A coisa tinha o seu ar de paradoxal: a senhora pedia açucar e adoçante, ao mesmo tempo. A pergunta impunha-se e foi feita, à volta do porquê. Respondeu com desenvoltura: açucar para adoçar, adoçante para não engordar. Pois claro!
20.2.06
18.2.06
O jardim de Deus
O jornal chama-se The Northwest Telegraph e estava na saleta de entrada do hotel. Símbolo deste novo mundo em que vivemos, trazia na primeira página o obituário, com o anúncio dos novos mortos e propaganda a uma agência funerária. Ao lado informava que em Londonderry os gay católicos se sentiam mais seguros, quando das suas manfestações, do que os seus homólogos protestantes. Ah! A propósito, de uma das novas mortas, citava esta coisa extraordinária: o jardim de Deus deve ser belíssimo, pois ele só colhe as melhores flores. Hoje é sábado e por um momento, antes do pequeno almoço, senti a tranquilidade de não ser protestante ou católico, nem gay, nem viver em Londonderry e nem ter que ler imprensa desta nem quase nenhuma. Sou só manifestante e muitas vezes para dentro, zangado comigo mesmo.
16.2.06
«A Luta» continua
Um tipo dorme três manhosas horas já pela madrugada, e depois de um dia de trabalho bestial chega e tropeça num monte de mais serviço que se acumula até ao telhado e os telefonemas que não fez, os prazos que devia cumprir, as gentilezas que ficaram no olvido. Um tipo, esquecido de si e ignorado pela maioria dos outros, afunda-se num sofá, como se cama fosse, e ao tirar os sapatos, faz disso um mimo e um carinho, como se só a isso tivesse direito. Um tipo saca da estante um livro a esmo, um livro qualquer, e lê o que lhe apetecia ter já como epitáfio mortuário, ao menos para morrer a rir: «aqui jaz Bento Bexiga, que acendeu um fósforo, para ver de tinha gasolina no depósito do carro; e tinha mesmo!». Eis o resumo de um dia. Escreveu-o Alexandre O' Neill, em 3 de Agosto de 1976, num jornal de que ainda fui Advogado. O jornal, que se chamava «A Luta» faliu, eu ainda por cá ando, de fósforo na mão.
14.2.06
Um amor que mata!
Um homem que tem pouco tempo para ler, só pode gostar de livros de contos, por uma única razão: são fáceis de resolver. Em tempos comecei os «Contos Impopulares» da Agustina. Ora não é azar que, logo hoje, que é dia dos namorados, em que muitos masculinos se abeiram do ninho, arrulhantes, na ânsia de por um dia mostrarem ternura e florinhas às suas companhias, eu dei com este passo de um desses contos entre os muitos que me faltam lêr! E logo, e por isso vim aqui, aquele que dizia assim: «era uma mulherzinha miúda, quase linda, e cujo queixo agudo profetizava uma dessas azedas velhas borralheiras e aduncas, para as quais parece que a eutanásia foi inventada». Se algum leitor meu, lêr isto antes de ir ao encontro desta noite, peço, rogo e quase imploro que olhem, mirem e remirem, no alvo dos vossos encantos e amores, todas as minúcias etéras da alma, todos os rendilhados íntimos da sensibilidade, mas por favor, não no queixo agudo. É que há o grave risco, olhado o queixo agudo, de a noite vos terminar mal, muito mal mesmo!
Morte no capítulo três
Errático na vida, irregular nas leituras, talvez haja em mim um nunca mais acabar no convívio com os livros. Comecei muito tarde. Há poucos anos descobri o real valor da ficção, há muitos secou-me a capacidade de não ser prosaico. Hoje cada folha em que progrido a escrever é um passo atrás na regressão do tempo vivido. Havia outrora os analfabetos de origem, para quem a quarta classe só se alcançava na tropa, os que escreviam juntando as letras, como quem faz artimética elementar, contando-a com os dedos da mão. Esta noite percebi, enfim, o ridículo desta escrita: renasço com ela em cada linha e com ela morro em cada página. Tal como nas historietas baratuchas, ao terceiro capítulo, o autor abate-me; umas folhas adiante o leitor, distraído e entretido, já nem se lembra de mim.
12.2.06
O a e o de, essa inescapável diferença
O «Mil Folhas» entrevistou o escritor português Rui Nunes que é um expatriado mental residente na Áustria, que diz que fica doente quando vem a Portugal. Diz nela, pois estas coisas parecem ser hoje ingredientes de biografia literária, que é homosexual e de uma esquerda ligada ao Partido Comunista. Pois bem! O seu último livro abrirá, segundo ali se diz, pois ainda o não li, com uma frase de Horácio «quem da Pátria sai, a si mesmo escapa». É daquelas ideias com que se concorda, sobretudo com uma variante: «quem da Pátria sai, de si mesmo escapa»; não por uma questão de correcção ortográfica, mas por um mundo de diferença semântica.
11.2.06
Poetria
Primeiro foi a Buchholz, agora, no Porto, a Poetria, especializada em poesia e teatro, em riscos de fechar. A primeira salvou-se, esta pede ajuda. Pelo caminho, náufragas invisíveis no mar da indiferença, dezenas de livrarias fecham, famílias com casas decoradas em high tech mandam para caixotes e caves milhares de livros, para que morram em silêncio, como velhos em lares, longe da vista. Excepto alguns, cuja opulenta encadernação os salva, nesta vida prosaica, que falta lhes faz a poesia? E, no entanto, tudo isto senilmente me comove. Como se junto ao leito de um mundo agozinante, a sua esquálida mão na minha mão, peço, num murmúrio envergonhado: não morras, por favor, porque contigo todos morreremos.
Um sábado de cores
Mário Cáudio encerrou com «Gémeos» a trilogia que iniciara com «Ursa Maior». O livro já tem três anos, vai na segunda edição, só agora dei com ele e com uma sua personagem, estalajadeira, companhia talvez, mas «fechada à inteligência daquilo que tamanho sofrimento causava em mim». É o livro, tal como no seu «Amadeo», o de um obsessivo, ansioso por escrever a biografia alheia, a de um pintor. Vive, assim, ilusório, aos ziguezagues, em desatinados pinchos, num desnorte infantil. Esquece a negritude e o cinzento, por isso, mal fala de si.
10.2.06
A via salvífica
Ainda Pascoaes! Chamava-se Joaquim Maria Teixeira de Vasconcelos e já disse aqui que era advogado, num acanhado escritório na Rua das Taipas, no Porto. Um dia, esgotado da advocacia, deu em escritor. Disse que foi assim: «o poeta venceu o advogado, adoecendo, ou tirando forças da fraqueza». Talvez possa ser assim, pois a não se ter essa sorte, não há salvação possível.
9.2.06
Acaso
O acaso quis que eu soubesse, o que para muitos era óbvio, que Anrique Paço d'Arcos era o discreto irmão do conhecido Joaquim Paço d'Arcos, ambos escritores. E o acaso quis mais que eu hoje, refugiado num bar esconso, soubesse que dos poucos que acompanharam Teixeira de Pascoaes ao cemitério de Gatão, ele era um deles. Estive em Amarante, para saber que a casa do poeta é hoje um lugar de turismo rural. Tivesse ido eu ao epitáfio que, numa só frase simboliza o que dele resta, ao menos para ler o «apagado de tanta luz que deu, frio de tanto calor que derramou»! Mas o acaso não o quis, daí a minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia.
Amanhã, melhor dormido
Por estranho que pareça aos que julgam que me conhecem eu tenho os quarenta e cinco volumes da obra completa do Vladmir Ilitch Oulianov, vulgo «Lénine», naquelas edições de Moscovo, encadernadas, e que na capa de cada volume tinham ainda fotografia do dito, ao longo dos anos em que viveu; edições, diga-se, prefaciadas pelo Roger Garaudy que, entretanto, caíu em desgraça. «Lénine», como se sabe era jurista e muito do que escreveu ainda no seu país resultava de livros que a paciente irmã requisitava na Biblioteca da Ordem dos Advogados russos. Meticuloso, registava, o tempo de viagem de cada livro, de Moscovo para a Sibéria, mais o tempo que levaria a lê-lo e atirava-se dia e noite à leitura, aproveitando o tempo até ao limite da exaustão. Lembro-me hoje disto, talvez pela exaustão. Mas lembro-me sobretudo porque acho que foi num dos volumes finais, dos que ainda consegui ler, que ele diz, numa carta, que a actividade intelectual deve ser como a actividade física: nem sempre correr, nem sempre marchar, urge intervalar o esforço e o descanso. Ora eis o que esta noite eu estou a fazer: exercícios de musculação oftálmica, para tentar manter os olhos abertos, ante que caia de sono, como se nota aliás pelo estilo meio desconexo do que aqui fica. Amanhã, melhor dormido, talvez melhor.
7.2.06
Trabalhos manuais
A um tipo que tem a mania que escreve, convém comprar uns dicionários, para ir melhorando o seu vocabulário. Há uns dias lá trouxe para a minha estante que já se espalha pelo chão um «Novo Dicionário do calão» do jornalista Afonso Praça, que diz na capa, em estilo de desafio: «conheça a língua portuguesa na sua intimidade: da gíria ao jargão, do vernáculo ao simples palavrão». Com o pouco tempo que me persegue, lá o folheei apressado, para descobrir coisas óbvias como o «dar de frosques», para querer dizer fugir, e outras coisas com isso parecidas. Agora o que eu nunca tinha ouvido nem lido era que «tocar a furriéis» quer dizer masturbar-se e vá lá saber-se porquê! Ainda por cima dos meus tempos de soldado cadete, no quartel em Mafra, ainda me ficou o básico da «ordem unida», a instrução das continências, e mormente o momento grave e agora a propósito do «apresentar, arma!» e eis-nos, os do segundo pelotão da segunda companhia, com ela, hirta e empinada, a G3 segura na mão, em sentido, que no dizer aos berros do alferes «não mexe nem um pelo!». Mas agora com esta do «tocar a furriéis», o que me confunde, ainda na matéria da ordem unida, é aquela parte do «ombro, arma!». É que de facto, ou a coisa passa por artes de contorcionismo, ou então nem sei o que diga, que nem imaginar consigo, que até tonturas dá!
O galo Zagalo
Ali estava ele, em Estremoz, a peliça de serrubeco para não rapar mais frio do que por ali lhe rondava a ossada e o reumatismo, gola soerguida a esconder-lhe as fauces, o vendedor de criação. Numa gaiola improvisada, feita do que já fora um caixote, uma rede de arame a fazer de portinhola, umas quantas galinhas sonolentas e um galo altivo. Caracoleante galo, esse, com tudo o que um da sua espécie precisa para mostrar altivez: crista eriçada, barbilhões vermelhuscos, esporas afiadas, e sobretudo aquele voltear soberbo de cabeça, como os cegos em busca dos sons. Havia na proliferação de cores das suas penas todo o cromatismo do que nasce para viver. «Atiradiço, não?», perguntei, afirmando, vendo uma das galinhas quase careca à força de tanta bicada no acto de a galar, que nele se adivinhava vicioso. «Parece que sim», veio-me como embaraçada resposta. Saí dali com uma valente constipação e na cabeça com duas dúvidas quanto à arte de bem falar a língua que é a nossa. Primeiro, porque não se chama galinheiro ao que vende galinhas; segundo porque se chamará galar ao coito dos galináceos, verbalizando o substantivo masculino como meio de designar a coisa. Falássemos de gatos e dir-se-ia gatar. Em português é muito frequente, gatar, naturalmente.
4.2.06
O homem, esse desconhecido
O nevoeiro tem a vantagem de amortecer o que se ouve e de ocultar o que se vê. O homem recolhe-se ao seu interior e, ainda que seja por um começo de manhã, dá enfim por si. É então que nota quanto se desconhecia. Às vezes está-se longe de casa, quantas vezes isto é perto de tudo.
2.2.06
A graça rudimentar
Falando do Corvo, nas suas «Ilhas Encantadas», Raúl Brandão diz que ali só há uma coisa a fazer, e «não é olhar para fora, é olhar para as almas». Lugar tosco de frases rudimentares, nela se encontravam palavras insólitas para situações invulgares. «Morreu, mas engraçada», dizia-se, então, querendo dizer-se «morreu, mas feliz». Nós, os de hoje, os que perdemos a graça, sabemos como isso é, à conta, não direi de morrer, seguramente de viver, em qualquer caso de um viver infeliz.
1.2.06
A mosca tsé-tsé!
Eu tinha a angústia dos que pensam que, ao dormirem oito horas por dia, passam um terço da sua vida a dormir. Mas ontem, antes de adormecer, ainda consegui ler num momento uma crónica que o Miguel Esteves Cardoso arquivou no seu livro «Os meus problemas». O essencial do argumento é que nada se faz enquanto se dorme, donde só se vive enquanto se está acordado. Ora como o tempo do nada é tempo a descontar nos anos de vida, quem não falhar as suas oito horas diárias de soninho reparador, ao chegar aos sessenta anos, afinal, só tem quarenta. Claro que, nisto, com as minhas madrugadas de trabalho e as minhas noitadas de leitura, eu já não vou a tempo de resolver o problema. Mas se me deitasse agora e acordasse em 2034 talvez ainda conseguisse viver mais uns anos e com melhor aparência e sobretudo melhor disposição!
31.1.06
Pilhas de graça!
Depois de terem mudado a pilha à chave do automóvel, a que abre o sistema centralizado de fecho das portas e mais a ignição e não sei o quê mais, explicaram amáveis os da oficina: se não funcionar à primeira, agora que a pilha é nova, carregue cinco vezes. Não disseram porquê, nem me atrevi a querer saber. Se fosse, em vez de uma chave, uma pistola para eu me matar, preferia uma corda pendurada ao pescoço. Se não funcionasse à primeira, sempre mudava de ideias. Logo à noite, quando entrar na garagem, talvez leve uma gazua, não para assaltar o que é meu, mas para tentar não chegar tarde ao jantar, ainda por cima por falta de pilha.
29.1.06
Começa um vida
A Irene Lisboa escreveu sob vários pseudónimos, um deles, o masculino «João Falco», por julgar talvez que um livro de homem teria mais aceitação junto dos leitores. Em 1940, em plena guerra, a «Seara Nova» editou-lhe o «Começa uma vida», que a Maria Keil do Amaral ilustrou. O livro é modesto de tamanho e de cuidado tipográfico e, por isso, aquele que, maravilhado e grato, tenho esta noite nas mãos, ameaça desfazer-se a cada momento do meu cuidadoso folhear. Não se trata de uma biografia, mas há muito de próprio e de intimista no que ali se diz, prenunciando uma escrita de tristeza e de solidão que seria, afinal, o seu modo de se exprimir em literatura. Ainda, sem saber como, consegui uns minutos hoje para começar a lê-lo até ao momento em que descrevendo o seu internato num colégio de freiras e relatando «despoeticamente» o seu viver sentimental de adolescente, partilha com quem a lê: «descobrira o prazer da tristeza, a sua espécie de função masturbante, ou de irritação e conformidade, de devaneio».
28.1.06
Rebelo da Silva
Talvez nem seja da família. Nunca pensei nisso. Também não tem interesse para o que se pretende. Começou hoje, aqui, uma forma de o recordar.
A pequena escala
Acordar pelas doze com a horrível sensação de metade do dia estar esgotado, sendo mau, ainda é, em pequena escala, mais suportável que aos cinquenta e seis termos percebido que, não vivendo até aos cem, já foi vivido quase tudo o que havia para viver. Aí, não há hipótese de tomar banho a correr, sair à rua ofegante e já estar esgotado, afinal, o próprio jornal do dia.
Subscrever:
Mensagens (Atom)