10.9.05

O comboio das duas

Eu confesso que às vezes se cria nestas coisas da blogoesfera o complexo da Cinderela. Na ânsia de vir aqui todos os dias, a meia-noite passou a ser o limite além do qual se atinje o impossível. Estou como o empregado da noite que corria esganado para o comboio das duas da madrugada, ante o horror de esgotar num táxi o que não almoçara. Hoje não consegui. Aqui estou, por isso, descalço e esfaimado!

8.9.05

O belo e o bom

Todos os dias a luta pertinaz pelas obrigações e a ânsia de assomar a uma janela em busca de ar. Não a esta janela propriamente, cúmulo de reminiscências sublimadas, mas a uma qualquer escotilha de onde se divise o marulhar do oceano. Já dormi pela noite numa camarata empilhada de um navio em sobressalto. Atulhados na terceira classe nós e uma mescla de cheiros pestilentos, a suores ácidos e refogados avinhados. Eu era o mais novo. Tinha dezassete anos e viajava assim. Ainda hoje, sem esforço, lembro-me dos ruídos nocturnos, dejectos, defecantes, enojados de tanto vomitar. O mundo nem sempre é belo, a vida nem sempre foi boa. Quando chove e a natureza estrepitosa lava o que existe, renovo-me por dentro, pertinaz sempre, ansioso por amanhã.

7.9.05

Papel em branco

Nos tempos em que eu ainda andava nas primeiras letras havia uns cadernos com duas linhas, dentro das quais nós, crianças desprevenidas, destinadas à ordem e treinadas para a arrumação, tentávamos encaixar a nossa hesitante caligrafia e através dela as palavras que pouco tinham para dizer. Depois, com a juventude, veio a tristeza em papel branco, as palavras em verso e a caligrafia descuidada. Muitos passaram-se no estado adulto para o papel quadriculado, o do mundo das contas dentro do universo dos números. Alguns outros tiveram a sorte do papel impresso, e são escrevinhadores ácidos a corpo onze e a cinco colunas, poucos de todos exprimem-se desbragadamente em livro. Tivessemos consciência de nós e escreveríamos a papel vegetal, copiando o que os outros escreveram. Não damos conta, mas somos a geração que não tem nada já para dizer!

Cor de burro e quando foge

A língua portuguesa tem fraseologias inesperadas. Imaginar-se que se pode dizer amuar através da frase «amarrar a burra», não é para todos: muito menos para os burros que amuam! Agora o mais interessante é que o desamuar diz-se, na mesma forma elíptica, «desmontar da burra». O que é altamente equívoco e altaneiro, sobretudo para quem fica apeado.

6.9.05

Saudades da badana

Tentei ler o Jorge Listopad, por duas razões. Primeiro, porque nunca tinha lido nada dele. Segundo, porque eram pequenos contos, quadros e cenas, daqueles que se lê um [conto] e se vai jantar, vai outra [cena] antes de dormir. Claro que vi na badana do livro que ele é da Academia das Ciências e também da Academia de Belas Artes e também ainda catedrático jubilado. Bom! Mesmo assim, tentei ler o Listopad, mas não fui capaz. Já sei! Adio o projecto! Talvez para este fim de semana: um [quadro] ao pequeno-almoço, para começar, guardo a cena para a merenda. O segundo volume tem um prefácio escrito em Vilamoura! Ora aí está o porquê!

5.9.05

O livro das horas

Com a passagem das horas e o sumir-se do sol, a estante primeiro, logo a réstea de parede, enfim o umbral da janela vão perdendo progressivamente a luminosidade que lhes dá a aparência de vida, o encanto da cor. Uma penumbra acastanhada que o anoitecer degrada em cinzento assenhoreia-se de tudo. Mal consigo divisar dos livros as lombadas, não consigo nelas perceber do que tratam. Na rua os poucos passeantes parecem vultos. E no entanto, em alguns desses livros estão viagens minhas pelo imaginário da surpresa, muitas dessas silhuetas proporcionar-me-iam o encanto da descoberta. Falta-me luz. Talvez a ideia do amanhã me reconforte. Para onde não chegar esta esperança, resta-me a luz eléctrica.

4.9.05

Fogo!

O painel era imenso, posto numa monótona auto-estrada, despida de árvores, tão seca que não havia nada para arder. Mas estava lá. O essencial dele era uma fotografia de uma mata ardida, tudo em tons desolados de cinza, com troncos carbonizados em evidência, para ilustrar o desastre de um incêndio. A legenda é que era de um ridículo total. Dizia, em tom melífluo, que uma beata jogada pela janela, «pode prejudicar a floresta». Assim mesmo «prejudicar», neste estilo, quase diria hesitante, timorato, como se falando timidamente de uma insignificância, diria a pedir desculpa de lembrar. Um aviso num canteiro a pedir para não pisar a relva era capaz de ser mais afirmativo. Com cartazes destes estamos todos incinerados!

3.9.05

Há quem se ria na ria

O dia atazanava de calor. A fome apertava. Ao longo do passseio, ciganas vendiam roupas baratas, uns negros, óculos de sol, tudo produtos com marca igual às marcas. Zaranguitando a caminho do restaurante possível, conversa tartamuda, a fome a ensarilhar as ideias, dei com ele. Comia uma sopa de cenouras de uma malga em plástico. Vendia um livro, o seu livro de versos, poemas, os seus poemas avulsos. Olhou-me do interior profundo de si, uns olhos encovados num rosto envelhecido à força das barbas brancas. Prometi-me que no regresso lhe compraria qualquer coisa. Falhei deliberadamente, por pudor. Agora recordo o seu anúncio, num papelito sem graça: tire um poema e deixe uma moeda. Podia ser o lema deste blog, menos o jardim. Adoro sopa de cenouras.

2.9.05

A transmigração das almas

Depois de ter escrito há momentos sobre o Luiz Pacheco, lembrei-me do que há uns poucos anos escrevi no «Jornal de Negócios», numa crónicas a que chamava «O Baile de Máscaras». Aí lembrei que o homem que para si recusa o epíteto de «escritor maldito» havia editado em 1970 os seus «Textos de Guerrilha». Num desses textos iconoclastas Pacheco lembrava a lista dos ilustres artistas convidados pelo Presidente da República para um jantar no Palácio de Belém. Só que com um pormenor provocatório: o Venerando anfitrião era o almirante Américo Tomás, que o 25 de Abril apeou de Presidente; o convidado o cineasta Manuel de Oliveira [mais tarde crismado como Manoel de Oliveira] o mesmo que, provocatoriamente também, em “Non ou a vã glória de mandar”, ligaria o 25 de Abril a Alcácer Quibir. Tudo com um final fantástico: no filme «Conversa Acabada» o realizador João Botelho mascara o Pacheco como Fernando Pessoa «moribundo e logo esticado, com o Manoel de Oliveira, padreca, a rezar-lhe o responso, num latim esgosmado». É mesmo caso para dizer, alma encomendada, alma ressuscitada.

Individualismo colectivista

O Luiz Pacheco, na entrevista que deu ao Rodrigues da Silva, para o último número do JL, diz que não vê televisão para não se sentir mais isolado. O mesmo sentem, por paradoxal que pareça, os que vivem em apartamentos equipados com antena colectiva.

1.9.05

O remanescente

E, no entanto, a ideia de que toda aquela literatura pudesse ser auto-biográfica, como se descrevesse, afinal, incessantemente, sob várias formas, a mesma vida e remoesse as mesmas obsessões, perseguia-o. Talvez, por isso, a incapacidade de escrever, como se não houvesse um qualquer futuro para viver e já não houvesse modo de contar, uma vez mais, o mesmo passado. Hoje, remanescente naquele local de veraneio, o vento por companhia, tinha diante de si, povoando-o, a angústia do papel em branco: a amnésia do mundo de ontem era a sua doença. Todos os anúncios de jornal pareciam dizer-lhe respeito.

A época baixa

Terminara, enfim, a época balnear e parecia que só ele ficara. Lá dentro, atarefadas criadas arrumavam camas agora inúteis, toalhas para a próxima estação. No pátio, o velho porteiro, lavava, silencioso, o chão à mangueira. Uma brisa fria, sentidamente marítima, salgada, áspera, agitava as copas das palmeiras na esplanada vazia. Sozinho, confundia o quarto com a casa, um momento com uma vida. Descobriu o que é ser hóspede, a meia-pensão. Hoje restava-lhe aquele livro, não o que lia, mas o que não conseguia escrever.

31.8.05

A época de recurso

Trancado na casa de praia, um estudante prepara a época de Setembro. Pela frente, milhões de folhas por estudar. Ansioso, faz resumos. Hoje é dia de jantar fora. Depois, mais uma madrugada, a rádio como companhia próxima, a cidade como memória distante. Trancado, um estudante envelhece.

O sol

Ontem não vim aqui. Isso não tem importância alguma. Só a mim me incomodou. Num blog que se chama janela, admitamos que ela estava empenada. O sol faz destas coisas. Tal como no Mersault do Camus, foi o sol, só o sol.

29.8.05

Explicando melhor

A janela do ocaso daria, no imaginário de quem lê, esplendorosamente sobre o mar. Dela se veria o instante mágico do raio verde, o segundo único em que se some a luz diurna e a noite chega, morna e equívoca. Só que o sol também se põe por detrás de duras serranias, entre azuis brumosos e verdes espessos, visto de frestas enfarruscadas de fuligem, chaminés improvisadas de fumeiros vespertinos, prenunciando o caldo e a deita. E igualmente há o anoitecer na charneca da planície, ainda mal dispersas as vagas ondulantes das tardes de calor, o dia de amanhã monótono como o de hoje e como ele sem história futura. A verdade é que tudo ocorre nesta nesga de cidade. Mísera janela, insignificante mansarda, um terceiro esquerdo que às quatro da tarde perdeu a luz, e pela noite se afunda em escuridão. A janela do ocaso são as tabuínhas cerradas de uma vida a encurtar-se, vivida sofregamente nesta escrita a entristecer-se.

28.8.05

A chave sextavada

O Mickey Mouse tem seis dedos, o que é a unidade de medida do sistema hexadecimal. Tudo se mede na escala de seis, como na cronologia: sessenta minutos, sessenta segundos, trezentos e sessenta minutos. Rafael pintou em pelo menos três dos seus quadros as figuras de São José, do Papa Sisto IV e de São João Baptista com igual polidactilia. A superstição leva a pensar que um tal número de dedos equivale a um sexto sentido. Uma coisa é certa, criaturas destas só contam as coisas às dúzias e não é por cupidez, é porque são assim de nascença.

27.8.05

O jardim das delícias

Passeava madame sua nervosa cadelinha, em aprazível jardim nocturno, não sem que de súbito surgisse, vindo das sombras sinistras de um arbusto, ávido canzarrão. Atiçados pelo instinto, dir-se-ia, no que isso é possível em cão, caíram nos braços um do outro. Cena a princípio ternurenta, o frenezim rápido deu em equívoco, num instante em embaraço. Num volteio de snifadelas mútuas, dir-se-ia que, indiferentes ao mundo, ali mesmo se enroscariam em amplexo obsceno. Munida do único meio pelo qual garantiria a moral canídea e protegeria a decência humana, madame, ruborizada retesava a trela, aos sacões. Num espamo final de fúria mal contida, cadelinha e cão ensarilhados na correia, arrastados enfim jardim fora, entre risos trocistas dos passeantes e a cólera disciplinadora da senhora. Amanhã, estou certo, passeará madame, inocente gato, arisco miau.

26.8.05

A mãe

Era um pequeno café, de balcão minúsculo, daqueles de bica cheia e sandes de queijo com pouca manteiga. A menina que ali servia esboçava um sorisso que as olheiras fundas demonstravam esforçado. Uma luz violácea, nocturna, iluminou-lhe por momentos um rosto miúdo e exausto. Sentada a um canto, uma criança ensonada fazia brinquedos de latas vazias: «Mãe, vamos para casa ou a nossa casa é aqui?». Senti vergonha de pedir o meu café, como se assim perpetuasse aquela desumana escravidão. Na esplanada, sonoras gargalhadas de boa disposição, enchiam a noite.

25.8.05

O às vezes do dia

Nem sempre há que dizer, ou para escrever. Nem sempre há que ouvir. Muitas vezes há que fingir. Mas o que há sempre, na realidade surda, muda e analfabeta da vida, é o dia de amanhã.

24.8.05

Uma ensaboadela urgente

Segundo reza a folha oficial, o Decreto-Lei n.º 142/2005 veio estabelecer o regime jurídico dos produtos cosméticos e de higiene corporal, transpondo as Directivas nºs 2003/15/CE, 2003/80/CE, 2003/83/CE, 2004/87/CE, 2004/88/CE, 2003/15/CE, 2004/94/CE e 2005/9/CE, que alteraram a Directiva nº 76/768/CEE, do Conselho, de 27 de Julho, relativa à aproximação das legislações dos Estados membros respeitantes aos produtos cosméticos. Oportuna legislação, num momento em que tudo isto já cheira mal! Uma só coisa me aflige, e ainda não li a nóvel legislação. É que se essa Europa jurídica, que tanto tem estrangeirado a nossa pátria e desconsiderado a nossa identidade nacional, se terá lembrado de legislar sobre o sabão macaco! O nosso!