«Tu não poderias ficar presa comigo à roda em que apodreço, apodrecemos». Hoje é domingo, ouve comigo Alexandre O'Neill. A alegria sonâmbula, o modo funcionário de viver, a miséria de uma noite gerada por um dia igual.
15.1.06
Saudades do gasolim
Na selvajaria de que se faz vida há lugares magníficos onde não vamos, momentos de beleza que perdemos, recantos de sensibilidade que esquecemos. Hoje voltei ao gasolim ultramarino, para matar saudades.
A Praça de Espanha
Hoje o dia deu em chuva. Por ser domingo parece que chove mais e de modo que mais encharca. Refugiado num patamar de uma rua sem cafés, pesa-me tudo o que poderia estar a fazer a esta hora. Um casal de turistas pergunta-me pela Paça de Espanha. Condenando-o à desilusão do inóspito com que se vão surpeender quando lá chegarem, digo-lhes que é ali, mais em frente, sempre em frente.
Ler, rir e viajar
Há nos jornais suplementos sobre viagens, que parecem publicidade encapotada dos departamentos turísticos das embaixadas estrangeiras, quando não das próprias agências de viagens. São todos tão informativos como o «Guide Michelin», alguns sóbrios como o «Rough Guide». O que raramente são é divertidos. Ler e rir nem sempre acontece. Mas sucedeu hoje. O artigo é sobre o homem que atravessou um país inteiro durante uma semana, conhecendo-o detalhadamente. O país chama-se Andorra.
Tempus fugit
Há um livro onde se explica porque é que o tempo parece correr mais depressa à medida que envelhecemos, demonstrando como por o nosso relógio biológico, com a passagem do tempo, andar com mais vagar, tudo o resto parece decorrer mais rápido. Será um livro interessante, mas seguramente é daqueles que não vou ler, só por já não ter tempo para isso. Há pouco ainda me parecia ser sábado, amanhã já é segunda feira. Um vizinho desce a escada apressado, o autocarro em frente arranca veloz, um jovem casal, abraçado, corre ágil para fugir da chuva.
13.1.06
Alça daqui!
Viaja-se no espaço Schengen, e são os acordos de Schengen, e não há cooperação judicial que não seja a de Schengen, nem questões sobre passaportes em que não se fale de Schengen. Nesta maçada institucionalizada que é a Europa, uma coisa fantástica está na parede de uma igreja, a caminho da feira da ladra: «Schengen, sai deste espaço!». Assim, sem mais nem menos, a bazar! Um cão tristonho, pelo rente e ar desiludido, alçava ali pata, regando a dita parede. Vadio, ele era, em quatro patas, a imagem da excepção a Schengen: nas suas deambulações por este seu mundo de caixotes do lixo, é a liberdade de circulação total!
11.1.06
Um furo!
Tive um furo, ou melhor dizendo, o pneu do meu carro furou! E então são aqueles momentos da descobertas das maravilhas do nosso mundo moderno. Primeiro, fica-se a saber que antigamente o pneu sobressalente era um pneu igual aos outros e agora é uma rodinha ridícula, a vergonha de todas as rodas que se prezam, mais pequeno que os outros pneus e pintada a uma cor absurda, com um letreiro garrafal a dizer que não pode andar a mais de oitenta à hora. Já não basta o embaraço de ficar no meio da estrada naqueles propósitos, ainda se segue depois aquela humilhação do olha aquele furou! Mas há mais! O macaco que vem no carro é um verdadeiro saguí, o liliput de toda a genealogia simiesca, espécie de alavanquinha absurda com a qual se tem que alçar o carro à força de braço, na singular posição de estar metade do tempo de cócoras e outra metade de joelhos, os intervalos agarrado aos rins. Ainda por cima, para ajudar à festa, a coisa tem todo o ar de se desconjuntar a todo o momento e cair-nos o carro em cima de um pé. Agora com os coletinhos verdes fosforecentes, um tipo nestes ademanes vê-se à meia-légua. Dirá quem me lê que o meu problema foi ter sido apanhado nesta. Não, não foi, porque consegui arrumar-me para uma ruela sossegada. Ironia do destino era em frente de uma escola de condução, onde se calhar ensinavam num quadro como mudar teoricamente um pneu. O que mais me desassossegou foi uma amiga minha dizer-me num amigável e carinhoso «coitado de ti só te faltava esta» que «um furo, que é coisa que quase não há». Pois é, minha querida, quase não há mas houve: e foi hoje e comigo, na estrada de Sintra. E não foi ao volante de um Chevrolet, nem pela estrada do sonho!
A caderneta escolar
Tenho pudor em dizer a quem pertencia. Mas ali estava, no chão, à venda, entre bugigangas diversas, a caderneta escolar de uma mulher de quem se disseram já coisas civicamente maravilhosas. É assim a Pátria agradecida e assim são as famílias que, morta a criatura, lhe despejam os papéis para o lixo. Se é para isto que serve ter família, antes ser sozinho, ou morrer pobre, sem nada para deixar.
9.1.06
O homem de Manhufe
Consegui estar este fim de semana em Amarante, por causa do Amadeo de Souza-Cardoso. A casa da família, onde viveu, está fechada a visitas. Para a descobrir é preciso perguntar e muitas vezes. Muita gente da terra nem sabe onde é Manhufe. Mas, enfim, de curva em curva, entre rotundas e inversões de marcha, lá acertámos. Já na rua da pequeníssima localidade, hesitante, abordei um passeante nos seus sessentas, que pela samarra e passo vagaroso me parecia um habitante da terra: «a casa do Amadeo Souza-Cardoso é aquela ali em baixo?», perguntei. «É sim», respondeu-me, solícito, o meu interlocutor, acrescentando, prestável: «mas olhe que ele não deve estar em casa, pois costuma ir até Lisboa». Pois costuma, pensei eu, mas a última vez que isso aconteceu foi em 1916. Pensei mas não disse, talvez com receio de ouvir como resposta um «Ah! Bem me parecia! Por isso o não vejo há tanto tempo».
8.1.06
Sendo-se justo
Acabei, enfim, a leitura do «Diário» do José Régio. Hesitante quanto ao que pensariam os seus leitores sobre as pessoas quanto às quais ele formulava, nesse gotejar de pensamentos íntimos, opiniões tão vincadas e sobretudo em que medida se influenciariam irremediavelmente em função dos seus tão vivos juízos de desfavor, Régio prevenia quanto ao que havia de circunstancial nessas suas mordazes opiniões. Vítima de críticas nem sempre respeitosas, desabafou, entretanto, por escrúpulo, num momento de verdade que difícil é ser-se justo quando se é vítima de injustiça.
7.1.06
Cantam as nossas almas
O meu pai, hoje faria anos. Nasceu há dois séculos, em 1898. Era mais velho do que o pai da minha mãe. Sempre tive um pai mais velho do que o meu avô. Tudo isso me deu uma noção da precariedade do tempo, do relativo da idade. Absoluto só o nascer, mesmo a morte conta pouco. Hoje, a estar cá, estaria de parabéns. Era o seu dia. Ao nascer, nasci, a possibilidade de mim na forma do ele.
A intranquila sensação
Cheguei com a cidade tragada por um nevoeiro gélido. Acordei com ela devolvida a uma luz crua do sol. O acordar tarde, uma sensação de estremunhamento, a angústia do tempo perdido, a ansiedade do pouco tempo que resta, os sentimentos habituais da intranquilidade. A quatrocentos quilómetros de casa, ou no quotidiano da minha monótona aldeia, sempre a mesma ideia pesecutória do mundo por haver. São quase dez e meia da manhã. A rua vazia, em redor a pacatez dorminhoca de sábado, todos indiferentes ao pecado do dormir demais.
5.1.06
Uma escrita exaurida
Há homens que ficam amarrados ao que parecem. No José Régio são os Cristos de antiquário, a fazer supor que ele era um beato católico, quando ele nega o catolicismo, declarando-se cristão; é a escrita familiar, intimista e dorida, a sugerir que ele fosse um conservador, quando ele se confessa socialista. Mas o que mais espanta é sobretudo aquele ar de eterno celibatário e misógeno, quando no seu Diário o surpreendemos nas suas obsessões sexuais e, quando calhava, a dar-lhes livre curso, até à exaustão. Há homens que parecem, enfim, amarrados ao que ficam.
4.1.06
Morreu
Saudava-o com um «olá, autor de Fast Lane», que fora o seu primeiro livro de ficção. Ele, com a bonomia tranquila expressa num sorriso, respondia com um «olá, ilustre causídico». Hoje morreu, no livro da realidade. E o ilustre causídico, agrilhoado ao remo de mais um julgamento, nem tempo terá para ir ao seu funeral. Olá Cáceres Monteiro, autor de «Fast Lane, um exercício de sedução», esta será a tua última reportagem, em busca de um Deus desconhecido.
3.1.06
A cidadela sitiada
Uma alma inquieta, mesmo contemporânea, é como uma cidadela medieval, sitiada pelo exterior das suas muralhas defensivas: confinada a si, morre de fome, saindo ao exterior é assassinada. Nisto não há nada melhor do que viver de portas abertas em convívio ameno com os nossos invasores. Claro que há nisso o risco de, num minuto de distracção, se morrer atropelado ou, num momento de distenção, nos miscigenarmos com eles.
2.1.06
A definição de uma alma
Talvez porque o António Telmo fale no José Régio, dei comigo a ler-lhe o diário que o António Maria Lisboa, seu estudioso, compilou e que se chama «Páginas de um Diário Íntimo». E ali encontro a excepcionalidade de uma definição que em si contém, em extensão e densidade, todo o conteúdo de uma alma única: «eu sou, a meus próprios olhos, um doido que por acaso nasceu com juízo». Em Régio a neurastia é aparente, surge apenas como a obsessão da sua inquietude, o seu «furioso desejo de Nada».
Adivinha quem vem jantar?
Nada como a companhia de um livro quando se janta sozinho: o livro evita-nos ter de olhar para os outros, o livro poupa-nos a ter de reparar que estão a olhar para nós. Esta noite foi uma entrevista de António Telmo a José Manuel Viegas, que ele compilou num livro a que chamou, talvez por causa do Agostinho da Silva «Viagem a Granada». Tinha acabado a sopa, uma sopa invernosa e espessa, excelente para um dia de frio, quando a frase chegou: cada português transporta dentro de si a pátria portuguesa.Telmo diz, numa outra entrevista, que Fernando Pessoa é um «poeta enorme». Do ponto de vista do que contém e deixa perceber, esta frase também.
Um tiro às escuras
A referência vem aqui, num artigo sobre a adaptação ao cinema de histórias previamente contadas em livro. Uma das graças é que «no livro as imagens são sempre melhores do que no cinema». Mas o que me ficou foi a menção a Tchekov, quando, a propósito ainda do teatro, dizia, a propósito dos tempos cénicos, que se há uma arma na primeira cena, ela tem que ser disparada na segunda. A atentar em algumas peças de teatro, o risco é serem disparadas sim, mas da plateia sobre o palco. O mesmo se diga do cinema, mas com menos sucesso.
Um homem em fuga
Sempre a fugir do calendário e a tentar fintar a agenda, fazendo da noite dia, e dos minutos horas, lá tento ler, quando posso e sobretudo quanto posso. Claro que, há umas semanas, estava a ler «As intermitências da morte», comprado logo no dia em que ele saíu. Hoje, que o tempo passou sem eu dar conta, continuo a lê-lo, no mesmo sítio onde ia. Saramago falava na folha que eu agora abri, dos que morrem de «morte parada». Também os há, eu sei, e por causa disso, o melhor é eu ler amanhã. Em matéria de leituras intermitentes, hoje fico parado.
1.1.06
Dias assim
Só um aceno. Cheguei há momentos. Não tenho nada para dizer e não quero ouvir coisa alguma. Há dias assim, completos!
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