23.1.06

O quem era e o porque é

Vim para casa carregado com os quatro volumes das «Obras Completas» do Delfim Santos, para verificar ontem que, afinal, já os tinha. Encontrei num alfarrabista, com infinita alegria o «Prazer e Glória» da Agustina para encontrar em casa uma edição igual. Para rematar, até um do Alçada Baptista eu já tinha, só que desta feita o que veio é a primeira edição, a da Moraes. Isto sucede assim porque em Portugal quem quer ler compra livros livros para os ler um dia, porque no dia em que lhe apetecer a leitura não os encontra em sítio algum. O mercado da livralhada hoje é assim: entram uns nos escaparates e uma semana depois somem-se para os armazéns dos editores, substituídos por uma nova remessa. Dizem-me que, neste país de iletrados, saem quarenta novos títulos por dia. A 30% nas livrarias, a 60 e mais nas grandes superfícies, eis o comércio na sua melhor expressão. O autor com sorte, esse chega à ilusão dos 10% e à desilusão de raramente os receber. Amanhã vou tentar que mos troquem, quando não espalho-os pelos amigos. Se algum se perguntar a que propósito leva com uma resma de Delfim Santos já sabe: escusa de perguntar quem era, que eu nem digo porque é!

22.1.06

Clientes de mão

Lembrei-me agora deles, ao ler o que o José Cardoso Pires escreveu sobre o Fernando Assis Pacheco, ambos mortos: os galegos, de tempos que também já foram, a cuja modéstia serviçal Lisboa tanto deve. Eram os amoladores de tesouras e navalhas, sombrinhas e chapéus de sol, assobiando os ares com o trinado de uma gaita de beiços que os anunciava, de rua em rua; os carregadores de pianos, animais de carga, corda enrolada a tiracolo, ajoujando escada acima cargas bestiais, em troca de uns vinténs; e eram, enfim, os das carvoarias e tascas, casas de pasto e por vezes pensões de curta permanência. A Lisboa gastronómica chique do «Gambrinus» a eles se deve, o popular «João do Grão», a eles pertence. Com uma variante que Cardoso Pires recorda: o João do Grão tinha os talheres presos à mesa com correntes, «para evitar distracções do cliente de mão sem escrúpulos». E o que por aí há mais são distraídos.

Uma vida que começa

Partiu, ontem, cedo na manhã. Uma vida adulta que enfim começa. E em mim, na desolação solitária daquele instante, no que eu gostaria de ter sabido converter em lágrimas, o desejo profundo do melhor dos mundos para ela. Hoje, neste domingo dorminhoco de Inverno, um estranho vazio acompanha-me. Escreveu-me, uma mensagem breve, daquelas em que tudo se diz no pequeno écran de um telefone. O texto é curto, diz que chegou bem, começa com a palavra pai.

O único e o singular de cada amor

Não tinha chegado a dizê-lo, mas o «Diário Íntimo» do Manuel Laranjeira, li-o há dias numa biblioteca pública, aproveitando o tempo durante o qual muitos outros almoçam. Mas ontem que foi sábado, encontrei-o, muito escondido e como se agachado num alfarrabista do Chiado. E esta manhã, ao acordar tarde, com a angústia de já passar das dez, um súbito ímpeto levou-me a ler-lhe o prefácio, o que na altura desconsiderara. Escreveu-o Alberto de Serpa. O prefaciador conheceu o prefaciado e sente-se que o absolve, àquele «pessimista místico», desencontrado com Deus, aquele que viveu «pedindo à existência terrena perfeição e paz que nunca podem ser dela» e morreu com as próprias mãos. Mas um «Diário Íntimo», um diário de amores, é algo de tão próprio, tão único e tão singular, que editá-lo é como que vingar um morto, ante a nudez embaraçosa dos vivos. Mas quando há delicadeza e carinho pelo outro escreve-se como ele escreveu, a justificar-se: «um quinquagenário sabe já bem quanto meio século é pouca coisa, e por tal fui-me às inciais, aos prenomes e aos apelidos com que Laranjeira indicou personagens femininas de ainda possível descoberta, e dei-lhes uma simples letra».

17.1.06

Mau parecer

A imprensa noticia que o Brasil está a exportar para Portugal anti-rugas falsificado. Percebe-se agora porque andam todos de semblante façanhudo: até a nossa aparência verdadeira é falsa.

Uma víscera ruim

Manuel Fernandes Laranjeira compôs em 1908 um «Diário Íntimo» onde anotou que, afinal, a alma é uma víscera ruim. Pouco antes do regicídio escreveu uma série de artigos, que Luiz Pacheco viria a editar-lhe, em trezentos modestos exemplares, na Contraponto. São notas soltas sobre o «pessimismo nacional», sobre as «quadrilhas messiânicas», sobre a «enfermidade congénita» dos portugueses, maleita que é um sintoma alarmante «de uma doença infecciosa grave», toda «de natureza parasitária». Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho no dia 22 de Fevereiro de 1912, com um tiro na cabeça, como era inevitável. Dele disse Miguel de Unamuno que «a vida o matou e ele deu vida à morte», como à de Portugal uma «Nação morta destinada a ser devorada pelas Nações vivas». Numa carta a Amadeo de Souza-Cardoso, Laranjeira, médico, diagnosticou a sua doença, a dos que sentem «morrer a vida» por não talhar a vida ao seu ideal.

16.1.06

Um dia

A indelicadeza é isto, visitarem-nos e nós não retribuirmos, falarem em nós e ser como se nem tivessemos dado conta. A selvajaria, porém, é tudo isto acontecer e um dia, a dois de Janeiro, ter morrido alguém e isso ser como se nem tivesse acontecido. Claro que há um sentimento de remorso. Confessá-lo não resolve, é uma forma apenas de me envergonhar publicamente.

15.1.06

É só carregar no «on»!

Groucho Marx considerava a televisão um meio muito educativo: cada vez que alguém a ligava, ele ia ler um livro. Hoje, com a proliferação de canais, é caso para se dizer, podem ler-se bibliotecas inteiras.

Nos teus olhos altamente perigosas

«Tu não poderias ficar presa comigo à roda em que apodreço, apodrecemos». Hoje é domingo, ouve comigo Alexandre O'Neill. A alegria sonâmbula, o modo funcionário de viver, a miséria de uma noite gerada por um dia igual.

Saudades do gasolim

Na selvajaria de que se faz vida há lugares magníficos onde não vamos, momentos de beleza que perdemos, recantos de sensibilidade que esquecemos. Hoje voltei ao gasolim ultramarino, para matar saudades.

A Praça de Espanha

Hoje o dia deu em chuva. Por ser domingo parece que chove mais e de modo que mais encharca. Refugiado num patamar de uma rua sem cafés, pesa-me tudo o que poderia estar a fazer a esta hora. Um casal de turistas pergunta-me pela Paça de Espanha. Condenando-o à desilusão do inóspito com que se vão surpeender quando lá chegarem, digo-lhes que é ali, mais em frente, sempre em frente.

Ler, rir e viajar

Há nos jornais suplementos sobre viagens, que parecem publicidade encapotada dos departamentos turísticos das embaixadas estrangeiras, quando não das próprias agências de viagens. São todos tão informativos como o «Guide Michelin», alguns sóbrios como o «Rough Guide». O que raramente são é divertidos. Ler e rir nem sempre acontece. Mas sucedeu hoje. O artigo é sobre o homem que atravessou um país inteiro durante uma semana, conhecendo-o detalhadamente. O país chama-se Andorra.

Tempus fugit

Há um livro onde se explica porque é que o tempo parece correr mais depressa à medida que envelhecemos, demonstrando como por o nosso relógio biológico, com a passagem do tempo, andar com mais vagar, tudo o resto parece decorrer mais rápido. Será um livro interessante, mas seguramente é daqueles que não vou ler, só por já não ter tempo para isso. Há pouco ainda me parecia ser sábado, amanhã já é segunda feira. Um vizinho desce a escada apressado, o autocarro em frente arranca veloz, um jovem casal, abraçado, corre ágil para fugir da chuva.

13.1.06

Alça daqui!

Viaja-se no espaço Schengen, e são os acordos de Schengen, e não há cooperação judicial que não seja a de Schengen, nem questões sobre passaportes em que não se fale de Schengen. Nesta maçada institucionalizada que é a Europa, uma coisa fantástica está na parede de uma igreja, a caminho da feira da ladra: «Schengen, sai deste espaço!». Assim, sem mais nem menos, a bazar! Um cão tristonho, pelo rente e ar desiludido, alçava ali pata, regando a dita parede. Vadio, ele era, em quatro patas, a imagem da excepção a Schengen: nas suas deambulações por este seu mundo de caixotes do lixo, é a liberdade de circulação total!

11.1.06

Um furo!

Tive um furo, ou melhor dizendo, o pneu do meu carro furou! E então são aqueles momentos da descobertas das maravilhas do nosso mundo moderno. Primeiro, fica-se a saber que antigamente o pneu sobressalente era um pneu igual aos outros e agora é uma rodinha ridícula, a vergonha de todas as rodas que se prezam, mais pequeno que os outros pneus e pintada a uma cor absurda, com um letreiro garrafal a dizer que não pode andar a mais de oitenta à hora. Já não basta o embaraço de ficar no meio da estrada naqueles propósitos, ainda se segue depois aquela humilhação do olha aquele furou! Mas há mais! O macaco que vem no carro é um verdadeiro saguí, o liliput de toda a genealogia simiesca, espécie de alavanquinha absurda com a qual se tem que alçar o carro à força de braço, na singular posição de estar metade do tempo de cócoras e outra metade de joelhos, os intervalos agarrado aos rins. Ainda por cima, para ajudar à festa, a coisa tem todo o ar de se desconjuntar a todo o momento e cair-nos o carro em cima de um pé. Agora com os coletinhos verdes fosforecentes, um tipo nestes ademanes vê-se à meia-légua. Dirá quem me lê que o meu problema foi ter sido apanhado nesta. Não, não foi, porque consegui arrumar-me para uma ruela sossegada. Ironia do destino era em frente de uma escola de condução, onde se calhar ensinavam num quadro como mudar teoricamente um pneu. O que mais me desassossegou foi uma amiga minha dizer-me num amigável e carinhoso «coitado de ti só te faltava esta» que «um furo, que é coisa que quase não há». Pois é, minha querida, quase não há mas houve: e foi hoje e comigo, na estrada de Sintra. E não foi ao volante de um Chevrolet, nem pela estrada do sonho!

A caderneta escolar

Tenho pudor em dizer a quem pertencia. Mas ali estava, no chão, à venda, entre bugigangas diversas, a caderneta escolar de uma mulher de quem se disseram já coisas civicamente maravilhosas. É assim a Pátria agradecida e assim são as famílias que, morta a criatura, lhe despejam os papéis para o lixo. Se é para isto que serve ter família, antes ser sozinho, ou morrer pobre, sem nada para deixar.

9.1.06

O homem de Manhufe

Consegui estar este fim de semana em Amarante, por causa do Amadeo de Souza-Cardoso. A casa da família, onde viveu, está fechada a visitas. Para a descobrir é preciso perguntar e muitas vezes. Muita gente da terra nem sabe onde é Manhufe. Mas, enfim, de curva em curva, entre rotundas e inversões de marcha, lá acertámos. Já na rua da pequeníssima localidade, hesitante, abordei um passeante nos seus sessentas, que pela samarra e passo vagaroso me parecia um habitante da terra: «a casa do Amadeo Souza-Cardoso é aquela ali em baixo?», perguntei. «É sim», respondeu-me, solícito, o meu interlocutor, acrescentando, prestável: «mas olhe que ele não deve estar em casa, pois costuma ir até Lisboa». Pois costuma, pensei eu, mas a última vez que isso aconteceu foi em 1916. Pensei mas não disse, talvez com receio de ouvir como resposta um «Ah! Bem me parecia! Por isso o não vejo há tanto tempo».

8.1.06

Sendo-se justo

Acabei, enfim, a leitura do «Diário» do José Régio. Hesitante quanto ao que pensariam os seus leitores sobre as pessoas quanto às quais ele formulava, nesse gotejar de pensamentos íntimos, opiniões tão vincadas e sobretudo em que medida se influenciariam irremediavelmente em função dos seus tão vivos juízos de desfavor, Régio prevenia quanto ao que havia de circunstancial nessas suas mordazes opiniões. Vítima de críticas nem sempre respeitosas, desabafou, entretanto, por escrúpulo, num momento de verdade que difícil é ser-se justo quando se é vítima de injustiça.

7.1.06

Cantam as nossas almas

O meu pai, hoje faria anos. Nasceu há dois séculos, em 1898. Era mais velho do que o pai da minha mãe. Sempre tive um pai mais velho do que o meu avô. Tudo isso me deu uma noção da precariedade do tempo, do relativo da idade. Absoluto só o nascer, mesmo a morte conta pouco. Hoje, a estar cá, estaria de parabéns. Era o seu dia. Ao nascer, nasci, a possibilidade de mim na forma do ele.

A intranquila sensação

Cheguei com a cidade tragada por um nevoeiro gélido. Acordei com ela devolvida a uma luz crua do sol. O acordar tarde, uma sensação de estremunhamento, a angústia do tempo perdido, a ansiedade do pouco tempo que resta, os sentimentos habituais da intranquilidade. A quatrocentos quilómetros de casa, ou no quotidiano da minha monótona aldeia, sempre a mesma ideia pesecutória do mundo por haver. São quase dez e meia da manhã. A rua vazia, em redor a pacatez dorminhoca de sábado, todos indiferentes ao pecado do dormir demais.

5.1.06

Uma escrita exaurida

Há homens que ficam amarrados ao que parecem. No José Régio são os Cristos de antiquário, a fazer supor que ele era um beato católico, quando ele nega o catolicismo, declarando-se cristão; é a escrita familiar, intimista e dorida, a sugerir que ele fosse um conservador, quando ele se confessa socialista. Mas o que mais espanta é sobretudo aquele ar de eterno celibatário e misógeno, quando no seu Diário o surpreendemos nas suas obsessões sexuais e, quando calhava, a dar-lhes livre curso, até à exaustão. Há homens que parecem, enfim, amarrados ao que ficam.

4.1.06

Morreu

Saudava-o com um «olá, autor de Fast Lane», que fora o seu primeiro livro de ficção. Ele, com a bonomia tranquila expressa num sorriso, respondia com um «olá, ilustre causídico». Hoje morreu, no livro da realidade. E o ilustre causídico, agrilhoado ao remo de mais um julgamento, nem tempo terá para ir ao seu funeral. Olá Cáceres Monteiro, autor de «Fast Lane, um exercício de sedução», esta será a tua última reportagem, em busca de um Deus desconhecido.

3.1.06

A cidadela sitiada

Uma alma inquieta, mesmo contemporânea, é como uma cidadela medieval, sitiada pelo exterior das suas muralhas defensivas: confinada a si, morre de fome, saindo ao exterior é assassinada. Nisto não há nada melhor do que viver de portas abertas em convívio ameno com os nossos invasores. Claro que há nisso o risco de, num minuto de distracção, se morrer atropelado ou, num momento de distenção, nos miscigenarmos com eles.

2.1.06

A definição de uma alma

Talvez porque o António Telmo fale no José Régio, dei comigo a ler-lhe o diário que o António Maria Lisboa, seu estudioso, compilou e que se chama «Páginas de um Diário Íntimo». E ali encontro a excepcionalidade de uma definição que em si contém, em extensão e densidade, todo o conteúdo de uma alma única: «eu sou, a meus próprios olhos, um doido que por acaso nasceu com juízo». Em Régio a neurastia é aparente, surge apenas como a obsessão da sua inquietude, o seu «furioso desejo de Nada».

Adivinha quem vem jantar?

Nada como a companhia de um livro quando se janta sozinho: o livro evita-nos ter de olhar para os outros, o livro poupa-nos a ter de reparar que estão a olhar para nós. Esta noite foi uma entrevista de António Telmo a José Manuel Viegas, que ele compilou num livro a que chamou, talvez por causa do Agostinho da Silva «Viagem a Granada». Tinha acabado a sopa, uma sopa invernosa e espessa, excelente para um dia de frio, quando a frase chegou: cada português transporta dentro de si a pátria portuguesa.Telmo diz, numa outra entrevista, que Fernando Pessoa é um «poeta enorme». Do ponto de vista do que contém e deixa perceber, esta frase também.

Um tiro às escuras

A referência vem aqui, num artigo sobre a adaptação ao cinema de histórias previamente contadas em livro. Uma das graças é que «no livro as imagens são sempre melhores do que no cinema». Mas o que me ficou foi a menção a Tchekov, quando, a propósito ainda do teatro, dizia, a propósito dos tempos cénicos, que se há uma arma na primeira cena, ela tem que ser disparada na segunda. A atentar em algumas peças de teatro, o risco é serem disparadas sim, mas da plateia sobre o palco. O mesmo se diga do cinema, mas com menos sucesso.

Um homem em fuga

Sempre a fugir do calendário e a tentar fintar a agenda, fazendo da noite dia, e dos minutos horas, lá tento ler, quando posso e sobretudo quanto posso. Claro que, há umas semanas, estava a ler «As intermitências da morte», comprado logo no dia em que ele saíu. Hoje, que o tempo passou sem eu dar conta, continuo a lê-lo, no mesmo sítio onde ia. Saramago falava na folha que eu agora abri, dos que morrem de «morte parada». Também os há, eu sei, e por causa disso, o melhor é eu ler amanhã. Em matéria de leituras intermitentes, hoje fico parado.

1.1.06

Dias assim

Só um aceno. Cheguei há momentos. Não tenho nada para dizer e não quero ouvir coisa alguma. Há dias assim, completos!

31.12.05

O beneficente consolo

A salvação já existiu! Andávamos por meados do século dezanove e ela chamava-se a «Associação Consoladora dos Aflitos».Tinha um jornal, que a Biblioteca Nacional generosamente agora faculta à leitura pública, aqui e que se chamava «A Beneficência». Vendia-se «na loja do sr. Lavado, Rua Augusta, n.º 8». A associação, segundo proclamava o generoso periódico, era animada pelas «damas ilustres (...) semelhantes a bandos de níveos pombinhos, conduzindo verdes ramos de pacífica oliveira». Com tais níveos pombinhos, um homem ficava consolado pela certa, por mais aflito que andasse.

30.12.05

Elixir capilar

Só o homem, que não os outros animais precisam de ir ao barbeiro e mesmo assim só em relação aos pelos da cabeça, enquanto não caem de vez. Agora a esses fígaros chamam-se de cabeleireiros, o que faz sentido, vista a zona onde primacialmente operam. Só o homem que não os outros animais precisam de ir ao barbeiro cortar os pelos da parte de baixo da cabeça, os da barba e do bigode. Se nisto, da ininterruptabilidade do crescimento capilar está a natureza humana do homem, a calvície é a tragédia existencial da desumanização.

29.12.05

Na imensidão de um muro

Eu tenho um amigo que em cada Natal manda imprir um livrinho com poemas e pequenos outros textos que selecciona e o distribui por aqueles a quem quer obsequiar. Este ano, uma amiga fez o mesmo com belíssimos textos seus. Fale-se, para já, do primeiro, onde eu leio o que estará inscrito num momento da imensidão da Grande Muralha da China: «a certeza guardada como reserva, elogios não esperados de um artista, a descoberta da nobreza em nós próprios». São as três coisas boas.

28.12.05

Uma língua que ecoa

Continuam as leituras compulsivas para o fechar do já atrasado livro. Há sempre uma pausa agradável, mesmo nos dias que nos entristecem. No caso, foi ao ler nas memórias de Elizabeth Hill, a prima russa da minha biografada, o momento em que ela assiste às aulas de russo na Universidade, em Inglaterra. Ministradas por um professor arménio, os seus alunos eram obedientes oficiais do Exército britânico, que, ante o facto de o professor repetir, para melhor audibilidade, cada palavra do vocabulário a memorizar, convenceram-se, com seriedade, que em russo cada palavra se pronunciava, sabe-se lá porquê, duas vezes: «niet, niet», «da, da»!

O lugar de toda a gente

O livro trata da vida quotidina em São Petersburgo na época romântica. Estou a estudá-lo porque a minha biografada, Nathalie Sergueiew nasceu naquela que Pedro o Grande quis que fosse a janela da Rússia sobre a Europa. Há nele um capítulo que trata da condição feminina e outro da vida cultural nessa cosmopolita cidade. Não recordo em qual vem a propósito de Elizabeth Khitrovo, filha do general Koutozov que, estando doente, e não podendo receber nos seus salões, como costumava, a corte de intelectuais, artistas e homens de cultura que a frequentavam, abriu-lhes as portas do seu quarto e a um, com equívoca amabilidade, lhe disse: não, não se sente aí nessa cadeira, pois é a preferida de Putschkine, nem naquele fauteil, pois é o de Viguel. Sente-se aqui, na minha cama, que é o lugar de toda a gente. Uns anos depois, os sovietes arancavam em armas com o sonho de que isso era uma verdade universal para todas as coisas, em todos os lugares.

27.12.05

Vocês, vejam lá!

Vi-o, na capa do JL, ao professor Matoso, o historiador. E lembrei-me que tinha de comprar o jornal. Na papelaria o homem disse-me um mas este é o da semana passada e acresecentou mais é que isto sai de quinze em quinze dias. Como eu lhe disse um convicto eu sei eu sei, mas é que me esqueci de o comprar, rematou-me com um pois é, este é daqueles que nunca se desactualizam! Pois não, vim eu a pensar. E. de facto, lá dentro ainda se fala do Afonso Henriques, vejam lá!

26.12.05

Prognóstico reservado

Saíu também a Geometria do Abismo da câmara de reanimação em que se encontrava. É claro que a dispersão exaure e mata de fadiga quem escreve e de cansaço a quem lê. Talvez por isso a «geométrica noção dos males e dos remédios» ajude um pouco na convalescença.

A lenda dos malvados

Por andar a escrever um livro sobre a pintora Sonia Delaunay acabei hoje, dia seguinte ao de Natal, a leitura minuciosa do livro que o Mário Cláudio escreveu sobre Amadeo de Souza-Cardozo. Mário Cláudio é um dos que felizmente encontrou depois do Direito uma forma de se salvar, pela literatura. O livro é superlativo, como momentos extravagantes de observação, como quando surpreende que na vida do seu biografado «as mulheres desfilam no horizonte de sua mira, como outras tantas hipóteses de conhecimento de si mesmo». No caso são, em Paris, incessantes «expedições cinegéticas do amor», em que entrecruzam mulheres «exaustivamente nuas», «a entrega a ninfas e harpias que caracteriza a lenda dos malvados». Tudo acaba, porém, no caso de Amadeo ainda sem completar trinta e um anos, no dia vinte e sete de Outubro de mil novecentos e dezoito. Nesse dia «a vida que findara começa, como todas as que se extinguem, no reviver do palpitar definitivo das suas cores». Mata a pneumónica um extraordinário pintor: «pessoas de tal nervo, só porque não podem dar-se ao luxo da ausência de si próprias, se não ausentam dos outros».

Enleante cuidado

Repare-se num gato a atravessar numa casa por entre obstáculos miúdos e dispersos. Tem de articular quatro patas, fazer passar um corpo horizontal, extenso em excesso comparativamente com a sua distância do chã,. maior em comprimento do que em altura. Compare-se com o homem, que tem duas pernas e não quatro e, porque na vertical, ocupa menos raio de acção. Veja-se agora a trapalhice do humano e a destreza do felino. De vez em quando lá vai um bibelot em cacos. Segue-se uma zaragata, não de miaus, mas de berros!

25.12.05

Amar

Havia-os em todas as casas dos anos quarenta, com aquelas capas que hoje ressuscitaram para o bom gosto, os livros do Stefan Zweig. Alguém disse outro dia que ele era um escritor mediano. E, no entanto, este domingo de Natal a sua descrição de Sigmund Freud devolveu-me, enfim, a compreensão respeitosa pela escola psicanalista de Viena, o modo como ele comenta o Ulisses de James Joyce ensinou-me, enfim, o que é o génio de escrever. Um homem destes ama os livros. Sobre eles escreveu um agradecimento singular: "os livros esperam, em silêncio. Chamam, convidam-nos, mas não exigem". Só quem ama, respeitando-se, escreve uma coisa assim.

A estrada

Chove e é domingo e por ser Natal há nesta estrada esperanças contentes e memórias entristecidas transportando-se no sonho reflexo da ilusão.

24.12.05

Os limites da compreensão

Interceptou-me na rua e disse-me que representava o senso comum, tal como John Locke. Eu sei que é inesperado ser-se interrompido numa rua, invulgar quando isso acontece numa noite de Natal, excepcional para nos virem falar no senso comum, caso único quando é alguém que se diz idêntico a John Locke. Locke nasceum em 1632. Um dos pontos nevrálgicos do seu contributo para a filosofia foi a compreensão dos limites do entendimento humano. Eis precisamente com o que me confrontei esta noite, a minha incapacidade de pereceber o que se passava com esta mulher, mesmo em termos de senso comum. Ouvimo-nos e sem que nos tivéssemos entendido, mutuamente nos desejámos um Bom Natal.

De vésperas

Há um ditado brasileiro que diz que «às vezes é preciso fingir de morto para continuar vivendo». Talvez tenha sido isso. Tal como como nos corpos em agonia, a Mãe Natureza desliga-lhes tudo o que gasta energia vital, lançando-os em coma. Fica o mínimo aplicável à sobrevivência. Não escrevi, mal li, quase não pensei. No mais, tentei cumprir as minhas obrigações profissionais e os meus deveres pessoais. Aqui estou, quase sem fôlego, na véspera de Natal. Quando eu era miúdo ansiava por amanhã. Hoje também.

12.12.05

Sabina Freire

Ora entre o carrego de livros que, entusiasta, comprei a semana que passou, encontrei, em cuidada encadernação já moída de maus tratos, o «Sabina Freire», peça de teatro de Manuel Teixeira-Gomes, que já foi Presidente da República e de quem já falei aqui. Na linguagem redonda da época o autor apresenta assim a sua personagem: «ondulosa, braços magros, cinta fina, quadris estreitos, seio farto e inflando na bem geminada curva dos bem distintos pomos». Um homem lê isto e vê, como se um cego em braille, tacteando as letras com as pontas dos dedos.

O acaso persistente

Este fim de semana dei comigo a pensar como haveria de escrever um livro que começara há semanas a alinhavar, mas que não encontrara ainda forma de se expressar. Hoje, depois do jantar, fui à mala do carro, para alombar escada acima com dois sacos de alfarrábios que comprei há dias a uma elegante e distinta senhora que vende livros com a categoria de quem recebe amigos para um cuidado chá. Uma dessas preciosidades é do Metzner Leone, e é um romance que abre com uma frase que eu sei que é muito minha: «qualquer romance tem, pelo menos, duas histórias: a que conta o livro, e a história do próprio livro». Eis neste livro, nas palavras de outro, o que eu havia pensado para o meu livro. Claro que é uma simples coincidência, daquelas que nos martelam a cabeça de persistentes.

11.12.05

E é melhor nem pensar!

Eu disse ontem aqui que estava a ler o livro de contos da Florbela Espanca, mas não disse que ele se chama «O Dominó Preto», nem que tinha conseguido ler o conto que dá nome ao livro, na ânsia que fosse o melhor. O tom geral da escrita é aquela calda lacrimosa e adocicada que torna cada uma das linhas como se uma caminhada dissolvente e contribui para a enervação do leitor. A história é a do marçano plebeu, o José, que se enamora da longínqua e distinta cliente, a Maria, e que por marcar encontro em noite de Carnaval num jardim público ao qual ela não aparece, se mata, insolitamente à facada. Como personagem que se preza, o José morre mesmo, no último parágrafo do conto, com uma andorinha a ajudar à cena, passando-lhe veloz «rente à cara dele, com um gritinho de alegria». É assim. A surpresa é que há na narrativa aqueles momentos de lubricidade oculta, como mão discreta entre rendinhas íntimas: não é tanto o dar-se o leitor a perceber nela o «passinho grácil», a «boca fresca» de «polpa carnuda e sumarenta de um morango acabado de colher»; é mais aquele passo em que o José lhe ouve, em imaginação doente, «o riso garoto cheio de reticências, evocador de carícias proibidas e desejadas, o riso que às vezes lhe fazia vir à ideia coisas em que seria melhor não pensar». Num seu diário Florbela definiu-se como «casta sem formalidades», «a palpitar de seiva quente». Percebe-se, e muito bem.

Florbela: conhecer-me!

Eu sei que esta semana fez anos que nasceu a Floberla Espanca, que nasceu em Dezembro e em Dezembro quis morrer. Hoje, já longe da data, tenho comigo apenas um livro de contos que ela escreveu e peço-lhe ajuda para poder ter algo de digno a dizer. É pena, porque como disse a Ivette Kace Centeno, que prefaciou uma sua edição, «incomoda nos contos o fácil dos estereótipos». Mas nem tudo é mau neste momento residual de lembrar a tragédia de uma vida. É que nesse livro e nesse «prefácio», que melhor se chamaria de introdução, é lembrado um momento do seu «Diário do Último Ano» aquele em que Florbela configura a eventualidade de, quando enfim morrer, alguém ler aqueles seus «descosidos monólogos» e assim «realize o que eu não pude: conhecer-me». Por mim tentei, sem ser capaz e vim aqui dizê-lo, assim alguém me ajude.

10.12.05

Demência, Majestade!

A Fenda editou um estudo do Ezra Pound sobre Camões. Disse-mo um livreiro de bairro, um entusiasta que tenta sobreviver há cinco anos neste mercado de ferocidade mansa que são os livros. Encontrei o opúsculo numa daquelas livrarias de Centro Comercial que agora parecem só ter lixo embrulhado em papel vistoso. Li-o hoje, sábado de manhã, num insólito local, a última fila de bancos da Basílica da Estrela. O texto é curto e trata essencialmente de um tema erudito, o da problemática da tradução de «Os Lusíadas». O que é um desastre é a revisão da tradução. Não fosse a solenidade do local, que umas jovens turistas excepcionavam, viçosas e matinais, tinha-me esbarrigado a rir, sobretudo naquele momento em que nele se diz que a Inês de Castro «foi apunhalada quando pedia demência ao então rei, Afonso IV». Exactamente assim demência! O livro vai em segunda edição: é caso para dizer não revista e muito diminuída!

8.12.05

A voz, o som, as cores

Há na rádio uma voz cavernosa que é a do António Sérgio. Com ele ouvi o «Lança Chamas» e os «Sinais de Fumo», programas de música tida por imprópria para o que eu deveria ser. Agora o António Sérgio está na «Hora do Lobo», da meia-noite às duas. Lembro-me dos tempos em que eu via rádio. Via, sim, as sonoridades coloridas por detrás dos sons que ouvia, um arco-íris de entusiasmo, na solidão da noite. Hoje, toupeira cega pelo excesso de luz, apuro o ouvido, no labirinto dos sons.

P. S. Hoje lembrei-me. E «Som da Frente» onde, pelo menos para mim, tudo começou?

6.12.05

Epigrama

A un português que lloraba, preguntaron la ocasión; respondió que el corazón y que enamorado estaba. Por mitigar su dolor, le preguntarem de quién; Respondió que ninguén: lloro de puro amor! Lope de Vega escreveu este epigrama.

Vencimento

Só para o vencido há vencedor, precisamente porque não venceu. Vergílio Ferreira disse isso faz quarenta anos daqui a dez dias, ao Diário Popular. Nem quem o disse nem onde ele o disse já existem, vencidos.

4.12.05

Pensava

Há no último livro da Agustina aquele momento em que as mulheres sofredoras estavam em vias de se tornarem mulheres irritáveis. Pensava eu que já tinha passado essa página, a página número cento e nove.

3.12.05

Intervalos de animal

Eu sei que já passava da uma e meia da manhã, mas o sentimento urgente de que já que o dia acabara, ao menos eu podia ter a ilusão de ter lido qualquer coisa mais do que os papéis do meu trabalho, não me deixava descansar. Consegui! Eu sei que foi só meia-página de um livro que se arrasta na mesa de cabeceira há semanas. Mas valeu a pena, pois vem lá que «o homem só é um animal racional nos intervalos de ser animal». Como se vê precisamente pela vida que se vive.

1.12.05

O princípio da verdade universal

«A vida que vivo não é a minha», Almada-Negreiros a Sonia Delaunay, admirável e universalmente verdadeiro.

30.11.05

Os olhos de um cão

Ainda o «JL». Numas páginas dedicadas aos escritor que a guerra colonial nos trouxe, vem, ao lado do lembrado Lobo Antunes e do esquecido Assis Pacheco, o ignorado Bação Leal, autor de um livro modesto, pobre de meios, magro de divulgação, um livro póstumo, um livro mesmo assim perseguido. Tive-o e foi dos que me ficou, numa qualquer casa, então estranha, hoje alheia. «Se me quiseres reencontrar, olha um cão nos olhos, com certeza estarei por detrás dos olhos do cão», escreveu ele, em verso desesperado. Morreu há quarenta anos, no dia um de Setembro, tinha vinte e três anos de tragédia já vivida.

Homens livres

À quarta-feira sai o «JL», e nem sempre satisfeito com o que nele leio, habituei-me a lê-lo. E começo pela última página e sei que nisso não estou sozinho. Nos últimos tempos ela anda dedicada a escritos de memórias. Desta vez foi o professor Jaime Celestino da Costa o mesmo que, por coincidência, este domingo, em viagem, ouvi na Antena 2, a falar sobre o Freitas Branco, o que agora anda em efemérides. Ora lembrou o notável médico e homem de cultura que em 1923 se editou em Portugal uma revista chamada «Homens Livres», que ornava como sub-título, «Livres da Finança e dos Partidos». É caso para nos perguntarmos se não se poderia reeditá-la, aproveitando precisamente a oportunidade e o momento.

29.11.05

Para que eu sinta em mim

O José de Almada-Negreiros, num intervalo dos seus «desejos eléctricos de exibição», escreveu, íntimo e exageradamente sincero, à pintora ucraniana Sonia Delaunay, a viver então em Vila do Conde, na Rua dos Banhos. Findou essa carta, escrita «da cidade quimicamente febril», com um «amanhã dar-lhe-ei toda a minha alma epilética de admiração. Hoje estou completamente só». Dias antes tinha escrito a Eduardo Viana, confessando-lhe: «eu vivo abandonado de entusiasmos e de tudo - a minha tragédia empeçonha-me tentacular e tumultuosa (...). Escreve-me para que eu sinta em mim alguma amizade». Corria o ano de 1916.

27.11.05

Domingo à tarde

Todos conhecem a palavra «serra», como a Serra do Caldeirão e a palavra «cerro», como em Cerro Maior. Mas na tabuleta da estrada estava escrito «serro», como Serro da Zorra, Serro da Águia, Serro Ventoso, ou Serro da Cabeça. E assim, trocando-se o «c» por um «s» tudo se irmana e ganha sentido. Uma e outra querem dizer «espinhaço», como em Espinhaço de Cão. Cravado na garganta, esse, só o da necessidade de regressar.

26.11.05

Cerejas literárias

Exausto, fugi do quotidiano, na ânsia de tentar descansar. Trouxe-o, ao livro da Agustina e, reconheço, é uma narrativa notável. Trata da interdição, por loucura, da filha de Eduardo Coelho, o homem que fundou o «Diário de Notícias» e do controverso processo judicial que desencadeou. Mas trata de tudo isso com uma sensibilidade de alma que toca. Agustina diz que escreve livros como quem come cerejas. Cerejas doces, daquelas que o pardal debica, ferindo-lhe a polpa, cristalizando-se os açúcares.

24.11.05

Um sono de morte

Eu ontem não disse, mas o livro da Agustina que comprei abre a tratar de um enterro. E não disse porque comprei com ele um outro, do José Augusto França, que se chama «Exercícios de passamento» e que é dedicado ao modo como morreram cinquenta ilustres portugueses. Uma coisa fatídica, que ainda por cima surgiu por acaso! São assim, irmanados no necrotério literário, o França, que põe traço de união entre o José e o Augusto, e a Agustina que põe traço de união entre o Bessa e o Luís: os dois livros que têm como traço de união o tratarem de mortos. No caso dos «Exercícios», são cinco suicídios e dois assassinatos, o resto é tudo de «morte natural», estranho nome para uma coisa que se encara normalmente com tão pouco naturalidade, mas enfim. Ontem à noite, antes de adormecer, ainda consegui despachar quatro mortos. Dormi regaladamente.

23.11.05

O atleta da tristeza

Há sempre um livro da Agustina Bessa Luís que se não leu. Hoje encontrei um que se chama «Doidos e Amantes», dedicado a uma bisneta do «professor alienista Júlio de Matos». Um dos personagens, pelo que intuí da primeira folha «fazia da infelicidade um desporto da alma». Sem mais.

Um livro filomenal

Pronto, está arrumado! Desisti de vez do livro da Filomena Mónica e consegui acabar o livro do Mega Ferreira sobre o Fernando Pessoa, por coincidência com uma frase do «Livro do Desassogeo», que, por coincidência também, foi onde fui buscar a expressão «geometria do abismo», que dá nome a um outro blog de que igualmente cuido. Bom, em suma, e para atalhar, a desassossegada frase com que eu conclui o livro é «o meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria até inibir-me de dar começo». Ora aí está um salutar princípio que eu deveria ter aplicado ao filomenal livro: não lhe ter dado sequer começo. Meu rico tempo roubado ao sono, ao descanso e à companhia para acabar perdulariamente estiolado nisto!

20.11.05

Viver na abstracção

Tinha parado de chover e o jardim era uma cantata de cores, de cheiros e de sons. Consegui ainda uns momentos de leitura, umas páginas mais ao «Nítido Nulo». Vai a meio. Ao regressar, porém, uma vez mais ali estava plantada no meu horizonte de desejo, a atraente livraria, a lúbrica piscadela de olho, prometedora dos seus livros. Hesitei. Morando perto dali, tinha levado pouco dinheiro, apenas para não andar desprevenido. Podia-me desculpar com isso para não ter de ceder; ademais tenho imensa leitura em atraso. Mas pronto! O livro está aqui. Foi o António Mega Ferreira quem o escreveu, fala de mais um Pessoa, entre os tantos em que ele já foi fatiado, qual perú assado, por falar a propósito do Natal que aí vem, quando há quem coma de tais coisas. Desta vez é o Pessoa empreendedor, o que teve de «fazer pela vida», por não poder comer os poemas que escrevia, nem com eles pagar renda ou vestir-se como se vestia, aprimorado.O livro despacha-se rápido, para quem for ágil na arte do folhear, rápido no truque de apreender. O problema são aqueles breves momentos de encontro com o sublime, como a frase «conservar num abstracto o que temia concreto», por ele escrita a propósito do relacionar-se, pela escrita comercial inglesa, com a Inglaterra mítica. Lia-a, à frase ambígua, e não me sai do pensamento, como se nela se resumisse, em suma, todo um modo de viver os outros e, através deles, solitário, a própria vida.

19.11.05

A suprema incerteza

Pois o livro grande, o livro pesado que há pouco comprei, é o dos «Cantos» do Ezra Pound, traduzidos agora em português. Há quanto tempo eu andava a martelar o difícil original, percebendo parte da metade do todo e desejando entender-me com a metade do resto que mal percebia. Ao brasileiro José Lino Grünewald se deve o traduzi-lo. José Lino finalizou Direito e «deixou o diploma de lado», isto «para se dedicar de corpo e alma à actividade literária». Como eu me revejo, frustrado, em biografias como esta. Voltei ao Ezra Pound e aos seus torrenciais cânticos, cantos e cantares.Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza». Ele o diz e eu também. Por isso, deixem-me em paz: quero ler, inquieto talvez, mas sossegado, enfim.

Os olhos a arder

Há no Centro de Arte Moderna uma Livraria que é Almedina e que por ter esse nome me cheira aos livros de Direito que são o meu pesadelo na forma de livros sem literatura. Mas o essencial dos livros dessa Almedina não tem a ver com o Direito, embora haja por lá, no pequeno espaço, uma provocatória Lei Geral Tributária e um consensual Código Civil, além de outras espécies legais mumificadas. Passo por lá aos sábados, quando calha ter sábado possível para ir espraiar-me pelos jardins da Fundação. Hoje, já de saída, cruzei-me com os «Pequenos Burgueses» do Carlos de Oliveira, um dos poucos que faltavam na colecção do homem que escreveu «A Casa na Duna» e, enfim, o livro de que vou falar a seguir. Regressei exultante e carregado. Com um golo de vinho tinto do almoço tenho a alma reanimada. Faz sol lá fora e já esteve a chover. Só falta telefonarem-me para me sentir gratificado. Tenho leitura para dias a fio. A juntar ao que me falta ler, se não fico mais culto, fico pelo menos com os olhos a arder.

18.11.05

Bilhete de identidade

Corrijo, há que ser justo!. Não retiro nada ao que me irrita, há no livro coisas ridículas e outras desnecessárias, mas já nem sei o que pense a seu respeito. É um livro sincero, relata mesmo o inconveniente. Através dele reconstitui-se uma época e um estilo. Vou lê-lo todo. Talvez eu esteja de mal com a minha geração, com a «pose» e a arrogância que tínhamos e o mundo merdoso que gerámos. Deve ser por causa disso, Maria Filomena Mónica, que o livro me está a custar. Chama-se «Bilhete de Identidade»: de cidadão nacional!

17.11.05

A Ti-Mi e a Ti-Lú

Eu não sei se consiga ou deva, mas lá vou lendo, furioso comigo, o livro de «memórias» da Maria Filomena Mónica. Para não desistir de vez, saltei-lhe a parte da infância e da adolescência. Há minutos, quando interrompi a leitura, tinha ela descoberto o Vasco Pulido Valente e eu tinha ficado a saber por ela que ele «usava soquetes curtos», dado fundamental que explica afinal muita coisa que eu não compreendia. Antes disso, ainda li uma frase que sublinhei. Era a propósito da «avó Maria» e da «Ti-Mi e a Ti-Lú» e a frase dizia assim: «Nenhuma tinha marido ou, se os tinham, guardavam-nos longe». Ora aí está a fórmula mágica para se salvar a felicidade matrimonial: longe da vista e, se possível, do coração! E não me digam que não vale a pena o esforço irritante de se lerem livros írritos!

16.11.05

A ordem natural das coisas

Já nem sei como é possível evitá-los, aos livros. Hoje talvez tenha passado o teste decisivo. Ando a acumular tantos livros para acabar de ler que já deveria ter pudor em abeirar-me de outros. Lá consegui encerrar o torrencial «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, mas ainda vou a três quartos do tristonho «Os meus sentimentos» da Dulce Cardoso, falta-me a parte final do conturbado «O Acidente» do Mário Cabral, vou no princípio ainda do enevoado «Nítido Nulo», do Vergílio Ferreira, mas apeteceu-me ler e comecei-o ao Saramago, o das burlescas «Intermitências da Morte». E, no entanto, eu que embirro, sem saber sequer porquê, com a Maria Filomena Mónica, eu que, por causa disso me esquinei com o livro que ela escreveu, por saber que era dela e por duvidar que memórias capazes poderiam ser aquelas e que me interessariam, comprei hoje o livro. Quase diria comprei-lhe o livro, naquela forma de dizer de um leitor que quer ajudar um escritor. Comecei a lê-lo há pouco num banco cimentado de um centro comercial, enquanto esperava que acabassem umas variadas compras. Li quanto pude. Os outros livros, pacientes, aguardavam em casa a sua vez. Leio onde calha. Calha é infelizmente poucas vezes. Mesmo assim dou graças a Deus: aprendi a escrever, depois de ter aprendido a ler.

13.11.05

O que há e o que é

Era domingo e estava muito frio e eu vim para a rua, talvez por fazer sol. Trazia comigo o último caderno dos «Teoremas da Filosofia», que, devotadamente os da Filosofia Portuguesa vão animando com os seus escritos. E li no Pedro Sinde, filosofando à bolina, esta ideia de haver pessoas para quem existe apenas o movimento de rotação de si em torno de si, o perpétuo circular do dia e a noite da sua própria individualidade. E aprendi a perfeição do movimento de translação, seguindo as estações de todo um ano, a mutação de toda uma vida. Esta verdade astronómica pareceu-me ainda mais verdadeira, quando aplicada aos seres humanos. Partícula do universo, poeia cósmica, o homem reproduz em si e na sua insignificante individualidade toda a mecânica do sistema solar. O infinitamente pequeno é homólogo ao infinitamente pequeno, o um equivalente ao todo, o que há idêntico ao que é.

12.11.05

A morte suspensa

Há coisas que o tempo me ensina a aprender; a mais recente é porque motivo eu não gostava do Saramago. Claro que havia aquela história de ele, director do «Diário de Notícias», nos «anos da brasa», ter demitido uma série de jornalistas, muitos dos quais passaram um mau bocado por causa disso. Há um que conheço e que ainda hoje, por causa disso, se recusa a chamá-lo pelo nome e cada vez que o refere o faz como «o erva daninha», tal é, de facto, a definição do dicionário para o nome do nosso prémio Nobel da Literatura. E, no entanto, cheguei à conclusão do motivo profundo para não gostar dele e nada ter lido até agora que proviesse da sua pena. É que o autor do «Memorial do Covento» é de tal modo banal a falar de si, de tal modo pardo a falar do que pensa, que uma pessoa fica sem vontade de ler qualquer dos seus livros. Senti isso mesmo ao ler este sábado frio a entrevista óbvia que Adelino Gomes lhe faz e que o «Mil Folhas» de hoje edita. Felizmente estou a ler «As Intermitências da Morte» e com agrado a surpreender-lhe os bons momentos de uma história aliás surreal. Ao encontrar neste que é o seu último livro a menção aos «lares do feliz ocaso», lembrei-me do nome deste blog e quanto ele pressagia de memória de passamento e de dia de finados. É de tal modo assim que, ao pensar nisso, sinto a vertigem dos que têm medo de se debruçarem, por receio de lhes apetecer antecipar o fim dos dias, em vez de viverem, como diz o Saramago, neste «cemitério de vivos», com a «morte suspensa».

11.11.05

Conforme os dias

Mais uns dias sem vir aqui. Não é o tempo que me falta, é o espaço. Eu bem tento empurrar a vida toda para dentro do vazio que há em mim. A verdade é que sobeja mais para vivê-la do que para escrevê-la. Quando me sento para dizer como foi não me lembro bem, só ficou a ideia de que foi muito bom. Ou muito mau, conforme os dias.

8.11.05

Superstição ao fim do dia

É coisa rara hoje usarem-se termos da mitologia clássica. É coisa rara eu comprar um livro do Saramago. É coisa rara encontrarem-se livros do Aquilino Ribeiro, pois a Bertrand deixa-os esgotar e não os reedita, ou pelo menos é o que parece. Agora somadas todas estas raridades vejam o que é esta coisa notável. Fui hoje a uma livraria, porque por acaso se atrasou a hora de uma reunião. Andando pelo rodapé de uma estante dou de caras com um livro raro do Aquilino de que nunca tinha ouvido falar: «De Meca a Freixo de Espada à Cinta». Entretanto, andava ao rabusco por outra estante, ouço alguém perguntar o «tem cá o último livro do Saramago». Em suma, comprei o Aquilino mais o Saramago e mais uns tantos outros. Como tinha tempo fui plantar-me num café a folhear. O do Aquilino tinha uma dedicatória, em estilo de prefácio, «ao Dr. Heliodoro Caldeira, Grande Advogado, meu Patrono em Negros Delitos». Talvez por isso avancei curioso pelo prefácio, onde a linhas tantas de tal o autor do «Romance da Raposa» se põe a falar de um encerramento de uma urna de chumbo a que assistira. E a respeito escreve assim: «Vieram os alfaiates de cangalheiro e num ápice, um deles, com tesoira grande e indiferente como deve ser a de Átropos (...), etc., etc.». Visto o aquiliano prefácio, que é curto, guardando o livro para quando tiver tempo, atirei-me ao Saramago, o de «As Intermitências da Morte», a propósito de quem, ao lê-lo, me perdoo o mal que já pensei dele e o que venha a pensar no futuro e li ali: «A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivese resolvido embainhar a tesoura por um dia». Enfim, talvez seja melhor eu hoje ter cuidado comigo: um prefácio sobre um cangalheiro, um livro sobre a morte e tanto acaso junto sobre o ente que corta o fio da vida, é caso para regressar a casa e trancar-me dentro de um armário, à espera que chegue, enfim, o dia de amanhã. É que duas vezes numa mesma tarde tropeçar na palavra átropos, é demais para a minha esperança de vida!

7.11.05

Textos locais

Fui ontem lá jantar e à saída, com a amabilidade discreta de quem até no oferecer é amigo, estendeu-me o livro: tinha tido uma modesta tiragem de trezentos exemplares, em oitavo, em 1967, impresso modestamente em Alcobaça. São os «Textos Locais» do Luiz Pacheco, de seu nome completo Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco. Tenho-os aqui comigo. É um livro triste, como esta tarde fria, em que se sai à rua só mesmo para nos apetecer voltar para casa. Num post-facio à obra Serafim Ferreira chama a Pacheco «uma alma sem inquilinos». É uma boa definição; no caso, porém, uma alma por alugar, sem escritos na janela.

6.11.05

Um sol amigável

Tentei ler mais umas folhas do «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira. O meu exemplar original ficou numa dessas casas esquecidas do meu passado. Encontrei este numa livraria envelhecida, daquelas que vendem obras em segunda mão. O livro cheira a mofo. Os detractores do autor dizem que ele também cheirava a mofo. Os que me virem a ler e a escrever sobre o que leio, talvez concluam que eu próprio estou contaminado pelo mofo desta literatura. Mas enfim, tentei ler mas ao cruzar-me com aquela frase «alguém tem de andar só, para andarem os outros acompanhados» fui-me abaixo. O dia na rua está belíssimo, temos todos um sol morno e amigável por companhia.

3.11.05

Vontade de ler

Quando se não tem muito tempo e se tem muita vontade de ler, lê-se muita coisa ao mesmo tempo, para ficar a ilusão de que se lê mais. Há largas semanas atrás disse por aqui que andava a ler o segundo dos dois livros que escreveu a Dulce Cardoso e disse, ou dei a entender, que notável era esse livro. Talvez não tenha dito, por pudor, quanto dói a sua leitura. Hoje voltei a ele. Já vou na página 260 das 349 que ele tem. Cada vez que o retomo, vou à procura de um lápis, pois rara é a página onde não há algo a sublinhar. Estive há momentos, antes de vir aqui a olhar para um desses sublinhados, o da frase «não há nada que o silêncio não mate». Não sei se consiga voltar a ele. Pelo menos hoje não. O livro chama-se «Os meus sentimentos». Talvez por isso.

2.11.05

Passar a limpo

A Assírio & Alvim acaba de editar, num formato basto esquisito, mais um livro do Alexandre O'Neill, onde vem um poema que, ou muito me engano, e para isso tinha de me alçar daqui até à longínqua estante, ou não vem nas «Poesias Completas», que, a ser assim, completas é que não são. E num desses poemas leio um «...que quereis vós, todos vós, ó meus heróis da segunda hora?» que assim continua: «reentrai no sossego, deixai as folhinhas dormidas nos arquivos, deixai os vivos desenterrar os vivos, que esses, sim, deram o corpo ao manifesto, sem saberem, muitas vezes, o Manifesto de cor!».

30.10.05

A leitura

Eu confesso que já deveria ter lido o «Nítido Nulo» mas só agora é que o estou a ler. Há aliás na vida tanta coisa que eu já deveria ter vivido e que nem sei agora quando o irei viver. É o «gosto antecipado da sede que ainda não tenho». Vem lá no livro, assim, a sede de uma cerveja, a sede de uma vida. O personagem está preso e «as próprias grades são pintadas de branco para deixarem passar a alegria que puderem». Faltava-me este livro do Vergílio Ferreira. Encontrei-o, enfim. Não foi por causa de o não ter que o não lera, mas agora que o tenho, hei-de esgotá-lo de tanta leitura.

A hora

Hoje anoiteci mais cedo e acordei melhor dormido. Calculava que era por ter atrasado o relógio, até ter descoberto que era por ter pensado que o mundo mudara. Claro que mudara apenas na sua dimensão quantitativa, a de ter andado tudo para para trás. O presente passou súbito a passado, o futuro adiou-se-nos sem dar conta. Foi tudo pelas duas da manhã. Nesse momento, o hoje passou a ontem, dando-nos a oportunidade de o viver duas vezes. Azar meu o estar a dormir. Quando acordei, tinha a preguiça perdoada.

29.10.05

Chuva

Há neste hotel um recanto e nele uma janela e através dela uma palmeira. Animada pelo vento, acena-me os seus ramos, como alguém à distância na hora de partir. Há neste hotel a ideia fantasiosa de que a chuva, que o vento trouxe, perpetua o conforto de ficar. Há neste recanto o sentimento incómodo do acenar-me de fora, além da janela, aos que, como eu, decidiram ficar.

25.10.05

Aquém do possível

Imagine-se uma cabeça vazia, sem um pensamento, sem uma névoa de uma melancolia sequer. Imagine-se um corpo dorido de cansaço, espécie de reumatismo generalizado, os ossos num feixe, os músculos exaustos. Imagine-se um mundo despovoado de almas, atulhado de corpos sonâmbulos. Imagine-se. Não se saia da imaginação, fique-se assim imobilizado, os olhos escancarados de morto. Com o chegar do frio as coisas pioram. Eis junto a mim uma folha de papel, totalmente em branco. Nada do que eu pudesse ali escrever me é possível imaginá-lo.

23.10.05

Davam grandes mortes ao domingo

Li no jornal que morrem ao domingos jovens entre quinze e vinte e quatro anos. Pela leitura não percebi de que morriam. Sendo-se mais velho, ao domingo, morre-se de tristeza, alguns com a segunda feira da ilusão à vista.

19.10.05

Uma pausa

Há quem tenha jardins e passe por lá depois do jantar, só para ver como vai o que plantou. Aqui é mais ou menos parecido. Há dias em que não se semeou nada e fica-se a olhar para o passado. Há no homem aquela ânsia de criar, que o esgota. Uma pausa, preenchida com nada, eis a sua salvação.

18.10.05

A vingança

Lembro-me de ser miúdo e ver como era. Iam à capoeira, filavam uma e cravavam-lhe a faca na goela. O sangue esguichava às golfadas e ela estrebuchava frenética, recusando a morte. Acho que ainda cheguei a perguntar se lhe doía, mas tenho a certeza de que me mandaram calar. Habituei-me a comê-las, sem pensar nisso. Hoje juraram vingança e ameaçam matar-nos, aos milhares. Talvez nem perguntem se nos vai doer. É-lhes indiferente.

17.10.05

A declinação do eu

Olhou-se ao espelho, mirando-se reflexamente, sorriu-se na condicional, e continuou na forma gerundiva. Ao sair de casa descobriu que a sua vida era a voz passiva, uma forma indirecta de viver sem ser sujeito. Vivido que estava o que havia para viver, indiferente ao predicado de si, tornou-se um infinito substantivado. Hoje não há gramática que o conjugue.

16.10.05

O umbral

O desamparo aos dezassete anos era feito do refúgio em cantos abrigados, quantas vezes o umbral de uma janela, os olhos perdidos no descampado em frente. Reconheço-as, a uma e uma, cada fenda na cal da parede, as mossas na madeira pintada do caixilho, a memória embaciada deste local.

A porta fechada

Esta noite eu recordo a ideia de um pai, por detrás de uma porta fechada. Lentamente cresci até chegar ao puxador. Mas nessa altura tinha aprendido a bater, antes de entrar. Um sentimento forte, apesar de longínquo, recordo-o esta noite, crescendo lentamente em mim, aprendendo a fechar-se, como uma porta que se encerrasse, antes de alguém entrar.

A invisível presença

Há neste desvão de escada o que eu preciso para ter a ilusão de que, aninhado aqui, ninguém mais dá pela minha presença. Na minha infância, porque já houve em mim uma infância e vivida nesta mesma casa, sonhava-me aqui como se no lugar mágico da minha invisibilidade. Rodopiavam os mais crescidos, indiferentes à minha ausência, e até o arrastar penoso dos avós parecia mais preocupado com o para onde iam do que com o onde eu estaria. Há neste desvão o ter aprendido o que é, na vida, o não fazermos falta. Hoje, no jogo de acasos que é o viver-se, trocaram-se as peças no tabuleiro: este é o desvão onde se escondem todos eles, os idos e os que foram, e eu já nem dou sequer pela sua invisível presença.

Prontos

Há os que organizam a vida para estarem prontos aos cinquenta anos. Outros chegam a essa idade e a vida começa enfim a organizar-se-lhes. Estes últimos pensam ter ainda vinte anos; tarde descobrem terem muito menos tempo do que isso.

El Gordo!

Tinha a ideia de que éramos dez milhões e agora vejo no jornal que somos quatro milhões de gordos. Ou como vem na notícia, «em Portugal, a obesidade afecta quase quatro milhões de pessoas». Ao ler isto, neste domingo à espera da massada de peixe, lembro-me da frase que anda por um muro perto da minha casa: «situacionistas gordurosos tremei, a vossa celulite tem os dias contados». Lembro-me, escrevo e olho para o relógio: com esta mania de almoçarem às duas da tarde, que tal um pãozinho com queijo para ajudar a entreter?

15.10.05

O pó branco

Faendo-se eco de um encontro sobre saúde, o Diário de Notícias, sob o apelativo título «Este pó branco também mata» escreve que «o sal contribui para o aumento dos casos de hipertensão arterial, acidentes vasculares cerebrais (AVC), insuficiência cardíaca, cancro do estômago e osteoporose». Eu sei disso, e sendo hiper-tenso, ainda sei mais. Mas que querem! Já tentei viver uma vida insossa e ia morrendo, de tristeza!

14.10.05

E não passou

Há dias em que dá vontade de ir parar ao hospital, só que não se sabe é por causa de que maleita. No caso da preguiça, o grave é quando se tem alta: uma pessoa, habituada a tanta doença, fica sem saber o que fazer da saúde. Por causa disso, há quem nunca se cure. Vem isto a propósito de eu não vir aqui desde o dia 11: estive internado, para ver se me passava.

11.10.05

Rasteiros

A última vez que aqui estive dei conta de que tinha começado a chover. Hoje ao rever as notícias, percebi que pode chover mesmo a sério. Nunca entendi porque motivo é que se diria «que até os cães a bebem de pé». A minha dúvida é que os cães não andam de pé: com as quatro no chão, como andam, em rigor andam deitados, ligeiramente a cima do nível do chão, um pouco mais do que rasteiros. Eles e muita gente, pois há os outros, os que andam «abaixo de cão».

9.10.05

Mensagem do céu

Hoje finalmente o céu decidiu-se a chover. Acordei com a rua em frente de cara lavada, as árvores vivificadas em verde. Não fossem os raros automóveis e os regulares autocarros, nada parecia acontecer. Um ou outro eleitor matutino, daqueles que vão lá por obrigação, que os de convicção por vezes faltam, escapulia-se por debaixo de um guarda-chuva. Da janela do meu quarto encarei o mundo, animando-me, como se convencesse de que valia a pena começar. No fundo, é só mais um dia. Amanhã, pensa-se no outro.

8.10.05

Escrita embargada

Uma escrita torrencial, entrecortada dos gritos que a memória traz, uma escrita sufocada como a voz embargada na ânsia esganada de dizer, uma escrita desnorteada, de quem com ela quer apenas sair desde lugar: um lugar de silêncio, um lugar de solitário labirinto. Fosse essa a escrita possível, a vida teria ganho, enfim, um sentido. Mas não, esta não é já a escrita possível, esta é a escrita que foi necessária.

7.10.05

Clássica

Há táxis e táxis. Fui para Santa Apolónia num que lhe fugia o pé para a chinela. Regressei, desta feita num outro, onde se sintonizava na Rádio Clássica do Montijo, a que esteve para fechar, a que nem sempre emite, a que felizmente existe.

6.10.05

Chinelando

Ela encontrou a chinela e eu encontrei-a a ela na Rua do Capelão, ela encontrou a própria vida, eu encontrei o coração. Acreditem. Existe. Ouvi num táxi, em onda média, que ainda subiste, num mundo que ainda há.

Coma com pão

Foi ao folhear, vagueante, a folha oficial que descobri que ele há o «Clube de Caçadores da Açorda». Calculo que de quando em vez cacem uma perdiz, para a comer com a dita. O pior é quando lhes apetece açorda de bacalhau. Aí só com a ajuda do Clube dos Pescadores, o da Terra Nova!

5.10.05

Errantes e errados

Nietzshe, com a agudeza dos míopes, previu que o casamento se tornaria numa colecção errática de indivíduos, orientados à prossecução de fins egoístas. Toda a vida viveu celibatário, destinando egoisticamente um livro excepcional à grande família da humanidade.

4.10.05

O fado da História

A frase pertence ao José Cardoso Pires, num livro que eu penso que já citei aqui uma vez, por causa de um outro dos seus textos: «lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa». Sem querer ser injusto, penso que isso que está na frase era dantes, não porque não formiguem hoje portugueses, mas porque, quanto ao carrego da História, anda tudo mais leve e mais solto. Estamos como aqueles países que nasceram ontem: saltitantes de presente, indiferentes ao futuro, vazios de passado. A nossa única diferença é essa tristeza a que chamamos fado.

3.10.05

Os limites do sentir

Continuo a ler a «Conta Corrente». Há quem não perdoe ao Vergílio Ferreira o tê-la escrito, por isso que nela se patenteiam as suas obsessões nem sempre exaltantes. Há quem não o suporte vê-lo assim, em trajes menores e sem pose, neste diário incerto do homem-escritor. Por causa de a ter escrito, não poucos inimigos arranjou. E, no entanto, por tudo quanto no livro não vale a pena, há momentos de genialidade única, em que numa só frase se resume mais do que um compêndio de filosofia, todo um modo de pensar a vida, sentindo-a. Digo-o esta noite, ao ter lido a frase «é-se por dentro, por fora está-se». Após ela, recuso-me a ler mais o quer que seja; não me perdoaria, se o fizesse.

2.10.05

O salto

Se aquela figura literária do Eça de Queirós, que não era completamente viúva, encontrasse alguns dos seus leitores, que nunca são completamente casados, não haveria gente totalmente tristonha.

1.10.05

Marcha fúnebre

No Mil Folhas de hoje, que eu, como num ritual, leio com o jardim aqui em frente diante dos olhos, vêem excertos de uma conferência inédita do Luís de Freitas Branco, porque se lembraram que há cinquenta anos ele morreu. E nessa conferência fala o conferencista da interpretação cadavérica de toda a música considerada séria e elevada. Pois é precisamente assim que muita gente interpreta a vida que vive: descompassados, atonais, afinando o tom pelo coro, cadavericamente, em suma.