23.8.05
22.8.05
A caça grossa
Já se falou que chegue nas férias do sujeito e terem sido no Quénia. Mas uma coisa ninguém disse. É que ainda era só putativo candidato ao lugar que ocupa e já o homem em entrevista ao «Expresso» se definiu como um «animal feroz». Ora, por ser assim, a ir ao Quénia, uma criatura destas não poderia ir à caça, quando muito para ser caçado. Isto porque para ir ver os bichos na reserva, vê-nos a nós, a fugir da queimada!
Modos de ler
Eu confesso que não consigo ler o livro do Mário Cláudio sobre o Amadeu Sousa Cardoso [ou Amadeo Souza-Cardoso, já nem sei]. O livro tem o aliciante de ser pequeno, mas é como aqueles caminhos curtos mas pedregosos. Doem-me os pés. Vou tentar lê-lo de outro modo, talvez com as mãos.
21.8.05
Semana aziaga
Ao domingo eu vejo sempre o meu horóscopo no jornal. Não que me guie pelo que lá se diz. É só para ficar com a sensação de que a partir de segunda-feira a vida não é como eu gostava que fosse, mas sim como está predestinado que seja. Depois, vem o começo da semana e esqueço as previsões e luto como um danado para impor a minha regra. Domingo seguinte, volto ao mesmo e compro o jornal. É um divertimento inocente: eu a fazer como se fosse livre, o horóscopo a ser como se fosse fatal. Esta semana, porém, o meu universo resvalou. Não só o horóscopo não trazia o Carneiro como repetia duas vezes o Leão. Fiquei sem saber como vai ser e a desconfiar que isto, afinal, é na base do tanto faz. Temo o pior: a ser a vida sem predestinação e só em função do que eu quero, temos desastre pela certa.
O número que é um logro
«Senhor José», o problema é o seu computador que tem um «spyware». «Senhor José, qual o seu tipo de acesso?». «Senhor José, vá ao iniciar e carregue em executar». «Senhor José, vamos ligar o computador directamente ao modem». «Senhor José o senhor não tem um cabo USB?» «Senhor José quando é que disse que lhe surgiu o problema?». «Mas senhor José se o senhor diz que toda a gente tem internet menos o senhor, pode ser algum problema na partição da rede. Aguarde um momento...». «Senhor José, obrigado por ter aguardado. Importa-se de verificar qual a luz do modem que está a piscar?». «Está lá? Senhor José? Está?». Click! Desculpem, a «net» voltou. Não sei como, nem porquê. Voltou, pura e simplesmente!.«Obrigado, senhor José. Posso ser-lhe útil em mais alguma coisa?». «Uma bifana e uma imperial?? Senhor José, o senhor deve ter-se enganado no número...».
19.8.05
A mesa oito
Cheguei esfaimado. Restaurante cheio, a esta hora, hoje é quinta, vem tudo da praia, tenha paciência mas olhe ó faz favor talvez esta mesa. Plantei-me em frente. Eram quatro: marido lingrinhas, senhora anafadota, filha espigadota, menino indigesto, com ar de acampados. Alapados à mesa, não descolavam. Só que era a única mesa, a minha mesa prometida. Sorri, num incentivo ao ala! Faltavam, porém, a amendoa amarga, a tizana quentinha, o para mim nada e o corneto de morango, por esta ordem. Vieram, depois de um século. Voltei a sorrir, agora vagamente implorante. Será a minha mesinha, desculpem, mas não há pressa, estejam à vontade. Bebericada, sorvida, arrependida, lambido, tudo também assim. Tudo muito lentamente, com todos os vagares. Fiz um esgar, a dentuça a ranger. Três e meia da tarde. Mas faltava ainda o cigarro, o chichi, o telefonar, o quero mais outro geladinho. Que bem que se está aqui! Foi aí que a coisa se deu! Uma vertigem, um instinto primitivo, picos eriçam-se na pele, sobem os sangues à moleirinha! Sorri! Estejam à vontade! Por amor de Deus... Não há pressa! Afinal estamos em férias!
18.8.05
O lugar incógnito
O irrequietismo, a ânsia permanente, a intranquilidade fazedora, a vertigem da viagem, as saudades prematuras do lugar incógnito, é esse «o combate com o demónio», o génio a expandir-se no espírito medíocre onde a fatalidade o colocou. Enganam-se os que supõem que há seres excepcionais dentro de seres excepcionais, como bebidas de eleição em garrafas de cristal. A tragédia da nossa condição é precisamente essa, a de umas pernas musculosas num ser paralítico, uma imaginação incomum numa mente instável. Há em tudo isso um cansaço que adormece, um desespero que impede de dormir.
17.8.05
Felizmente há fusíveis
Há nos automóveis um sistema que carrega e outro que acumula. Naqueles chamam-se, respectivamente, o dínamo e a bateria. Como a corrente é alterna, ao dínamo chama-se também alternador. Nos humanos é igual, com uma única diferença: a corrente é contínua. Dei, por isso hoje, ao verificar, que ou a minha bateria morreu ou o dínamo carregou de mais: faço curto-circuito.
16.8.05
O homem do interior
Sinto-lhe, saudoso, à distância o odor, invejoso, aqui, os que a povoaram, esperançado, enfim, a ideia de que amanhã será a minha vez. É a praia, pois que, ainda que escondido sob um chapeirão enfiado até à orelhas, a pele citadina a destoar, ao menos em ideia, sei que bom seria andar por lá. Na ânsia de viajar, até podia aprender a nadar, na de sobreviver, pelo menos a boiar.
15.8.05
O medo da molha
O homem não esquece que é um animal nem ignora que é parte da Natureza. Mas quando vai à praia nota-se a diferença. Não por estar ali, com os peixes seus irmãos mais adiante na água e alguns raros cães, seus semelhantes, a correrem na areia a trás de bolas. Não é o sol que marca a diferença; ela nasce quando começa a chover. Venha ela, refrescante, vivificadora, purgativa, saneadora mesmo! Olha-se em redor: chapinha nas poças toda a zoologia, escorre e goteja água, como dela se risse tudo quanto é botânica. Só o homem, encolhido, medroso, embrulhado dentro de numa gabardina, abrigado por baixo de um guarda-chuva, parece recusar-se! E logo hoje que, vindo da praia, tenho de ir jantar fora. Com as nuvens escuras que estão, se larga a chover, ainda me constipo!
14.8.05
Rebajas!
Vinha a subir as escadas do parqueamento quando os vi: eram pequenos quadrados de papel, cortados imperfeitamente, com aparência de terem sido reproduzidos ao fotocopiador. Hesitante, por causa da aparência pública, para não ser surpreendido a andar aos papéis, arrisquei com a certeza de não haver testemunhas do gesto. Apanhei um, o que me permitiu agora copiá-lo para aqui. Intitulava-se «Amante Perfeito» e rezava assim: «desenrascado cuida da casa e cozinha repara também qualquer avaria e conduz. Bonito e muito boa companhia». A seguir vinha o telemóvel. É a segunda vez que o leio. Ao que isto chegou!. Uma coisa destas, tem que se anunciar na via pública! Só pode ser porque ninguém lhe pega. Parece impossível! Os homens andam mesmo a preço de saldo...
De gancho na mão
A blogoesfera é para os depenados aquilo que os caixotes eram para a cãozoada vagabunda e desesperada. Claro que há quem alce a perna. Mas a maioria anda em busca dos despojos do dia e disso se alimenta. É vê-los pela noite à procura. Há por ali verdadeiras preciosidades, sobretudo papelão para aquecer a alma em dias de solidão.
13.8.05
O sonho
Maravilhoso sentimento este, o da impunidade do dormir. É o sono dos justos, que nenhuma consciência acusa, nenhuma obrigação atrapalha. De todas as funções humanas, é esta precisamente a que lhe dá a certificação do estar-se bem. Claro que, ao mesmo tempo, é uma das que não o distinguem ao homem do animal. No final, bate tudo certo. Restituído ao seu primitivismo atávico, amputado de aflicções, o homem dorme. Por vezes sonha. E como diria o Pessoa, naquele livro que eu ando a ler, um bom sonhador não acorda.
A helicoidal eterna
Sonho estranho o de quem sonha que, subindo pelo avesso de si, há uma escada caracoleante, qual parafuso sem fim, pela qual a alma ascende sem nunca conseguir subir. Acorda-se, enfim, em agonia, desperto pelo entendimento de que não é escada que pára, mas o corpo que a envolve quem, morto primeiro e apodrecido depois, a descarna e desguarnece, privando-a enfim da substância paterna que a alimenta, do invólucro materno que a protege.
12.8.05
«O saber é a inconsciência de ignorar»
Como nunca me intimido com o que ainda não li, lá trouxe mais uma abada de livros. Entre eles um caderno saído do interminável espólio do Fernando Pessoa, a que a Teresa Rita Lopes, sua compiladora chamou de «A Hora do Diabo». São escritos vários, de momentos distintos, em torno do que poderia ser um conto sobre o Maligno, o «senhor absoluto do interstício e do intermédio, do que na vida não é vida». Como o livro era pequeno comecei a lê-lo, por cima dos outros desprezados, que se acumulam, pacientes, à minha espera. E eis-me ante esse deus triste, que é ele próprio o desejo, mas que só por interposto gesto acaricia. Fiquei-me por aqui, pensativo. Acho que não acabo hoje a leitura. Talvez por interposta pessoa o conseguisse.
Verde de esperança
«Estar esfomeado é uma coisa, mas comer nos intervalos das refeições é outra». Assim geria a sua vida sexual a jovem norueguesa em Paris, ante a ideia disseminada em torno de si de que integraria o exército das nórdicas saudáveis ávidas de prazer. Lembrei-me disto hoje duas vezes. Uma pela hora do lanche. Disciplinado, refreei-me à espera do jantar. Terminei num vegetariano, a comer com pauzinhos.
As horas mortas
A noite progride e com ela as horas mortas. Todos os dias há que acordar cedo para que não se perca o que há para viver. Todas as madrugadas há que deitar tarde, para que se viva a vida que nos foge. O cansaço, corroendo-nos a resistência e minando-nos a disposição, cumpre então desígnio. Aos que resistem ao sono e à fadiga, resta-lhes, enfim, a implosão. Não tem de ser voluntária. Basta esperarem que o tempo os liberte.
O criador fictício
Quantos escritores não desejam pedir aos seus leitores que os não leiam? Amigavelmente, como a sugerir-lhes que vivam a vida sem querer vivê-la através da literatura. Quantos literatura existe que não tem outra vida se não a daqueles que a vivem, lendo-a? Quanto virar de folha entristecido não há, quantas paixões sem índice, quantos amores sem segunda edição, biografias embargadas na tipografia? Vou escrevendo entretanto, autómato, sonâmbulo, criador fictício de sensações reais. Encerrei-me neste velho aramazém. A sua grandeza vazia é a demonstração da pequenez do que faço. Trago comigo uma resma de papel por dia, uma caneta e um mundo para fingir.
Les jeux sont faits!
Amanhã, quando for manhã, há gente que vai onde não quer, outros terão o que não esperam. É assim o mundo neste jogo absurdo. Sentado no tabuleiro verde, junto a mim o conforto residual das sobejantes fichas. Restam-me poucas. Este casaco cerimonioso, que me dá ainda da cintura para cima um ar de solenidade, ajuda a compor a figura. No mais, fico à mercê da sorte que brinca. «Quatro vermelho», perdi uma vez mais. Seja! Há que um homem empertigar-se num momento destes, em que se perde tantas vezes! Aí entra o casaco. É só saber como abotoá-lo e conseguir chegar à porta. A partir daí é mais fácil. Chora-se sem testemunhas.
11.8.05
Dai-lhes Senhor
O homem lia alto as legendas de um livro. Havia naquela voz o despropósito dos surdos que não se ouvem. Em frente a ele, o ridículo feito mulher, das roupas aquém da idade, aos gestos de um grotesco que envergonhava quem via. Ladeando-os, géneros vários daquelas muitas espécies que são a riqueza da nossa zoologia. Teimei em não ouvir, insisti em não ver, perseguido pela voz estridente, quase alcançado pela caricatura feminina. Eu tinha um livro para me proteger. Levo sempre um livro, como os que levam o de orações. Pai Nosso, supliquei. Ninguém me ouviu. Falava o homem agora da página 24, abanava ela então braceletes com pendurezas.
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