29.12.05

Na imensidão de um muro

Eu tenho um amigo que em cada Natal manda imprir um livrinho com poemas e pequenos outros textos que selecciona e o distribui por aqueles a quem quer obsequiar. Este ano, uma amiga fez o mesmo com belíssimos textos seus. Fale-se, para já, do primeiro, onde eu leio o que estará inscrito num momento da imensidão da Grande Muralha da China: «a certeza guardada como reserva, elogios não esperados de um artista, a descoberta da nobreza em nós próprios». São as três coisas boas.

28.12.05

Uma língua que ecoa

Continuam as leituras compulsivas para o fechar do já atrasado livro. Há sempre uma pausa agradável, mesmo nos dias que nos entristecem. No caso, foi ao ler nas memórias de Elizabeth Hill, a prima russa da minha biografada, o momento em que ela assiste às aulas de russo na Universidade, em Inglaterra. Ministradas por um professor arménio, os seus alunos eram obedientes oficiais do Exército britânico, que, ante o facto de o professor repetir, para melhor audibilidade, cada palavra do vocabulário a memorizar, convenceram-se, com seriedade, que em russo cada palavra se pronunciava, sabe-se lá porquê, duas vezes: «niet, niet», «da, da»!

O lugar de toda a gente

O livro trata da vida quotidina em São Petersburgo na época romântica. Estou a estudá-lo porque a minha biografada, Nathalie Sergueiew nasceu naquela que Pedro o Grande quis que fosse a janela da Rússia sobre a Europa. Há nele um capítulo que trata da condição feminina e outro da vida cultural nessa cosmopolita cidade. Não recordo em qual vem a propósito de Elizabeth Khitrovo, filha do general Koutozov que, estando doente, e não podendo receber nos seus salões, como costumava, a corte de intelectuais, artistas e homens de cultura que a frequentavam, abriu-lhes as portas do seu quarto e a um, com equívoca amabilidade, lhe disse: não, não se sente aí nessa cadeira, pois é a preferida de Putschkine, nem naquele fauteil, pois é o de Viguel. Sente-se aqui, na minha cama, que é o lugar de toda a gente. Uns anos depois, os sovietes arancavam em armas com o sonho de que isso era uma verdade universal para todas as coisas, em todos os lugares.

27.12.05

Vocês, vejam lá!

Vi-o, na capa do JL, ao professor Matoso, o historiador. E lembrei-me que tinha de comprar o jornal. Na papelaria o homem disse-me um mas este é o da semana passada e acresecentou mais é que isto sai de quinze em quinze dias. Como eu lhe disse um convicto eu sei eu sei, mas é que me esqueci de o comprar, rematou-me com um pois é, este é daqueles que nunca se desactualizam! Pois não, vim eu a pensar. E. de facto, lá dentro ainda se fala do Afonso Henriques, vejam lá!

26.12.05

Prognóstico reservado

Saíu também a Geometria do Abismo da câmara de reanimação em que se encontrava. É claro que a dispersão exaure e mata de fadiga quem escreve e de cansaço a quem lê. Talvez por isso a «geométrica noção dos males e dos remédios» ajude um pouco na convalescença.

A lenda dos malvados

Por andar a escrever um livro sobre a pintora Sonia Delaunay acabei hoje, dia seguinte ao de Natal, a leitura minuciosa do livro que o Mário Cláudio escreveu sobre Amadeo de Souza-Cardozo. Mário Cláudio é um dos que felizmente encontrou depois do Direito uma forma de se salvar, pela literatura. O livro é superlativo, como momentos extravagantes de observação, como quando surpreende que na vida do seu biografado «as mulheres desfilam no horizonte de sua mira, como outras tantas hipóteses de conhecimento de si mesmo». No caso são, em Paris, incessantes «expedições cinegéticas do amor», em que entrecruzam mulheres «exaustivamente nuas», «a entrega a ninfas e harpias que caracteriza a lenda dos malvados». Tudo acaba, porém, no caso de Amadeo ainda sem completar trinta e um anos, no dia vinte e sete de Outubro de mil novecentos e dezoito. Nesse dia «a vida que findara começa, como todas as que se extinguem, no reviver do palpitar definitivo das suas cores». Mata a pneumónica um extraordinário pintor: «pessoas de tal nervo, só porque não podem dar-se ao luxo da ausência de si próprias, se não ausentam dos outros».

Enleante cuidado

Repare-se num gato a atravessar numa casa por entre obstáculos miúdos e dispersos. Tem de articular quatro patas, fazer passar um corpo horizontal, extenso em excesso comparativamente com a sua distância do chã,. maior em comprimento do que em altura. Compare-se com o homem, que tem duas pernas e não quatro e, porque na vertical, ocupa menos raio de acção. Veja-se agora a trapalhice do humano e a destreza do felino. De vez em quando lá vai um bibelot em cacos. Segue-se uma zaragata, não de miaus, mas de berros!

25.12.05

Amar

Havia-os em todas as casas dos anos quarenta, com aquelas capas que hoje ressuscitaram para o bom gosto, os livros do Stefan Zweig. Alguém disse outro dia que ele era um escritor mediano. E, no entanto, este domingo de Natal a sua descrição de Sigmund Freud devolveu-me, enfim, a compreensão respeitosa pela escola psicanalista de Viena, o modo como ele comenta o Ulisses de James Joyce ensinou-me, enfim, o que é o génio de escrever. Um homem destes ama os livros. Sobre eles escreveu um agradecimento singular: "os livros esperam, em silêncio. Chamam, convidam-nos, mas não exigem". Só quem ama, respeitando-se, escreve uma coisa assim.

A estrada

Chove e é domingo e por ser Natal há nesta estrada esperanças contentes e memórias entristecidas transportando-se no sonho reflexo da ilusão.

24.12.05

Os limites da compreensão

Interceptou-me na rua e disse-me que representava o senso comum, tal como John Locke. Eu sei que é inesperado ser-se interrompido numa rua, invulgar quando isso acontece numa noite de Natal, excepcional para nos virem falar no senso comum, caso único quando é alguém que se diz idêntico a John Locke. Locke nasceum em 1632. Um dos pontos nevrálgicos do seu contributo para a filosofia foi a compreensão dos limites do entendimento humano. Eis precisamente com o que me confrontei esta noite, a minha incapacidade de pereceber o que se passava com esta mulher, mesmo em termos de senso comum. Ouvimo-nos e sem que nos tivéssemos entendido, mutuamente nos desejámos um Bom Natal.

De vésperas

Há um ditado brasileiro que diz que «às vezes é preciso fingir de morto para continuar vivendo». Talvez tenha sido isso. Tal como como nos corpos em agonia, a Mãe Natureza desliga-lhes tudo o que gasta energia vital, lançando-os em coma. Fica o mínimo aplicável à sobrevivência. Não escrevi, mal li, quase não pensei. No mais, tentei cumprir as minhas obrigações profissionais e os meus deveres pessoais. Aqui estou, quase sem fôlego, na véspera de Natal. Quando eu era miúdo ansiava por amanhã. Hoje também.

12.12.05

Sabina Freire

Ora entre o carrego de livros que, entusiasta, comprei a semana que passou, encontrei, em cuidada encadernação já moída de maus tratos, o «Sabina Freire», peça de teatro de Manuel Teixeira-Gomes, que já foi Presidente da República e de quem já falei aqui. Na linguagem redonda da época o autor apresenta assim a sua personagem: «ondulosa, braços magros, cinta fina, quadris estreitos, seio farto e inflando na bem geminada curva dos bem distintos pomos». Um homem lê isto e vê, como se um cego em braille, tacteando as letras com as pontas dos dedos.

O acaso persistente

Este fim de semana dei comigo a pensar como haveria de escrever um livro que começara há semanas a alinhavar, mas que não encontrara ainda forma de se expressar. Hoje, depois do jantar, fui à mala do carro, para alombar escada acima com dois sacos de alfarrábios que comprei há dias a uma elegante e distinta senhora que vende livros com a categoria de quem recebe amigos para um cuidado chá. Uma dessas preciosidades é do Metzner Leone, e é um romance que abre com uma frase que eu sei que é muito minha: «qualquer romance tem, pelo menos, duas histórias: a que conta o livro, e a história do próprio livro». Eis neste livro, nas palavras de outro, o que eu havia pensado para o meu livro. Claro que é uma simples coincidência, daquelas que nos martelam a cabeça de persistentes.

11.12.05

E é melhor nem pensar!

Eu disse ontem aqui que estava a ler o livro de contos da Florbela Espanca, mas não disse que ele se chama «O Dominó Preto», nem que tinha conseguido ler o conto que dá nome ao livro, na ânsia que fosse o melhor. O tom geral da escrita é aquela calda lacrimosa e adocicada que torna cada uma das linhas como se uma caminhada dissolvente e contribui para a enervação do leitor. A história é a do marçano plebeu, o José, que se enamora da longínqua e distinta cliente, a Maria, e que por marcar encontro em noite de Carnaval num jardim público ao qual ela não aparece, se mata, insolitamente à facada. Como personagem que se preza, o José morre mesmo, no último parágrafo do conto, com uma andorinha a ajudar à cena, passando-lhe veloz «rente à cara dele, com um gritinho de alegria». É assim. A surpresa é que há na narrativa aqueles momentos de lubricidade oculta, como mão discreta entre rendinhas íntimas: não é tanto o dar-se o leitor a perceber nela o «passinho grácil», a «boca fresca» de «polpa carnuda e sumarenta de um morango acabado de colher»; é mais aquele passo em que o José lhe ouve, em imaginação doente, «o riso garoto cheio de reticências, evocador de carícias proibidas e desejadas, o riso que às vezes lhe fazia vir à ideia coisas em que seria melhor não pensar». Num seu diário Florbela definiu-se como «casta sem formalidades», «a palpitar de seiva quente». Percebe-se, e muito bem.

Florbela: conhecer-me!

Eu sei que esta semana fez anos que nasceu a Floberla Espanca, que nasceu em Dezembro e em Dezembro quis morrer. Hoje, já longe da data, tenho comigo apenas um livro de contos que ela escreveu e peço-lhe ajuda para poder ter algo de digno a dizer. É pena, porque como disse a Ivette Kace Centeno, que prefaciou uma sua edição, «incomoda nos contos o fácil dos estereótipos». Mas nem tudo é mau neste momento residual de lembrar a tragédia de uma vida. É que nesse livro e nesse «prefácio», que melhor se chamaria de introdução, é lembrado um momento do seu «Diário do Último Ano» aquele em que Florbela configura a eventualidade de, quando enfim morrer, alguém ler aqueles seus «descosidos monólogos» e assim «realize o que eu não pude: conhecer-me». Por mim tentei, sem ser capaz e vim aqui dizê-lo, assim alguém me ajude.

10.12.05

Demência, Majestade!

A Fenda editou um estudo do Ezra Pound sobre Camões. Disse-mo um livreiro de bairro, um entusiasta que tenta sobreviver há cinco anos neste mercado de ferocidade mansa que são os livros. Encontrei o opúsculo numa daquelas livrarias de Centro Comercial que agora parecem só ter lixo embrulhado em papel vistoso. Li-o hoje, sábado de manhã, num insólito local, a última fila de bancos da Basílica da Estrela. O texto é curto e trata essencialmente de um tema erudito, o da problemática da tradução de «Os Lusíadas». O que é um desastre é a revisão da tradução. Não fosse a solenidade do local, que umas jovens turistas excepcionavam, viçosas e matinais, tinha-me esbarrigado a rir, sobretudo naquele momento em que nele se diz que a Inês de Castro «foi apunhalada quando pedia demência ao então rei, Afonso IV». Exactamente assim demência! O livro vai em segunda edição: é caso para dizer não revista e muito diminuída!

8.12.05

A voz, o som, as cores

Há na rádio uma voz cavernosa que é a do António Sérgio. Com ele ouvi o «Lança Chamas» e os «Sinais de Fumo», programas de música tida por imprópria para o que eu deveria ser. Agora o António Sérgio está na «Hora do Lobo», da meia-noite às duas. Lembro-me dos tempos em que eu via rádio. Via, sim, as sonoridades coloridas por detrás dos sons que ouvia, um arco-íris de entusiasmo, na solidão da noite. Hoje, toupeira cega pelo excesso de luz, apuro o ouvido, no labirinto dos sons.

P. S. Hoje lembrei-me. E «Som da Frente» onde, pelo menos para mim, tudo começou?

6.12.05

Epigrama

A un português que lloraba, preguntaron la ocasión; respondió que el corazón y que enamorado estaba. Por mitigar su dolor, le preguntarem de quién; Respondió que ninguén: lloro de puro amor! Lope de Vega escreveu este epigrama.

Vencimento

Só para o vencido há vencedor, precisamente porque não venceu. Vergílio Ferreira disse isso faz quarenta anos daqui a dez dias, ao Diário Popular. Nem quem o disse nem onde ele o disse já existem, vencidos.

4.12.05

Pensava

Há no último livro da Agustina aquele momento em que as mulheres sofredoras estavam em vias de se tornarem mulheres irritáveis. Pensava eu que já tinha passado essa página, a página número cento e nove.

3.12.05

Intervalos de animal

Eu sei que já passava da uma e meia da manhã, mas o sentimento urgente de que já que o dia acabara, ao menos eu podia ter a ilusão de ter lido qualquer coisa mais do que os papéis do meu trabalho, não me deixava descansar. Consegui! Eu sei que foi só meia-página de um livro que se arrasta na mesa de cabeceira há semanas. Mas valeu a pena, pois vem lá que «o homem só é um animal racional nos intervalos de ser animal». Como se vê precisamente pela vida que se vive.

1.12.05

O princípio da verdade universal

«A vida que vivo não é a minha», Almada-Negreiros a Sonia Delaunay, admirável e universalmente verdadeiro.

30.11.05

Os olhos de um cão

Ainda o «JL». Numas páginas dedicadas aos escritor que a guerra colonial nos trouxe, vem, ao lado do lembrado Lobo Antunes e do esquecido Assis Pacheco, o ignorado Bação Leal, autor de um livro modesto, pobre de meios, magro de divulgação, um livro póstumo, um livro mesmo assim perseguido. Tive-o e foi dos que me ficou, numa qualquer casa, então estranha, hoje alheia. «Se me quiseres reencontrar, olha um cão nos olhos, com certeza estarei por detrás dos olhos do cão», escreveu ele, em verso desesperado. Morreu há quarenta anos, no dia um de Setembro, tinha vinte e três anos de tragédia já vivida.

Homens livres

À quarta-feira sai o «JL», e nem sempre satisfeito com o que nele leio, habituei-me a lê-lo. E começo pela última página e sei que nisso não estou sozinho. Nos últimos tempos ela anda dedicada a escritos de memórias. Desta vez foi o professor Jaime Celestino da Costa o mesmo que, por coincidência, este domingo, em viagem, ouvi na Antena 2, a falar sobre o Freitas Branco, o que agora anda em efemérides. Ora lembrou o notável médico e homem de cultura que em 1923 se editou em Portugal uma revista chamada «Homens Livres», que ornava como sub-título, «Livres da Finança e dos Partidos». É caso para nos perguntarmos se não se poderia reeditá-la, aproveitando precisamente a oportunidade e o momento.

29.11.05

Para que eu sinta em mim

O José de Almada-Negreiros, num intervalo dos seus «desejos eléctricos de exibição», escreveu, íntimo e exageradamente sincero, à pintora ucraniana Sonia Delaunay, a viver então em Vila do Conde, na Rua dos Banhos. Findou essa carta, escrita «da cidade quimicamente febril», com um «amanhã dar-lhe-ei toda a minha alma epilética de admiração. Hoje estou completamente só». Dias antes tinha escrito a Eduardo Viana, confessando-lhe: «eu vivo abandonado de entusiasmos e de tudo - a minha tragédia empeçonha-me tentacular e tumultuosa (...). Escreve-me para que eu sinta em mim alguma amizade». Corria o ano de 1916.

27.11.05

Domingo à tarde

Todos conhecem a palavra «serra», como a Serra do Caldeirão e a palavra «cerro», como em Cerro Maior. Mas na tabuleta da estrada estava escrito «serro», como Serro da Zorra, Serro da Águia, Serro Ventoso, ou Serro da Cabeça. E assim, trocando-se o «c» por um «s» tudo se irmana e ganha sentido. Uma e outra querem dizer «espinhaço», como em Espinhaço de Cão. Cravado na garganta, esse, só o da necessidade de regressar.

26.11.05

Cerejas literárias

Exausto, fugi do quotidiano, na ânsia de tentar descansar. Trouxe-o, ao livro da Agustina e, reconheço, é uma narrativa notável. Trata da interdição, por loucura, da filha de Eduardo Coelho, o homem que fundou o «Diário de Notícias» e do controverso processo judicial que desencadeou. Mas trata de tudo isso com uma sensibilidade de alma que toca. Agustina diz que escreve livros como quem come cerejas. Cerejas doces, daquelas que o pardal debica, ferindo-lhe a polpa, cristalizando-se os açúcares.

24.11.05

Um sono de morte

Eu ontem não disse, mas o livro da Agustina que comprei abre a tratar de um enterro. E não disse porque comprei com ele um outro, do José Augusto França, que se chama «Exercícios de passamento» e que é dedicado ao modo como morreram cinquenta ilustres portugueses. Uma coisa fatídica, que ainda por cima surgiu por acaso! São assim, irmanados no necrotério literário, o França, que põe traço de união entre o José e o Augusto, e a Agustina que põe traço de união entre o Bessa e o Luís: os dois livros que têm como traço de união o tratarem de mortos. No caso dos «Exercícios», são cinco suicídios e dois assassinatos, o resto é tudo de «morte natural», estranho nome para uma coisa que se encara normalmente com tão pouco naturalidade, mas enfim. Ontem à noite, antes de adormecer, ainda consegui despachar quatro mortos. Dormi regaladamente.

23.11.05

O atleta da tristeza

Há sempre um livro da Agustina Bessa Luís que se não leu. Hoje encontrei um que se chama «Doidos e Amantes», dedicado a uma bisneta do «professor alienista Júlio de Matos». Um dos personagens, pelo que intuí da primeira folha «fazia da infelicidade um desporto da alma». Sem mais.

Um livro filomenal

Pronto, está arrumado! Desisti de vez do livro da Filomena Mónica e consegui acabar o livro do Mega Ferreira sobre o Fernando Pessoa, por coincidência com uma frase do «Livro do Desassogeo», que, por coincidência também, foi onde fui buscar a expressão «geometria do abismo», que dá nome a um outro blog de que igualmente cuido. Bom, em suma, e para atalhar, a desassossegada frase com que eu conclui o livro é «o meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria até inibir-me de dar começo». Ora aí está um salutar princípio que eu deveria ter aplicado ao filomenal livro: não lhe ter dado sequer começo. Meu rico tempo roubado ao sono, ao descanso e à companhia para acabar perdulariamente estiolado nisto!

20.11.05

Viver na abstracção

Tinha parado de chover e o jardim era uma cantata de cores, de cheiros e de sons. Consegui ainda uns momentos de leitura, umas páginas mais ao «Nítido Nulo». Vai a meio. Ao regressar, porém, uma vez mais ali estava plantada no meu horizonte de desejo, a atraente livraria, a lúbrica piscadela de olho, prometedora dos seus livros. Hesitei. Morando perto dali, tinha levado pouco dinheiro, apenas para não andar desprevenido. Podia-me desculpar com isso para não ter de ceder; ademais tenho imensa leitura em atraso. Mas pronto! O livro está aqui. Foi o António Mega Ferreira quem o escreveu, fala de mais um Pessoa, entre os tantos em que ele já foi fatiado, qual perú assado, por falar a propósito do Natal que aí vem, quando há quem coma de tais coisas. Desta vez é o Pessoa empreendedor, o que teve de «fazer pela vida», por não poder comer os poemas que escrevia, nem com eles pagar renda ou vestir-se como se vestia, aprimorado.O livro despacha-se rápido, para quem for ágil na arte do folhear, rápido no truque de apreender. O problema são aqueles breves momentos de encontro com o sublime, como a frase «conservar num abstracto o que temia concreto», por ele escrita a propósito do relacionar-se, pela escrita comercial inglesa, com a Inglaterra mítica. Lia-a, à frase ambígua, e não me sai do pensamento, como se nela se resumisse, em suma, todo um modo de viver os outros e, através deles, solitário, a própria vida.

19.11.05

A suprema incerteza

Pois o livro grande, o livro pesado que há pouco comprei, é o dos «Cantos» do Ezra Pound, traduzidos agora em português. Há quanto tempo eu andava a martelar o difícil original, percebendo parte da metade do todo e desejando entender-me com a metade do resto que mal percebia. Ao brasileiro José Lino Grünewald se deve o traduzi-lo. José Lino finalizou Direito e «deixou o diploma de lado», isto «para se dedicar de corpo e alma à actividade literária». Como eu me revejo, frustrado, em biografias como esta. Voltei ao Ezra Pound e aos seus torrenciais cânticos, cantos e cantares.Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza». Ele o diz e eu também. Por isso, deixem-me em paz: quero ler, inquieto talvez, mas sossegado, enfim.

Os olhos a arder

Há no Centro de Arte Moderna uma Livraria que é Almedina e que por ter esse nome me cheira aos livros de Direito que são o meu pesadelo na forma de livros sem literatura. Mas o essencial dos livros dessa Almedina não tem a ver com o Direito, embora haja por lá, no pequeno espaço, uma provocatória Lei Geral Tributária e um consensual Código Civil, além de outras espécies legais mumificadas. Passo por lá aos sábados, quando calha ter sábado possível para ir espraiar-me pelos jardins da Fundação. Hoje, já de saída, cruzei-me com os «Pequenos Burgueses» do Carlos de Oliveira, um dos poucos que faltavam na colecção do homem que escreveu «A Casa na Duna» e, enfim, o livro de que vou falar a seguir. Regressei exultante e carregado. Com um golo de vinho tinto do almoço tenho a alma reanimada. Faz sol lá fora e já esteve a chover. Só falta telefonarem-me para me sentir gratificado. Tenho leitura para dias a fio. A juntar ao que me falta ler, se não fico mais culto, fico pelo menos com os olhos a arder.

18.11.05

Bilhete de identidade

Corrijo, há que ser justo!. Não retiro nada ao que me irrita, há no livro coisas ridículas e outras desnecessárias, mas já nem sei o que pense a seu respeito. É um livro sincero, relata mesmo o inconveniente. Através dele reconstitui-se uma época e um estilo. Vou lê-lo todo. Talvez eu esteja de mal com a minha geração, com a «pose» e a arrogância que tínhamos e o mundo merdoso que gerámos. Deve ser por causa disso, Maria Filomena Mónica, que o livro me está a custar. Chama-se «Bilhete de Identidade»: de cidadão nacional!

17.11.05

A Ti-Mi e a Ti-Lú

Eu não sei se consiga ou deva, mas lá vou lendo, furioso comigo, o livro de «memórias» da Maria Filomena Mónica. Para não desistir de vez, saltei-lhe a parte da infância e da adolescência. Há minutos, quando interrompi a leitura, tinha ela descoberto o Vasco Pulido Valente e eu tinha ficado a saber por ela que ele «usava soquetes curtos», dado fundamental que explica afinal muita coisa que eu não compreendia. Antes disso, ainda li uma frase que sublinhei. Era a propósito da «avó Maria» e da «Ti-Mi e a Ti-Lú» e a frase dizia assim: «Nenhuma tinha marido ou, se os tinham, guardavam-nos longe». Ora aí está a fórmula mágica para se salvar a felicidade matrimonial: longe da vista e, se possível, do coração! E não me digam que não vale a pena o esforço irritante de se lerem livros írritos!

16.11.05

A ordem natural das coisas

Já nem sei como é possível evitá-los, aos livros. Hoje talvez tenha passado o teste decisivo. Ando a acumular tantos livros para acabar de ler que já deveria ter pudor em abeirar-me de outros. Lá consegui encerrar o torrencial «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, mas ainda vou a três quartos do tristonho «Os meus sentimentos» da Dulce Cardoso, falta-me a parte final do conturbado «O Acidente» do Mário Cabral, vou no princípio ainda do enevoado «Nítido Nulo», do Vergílio Ferreira, mas apeteceu-me ler e comecei-o ao Saramago, o das burlescas «Intermitências da Morte». E, no entanto, eu que embirro, sem saber sequer porquê, com a Maria Filomena Mónica, eu que, por causa disso me esquinei com o livro que ela escreveu, por saber que era dela e por duvidar que memórias capazes poderiam ser aquelas e que me interessariam, comprei hoje o livro. Quase diria comprei-lhe o livro, naquela forma de dizer de um leitor que quer ajudar um escritor. Comecei a lê-lo há pouco num banco cimentado de um centro comercial, enquanto esperava que acabassem umas variadas compras. Li quanto pude. Os outros livros, pacientes, aguardavam em casa a sua vez. Leio onde calha. Calha é infelizmente poucas vezes. Mesmo assim dou graças a Deus: aprendi a escrever, depois de ter aprendido a ler.

13.11.05

O que há e o que é

Era domingo e estava muito frio e eu vim para a rua, talvez por fazer sol. Trazia comigo o último caderno dos «Teoremas da Filosofia», que, devotadamente os da Filosofia Portuguesa vão animando com os seus escritos. E li no Pedro Sinde, filosofando à bolina, esta ideia de haver pessoas para quem existe apenas o movimento de rotação de si em torno de si, o perpétuo circular do dia e a noite da sua própria individualidade. E aprendi a perfeição do movimento de translação, seguindo as estações de todo um ano, a mutação de toda uma vida. Esta verdade astronómica pareceu-me ainda mais verdadeira, quando aplicada aos seres humanos. Partícula do universo, poeia cósmica, o homem reproduz em si e na sua insignificante individualidade toda a mecânica do sistema solar. O infinitamente pequeno é homólogo ao infinitamente pequeno, o um equivalente ao todo, o que há idêntico ao que é.

12.11.05

A morte suspensa

Há coisas que o tempo me ensina a aprender; a mais recente é porque motivo eu não gostava do Saramago. Claro que havia aquela história de ele, director do «Diário de Notícias», nos «anos da brasa», ter demitido uma série de jornalistas, muitos dos quais passaram um mau bocado por causa disso. Há um que conheço e que ainda hoje, por causa disso, se recusa a chamá-lo pelo nome e cada vez que o refere o faz como «o erva daninha», tal é, de facto, a definição do dicionário para o nome do nosso prémio Nobel da Literatura. E, no entanto, cheguei à conclusão do motivo profundo para não gostar dele e nada ter lido até agora que proviesse da sua pena. É que o autor do «Memorial do Covento» é de tal modo banal a falar de si, de tal modo pardo a falar do que pensa, que uma pessoa fica sem vontade de ler qualquer dos seus livros. Senti isso mesmo ao ler este sábado frio a entrevista óbvia que Adelino Gomes lhe faz e que o «Mil Folhas» de hoje edita. Felizmente estou a ler «As Intermitências da Morte» e com agrado a surpreender-lhe os bons momentos de uma história aliás surreal. Ao encontrar neste que é o seu último livro a menção aos «lares do feliz ocaso», lembrei-me do nome deste blog e quanto ele pressagia de memória de passamento e de dia de finados. É de tal modo assim que, ao pensar nisso, sinto a vertigem dos que têm medo de se debruçarem, por receio de lhes apetecer antecipar o fim dos dias, em vez de viverem, como diz o Saramago, neste «cemitério de vivos», com a «morte suspensa».

11.11.05

Conforme os dias

Mais uns dias sem vir aqui. Não é o tempo que me falta, é o espaço. Eu bem tento empurrar a vida toda para dentro do vazio que há em mim. A verdade é que sobeja mais para vivê-la do que para escrevê-la. Quando me sento para dizer como foi não me lembro bem, só ficou a ideia de que foi muito bom. Ou muito mau, conforme os dias.

8.11.05

Superstição ao fim do dia

É coisa rara hoje usarem-se termos da mitologia clássica. É coisa rara eu comprar um livro do Saramago. É coisa rara encontrarem-se livros do Aquilino Ribeiro, pois a Bertrand deixa-os esgotar e não os reedita, ou pelo menos é o que parece. Agora somadas todas estas raridades vejam o que é esta coisa notável. Fui hoje a uma livraria, porque por acaso se atrasou a hora de uma reunião. Andando pelo rodapé de uma estante dou de caras com um livro raro do Aquilino de que nunca tinha ouvido falar: «De Meca a Freixo de Espada à Cinta». Entretanto, andava ao rabusco por outra estante, ouço alguém perguntar o «tem cá o último livro do Saramago». Em suma, comprei o Aquilino mais o Saramago e mais uns tantos outros. Como tinha tempo fui plantar-me num café a folhear. O do Aquilino tinha uma dedicatória, em estilo de prefácio, «ao Dr. Heliodoro Caldeira, Grande Advogado, meu Patrono em Negros Delitos». Talvez por isso avancei curioso pelo prefácio, onde a linhas tantas de tal o autor do «Romance da Raposa» se põe a falar de um encerramento de uma urna de chumbo a que assistira. E a respeito escreve assim: «Vieram os alfaiates de cangalheiro e num ápice, um deles, com tesoira grande e indiferente como deve ser a de Átropos (...), etc., etc.». Visto o aquiliano prefácio, que é curto, guardando o livro para quando tiver tempo, atirei-me ao Saramago, o de «As Intermitências da Morte», a propósito de quem, ao lê-lo, me perdoo o mal que já pensei dele e o que venha a pensar no futuro e li ali: «A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivese resolvido embainhar a tesoura por um dia». Enfim, talvez seja melhor eu hoje ter cuidado comigo: um prefácio sobre um cangalheiro, um livro sobre a morte e tanto acaso junto sobre o ente que corta o fio da vida, é caso para regressar a casa e trancar-me dentro de um armário, à espera que chegue, enfim, o dia de amanhã. É que duas vezes numa mesma tarde tropeçar na palavra átropos, é demais para a minha esperança de vida!

7.11.05

Textos locais

Fui ontem lá jantar e à saída, com a amabilidade discreta de quem até no oferecer é amigo, estendeu-me o livro: tinha tido uma modesta tiragem de trezentos exemplares, em oitavo, em 1967, impresso modestamente em Alcobaça. São os «Textos Locais» do Luiz Pacheco, de seu nome completo Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco. Tenho-os aqui comigo. É um livro triste, como esta tarde fria, em que se sai à rua só mesmo para nos apetecer voltar para casa. Num post-facio à obra Serafim Ferreira chama a Pacheco «uma alma sem inquilinos». É uma boa definição; no caso, porém, uma alma por alugar, sem escritos na janela.

6.11.05

Um sol amigável

Tentei ler mais umas folhas do «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira. O meu exemplar original ficou numa dessas casas esquecidas do meu passado. Encontrei este numa livraria envelhecida, daquelas que vendem obras em segunda mão. O livro cheira a mofo. Os detractores do autor dizem que ele também cheirava a mofo. Os que me virem a ler e a escrever sobre o que leio, talvez concluam que eu próprio estou contaminado pelo mofo desta literatura. Mas enfim, tentei ler mas ao cruzar-me com aquela frase «alguém tem de andar só, para andarem os outros acompanhados» fui-me abaixo. O dia na rua está belíssimo, temos todos um sol morno e amigável por companhia.

3.11.05

Vontade de ler

Quando se não tem muito tempo e se tem muita vontade de ler, lê-se muita coisa ao mesmo tempo, para ficar a ilusão de que se lê mais. Há largas semanas atrás disse por aqui que andava a ler o segundo dos dois livros que escreveu a Dulce Cardoso e disse, ou dei a entender, que notável era esse livro. Talvez não tenha dito, por pudor, quanto dói a sua leitura. Hoje voltei a ele. Já vou na página 260 das 349 que ele tem. Cada vez que o retomo, vou à procura de um lápis, pois rara é a página onde não há algo a sublinhar. Estive há momentos, antes de vir aqui a olhar para um desses sublinhados, o da frase «não há nada que o silêncio não mate». Não sei se consiga voltar a ele. Pelo menos hoje não. O livro chama-se «Os meus sentimentos». Talvez por isso.

2.11.05

Passar a limpo

A Assírio & Alvim acaba de editar, num formato basto esquisito, mais um livro do Alexandre O'Neill, onde vem um poema que, ou muito me engano, e para isso tinha de me alçar daqui até à longínqua estante, ou não vem nas «Poesias Completas», que, a ser assim, completas é que não são. E num desses poemas leio um «...que quereis vós, todos vós, ó meus heróis da segunda hora?» que assim continua: «reentrai no sossego, deixai as folhinhas dormidas nos arquivos, deixai os vivos desenterrar os vivos, que esses, sim, deram o corpo ao manifesto, sem saberem, muitas vezes, o Manifesto de cor!».

30.10.05

A leitura

Eu confesso que já deveria ter lido o «Nítido Nulo» mas só agora é que o estou a ler. Há aliás na vida tanta coisa que eu já deveria ter vivido e que nem sei agora quando o irei viver. É o «gosto antecipado da sede que ainda não tenho». Vem lá no livro, assim, a sede de uma cerveja, a sede de uma vida. O personagem está preso e «as próprias grades são pintadas de branco para deixarem passar a alegria que puderem». Faltava-me este livro do Vergílio Ferreira. Encontrei-o, enfim. Não foi por causa de o não ter que o não lera, mas agora que o tenho, hei-de esgotá-lo de tanta leitura.

A hora

Hoje anoiteci mais cedo e acordei melhor dormido. Calculava que era por ter atrasado o relógio, até ter descoberto que era por ter pensado que o mundo mudara. Claro que mudara apenas na sua dimensão quantitativa, a de ter andado tudo para para trás. O presente passou súbito a passado, o futuro adiou-se-nos sem dar conta. Foi tudo pelas duas da manhã. Nesse momento, o hoje passou a ontem, dando-nos a oportunidade de o viver duas vezes. Azar meu o estar a dormir. Quando acordei, tinha a preguiça perdoada.

29.10.05

Chuva

Há neste hotel um recanto e nele uma janela e através dela uma palmeira. Animada pelo vento, acena-me os seus ramos, como alguém à distância na hora de partir. Há neste hotel a ideia fantasiosa de que a chuva, que o vento trouxe, perpetua o conforto de ficar. Há neste recanto o sentimento incómodo do acenar-me de fora, além da janela, aos que, como eu, decidiram ficar.

25.10.05

Aquém do possível

Imagine-se uma cabeça vazia, sem um pensamento, sem uma névoa de uma melancolia sequer. Imagine-se um corpo dorido de cansaço, espécie de reumatismo generalizado, os ossos num feixe, os músculos exaustos. Imagine-se um mundo despovoado de almas, atulhado de corpos sonâmbulos. Imagine-se. Não se saia da imaginação, fique-se assim imobilizado, os olhos escancarados de morto. Com o chegar do frio as coisas pioram. Eis junto a mim uma folha de papel, totalmente em branco. Nada do que eu pudesse ali escrever me é possível imaginá-lo.

23.10.05

Davam grandes mortes ao domingo

Li no jornal que morrem ao domingos jovens entre quinze e vinte e quatro anos. Pela leitura não percebi de que morriam. Sendo-se mais velho, ao domingo, morre-se de tristeza, alguns com a segunda feira da ilusão à vista.

19.10.05

Uma pausa

Há quem tenha jardins e passe por lá depois do jantar, só para ver como vai o que plantou. Aqui é mais ou menos parecido. Há dias em que não se semeou nada e fica-se a olhar para o passado. Há no homem aquela ânsia de criar, que o esgota. Uma pausa, preenchida com nada, eis a sua salvação.

18.10.05

A vingança

Lembro-me de ser miúdo e ver como era. Iam à capoeira, filavam uma e cravavam-lhe a faca na goela. O sangue esguichava às golfadas e ela estrebuchava frenética, recusando a morte. Acho que ainda cheguei a perguntar se lhe doía, mas tenho a certeza de que me mandaram calar. Habituei-me a comê-las, sem pensar nisso. Hoje juraram vingança e ameaçam matar-nos, aos milhares. Talvez nem perguntem se nos vai doer. É-lhes indiferente.

17.10.05

A declinação do eu

Olhou-se ao espelho, mirando-se reflexamente, sorriu-se na condicional, e continuou na forma gerundiva. Ao sair de casa descobriu que a sua vida era a voz passiva, uma forma indirecta de viver sem ser sujeito. Vivido que estava o que havia para viver, indiferente ao predicado de si, tornou-se um infinito substantivado. Hoje não há gramática que o conjugue.

16.10.05

O umbral

O desamparo aos dezassete anos era feito do refúgio em cantos abrigados, quantas vezes o umbral de uma janela, os olhos perdidos no descampado em frente. Reconheço-as, a uma e uma, cada fenda na cal da parede, as mossas na madeira pintada do caixilho, a memória embaciada deste local.

A porta fechada

Esta noite eu recordo a ideia de um pai, por detrás de uma porta fechada. Lentamente cresci até chegar ao puxador. Mas nessa altura tinha aprendido a bater, antes de entrar. Um sentimento forte, apesar de longínquo, recordo-o esta noite, crescendo lentamente em mim, aprendendo a fechar-se, como uma porta que se encerrasse, antes de alguém entrar.

A invisível presença

Há neste desvão de escada o que eu preciso para ter a ilusão de que, aninhado aqui, ninguém mais dá pela minha presença. Na minha infância, porque já houve em mim uma infância e vivida nesta mesma casa, sonhava-me aqui como se no lugar mágico da minha invisibilidade. Rodopiavam os mais crescidos, indiferentes à minha ausência, e até o arrastar penoso dos avós parecia mais preocupado com o para onde iam do que com o onde eu estaria. Há neste desvão o ter aprendido o que é, na vida, o não fazermos falta. Hoje, no jogo de acasos que é o viver-se, trocaram-se as peças no tabuleiro: este é o desvão onde se escondem todos eles, os idos e os que foram, e eu já nem dou sequer pela sua invisível presença.

Prontos

Há os que organizam a vida para estarem prontos aos cinquenta anos. Outros chegam a essa idade e a vida começa enfim a organizar-se-lhes. Estes últimos pensam ter ainda vinte anos; tarde descobrem terem muito menos tempo do que isso.

El Gordo!

Tinha a ideia de que éramos dez milhões e agora vejo no jornal que somos quatro milhões de gordos. Ou como vem na notícia, «em Portugal, a obesidade afecta quase quatro milhões de pessoas». Ao ler isto, neste domingo à espera da massada de peixe, lembro-me da frase que anda por um muro perto da minha casa: «situacionistas gordurosos tremei, a vossa celulite tem os dias contados». Lembro-me, escrevo e olho para o relógio: com esta mania de almoçarem às duas da tarde, que tal um pãozinho com queijo para ajudar a entreter?

15.10.05

O pó branco

Faendo-se eco de um encontro sobre saúde, o Diário de Notícias, sob o apelativo título «Este pó branco também mata» escreve que «o sal contribui para o aumento dos casos de hipertensão arterial, acidentes vasculares cerebrais (AVC), insuficiência cardíaca, cancro do estômago e osteoporose». Eu sei disso, e sendo hiper-tenso, ainda sei mais. Mas que querem! Já tentei viver uma vida insossa e ia morrendo, de tristeza!

14.10.05

E não passou

Há dias em que dá vontade de ir parar ao hospital, só que não se sabe é por causa de que maleita. No caso da preguiça, o grave é quando se tem alta: uma pessoa, habituada a tanta doença, fica sem saber o que fazer da saúde. Por causa disso, há quem nunca se cure. Vem isto a propósito de eu não vir aqui desde o dia 11: estive internado, para ver se me passava.

11.10.05

Rasteiros

A última vez que aqui estive dei conta de que tinha começado a chover. Hoje ao rever as notícias, percebi que pode chover mesmo a sério. Nunca entendi porque motivo é que se diria «que até os cães a bebem de pé». A minha dúvida é que os cães não andam de pé: com as quatro no chão, como andam, em rigor andam deitados, ligeiramente a cima do nível do chão, um pouco mais do que rasteiros. Eles e muita gente, pois há os outros, os que andam «abaixo de cão».

9.10.05

Mensagem do céu

Hoje finalmente o céu decidiu-se a chover. Acordei com a rua em frente de cara lavada, as árvores vivificadas em verde. Não fossem os raros automóveis e os regulares autocarros, nada parecia acontecer. Um ou outro eleitor matutino, daqueles que vão lá por obrigação, que os de convicção por vezes faltam, escapulia-se por debaixo de um guarda-chuva. Da janela do meu quarto encarei o mundo, animando-me, como se convencesse de que valia a pena começar. No fundo, é só mais um dia. Amanhã, pensa-se no outro.

8.10.05

Escrita embargada

Uma escrita torrencial, entrecortada dos gritos que a memória traz, uma escrita sufocada como a voz embargada na ânsia esganada de dizer, uma escrita desnorteada, de quem com ela quer apenas sair desde lugar: um lugar de silêncio, um lugar de solitário labirinto. Fosse essa a escrita possível, a vida teria ganho, enfim, um sentido. Mas não, esta não é já a escrita possível, esta é a escrita que foi necessária.

7.10.05

Clássica

Há táxis e táxis. Fui para Santa Apolónia num que lhe fugia o pé para a chinela. Regressei, desta feita num outro, onde se sintonizava na Rádio Clássica do Montijo, a que esteve para fechar, a que nem sempre emite, a que felizmente existe.

6.10.05

Chinelando

Ela encontrou a chinela e eu encontrei-a a ela na Rua do Capelão, ela encontrou a própria vida, eu encontrei o coração. Acreditem. Existe. Ouvi num táxi, em onda média, que ainda subiste, num mundo que ainda há.

Coma com pão

Foi ao folhear, vagueante, a folha oficial que descobri que ele há o «Clube de Caçadores da Açorda». Calculo que de quando em vez cacem uma perdiz, para a comer com a dita. O pior é quando lhes apetece açorda de bacalhau. Aí só com a ajuda do Clube dos Pescadores, o da Terra Nova!

5.10.05

Errantes e errados

Nietzshe, com a agudeza dos míopes, previu que o casamento se tornaria numa colecção errática de indivíduos, orientados à prossecução de fins egoístas. Toda a vida viveu celibatário, destinando egoisticamente um livro excepcional à grande família da humanidade.

4.10.05

O fado da História

A frase pertence ao José Cardoso Pires, num livro que eu penso que já citei aqui uma vez, por causa de um outro dos seus textos: «lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa». Sem querer ser injusto, penso que isso que está na frase era dantes, não porque não formiguem hoje portugueses, mas porque, quanto ao carrego da História, anda tudo mais leve e mais solto. Estamos como aqueles países que nasceram ontem: saltitantes de presente, indiferentes ao futuro, vazios de passado. A nossa única diferença é essa tristeza a que chamamos fado.

3.10.05

Os limites do sentir

Continuo a ler a «Conta Corrente». Há quem não perdoe ao Vergílio Ferreira o tê-la escrito, por isso que nela se patenteiam as suas obsessões nem sempre exaltantes. Há quem não o suporte vê-lo assim, em trajes menores e sem pose, neste diário incerto do homem-escritor. Por causa de a ter escrito, não poucos inimigos arranjou. E, no entanto, por tudo quanto no livro não vale a pena, há momentos de genialidade única, em que numa só frase se resume mais do que um compêndio de filosofia, todo um modo de pensar a vida, sentindo-a. Digo-o esta noite, ao ter lido a frase «é-se por dentro, por fora está-se». Após ela, recuso-me a ler mais o quer que seja; não me perdoaria, se o fizesse.

2.10.05

O salto

Se aquela figura literária do Eça de Queirós, que não era completamente viúva, encontrasse alguns dos seus leitores, que nunca são completamente casados, não haveria gente totalmente tristonha.

1.10.05

Marcha fúnebre

No Mil Folhas de hoje, que eu, como num ritual, leio com o jardim aqui em frente diante dos olhos, vêem excertos de uma conferência inédita do Luís de Freitas Branco, porque se lembraram que há cinquenta anos ele morreu. E nessa conferência fala o conferencista da interpretação cadavérica de toda a música considerada séria e elevada. Pois é precisamente assim que muita gente interpreta a vida que vive: descompassados, atonais, afinando o tom pelo coro, cadavericamente, em suma.

30.9.05

O intervalo

Os dias em que não se escreve, não são dias em que não se pensa, são apenas dias em que não se vive. A vida é isto, o intervalo entre capítulos. Chegando ao fim, percebe-se pelo índice como foi, até lá, é melhor nem saber.

29.9.05

Um corpo inteiro, uma alma partida

Não, não é preciso um homem desdobrar-se em vários, para alimentar vários personagens. Não, não é preciso socorrer-se da heteronímia para se ser mais do que um. Basta ser-se inteiro. Está reunida a primeira condição. A partir daí é só preciso um homem ir-se partindo, aos bocadinhos.

28.9.05

Vida de cão

Um meu amigo, inteligente e risonho, qualidades que raramente se conjugam, contou que o fogoso Camilo tinha, na ânsia de um emprego, oferecido ao carrancudo Herculano, um cão, para que este, animado pela gentileza, lhe arranjasse um qualquer ganha-pão suficiente. E contou mais que, como o emprego não vinha, pois que dependente de políticos, que caíam no Parlamento como tordos na canícula, o escritor de São Miguel de Seide não esteve para mais: veio ressabiado a Lisboa, e passando em frente da casa do historiador, aí vai de assobio, e num ápice tinha o cão de volta. Tudo isto tem um sabor a passado; hoje, nem os cães conhecem o dono, nem os empregos se arranjam à força de cão. O que ainda resta é o assobiar, nem que seja para o ar.

26.9.05

A esquina da vida

Para os que vieram hoje a esta esquina ver se me encontravam, saibam só que eu passei por aqui. Nada mais tem importância. Amanhã talvez volte, mesmo sem motivo, cão a passear ou jantar a digerir.

25.9.05

A morte anunciada nos céus

Li que o rouxinol dos caniços, migrante, voa três mil e quinhentas milhas de Portugal para a Mauritânia e Guiné-Bissau, sobrevivendo ao deserto do Sahara. E li que este ano, ante a seca do Verão em Portugal, estão ameaçados de morte, aos milhares, no Outono. Vêem-se na Ria Formosa, ignorando a morte anunciada.

24.9.05

O muro

A frase ali estava, visível na parede branca: não existe inveja no reino da esperança. Na rua, cozido com a parede, como se nem o muro existisse, um homem arquejava com uma guitarra. Numa das mãos o peso da sua caixa, no coração o seu som sem esperança.

Embuchado

Nas escopetas de carregar pela boca havia a bucha sem coice. A arma não tinha ressalto, o ponto de mira era fiel. Apertava-se tudo com uma vareta. Premido o gatilho, saltavam os miolos. Os amigos lamentavam e a vida seguia. Lembrei-me disto em Silves, num museu vivo de uma fábrica morta.

22.9.05

O cobrador de fraque

Assolado agora pela irada multidão e recalcitrante, a dos credores do tempo, ansiosos reclamantes do capital do afecto e dos juros de uma atenção, trancado em casa, entre a vergonha do débito e a impossibilidade de o cumprir, há um homem que revê os compromissos que assumiu, as promissórias que assinou, as expectativas que foi criando. Mais atrevidos os que clamam pelos deveres em atraso, os da profissão e os sociais, estão perto de lhe franquear a porta, arrombando-lha, expondo-lhe a vergonha. Outros, entre o condescendente e o resignado, aguardam, sem esperança, a sua vez, sentados no patamar da última ocasião. Para todos esses, os que como ele chegam à impossibilidade de solver, inventou-se a ideia da falência. É um opróbio segurante, mas é a moratória forçada de tudo o que se deve. Nem uma doença que o fulminasse o salvaria do que deve: ficaria a má fama, o fantasma do cobrador de fraque a persegui-lo ao fim dos tempos, estivesse nos altos céus, ou devolvido aos baixios de um outro inferno.

21.9.05

O homem abreviado

Há vidas assim, rudes e esgotantes. Felizmente são breves, no mal que fazem e no bem que sabem.

19.9.05

Satisfaz duas vezes

A cultura de parede é aquilo que os nómadas letrados partilham com os cães analfabetos: ambos aliviam ali as suas aflições. Numa delas vi há anos escrito o «tudo tem um fim, excepto a salsicha que tem dois». Só um desesperado em estado terminal escreve uma coisas destas: não é só o desejo de acabar; é o desejo de acabar duas vezes!

18.9.05

Numa só penada

E se eu escrevesse sobre a janela do abismo e a geometeria do ocaso? Na primeira sobre os suicidas da vida, os que vêem o mundo do alto e têm ânsias de profundidade? Na segunda sobre a contigência do espaço que acaba e a probabilidade do tempo que se vai, os que vivem a vida por baixo, soterrados de deveres. Tinha nisso pelo menos uma grande vantagem. Numa só penada arrumava dois blogs e numa só noite!

A Revolta das Palavras

Já houve quem, com amabilidade, ironizasse o facto de eu ir encerrando os blogs que criara. Para que se perceba que também aqui não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, aqui vem a notícia: repus no ciber-espaço o velho blog «A Revolta das Palavras», homónimo de uma coluna que expirou no «Diário de Notícias». Na lateral fica o «link» respectivo.

Separados de facto

Numa parede da Rua de São Bento, alguém escreveu em tempos «não quero viver num mundo em que ideias e sentimentos sejam coisas separadas».
Esse alguém, deve ter-se exilado daqui. Prudentemente a Câmara mandou pintar a parede. Se a frase pegasse o país evadia-se!

17.9.05

Juro!

O António Variações cantou o fiz dos teus cabelos a minha bandeira, a propósito de Amália. O juro que não envelheço, do Luiz Pacheco, que acabo de ler, poderia ser, desfraldada ufana aos ventos, a minha, se a vida e seus vendavais raivosos não ma arrancarem das mãos. Juro!

O homem que não sabia escrever

É amiga, é leitora, escreve. E contou-me, nos intervalos dos nossos silêncios que eu, embirrento, por vezes prolongo, que a mãe, quando o pai se ausentava para o estrangeiro, sabendo que ele não escreveria, lhe metia na mala rimas de postais, onde já rabiscara «beijinhos para as três» [elas eram três], pedindo-lhe apenas que os fosse entregando nas recepções dos hóteis, para, ao menos, em casa saberem que ele estava bem. Eterneci-me ao ler, muito, como se, hesitante e envergonhado, postal na mão, tivesse pela frente na vida a recepção de um hotel.

Luiz Pacheco: um não-qualquer

Ter acordado enfim mais cedo com o propósito de conseguir ler. Tomar em mãos o «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, comprado há uma semana e atacar, sôfrego, a leitura. Rir por antecipação com a dedicatória a um respeitosamente «senhor doutor» postfaciador, e lembrar quanto o autor o gozou, de soslaio, numa entrevista recente a propósito do dito livro. Sublinhar no que se leu uma frase, das muitas frases sublinháveis. Pacheco é um anarco-bombista da literatura. Libertino das letras, lançava petardos e mandava cartões de pêsames a alguns mortos-vivos da sua especial predilecção. Muitos dos que o lêem são dos que ele diz em ironia que, ao conhecerem um escritor «um tipo que escreve», na altura «não se arreceiam que caiam sob a mira de um não-qualquer, mas duma máquina ou aparelhagem virada para a curiosidade, a perplexidade, o jogo, a provocação e tudo isto com fins práticos, de criar a vida pela escrita». Acordar cedo e sublinhar «criar a vida pela escrita». Tomar banho, sair à rua, o livro como companhia, esganado de vontade de escrever, remendadamente.

16.9.05

A ideia de mãe

Eu hoje faço uma pausa, quem me lê outra, por causa disso mesmo. Ficamos ambos, escritor e leitor de férias um do outro. O Guerra Junqueiro escreveu um livro chamado «A Musa em Férias». Havia um exemplar amarelecido na casa da minha mãe. É por causa disso, precisamente da ideia de mãe, que eu hoje faço uma pausa. Amanhã volto.

15.9.05

Um pintor no Chiado

O homem passeia-se pelo Chiado, penso que pelos lugares onde o Santa-Ritta pintor, para enfurecer as madames, passeava não «lulu», pois o não tinha, mas escova de dentes atada à trela de um cordel. Tentando sacar uma esmolinha, repete lenga-lenga miserabilista, em que as palavras desempregado, e sero-positivo, uma moeda e qualquer coisinha para o jantar se misturam, numa litania em que penso nem ele próprio parece acreditar. Hoje cruzou comigo e, para além do que de habitual diz a todos, acrescentou «e o que o seu coração quiser dar». Ora eu, em matéria de coração, ia à beira de um ataque cardíaco!

13.9.05

A madrugada do amanhã

Há dias tumultuários, em algazarra interior. Chegada a noite, nem se leu, nem se escreveu. Viveu-se. Nem sempre há mais para dizer. Está tudo dito. Entretanto o dia passou. Começa a madrugada do amanhã.

12.9.05

Um lugar para cada um

É uma homenagem de parede, na parede que eu vejo diariamente do meu quarto a frase «domadores de automóveis por moedas de cem». No circo motorizado em que a cidade se tornou, em que há feras em velocidade, e mais o volteio louco de mil e duzentos cavalos de tracção, por onde pululam jibóias ondulantes no trânsito congestionado, leões que cruzam vermelhos, e mais os paquidermes com atrelado dos transportes internacionais, eles, os domadores, são o resto do humano a dominar a fera. É uma vida de risco. Morre-se na estrada. Em troca de cem, cada um deles, braço pendente, no vai-vem do vem-vai rodoviário, inventam o que parece não haver: um lugar. Houvesse essa profissão para as almas, e a troco de cem, arrumava-se o que anda fora de mão e mais o que segue em sentido proibido, para cada um um canto, para todos o seu lugar. Ah!, como se nota, a parede é antiga, a frase é velha, os cem já eram. Mas mesmo com a correção monetária, a verdade circense ainda é o que é.

10.9.05

Azul metileno

Fui comprar o jornal e trouxe-o para casa. Era pequeno e azul. O título era pomposo: «Literatura Portuguesa no Mundo». No fundo era um primeiro volume de uma pequena enciclopédia sobre literatura portuguesa, distribuída com um jornal. Vêm nela os autores, com minúsculas bio-bibliografias. Não cheguei a ver se vinham todos, ou se viriam os mais importantes desses autores. Vi foi que a obra tinha fotografias: logo duas do Eugénio de Andrade, e mais duas do Manuel Alegre, mas nenhuma do Ruben A., como se o importante fosse ajudar a esquecê-lo. Algumas dessas fotografias trazem legendas como uma da Rua Augusta a dizer: «a protagonista de grande parte dos contos de Avenida de Roma é a cidade moderna». O a-propósito é que «Avenida de Roma» [letra «A»] é um romance de Artur Portela [Filho]. Mas a obra traz títulos de livros. E aí é que a coisa se complica. Livro dedicado à primeira letra do alfabeto, encaixa em «A», a martelo, o livro «Amor é fodido, O» um romance do Miguel Esteves Cardoso, que, já agora, se calhar cabia melhor na letra «F». É claro não traz a «Aparição», como se fosse um livro sem importância alguma, que obviamente nem valesse a pena referir, assim dando espaço para as «Aparições», explicando que é uma «colectânea de poesias de Guilherme de Azevedo». Naturalmente, colectânea incontornável! E assim sucessivamente. Prometo comprar os outros todos, jornal a jornal. São momentos de bom-humor garantido. Do Lobo Antunes o azuláceo opúsculo publica com destaque uma foto acompanhada de um (1942-) para que se perceba que o homem ainda não morreu e adita-se-lhe a legenda «António Lobo Antunes foi várias vezes proposto para o Prémio Nobel da Literatura», lembrança apta a irritar o autor até à apoplexia, o que dá ao traço um valor simbólico nada despiciendo.

O pavilhão dois

É assim como num imenso hospital, a blogoesfera. Saio ao meu corredor, e no pavilhão dois, porta a porta, como em celas monásticas, ei-los, internados, a sua loucura como única companhia fiel nas madrugadas ansiosas. São, na diminuta clausura de que fazem lar, momentos únicos de beleza. Há no sangrarem-se, esvaindo-se em vida, a beleza inflamada do vermelho dos seus quadros e muitos pintam. Quantos outros fazem da nevrose literatura. Passeio-me silencioso. Talvez eu devesse respeitar o sofrimento de cada palavra, o desespero de cada cor. Muitos estão às grades, mãos enclavinhadas e raivosas, os olhos a pedir que olhem para si. O afago de um comentário lhes bastaria.

Clonc, clonc!

Vai ser em Alpedrinha uma «Feira de Chocalhos» e na próxima sexta-feira. Rebanhos orgulhosos, bali! A coisa promete. Os adornos da vossa servidão é ali que se mostram. Ah! Actua também ali um conjunto chamado, em modo sugestivo, «Gaitafolia». A coisa promete e é já na próxima sexta-feira. Por mim, fico por cá, com o «morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela». Gostos.

O comboio das duas

Eu confesso que às vezes se cria nestas coisas da blogoesfera o complexo da Cinderela. Na ânsia de vir aqui todos os dias, a meia-noite passou a ser o limite além do qual se atinje o impossível. Estou como o empregado da noite que corria esganado para o comboio das duas da madrugada, ante o horror de esgotar num táxi o que não almoçara. Hoje não consegui. Aqui estou, por isso, descalço e esfaimado!

8.9.05

O belo e o bom

Todos os dias a luta pertinaz pelas obrigações e a ânsia de assomar a uma janela em busca de ar. Não a esta janela propriamente, cúmulo de reminiscências sublimadas, mas a uma qualquer escotilha de onde se divise o marulhar do oceano. Já dormi pela noite numa camarata empilhada de um navio em sobressalto. Atulhados na terceira classe nós e uma mescla de cheiros pestilentos, a suores ácidos e refogados avinhados. Eu era o mais novo. Tinha dezassete anos e viajava assim. Ainda hoje, sem esforço, lembro-me dos ruídos nocturnos, dejectos, defecantes, enojados de tanto vomitar. O mundo nem sempre é belo, a vida nem sempre foi boa. Quando chove e a natureza estrepitosa lava o que existe, renovo-me por dentro, pertinaz sempre, ansioso por amanhã.

7.9.05

Papel em branco

Nos tempos em que eu ainda andava nas primeiras letras havia uns cadernos com duas linhas, dentro das quais nós, crianças desprevenidas, destinadas à ordem e treinadas para a arrumação, tentávamos encaixar a nossa hesitante caligrafia e através dela as palavras que pouco tinham para dizer. Depois, com a juventude, veio a tristeza em papel branco, as palavras em verso e a caligrafia descuidada. Muitos passaram-se no estado adulto para o papel quadriculado, o do mundo das contas dentro do universo dos números. Alguns outros tiveram a sorte do papel impresso, e são escrevinhadores ácidos a corpo onze e a cinco colunas, poucos de todos exprimem-se desbragadamente em livro. Tivessemos consciência de nós e escreveríamos a papel vegetal, copiando o que os outros escreveram. Não damos conta, mas somos a geração que não tem nada já para dizer!

Cor de burro e quando foge

A língua portuguesa tem fraseologias inesperadas. Imaginar-se que se pode dizer amuar através da frase «amarrar a burra», não é para todos: muito menos para os burros que amuam! Agora o mais interessante é que o desamuar diz-se, na mesma forma elíptica, «desmontar da burra». O que é altamente equívoco e altaneiro, sobretudo para quem fica apeado.

6.9.05

Saudades da badana

Tentei ler o Jorge Listopad, por duas razões. Primeiro, porque nunca tinha lido nada dele. Segundo, porque eram pequenos contos, quadros e cenas, daqueles que se lê um [conto] e se vai jantar, vai outra [cena] antes de dormir. Claro que vi na badana do livro que ele é da Academia das Ciências e também da Academia de Belas Artes e também ainda catedrático jubilado. Bom! Mesmo assim, tentei ler o Listopad, mas não fui capaz. Já sei! Adio o projecto! Talvez para este fim de semana: um [quadro] ao pequeno-almoço, para começar, guardo a cena para a merenda. O segundo volume tem um prefácio escrito em Vilamoura! Ora aí está o porquê!

5.9.05

O livro das horas

Com a passagem das horas e o sumir-se do sol, a estante primeiro, logo a réstea de parede, enfim o umbral da janela vão perdendo progressivamente a luminosidade que lhes dá a aparência de vida, o encanto da cor. Uma penumbra acastanhada que o anoitecer degrada em cinzento assenhoreia-se de tudo. Mal consigo divisar dos livros as lombadas, não consigo nelas perceber do que tratam. Na rua os poucos passeantes parecem vultos. E no entanto, em alguns desses livros estão viagens minhas pelo imaginário da surpresa, muitas dessas silhuetas proporcionar-me-iam o encanto da descoberta. Falta-me luz. Talvez a ideia do amanhã me reconforte. Para onde não chegar esta esperança, resta-me a luz eléctrica.

4.9.05

Fogo!

O painel era imenso, posto numa monótona auto-estrada, despida de árvores, tão seca que não havia nada para arder. Mas estava lá. O essencial dele era uma fotografia de uma mata ardida, tudo em tons desolados de cinza, com troncos carbonizados em evidência, para ilustrar o desastre de um incêndio. A legenda é que era de um ridículo total. Dizia, em tom melífluo, que uma beata jogada pela janela, «pode prejudicar a floresta». Assim mesmo «prejudicar», neste estilo, quase diria hesitante, timorato, como se falando timidamente de uma insignificância, diria a pedir desculpa de lembrar. Um aviso num canteiro a pedir para não pisar a relva era capaz de ser mais afirmativo. Com cartazes destes estamos todos incinerados!