23.2.06

Um outro santo Agostinho

Agora que por causa do centenário todos falam do Agostinho da Silva e eu, amarrado, qual burro cego, à nora da quinta, mal tenho tempo de ler, deixem-me só trazer aqui dois momentos de fina ironia que com ele se relacionam. Um, quando Antónia de Sousa o entrevistou para o que viria a ser um livro e abriu a conversa com a natural pergunta «creio que o professor Agostinho da Silva tem oitenta anos, não é?» e ele respondeu «eu também creio»!; outro, que é uma frase sua que, desdobrando-se em duas, vem citada por Artur Manso num ensaio sobre a sua vida e obra e que eu gostaria de tornar em ideal de vida: «não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total. Na realidade não estou interessado em coisa alguma; sim, porém, em viver».

21.2.06

A porta aberta

Anda tudo gazeado no ciber-espaço. Os «blogs» colectivos são como as famílias irritadiças: pegam-se pelo que um diz, e pelo que o outro devia ter dito pegam-se também. Uns batem com a porta da rua e, ainda estão os outros atónitos com o estrondo, re-entram, façanhudos, para num grito final, despejado para os de dentro e, antes de zarparem de vez, se sairem com um: «e obrigadinho pelo que fizeram, ouviram?» O seu drama é o ridículo de saberem que normalmente ninguém ouviu e a vida sem eles seguir como dantes. Há só uma espécie que me faz pena: a dos inteligentes que, num momento de zanga consigo, esgotados de um esforço recente ou furibundos por não se reconhecerem agora naquilo que já foram, implicam por tudo e irritam-se com nada. Quanto a esses o melhor é nem se ligar. Basta deixar a porta aberta. Não é que eles voltem, é só para que não se gabem de terem sido expulsos.

20.2.06

E digam lá que não!

A coisa tinha o seu ar de paradoxal: a senhora pedia açucar e adoçante, ao mesmo tempo. A pergunta impunha-se e foi feita, à volta do porquê. Respondeu com desenvoltura: açucar para adoçar, adoçante para não engordar. Pois claro!

18.2.06

O jardim de Deus

O jornal chama-se The Northwest Telegraph e estava na saleta de entrada do hotel. Símbolo deste novo mundo em que vivemos, trazia na primeira página o obituário, com o anúncio dos novos mortos e propaganda a uma agência funerária. Ao lado informava que em Londonderry os gay católicos se sentiam mais seguros, quando das suas manfestações, do que os seus homólogos protestantes. Ah! A propósito, de uma das novas mortas, citava esta coisa extraordinária: o jardim de Deus deve ser belíssimo, pois ele só colhe as melhores flores. Hoje é sábado e por um momento, antes do pequeno almoço, senti a tranquilidade de não ser protestante ou católico, nem gay, nem viver em Londonderry e nem ter que ler imprensa desta nem quase nenhuma. Sou só manifestante e muitas vezes para dentro, zangado comigo mesmo.

16.2.06

«A Luta» continua

Um tipo dorme três manhosas horas já pela madrugada, e depois de um dia de trabalho bestial chega e tropeça num monte de mais serviço que se acumula até ao telhado e os telefonemas que não fez, os prazos que devia cumprir, as gentilezas que ficaram no olvido. Um tipo, esquecido de si e ignorado pela maioria dos outros, afunda-se num sofá, como se cama fosse, e ao tirar os sapatos, faz disso um mimo e um carinho, como se só a isso tivesse direito. Um tipo saca da estante um livro a esmo, um livro qualquer, e lê o que lhe apetecia ter já como epitáfio mortuário, ao menos para morrer a rir: «aqui jaz Bento Bexiga, que acendeu um fósforo, para ver de tinha gasolina no depósito do carro; e tinha mesmo!». Eis o resumo de um dia. Escreveu-o Alexandre O' Neill, em 3 de Agosto de 1976, num jornal de que ainda fui Advogado. O jornal, que se chamava «A Luta» faliu, eu ainda por cá ando, de fósforo na mão.

14.2.06

Um amor que mata!

Um homem que tem pouco tempo para ler, só pode gostar de livros de contos, por uma única razão: são fáceis de resolver. Em tempos comecei os «Contos Impopulares» da Agustina. Ora não é azar que, logo hoje, que é dia dos namorados, em que muitos masculinos se abeiram do ninho, arrulhantes, na ânsia de por um dia mostrarem ternura e florinhas às suas companhias, eu dei com este passo de um desses contos entre os muitos que me faltam lêr! E logo, e por isso vim aqui, aquele que dizia assim: «era uma mulherzinha miúda, quase linda, e cujo queixo agudo profetizava uma dessas azedas velhas borralheiras e aduncas, para as quais parece que a eutanásia foi inventada». Se algum leitor meu, lêr isto antes de ir ao encontro desta noite, peço, rogo e quase imploro que olhem, mirem e remirem, no alvo dos vossos encantos e amores, todas as minúcias etéras da alma, todos os rendilhados íntimos da sensibilidade, mas por favor, não no queixo agudo. É que há o grave risco, olhado o queixo agudo, de a noite vos terminar mal, muito mal mesmo!

Morte no capítulo três

Errático na vida, irregular nas leituras, talvez haja em mim um nunca mais acabar no convívio com os livros. Comecei muito tarde. Há poucos anos descobri o real valor da ficção, há muitos secou-me a capacidade de não ser prosaico. Hoje cada folha em que progrido a escrever é um passo atrás na regressão do tempo vivido. Havia outrora os analfabetos de origem, para quem a quarta classe só se alcançava na tropa, os que escreviam juntando as letras, como quem faz artimética elementar, contando-a com os dedos da mão. Esta noite percebi, enfim, o ridículo desta escrita: renasço com ela em cada linha e com ela morro em cada página. Tal como nas historietas baratuchas, ao terceiro capítulo, o autor abate-me; umas folhas adiante o leitor, distraído e entretido, já nem se lembra de mim.

12.2.06

O a e o de, essa inescapável diferença

O «Mil Folhas» entrevistou o escritor português Rui Nunes que é um expatriado mental residente na Áustria, que diz que fica doente quando vem a Portugal. Diz nela, pois estas coisas parecem ser hoje ingredientes de biografia literária, que é homosexual e de uma esquerda ligada ao Partido Comunista. Pois bem! O seu último livro abrirá, segundo ali se diz, pois ainda o não li, com uma frase de Horácio «quem da Pátria sai, a si mesmo escapa». É daquelas ideias com que se concorda, sobretudo com uma variante: «quem da Pátria sai, de si mesmo escapa»; não por uma questão de correcção ortográfica, mas por um mundo de diferença semântica.

11.2.06

Poetria

Primeiro foi a Buchholz, agora, no Porto, a Poetria, especializada em poesia e teatro, em riscos de fechar. A primeira salvou-se, esta pede ajuda. Pelo caminho, náufragas invisíveis no mar da indiferença, dezenas de livrarias fecham, famílias com casas decoradas em high tech mandam para caixotes e caves milhares de livros, para que morram em silêncio, como velhos em lares, longe da vista. Excepto alguns, cuja opulenta encadernação os salva, nesta vida prosaica, que falta lhes faz a poesia? E, no entanto, tudo isto senilmente me comove. Como se junto ao leito de um mundo agozinante, a sua esquálida mão na minha mão, peço, num murmúrio envergonhado: não morras, por favor, porque contigo todos morreremos.

Um sábado de cores

Mário Cáudio encerrou com «Gémeos» a trilogia que iniciara com «Ursa Maior». O livro já tem três anos, vai na segunda edição, só agora dei com ele e com uma sua personagem, estalajadeira, companhia talvez, mas «fechada à inteligência daquilo que tamanho sofrimento causava em mim». É o livro, tal como no seu «Amadeo», o de um obsessivo, ansioso por escrever a biografia alheia, a de um pintor. Vive, assim, ilusório, aos ziguezagues, em desatinados pinchos, num desnorte infantil. Esquece a negritude e o cinzento, por isso, mal fala de si.

10.2.06

A via salvífica

Ainda Pascoaes! Chamava-se Joaquim Maria Teixeira de Vasconcelos e já disse aqui que era advogado, num acanhado escritório na Rua das Taipas, no Porto. Um dia, esgotado da advocacia, deu em escritor. Disse que foi assim: «o poeta venceu o advogado, adoecendo, ou tirando forças da fraqueza». Talvez possa ser assim, pois a não se ter essa sorte, não há salvação possível.

9.2.06

Acaso

O acaso quis que eu soubesse, o que para muitos era óbvio, que Anrique Paço d'Arcos era o discreto irmão do conhecido Joaquim Paço d'Arcos, ambos escritores. E o acaso quis mais que eu hoje, refugiado num bar esconso, soubesse que dos poucos que acompanharam Teixeira de Pascoaes ao cemitério de Gatão, ele era um deles. Estive em Amarante, para saber que a casa do poeta é hoje um lugar de turismo rural. Tivesse ido eu ao epitáfio que, numa só frase simboliza o que dele resta, ao menos para ler o «apagado de tanta luz que deu, frio de tanto calor que derramou»! Mas o acaso não o quis, daí a minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia.

Amanhã, melhor dormido

Por estranho que pareça aos que julgam que me conhecem eu tenho os quarenta e cinco volumes da obra completa do Vladmir Ilitch Oulianov, vulgo «Lénine», naquelas edições de Moscovo, encadernadas, e que na capa de cada volume tinham ainda fotografia do dito, ao longo dos anos em que viveu; edições, diga-se, prefaciadas pelo Roger Garaudy que, entretanto, caíu em desgraça. «Lénine», como se sabe era jurista e muito do que escreveu ainda no seu país resultava de livros que a paciente irmã requisitava na Biblioteca da Ordem dos Advogados russos. Meticuloso, registava, o tempo de viagem de cada livro, de Moscovo para a Sibéria, mais o tempo que levaria a lê-lo e atirava-se dia e noite à leitura, aproveitando o tempo até ao limite da exaustão. Lembro-me hoje disto, talvez pela exaustão. Mas lembro-me sobretudo porque acho que foi num dos volumes finais, dos que ainda consegui ler, que ele diz, numa carta, que a actividade intelectual deve ser como a actividade física: nem sempre correr, nem sempre marchar, urge intervalar o esforço e o descanso. Ora eis o que esta noite eu estou a fazer: exercícios de musculação oftálmica, para tentar manter os olhos abertos, ante que caia de sono, como se nota aliás pelo estilo meio desconexo do que aqui fica. Amanhã, melhor dormido, talvez melhor.

7.2.06

Trabalhos manuais

A um tipo que tem a mania que escreve, convém comprar uns dicionários, para ir melhorando o seu vocabulário. Há uns dias lá trouxe para a minha estante que já se espalha pelo chão um «Novo Dicionário do calão» do jornalista Afonso Praça, que diz na capa, em estilo de desafio: «conheça a língua portuguesa na sua intimidade: da gíria ao jargão, do vernáculo ao simples palavrão». Com o pouco tempo que me persegue, lá o folheei apressado, para descobrir coisas óbvias como o «dar de frosques», para querer dizer fugir, e outras coisas com isso parecidas. Agora o que eu nunca tinha ouvido nem lido era que «tocar a furriéis» quer dizer masturbar-se e vá lá saber-se porquê! Ainda por cima dos meus tempos de soldado cadete, no quartel em Mafra, ainda me ficou o básico da «ordem unida», a instrução das continências, e mormente o momento grave e agora a propósito do «apresentar, arma!» e eis-nos, os do segundo pelotão da segunda companhia, com ela, hirta e empinada, a G3 segura na mão, em sentido, que no dizer aos berros do alferes «não mexe nem um pelo!». Mas agora com esta do «tocar a furriéis», o que me confunde, ainda na matéria da ordem unida, é aquela parte do «ombro, arma!». É que de facto, ou a coisa passa por artes de contorcionismo, ou então nem sei o que diga, que nem imaginar consigo, que até tonturas dá!

O galo Zagalo

Ali estava ele, em Estremoz, a peliça de serrubeco para não rapar mais frio do que por ali lhe rondava a ossada e o reumatismo, gola soerguida a esconder-lhe as fauces, o vendedor de criação. Numa gaiola improvisada, feita do que já fora um caixote, uma rede de arame a fazer de portinhola, umas quantas galinhas sonolentas e um galo altivo. Caracoleante galo, esse, com tudo o que um da sua espécie precisa para mostrar altivez: crista eriçada, barbilhões vermelhuscos, esporas afiadas, e sobretudo aquele voltear soberbo de cabeça, como os cegos em busca dos sons. Havia na proliferação de cores das suas penas todo o cromatismo do que nasce para viver. «Atiradiço, não?», perguntei, afirmando, vendo uma das galinhas quase careca à força de tanta bicada no acto de a galar, que nele se adivinhava vicioso. «Parece que sim», veio-me como embaraçada resposta. Saí dali com uma valente constipação e na cabeça com duas dúvidas quanto à arte de bem falar a língua que é a nossa. Primeiro, porque não se chama galinheiro ao que vende galinhas; segundo porque se chamará galar ao coito dos galináceos, verbalizando o substantivo masculino como meio de designar a coisa. Falássemos de gatos e dir-se-ia gatar. Em português é muito frequente, gatar, naturalmente.

4.2.06

O homem, esse desconhecido

O nevoeiro tem a vantagem de amortecer o que se ouve e de ocultar o que se vê. O homem recolhe-se ao seu interior e, ainda que seja por um começo de manhã, dá enfim por si. É então que nota quanto se desconhecia. Às vezes está-se longe de casa, quantas vezes isto é perto de tudo.

2.2.06

A graça rudimentar

Falando do Corvo, nas suas «Ilhas Encantadas», Raúl Brandão diz que ali só há uma coisa a fazer, e «não é olhar para fora, é olhar para as almas». Lugar tosco de frases rudimentares, nela se encontravam palavras insólitas para situações invulgares. «Morreu, mas engraçada», dizia-se, então, querendo dizer-se «morreu, mas feliz». Nós, os de hoje, os que perdemos a graça, sabemos como isso é, à conta, não direi de morrer, seguramente de viver, em qualquer caso de um viver infeliz.

1.2.06

A mosca tsé-tsé!

Eu tinha a angústia dos que pensam que, ao dormirem oito horas por dia, passam um terço da sua vida a dormir. Mas ontem, antes de adormecer, ainda consegui ler num momento uma crónica que o Miguel Esteves Cardoso arquivou no seu livro «Os meus problemas». O essencial do argumento é que nada se faz enquanto se dorme, donde só se vive enquanto se está acordado. Ora como o tempo do nada é tempo a descontar nos anos de vida, quem não falhar as suas oito horas diárias de soninho reparador, ao chegar aos sessenta anos, afinal, só tem quarenta. Claro que, nisto, com as minhas madrugadas de trabalho e as minhas noitadas de leitura, eu já não vou a tempo de resolver o problema. Mas se me deitasse agora e acordasse em 2034 talvez ainda conseguisse viver mais uns anos e com melhor aparência e sobretudo melhor disposição!

31.1.06

Pilhas de graça!

Depois de terem mudado a pilha à chave do automóvel, a que abre o sistema centralizado de fecho das portas e mais a ignição e não sei o quê mais, explicaram amáveis os da oficina: se não funcionar à primeira, agora que a pilha é nova, carregue cinco vezes. Não disseram porquê, nem me atrevi a querer saber. Se fosse, em vez de uma chave, uma pistola para eu me matar, preferia uma corda pendurada ao pescoço. Se não funcionasse à primeira, sempre mudava de ideias. Logo à noite, quando entrar na garagem, talvez leve uma gazua, não para assaltar o que é meu, mas para tentar não chegar tarde ao jantar, ainda por cima por falta de pilha.

29.1.06

Começa um vida

A Irene Lisboa escreveu sob vários pseudónimos, um deles, o masculino «João Falco», por julgar talvez que um livro de homem teria mais aceitação junto dos leitores. Em 1940, em plena guerra, a «Seara Nova» editou-lhe o «Começa uma vida», que a Maria Keil do Amaral ilustrou. O livro é modesto de tamanho e de cuidado tipográfico e, por isso, aquele que, maravilhado e grato, tenho esta noite nas mãos, ameaça desfazer-se a cada momento do meu cuidadoso folhear. Não se trata de uma biografia, mas há muito de próprio e de intimista no que ali se diz, prenunciando uma escrita de tristeza e de solidão que seria, afinal, o seu modo de se exprimir em literatura. Ainda, sem saber como, consegui uns minutos hoje para começar a lê-lo até ao momento em que descrevendo o seu internato num colégio de freiras e relatando «despoeticamente» o seu viver sentimental de adolescente, partilha com quem a lê: «descobrira o prazer da tristeza, a sua espécie de função masturbante, ou de irritação e conformidade, de devaneio».

28.1.06

Rebelo da Silva

Talvez nem seja da família. Nunca pensei nisso. Também não tem interesse para o que se pretende. Começou hoje, aqui, uma forma de o recordar.

A pequena escala

Acordar pelas doze com a horrível sensação de metade do dia estar esgotado, sendo mau, ainda é, em pequena escala, mais suportável que aos cinquenta e seis termos percebido que, não vivendo até aos cem, já foi vivido quase tudo o que havia para viver. Aí, não há hipótese de tomar banho a correr, sair à rua ofegante e já estar esgotado, afinal, o próprio jornal do dia.

27.1.06

O deleite e a desarrumação

Há dias em que verdadeiramente penso, tal como o António Alçada Baptista, que «a cultura é uma palavra-sótão, onde se arrumam os trastes que não somos capazes de meter noutro lugar». Lembrei-me desta, quando depois de dormir pouco por sonhar muito, acordei pelas sete, meio estremunhado, e ainda a cambalear, enfiei um valente biqueiro num molho de livros que se acumulam, dispersos e desconexos, ao lado da cama, eu na ilusão de ainda os ler e já na desistência de os arrumar.

26.1.06

Nós outros

Os que dizem «nós», em vez de «eu», nem sempre o fazem pelo plural majestático, às vezes é só pelo eco que neles causam as suas próprias palavras. No Governo usa-se muito, para dar a ideia de que cada um diz o que pensam todos. É uma ilusão. No jornal seguinte, desmentem-se logo e «nós» ficamos totalmente esclarecidos.

25.1.06

Salve-se a geometria!

Eu tenho por aí um blog que anda a vegetar e que se chama «Geometria do Abismo». O nome fui buscá-lo ao «Livro do Desassossego» do Fernando Pessoa. A princípio era uma espécie de metáfora de um mundo euclidiano escrita por um homem que vive humanamente só com operações aritméticas das que dão resto zero. Depois, o blog foi ficando num marasmo tal que hoje é um asteróide morto no ciber-espaço. Hoje descobri que ele ainda tem salvação, como os quadros daqueles pintores que raspavam as telas e as pintavam por cima. A ideia essa eu tenho-a e nítida na cabeça e tempo, como se sabe, é coisa que não me falta. Por isso, agora, vai ser só o mãos à obra. Veremos o que sai daqui. O Almada Negreiros descobriu qual era a ordem dos painéis do Nuno Gonçalves ao olhar para o chão e ao ver como estava pintado o ladrilho. É mais ou menos assim: com os olhos no chão, ainda chego lá!

Crónica da hora que passa

Uma leitora disse uma vez em estilo de amabilidade, ao ler o que por aí escrevinho, «as coisas que lhe passam pela cabeça!». É! Sou assim a modos que um passador. Não por andar passado de todo, mas por tudo aquilo por que já passei. Passar por passar, escrevo isto e lembro-me do personagem do livro do Sttau Monteiro, o Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro, o que escreveu «Um homem não chora», que andava sempre com um pacotinho de passas no bolso: num caso, como no outro, carências de açúcar e excesso de afecto.

23.1.06

O quem era e o porque é

Vim para casa carregado com os quatro volumes das «Obras Completas» do Delfim Santos, para verificar ontem que, afinal, já os tinha. Encontrei num alfarrabista, com infinita alegria o «Prazer e Glória» da Agustina para encontrar em casa uma edição igual. Para rematar, até um do Alçada Baptista eu já tinha, só que desta feita o que veio é a primeira edição, a da Moraes. Isto sucede assim porque em Portugal quem quer ler compra livros livros para os ler um dia, porque no dia em que lhe apetecer a leitura não os encontra em sítio algum. O mercado da livralhada hoje é assim: entram uns nos escaparates e uma semana depois somem-se para os armazéns dos editores, substituídos por uma nova remessa. Dizem-me que, neste país de iletrados, saem quarenta novos títulos por dia. A 30% nas livrarias, a 60 e mais nas grandes superfícies, eis o comércio na sua melhor expressão. O autor com sorte, esse chega à ilusão dos 10% e à desilusão de raramente os receber. Amanhã vou tentar que mos troquem, quando não espalho-os pelos amigos. Se algum se perguntar a que propósito leva com uma resma de Delfim Santos já sabe: escusa de perguntar quem era, que eu nem digo porque é!

22.1.06

Clientes de mão

Lembrei-me agora deles, ao ler o que o José Cardoso Pires escreveu sobre o Fernando Assis Pacheco, ambos mortos: os galegos, de tempos que também já foram, a cuja modéstia serviçal Lisboa tanto deve. Eram os amoladores de tesouras e navalhas, sombrinhas e chapéus de sol, assobiando os ares com o trinado de uma gaita de beiços que os anunciava, de rua em rua; os carregadores de pianos, animais de carga, corda enrolada a tiracolo, ajoujando escada acima cargas bestiais, em troca de uns vinténs; e eram, enfim, os das carvoarias e tascas, casas de pasto e por vezes pensões de curta permanência. A Lisboa gastronómica chique do «Gambrinus» a eles se deve, o popular «João do Grão», a eles pertence. Com uma variante que Cardoso Pires recorda: o João do Grão tinha os talheres presos à mesa com correntes, «para evitar distracções do cliente de mão sem escrúpulos». E o que por aí há mais são distraídos.

Uma vida que começa

Partiu, ontem, cedo na manhã. Uma vida adulta que enfim começa. E em mim, na desolação solitária daquele instante, no que eu gostaria de ter sabido converter em lágrimas, o desejo profundo do melhor dos mundos para ela. Hoje, neste domingo dorminhoco de Inverno, um estranho vazio acompanha-me. Escreveu-me, uma mensagem breve, daquelas em que tudo se diz no pequeno écran de um telefone. O texto é curto, diz que chegou bem, começa com a palavra pai.

O único e o singular de cada amor

Não tinha chegado a dizê-lo, mas o «Diário Íntimo» do Manuel Laranjeira, li-o há dias numa biblioteca pública, aproveitando o tempo durante o qual muitos outros almoçam. Mas ontem que foi sábado, encontrei-o, muito escondido e como se agachado num alfarrabista do Chiado. E esta manhã, ao acordar tarde, com a angústia de já passar das dez, um súbito ímpeto levou-me a ler-lhe o prefácio, o que na altura desconsiderara. Escreveu-o Alberto de Serpa. O prefaciador conheceu o prefaciado e sente-se que o absolve, àquele «pessimista místico», desencontrado com Deus, aquele que viveu «pedindo à existência terrena perfeição e paz que nunca podem ser dela» e morreu com as próprias mãos. Mas um «Diário Íntimo», um diário de amores, é algo de tão próprio, tão único e tão singular, que editá-lo é como que vingar um morto, ante a nudez embaraçosa dos vivos. Mas quando há delicadeza e carinho pelo outro escreve-se como ele escreveu, a justificar-se: «um quinquagenário sabe já bem quanto meio século é pouca coisa, e por tal fui-me às inciais, aos prenomes e aos apelidos com que Laranjeira indicou personagens femininas de ainda possível descoberta, e dei-lhes uma simples letra».

17.1.06

Mau parecer

A imprensa noticia que o Brasil está a exportar para Portugal anti-rugas falsificado. Percebe-se agora porque andam todos de semblante façanhudo: até a nossa aparência verdadeira é falsa.

Uma víscera ruim

Manuel Fernandes Laranjeira compôs em 1908 um «Diário Íntimo» onde anotou que, afinal, a alma é uma víscera ruim. Pouco antes do regicídio escreveu uma série de artigos, que Luiz Pacheco viria a editar-lhe, em trezentos modestos exemplares, na Contraponto. São notas soltas sobre o «pessimismo nacional», sobre as «quadrilhas messiânicas», sobre a «enfermidade congénita» dos portugueses, maleita que é um sintoma alarmante «de uma doença infecciosa grave», toda «de natureza parasitária». Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho no dia 22 de Fevereiro de 1912, com um tiro na cabeça, como era inevitável. Dele disse Miguel de Unamuno que «a vida o matou e ele deu vida à morte», como à de Portugal uma «Nação morta destinada a ser devorada pelas Nações vivas». Numa carta a Amadeo de Souza-Cardoso, Laranjeira, médico, diagnosticou a sua doença, a dos que sentem «morrer a vida» por não talhar a vida ao seu ideal.

16.1.06

Um dia

A indelicadeza é isto, visitarem-nos e nós não retribuirmos, falarem em nós e ser como se nem tivessemos dado conta. A selvajaria, porém, é tudo isto acontecer e um dia, a dois de Janeiro, ter morrido alguém e isso ser como se nem tivesse acontecido. Claro que há um sentimento de remorso. Confessá-lo não resolve, é uma forma apenas de me envergonhar publicamente.

15.1.06

É só carregar no «on»!

Groucho Marx considerava a televisão um meio muito educativo: cada vez que alguém a ligava, ele ia ler um livro. Hoje, com a proliferação de canais, é caso para se dizer, podem ler-se bibliotecas inteiras.

Nos teus olhos altamente perigosas

«Tu não poderias ficar presa comigo à roda em que apodreço, apodrecemos». Hoje é domingo, ouve comigo Alexandre O'Neill. A alegria sonâmbula, o modo funcionário de viver, a miséria de uma noite gerada por um dia igual.

Saudades do gasolim

Na selvajaria de que se faz vida há lugares magníficos onde não vamos, momentos de beleza que perdemos, recantos de sensibilidade que esquecemos. Hoje voltei ao gasolim ultramarino, para matar saudades.

A Praça de Espanha

Hoje o dia deu em chuva. Por ser domingo parece que chove mais e de modo que mais encharca. Refugiado num patamar de uma rua sem cafés, pesa-me tudo o que poderia estar a fazer a esta hora. Um casal de turistas pergunta-me pela Paça de Espanha. Condenando-o à desilusão do inóspito com que se vão surpeender quando lá chegarem, digo-lhes que é ali, mais em frente, sempre em frente.

Ler, rir e viajar

Há nos jornais suplementos sobre viagens, que parecem publicidade encapotada dos departamentos turísticos das embaixadas estrangeiras, quando não das próprias agências de viagens. São todos tão informativos como o «Guide Michelin», alguns sóbrios como o «Rough Guide». O que raramente são é divertidos. Ler e rir nem sempre acontece. Mas sucedeu hoje. O artigo é sobre o homem que atravessou um país inteiro durante uma semana, conhecendo-o detalhadamente. O país chama-se Andorra.

Tempus fugit

Há um livro onde se explica porque é que o tempo parece correr mais depressa à medida que envelhecemos, demonstrando como por o nosso relógio biológico, com a passagem do tempo, andar com mais vagar, tudo o resto parece decorrer mais rápido. Será um livro interessante, mas seguramente é daqueles que não vou ler, só por já não ter tempo para isso. Há pouco ainda me parecia ser sábado, amanhã já é segunda feira. Um vizinho desce a escada apressado, o autocarro em frente arranca veloz, um jovem casal, abraçado, corre ágil para fugir da chuva.

13.1.06

Alça daqui!

Viaja-se no espaço Schengen, e são os acordos de Schengen, e não há cooperação judicial que não seja a de Schengen, nem questões sobre passaportes em que não se fale de Schengen. Nesta maçada institucionalizada que é a Europa, uma coisa fantástica está na parede de uma igreja, a caminho da feira da ladra: «Schengen, sai deste espaço!». Assim, sem mais nem menos, a bazar! Um cão tristonho, pelo rente e ar desiludido, alçava ali pata, regando a dita parede. Vadio, ele era, em quatro patas, a imagem da excepção a Schengen: nas suas deambulações por este seu mundo de caixotes do lixo, é a liberdade de circulação total!

11.1.06

Um furo!

Tive um furo, ou melhor dizendo, o pneu do meu carro furou! E então são aqueles momentos da descobertas das maravilhas do nosso mundo moderno. Primeiro, fica-se a saber que antigamente o pneu sobressalente era um pneu igual aos outros e agora é uma rodinha ridícula, a vergonha de todas as rodas que se prezam, mais pequeno que os outros pneus e pintada a uma cor absurda, com um letreiro garrafal a dizer que não pode andar a mais de oitenta à hora. Já não basta o embaraço de ficar no meio da estrada naqueles propósitos, ainda se segue depois aquela humilhação do olha aquele furou! Mas há mais! O macaco que vem no carro é um verdadeiro saguí, o liliput de toda a genealogia simiesca, espécie de alavanquinha absurda com a qual se tem que alçar o carro à força de braço, na singular posição de estar metade do tempo de cócoras e outra metade de joelhos, os intervalos agarrado aos rins. Ainda por cima, para ajudar à festa, a coisa tem todo o ar de se desconjuntar a todo o momento e cair-nos o carro em cima de um pé. Agora com os coletinhos verdes fosforecentes, um tipo nestes ademanes vê-se à meia-légua. Dirá quem me lê que o meu problema foi ter sido apanhado nesta. Não, não foi, porque consegui arrumar-me para uma ruela sossegada. Ironia do destino era em frente de uma escola de condução, onde se calhar ensinavam num quadro como mudar teoricamente um pneu. O que mais me desassossegou foi uma amiga minha dizer-me num amigável e carinhoso «coitado de ti só te faltava esta» que «um furo, que é coisa que quase não há». Pois é, minha querida, quase não há mas houve: e foi hoje e comigo, na estrada de Sintra. E não foi ao volante de um Chevrolet, nem pela estrada do sonho!

A caderneta escolar

Tenho pudor em dizer a quem pertencia. Mas ali estava, no chão, à venda, entre bugigangas diversas, a caderneta escolar de uma mulher de quem se disseram já coisas civicamente maravilhosas. É assim a Pátria agradecida e assim são as famílias que, morta a criatura, lhe despejam os papéis para o lixo. Se é para isto que serve ter família, antes ser sozinho, ou morrer pobre, sem nada para deixar.

9.1.06

O homem de Manhufe

Consegui estar este fim de semana em Amarante, por causa do Amadeo de Souza-Cardoso. A casa da família, onde viveu, está fechada a visitas. Para a descobrir é preciso perguntar e muitas vezes. Muita gente da terra nem sabe onde é Manhufe. Mas, enfim, de curva em curva, entre rotundas e inversões de marcha, lá acertámos. Já na rua da pequeníssima localidade, hesitante, abordei um passeante nos seus sessentas, que pela samarra e passo vagaroso me parecia um habitante da terra: «a casa do Amadeo Souza-Cardoso é aquela ali em baixo?», perguntei. «É sim», respondeu-me, solícito, o meu interlocutor, acrescentando, prestável: «mas olhe que ele não deve estar em casa, pois costuma ir até Lisboa». Pois costuma, pensei eu, mas a última vez que isso aconteceu foi em 1916. Pensei mas não disse, talvez com receio de ouvir como resposta um «Ah! Bem me parecia! Por isso o não vejo há tanto tempo».

8.1.06

Sendo-se justo

Acabei, enfim, a leitura do «Diário» do José Régio. Hesitante quanto ao que pensariam os seus leitores sobre as pessoas quanto às quais ele formulava, nesse gotejar de pensamentos íntimos, opiniões tão vincadas e sobretudo em que medida se influenciariam irremediavelmente em função dos seus tão vivos juízos de desfavor, Régio prevenia quanto ao que havia de circunstancial nessas suas mordazes opiniões. Vítima de críticas nem sempre respeitosas, desabafou, entretanto, por escrúpulo, num momento de verdade que difícil é ser-se justo quando se é vítima de injustiça.

7.1.06

Cantam as nossas almas

O meu pai, hoje faria anos. Nasceu há dois séculos, em 1898. Era mais velho do que o pai da minha mãe. Sempre tive um pai mais velho do que o meu avô. Tudo isso me deu uma noção da precariedade do tempo, do relativo da idade. Absoluto só o nascer, mesmo a morte conta pouco. Hoje, a estar cá, estaria de parabéns. Era o seu dia. Ao nascer, nasci, a possibilidade de mim na forma do ele.

A intranquila sensação

Cheguei com a cidade tragada por um nevoeiro gélido. Acordei com ela devolvida a uma luz crua do sol. O acordar tarde, uma sensação de estremunhamento, a angústia do tempo perdido, a ansiedade do pouco tempo que resta, os sentimentos habituais da intranquilidade. A quatrocentos quilómetros de casa, ou no quotidiano da minha monótona aldeia, sempre a mesma ideia pesecutória do mundo por haver. São quase dez e meia da manhã. A rua vazia, em redor a pacatez dorminhoca de sábado, todos indiferentes ao pecado do dormir demais.

5.1.06

Uma escrita exaurida

Há homens que ficam amarrados ao que parecem. No José Régio são os Cristos de antiquário, a fazer supor que ele era um beato católico, quando ele nega o catolicismo, declarando-se cristão; é a escrita familiar, intimista e dorida, a sugerir que ele fosse um conservador, quando ele se confessa socialista. Mas o que mais espanta é sobretudo aquele ar de eterno celibatário e misógeno, quando no seu Diário o surpreendemos nas suas obsessões sexuais e, quando calhava, a dar-lhes livre curso, até à exaustão. Há homens que parecem, enfim, amarrados ao que ficam.

4.1.06

Morreu

Saudava-o com um «olá, autor de Fast Lane», que fora o seu primeiro livro de ficção. Ele, com a bonomia tranquila expressa num sorriso, respondia com um «olá, ilustre causídico». Hoje morreu, no livro da realidade. E o ilustre causídico, agrilhoado ao remo de mais um julgamento, nem tempo terá para ir ao seu funeral. Olá Cáceres Monteiro, autor de «Fast Lane, um exercício de sedução», esta será a tua última reportagem, em busca de um Deus desconhecido.

3.1.06

A cidadela sitiada

Uma alma inquieta, mesmo contemporânea, é como uma cidadela medieval, sitiada pelo exterior das suas muralhas defensivas: confinada a si, morre de fome, saindo ao exterior é assassinada. Nisto não há nada melhor do que viver de portas abertas em convívio ameno com os nossos invasores. Claro que há nisso o risco de, num minuto de distracção, se morrer atropelado ou, num momento de distenção, nos miscigenarmos com eles.

2.1.06

A definição de uma alma

Talvez porque o António Telmo fale no José Régio, dei comigo a ler-lhe o diário que o António Maria Lisboa, seu estudioso, compilou e que se chama «Páginas de um Diário Íntimo». E ali encontro a excepcionalidade de uma definição que em si contém, em extensão e densidade, todo o conteúdo de uma alma única: «eu sou, a meus próprios olhos, um doido que por acaso nasceu com juízo». Em Régio a neurastia é aparente, surge apenas como a obsessão da sua inquietude, o seu «furioso desejo de Nada».

Adivinha quem vem jantar?

Nada como a companhia de um livro quando se janta sozinho: o livro evita-nos ter de olhar para os outros, o livro poupa-nos a ter de reparar que estão a olhar para nós. Esta noite foi uma entrevista de António Telmo a José Manuel Viegas, que ele compilou num livro a que chamou, talvez por causa do Agostinho da Silva «Viagem a Granada». Tinha acabado a sopa, uma sopa invernosa e espessa, excelente para um dia de frio, quando a frase chegou: cada português transporta dentro de si a pátria portuguesa.Telmo diz, numa outra entrevista, que Fernando Pessoa é um «poeta enorme». Do ponto de vista do que contém e deixa perceber, esta frase também.

Um tiro às escuras

A referência vem aqui, num artigo sobre a adaptação ao cinema de histórias previamente contadas em livro. Uma das graças é que «no livro as imagens são sempre melhores do que no cinema». Mas o que me ficou foi a menção a Tchekov, quando, a propósito ainda do teatro, dizia, a propósito dos tempos cénicos, que se há uma arma na primeira cena, ela tem que ser disparada na segunda. A atentar em algumas peças de teatro, o risco é serem disparadas sim, mas da plateia sobre o palco. O mesmo se diga do cinema, mas com menos sucesso.

Um homem em fuga

Sempre a fugir do calendário e a tentar fintar a agenda, fazendo da noite dia, e dos minutos horas, lá tento ler, quando posso e sobretudo quanto posso. Claro que, há umas semanas, estava a ler «As intermitências da morte», comprado logo no dia em que ele saíu. Hoje, que o tempo passou sem eu dar conta, continuo a lê-lo, no mesmo sítio onde ia. Saramago falava na folha que eu agora abri, dos que morrem de «morte parada». Também os há, eu sei, e por causa disso, o melhor é eu ler amanhã. Em matéria de leituras intermitentes, hoje fico parado.

1.1.06

Dias assim

Só um aceno. Cheguei há momentos. Não tenho nada para dizer e não quero ouvir coisa alguma. Há dias assim, completos!

31.12.05

O beneficente consolo

A salvação já existiu! Andávamos por meados do século dezanove e ela chamava-se a «Associação Consoladora dos Aflitos».Tinha um jornal, que a Biblioteca Nacional generosamente agora faculta à leitura pública, aqui e que se chamava «A Beneficência». Vendia-se «na loja do sr. Lavado, Rua Augusta, n.º 8». A associação, segundo proclamava o generoso periódico, era animada pelas «damas ilustres (...) semelhantes a bandos de níveos pombinhos, conduzindo verdes ramos de pacífica oliveira». Com tais níveos pombinhos, um homem ficava consolado pela certa, por mais aflito que andasse.

30.12.05

Elixir capilar

Só o homem, que não os outros animais precisam de ir ao barbeiro e mesmo assim só em relação aos pelos da cabeça, enquanto não caem de vez. Agora a esses fígaros chamam-se de cabeleireiros, o que faz sentido, vista a zona onde primacialmente operam. Só o homem que não os outros animais precisam de ir ao barbeiro cortar os pelos da parte de baixo da cabeça, os da barba e do bigode. Se nisto, da ininterruptabilidade do crescimento capilar está a natureza humana do homem, a calvície é a tragédia existencial da desumanização.

29.12.05

Na imensidão de um muro

Eu tenho um amigo que em cada Natal manda imprir um livrinho com poemas e pequenos outros textos que selecciona e o distribui por aqueles a quem quer obsequiar. Este ano, uma amiga fez o mesmo com belíssimos textos seus. Fale-se, para já, do primeiro, onde eu leio o que estará inscrito num momento da imensidão da Grande Muralha da China: «a certeza guardada como reserva, elogios não esperados de um artista, a descoberta da nobreza em nós próprios». São as três coisas boas.

28.12.05

Uma língua que ecoa

Continuam as leituras compulsivas para o fechar do já atrasado livro. Há sempre uma pausa agradável, mesmo nos dias que nos entristecem. No caso, foi ao ler nas memórias de Elizabeth Hill, a prima russa da minha biografada, o momento em que ela assiste às aulas de russo na Universidade, em Inglaterra. Ministradas por um professor arménio, os seus alunos eram obedientes oficiais do Exército britânico, que, ante o facto de o professor repetir, para melhor audibilidade, cada palavra do vocabulário a memorizar, convenceram-se, com seriedade, que em russo cada palavra se pronunciava, sabe-se lá porquê, duas vezes: «niet, niet», «da, da»!

O lugar de toda a gente

O livro trata da vida quotidina em São Petersburgo na época romântica. Estou a estudá-lo porque a minha biografada, Nathalie Sergueiew nasceu naquela que Pedro o Grande quis que fosse a janela da Rússia sobre a Europa. Há nele um capítulo que trata da condição feminina e outro da vida cultural nessa cosmopolita cidade. Não recordo em qual vem a propósito de Elizabeth Khitrovo, filha do general Koutozov que, estando doente, e não podendo receber nos seus salões, como costumava, a corte de intelectuais, artistas e homens de cultura que a frequentavam, abriu-lhes as portas do seu quarto e a um, com equívoca amabilidade, lhe disse: não, não se sente aí nessa cadeira, pois é a preferida de Putschkine, nem naquele fauteil, pois é o de Viguel. Sente-se aqui, na minha cama, que é o lugar de toda a gente. Uns anos depois, os sovietes arancavam em armas com o sonho de que isso era uma verdade universal para todas as coisas, em todos os lugares.

27.12.05

Vocês, vejam lá!

Vi-o, na capa do JL, ao professor Matoso, o historiador. E lembrei-me que tinha de comprar o jornal. Na papelaria o homem disse-me um mas este é o da semana passada e acresecentou mais é que isto sai de quinze em quinze dias. Como eu lhe disse um convicto eu sei eu sei, mas é que me esqueci de o comprar, rematou-me com um pois é, este é daqueles que nunca se desactualizam! Pois não, vim eu a pensar. E. de facto, lá dentro ainda se fala do Afonso Henriques, vejam lá!

26.12.05

Prognóstico reservado

Saíu também a Geometria do Abismo da câmara de reanimação em que se encontrava. É claro que a dispersão exaure e mata de fadiga quem escreve e de cansaço a quem lê. Talvez por isso a «geométrica noção dos males e dos remédios» ajude um pouco na convalescença.

A lenda dos malvados

Por andar a escrever um livro sobre a pintora Sonia Delaunay acabei hoje, dia seguinte ao de Natal, a leitura minuciosa do livro que o Mário Cláudio escreveu sobre Amadeo de Souza-Cardozo. Mário Cláudio é um dos que felizmente encontrou depois do Direito uma forma de se salvar, pela literatura. O livro é superlativo, como momentos extravagantes de observação, como quando surpreende que na vida do seu biografado «as mulheres desfilam no horizonte de sua mira, como outras tantas hipóteses de conhecimento de si mesmo». No caso são, em Paris, incessantes «expedições cinegéticas do amor», em que entrecruzam mulheres «exaustivamente nuas», «a entrega a ninfas e harpias que caracteriza a lenda dos malvados». Tudo acaba, porém, no caso de Amadeo ainda sem completar trinta e um anos, no dia vinte e sete de Outubro de mil novecentos e dezoito. Nesse dia «a vida que findara começa, como todas as que se extinguem, no reviver do palpitar definitivo das suas cores». Mata a pneumónica um extraordinário pintor: «pessoas de tal nervo, só porque não podem dar-se ao luxo da ausência de si próprias, se não ausentam dos outros».

Enleante cuidado

Repare-se num gato a atravessar numa casa por entre obstáculos miúdos e dispersos. Tem de articular quatro patas, fazer passar um corpo horizontal, extenso em excesso comparativamente com a sua distância do chã,. maior em comprimento do que em altura. Compare-se com o homem, que tem duas pernas e não quatro e, porque na vertical, ocupa menos raio de acção. Veja-se agora a trapalhice do humano e a destreza do felino. De vez em quando lá vai um bibelot em cacos. Segue-se uma zaragata, não de miaus, mas de berros!

25.12.05

Amar

Havia-os em todas as casas dos anos quarenta, com aquelas capas que hoje ressuscitaram para o bom gosto, os livros do Stefan Zweig. Alguém disse outro dia que ele era um escritor mediano. E, no entanto, este domingo de Natal a sua descrição de Sigmund Freud devolveu-me, enfim, a compreensão respeitosa pela escola psicanalista de Viena, o modo como ele comenta o Ulisses de James Joyce ensinou-me, enfim, o que é o génio de escrever. Um homem destes ama os livros. Sobre eles escreveu um agradecimento singular: "os livros esperam, em silêncio. Chamam, convidam-nos, mas não exigem". Só quem ama, respeitando-se, escreve uma coisa assim.

A estrada

Chove e é domingo e por ser Natal há nesta estrada esperanças contentes e memórias entristecidas transportando-se no sonho reflexo da ilusão.

24.12.05

Os limites da compreensão

Interceptou-me na rua e disse-me que representava o senso comum, tal como John Locke. Eu sei que é inesperado ser-se interrompido numa rua, invulgar quando isso acontece numa noite de Natal, excepcional para nos virem falar no senso comum, caso único quando é alguém que se diz idêntico a John Locke. Locke nasceum em 1632. Um dos pontos nevrálgicos do seu contributo para a filosofia foi a compreensão dos limites do entendimento humano. Eis precisamente com o que me confrontei esta noite, a minha incapacidade de pereceber o que se passava com esta mulher, mesmo em termos de senso comum. Ouvimo-nos e sem que nos tivéssemos entendido, mutuamente nos desejámos um Bom Natal.

De vésperas

Há um ditado brasileiro que diz que «às vezes é preciso fingir de morto para continuar vivendo». Talvez tenha sido isso. Tal como como nos corpos em agonia, a Mãe Natureza desliga-lhes tudo o que gasta energia vital, lançando-os em coma. Fica o mínimo aplicável à sobrevivência. Não escrevi, mal li, quase não pensei. No mais, tentei cumprir as minhas obrigações profissionais e os meus deveres pessoais. Aqui estou, quase sem fôlego, na véspera de Natal. Quando eu era miúdo ansiava por amanhã. Hoje também.

12.12.05

Sabina Freire

Ora entre o carrego de livros que, entusiasta, comprei a semana que passou, encontrei, em cuidada encadernação já moída de maus tratos, o «Sabina Freire», peça de teatro de Manuel Teixeira-Gomes, que já foi Presidente da República e de quem já falei aqui. Na linguagem redonda da época o autor apresenta assim a sua personagem: «ondulosa, braços magros, cinta fina, quadris estreitos, seio farto e inflando na bem geminada curva dos bem distintos pomos». Um homem lê isto e vê, como se um cego em braille, tacteando as letras com as pontas dos dedos.

O acaso persistente

Este fim de semana dei comigo a pensar como haveria de escrever um livro que começara há semanas a alinhavar, mas que não encontrara ainda forma de se expressar. Hoje, depois do jantar, fui à mala do carro, para alombar escada acima com dois sacos de alfarrábios que comprei há dias a uma elegante e distinta senhora que vende livros com a categoria de quem recebe amigos para um cuidado chá. Uma dessas preciosidades é do Metzner Leone, e é um romance que abre com uma frase que eu sei que é muito minha: «qualquer romance tem, pelo menos, duas histórias: a que conta o livro, e a história do próprio livro». Eis neste livro, nas palavras de outro, o que eu havia pensado para o meu livro. Claro que é uma simples coincidência, daquelas que nos martelam a cabeça de persistentes.

11.12.05

E é melhor nem pensar!

Eu disse ontem aqui que estava a ler o livro de contos da Florbela Espanca, mas não disse que ele se chama «O Dominó Preto», nem que tinha conseguido ler o conto que dá nome ao livro, na ânsia que fosse o melhor. O tom geral da escrita é aquela calda lacrimosa e adocicada que torna cada uma das linhas como se uma caminhada dissolvente e contribui para a enervação do leitor. A história é a do marçano plebeu, o José, que se enamora da longínqua e distinta cliente, a Maria, e que por marcar encontro em noite de Carnaval num jardim público ao qual ela não aparece, se mata, insolitamente à facada. Como personagem que se preza, o José morre mesmo, no último parágrafo do conto, com uma andorinha a ajudar à cena, passando-lhe veloz «rente à cara dele, com um gritinho de alegria». É assim. A surpresa é que há na narrativa aqueles momentos de lubricidade oculta, como mão discreta entre rendinhas íntimas: não é tanto o dar-se o leitor a perceber nela o «passinho grácil», a «boca fresca» de «polpa carnuda e sumarenta de um morango acabado de colher»; é mais aquele passo em que o José lhe ouve, em imaginação doente, «o riso garoto cheio de reticências, evocador de carícias proibidas e desejadas, o riso que às vezes lhe fazia vir à ideia coisas em que seria melhor não pensar». Num seu diário Florbela definiu-se como «casta sem formalidades», «a palpitar de seiva quente». Percebe-se, e muito bem.

Florbela: conhecer-me!

Eu sei que esta semana fez anos que nasceu a Floberla Espanca, que nasceu em Dezembro e em Dezembro quis morrer. Hoje, já longe da data, tenho comigo apenas um livro de contos que ela escreveu e peço-lhe ajuda para poder ter algo de digno a dizer. É pena, porque como disse a Ivette Kace Centeno, que prefaciou uma sua edição, «incomoda nos contos o fácil dos estereótipos». Mas nem tudo é mau neste momento residual de lembrar a tragédia de uma vida. É que nesse livro e nesse «prefácio», que melhor se chamaria de introdução, é lembrado um momento do seu «Diário do Último Ano» aquele em que Florbela configura a eventualidade de, quando enfim morrer, alguém ler aqueles seus «descosidos monólogos» e assim «realize o que eu não pude: conhecer-me». Por mim tentei, sem ser capaz e vim aqui dizê-lo, assim alguém me ajude.

10.12.05

Demência, Majestade!

A Fenda editou um estudo do Ezra Pound sobre Camões. Disse-mo um livreiro de bairro, um entusiasta que tenta sobreviver há cinco anos neste mercado de ferocidade mansa que são os livros. Encontrei o opúsculo numa daquelas livrarias de Centro Comercial que agora parecem só ter lixo embrulhado em papel vistoso. Li-o hoje, sábado de manhã, num insólito local, a última fila de bancos da Basílica da Estrela. O texto é curto e trata essencialmente de um tema erudito, o da problemática da tradução de «Os Lusíadas». O que é um desastre é a revisão da tradução. Não fosse a solenidade do local, que umas jovens turistas excepcionavam, viçosas e matinais, tinha-me esbarrigado a rir, sobretudo naquele momento em que nele se diz que a Inês de Castro «foi apunhalada quando pedia demência ao então rei, Afonso IV». Exactamente assim demência! O livro vai em segunda edição: é caso para dizer não revista e muito diminuída!

8.12.05

A voz, o som, as cores

Há na rádio uma voz cavernosa que é a do António Sérgio. Com ele ouvi o «Lança Chamas» e os «Sinais de Fumo», programas de música tida por imprópria para o que eu deveria ser. Agora o António Sérgio está na «Hora do Lobo», da meia-noite às duas. Lembro-me dos tempos em que eu via rádio. Via, sim, as sonoridades coloridas por detrás dos sons que ouvia, um arco-íris de entusiasmo, na solidão da noite. Hoje, toupeira cega pelo excesso de luz, apuro o ouvido, no labirinto dos sons.

P. S. Hoje lembrei-me. E «Som da Frente» onde, pelo menos para mim, tudo começou?

6.12.05

Epigrama

A un português que lloraba, preguntaron la ocasión; respondió que el corazón y que enamorado estaba. Por mitigar su dolor, le preguntarem de quién; Respondió que ninguén: lloro de puro amor! Lope de Vega escreveu este epigrama.

Vencimento

Só para o vencido há vencedor, precisamente porque não venceu. Vergílio Ferreira disse isso faz quarenta anos daqui a dez dias, ao Diário Popular. Nem quem o disse nem onde ele o disse já existem, vencidos.

4.12.05

Pensava

Há no último livro da Agustina aquele momento em que as mulheres sofredoras estavam em vias de se tornarem mulheres irritáveis. Pensava eu que já tinha passado essa página, a página número cento e nove.

3.12.05

Intervalos de animal

Eu sei que já passava da uma e meia da manhã, mas o sentimento urgente de que já que o dia acabara, ao menos eu podia ter a ilusão de ter lido qualquer coisa mais do que os papéis do meu trabalho, não me deixava descansar. Consegui! Eu sei que foi só meia-página de um livro que se arrasta na mesa de cabeceira há semanas. Mas valeu a pena, pois vem lá que «o homem só é um animal racional nos intervalos de ser animal». Como se vê precisamente pela vida que se vive.

1.12.05

O princípio da verdade universal

«A vida que vivo não é a minha», Almada-Negreiros a Sonia Delaunay, admirável e universalmente verdadeiro.

30.11.05

Os olhos de um cão

Ainda o «JL». Numas páginas dedicadas aos escritor que a guerra colonial nos trouxe, vem, ao lado do lembrado Lobo Antunes e do esquecido Assis Pacheco, o ignorado Bação Leal, autor de um livro modesto, pobre de meios, magro de divulgação, um livro póstumo, um livro mesmo assim perseguido. Tive-o e foi dos que me ficou, numa qualquer casa, então estranha, hoje alheia. «Se me quiseres reencontrar, olha um cão nos olhos, com certeza estarei por detrás dos olhos do cão», escreveu ele, em verso desesperado. Morreu há quarenta anos, no dia um de Setembro, tinha vinte e três anos de tragédia já vivida.

Homens livres

À quarta-feira sai o «JL», e nem sempre satisfeito com o que nele leio, habituei-me a lê-lo. E começo pela última página e sei que nisso não estou sozinho. Nos últimos tempos ela anda dedicada a escritos de memórias. Desta vez foi o professor Jaime Celestino da Costa o mesmo que, por coincidência, este domingo, em viagem, ouvi na Antena 2, a falar sobre o Freitas Branco, o que agora anda em efemérides. Ora lembrou o notável médico e homem de cultura que em 1923 se editou em Portugal uma revista chamada «Homens Livres», que ornava como sub-título, «Livres da Finança e dos Partidos». É caso para nos perguntarmos se não se poderia reeditá-la, aproveitando precisamente a oportunidade e o momento.

29.11.05

Para que eu sinta em mim

O José de Almada-Negreiros, num intervalo dos seus «desejos eléctricos de exibição», escreveu, íntimo e exageradamente sincero, à pintora ucraniana Sonia Delaunay, a viver então em Vila do Conde, na Rua dos Banhos. Findou essa carta, escrita «da cidade quimicamente febril», com um «amanhã dar-lhe-ei toda a minha alma epilética de admiração. Hoje estou completamente só». Dias antes tinha escrito a Eduardo Viana, confessando-lhe: «eu vivo abandonado de entusiasmos e de tudo - a minha tragédia empeçonha-me tentacular e tumultuosa (...). Escreve-me para que eu sinta em mim alguma amizade». Corria o ano de 1916.

27.11.05

Domingo à tarde

Todos conhecem a palavra «serra», como a Serra do Caldeirão e a palavra «cerro», como em Cerro Maior. Mas na tabuleta da estrada estava escrito «serro», como Serro da Zorra, Serro da Águia, Serro Ventoso, ou Serro da Cabeça. E assim, trocando-se o «c» por um «s» tudo se irmana e ganha sentido. Uma e outra querem dizer «espinhaço», como em Espinhaço de Cão. Cravado na garganta, esse, só o da necessidade de regressar.

26.11.05

Cerejas literárias

Exausto, fugi do quotidiano, na ânsia de tentar descansar. Trouxe-o, ao livro da Agustina e, reconheço, é uma narrativa notável. Trata da interdição, por loucura, da filha de Eduardo Coelho, o homem que fundou o «Diário de Notícias» e do controverso processo judicial que desencadeou. Mas trata de tudo isso com uma sensibilidade de alma que toca. Agustina diz que escreve livros como quem come cerejas. Cerejas doces, daquelas que o pardal debica, ferindo-lhe a polpa, cristalizando-se os açúcares.

24.11.05

Um sono de morte

Eu ontem não disse, mas o livro da Agustina que comprei abre a tratar de um enterro. E não disse porque comprei com ele um outro, do José Augusto França, que se chama «Exercícios de passamento» e que é dedicado ao modo como morreram cinquenta ilustres portugueses. Uma coisa fatídica, que ainda por cima surgiu por acaso! São assim, irmanados no necrotério literário, o França, que põe traço de união entre o José e o Augusto, e a Agustina que põe traço de união entre o Bessa e o Luís: os dois livros que têm como traço de união o tratarem de mortos. No caso dos «Exercícios», são cinco suicídios e dois assassinatos, o resto é tudo de «morte natural», estranho nome para uma coisa que se encara normalmente com tão pouco naturalidade, mas enfim. Ontem à noite, antes de adormecer, ainda consegui despachar quatro mortos. Dormi regaladamente.

23.11.05

O atleta da tristeza

Há sempre um livro da Agustina Bessa Luís que se não leu. Hoje encontrei um que se chama «Doidos e Amantes», dedicado a uma bisneta do «professor alienista Júlio de Matos». Um dos personagens, pelo que intuí da primeira folha «fazia da infelicidade um desporto da alma». Sem mais.

Um livro filomenal

Pronto, está arrumado! Desisti de vez do livro da Filomena Mónica e consegui acabar o livro do Mega Ferreira sobre o Fernando Pessoa, por coincidência com uma frase do «Livro do Desassogeo», que, por coincidência também, foi onde fui buscar a expressão «geometria do abismo», que dá nome a um outro blog de que igualmente cuido. Bom, em suma, e para atalhar, a desassossegada frase com que eu conclui o livro é «o meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria até inibir-me de dar começo». Ora aí está um salutar princípio que eu deveria ter aplicado ao filomenal livro: não lhe ter dado sequer começo. Meu rico tempo roubado ao sono, ao descanso e à companhia para acabar perdulariamente estiolado nisto!

20.11.05

Viver na abstracção

Tinha parado de chover e o jardim era uma cantata de cores, de cheiros e de sons. Consegui ainda uns momentos de leitura, umas páginas mais ao «Nítido Nulo». Vai a meio. Ao regressar, porém, uma vez mais ali estava plantada no meu horizonte de desejo, a atraente livraria, a lúbrica piscadela de olho, prometedora dos seus livros. Hesitei. Morando perto dali, tinha levado pouco dinheiro, apenas para não andar desprevenido. Podia-me desculpar com isso para não ter de ceder; ademais tenho imensa leitura em atraso. Mas pronto! O livro está aqui. Foi o António Mega Ferreira quem o escreveu, fala de mais um Pessoa, entre os tantos em que ele já foi fatiado, qual perú assado, por falar a propósito do Natal que aí vem, quando há quem coma de tais coisas. Desta vez é o Pessoa empreendedor, o que teve de «fazer pela vida», por não poder comer os poemas que escrevia, nem com eles pagar renda ou vestir-se como se vestia, aprimorado.O livro despacha-se rápido, para quem for ágil na arte do folhear, rápido no truque de apreender. O problema são aqueles breves momentos de encontro com o sublime, como a frase «conservar num abstracto o que temia concreto», por ele escrita a propósito do relacionar-se, pela escrita comercial inglesa, com a Inglaterra mítica. Lia-a, à frase ambígua, e não me sai do pensamento, como se nela se resumisse, em suma, todo um modo de viver os outros e, através deles, solitário, a própria vida.

19.11.05

A suprema incerteza

Pois o livro grande, o livro pesado que há pouco comprei, é o dos «Cantos» do Ezra Pound, traduzidos agora em português. Há quanto tempo eu andava a martelar o difícil original, percebendo parte da metade do todo e desejando entender-me com a metade do resto que mal percebia. Ao brasileiro José Lino Grünewald se deve o traduzi-lo. José Lino finalizou Direito e «deixou o diploma de lado», isto «para se dedicar de corpo e alma à actividade literária». Como eu me revejo, frustrado, em biografias como esta. Voltei ao Ezra Pound e aos seus torrenciais cânticos, cantos e cantares.Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza». Ele o diz e eu também. Por isso, deixem-me em paz: quero ler, inquieto talvez, mas sossegado, enfim.

Os olhos a arder

Há no Centro de Arte Moderna uma Livraria que é Almedina e que por ter esse nome me cheira aos livros de Direito que são o meu pesadelo na forma de livros sem literatura. Mas o essencial dos livros dessa Almedina não tem a ver com o Direito, embora haja por lá, no pequeno espaço, uma provocatória Lei Geral Tributária e um consensual Código Civil, além de outras espécies legais mumificadas. Passo por lá aos sábados, quando calha ter sábado possível para ir espraiar-me pelos jardins da Fundação. Hoje, já de saída, cruzei-me com os «Pequenos Burgueses» do Carlos de Oliveira, um dos poucos que faltavam na colecção do homem que escreveu «A Casa na Duna» e, enfim, o livro de que vou falar a seguir. Regressei exultante e carregado. Com um golo de vinho tinto do almoço tenho a alma reanimada. Faz sol lá fora e já esteve a chover. Só falta telefonarem-me para me sentir gratificado. Tenho leitura para dias a fio. A juntar ao que me falta ler, se não fico mais culto, fico pelo menos com os olhos a arder.

18.11.05

Bilhete de identidade

Corrijo, há que ser justo!. Não retiro nada ao que me irrita, há no livro coisas ridículas e outras desnecessárias, mas já nem sei o que pense a seu respeito. É um livro sincero, relata mesmo o inconveniente. Através dele reconstitui-se uma época e um estilo. Vou lê-lo todo. Talvez eu esteja de mal com a minha geração, com a «pose» e a arrogância que tínhamos e o mundo merdoso que gerámos. Deve ser por causa disso, Maria Filomena Mónica, que o livro me está a custar. Chama-se «Bilhete de Identidade»: de cidadão nacional!

17.11.05

A Ti-Mi e a Ti-Lú

Eu não sei se consiga ou deva, mas lá vou lendo, furioso comigo, o livro de «memórias» da Maria Filomena Mónica. Para não desistir de vez, saltei-lhe a parte da infância e da adolescência. Há minutos, quando interrompi a leitura, tinha ela descoberto o Vasco Pulido Valente e eu tinha ficado a saber por ela que ele «usava soquetes curtos», dado fundamental que explica afinal muita coisa que eu não compreendia. Antes disso, ainda li uma frase que sublinhei. Era a propósito da «avó Maria» e da «Ti-Mi e a Ti-Lú» e a frase dizia assim: «Nenhuma tinha marido ou, se os tinham, guardavam-nos longe». Ora aí está a fórmula mágica para se salvar a felicidade matrimonial: longe da vista e, se possível, do coração! E não me digam que não vale a pena o esforço irritante de se lerem livros írritos!

16.11.05

A ordem natural das coisas

Já nem sei como é possível evitá-los, aos livros. Hoje talvez tenha passado o teste decisivo. Ando a acumular tantos livros para acabar de ler que já deveria ter pudor em abeirar-me de outros. Lá consegui encerrar o torrencial «Diário Remendado» do Luiz Pacheco, mas ainda vou a três quartos do tristonho «Os meus sentimentos» da Dulce Cardoso, falta-me a parte final do conturbado «O Acidente» do Mário Cabral, vou no princípio ainda do enevoado «Nítido Nulo», do Vergílio Ferreira, mas apeteceu-me ler e comecei-o ao Saramago, o das burlescas «Intermitências da Morte». E, no entanto, eu que embirro, sem saber sequer porquê, com a Maria Filomena Mónica, eu que, por causa disso me esquinei com o livro que ela escreveu, por saber que era dela e por duvidar que memórias capazes poderiam ser aquelas e que me interessariam, comprei hoje o livro. Quase diria comprei-lhe o livro, naquela forma de dizer de um leitor que quer ajudar um escritor. Comecei a lê-lo há pouco num banco cimentado de um centro comercial, enquanto esperava que acabassem umas variadas compras. Li quanto pude. Os outros livros, pacientes, aguardavam em casa a sua vez. Leio onde calha. Calha é infelizmente poucas vezes. Mesmo assim dou graças a Deus: aprendi a escrever, depois de ter aprendido a ler.

13.11.05

O que há e o que é

Era domingo e estava muito frio e eu vim para a rua, talvez por fazer sol. Trazia comigo o último caderno dos «Teoremas da Filosofia», que, devotadamente os da Filosofia Portuguesa vão animando com os seus escritos. E li no Pedro Sinde, filosofando à bolina, esta ideia de haver pessoas para quem existe apenas o movimento de rotação de si em torno de si, o perpétuo circular do dia e a noite da sua própria individualidade. E aprendi a perfeição do movimento de translação, seguindo as estações de todo um ano, a mutação de toda uma vida. Esta verdade astronómica pareceu-me ainda mais verdadeira, quando aplicada aos seres humanos. Partícula do universo, poeia cósmica, o homem reproduz em si e na sua insignificante individualidade toda a mecânica do sistema solar. O infinitamente pequeno é homólogo ao infinitamente pequeno, o um equivalente ao todo, o que há idêntico ao que é.

12.11.05

A morte suspensa

Há coisas que o tempo me ensina a aprender; a mais recente é porque motivo eu não gostava do Saramago. Claro que havia aquela história de ele, director do «Diário de Notícias», nos «anos da brasa», ter demitido uma série de jornalistas, muitos dos quais passaram um mau bocado por causa disso. Há um que conheço e que ainda hoje, por causa disso, se recusa a chamá-lo pelo nome e cada vez que o refere o faz como «o erva daninha», tal é, de facto, a definição do dicionário para o nome do nosso prémio Nobel da Literatura. E, no entanto, cheguei à conclusão do motivo profundo para não gostar dele e nada ter lido até agora que proviesse da sua pena. É que o autor do «Memorial do Covento» é de tal modo banal a falar de si, de tal modo pardo a falar do que pensa, que uma pessoa fica sem vontade de ler qualquer dos seus livros. Senti isso mesmo ao ler este sábado frio a entrevista óbvia que Adelino Gomes lhe faz e que o «Mil Folhas» de hoje edita. Felizmente estou a ler «As Intermitências da Morte» e com agrado a surpreender-lhe os bons momentos de uma história aliás surreal. Ao encontrar neste que é o seu último livro a menção aos «lares do feliz ocaso», lembrei-me do nome deste blog e quanto ele pressagia de memória de passamento e de dia de finados. É de tal modo assim que, ao pensar nisso, sinto a vertigem dos que têm medo de se debruçarem, por receio de lhes apetecer antecipar o fim dos dias, em vez de viverem, como diz o Saramago, neste «cemitério de vivos», com a «morte suspensa».

11.11.05

Conforme os dias

Mais uns dias sem vir aqui. Não é o tempo que me falta, é o espaço. Eu bem tento empurrar a vida toda para dentro do vazio que há em mim. A verdade é que sobeja mais para vivê-la do que para escrevê-la. Quando me sento para dizer como foi não me lembro bem, só ficou a ideia de que foi muito bom. Ou muito mau, conforme os dias.

8.11.05

Superstição ao fim do dia

É coisa rara hoje usarem-se termos da mitologia clássica. É coisa rara eu comprar um livro do Saramago. É coisa rara encontrarem-se livros do Aquilino Ribeiro, pois a Bertrand deixa-os esgotar e não os reedita, ou pelo menos é o que parece. Agora somadas todas estas raridades vejam o que é esta coisa notável. Fui hoje a uma livraria, porque por acaso se atrasou a hora de uma reunião. Andando pelo rodapé de uma estante dou de caras com um livro raro do Aquilino de que nunca tinha ouvido falar: «De Meca a Freixo de Espada à Cinta». Entretanto, andava ao rabusco por outra estante, ouço alguém perguntar o «tem cá o último livro do Saramago». Em suma, comprei o Aquilino mais o Saramago e mais uns tantos outros. Como tinha tempo fui plantar-me num café a folhear. O do Aquilino tinha uma dedicatória, em estilo de prefácio, «ao Dr. Heliodoro Caldeira, Grande Advogado, meu Patrono em Negros Delitos». Talvez por isso avancei curioso pelo prefácio, onde a linhas tantas de tal o autor do «Romance da Raposa» se põe a falar de um encerramento de uma urna de chumbo a que assistira. E a respeito escreve assim: «Vieram os alfaiates de cangalheiro e num ápice, um deles, com tesoira grande e indiferente como deve ser a de Átropos (...), etc., etc.». Visto o aquiliano prefácio, que é curto, guardando o livro para quando tiver tempo, atirei-me ao Saramago, o de «As Intermitências da Morte», a propósito de quem, ao lê-lo, me perdoo o mal que já pensei dele e o que venha a pensar no futuro e li ali: «A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivese resolvido embainhar a tesoura por um dia». Enfim, talvez seja melhor eu hoje ter cuidado comigo: um prefácio sobre um cangalheiro, um livro sobre a morte e tanto acaso junto sobre o ente que corta o fio da vida, é caso para regressar a casa e trancar-me dentro de um armário, à espera que chegue, enfim, o dia de amanhã. É que duas vezes numa mesma tarde tropeçar na palavra átropos, é demais para a minha esperança de vida!

7.11.05

Textos locais

Fui ontem lá jantar e à saída, com a amabilidade discreta de quem até no oferecer é amigo, estendeu-me o livro: tinha tido uma modesta tiragem de trezentos exemplares, em oitavo, em 1967, impresso modestamente em Alcobaça. São os «Textos Locais» do Luiz Pacheco, de seu nome completo Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco. Tenho-os aqui comigo. É um livro triste, como esta tarde fria, em que se sai à rua só mesmo para nos apetecer voltar para casa. Num post-facio à obra Serafim Ferreira chama a Pacheco «uma alma sem inquilinos». É uma boa definição; no caso, porém, uma alma por alugar, sem escritos na janela.

6.11.05

Um sol amigável

Tentei ler mais umas folhas do «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira. O meu exemplar original ficou numa dessas casas esquecidas do meu passado. Encontrei este numa livraria envelhecida, daquelas que vendem obras em segunda mão. O livro cheira a mofo. Os detractores do autor dizem que ele também cheirava a mofo. Os que me virem a ler e a escrever sobre o que leio, talvez concluam que eu próprio estou contaminado pelo mofo desta literatura. Mas enfim, tentei ler mas ao cruzar-me com aquela frase «alguém tem de andar só, para andarem os outros acompanhados» fui-me abaixo. O dia na rua está belíssimo, temos todos um sol morno e amigável por companhia.

3.11.05

Vontade de ler

Quando se não tem muito tempo e se tem muita vontade de ler, lê-se muita coisa ao mesmo tempo, para ficar a ilusão de que se lê mais. Há largas semanas atrás disse por aqui que andava a ler o segundo dos dois livros que escreveu a Dulce Cardoso e disse, ou dei a entender, que notável era esse livro. Talvez não tenha dito, por pudor, quanto dói a sua leitura. Hoje voltei a ele. Já vou na página 260 das 349 que ele tem. Cada vez que o retomo, vou à procura de um lápis, pois rara é a página onde não há algo a sublinhar. Estive há momentos, antes de vir aqui a olhar para um desses sublinhados, o da frase «não há nada que o silêncio não mate». Não sei se consiga voltar a ele. Pelo menos hoje não. O livro chama-se «Os meus sentimentos». Talvez por isso.

2.11.05

Passar a limpo

A Assírio & Alvim acaba de editar, num formato basto esquisito, mais um livro do Alexandre O'Neill, onde vem um poema que, ou muito me engano, e para isso tinha de me alçar daqui até à longínqua estante, ou não vem nas «Poesias Completas», que, a ser assim, completas é que não são. E num desses poemas leio um «...que quereis vós, todos vós, ó meus heróis da segunda hora?» que assim continua: «reentrai no sossego, deixai as folhinhas dormidas nos arquivos, deixai os vivos desenterrar os vivos, que esses, sim, deram o corpo ao manifesto, sem saberem, muitas vezes, o Manifesto de cor!».