«A vida que vivo não é a minha», Almada-Negreiros a Sonia Delaunay, admirável e universalmente verdadeiro.
1.12.05
30.11.05
Os olhos de um cão
Ainda o «JL». Numas páginas dedicadas aos escritor que a guerra colonial nos trouxe, vem, ao lado do lembrado Lobo Antunes e do esquecido Assis Pacheco, o ignorado Bação Leal, autor de um livro modesto, pobre de meios, magro de divulgação, um livro póstumo, um livro mesmo assim perseguido. Tive-o e foi dos que me ficou, numa qualquer casa, então estranha, hoje alheia. «Se me quiseres reencontrar, olha um cão nos olhos, com certeza estarei por detrás dos olhos do cão», escreveu ele, em verso desesperado. Morreu há quarenta anos, no dia um de Setembro, tinha vinte e três anos de tragédia já vivida.
Homens livres
À quarta-feira sai o «JL», e nem sempre satisfeito com o que nele leio, habituei-me a lê-lo. E começo pela última página e sei que nisso não estou sozinho. Nos últimos tempos ela anda dedicada a escritos de memórias. Desta vez foi o professor Jaime Celestino da Costa o mesmo que, por coincidência, este domingo, em viagem, ouvi na Antena 2, a falar sobre o Freitas Branco, o que agora anda em efemérides. Ora lembrou o notável médico e homem de cultura que em 1923 se editou em Portugal uma revista chamada «Homens Livres», que ornava como sub-título, «Livres da Finança e dos Partidos». É caso para nos perguntarmos se não se poderia reeditá-la, aproveitando precisamente a oportunidade e o momento.
29.11.05
Para que eu sinta em mim
O José de Almada-Negreiros, num intervalo dos seus «desejos eléctricos de exibição», escreveu, íntimo e exageradamente sincero, à pintora ucraniana Sonia Delaunay, a viver então em Vila do Conde, na Rua dos Banhos. Findou essa carta, escrita «da cidade quimicamente febril», com um «amanhã dar-lhe-ei toda a minha alma epilética de admiração. Hoje estou completamente só». Dias antes tinha escrito a Eduardo Viana, confessando-lhe: «eu vivo abandonado de entusiasmos e de tudo - a minha tragédia empeçonha-me tentacular e tumultuosa (...). Escreve-me para que eu sinta em mim alguma amizade». Corria o ano de 1916.
27.11.05
Domingo à tarde
Todos conhecem a palavra «serra», como a Serra do Caldeirão e a palavra «cerro», como em Cerro Maior. Mas na tabuleta da estrada estava escrito «serro», como Serro da Zorra, Serro da Águia, Serro Ventoso, ou Serro da Cabeça. E assim, trocando-se o «c» por um «s» tudo se irmana e ganha sentido. Uma e outra querem dizer «espinhaço», como em Espinhaço de Cão. Cravado na garganta, esse, só o da necessidade de regressar.
26.11.05
Cerejas literárias
Exausto, fugi do quotidiano, na ânsia de tentar descansar. Trouxe-o, ao livro da Agustina e, reconheço, é uma narrativa notável. Trata da interdição, por loucura, da filha de Eduardo Coelho, o homem que fundou o «Diário de Notícias» e do controverso processo judicial que desencadeou. Mas trata de tudo isso com uma sensibilidade de alma que toca. Agustina diz que escreve livros como quem come cerejas. Cerejas doces, daquelas que o pardal debica, ferindo-lhe a polpa, cristalizando-se os açúcares.
24.11.05
Um sono de morte
Eu ontem não disse, mas o livro da Agustina que comprei abre a tratar de um enterro. E não disse porque comprei com ele um outro, do José Augusto França, que se chama «Exercícios de passamento» e que é dedicado ao modo como morreram cinquenta ilustres portugueses. Uma coisa fatídica, que ainda por cima surgiu por acaso! São assim, irmanados no necrotério literário, o França, que põe traço de união entre o José e o Augusto, e a Agustina que põe traço de união entre o Bessa e o Luís: os dois livros que têm como traço de união o tratarem de mortos. No caso dos «Exercícios», são cinco suicídios e dois assassinatos, o resto é tudo de «morte natural», estranho nome para uma coisa que se encara normalmente com tão pouco naturalidade, mas enfim. Ontem à noite, antes de adormecer, ainda consegui despachar quatro mortos. Dormi regaladamente.
23.11.05
O atleta da tristeza
Há sempre um livro da Agustina Bessa Luís que se não leu. Hoje encontrei um que se chama «Doidos e Amantes», dedicado a uma bisneta do «professor alienista Júlio de Matos». Um dos personagens, pelo que intuí da primeira folha «fazia da infelicidade um desporto da alma». Sem mais.
Um livro filomenal
Pronto, está arrumado! Desisti de vez do livro da Filomena Mónica e consegui acabar o livro do Mega Ferreira sobre o Fernando Pessoa, por coincidência com uma frase do «Livro do Desassogeo», que, por coincidência também, foi onde fui buscar a expressão «geometria do abismo», que dá nome a um outro blog de que igualmente cuido. Bom, em suma, e para atalhar, a desassossegada frase com que eu conclui o livro é «o meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria até inibir-me de dar começo». Ora aí está um salutar princípio que eu deveria ter aplicado ao filomenal livro: não lhe ter dado sequer começo. Meu rico tempo roubado ao sono, ao descanso e à companhia para acabar perdulariamente estiolado nisto!
20.11.05
Viver na abstracção
Tinha parado de chover e o jardim era uma cantata de cores, de cheiros e de sons. Consegui ainda uns momentos de leitura, umas páginas mais ao «Nítido Nulo». Vai a meio. Ao regressar, porém, uma vez mais ali estava plantada no meu horizonte de desejo, a atraente livraria, a lúbrica piscadela de olho, prometedora dos seus livros. Hesitei. Morando perto dali, tinha levado pouco dinheiro, apenas para não andar desprevenido. Podia-me desculpar com isso para não ter de ceder; ademais tenho imensa leitura em atraso. Mas pronto! O livro está aqui. Foi o António Mega Ferreira quem o escreveu, fala de mais um Pessoa, entre os tantos em que ele já foi fatiado, qual perú assado, por falar a propósito do Natal que aí vem, quando há quem coma de tais coisas. Desta vez é o Pessoa empreendedor, o que teve de «fazer pela vida», por não poder comer os poemas que escrevia, nem com eles pagar renda ou vestir-se como se vestia, aprimorado.O livro despacha-se rápido, para quem for ágil na arte do folhear, rápido no truque de apreender. O problema são aqueles breves momentos de encontro com o sublime, como a frase «conservar num abstracto o que temia concreto», por ele escrita a propósito do relacionar-se, pela escrita comercial inglesa, com a Inglaterra mítica. Lia-a, à frase ambígua, e não me sai do pensamento, como se nela se resumisse, em suma, todo um modo de viver os outros e, através deles, solitário, a própria vida.
19.11.05
A suprema incerteza
Pois o livro grande, o livro pesado que há pouco comprei, é o dos «Cantos» do Ezra Pound, traduzidos agora em português. Há quanto tempo eu andava a martelar o difícil original, percebendo parte da metade do todo e desejando entender-me com a metade do resto que mal percebia. Ao brasileiro José Lino Grünewald se deve o traduzi-lo. José Lino finalizou Direito e «deixou o diploma de lado», isto «para se dedicar de corpo e alma à actividade literária». Como eu me revejo, frustrado, em biografias como esta. Voltei ao Ezra Pound e aos seus torrenciais cânticos, cantos e cantares.Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza». Ele o diz e eu também. Por isso, deixem-me em paz: quero ler, inquieto talvez, mas sossegado, enfim.
Os olhos a arder
Há no Centro de Arte Moderna uma Livraria que é Almedina e que por ter esse nome me cheira aos livros de Direito que são o meu pesadelo na forma de livros sem literatura. Mas o essencial dos livros dessa Almedina não tem a ver com o Direito, embora haja por lá, no pequeno espaço, uma provocatória Lei Geral Tributária e um consensual Código Civil, além de outras espécies legais mumificadas. Passo por lá aos sábados, quando calha ter sábado possível para ir espraiar-me pelos jardins da Fundação. Hoje, já de saída, cruzei-me com os «Pequenos Burgueses» do Carlos de Oliveira, um dos poucos que faltavam na colecção do homem que escreveu «A Casa na Duna» e, enfim, o livro de que vou falar a seguir. Regressei exultante e carregado. Com um golo de vinho tinto do almoço tenho a alma reanimada. Faz sol lá fora e já esteve a chover. Só falta telefonarem-me para me sentir gratificado. Tenho leitura para dias a fio. A juntar ao que me falta ler, se não fico mais culto, fico pelo menos com os olhos a arder.
18.11.05
Bilhete de identidade
Corrijo, há que ser justo!. Não retiro nada ao que me irrita, há no livro coisas ridículas e outras desnecessárias, mas já nem sei o que pense a seu respeito. É um livro sincero, relata mesmo o inconveniente. Através dele reconstitui-se uma época e um estilo. Vou lê-lo todo. Talvez eu esteja de mal com a minha geração, com a «pose» e a arrogância que tínhamos e o mundo merdoso que gerámos. Deve ser por causa disso, Maria Filomena Mónica, que o livro me está a custar. Chama-se «Bilhete de Identidade»: de cidadão nacional!
17.11.05
A Ti-Mi e a Ti-Lú
Eu não sei se consiga ou deva, mas lá vou lendo, furioso comigo, o livro de «memórias» da Maria Filomena Mónica. Para não desistir de vez, saltei-lhe a parte da infância e da adolescência. Há minutos, quando interrompi a leitura, tinha ela descoberto o Vasco Pulido Valente e eu tinha ficado a saber por ela que ele «usava soquetes curtos», dado fundamental que explica afinal muita coisa que eu não compreendia. Antes disso, ainda li uma frase que sublinhei. Era a propósito da «avó Maria» e da «Ti-Mi e a Ti-Lú» e a frase dizia assim: «Nenhuma tinha marido ou, se os tinham, guardavam-nos longe». Ora aí está a fórmula mágica para se salvar a felicidade matrimonial: longe da vista e, se possível, do coração! E não me digam que não vale a pena o esforço irritante de se lerem livros írritos!
16.11.05
A ordem natural das coisas
Já nem sei como é possível evitá-los, aos livros. Hoje talvez tenha passado o teste decisivo. Ando a acumular tantos livros para acabar de ler que já deveria ter pudor em abeirar-me de outros. Lá consegui encerrar o torrencial «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, mas ainda vou a três quartos do tristonho «Os meus sentimentos» da Dulce Cardoso, falta-me a parte final do conturbado «O Acidente» do Mário Cabral, vou no princípio ainda do enevoado «Nítido Nulo», do Vergílio Ferreira, mas apeteceu-me ler e comecei-o ao Saramago, o das burlescas «Intermitências da Morte». E, no entanto, eu que embirro, sem saber sequer porquê, com a Maria Filomena Mónica, eu que, por causa disso me esquinei com o livro que ela escreveu, por saber que era dela e por duvidar que memórias capazes poderiam ser aquelas e que me interessariam, comprei hoje o livro. Quase diria comprei-lhe o livro, naquela forma de dizer de um leitor que quer ajudar um escritor. Comecei a lê-lo há pouco num banco cimentado de um centro comercial, enquanto esperava que acabassem umas variadas compras. Li quanto pude. Os outros livros, pacientes, aguardavam em casa a sua vez. Leio onde calha. Calha é infelizmente poucas vezes. Mesmo assim dou graças a Deus: aprendi a escrever, depois de ter aprendido a ler.
13.11.05
O que há e o que é
Era domingo e estava muito frio e eu vim para a rua, talvez por fazer sol. Trazia comigo o último caderno dos «Teoremas da Filosofia», que, devotadamente os da Filosofia Portuguesa vão animando com os seus escritos. E li no Pedro Sinde, filosofando à bolina, esta ideia de haver pessoas para quem existe apenas o movimento de rotação de si em torno de si, o perpétuo circular do dia e a noite da sua própria individualidade. E aprendi a perfeição do movimento de translação, seguindo as estações de todo um ano, a mutação de toda uma vida. Esta verdade astronómica pareceu-me ainda mais verdadeira, quando aplicada aos seres humanos. Partícula do universo, poeia cósmica, o homem reproduz em si e na sua insignificante individualidade toda a mecânica do sistema solar. O infinitamente pequeno é homólogo ao infinitamente pequeno, o um equivalente ao todo, o que há idêntico ao que é.
12.11.05
A morte suspensa
Há coisas que o tempo me ensina a aprender; a mais recente é porque motivo eu não gostava do Saramago. Claro que havia aquela história de ele, director do «Diário de Notícias», nos «anos da brasa», ter demitido uma série de jornalistas, muitos dos quais passaram um mau bocado por causa disso. Há um que conheço e que ainda hoje, por causa disso, se recusa a chamá-lo pelo nome e cada vez que o refere o faz como «o erva daninha», tal é, de facto, a definição do dicionário para o nome do nosso prémio Nobel da Literatura. E, no entanto, cheguei à conclusão do motivo profundo para não gostar dele e nada ter lido até agora que proviesse da sua pena. É que o autor do «Memorial do Covento» é de tal modo banal a falar de si, de tal modo pardo a falar do que pensa, que uma pessoa fica sem vontade de ler qualquer dos seus livros. Senti isso mesmo ao ler este sábado frio a entrevista óbvia que Adelino Gomes lhe faz e que o «Mil Folhas» de hoje edita. Felizmente estou a ler «As Intermitências da Morte» e com agrado a surpreender-lhe os bons momentos de uma história aliás surreal. Ao encontrar neste que é o seu último livro a menção aos «lares do feliz ocaso», lembrei-me do nome deste blog e quanto ele pressagia de memória de passamento e de dia de finados. É de tal modo assim que, ao pensar nisso, sinto a vertigem dos que têm medo de se debruçarem, por receio de lhes apetecer antecipar o fim dos dias, em vez de viverem, como diz o Saramago, neste «cemitério de vivos», com a «morte suspensa».
11.11.05
Conforme os dias
Mais uns dias sem vir aqui. Não é o tempo que me falta, é o espaço. Eu bem tento empurrar a vida toda para dentro do vazio que há em mim. A verdade é que sobeja mais para vivê-la do que para escrevê-la. Quando me sento para dizer como foi não me lembro bem, só ficou a ideia de que foi muito bom. Ou muito mau, conforme os dias.
8.11.05
Superstição ao fim do dia
É coisa rara hoje usarem-se termos da mitologia clássica. É coisa rara eu comprar um livro do Saramago. É coisa rara encontrarem-se livros do Aquilino Ribeiro, pois a Bertrand deixa-os esgotar e não os reedita, ou pelo menos é o que parece. Agora somadas todas estas raridades vejam o que é esta coisa notável. Fui hoje a uma livraria, porque por acaso se atrasou a hora de uma reunião. Andando pelo rodapé de uma estante dou de caras com um livro raro do Aquilino de que nunca tinha ouvido falar: «De Meca a Freixo de Espada à Cinta». Entretanto, andava ao rabusco por outra estante, ouço alguém perguntar o «tem cá o último livro do Saramago». Em suma, comprei o Aquilino mais o Saramago e mais uns tantos outros. Como tinha tempo fui plantar-me num café a folhear. O do Aquilino tinha uma dedicatória, em estilo de prefácio, «ao Dr. Heliodoro Caldeira, Grande Advogado, meu Patrono em Negros Delitos». Talvez por isso avancei curioso pelo prefácio, onde a linhas tantas de tal o autor do «Romance da Raposa» se põe a falar de um encerramento de uma urna de chumbo a que assistira. E a respeito escreve assim: «Vieram os alfaiates de cangalheiro e num ápice, um deles, com tesoira grande e indiferente como deve ser a de Átropos (...), etc., etc.». Visto o aquiliano prefácio, que é curto, guardando o livro para quando tiver tempo, atirei-me ao Saramago, o de «As Intermitências da Morte», a propósito de quem, ao lê-lo, me perdoo o mal que já pensei dele e o que venha a pensar no futuro e li ali: «A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivese resolvido embainhar a tesoura por um dia». Enfim, talvez seja melhor eu hoje ter cuidado comigo: um prefácio sobre um cangalheiro, um livro sobre a morte e tanto acaso junto sobre o ente que corta o fio da vida, é caso para regressar a casa e trancar-me dentro de um armário, à espera que chegue, enfim, o dia de amanhã. É que duas vezes numa mesma tarde tropeçar na palavra átropos, é demais para a minha esperança de vida!
7.11.05
Textos locais
Fui ontem lá jantar e à saída, com a amabilidade discreta de quem até no oferecer é amigo, estendeu-me o livro: tinha tido uma modesta tiragem de trezentos exemplares, em oitavo, em 1967, impresso modestamente em Alcobaça. São os «Textos Locais» do Luiz Pacheco, de seu nome completo Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco. Tenho-os aqui comigo. É um livro triste, como esta tarde fria, em que se sai à rua só mesmo para nos apetecer voltar para casa. Num post-facio à obra Serafim Ferreira chama a Pacheco «uma alma sem inquilinos». É uma boa definição; no caso, porém, uma alma por alugar, sem escritos na janela.
6.11.05
Um sol amigável
Tentei ler mais umas folhas do «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira. O meu exemplar original ficou numa dessas casas esquecidas do meu passado. Encontrei este numa livraria envelhecida, daquelas que vendem obras em segunda mão. O livro cheira a mofo. Os detractores do autor dizem que ele também cheirava a mofo. Os que me virem a ler e a escrever sobre o que leio, talvez concluam que eu próprio estou contaminado pelo mofo desta literatura. Mas enfim, tentei ler mas ao cruzar-me com aquela frase «alguém tem de andar só, para andarem os outros acompanhados» fui-me abaixo. O dia na rua está belíssimo, temos todos um sol morno e amigável por companhia.
3.11.05
Vontade de ler
Quando se não tem muito tempo e se tem muita vontade de ler, lê-se muita coisa ao mesmo tempo, para ficar a ilusão de que se lê mais. Há largas semanas atrás disse por aqui que andava a ler o segundo dos dois livros que escreveu a Dulce Cardoso e disse, ou dei a entender, que notável era esse livro. Talvez não tenha dito, por pudor, quanto dói a sua leitura. Hoje voltei a ele. Já vou na página 260 das 349 que ele tem. Cada vez que o retomo, vou à procura de um lápis, pois rara é a página onde não há algo a sublinhar. Estive há momentos, antes de vir aqui a olhar para um desses sublinhados, o da frase «não há nada que o silêncio não mate». Não sei se consiga voltar a ele. Pelo menos hoje não. O livro chama-se «Os meus sentimentos». Talvez por isso.
2.11.05
Passar a limpo
A Assírio & Alvim acaba de editar, num formato basto esquisito, mais um livro do Alexandre O'Neill, onde vem um poema que, ou muito me engano, e para isso tinha de me alçar daqui até à longínqua estante, ou não vem nas «Poesias Completas», que, a ser assim, completas é que não são. E num desses poemas leio um «...que quereis vós, todos vós, ó meus heróis da segunda hora?» que assim continua: «reentrai no sossego, deixai as folhinhas dormidas nos arquivos, deixai os vivos desenterrar os vivos, que esses, sim, deram o corpo ao manifesto, sem saberem, muitas vezes, o Manifesto de cor!».
30.10.05
A leitura
Eu confesso que já deveria ter lido o «Nítido Nulo» mas só agora é que o estou a ler. Há aliás na vida tanta coisa que eu já deveria ter vivido e que nem sei agora quando o irei viver. É o «gosto antecipado da sede que ainda não tenho». Vem lá no livro, assim, a sede de uma cerveja, a sede de uma vida. O personagem está preso e «as próprias grades são pintadas de branco para deixarem passar a alegria que puderem». Faltava-me este livro do Vergílio Ferreira. Encontrei-o, enfim. Não foi por causa de o não ter que o não lera, mas agora que o tenho, hei-de esgotá-lo de tanta leitura.
A hora
Hoje anoiteci mais cedo e acordei melhor dormido. Calculava que era por ter atrasado o relógio, até ter descoberto que era por ter pensado que o mundo mudara. Claro que mudara apenas na sua dimensão quantitativa, a de ter andado tudo para para trás. O presente passou súbito a passado, o futuro adiou-se-nos sem dar conta. Foi tudo pelas duas da manhã. Nesse momento, o hoje passou a ontem, dando-nos a oportunidade de o viver duas vezes. Azar meu o estar a dormir. Quando acordei, tinha a preguiça perdoada.
29.10.05
Chuva
Há neste hotel um recanto e nele uma janela e através dela uma palmeira. Animada pelo vento, acena-me os seus ramos, como alguém à distância na hora de partir. Há neste hotel a ideia fantasiosa de que a chuva, que o vento trouxe, perpetua o conforto de ficar. Há neste recanto o sentimento incómodo do acenar-me de fora, além da janela, aos que, como eu, decidiram ficar.
25.10.05
Aquém do possível
Imagine-se uma cabeça vazia, sem um pensamento, sem uma névoa de uma melancolia sequer. Imagine-se um corpo dorido de cansaço, espécie de reumatismo generalizado, os ossos num feixe, os músculos exaustos. Imagine-se um mundo despovoado de almas, atulhado de corpos sonâmbulos. Imagine-se. Não se saia da imaginação, fique-se assim imobilizado, os olhos escancarados de morto. Com o chegar do frio as coisas pioram. Eis junto a mim uma folha de papel, totalmente em branco. Nada do que eu pudesse ali escrever me é possível imaginá-lo.
23.10.05
Davam grandes mortes ao domingo
Li no jornal que morrem ao domingos jovens entre quinze e vinte e quatro anos. Pela leitura não percebi de que morriam. Sendo-se mais velho, ao domingo, morre-se de tristeza, alguns com a segunda feira da ilusão à vista.
19.10.05
Uma pausa
Há quem tenha jardins e passe por lá depois do jantar, só para ver como vai o que plantou. Aqui é mais ou menos parecido. Há dias em que não se semeou nada e fica-se a olhar para o passado. Há no homem aquela ânsia de criar, que o esgota. Uma pausa, preenchida com nada, eis a sua salvação.
18.10.05
A vingança
Lembro-me de ser miúdo e ver como era. Iam à capoeira, filavam uma e cravavam-lhe a faca na goela. O sangue esguichava às golfadas e ela estrebuchava frenética, recusando a morte. Acho que ainda cheguei a perguntar se lhe doía, mas tenho a certeza de que me mandaram calar. Habituei-me a comê-las, sem pensar nisso. Hoje juraram vingança e ameaçam matar-nos, aos milhares. Talvez nem perguntem se nos vai doer. É-lhes indiferente.
17.10.05
A declinação do eu
Olhou-se ao espelho, mirando-se reflexamente, sorriu-se na condicional, e continuou na forma gerundiva. Ao sair de casa descobriu que a sua vida era a voz passiva, uma forma indirecta de viver sem ser sujeito. Vivido que estava o que havia para viver, indiferente ao predicado de si, tornou-se um infinito substantivado. Hoje não há gramática que o conjugue.
16.10.05
O umbral
O desamparo aos dezassete anos era feito do refúgio em cantos abrigados, quantas vezes o umbral de uma janela, os olhos perdidos no descampado em frente. Reconheço-as, a uma e uma, cada fenda na cal da parede, as mossas na madeira pintada do caixilho, a memória embaciada deste local.
A porta fechada
Esta noite eu recordo a ideia de um pai, por detrás de uma porta fechada. Lentamente cresci até chegar ao puxador. Mas nessa altura tinha aprendido a bater, antes de entrar. Um sentimento forte, apesar de longínquo, recordo-o esta noite, crescendo lentamente em mim, aprendendo a fechar-se, como uma porta que se encerrasse, antes de alguém entrar.
A invisível presença
Há neste desvão de escada o que eu preciso para ter a ilusão de que, aninhado aqui, ninguém mais dá pela minha presença. Na minha infância, porque já houve em mim uma infância e vivida nesta mesma casa, sonhava-me aqui como se no lugar mágico da minha invisibilidade. Rodopiavam os mais crescidos, indiferentes à minha ausência, e até o arrastar penoso dos avós parecia mais preocupado com o para onde iam do que com o onde eu estaria. Há neste desvão o ter aprendido o que é, na vida, o não fazermos falta. Hoje, no jogo de acasos que é o viver-se, trocaram-se as peças no tabuleiro: este é o desvão onde se escondem todos eles, os idos e os que foram, e eu já nem dou sequer pela sua invisível presença.
Prontos
Há os que organizam a vida para estarem prontos aos cinquenta anos. Outros chegam a essa idade e a vida começa enfim a organizar-se-lhes. Estes últimos pensam ter ainda vinte anos; tarde descobrem terem muito menos tempo do que isso.
El Gordo!
Tinha a ideia de que éramos dez milhões e agora vejo no jornal que somos quatro milhões de gordos. Ou como vem na notícia, «em Portugal, a obesidade afecta quase quatro milhões de pessoas». Ao ler isto, neste domingo à espera da massada de peixe, lembro-me da frase que anda por um muro perto da minha casa: «situacionistas gordurosos tremei, a vossa celulite tem os dias contados». Lembro-me, escrevo e olho para o relógio: com esta mania de almoçarem às duas da tarde, que tal um pãozinho com queijo para ajudar a entreter?
15.10.05
O pó branco
Faendo-se eco de um encontro sobre saúde, o Diário de Notícias, sob o apelativo título «Este pó branco também mata» escreve que «o sal contribui para o aumento dos casos de hipertensão arterial, acidentes vasculares cerebrais (AVC), insuficiência cardíaca, cancro do estômago e osteoporose». Eu sei disso, e sendo hiper-tenso, ainda sei mais. Mas que querem! Já tentei viver uma vida insossa e ia morrendo, de tristeza!
14.10.05
E não passou
Há dias em que dá vontade de ir parar ao hospital, só que não se sabe é por causa de que maleita. No caso da preguiça, o grave é quando se tem alta: uma pessoa, habituada a tanta doença, fica sem saber o que fazer da saúde. Por causa disso, há quem nunca se cure. Vem isto a propósito de eu não vir aqui desde o dia 11: estive internado, para ver se me passava.
11.10.05
Rasteiros
A última vez que aqui estive dei conta de que tinha começado a chover. Hoje ao rever as notícias, percebi que pode chover mesmo a sério. Nunca entendi porque motivo é que se diria «que até os cães a bebem de pé». A minha dúvida é que os cães não andam de pé: com as quatro no chão, como andam, em rigor andam deitados, ligeiramente a cima do nível do chão, um pouco mais do que rasteiros. Eles e muita gente, pois há os outros, os que andam «abaixo de cão».
9.10.05
Mensagem do céu
Hoje finalmente o céu decidiu-se a chover. Acordei com a rua em frente de cara lavada, as árvores vivificadas em verde. Não fossem os raros automóveis e os regulares autocarros, nada parecia acontecer. Um ou outro eleitor matutino, daqueles que vão lá por obrigação, que os de convicção por vezes faltam, escapulia-se por debaixo de um guarda-chuva. Da janela do meu quarto encarei o mundo, animando-me, como se convencesse de que valia a pena começar. No fundo, é só mais um dia. Amanhã, pensa-se no outro.
8.10.05
Escrita embargada
Uma escrita torrencial, entrecortada dos gritos que a memória traz, uma escrita sufocada como a voz embargada na ânsia esganada de dizer, uma escrita desnorteada, de quem com ela quer apenas sair desde lugar: um lugar de silêncio, um lugar de solitário labirinto. Fosse essa a escrita possível, a vida teria ganho, enfim, um sentido. Mas não, esta não é já a escrita possível, esta é a escrita que foi necessária.
7.10.05
Clássica
Há táxis e táxis. Fui para Santa Apolónia num que lhe fugia o pé para a chinela. Regressei, desta feita num outro, onde se sintonizava na Rádio Clássica do Montijo, a que esteve para fechar, a que nem sempre emite, a que felizmente existe.
6.10.05
Chinelando
Ela encontrou a chinela e eu encontrei-a a ela na Rua do Capelão, ela encontrou a própria vida, eu encontrei o coração. Acreditem. Existe. Ouvi num táxi, em onda média, que ainda subiste, num mundo que ainda há.
Coma com pão
Foi ao folhear, vagueante, a folha oficial que descobri que ele há o «Clube de Caçadores da Açorda». Calculo que de quando em vez cacem uma perdiz, para a comer com a dita. O pior é quando lhes apetece açorda de bacalhau. Aí só com a ajuda do Clube dos Pescadores, o da Terra Nova!
5.10.05
Errantes e errados
Nietzshe, com a agudeza dos míopes, previu que o casamento se tornaria numa colecção errática de indivíduos, orientados à prossecução de fins egoístas. Toda a vida viveu celibatário, destinando egoisticamente um livro excepcional à grande família da humanidade.
4.10.05
O fado da História
A frase pertence ao José Cardoso Pires, num livro que eu penso que já citei aqui uma vez, por causa de um outro dos seus textos: «lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa». Sem querer ser injusto, penso que isso que está na frase era dantes, não porque não formiguem hoje portugueses, mas porque, quanto ao carrego da História, anda tudo mais leve e mais solto. Estamos como aqueles países que nasceram ontem: saltitantes de presente, indiferentes ao futuro, vazios de passado. A nossa única diferença é essa tristeza a que chamamos fado.
3.10.05
Os limites do sentir
Continuo a ler a «Conta Corrente». Há quem não perdoe ao Vergílio Ferreira o tê-la escrito, por isso que nela se patenteiam as suas obsessões nem sempre exaltantes. Há quem não o suporte vê-lo assim, em trajes menores e sem pose, neste diário incerto do homem-escritor. Por causa de a ter escrito, não poucos inimigos arranjou. E, no entanto, por tudo quanto no livro não vale a pena, há momentos de genialidade única, em que numa só frase se resume mais do que um compêndio de filosofia, todo um modo de pensar a vida, sentindo-a. Digo-o esta noite, ao ter lido a frase «é-se por dentro, por fora está-se». Após ela, recuso-me a ler mais o quer que seja; não me perdoaria, se o fizesse.
2.10.05
O salto
Se aquela figura literária do Eça de Queirós, que não era completamente viúva, encontrasse alguns dos seus leitores, que nunca são completamente casados, não haveria gente totalmente tristonha.
1.10.05
Marcha fúnebre
No Mil Folhas de hoje, que eu, como num ritual, leio com o jardim aqui em frente diante dos olhos, vêem excertos de uma conferência inédita do Luís de Freitas Branco, porque se lembraram que há cinquenta anos ele morreu. E nessa conferência fala o conferencista da interpretação cadavérica de toda a música considerada séria e elevada. Pois é precisamente assim que muita gente interpreta a vida que vive: descompassados, atonais, afinando o tom pelo coro, cadavericamente, em suma.
30.9.05
O intervalo
Os dias em que não se escreve, não são dias em que não se pensa, são apenas dias em que não se vive. A vida é isto, o intervalo entre capítulos. Chegando ao fim, percebe-se pelo índice como foi, até lá, é melhor nem saber.
29.9.05
Um corpo inteiro, uma alma partida
Não, não é preciso um homem desdobrar-se em vários, para alimentar vários personagens. Não, não é preciso socorrer-se da heteronímia para se ser mais do que um. Basta ser-se inteiro. Está reunida a primeira condição. A partir daí é só preciso um homem ir-se partindo, aos bocadinhos.
28.9.05
Vida de cão
Um meu amigo, inteligente e risonho, qualidades que raramente se conjugam, contou que o fogoso Camilo tinha, na ânsia de um emprego, oferecido ao carrancudo Herculano, um cão, para que este, animado pela gentileza, lhe arranjasse um qualquer ganha-pão suficiente. E contou mais que, como o emprego não vinha, pois que dependente de políticos, que caíam no Parlamento como tordos na canícula, o escritor de São Miguel de Seide não esteve para mais: veio ressabiado a Lisboa, e passando em frente da casa do historiador, aí vai de assobio, e num ápice tinha o cão de volta. Tudo isto tem um sabor a passado; hoje, nem os cães conhecem o dono, nem os empregos se arranjam à força de cão. O que ainda resta é o assobiar, nem que seja para o ar.
26.9.05
A esquina da vida
Para os que vieram hoje a esta esquina ver se me encontravam, saibam só que eu passei por aqui. Nada mais tem importância. Amanhã talvez volte, mesmo sem motivo, cão a passear ou jantar a digerir.
25.9.05
A morte anunciada nos céus
Li que o rouxinol dos caniços, migrante, voa três mil e quinhentas milhas de Portugal para a Mauritânia e Guiné-Bissau, sobrevivendo ao deserto do Sahara. E li que este ano, ante a seca do Verão em Portugal, estão ameaçados de morte, aos milhares, no Outono. Vêem-se na Ria Formosa, ignorando a morte anunciada.
24.9.05
O muro
A frase ali estava, visível na parede branca: não existe inveja no reino da esperança. Na rua, cozido com a parede, como se nem o muro existisse, um homem arquejava com uma guitarra. Numa das mãos o peso da sua caixa, no coração o seu som sem esperança.
Embuchado
Nas escopetas de carregar pela boca havia a bucha sem coice. A arma não tinha ressalto, o ponto de mira era fiel. Apertava-se tudo com uma vareta. Premido o gatilho, saltavam os miolos. Os amigos lamentavam e a vida seguia. Lembrei-me disto em Silves, num museu vivo de uma fábrica morta.
22.9.05
O cobrador de fraque
Assolado agora pela irada multidão e recalcitrante, a dos credores do tempo, ansiosos reclamantes do capital do afecto e dos juros de uma atenção, trancado em casa, entre a vergonha do débito e a impossibilidade de o cumprir, há um homem que revê os compromissos que assumiu, as promissórias que assinou, as expectativas que foi criando. Mais atrevidos os que clamam pelos deveres em atraso, os da profissão e os sociais, estão perto de lhe franquear a porta, arrombando-lha, expondo-lhe a vergonha. Outros, entre o condescendente e o resignado, aguardam, sem esperança, a sua vez, sentados no patamar da última ocasião. Para todos esses, os que como ele chegam à impossibilidade de solver, inventou-se a ideia da falência. É um opróbio segurante, mas é a moratória forçada de tudo o que se deve. Nem uma doença que o fulminasse o salvaria do que deve: ficaria a má fama, o fantasma do cobrador de fraque a persegui-lo ao fim dos tempos, estivesse nos altos céus, ou devolvido aos baixios de um outro inferno.
21.9.05
O homem abreviado
Há vidas assim, rudes e esgotantes. Felizmente são breves, no mal que fazem e no bem que sabem.
19.9.05
Satisfaz duas vezes
A cultura de parede é aquilo que os nómadas letrados partilham com os cães analfabetos: ambos aliviam ali as suas aflições. Numa delas vi há anos escrito o «tudo tem um fim, excepto a salsicha que tem dois». Só um desesperado em estado terminal escreve uma coisas destas: não é só o desejo de acabar; é o desejo de acabar duas vezes!
18.9.05
Numa só penada
E se eu escrevesse sobre a janela do abismo e a geometeria do ocaso? Na primeira sobre os suicidas da vida, os que vêem o mundo do alto e têm ânsias de profundidade? Na segunda sobre a contigência do espaço que acaba e a probabilidade do tempo que se vai, os que vivem a vida por baixo, soterrados de deveres. Tinha nisso pelo menos uma grande vantagem. Numa só penada arrumava dois blogs e numa só noite!
A Revolta das Palavras
Já houve quem, com amabilidade, ironizasse o facto de eu ir encerrando os blogs que criara. Para que se perceba que também aqui não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, aqui vem a notícia: repus no ciber-espaço o velho blog «A Revolta das Palavras», homónimo de uma coluna que expirou no «Diário de Notícias». Na lateral fica o «link» respectivo.
Separados de facto
Numa parede da Rua de São Bento, alguém escreveu em tempos «não quero viver num mundo em que ideias e sentimentos sejam coisas separadas».
Esse alguém, deve ter-se exilado daqui. Prudentemente a Câmara mandou pintar a parede. Se a frase pegasse o país evadia-se!
Esse alguém, deve ter-se exilado daqui. Prudentemente a Câmara mandou pintar a parede. Se a frase pegasse o país evadia-se!
17.9.05
Juro!
O António Variações cantou o fiz dos teus cabelos a minha bandeira, a propósito de Amália. O juro que não envelheço, do Luiz Pacheco, que acabo de ler, poderia ser, desfraldada ufana aos ventos, a minha, se a vida e seus vendavais raivosos não ma arrancarem das mãos. Juro!
O homem que não sabia escrever
É amiga, é leitora, escreve. E contou-me, nos intervalos dos nossos silêncios que eu, embirrento, por vezes prolongo, que a mãe, quando o pai se ausentava para o estrangeiro, sabendo que ele não escreveria, lhe metia na mala rimas de postais, onde já rabiscara «beijinhos para as três» [elas eram três], pedindo-lhe apenas que os fosse entregando nas recepções dos hóteis, para, ao menos, em casa saberem que ele estava bem. Eterneci-me ao ler, muito, como se, hesitante e envergonhado, postal na mão, tivesse pela frente na vida a recepção de um hotel.
Luiz Pacheco: um não-qualquer
Ter acordado enfim mais cedo com o propósito de conseguir ler. Tomar em mãos o «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, comprado há uma semana e atacar, sôfrego, a leitura. Rir por antecipação com a dedicatória a um respeitosamente «senhor doutor» postfaciador, e lembrar quanto o autor o gozou, de soslaio, numa entrevista recente a propósito do dito livro. Sublinhar no que se leu uma frase, das muitas frases sublinháveis. Pacheco é um anarco-bombista da literatura. Libertino das letras, lançava petardos e mandava cartões de pêsames a alguns mortos-vivos da sua especial predilecção. Muitos dos que o lêem são dos que ele diz em ironia que, ao conhecerem um escritor «um tipo que escreve», na altura «não se arreceiam que caiam sob a mira de um não-qualquer, mas duma máquina ou aparelhagem virada para a curiosidade, a perplexidade, o jogo, a provocação e tudo isto com fins práticos, de criar a vida pela escrita». Acordar cedo e sublinhar «criar a vida pela escrita». Tomar banho, sair à rua, o livro como companhia, esganado de vontade de escrever, remendadamente.
16.9.05
A ideia de mãe
Eu hoje faço uma pausa, quem me lê outra, por causa disso mesmo. Ficamos ambos, escritor e leitor de férias um do outro. O Guerra Junqueiro escreveu um livro chamado «A Musa em Férias». Havia um exemplar amarelecido na casa da minha mãe. É por causa disso, precisamente da ideia de mãe, que eu hoje faço uma pausa. Amanhã volto.
15.9.05
Um pintor no Chiado
O homem passeia-se pelo Chiado, penso que pelos lugares onde o Santa-Ritta pintor, para enfurecer as madames, passeava não «lulu», pois o não tinha, mas escova de dentes atada à trela de um cordel. Tentando sacar uma esmolinha, repete lenga-lenga miserabilista, em que as palavras desempregado, e sero-positivo, uma moeda e qualquer coisinha para o jantar se misturam, numa litania em que penso nem ele próprio parece acreditar. Hoje cruzou comigo e, para além do que de habitual diz a todos, acrescentou «e o que o seu coração quiser dar». Ora eu, em matéria de coração, ia à beira de um ataque cardíaco!
13.9.05
A madrugada do amanhã
Há dias tumultuários, em algazarra interior. Chegada a noite, nem se leu, nem se escreveu. Viveu-se. Nem sempre há mais para dizer. Está tudo dito. Entretanto o dia passou. Começa a madrugada do amanhã.
12.9.05
Um lugar para cada um
É uma homenagem de parede, na parede que eu vejo diariamente do meu quarto a frase «domadores de automóveis por moedas de cem». No circo motorizado em que a cidade se tornou, em que há feras em velocidade, e mais o volteio louco de mil e duzentos cavalos de tracção, por onde pululam jibóias ondulantes no trânsito congestionado, leões que cruzam vermelhos, e mais os paquidermes com atrelado dos transportes internacionais, eles, os domadores, são o resto do humano a dominar a fera. É uma vida de risco. Morre-se na estrada. Em troca de cem, cada um deles, braço pendente, no vai-vem do vem-vai rodoviário, inventam o que parece não haver: um lugar. Houvesse essa profissão para as almas, e a troco de cem, arrumava-se o que anda fora de mão e mais o que segue em sentido proibido, para cada um um canto, para todos o seu lugar. Ah!, como se nota, a parede é antiga, a frase é velha, os cem já eram. Mas mesmo com a correção monetária, a verdade circense ainda é o que é.
10.9.05
Azul metileno
Fui comprar o jornal e trouxe-o para casa. Era pequeno e azul. O título era pomposo: «Literatura Portuguesa no Mundo». No fundo era um primeiro volume de uma pequena enciclopédia sobre literatura portuguesa, distribuída com um jornal. Vêm nela os autores, com minúsculas bio-bibliografias. Não cheguei a ver se vinham todos, ou se viriam os mais importantes desses autores. Vi foi que a obra tinha fotografias: logo duas do Eugénio de Andrade, e mais duas do Manuel Alegre, mas nenhuma do Ruben A., como se o importante fosse ajudar a esquecê-lo. Algumas dessas fotografias trazem legendas como uma da Rua Augusta a dizer: «a protagonista de grande parte dos contos de Avenida de Roma é a cidade moderna». O a-propósito é que «Avenida de Roma» [letra «A»] é um romance de Artur Portela [Filho]. Mas a obra traz títulos de livros. E aí é que a coisa se complica. Livro dedicado à primeira letra do alfabeto, encaixa em «A», a martelo, o livro «Amor é fodido, O» um romance do Miguel Esteves Cardoso, que, já agora, se calhar cabia melhor na letra «F». É claro não traz a «Aparição», como se fosse um livro sem importância alguma, que obviamente nem valesse a pena referir, assim dando espaço para as «Aparições», explicando que é uma «colectânea de poesias de Guilherme de Azevedo». Naturalmente, colectânea incontornável! E assim sucessivamente. Prometo comprar os outros todos, jornal a jornal. São momentos de bom-humor garantido. Do Lobo Antunes o azuláceo opúsculo publica com destaque uma foto acompanhada de um (1942-) para que se perceba que o homem ainda não morreu e adita-se-lhe a legenda «António Lobo Antunes foi várias vezes proposto para o Prémio Nobel da Literatura», lembrança apta a irritar o autor até à apoplexia, o que dá ao traço um valor simbólico nada despiciendo.
O pavilhão dois
É assim como num imenso hospital, a blogoesfera. Saio ao meu corredor, e no pavilhão dois, porta a porta, como em celas monásticas, ei-los, internados, a sua loucura como única companhia fiel nas madrugadas ansiosas. São, na diminuta clausura de que fazem lar, momentos únicos de beleza. Há no sangrarem-se, esvaindo-se em vida, a beleza inflamada do vermelho dos seus quadros e muitos pintam. Quantos outros fazem da nevrose literatura. Passeio-me silencioso. Talvez eu devesse respeitar o sofrimento de cada palavra, o desespero de cada cor. Muitos estão às grades, mãos enclavinhadas e raivosas, os olhos a pedir que olhem para si. O afago de um comentário lhes bastaria.
Clonc, clonc!
Vai ser em Alpedrinha uma «Feira de Chocalhos» e na próxima sexta-feira. Rebanhos orgulhosos, bali! A coisa promete. Os adornos da vossa servidão é ali que se mostram. Ah! Actua também ali um conjunto chamado, em modo sugestivo, «Gaitafolia». A coisa promete e é já na próxima sexta-feira. Por mim, fico por cá, com o «morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela». Gostos.
O comboio das duas
Eu confesso que às vezes se cria nestas coisas da blogoesfera o complexo da Cinderela. Na ânsia de vir aqui todos os dias, a meia-noite passou a ser o limite além do qual se atinje o impossível. Estou como o empregado da noite que corria esganado para o comboio das duas da madrugada, ante o horror de esgotar num táxi o que não almoçara. Hoje não consegui. Aqui estou, por isso, descalço e esfaimado!
8.9.05
O belo e o bom
Todos os dias a luta pertinaz pelas obrigações e a ânsia de assomar a uma janela em busca de ar. Não a esta janela propriamente, cúmulo de reminiscências sublimadas, mas a uma qualquer escotilha de onde se divise o marulhar do oceano. Já dormi pela noite numa camarata empilhada de um navio em sobressalto. Atulhados na terceira classe nós e uma mescla de cheiros pestilentos, a suores ácidos e refogados avinhados. Eu era o mais novo. Tinha dezassete anos e viajava assim. Ainda hoje, sem esforço, lembro-me dos ruídos nocturnos, dejectos, defecantes, enojados de tanto vomitar. O mundo nem sempre é belo, a vida nem sempre foi boa. Quando chove e a natureza estrepitosa lava o que existe, renovo-me por dentro, pertinaz sempre, ansioso por amanhã.
7.9.05
Papel em branco
Nos tempos em que eu ainda andava nas primeiras letras havia uns cadernos com duas linhas, dentro das quais nós, crianças desprevenidas, destinadas à ordem e treinadas para a arrumação, tentávamos encaixar a nossa hesitante caligrafia e através dela as palavras que pouco tinham para dizer. Depois, com a juventude, veio a tristeza em papel branco, as palavras em verso e a caligrafia descuidada. Muitos passaram-se no estado adulto para o papel quadriculado, o do mundo das contas dentro do universo dos números. Alguns outros tiveram a sorte do papel impresso, e são escrevinhadores ácidos a corpo onze e a cinco colunas, poucos de todos exprimem-se desbragadamente em livro. Tivessemos consciência de nós e escreveríamos a papel vegetal, copiando o que os outros escreveram. Não damos conta, mas somos a geração que não tem nada já para dizer!
Cor de burro e quando foge
A língua portuguesa tem fraseologias inesperadas. Imaginar-se que se pode dizer amuar através da frase «amarrar a burra», não é para todos: muito menos para os burros que amuam! Agora o mais interessante é que o desamuar diz-se, na mesma forma elíptica, «desmontar da burra». O que é altamente equívoco e altaneiro, sobretudo para quem fica apeado.
6.9.05
Saudades da badana
Tentei ler o Jorge Listopad, por duas razões. Primeiro, porque nunca tinha lido nada dele. Segundo, porque eram pequenos contos, quadros e cenas, daqueles que se lê um [conto] e se vai jantar, vai outra [cena] antes de dormir. Claro que vi na badana do livro que ele é da Academia das Ciências e também da Academia de Belas Artes e também ainda catedrático jubilado. Bom! Mesmo assim, tentei ler o Listopad, mas não fui capaz. Já sei! Adio o projecto! Talvez para este fim de semana: um [quadro] ao pequeno-almoço, para começar, guardo a cena para a merenda. O segundo volume tem um prefácio escrito em Vilamoura! Ora aí está o porquê!
5.9.05
O livro das horas
Com a passagem das horas e o sumir-se do sol, a estante primeiro, logo a réstea de parede, enfim o umbral da janela vão perdendo progressivamente a luminosidade que lhes dá a aparência de vida, o encanto da cor. Uma penumbra acastanhada que o anoitecer degrada em cinzento assenhoreia-se de tudo. Mal consigo divisar dos livros as lombadas, não consigo nelas perceber do que tratam. Na rua os poucos passeantes parecem vultos. E no entanto, em alguns desses livros estão viagens minhas pelo imaginário da surpresa, muitas dessas silhuetas proporcionar-me-iam o encanto da descoberta. Falta-me luz. Talvez a ideia do amanhã me reconforte. Para onde não chegar esta esperança, resta-me a luz eléctrica.
4.9.05
Fogo!
O painel era imenso, posto numa monótona auto-estrada, despida de árvores, tão seca que não havia nada para arder. Mas estava lá. O essencial dele era uma fotografia de uma mata ardida, tudo em tons desolados de cinza, com troncos carbonizados em evidência, para ilustrar o desastre de um incêndio. A legenda é que era de um ridículo total. Dizia, em tom melífluo, que uma beata jogada pela janela, «pode prejudicar a floresta». Assim mesmo «prejudicar», neste estilo, quase diria hesitante, timorato, como se falando timidamente de uma insignificância, diria a pedir desculpa de lembrar. Um aviso num canteiro a pedir para não pisar a relva era capaz de ser mais afirmativo. Com cartazes destes estamos todos incinerados!
3.9.05
Há quem se ria na ria
O dia atazanava de calor. A fome apertava. Ao longo do passseio, ciganas vendiam roupas baratas, uns negros, óculos de sol, tudo produtos com marca igual às marcas. Zaranguitando a caminho do restaurante possível, conversa tartamuda, a fome a ensarilhar as ideias, dei com ele. Comia uma sopa de cenouras de uma malga em plástico. Vendia um livro, o seu livro de versos, poemas, os seus poemas avulsos. Olhou-me do interior profundo de si, uns olhos encovados num rosto envelhecido à força das barbas brancas. Prometi-me que no regresso lhe compraria qualquer coisa. Falhei deliberadamente, por pudor. Agora recordo o seu anúncio, num papelito sem graça: tire um poema e deixe uma moeda. Podia ser o lema deste blog, menos o jardim. Adoro sopa de cenouras.
2.9.05
A transmigração das almas
Depois de ter escrito há momentos sobre o Luiz Pacheco, lembrei-me do que há uns poucos anos escrevi no «Jornal de Negócios», numa crónicas a que chamava «O Baile de Máscaras». Aí lembrei que o homem que para si recusa o epíteto de «escritor maldito» havia editado em 1970 os seus «Textos de Guerrilha». Num desses textos iconoclastas Pacheco lembrava a lista dos ilustres artistas convidados pelo Presidente da República para um jantar no Palácio de Belém. Só que com um pormenor provocatório: o Venerando anfitrião era o almirante Américo Tomás, que o 25 de Abril apeou de Presidente; o convidado o cineasta Manuel de Oliveira [mais tarde crismado como Manoel de Oliveira] o mesmo que, provocatoriamente também, em “Non ou a vã glória de mandar”, ligaria o 25 de Abril a Alcácer Quibir. Tudo com um final fantástico: no filme «Conversa Acabada» o realizador João Botelho mascara o Pacheco como Fernando Pessoa «moribundo e logo esticado, com o Manoel de Oliveira, padreca, a rezar-lhe o responso, num latim esgosmado». É mesmo caso para dizer, alma encomendada, alma ressuscitada.
Individualismo colectivista
O Luiz Pacheco, na entrevista que deu ao Rodrigues da Silva, para o último número do JL, diz que não vê televisão para não se sentir mais isolado. O mesmo sentem, por paradoxal que pareça, os que vivem em apartamentos equipados com antena colectiva.
1.9.05
O remanescente
E, no entanto, a ideia de que toda aquela literatura pudesse ser auto-biográfica, como se descrevesse, afinal, incessantemente, sob várias formas, a mesma vida e remoesse as mesmas obsessões, perseguia-o. Talvez, por isso, a incapacidade de escrever, como se não houvesse um qualquer futuro para viver e já não houvesse modo de contar, uma vez mais, o mesmo passado. Hoje, remanescente naquele local de veraneio, o vento por companhia, tinha diante de si, povoando-o, a angústia do papel em branco: a amnésia do mundo de ontem era a sua doença. Todos os anúncios de jornal pareciam dizer-lhe respeito.
A época baixa
Terminara, enfim, a época balnear e parecia que só ele ficara. Lá dentro, atarefadas criadas arrumavam camas agora inúteis, toalhas para a próxima estação. No pátio, o velho porteiro, lavava, silencioso, o chão à mangueira. Uma brisa fria, sentidamente marítima, salgada, áspera, agitava as copas das palmeiras na esplanada vazia. Sozinho, confundia o quarto com a casa, um momento com uma vida. Descobriu o que é ser hóspede, a meia-pensão. Hoje restava-lhe aquele livro, não o que lia, mas o que não conseguia escrever.
31.8.05
A época de recurso
Trancado na casa de praia, um estudante prepara a época de Setembro. Pela frente, milhões de folhas por estudar. Ansioso, faz resumos. Hoje é dia de jantar fora. Depois, mais uma madrugada, a rádio como companhia próxima, a cidade como memória distante. Trancado, um estudante envelhece.
O sol
Ontem não vim aqui. Isso não tem importância alguma. Só a mim me incomodou. Num blog que se chama janela, admitamos que ela estava empenada. O sol faz destas coisas. Tal como no Mersault do Camus, foi o sol, só o sol.
29.8.05
Explicando melhor
A janela do ocaso daria, no imaginário de quem lê, esplendorosamente sobre o mar. Dela se veria o instante mágico do raio verde, o segundo único em que se some a luz diurna e a noite chega, morna e equívoca. Só que o sol também se põe por detrás de duras serranias, entre azuis brumosos e verdes espessos, visto de frestas enfarruscadas de fuligem, chaminés improvisadas de fumeiros vespertinos, prenunciando o caldo e a deita. E igualmente há o anoitecer na charneca da planície, ainda mal dispersas as vagas ondulantes das tardes de calor, o dia de amanhã monótono como o de hoje e como ele sem história futura. A verdade é que tudo ocorre nesta nesga de cidade. Mísera janela, insignificante mansarda, um terceiro esquerdo que às quatro da tarde perdeu a luz, e pela noite se afunda em escuridão. A janela do ocaso são as tabuínhas cerradas de uma vida a encurtar-se, vivida sofregamente nesta escrita a entristecer-se.
28.8.05
A chave sextavada
O Mickey Mouse tem seis dedos, o que é a unidade de medida do sistema hexadecimal. Tudo se mede na escala de seis, como na cronologia: sessenta minutos, sessenta segundos, trezentos e sessenta minutos. Rafael pintou em pelo menos três dos seus quadros as figuras de São José, do Papa Sisto IV e de São João Baptista com igual polidactilia. A superstição leva a pensar que um tal número de dedos equivale a um sexto sentido. Uma coisa é certa, criaturas destas só contam as coisas às dúzias e não é por cupidez, é porque são assim de nascença.
27.8.05
O jardim das delícias
Passeava madame sua nervosa cadelinha, em aprazível jardim nocturno, não sem que de súbito surgisse, vindo das sombras sinistras de um arbusto, ávido canzarrão. Atiçados pelo instinto, dir-se-ia, no que isso é possível em cão, caíram nos braços um do outro. Cena a princípio ternurenta, o frenezim rápido deu em equívoco, num instante em embaraço. Num volteio de snifadelas mútuas, dir-se-ia que, indiferentes ao mundo, ali mesmo se enroscariam em amplexo obsceno. Munida do único meio pelo qual garantiria a moral canídea e protegeria a decência humana, madame, ruborizada retesava a trela, aos sacões. Num espamo final de fúria mal contida, cadelinha e cão ensarilhados na correia, arrastados enfim jardim fora, entre risos trocistas dos passeantes e a cólera disciplinadora da senhora. Amanhã, estou certo, passeará madame, inocente gato, arisco miau.
26.8.05
A mãe
Era um pequeno café, de balcão minúsculo, daqueles de bica cheia e sandes de queijo com pouca manteiga. A menina que ali servia esboçava um sorisso que as olheiras fundas demonstravam esforçado. Uma luz violácea, nocturna, iluminou-lhe por momentos um rosto miúdo e exausto. Sentada a um canto, uma criança ensonada fazia brinquedos de latas vazias: «Mãe, vamos para casa ou a nossa casa é aqui?». Senti vergonha de pedir o meu café, como se assim perpetuasse aquela desumana escravidão. Na esplanada, sonoras gargalhadas de boa disposição, enchiam a noite.
25.8.05
O às vezes do dia
Nem sempre há que dizer, ou para escrever. Nem sempre há que ouvir. Muitas vezes há que fingir. Mas o que há sempre, na realidade surda, muda e analfabeta da vida, é o dia de amanhã.
24.8.05
Uma ensaboadela urgente
Segundo reza a folha oficial, o Decreto-Lei n.º 142/2005 veio estabelecer o regime jurídico dos produtos cosméticos e de higiene corporal, transpondo as Directivas nºs 2003/15/CE, 2003/80/CE, 2003/83/CE, 2004/87/CE, 2004/88/CE, 2003/15/CE, 2004/94/CE e 2005/9/CE, que alteraram a Directiva nº 76/768/CEE, do Conselho, de 27 de Julho, relativa à aproximação das legislações dos Estados membros respeitantes aos produtos cosméticos. Oportuna legislação, num momento em que tudo isto já cheira mal! Uma só coisa me aflige, e ainda não li a nóvel legislação. É que se essa Europa jurídica, que tanto tem estrangeirado a nossa pátria e desconsiderado a nossa identidade nacional, se terá lembrado de legislar sobre o sabão macaco! O nosso!
23.8.05
22.8.05
A caça grossa
Já se falou que chegue nas férias do sujeito e terem sido no Quénia. Mas uma coisa ninguém disse. É que ainda era só putativo candidato ao lugar que ocupa e já o homem em entrevista ao «Expresso» se definiu como um «animal feroz». Ora, por ser assim, a ir ao Quénia, uma criatura destas não poderia ir à caça, quando muito para ser caçado. Isto porque para ir ver os bichos na reserva, vê-nos a nós, a fugir da queimada!
Modos de ler
Eu confesso que não consigo ler o livro do Mário Cláudio sobre o Amadeu Sousa Cardoso [ou Amadeo Souza-Cardoso, já nem sei]. O livro tem o aliciante de ser pequeno, mas é como aqueles caminhos curtos mas pedregosos. Doem-me os pés. Vou tentar lê-lo de outro modo, talvez com as mãos.
21.8.05
Semana aziaga
Ao domingo eu vejo sempre o meu horóscopo no jornal. Não que me guie pelo que lá se diz. É só para ficar com a sensação de que a partir de segunda-feira a vida não é como eu gostava que fosse, mas sim como está predestinado que seja. Depois, vem o começo da semana e esqueço as previsões e luto como um danado para impor a minha regra. Domingo seguinte, volto ao mesmo e compro o jornal. É um divertimento inocente: eu a fazer como se fosse livre, o horóscopo a ser como se fosse fatal. Esta semana, porém, o meu universo resvalou. Não só o horóscopo não trazia o Carneiro como repetia duas vezes o Leão. Fiquei sem saber como vai ser e a desconfiar que isto, afinal, é na base do tanto faz. Temo o pior: a ser a vida sem predestinação e só em função do que eu quero, temos desastre pela certa.
O número que é um logro
«Senhor José», o problema é o seu computador que tem um «spyware». «Senhor José, qual o seu tipo de acesso?». «Senhor José, vá ao iniciar e carregue em executar». «Senhor José, vamos ligar o computador directamente ao modem». «Senhor José o senhor não tem um cabo USB?» «Senhor José quando é que disse que lhe surgiu o problema?». «Mas senhor José se o senhor diz que toda a gente tem internet menos o senhor, pode ser algum problema na partição da rede. Aguarde um momento...». «Senhor José, obrigado por ter aguardado. Importa-se de verificar qual a luz do modem que está a piscar?». «Está lá? Senhor José? Está?». Click! Desculpem, a «net» voltou. Não sei como, nem porquê. Voltou, pura e simplesmente!.«Obrigado, senhor José. Posso ser-lhe útil em mais alguma coisa?». «Uma bifana e uma imperial?? Senhor José, o senhor deve ter-se enganado no número...».
19.8.05
A mesa oito
Cheguei esfaimado. Restaurante cheio, a esta hora, hoje é quinta, vem tudo da praia, tenha paciência mas olhe ó faz favor talvez esta mesa. Plantei-me em frente. Eram quatro: marido lingrinhas, senhora anafadota, filha espigadota, menino indigesto, com ar de acampados. Alapados à mesa, não descolavam. Só que era a única mesa, a minha mesa prometida. Sorri, num incentivo ao ala! Faltavam, porém, a amendoa amarga, a tizana quentinha, o para mim nada e o corneto de morango, por esta ordem. Vieram, depois de um século. Voltei a sorrir, agora vagamente implorante. Será a minha mesinha, desculpem, mas não há pressa, estejam à vontade. Bebericada, sorvida, arrependida, lambido, tudo também assim. Tudo muito lentamente, com todos os vagares. Fiz um esgar, a dentuça a ranger. Três e meia da tarde. Mas faltava ainda o cigarro, o chichi, o telefonar, o quero mais outro geladinho. Que bem que se está aqui! Foi aí que a coisa se deu! Uma vertigem, um instinto primitivo, picos eriçam-se na pele, sobem os sangues à moleirinha! Sorri! Estejam à vontade! Por amor de Deus... Não há pressa! Afinal estamos em férias!
18.8.05
O lugar incógnito
O irrequietismo, a ânsia permanente, a intranquilidade fazedora, a vertigem da viagem, as saudades prematuras do lugar incógnito, é esse «o combate com o demónio», o génio a expandir-se no espírito medíocre onde a fatalidade o colocou. Enganam-se os que supõem que há seres excepcionais dentro de seres excepcionais, como bebidas de eleição em garrafas de cristal. A tragédia da nossa condição é precisamente essa, a de umas pernas musculosas num ser paralítico, uma imaginação incomum numa mente instável. Há em tudo isso um cansaço que adormece, um desespero que impede de dormir.
17.8.05
Felizmente há fusíveis
Há nos automóveis um sistema que carrega e outro que acumula. Naqueles chamam-se, respectivamente, o dínamo e a bateria. Como a corrente é alterna, ao dínamo chama-se também alternador. Nos humanos é igual, com uma única diferença: a corrente é contínua. Dei, por isso hoje, ao verificar, que ou a minha bateria morreu ou o dínamo carregou de mais: faço curto-circuito.
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