Tinha parado de chover e o jardim era uma cantata de cores, de cheiros e de sons. Consegui ainda uns momentos de leitura, umas páginas mais ao «Nítido Nulo». Vai a meio. Ao regressar, porém, uma vez mais ali estava plantada no meu horizonte de desejo, a atraente livraria, a lúbrica piscadela de olho, prometedora dos seus livros. Hesitei. Morando perto dali, tinha levado pouco dinheiro, apenas para não andar desprevenido. Podia-me desculpar com isso para não ter de ceder; ademais tenho imensa leitura em atraso. Mas pronto! O livro está aqui. Foi o António Mega Ferreira quem o escreveu, fala de mais um Pessoa, entre os tantos em que ele já foi fatiado, qual perú assado, por falar a propósito do Natal que aí vem, quando há quem coma de tais coisas. Desta vez é o Pessoa empreendedor, o que teve de «fazer pela vida», por não poder comer os poemas que escrevia, nem com eles pagar renda ou vestir-se como se vestia, aprimorado.O livro despacha-se rápido, para quem for ágil na arte do folhear, rápido no truque de apreender. O problema são aqueles breves momentos de encontro com o sublime, como a frase «conservar num abstracto o que temia concreto», por ele escrita a propósito do relacionar-se, pela escrita comercial inglesa, com a Inglaterra mítica. Lia-a, à frase ambígua, e não me sai do pensamento, como se nela se resumisse, em suma, todo um modo de viver os outros e, através deles, solitário, a própria vida.
20.11.05
19.11.05
A suprema incerteza
Pois o livro grande, o livro pesado que há pouco comprei, é o dos «Cantos» do Ezra Pound, traduzidos agora em português. Há quanto tempo eu andava a martelar o difícil original, percebendo parte da metade do todo e desejando entender-me com a metade do resto que mal percebia. Ao brasileiro José Lino Grünewald se deve o traduzi-lo. José Lino finalizou Direito e «deixou o diploma de lado», isto «para se dedicar de corpo e alma à actividade literária». Como eu me revejo, frustrado, em biografias como esta. Voltei ao Ezra Pound e aos seus torrenciais cânticos, cantos e cantares.Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza». Ele o diz e eu também. Por isso, deixem-me em paz: quero ler, inquieto talvez, mas sossegado, enfim.
Os olhos a arder
Há no Centro de Arte Moderna uma Livraria que é Almedina e que por ter esse nome me cheira aos livros de Direito que são o meu pesadelo na forma de livros sem literatura. Mas o essencial dos livros dessa Almedina não tem a ver com o Direito, embora haja por lá, no pequeno espaço, uma provocatória Lei Geral Tributária e um consensual Código Civil, além de outras espécies legais mumificadas. Passo por lá aos sábados, quando calha ter sábado possível para ir espraiar-me pelos jardins da Fundação. Hoje, já de saída, cruzei-me com os «Pequenos Burgueses» do Carlos de Oliveira, um dos poucos que faltavam na colecção do homem que escreveu «A Casa na Duna» e, enfim, o livro de que vou falar a seguir. Regressei exultante e carregado. Com um golo de vinho tinto do almoço tenho a alma reanimada. Faz sol lá fora e já esteve a chover. Só falta telefonarem-me para me sentir gratificado. Tenho leitura para dias a fio. A juntar ao que me falta ler, se não fico mais culto, fico pelo menos com os olhos a arder.
18.11.05
Bilhete de identidade
Corrijo, há que ser justo!. Não retiro nada ao que me irrita, há no livro coisas ridículas e outras desnecessárias, mas já nem sei o que pense a seu respeito. É um livro sincero, relata mesmo o inconveniente. Através dele reconstitui-se uma época e um estilo. Vou lê-lo todo. Talvez eu esteja de mal com a minha geração, com a «pose» e a arrogância que tínhamos e o mundo merdoso que gerámos. Deve ser por causa disso, Maria Filomena Mónica, que o livro me está a custar. Chama-se «Bilhete de Identidade»: de cidadão nacional!
17.11.05
A Ti-Mi e a Ti-Lú
Eu não sei se consiga ou deva, mas lá vou lendo, furioso comigo, o livro de «memórias» da Maria Filomena Mónica. Para não desistir de vez, saltei-lhe a parte da infância e da adolescência. Há minutos, quando interrompi a leitura, tinha ela descoberto o Vasco Pulido Valente e eu tinha ficado a saber por ela que ele «usava soquetes curtos», dado fundamental que explica afinal muita coisa que eu não compreendia. Antes disso, ainda li uma frase que sublinhei. Era a propósito da «avó Maria» e da «Ti-Mi e a Ti-Lú» e a frase dizia assim: «Nenhuma tinha marido ou, se os tinham, guardavam-nos longe». Ora aí está a fórmula mágica para se salvar a felicidade matrimonial: longe da vista e, se possível, do coração! E não me digam que não vale a pena o esforço irritante de se lerem livros írritos!
16.11.05
A ordem natural das coisas
Já nem sei como é possível evitá-los, aos livros. Hoje talvez tenha passado o teste decisivo. Ando a acumular tantos livros para acabar de ler que já deveria ter pudor em abeirar-me de outros. Lá consegui encerrar o torrencial «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, mas ainda vou a três quartos do tristonho «Os meus sentimentos» da Dulce Cardoso, falta-me a parte final do conturbado «O Acidente» do Mário Cabral, vou no princípio ainda do enevoado «Nítido Nulo», do Vergílio Ferreira, mas apeteceu-me ler e comecei-o ao Saramago, o das burlescas «Intermitências da Morte». E, no entanto, eu que embirro, sem saber sequer porquê, com a Maria Filomena Mónica, eu que, por causa disso me esquinei com o livro que ela escreveu, por saber que era dela e por duvidar que memórias capazes poderiam ser aquelas e que me interessariam, comprei hoje o livro. Quase diria comprei-lhe o livro, naquela forma de dizer de um leitor que quer ajudar um escritor. Comecei a lê-lo há pouco num banco cimentado de um centro comercial, enquanto esperava que acabassem umas variadas compras. Li quanto pude. Os outros livros, pacientes, aguardavam em casa a sua vez. Leio onde calha. Calha é infelizmente poucas vezes. Mesmo assim dou graças a Deus: aprendi a escrever, depois de ter aprendido a ler.
13.11.05
O que há e o que é
Era domingo e estava muito frio e eu vim para a rua, talvez por fazer sol. Trazia comigo o último caderno dos «Teoremas da Filosofia», que, devotadamente os da Filosofia Portuguesa vão animando com os seus escritos. E li no Pedro Sinde, filosofando à bolina, esta ideia de haver pessoas para quem existe apenas o movimento de rotação de si em torno de si, o perpétuo circular do dia e a noite da sua própria individualidade. E aprendi a perfeição do movimento de translação, seguindo as estações de todo um ano, a mutação de toda uma vida. Esta verdade astronómica pareceu-me ainda mais verdadeira, quando aplicada aos seres humanos. Partícula do universo, poeia cósmica, o homem reproduz em si e na sua insignificante individualidade toda a mecânica do sistema solar. O infinitamente pequeno é homólogo ao infinitamente pequeno, o um equivalente ao todo, o que há idêntico ao que é.
12.11.05
A morte suspensa
Há coisas que o tempo me ensina a aprender; a mais recente é porque motivo eu não gostava do Saramago. Claro que havia aquela história de ele, director do «Diário de Notícias», nos «anos da brasa», ter demitido uma série de jornalistas, muitos dos quais passaram um mau bocado por causa disso. Há um que conheço e que ainda hoje, por causa disso, se recusa a chamá-lo pelo nome e cada vez que o refere o faz como «o erva daninha», tal é, de facto, a definição do dicionário para o nome do nosso prémio Nobel da Literatura. E, no entanto, cheguei à conclusão do motivo profundo para não gostar dele e nada ter lido até agora que proviesse da sua pena. É que o autor do «Memorial do Covento» é de tal modo banal a falar de si, de tal modo pardo a falar do que pensa, que uma pessoa fica sem vontade de ler qualquer dos seus livros. Senti isso mesmo ao ler este sábado frio a entrevista óbvia que Adelino Gomes lhe faz e que o «Mil Folhas» de hoje edita. Felizmente estou a ler «As Intermitências da Morte» e com agrado a surpreender-lhe os bons momentos de uma história aliás surreal. Ao encontrar neste que é o seu último livro a menção aos «lares do feliz ocaso», lembrei-me do nome deste blog e quanto ele pressagia de memória de passamento e de dia de finados. É de tal modo assim que, ao pensar nisso, sinto a vertigem dos que têm medo de se debruçarem, por receio de lhes apetecer antecipar o fim dos dias, em vez de viverem, como diz o Saramago, neste «cemitério de vivos», com a «morte suspensa».
11.11.05
Conforme os dias
Mais uns dias sem vir aqui. Não é o tempo que me falta, é o espaço. Eu bem tento empurrar a vida toda para dentro do vazio que há em mim. A verdade é que sobeja mais para vivê-la do que para escrevê-la. Quando me sento para dizer como foi não me lembro bem, só ficou a ideia de que foi muito bom. Ou muito mau, conforme os dias.
8.11.05
Superstição ao fim do dia
É coisa rara hoje usarem-se termos da mitologia clássica. É coisa rara eu comprar um livro do Saramago. É coisa rara encontrarem-se livros do Aquilino Ribeiro, pois a Bertrand deixa-os esgotar e não os reedita, ou pelo menos é o que parece. Agora somadas todas estas raridades vejam o que é esta coisa notável. Fui hoje a uma livraria, porque por acaso se atrasou a hora de uma reunião. Andando pelo rodapé de uma estante dou de caras com um livro raro do Aquilino de que nunca tinha ouvido falar: «De Meca a Freixo de Espada à Cinta». Entretanto, andava ao rabusco por outra estante, ouço alguém perguntar o «tem cá o último livro do Saramago». Em suma, comprei o Aquilino mais o Saramago e mais uns tantos outros. Como tinha tempo fui plantar-me num café a folhear. O do Aquilino tinha uma dedicatória, em estilo de prefácio, «ao Dr. Heliodoro Caldeira, Grande Advogado, meu Patrono em Negros Delitos». Talvez por isso avancei curioso pelo prefácio, onde a linhas tantas de tal o autor do «Romance da Raposa» se põe a falar de um encerramento de uma urna de chumbo a que assistira. E a respeito escreve assim: «Vieram os alfaiates de cangalheiro e num ápice, um deles, com tesoira grande e indiferente como deve ser a de Átropos (...), etc., etc.». Visto o aquiliano prefácio, que é curto, guardando o livro para quando tiver tempo, atirei-me ao Saramago, o de «As Intermitências da Morte», a propósito de quem, ao lê-lo, me perdoo o mal que já pensei dele e o que venha a pensar no futuro e li ali: «A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivese resolvido embainhar a tesoura por um dia». Enfim, talvez seja melhor eu hoje ter cuidado comigo: um prefácio sobre um cangalheiro, um livro sobre a morte e tanto acaso junto sobre o ente que corta o fio da vida, é caso para regressar a casa e trancar-me dentro de um armário, à espera que chegue, enfim, o dia de amanhã. É que duas vezes numa mesma tarde tropeçar na palavra átropos, é demais para a minha esperança de vida!
7.11.05
Textos locais
Fui ontem lá jantar e à saída, com a amabilidade discreta de quem até no oferecer é amigo, estendeu-me o livro: tinha tido uma modesta tiragem de trezentos exemplares, em oitavo, em 1967, impresso modestamente em Alcobaça. São os «Textos Locais» do Luiz Pacheco, de seu nome completo Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco. Tenho-os aqui comigo. É um livro triste, como esta tarde fria, em que se sai à rua só mesmo para nos apetecer voltar para casa. Num post-facio à obra Serafim Ferreira chama a Pacheco «uma alma sem inquilinos». É uma boa definição; no caso, porém, uma alma por alugar, sem escritos na janela.
6.11.05
Um sol amigável
Tentei ler mais umas folhas do «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira. O meu exemplar original ficou numa dessas casas esquecidas do meu passado. Encontrei este numa livraria envelhecida, daquelas que vendem obras em segunda mão. O livro cheira a mofo. Os detractores do autor dizem que ele também cheirava a mofo. Os que me virem a ler e a escrever sobre o que leio, talvez concluam que eu próprio estou contaminado pelo mofo desta literatura. Mas enfim, tentei ler mas ao cruzar-me com aquela frase «alguém tem de andar só, para andarem os outros acompanhados» fui-me abaixo. O dia na rua está belíssimo, temos todos um sol morno e amigável por companhia.
3.11.05
Vontade de ler
Quando se não tem muito tempo e se tem muita vontade de ler, lê-se muita coisa ao mesmo tempo, para ficar a ilusão de que se lê mais. Há largas semanas atrás disse por aqui que andava a ler o segundo dos dois livros que escreveu a Dulce Cardoso e disse, ou dei a entender, que notável era esse livro. Talvez não tenha dito, por pudor, quanto dói a sua leitura. Hoje voltei a ele. Já vou na página 260 das 349 que ele tem. Cada vez que o retomo, vou à procura de um lápis, pois rara é a página onde não há algo a sublinhar. Estive há momentos, antes de vir aqui a olhar para um desses sublinhados, o da frase «não há nada que o silêncio não mate». Não sei se consiga voltar a ele. Pelo menos hoje não. O livro chama-se «Os meus sentimentos». Talvez por isso.
2.11.05
Passar a limpo
A Assírio & Alvim acaba de editar, num formato basto esquisito, mais um livro do Alexandre O'Neill, onde vem um poema que, ou muito me engano, e para isso tinha de me alçar daqui até à longínqua estante, ou não vem nas «Poesias Completas», que, a ser assim, completas é que não são. E num desses poemas leio um «...que quereis vós, todos vós, ó meus heróis da segunda hora?» que assim continua: «reentrai no sossego, deixai as folhinhas dormidas nos arquivos, deixai os vivos desenterrar os vivos, que esses, sim, deram o corpo ao manifesto, sem saberem, muitas vezes, o Manifesto de cor!».
30.10.05
A leitura
Eu confesso que já deveria ter lido o «Nítido Nulo» mas só agora é que o estou a ler. Há aliás na vida tanta coisa que eu já deveria ter vivido e que nem sei agora quando o irei viver. É o «gosto antecipado da sede que ainda não tenho». Vem lá no livro, assim, a sede de uma cerveja, a sede de uma vida. O personagem está preso e «as próprias grades são pintadas de branco para deixarem passar a alegria que puderem». Faltava-me este livro do Vergílio Ferreira. Encontrei-o, enfim. Não foi por causa de o não ter que o não lera, mas agora que o tenho, hei-de esgotá-lo de tanta leitura.
A hora
Hoje anoiteci mais cedo e acordei melhor dormido. Calculava que era por ter atrasado o relógio, até ter descoberto que era por ter pensado que o mundo mudara. Claro que mudara apenas na sua dimensão quantitativa, a de ter andado tudo para para trás. O presente passou súbito a passado, o futuro adiou-se-nos sem dar conta. Foi tudo pelas duas da manhã. Nesse momento, o hoje passou a ontem, dando-nos a oportunidade de o viver duas vezes. Azar meu o estar a dormir. Quando acordei, tinha a preguiça perdoada.
29.10.05
Chuva
Há neste hotel um recanto e nele uma janela e através dela uma palmeira. Animada pelo vento, acena-me os seus ramos, como alguém à distância na hora de partir. Há neste hotel a ideia fantasiosa de que a chuva, que o vento trouxe, perpetua o conforto de ficar. Há neste recanto o sentimento incómodo do acenar-me de fora, além da janela, aos que, como eu, decidiram ficar.
25.10.05
Aquém do possível
Imagine-se uma cabeça vazia, sem um pensamento, sem uma névoa de uma melancolia sequer. Imagine-se um corpo dorido de cansaço, espécie de reumatismo generalizado, os ossos num feixe, os músculos exaustos. Imagine-se um mundo despovoado de almas, atulhado de corpos sonâmbulos. Imagine-se. Não se saia da imaginação, fique-se assim imobilizado, os olhos escancarados de morto. Com o chegar do frio as coisas pioram. Eis junto a mim uma folha de papel, totalmente em branco. Nada do que eu pudesse ali escrever me é possível imaginá-lo.
23.10.05
Davam grandes mortes ao domingo
Li no jornal que morrem ao domingos jovens entre quinze e vinte e quatro anos. Pela leitura não percebi de que morriam. Sendo-se mais velho, ao domingo, morre-se de tristeza, alguns com a segunda feira da ilusão à vista.
19.10.05
Uma pausa
Há quem tenha jardins e passe por lá depois do jantar, só para ver como vai o que plantou. Aqui é mais ou menos parecido. Há dias em que não se semeou nada e fica-se a olhar para o passado. Há no homem aquela ânsia de criar, que o esgota. Uma pausa, preenchida com nada, eis a sua salvação.
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