3.11.05

Vontade de ler

Quando se não tem muito tempo e se tem muita vontade de ler, lê-se muita coisa ao mesmo tempo, para ficar a ilusão de que se lê mais. Há largas semanas atrás disse por aqui que andava a ler o segundo dos dois livros que escreveu a Dulce Cardoso e disse, ou dei a entender, que notável era esse livro. Talvez não tenha dito, por pudor, quanto dói a sua leitura. Hoje voltei a ele. Já vou na página 260 das 349 que ele tem. Cada vez que o retomo, vou à procura de um lápis, pois rara é a página onde não há algo a sublinhar. Estive há momentos, antes de vir aqui a olhar para um desses sublinhados, o da frase «não há nada que o silêncio não mate». Não sei se consiga voltar a ele. Pelo menos hoje não. O livro chama-se «Os meus sentimentos». Talvez por isso.

2.11.05

Passar a limpo

A Assírio & Alvim acaba de editar, num formato basto esquisito, mais um livro do Alexandre O'Neill, onde vem um poema que, ou muito me engano, e para isso tinha de me alçar daqui até à longínqua estante, ou não vem nas «Poesias Completas», que, a ser assim, completas é que não são. E num desses poemas leio um «...que quereis vós, todos vós, ó meus heróis da segunda hora?» que assim continua: «reentrai no sossego, deixai as folhinhas dormidas nos arquivos, deixai os vivos desenterrar os vivos, que esses, sim, deram o corpo ao manifesto, sem saberem, muitas vezes, o Manifesto de cor!».

30.10.05

A leitura

Eu confesso que já deveria ter lido o «Nítido Nulo» mas só agora é que o estou a ler. Há aliás na vida tanta coisa que eu já deveria ter vivido e que nem sei agora quando o irei viver. É o «gosto antecipado da sede que ainda não tenho». Vem lá no livro, assim, a sede de uma cerveja, a sede de uma vida. O personagem está preso e «as próprias grades são pintadas de branco para deixarem passar a alegria que puderem». Faltava-me este livro do Vergílio Ferreira. Encontrei-o, enfim. Não foi por causa de o não ter que o não lera, mas agora que o tenho, hei-de esgotá-lo de tanta leitura.

A hora

Hoje anoiteci mais cedo e acordei melhor dormido. Calculava que era por ter atrasado o relógio, até ter descoberto que era por ter pensado que o mundo mudara. Claro que mudara apenas na sua dimensão quantitativa, a de ter andado tudo para para trás. O presente passou súbito a passado, o futuro adiou-se-nos sem dar conta. Foi tudo pelas duas da manhã. Nesse momento, o hoje passou a ontem, dando-nos a oportunidade de o viver duas vezes. Azar meu o estar a dormir. Quando acordei, tinha a preguiça perdoada.

29.10.05

Chuva

Há neste hotel um recanto e nele uma janela e através dela uma palmeira. Animada pelo vento, acena-me os seus ramos, como alguém à distância na hora de partir. Há neste hotel a ideia fantasiosa de que a chuva, que o vento trouxe, perpetua o conforto de ficar. Há neste recanto o sentimento incómodo do acenar-me de fora, além da janela, aos que, como eu, decidiram ficar.

25.10.05

Aquém do possível

Imagine-se uma cabeça vazia, sem um pensamento, sem uma névoa de uma melancolia sequer. Imagine-se um corpo dorido de cansaço, espécie de reumatismo generalizado, os ossos num feixe, os músculos exaustos. Imagine-se um mundo despovoado de almas, atulhado de corpos sonâmbulos. Imagine-se. Não se saia da imaginação, fique-se assim imobilizado, os olhos escancarados de morto. Com o chegar do frio as coisas pioram. Eis junto a mim uma folha de papel, totalmente em branco. Nada do que eu pudesse ali escrever me é possível imaginá-lo.

23.10.05

Davam grandes mortes ao domingo

Li no jornal que morrem ao domingos jovens entre quinze e vinte e quatro anos. Pela leitura não percebi de que morriam. Sendo-se mais velho, ao domingo, morre-se de tristeza, alguns com a segunda feira da ilusão à vista.

19.10.05

Uma pausa

Há quem tenha jardins e passe por lá depois do jantar, só para ver como vai o que plantou. Aqui é mais ou menos parecido. Há dias em que não se semeou nada e fica-se a olhar para o passado. Há no homem aquela ânsia de criar, que o esgota. Uma pausa, preenchida com nada, eis a sua salvação.

18.10.05

A vingança

Lembro-me de ser miúdo e ver como era. Iam à capoeira, filavam uma e cravavam-lhe a faca na goela. O sangue esguichava às golfadas e ela estrebuchava frenética, recusando a morte. Acho que ainda cheguei a perguntar se lhe doía, mas tenho a certeza de que me mandaram calar. Habituei-me a comê-las, sem pensar nisso. Hoje juraram vingança e ameaçam matar-nos, aos milhares. Talvez nem perguntem se nos vai doer. É-lhes indiferente.

17.10.05

A declinação do eu

Olhou-se ao espelho, mirando-se reflexamente, sorriu-se na condicional, e continuou na forma gerundiva. Ao sair de casa descobriu que a sua vida era a voz passiva, uma forma indirecta de viver sem ser sujeito. Vivido que estava o que havia para viver, indiferente ao predicado de si, tornou-se um infinito substantivado. Hoje não há gramática que o conjugue.

16.10.05

O umbral

O desamparo aos dezassete anos era feito do refúgio em cantos abrigados, quantas vezes o umbral de uma janela, os olhos perdidos no descampado em frente. Reconheço-as, a uma e uma, cada fenda na cal da parede, as mossas na madeira pintada do caixilho, a memória embaciada deste local.

A porta fechada

Esta noite eu recordo a ideia de um pai, por detrás de uma porta fechada. Lentamente cresci até chegar ao puxador. Mas nessa altura tinha aprendido a bater, antes de entrar. Um sentimento forte, apesar de longínquo, recordo-o esta noite, crescendo lentamente em mim, aprendendo a fechar-se, como uma porta que se encerrasse, antes de alguém entrar.

A invisível presença

Há neste desvão de escada o que eu preciso para ter a ilusão de que, aninhado aqui, ninguém mais dá pela minha presença. Na minha infância, porque já houve em mim uma infância e vivida nesta mesma casa, sonhava-me aqui como se no lugar mágico da minha invisibilidade. Rodopiavam os mais crescidos, indiferentes à minha ausência, e até o arrastar penoso dos avós parecia mais preocupado com o para onde iam do que com o onde eu estaria. Há neste desvão o ter aprendido o que é, na vida, o não fazermos falta. Hoje, no jogo de acasos que é o viver-se, trocaram-se as peças no tabuleiro: este é o desvão onde se escondem todos eles, os idos e os que foram, e eu já nem dou sequer pela sua invisível presença.

Prontos

Há os que organizam a vida para estarem prontos aos cinquenta anos. Outros chegam a essa idade e a vida começa enfim a organizar-se-lhes. Estes últimos pensam ter ainda vinte anos; tarde descobrem terem muito menos tempo do que isso.

El Gordo!

Tinha a ideia de que éramos dez milhões e agora vejo no jornal que somos quatro milhões de gordos. Ou como vem na notícia, «em Portugal, a obesidade afecta quase quatro milhões de pessoas». Ao ler isto, neste domingo à espera da massada de peixe, lembro-me da frase que anda por um muro perto da minha casa: «situacionistas gordurosos tremei, a vossa celulite tem os dias contados». Lembro-me, escrevo e olho para o relógio: com esta mania de almoçarem às duas da tarde, que tal um pãozinho com queijo para ajudar a entreter?

15.10.05

O pó branco

Faendo-se eco de um encontro sobre saúde, o Diário de Notícias, sob o apelativo título «Este pó branco também mata» escreve que «o sal contribui para o aumento dos casos de hipertensão arterial, acidentes vasculares cerebrais (AVC), insuficiência cardíaca, cancro do estômago e osteoporose». Eu sei disso, e sendo hiper-tenso, ainda sei mais. Mas que querem! Já tentei viver uma vida insossa e ia morrendo, de tristeza!

14.10.05

E não passou

Há dias em que dá vontade de ir parar ao hospital, só que não se sabe é por causa de que maleita. No caso da preguiça, o grave é quando se tem alta: uma pessoa, habituada a tanta doença, fica sem saber o que fazer da saúde. Por causa disso, há quem nunca se cure. Vem isto a propósito de eu não vir aqui desde o dia 11: estive internado, para ver se me passava.

11.10.05

Rasteiros

A última vez que aqui estive dei conta de que tinha começado a chover. Hoje ao rever as notícias, percebi que pode chover mesmo a sério. Nunca entendi porque motivo é que se diria «que até os cães a bebem de pé». A minha dúvida é que os cães não andam de pé: com as quatro no chão, como andam, em rigor andam deitados, ligeiramente a cima do nível do chão, um pouco mais do que rasteiros. Eles e muita gente, pois há os outros, os que andam «abaixo de cão».

9.10.05

Mensagem do céu

Hoje finalmente o céu decidiu-se a chover. Acordei com a rua em frente de cara lavada, as árvores vivificadas em verde. Não fossem os raros automóveis e os regulares autocarros, nada parecia acontecer. Um ou outro eleitor matutino, daqueles que vão lá por obrigação, que os de convicção por vezes faltam, escapulia-se por debaixo de um guarda-chuva. Da janela do meu quarto encarei o mundo, animando-me, como se convencesse de que valia a pena começar. No fundo, é só mais um dia. Amanhã, pensa-se no outro.

8.10.05

Escrita embargada

Uma escrita torrencial, entrecortada dos gritos que a memória traz, uma escrita sufocada como a voz embargada na ânsia esganada de dizer, uma escrita desnorteada, de quem com ela quer apenas sair desde lugar: um lugar de silêncio, um lugar de solitário labirinto. Fosse essa a escrita possível, a vida teria ganho, enfim, um sentido. Mas não, esta não é já a escrita possível, esta é a escrita que foi necessária.