12.8.05

O criador fictício

Quantos escritores não desejam pedir aos seus leitores que os não leiam? Amigavelmente, como a sugerir-lhes que vivam a vida sem querer vivê-la através da literatura. Quantos literatura existe que não tem outra vida se não a daqueles que a vivem, lendo-a? Quanto virar de folha entristecido não há, quantas paixões sem índice, quantos amores sem segunda edição, biografias embargadas na tipografia? Vou escrevendo entretanto, autómato, sonâmbulo, criador fictício de sensações reais. Encerrei-me neste velho aramazém. A sua grandeza vazia é a demonstração da pequenez do que faço. Trago comigo uma resma de papel por dia, uma caneta e um mundo para fingir.

Les jeux sont faits!

Amanhã, quando for manhã, há gente que vai onde não quer, outros terão o que não esperam. É assim o mundo neste jogo absurdo. Sentado no tabuleiro verde, junto a mim o conforto residual das sobejantes fichas. Restam-me poucas. Este casaco cerimonioso, que me dá ainda da cintura para cima um ar de solenidade, ajuda a compor a figura. No mais, fico à mercê da sorte que brinca. «Quatro vermelho», perdi uma vez mais. Seja! Há que um homem empertigar-se num momento destes, em que se perde tantas vezes! Aí entra o casaco. É só saber como abotoá-lo e conseguir chegar à porta. A partir daí é mais fácil. Chora-se sem testemunhas.

11.8.05

Dai-lhes Senhor

O homem lia alto as legendas de um livro. Havia naquela voz o despropósito dos surdos que não se ouvem. Em frente a ele, o ridículo feito mulher, das roupas aquém da idade, aos gestos de um grotesco que envergonhava quem via. Ladeando-os, géneros vários daquelas muitas espécies que são a riqueza da nossa zoologia. Teimei em não ouvir, insisti em não ver, perseguido pela voz estridente, quase alcançado pela caricatura feminina. Eu tinha um livro para me proteger. Levo sempre um livro, como os que levam o de orações. Pai Nosso, supliquei. Ninguém me ouviu. Falava o homem agora da página 24, abanava ela então braceletes com pendurezas.

À espera de vez

Tem-se uma filosofia no recolhimento de uma mansarda, uma religião na solidão de uma igreja, uma sensibilidade no recanto de um bosque. Nada disso, enquanto se espera que o semáforo nos abra caminho ou à espera de vez no balcão do snack-bar. Comprendi hoje porque estou confuso dos sentimentos, seco de sensações, vazio de ideias. Tudo que aprendi com a Natureza esqueci-o nas cidades com que os homens a arrasaram. Hoje refugio-me no interior do jardim em frente e venho aqui para que se perceba, enfim, o esgotamento da espécie. É este o triunfo do mundo moderno. Plantados em filas ao longo dos passeios aplaudem os transeuntes as carretas funerárias dos que a civilização liquidou. Outros, afogados em alcool ou narcotizados em desolação, aguardam, pacientes, a sua vez.

10.8.05

A construção do tempo

Os antigos liam o futuro nas entranhas dos animais mortos. O hábito ficou como todas as ancestralidades. Nos blogs há o mesmo. Auguram-nos um radioso futuro, revolvendo-nos as vísceras da escrita. E desejam-nos uma longa vida, como se o voto fosse o vaticínio, como se a vida se construísse com a morte.

9.8.05

O circo do sol

A Sónia Delaunay, que por sinal se chamava Sarah, escreveu, quando em Vila do Conde pintava os seus quadros a que chamava simultâneos, que, na busca da luz, ia a caminho do sol. Aconteceu-me o mesmo, só que levei com uma carga de água no lombo!

8.8.05

O restauro da alma

À segunda-feira é a agonia de estar muita coisa fechada. Uma pessoa bem se abre em alternativas, mas o mundo parece encerrado. Depois, quer-se uma cerveja, termina-se numa Cola-Cola: o distribuidor, imagino eu, está fechado também, se calhar para férias. Resta-nos, aos poucos felizes, os que têm para nos dar a abertura da sua alma. Agora que recolhi ao local do meu ensimesmamento, uma só coisa me parece clara: extraordinária segunda-feira, magnífica circunstância. Eu sei que foi apenas uma aberta depois de vários dias sem sol. Mas uma aberta que me restaura, por dentro, a alma peregrina.

7.8.05

O perfume da escrita

Há quem tenha tanto para escrever que mal tenha tempo para ler. Aqui o problema é outro, é antes o ter tanto tempo para tanta coisa que não se tem tempo para nenhuma. Penso no que devia escrever quando leio, e no que deveria estar a ler, quando escrevo. Depois há o pior suplício, o ter de ler o que se escreve. Numa coisa a natureza dos odores ajuda: ao próprio não lhe chegam os maus cheiros das suas fezes. Daí que nem se dê por ela.

Pensando em 3D

O Almada Negreiros, esse geómetra do magnífico, escreveu no seu conto «K4, o quadrado azul» que «a perfeição só se define onde não há dimensões». Ei-la pois verdade inatingível neste nosso reino da quantidade, onde a aritmética e seus jogos de soma nula impera, a todos diminuindo o que a nenhum acrescenta. Hoje, refugiado da guerra do calor, estou trancado em casa; não porque tenha aqui ar condicionado, apenas por me sentir bem, ao estar aqui e de modo incondicionado.

Os fios de Ariana

A maquineta é nova e sem fios, a emoção é muita. Quando se telefona de um avião é parecido. A alegria é sempre infantil. Quando se envelhece e ainda se acredita que é possível, julga-se que não vale a pena. O que não é o caso, felizmente, hurra!

6.8.05

Filosofia da alcova

Sem pés frios e sem cerveja não haveria filosofia alemã, assim como sem o calor e o vinho tinto não teriam existido o Sócrates e o Platão, nem mesmo o Aristóteles. O que eu me pergunto, cruzando as variáveis daquelas duas asserções, é o que é surgirá neste dia de calor e da cerveja para o debelar. Ainda por cima, fria e aos litros. Para já, uma sonolência de morte e uma pesadíssima vontade de dormir, a cabeça em cima dos livros. Venha a cama, logo se verá, ao acordar!

A regra do funil

Sim, tal como ele, eu também preciso de uma regra que me controle a infinidade das possibilidades e me afunile num único sentido. Eu sei que tenho livros que não acabei de ler, alguns ficarão assim a meia-leitura, como bandeira enlutada. Mas estou disciplinado. Leio até às onze, estou a escrever dois livros, tenho um emprego como toda a gente. E tal como ele, sei que os milagres são estes imprevistos positivos. Ele é o Mário Cabral, que não conhecia e de que estou a ler O Acidente, até que sejam onze horas, afuniladamente.

5.8.05

Doce e de abóbora

Estava uma abóbora sentada, no sofá encalorada, em dia de canícula, como se em noite vinícola. Não fosse o telefone retinir, acabaria mesmo a dormir.

O nome da coisa

Calor peganhento. Um japonês na área de serviço pediu-me para lhe escrever num papel o nome de uma coisa que lhe parecia estranhamente apetecível. Escrevi: pastel de nata. Leu com um sorisso cremoso, como o de quem antecipa o comê-lo. Ri também, estaladiço. Agradeceu com muitas vénias de obligado senhor, obligado e gracias, senhor Portugal, obligado.

Entre o céu e o inferno

O veículo parecia uma aeronave. O sistema de reservas acessível on line. Claro que lá dentro havia dois passageiros para o lugar nove, o lugar dez fora vendido duas vezes. A confusão ameaçava instalar-se. Entre o você desculpe eu tenho o bilhete desde ontem, ao desculpe mas é você que eu daqui não saio, o tom subia de registo. Antes que alguém largasse aos berros, um bébé afogueado desalmava-se a chorar. Chegou entretanto o passageiro para o lugar treze que, azar, estava ocupado por um passageiro com o mesmo número. Uma compreensão fingida e velhaca ante o mas isto anda ou ficamos aqui o dia todo, lá surgia, forçada. O bébé calou-se. Deixe estar, vou aqui para o dezoito! Desculpe mas esse não, porque é de nós os dois. Ómessa! Desculpe mas é vocemecê, mais a pata que o pôs, raios os sumam grandes aldrabões! Chama-se a isto Vale Paraíso. Da próxima, apanho a carreira do Inferno.

Farturas

Quando se anda sem reserva há o risco de não haver lugar. Claro que há sempre a camioneta a seguir. Quando chega, já os outros estão fartos de chegar. Muitos, fartos no sentido literal do termo.

4.8.05

Patrão em terra

Uma laçada dada no seio chama-se, saiba-se lá porquê, azelha. No seio de um cabo, entenda-se. É bom saber destas coisas, mesmo quando o barco fica em terra. Nessas ocasiões, em que o calor convida, o pior ainda seria uma azelhice. Aí é que nem nó de burro nos salva.

Os dentes do sáurio

Chama-se Galopim de Carvalho e não se livra de ser conhecido como o homem dos dinossauros. Ao JL de ontem disse que está sempre de férias, porque nunca pára de trabalhar. Uma verdadeira espécie em vias de extinção, eis o que é. Como cantava o madeirense Max, se o trabalho dá saúde e faz crescer os dentes, rapazes viva o descanso, que trabalhem os doentes!

3.8.05

O escriturário de serviço

O personagem vinha da política de direita decidira-se a ser escritor, à esquerda. Estava por isso trancado em hotel com mar à vista a escrevinhar o seu livro, que a crítica «progressista» recebeu então com tolerante amabilidade. Eu acabara de estacionar o carro e vinha de saca às costas para um fim de semana, ainda a ruminar as últimas indigestões profissionais do dia. O porteiro, cumprimentador e obsequiador, achou que um tipo como eu tinha direito a compartilhar do segredo local: «o senhor professor está cá, com as suas escrituras!». Espantosa palavra para aqueles escritos, «escrituras». Como, com ironia e sumo de limão, disse uma vez um notável político que já se foi, dirigindo-se a outro que ainda por cá anda: «Ó F. você também tudo o que diz, cheira a papel selado!». Já agora: o homem teve sucesso, hoje é muito ministro, o «escriturário» claro, pois o outro continua porteiro e eu ruminante.

As asas do desejo

O Vergílio Ferreira disse numa entrevista que não gostava de viajar, gostava é de ter nascido em vários sítios. Como eu ubiquamente o compreendo esta tarde, em que não estou com quem desejaria estar.