define onde não há dimensões». Ei-la pois verdade inatingível neste nosso reino da quantidade, onde a aritmética e seus jogos de soma nula impera, a todos diminuindo o que a nenhum acrescenta. Hoje, refugiado da guerra do calor, estou trancado em casa; não porque tenha aqui ar condicionado, apenas por me sentir bem, ao estar aqui e de modo incondicionado.
Os fios de Ariana
A maquineta é nova e sem fios, a emoção é muita. Quando se telefona de um avião é parecido. A alegria é sempre infantil. Quando se envelhece e ainda se acredita que é possível, julga-se que não vale a pena. O que não é o caso, felizmente, hurra!
6.8.05
Filosofia da alcova
Sem pés frios e sem cerveja não haveria filosofia alemã, assim como sem o calor e o vinho tinto não teriam existido o Sócrates e o Platão, nem mesmo o Aristóteles. O que eu me pergunto, cruzando as variáveis daquelas duas asserções, é o que é surgirá neste dia de calor e da cerveja para o debelar. Ainda por cima, fria e aos litros. Para já, uma sonolência de morte e uma pesadíssima vontade de dormir, a cabeça em cima dos livros. Venha a cama, logo se verá, ao acordar!
A regra do funil
Sim, tal como ele, eu também preciso de uma regra que me controle a infinidade das possibilidades e me afunile num único sentido. Eu sei que tenho livros que não acabei de ler, alguns ficarão assim a meia-leitura, como bandeira enlutada. Mas estou disciplinado. Leio até às onze, estou a escrever dois livros, tenho um emprego como toda a gente. E tal como ele, sei que os milagres são estes imprevistos positivos. Ele é o Mário Cabral, que não conhecia e de que estou a ler O Acidente, até que sejam onze horas, afuniladamente.
5.8.05
Doce e de abóbora
Estava uma abóbora sentada, no sofá encalorada, em dia de canícula, como se em noite vinícola. Não fosse o telefone retinir, acabaria mesmo a dormir.
O nome da coisa
Calor peganhento. Um japonês na área de serviço pediu-me para lhe escrever num papel o nome de uma coisa que lhe parecia estranhamente apetecível. Escrevi: pastel de nata. Leu com um sorisso cremoso, como o de quem antecipa o comê-lo. Ri também, estaladiço. Agradeceu com muitas vénias de obligado senhor, obligado e gracias, senhor Portugal, obligado.
Entre o céu e o inferno
O veículo parecia uma aeronave. O sistema de reservas acessível on line. Claro que lá dentro havia dois passageiros para o lugar nove, o lugar dez fora vendido duas vezes. A confusão ameaçava instalar-se. Entre o você desculpe eu tenho o bilhete desde ontem, ao desculpe mas é você que eu daqui não saio, o tom subia de registo. Antes que alguém largasse aos berros, um bébé afogueado desalmava-se a chorar. Chegou entretanto o passageiro para o lugar treze que, azar, estava ocupado por um passageiro com o mesmo número. Uma compreensão fingida e velhaca ante o mas isto anda ou ficamos aqui o dia todo, lá surgia, forçada. O bébé calou-se. Deixe estar, vou aqui para o dezoito! Desculpe mas esse não, porque é de nós os dois. Ómessa! Desculpe mas é vocemecê, mais a pata que o pôs, raios os sumam grandes aldrabões! Chama-se a isto Vale Paraíso. Da próxima, apanho a carreira do Inferno.
Farturas
Quando se anda sem reserva há o risco de não haver lugar. Claro que há sempre a camioneta a seguir. Quando chega, já os outros estão fartos de chegar. Muitos, fartos no sentido literal do termo.
4.8.05
Patrão em terra
Uma laçada dada no seio chama-se, saiba-se lá porquê, azelha. No seio de um cabo, entenda-se. É bom saber destas coisas, mesmo quando o barco fica em terra. Nessas ocasiões, em que o calor convida, o pior ainda seria uma azelhice. Aí é que nem nó de burro nos salva.
Os dentes do sáurio
Chama-se Galopim de Carvalho e não se livra de ser conhecido como o homem dos dinossauros. Ao JL de ontem disse que está sempre de férias, porque nunca pára de trabalhar. Uma verdadeira espécie em vias de extinção, eis o que é. Como cantava o madeirense Max, se o trabalho dá saúde e faz crescer os dentes, rapazes viva o descanso, que trabalhem os doentes!
3.8.05
O escriturário de serviço
O personagem vinha da política de direita decidira-se a ser escritor, à esquerda. Estava por isso trancado em hotel com mar à vista a escrevinhar o seu livro, que a crítica «progressista» recebeu então com tolerante amabilidade. Eu acabara de estacionar o carro e vinha de saca às costas para um fim de semana, ainda a ruminar as últimas indigestões profissionais do dia. O porteiro, cumprimentador e obsequiador, achou que um tipo como eu tinha direito a compartilhar do segredo local: «o senhor professor está cá, com as suas escrituras!». Espantosa palavra para aqueles escritos, «escrituras». Como, com ironia e sumo de limão, disse uma vez um notável político que já se foi, dirigindo-se a outro que ainda por cá anda: «Ó F. você também tudo o que diz, cheira a papel selado!». Já agora: o homem teve sucesso, hoje é muito ministro, o «escriturário» claro, pois o outro continua porteiro e eu ruminante.
As asas do desejo
O Vergílio Ferreira disse numa entrevista que não gostava de viajar, gostava é de ter nascido em vários sítios. Como eu ubiquamente o compreendo esta tarde, em que não estou com quem desejaria estar.
Não se aceitam devoluções
«Asperamente sensível ao som de certas palavras. asperamente sensível a todas as estridências. asperamente sensivel às vibrações metálicas e às oscilações de tom, asperamente sensível à luz do sol à lua ardente do sol. asperamente sensível aos rumores do mundo». Eu sabia que havia um modo de o dizer e onde estava quem o disse. Encontrei-o, muito escondido na estante. É um daqueles livros pequenos que se somem na mutidão dos outros. Reli, aquela invulgar pontuação, aquele extraordinário modo de o dizer. Devia recortar a folha ou copiá-la para um papelinho. Trá-la-ia no bolso para mostrar a quem passasse ou afixava-a como os mendigos fazem à sua história lancinante. A cidade ficaria a saber. Não que estendesse a mão. Só para me compreenderem qualquer aspereza, devolvendo-ma.
2.8.05
À linha!
Estou sem rede! Através deste telefone, dedos hesitantes em teclado minúsculo, eis, qual mensagem numa garrafa: não vale a pena navegar quando, sem rede, nem se consegue pescar. Ao anoitecer, a continuarmos assim, decido-me: sigo à linha e ao candeio! Maldita Netcabo!
1.8.05
«Uma vontade indomável»
Como viajava de autocarro ele teve tempo para ler e reler. Claro que o livro era, na sua simplicidade, dos que se deixava ler. A autora, uma norueguesa que casou com um húngaro e que nos fins da vida viveu na Suécia e morreu em Portugal. A capa, lindíssima, criava uma ideia que o texto desmentia: «De Budapeste ao Estoril». Claro que do Estoril há na narrativa quase nada. Mas não importa. Mesmo que não tivesse lido tudo, ter lido a singelíssima abertura já lhe valeu a pena: «A vida é um perpétuo desafio. À medida que ficamos mais velhos, que o nosso tempo começa a responder com menos energia, devemos pensar em tirar o máximo partido do tempo que nos resta». Hoje, vinha ele da visita ao hospital, a pensar que bom teria sido continuar no autocarro, em perpétuo movimento. A propósito, a autora chama-se Edle Astrup Hubary Cebrian. O livro, em português, tirado pela Oficina do Livro chama-se «Uma vontade indomável». Há nele aquelas coisas simples e óbvias, mas que nunca se sabem, nesta vida de asneiras.
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