7.2.06

O galo Zagalo

Ali estava ele, em Estremoz, a peliça de serrubeco para não rapar mais frio do que por ali lhe rondava a ossada e o reumatismo, gola soerguida a esconder-lhe as fauces, o vendedor de criação. Numa gaiola improvisada, feita do que já fora um caixote, uma rede de arame a fazer de portinhola, umas quantas galinhas sonolentas e um galo altivo. Caracoleante galo, esse, com tudo o que um da sua espécie precisa para mostrar altivez: crista eriçada, barbilhões vermelhuscos, esporas afiadas, e sobretudo aquele voltear soberbo de cabeça, como os cegos em busca dos sons. Havia na proliferação de cores das suas penas todo o cromatismo do que nasce para viver. «Atiradiço, não?», perguntei, afirmando, vendo uma das galinhas quase careca à força de tanta bicada no acto de a galar, que nele se adivinhava vicioso. «Parece que sim», veio-me como embaraçada resposta. Saí dali com uma valente constipação e na cabeça com duas dúvidas quanto à arte de bem falar a língua que é a nossa. Primeiro, porque não se chama galinheiro ao que vende galinhas; segundo porque se chamará galar ao coito dos galináceos, verbalizando o substantivo masculino como meio de designar a coisa. Falássemos de gatos e dir-se-ia gatar. Em português é muito frequente, gatar, naturalmente.

4.2.06

O homem, esse desconhecido

O nevoeiro tem a vantagem de amortecer o que se ouve e de ocultar o que se vê. O homem recolhe-se ao seu interior e, ainda que seja por um começo de manhã, dá enfim por si. É então que nota quanto se desconhecia. Às vezes está-se longe de casa, quantas vezes isto é perto de tudo.

2.2.06

A graça rudimentar

Falando do Corvo, nas suas «Ilhas Encantadas», Raúl Brandão diz que ali só há uma coisa a fazer, e «não é olhar para fora, é olhar para as almas». Lugar tosco de frases rudimentares, nela se encontravam palavras insólitas para situações invulgares. «Morreu, mas engraçada», dizia-se, então, querendo dizer-se «morreu, mas feliz». Nós, os de hoje, os que perdemos a graça, sabemos como isso é, à conta, não direi de morrer, seguramente de viver, em qualquer caso de um viver infeliz.

1.2.06

A mosca tsé-tsé!

Eu tinha a angústia dos que pensam que, ao dormirem oito horas por dia, passam um terço da sua vida a dormir. Mas ontem, antes de adormecer, ainda consegui ler num momento uma crónica que o Miguel Esteves Cardoso arquivou no seu livro «Os meus problemas». O essencial do argumento é que nada se faz enquanto se dorme, donde só se vive enquanto se está acordado. Ora como o tempo do nada é tempo a descontar nos anos de vida, quem não falhar as suas oito horas diárias de soninho reparador, ao chegar aos sessenta anos, afinal, só tem quarenta. Claro que, nisto, com as minhas madrugadas de trabalho e as minhas noitadas de leitura, eu já não vou a tempo de resolver o problema. Mas se me deitasse agora e acordasse em 2034 talvez ainda conseguisse viver mais uns anos e com melhor aparência e sobretudo melhor disposição!

31.1.06

Pilhas de graça!

Depois de terem mudado a pilha à chave do automóvel, a que abre o sistema centralizado de fecho das portas e mais a ignição e não sei o quê mais, explicaram amáveis os da oficina: se não funcionar à primeira, agora que a pilha é nova, carregue cinco vezes. Não disseram porquê, nem me atrevi a querer saber. Se fosse, em vez de uma chave, uma pistola para eu me matar, preferia uma corda pendurada ao pescoço. Se não funcionasse à primeira, sempre mudava de ideias. Logo à noite, quando entrar na garagem, talvez leve uma gazua, não para assaltar o que é meu, mas para tentar não chegar tarde ao jantar, ainda por cima por falta de pilha.

29.1.06

Começa um vida

A Irene Lisboa escreveu sob vários pseudónimos, um deles, o masculino «João Falco», por julgar talvez que um livro de homem teria mais aceitação junto dos leitores. Em 1940, em plena guerra, a «Seara Nova» editou-lhe o «Começa uma vida», que a Maria Keil do Amaral ilustrou. O livro é modesto de tamanho e de cuidado tipográfico e, por isso, aquele que, maravilhado e grato, tenho esta noite nas mãos, ameaça desfazer-se a cada momento do meu cuidadoso folhear. Não se trata de uma biografia, mas há muito de próprio e de intimista no que ali se diz, prenunciando uma escrita de tristeza e de solidão que seria, afinal, o seu modo de se exprimir em literatura. Ainda, sem saber como, consegui uns minutos hoje para começar a lê-lo até ao momento em que descrevendo o seu internato num colégio de freiras e relatando «despoeticamente» o seu viver sentimental de adolescente, partilha com quem a lê: «descobrira o prazer da tristeza, a sua espécie de função masturbante, ou de irritação e conformidade, de devaneio».

28.1.06

Rebelo da Silva

Talvez nem seja da família. Nunca pensei nisso. Também não tem interesse para o que se pretende. Começou hoje, aqui, uma forma de o recordar.

A pequena escala

Acordar pelas doze com a horrível sensação de metade do dia estar esgotado, sendo mau, ainda é, em pequena escala, mais suportável que aos cinquenta e seis termos percebido que, não vivendo até aos cem, já foi vivido quase tudo o que havia para viver. Aí, não há hipótese de tomar banho a correr, sair à rua ofegante e já estar esgotado, afinal, o próprio jornal do dia.

27.1.06

O deleite e a desarrumação

Há dias em que verdadeiramente penso, tal como o António Alçada Baptista, que «a cultura é uma palavra-sótão, onde se arrumam os trastes que não somos capazes de meter noutro lugar». Lembrei-me desta, quando depois de dormir pouco por sonhar muito, acordei pelas sete, meio estremunhado, e ainda a cambalear, enfiei um valente biqueiro num molho de livros que se acumulam, dispersos e desconexos, ao lado da cama, eu na ilusão de ainda os ler e já na desistência de os arrumar.

26.1.06

Nós outros

Os que dizem «nós», em vez de «eu», nem sempre o fazem pelo plural majestático, às vezes é só pelo eco que neles causam as suas próprias palavras. No Governo usa-se muito, para dar a ideia de que cada um diz o que pensam todos. É uma ilusão. No jornal seguinte, desmentem-se logo e «nós» ficamos totalmente esclarecidos.

25.1.06

Salve-se a geometria!

Eu tenho por aí um blog que anda a vegetar e que se chama «Geometria do Abismo». O nome fui buscá-lo ao «Livro do Desassossego» do Fernando Pessoa. A princípio era uma espécie de metáfora de um mundo euclidiano escrita por um homem que vive humanamente só com operações aritméticas das que dão resto zero. Depois, o blog foi ficando num marasmo tal que hoje é um asteróide morto no ciber-espaço. Hoje descobri que ele ainda tem salvação, como os quadros daqueles pintores que raspavam as telas e as pintavam por cima. A ideia essa eu tenho-a e nítida na cabeça e tempo, como se sabe, é coisa que não me falta. Por isso, agora, vai ser só o mãos à obra. Veremos o que sai daqui. O Almada Negreiros descobriu qual era a ordem dos painéis do Nuno Gonçalves ao olhar para o chão e ao ver como estava pintado o ladrilho. É mais ou menos assim: com os olhos no chão, ainda chego lá!

Crónica da hora que passa

Uma leitora disse uma vez em estilo de amabilidade, ao ler o que por aí escrevinho, «as coisas que lhe passam pela cabeça!». É! Sou assim a modos que um passador. Não por andar passado de todo, mas por tudo aquilo por que já passei. Passar por passar, escrevo isto e lembro-me do personagem do livro do Sttau Monteiro, o Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro, o que escreveu «Um homem não chora», que andava sempre com um pacotinho de passas no bolso: num caso, como no outro, carências de açúcar e excesso de afecto.

23.1.06

O quem era e o porque é

Vim para casa carregado com os quatro volumes das «Obras Completas» do Delfim Santos, para verificar ontem que, afinal, já os tinha. Encontrei num alfarrabista, com infinita alegria o «Prazer e Glória» da Agustina para encontrar em casa uma edição igual. Para rematar, até um do Alçada Baptista eu já tinha, só que desta feita o que veio é a primeira edição, a da Moraes. Isto sucede assim porque em Portugal quem quer ler compra livros livros para os ler um dia, porque no dia em que lhe apetecer a leitura não os encontra em sítio algum. O mercado da livralhada hoje é assim: entram uns nos escaparates e uma semana depois somem-se para os armazéns dos editores, substituídos por uma nova remessa. Dizem-me que, neste país de iletrados, saem quarenta novos títulos por dia. A 30% nas livrarias, a 60 e mais nas grandes superfícies, eis o comércio na sua melhor expressão. O autor com sorte, esse chega à ilusão dos 10% e à desilusão de raramente os receber. Amanhã vou tentar que mos troquem, quando não espalho-os pelos amigos. Se algum se perguntar a que propósito leva com uma resma de Delfim Santos já sabe: escusa de perguntar quem era, que eu nem digo porque é!

22.1.06

Clientes de mão

Lembrei-me agora deles, ao ler o que o José Cardoso Pires escreveu sobre o Fernando Assis Pacheco, ambos mortos: os galegos, de tempos que também já foram, a cuja modéstia serviçal Lisboa tanto deve. Eram os amoladores de tesouras e navalhas, sombrinhas e chapéus de sol, assobiando os ares com o trinado de uma gaita de beiços que os anunciava, de rua em rua; os carregadores de pianos, animais de carga, corda enrolada a tiracolo, ajoujando escada acima cargas bestiais, em troca de uns vinténs; e eram, enfim, os das carvoarias e tascas, casas de pasto e por vezes pensões de curta permanência. A Lisboa gastronómica chique do «Gambrinus» a eles se deve, o popular «João do Grão», a eles pertence. Com uma variante que Cardoso Pires recorda: o João do Grão tinha os talheres presos à mesa com correntes, «para evitar distracções do cliente de mão sem escrúpulos». E o que por aí há mais são distraídos.

Uma vida que começa

Partiu, ontem, cedo na manhã. Uma vida adulta que enfim começa. E em mim, na desolação solitária daquele instante, no que eu gostaria de ter sabido converter em lágrimas, o desejo profundo do melhor dos mundos para ela. Hoje, neste domingo dorminhoco de Inverno, um estranho vazio acompanha-me. Escreveu-me, uma mensagem breve, daquelas em que tudo se diz no pequeno écran de um telefone. O texto é curto, diz que chegou bem, começa com a palavra pai.

O único e o singular de cada amor

Não tinha chegado a dizê-lo, mas o «Diário Íntimo» do Manuel Laranjeira, li-o há dias numa biblioteca pública, aproveitando o tempo durante o qual muitos outros almoçam. Mas ontem que foi sábado, encontrei-o, muito escondido e como se agachado num alfarrabista do Chiado. E esta manhã, ao acordar tarde, com a angústia de já passar das dez, um súbito ímpeto levou-me a ler-lhe o prefácio, o que na altura desconsiderara. Escreveu-o Alberto de Serpa. O prefaciador conheceu o prefaciado e sente-se que o absolve, àquele «pessimista místico», desencontrado com Deus, aquele que viveu «pedindo à existência terrena perfeição e paz que nunca podem ser dela» e morreu com as próprias mãos. Mas um «Diário Íntimo», um diário de amores, é algo de tão próprio, tão único e tão singular, que editá-lo é como que vingar um morto, ante a nudez embaraçosa dos vivos. Mas quando há delicadeza e carinho pelo outro escreve-se como ele escreveu, a justificar-se: «um quinquagenário sabe já bem quanto meio século é pouca coisa, e por tal fui-me às inciais, aos prenomes e aos apelidos com que Laranjeira indicou personagens femininas de ainda possível descoberta, e dei-lhes uma simples letra».

17.1.06

Mau parecer

A imprensa noticia que o Brasil está a exportar para Portugal anti-rugas falsificado. Percebe-se agora porque andam todos de semblante façanhudo: até a nossa aparência verdadeira é falsa.

Uma víscera ruim

Manuel Fernandes Laranjeira compôs em 1908 um «Diário Íntimo» onde anotou que, afinal, a alma é uma víscera ruim. Pouco antes do regicídio escreveu uma série de artigos, que Luiz Pacheco viria a editar-lhe, em trezentos modestos exemplares, na Contraponto. São notas soltas sobre o «pessimismo nacional», sobre as «quadrilhas messiânicas», sobre a «enfermidade congénita» dos portugueses, maleita que é um sintoma alarmante «de uma doença infecciosa grave», toda «de natureza parasitária». Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho no dia 22 de Fevereiro de 1912, com um tiro na cabeça, como era inevitável. Dele disse Miguel de Unamuno que «a vida o matou e ele deu vida à morte», como à de Portugal uma «Nação morta destinada a ser devorada pelas Nações vivas». Numa carta a Amadeo de Souza-Cardoso, Laranjeira, médico, diagnosticou a sua doença, a dos que sentem «morrer a vida» por não talhar a vida ao seu ideal.

16.1.06

Um dia

A indelicadeza é isto, visitarem-nos e nós não retribuirmos, falarem em nós e ser como se nem tivessemos dado conta. A selvajaria, porém, é tudo isto acontecer e um dia, a dois de Janeiro, ter morrido alguém e isso ser como se nem tivesse acontecido. Claro que há um sentimento de remorso. Confessá-lo não resolve, é uma forma apenas de me envergonhar publicamente.

15.1.06

É só carregar no «on»!

Groucho Marx considerava a televisão um meio muito educativo: cada vez que alguém a ligava, ele ia ler um livro. Hoje, com a proliferação de canais, é caso para se dizer, podem ler-se bibliotecas inteiras.