14.10.05

E não passou

Há dias em que dá vontade de ir parar ao hospital, só que não se sabe é por causa de que maleita. No caso da preguiça, o grave é quando se tem alta: uma pessoa, habituada a tanta doença, fica sem saber o que fazer da saúde. Por causa disso, há quem nunca se cure. Vem isto a propósito de eu não vir aqui desde o dia 11: estive internado, para ver se me passava.

11.10.05

Rasteiros

A última vez que aqui estive dei conta de que tinha começado a chover. Hoje ao rever as notícias, percebi que pode chover mesmo a sério. Nunca entendi porque motivo é que se diria «que até os cães a bebem de pé». A minha dúvida é que os cães não andam de pé: com as quatro no chão, como andam, em rigor andam deitados, ligeiramente a cima do nível do chão, um pouco mais do que rasteiros. Eles e muita gente, pois há os outros, os que andam «abaixo de cão».

9.10.05

Mensagem do céu

Hoje finalmente o céu decidiu-se a chover. Acordei com a rua em frente de cara lavada, as árvores vivificadas em verde. Não fossem os raros automóveis e os regulares autocarros, nada parecia acontecer. Um ou outro eleitor matutino, daqueles que vão lá por obrigação, que os de convicção por vezes faltam, escapulia-se por debaixo de um guarda-chuva. Da janela do meu quarto encarei o mundo, animando-me, como se convencesse de que valia a pena começar. No fundo, é só mais um dia. Amanhã, pensa-se no outro.

8.10.05

Escrita embargada

Uma escrita torrencial, entrecortada dos gritos que a memória traz, uma escrita sufocada como a voz embargada na ânsia esganada de dizer, uma escrita desnorteada, de quem com ela quer apenas sair desde lugar: um lugar de silêncio, um lugar de solitário labirinto. Fosse essa a escrita possível, a vida teria ganho, enfim, um sentido. Mas não, esta não é já a escrita possível, esta é a escrita que foi necessária.

7.10.05

Clássica

Há táxis e táxis. Fui para Santa Apolónia num que lhe fugia o pé para a chinela. Regressei, desta feita num outro, onde se sintonizava na Rádio Clássica do Montijo, a que esteve para fechar, a que nem sempre emite, a que felizmente existe.

6.10.05

Chinelando

Ela encontrou a chinela e eu encontrei-a a ela na Rua do Capelão, ela encontrou a própria vida, eu encontrei o coração. Acreditem. Existe. Ouvi num táxi, em onda média, que ainda subiste, num mundo que ainda há.

Coma com pão

Foi ao folhear, vagueante, a folha oficial que descobri que ele há o «Clube de Caçadores da Açorda». Calculo que de quando em vez cacem uma perdiz, para a comer com a dita. O pior é quando lhes apetece açorda de bacalhau. Aí só com a ajuda do Clube dos Pescadores, o da Terra Nova!

5.10.05

Errantes e errados

Nietzshe, com a agudeza dos míopes, previu que o casamento se tornaria numa colecção errática de indivíduos, orientados à prossecução de fins egoístas. Toda a vida viveu celibatário, destinando egoisticamente um livro excepcional à grande família da humanidade.

4.10.05

O fado da História

A frase pertence ao José Cardoso Pires, num livro que eu penso que já citei aqui uma vez, por causa de um outro dos seus textos: «lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa». Sem querer ser injusto, penso que isso que está na frase era dantes, não porque não formiguem hoje portugueses, mas porque, quanto ao carrego da História, anda tudo mais leve e mais solto. Estamos como aqueles países que nasceram ontem: saltitantes de presente, indiferentes ao futuro, vazios de passado. A nossa única diferença é essa tristeza a que chamamos fado.

3.10.05

Os limites do sentir

Continuo a ler a «Conta Corrente». Há quem não perdoe ao Vergílio Ferreira o tê-la escrito, por isso que nela se patenteiam as suas obsessões nem sempre exaltantes. Há quem não o suporte vê-lo assim, em trajes menores e sem pose, neste diário incerto do homem-escritor. Por causa de a ter escrito, não poucos inimigos arranjou. E, no entanto, por tudo quanto no livro não vale a pena, há momentos de genialidade única, em que numa só frase se resume mais do que um compêndio de filosofia, todo um modo de pensar a vida, sentindo-a. Digo-o esta noite, ao ter lido a frase «é-se por dentro, por fora está-se». Após ela, recuso-me a ler mais o quer que seja; não me perdoaria, se o fizesse.

2.10.05

O salto

Se aquela figura literária do Eça de Queirós, que não era completamente viúva, encontrasse alguns dos seus leitores, que nunca são completamente casados, não haveria gente totalmente tristonha.

1.10.05

Marcha fúnebre

No Mil Folhas de hoje, que eu, como num ritual, leio com o jardim aqui em frente diante dos olhos, vêem excertos de uma conferência inédita do Luís de Freitas Branco, porque se lembraram que há cinquenta anos ele morreu. E nessa conferência fala o conferencista da interpretação cadavérica de toda a música considerada séria e elevada. Pois é precisamente assim que muita gente interpreta a vida que vive: descompassados, atonais, afinando o tom pelo coro, cadavericamente, em suma.

30.9.05

O intervalo

Os dias em que não se escreve, não são dias em que não se pensa, são apenas dias em que não se vive. A vida é isto, o intervalo entre capítulos. Chegando ao fim, percebe-se pelo índice como foi, até lá, é melhor nem saber.

29.9.05

Um corpo inteiro, uma alma partida

Não, não é preciso um homem desdobrar-se em vários, para alimentar vários personagens. Não, não é preciso socorrer-se da heteronímia para se ser mais do que um. Basta ser-se inteiro. Está reunida a primeira condição. A partir daí é só preciso um homem ir-se partindo, aos bocadinhos.

28.9.05

Vida de cão

Um meu amigo, inteligente e risonho, qualidades que raramente se conjugam, contou que o fogoso Camilo tinha, na ânsia de um emprego, oferecido ao carrancudo Herculano, um cão, para que este, animado pela gentileza, lhe arranjasse um qualquer ganha-pão suficiente. E contou mais que, como o emprego não vinha, pois que dependente de políticos, que caíam no Parlamento como tordos na canícula, o escritor de São Miguel de Seide não esteve para mais: veio ressabiado a Lisboa, e passando em frente da casa do historiador, aí vai de assobio, e num ápice tinha o cão de volta. Tudo isto tem um sabor a passado; hoje, nem os cães conhecem o dono, nem os empregos se arranjam à força de cão. O que ainda resta é o assobiar, nem que seja para o ar.

26.9.05

A esquina da vida

Para os que vieram hoje a esta esquina ver se me encontravam, saibam só que eu passei por aqui. Nada mais tem importância. Amanhã talvez volte, mesmo sem motivo, cão a passear ou jantar a digerir.

25.9.05

A morte anunciada nos céus

Li que o rouxinol dos caniços, migrante, voa três mil e quinhentas milhas de Portugal para a Mauritânia e Guiné-Bissau, sobrevivendo ao deserto do Sahara. E li que este ano, ante a seca do Verão em Portugal, estão ameaçados de morte, aos milhares, no Outono. Vêem-se na Ria Formosa, ignorando a morte anunciada.

24.9.05

O muro

A frase ali estava, visível na parede branca: não existe inveja no reino da esperança. Na rua, cozido com a parede, como se nem o muro existisse, um homem arquejava com uma guitarra. Numa das mãos o peso da sua caixa, no coração o seu som sem esperança.

Embuchado

Nas escopetas de carregar pela boca havia a bucha sem coice. A arma não tinha ressalto, o ponto de mira era fiel. Apertava-se tudo com uma vareta. Premido o gatilho, saltavam os miolos. Os amigos lamentavam e a vida seguia. Lembrei-me disto em Silves, num museu vivo de uma fábrica morta.

22.9.05

O cobrador de fraque

Assolado agora pela irada multidão e recalcitrante, a dos credores do tempo, ansiosos reclamantes do capital do afecto e dos juros de uma atenção, trancado em casa, entre a vergonha do débito e a impossibilidade de o cumprir, há um homem que revê os compromissos que assumiu, as promissórias que assinou, as expectativas que foi criando. Mais atrevidos os que clamam pelos deveres em atraso, os da profissão e os sociais, estão perto de lhe franquear a porta, arrombando-lha, expondo-lhe a vergonha. Outros, entre o condescendente e o resignado, aguardam, sem esperança, a sua vez, sentados no patamar da última ocasião. Para todos esses, os que como ele chegam à impossibilidade de solver, inventou-se a ideia da falência. É um opróbio segurante, mas é a moratória forçada de tudo o que se deve. Nem uma doença que o fulminasse o salvaria do que deve: ficaria a má fama, o fantasma do cobrador de fraque a persegui-lo ao fim dos tempos, estivesse nos altos céus, ou devolvido aos baixios de um outro inferno.