
«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.
A tragédia do Ocidente é ser Poente

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.
Manuel Fernandes Laranjeira compôs em 1908 um «Diário Íntimo» onde anotou que, afinal, a alma é uma víscera ruim. Pouco antes do regicídio escreveu uma série de artigos, que Luiz Pacheco viria a editar-lhe, em trezentos modestos exemplares, na Contraponto. São notas soltas sobre o «pessimismo nacional», sobre as «quadrilhas messiânicas», sobre a «enfermidade congénita» dos portugueses, maleita que é um sintoma alarmante «de uma doença infecciosa grave», toda «de natureza parasitária». Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho no dia 22 de Fevereiro de 1912, com um tiro na cabeça, como era inevitável. Dele disse Miguel de Unamuno que «a vida o matou e ele deu vida à morte», como à de Portugal uma «Nação morta destinada a ser devorada pelas Nações vivas». Numa carta a Amadeo de Souza-Cardoso, Laranjeira, médico, diagnosticou a sua doença, a dos que sentem «morrer a vida» por não talhar a vida ao seu ideal.
A referência vem aqui, num artigo sobre a adaptação ao cinema de histórias previamente contadas em livro. Uma das graças é que «no livro as imagens são sempre melhores do que no cinema». Mas o que me ficou foi a menção a Tchekov, quando, a propósito ainda do teatro, dizia, a propósito dos tempos cénicos, que se há uma arma na primeira cena, ela tem que ser disparada na segunda. A atentar em algumas peças de teatro, o risco é serem disparadas sim, mas da plateia sobre o palco. O mesmo se diga do cinema, mas com menos sucesso.
Eu sei que esta semana fez anos que nasceu a Floberla Espanca, que nasceu em Dezembro e em Dezembro quis morrer. Hoje, já longe da data, tenho comigo apenas um livro de contos que ela escreveu e peço-lhe ajuda para poder ter algo de digno a dizer. É pena, porque como disse a Ivette Kace Centeno, que prefaciou uma sua edição, «incomoda nos contos o fácil dos estereótipos». Mas nem tudo é mau neste momento residual de lembrar a tragédia de uma vida. É que nesse livro e nesse «prefácio», que melhor se chamaria de introdução, é lembrado um momento do seu «Diário do Último Ano» aquele em que Florbela configura a eventualidade de, quando enfim morrer, alguém ler aqueles seus «descosidos monólogos» e assim «realize o que eu não pude: conhecer-me». Por mim tentei, sem ser capaz e vim aqui dizê-lo, assim alguém me ajude.