Nietzshe, com a agudeza dos míopes, previu que o casamento se tornaria numa colecção errática de indivíduos, orientados à prossecução de fins egoístas. Toda a vida viveu celibatário, destinando egoisticamente um livro excepcional à grande família da humanidade.
5.10.05
4.10.05
O fado da História
A frase pertence ao José Cardoso Pires, num livro que eu penso que já citei aqui uma vez, por causa de um outro dos seus textos: «lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa». Sem querer ser injusto, penso que isso que está na frase era dantes, não porque não formiguem hoje portugueses, mas porque, quanto ao carrego da História, anda tudo mais leve e mais solto. Estamos como aqueles países que nasceram ontem: saltitantes de presente, indiferentes ao futuro, vazios de passado. A nossa única diferença é essa tristeza a que chamamos fado.
3.10.05
Os limites do sentir
Continuo a ler a «Conta Corrente». Há quem não perdoe ao Vergílio Ferreira o tê-la escrito, por isso que nela se patenteiam as suas obsessões nem sempre exaltantes. Há quem não o suporte vê-lo assim, em trajes menores e sem pose, neste diário incerto do homem-escritor. Por causa de a ter escrito, não poucos inimigos arranjou. E, no entanto, por tudo quanto no livro não vale a pena, há momentos de genialidade única, em que numa só frase se resume mais do que um compêndio de filosofia, todo um modo de pensar a vida, sentindo-a. Digo-o esta noite, ao ter lido a frase «é-se por dentro, por fora está-se». Após ela, recuso-me a ler mais o quer que seja; não me perdoaria, se o fizesse.
2.10.05
O salto
Se aquela figura literária do Eça de Queirós, que não era completamente viúva, encontrasse alguns dos seus leitores, que nunca são completamente casados, não haveria gente totalmente tristonha.
1.10.05
Marcha fúnebre
No Mil Folhas de hoje, que eu, como num ritual, leio com o jardim aqui em frente diante dos olhos, vêem excertos de uma conferência inédita do Luís de Freitas Branco, porque se lembraram que há cinquenta anos ele morreu. E nessa conferência fala o conferencista da interpretação cadavérica de toda a música considerada séria e elevada. Pois é precisamente assim que muita gente interpreta a vida que vive: descompassados, atonais, afinando o tom pelo coro, cadavericamente, em suma.
30.9.05
O intervalo
Os dias em que não se escreve, não são dias em que não se pensa, são apenas dias em que não se vive. A vida é isto, o intervalo entre capítulos. Chegando ao fim, percebe-se pelo índice como foi, até lá, é melhor nem saber.
29.9.05
Um corpo inteiro, uma alma partida
Não, não é preciso um homem desdobrar-se em vários, para alimentar vários personagens. Não, não é preciso socorrer-se da heteronímia para se ser mais do que um. Basta ser-se inteiro. Está reunida a primeira condição. A partir daí é só preciso um homem ir-se partindo, aos bocadinhos.
28.9.05
Vida de cão
Um meu amigo, inteligente e risonho, qualidades que raramente se conjugam, contou que o fogoso Camilo tinha, na ânsia de um emprego, oferecido ao carrancudo Herculano, um cão, para que este, animado pela gentileza, lhe arranjasse um qualquer ganha-pão suficiente. E contou mais que, como o emprego não vinha, pois que dependente de políticos, que caíam no Parlamento como tordos na canícula, o escritor de São Miguel de Seide não esteve para mais: veio ressabiado a Lisboa, e passando em frente da casa do historiador, aí vai de assobio, e num ápice tinha o cão de volta. Tudo isto tem um sabor a passado; hoje, nem os cães conhecem o dono, nem os empregos se arranjam à força de cão. O que ainda resta é o assobiar, nem que seja para o ar.
26.9.05
A esquina da vida
Para os que vieram hoje a esta esquina ver se me encontravam, saibam só que eu passei por aqui. Nada mais tem importância. Amanhã talvez volte, mesmo sem motivo, cão a passear ou jantar a digerir.
25.9.05
A morte anunciada nos céus
Li que o rouxinol dos caniços, migrante, voa três mil e quinhentas milhas de Portugal para a Mauritânia e Guiné-Bissau, sobrevivendo ao deserto do Sahara. E li que este ano, ante a seca do Verão em Portugal, estão ameaçados de morte, aos milhares, no Outono. Vêem-se na Ria Formosa, ignorando a morte anunciada.
24.9.05
O muro
A frase ali estava, visível na parede branca: não existe inveja no reino da esperança. Na rua, cozido com a parede, como se nem o muro existisse, um homem arquejava com uma guitarra. Numa das mãos o peso da sua caixa, no coração o seu som sem esperança.
Embuchado
Nas escopetas de carregar pela boca havia a bucha sem coice. A arma não tinha ressalto, o ponto de mira era fiel. Apertava-se tudo com uma vareta. Premido o gatilho, saltavam os miolos. Os amigos lamentavam e a vida seguia. Lembrei-me disto em Silves, num museu vivo de uma fábrica morta.
22.9.05
O cobrador de fraque
Assolado agora pela irada multidão e recalcitrante, a dos credores do tempo, ansiosos reclamantes do capital do afecto e dos juros de uma atenção, trancado em casa, entre a vergonha do débito e a impossibilidade de o cumprir, há um homem que revê os compromissos que assumiu, as promissórias que assinou, as expectativas que foi criando. Mais atrevidos os que clamam pelos deveres em atraso, os da profissão e os sociais, estão perto de lhe franquear a porta, arrombando-lha, expondo-lhe a vergonha. Outros, entre o condescendente e o resignado, aguardam, sem esperança, a sua vez, sentados no patamar da última ocasião. Para todos esses, os que como ele chegam à impossibilidade de solver, inventou-se a ideia da falência. É um opróbio segurante, mas é a moratória forçada de tudo o que se deve. Nem uma doença que o fulminasse o salvaria do que deve: ficaria a má fama, o fantasma do cobrador de fraque a persegui-lo ao fim dos tempos, estivesse nos altos céus, ou devolvido aos baixios de um outro inferno.
21.9.05
O homem abreviado
Há vidas assim, rudes e esgotantes. Felizmente são breves, no mal que fazem e no bem que sabem.
19.9.05
Satisfaz duas vezes
A cultura de parede é aquilo que os nómadas letrados partilham com os cães analfabetos: ambos aliviam ali as suas aflições. Numa delas vi há anos escrito o «tudo tem um fim, excepto a salsicha que tem dois». Só um desesperado em estado terminal escreve uma coisas destas: não é só o desejo de acabar; é o desejo de acabar duas vezes!
18.9.05
Numa só penada
E se eu escrevesse sobre a janela do abismo e a geometeria do ocaso? Na primeira sobre os suicidas da vida, os que vêem o mundo do alto e têm ânsias de profundidade? Na segunda sobre a contigência do espaço que acaba e a probabilidade do tempo que se vai, os que vivem a vida por baixo, soterrados de deveres. Tinha nisso pelo menos uma grande vantagem. Numa só penada arrumava dois blogs e numa só noite!
A Revolta das Palavras
Já houve quem, com amabilidade, ironizasse o facto de eu ir encerrando os blogs que criara. Para que se perceba que também aqui não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, aqui vem a notícia: repus no ciber-espaço o velho blog «A Revolta das Palavras», homónimo de uma coluna que expirou no «Diário de Notícias». Na lateral fica o «link» respectivo.
Separados de facto
Numa parede da Rua de São Bento, alguém escreveu em tempos «não quero viver num mundo em que ideias e sentimentos sejam coisas separadas».
Esse alguém, deve ter-se exilado daqui. Prudentemente a Câmara mandou pintar a parede. Se a frase pegasse o país evadia-se!
Esse alguém, deve ter-se exilado daqui. Prudentemente a Câmara mandou pintar a parede. Se a frase pegasse o país evadia-se!
17.9.05
Juro!
O António Variações cantou o fiz dos teus cabelos a minha bandeira, a propósito de Amália. O juro que não envelheço, do Luiz Pacheco, que acabo de ler, poderia ser, desfraldada ufana aos ventos, a minha, se a vida e seus vendavais raivosos não ma arrancarem das mãos. Juro!
O homem que não sabia escrever
É amiga, é leitora, escreve. E contou-me, nos intervalos dos nossos silêncios que eu, embirrento, por vezes prolongo, que a mãe, quando o pai se ausentava para o estrangeiro, sabendo que ele não escreveria, lhe metia na mala rimas de postais, onde já rabiscara «beijinhos para as três» [elas eram três], pedindo-lhe apenas que os fosse entregando nas recepções dos hóteis, para, ao menos, em casa saberem que ele estava bem. Eterneci-me ao ler, muito, como se, hesitante e envergonhado, postal na mão, tivesse pela frente na vida a recepção de um hotel.
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