8.3.06

Pessoa até amanhã

E de repente um filho pergunta-nos se temos alguma coisa sobre os heterónimos do Fernando Pessoa, porque tem teste e é já amanhã de tarde. E talvez saia o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos, ou o Caeiro. E qual deles era o pastor e se tu pensas que eu agora consigo ler isto tudo e a professora já falou nisso, o que é isso do Livro do Desassossego. Por momentos fica-se suspenso, sem saber bem o que dizer ou fazer. Todo o Pessoa até amanhã, mas pai, não te rales muito é só uma pergunta. Olha este livro é porreiro, explica tudo em cinco folhas, já me podias ter dito que tinhas isto, bolas!

7.3.06

Literatura comestível

Compro livros, começo a lê-los, vejo outros, inicio-os, volto aos primeiros, retomo os segundos, esqueço-me onde ia, compro mais. Se tudo isto não faz de mim, a curto prazo, um homem culto, erudito, sábio mesmo, naquele sentido desnorteado do termo, em que as conversas se encadeiam, desconexas, umas nas outras e há sempre uma ideia ou uma história a propósito de tudo, não sei como lá chegarei. Hoje emprestaram-me mais um desses milhentos livros que são o meu farnel, porque se aperceberam do ar glutão com que eu o devorava, na casa de onde veio. «Basta que um livro seja possível para que exista» escrevera o autor no passo onde eu ia, refastelando-me, regurgitante leitor, na digestão da ideia. Um pedaço depois deram comigo, a boca escancarada, óculos quase caídos no tapete, o livro, a meia-ilharga, aberto sobre o meu ventre ressonante: dormia, profundamente, a alma saciada de leitura.

6.3.06

O ócio e a vagabundagem

Ontem ainda consegui um momento para ouvir uma das entrevistas que Agostinho da Silva deu a Fernando Alves e que andam agora a ser distribuídas em CD. O entrevistador falava-lhe na vadiagem como ócio, o velho sábio respondia-lhe com mil e uma iniciativas com que sonhava ainda e com a sua incessante vagabundagem interior. Depois o entrevistador veio-lhe com a ideia dos desempregados para quem aquele apelo poderia parecer provocatório, Agostinho replicou-lhe que para esses ociosos à força havia outros a trabalhar, pagando-lhes os subsídio. Uma coisa é certa: a espiritualidade peripatética do velho pensador não encontrava meio de se fazer expressar, o pequeno mundo real sempre a atrapalhar-lhe o caminho. Nada como ser-se sábio para se estar sozinho.

O jardim de Deus


«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.

5.3.06

O meu coincidente

Nasci às duas e vinte da manhã. Quando andava na Faculdade descobri um colega que fazia anos exactamente no mesmo dia, viera à luz no mesmo ano e...extraordinária coincidência...à mesma hora. A diferença é que ele surgiu em Sintra eu em Angola. Ele é uma figura conhecida, e não sei gostaria que eu revelasse aqui o nome. Dedica-se à literatura e à cultura em geral e com isso se sustenta. Eu ando pelos tribunais para ganhar para o sustento da família e da literatura que consumo. Espero que quando eu terminar não me ferrem com a biblioteca, vendida a peso, num alfarrabista. De facto, parte dela foi lá que eu a comprei, no vazadouro das heranças dos que não merecem aquele que os antecedeu. Por isso, nas costas dos outros antecipo eu já as minhas. Mas na esperança que esse seja o mundo dos outros, venha de lá mais um livrinho. Hoje não, que é domingo e estou trancado a trabalhar, feito advogado. A partir de segunda-feira, tudo é possível, até o meu coincidente amigo se cruzar comigo entre as estantes de uma livraria de adelo.

4.3.06

A enfermaria da liberdade

Hoje o tempo está chuvoso e frio e eu estou na masmorra dos meus trabalhos forçados, sem tempo para ler ou para pensar, sem jeito sequer para sentir. Olho para a grilheta que me prende ao lugar do meu cativeiro, para a chave que tenho em cima da mesa, para a teimosia orgulhosa que faz com que não me liberte e aflijo-me comigo. No lugar em frente da minha janela há um hospital, que nem pejado de doentes está, mas com a meia-dúzia a quem o azar de uma maleita libertou desta sorte. Lamentam-se na breve hora da visita, recontando os seus achaques e a indiferença dos que os tratam. Os saudáveis familiares e alguns amigos que os visitam, deixadas as bolachas, a água mineral, uma ou outra flor e revistas idiotas compradas enfastiadamente para os entreter, raspam-se à formiga com um «então as melhoras», assustados de um dia, eles também, poderem espojar-se naqueles lençóis, estirando as pernas e tremelicando os dedos dos pés, num sábado de chuva, com a liberdade de quem fica na cama, sem ter para onde ir, ou mais que fazer.

O Rebelo da Silva em marcha

O «blog» sobre o Luiz Augusto Rebelo da Silva começou, enfim, a mover-se com a lembrança tristonha do local onde viveu e a rememoração risonha do que dele disse Ramalho Ortigão.

3.3.06

A grande tentação

Não é a minha faceta saturnina, é só porque a tentação foi grande. Chama-se «O Culto do Oculto» e é um novo blog. Como já havia poucos...

O grisol

O homem explicou-me como era na ilha de Jersey. Fiquei a saber como gostava do coletinho que vestia por cima da camisa, as casas bem aquecidas por dentro, as pessoas indiferentes ao frio da rua. Claro, imaginei, que é um paraíso fiscal e aí vive-se à grande. Só que, no caso dele, trabalhava lá numa pizzeria, era a farda dos empregados, hoje guiava um táxi. «O senhor parece que está com frio», perguntou-me, como quem afirma, ao ver-me tão embuçado. «Não», respondi-lhe entre dentes, «estou é com arrepios!». É do «grisol» rematou ele, no vocabulário portuga que não há ilha de Jersey que nos seque na língua.

A luz e as sombras

Vivendo em «O Mundo das Sombras», numa total imobilidade, resolvi acender-lhe a luz.

2.3.06

Uma barrela total

Andavam a distribuir pelas ruas em folhetos. Anunciavam uma «limpeza espiritual», a qual lavaria a alma contra todas as maleitas. Ora eu que vinha a matutar quando é que teria tempo de levar o carro à lavagem automática, talvez me tente. Não sei se também aspiram por dentro, porque no meu caso, com o lixo que se vai acumulando no dia-a-dia, bem precisava. E já agora mudavam-me o óleo e alinhavam-me a direcção que em certos dias sinto da vida o volante a fugir.

1.3.06

Rápida, a sombra

Hoje acordei com a notícia que se perfaziam dez anos que faleceu o Vergílio Ferreira. E eu que, pacientemente estou a reconstituir a biblioteca com os seus livros, e a lê-los vagarosamente pelos cantos, vivi o dia todo com a urgência de vir aqui deixar ao menos uma palavra de lembrança. Uma sua amiga disse, a esse respeito, que se deve ter deixado morrer. Pressentia-se isso mesmo em cada página da sua «Conta-Corrente», esse diário que teimava em manter. Toda a sua obra é precisamente o anúncio desse momento de agonia e de solidão. «Não me dói o morrer (...). O que me custa é ter vida a sacrificar, vivi tudo o que é possível nas vidas», escreveu em «Rápida, a sombra».

28.2.06

O estado de sítio

Acabo de descobrir a solução para a agonia das minhas obrigações incumpridas! Anulo a diferença entre o dia e a noite, entre os dias de trabalho e os de descanso, entre a hora das refeições e a das digestões. Mas posso ainda mais: anulo a diferença entre o racional e o emotivo, o humano e o animalesco. Com um esforço mais, passo do vivo ao vegetativo e por fim ao mineral. Num lance final, transmuto-me de sólido em líquido e finalmente em gasoso. Quando finalmente for só um halo de energia, uma poeira no cosmos, tento fazer tudo outra vez. Talvez dê em rural pastor de erráticos rebanhos ou em vendedor urbano de cautelas de lotarias. Encantar-me com o sol poente ou enfeitiçar-me na ilusão da sorte grande, tudo serve se for essa a solução. A inevitabilidade dos deveres de amanhã, isso é que não! Não só me agoniam, dão-me mesmo vontade de vomitar.

27.2.06

Interpretação consoladora

Com a mania de andar por tudo quanto é alfarrabista, como quem anda ao trapo ou ao ferro-velho, encontro, por vezes, momentos de insólito e de confronto com a minha própria mania. Exprimiu-se desta vez a loucura coleccionadora na forma de um livrinho encadernado que na magra lombada mais não tinha do que umas iniciais: «V.S.». Era, afinal, a compilação de modestos estudos de um professor liceal, chamado Vítor Santos, do Redondo. Textos minúsculos, editados entre 1926 e 1945, eles iam desde uns aforismos a uma novela, incluindo uma compilação de detalhes sobre a sua terra e uma conferência no Ateneu de despedida dos seus alunos. Não sei porque o comprei, arriscando doze euros, que bem podiam ter trazido dois Camilos na edição popular, de tal modo tudo aquilo é desesperadamente humilde. Consolo-me ao menos, porque um dos pensamentos, do folheto «Ditos e feitos, mal ditos e mal feitos», reza que «isto de doidos ou de ajuizados é só uma questão de interpretação». Ao menos isso, porque já ninguém me aceita o livro de volta e nem eu, que daqui o olho carinhosamente, sei o que haverá nele para ler.

26.2.06

Borges, sem porquê

Ando a reconciliar-me com os meus preconceitos, alguns muito estúpidos, quase todos irracionais. Um deles foi detestar, sem saber porquê, o Jorge Luís Borges, sem nunca o ter lido, recusando-me a lê-lo, entretendo-me em irritar-me logo aquela sua figura, talvez porque de Saramago, ou pela María Kodama, sua eterna bengala. Não sei!. Confesso agora aquilo que sei me envergonha, a infâmia de nem tudo em mim ser inteligente, nem belo, nem motivado por nobres razões. A controvérsia de mim comigo mesmo, que se passa toda na minha cabeça e me salga, corroendo-mo, o coração, é isto mesmo. Mas há uns dias decidi-me. Estou extasiado!. Tive a sorte de começar por um estudo filosófico sobre a eternidade, cuja leitura compartilho com a «Biblioteca Pessoal». É o mundo da palavra maravilhosa, das ideias surpreendentes. Não sei como tudo isto aconteceu em mim. Leio-o agora ao Borges, devoradamente. «La rosa es sin porqué», escreve ele, citando Angelus Silesius, que nasceu em 1624. Tantos séculos se volveram sobre esta palavra, poderia ter sido escrita esta manhã.

Os blogs de JAB

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.

25.2.06

O entre-choque

Há um método de postergação infinita e indefinida que é no tantrismo o retardamento do orgasmo, na música de Wagner o adiamento do clímax final, na novela policial o entreter até à descoberta da chave do enigma. Há um método contrário a esse, que é o de viver encurtando o tempo, como se o tempo nos faltasse, confinando o espaço como se toda a terra nos fosse estrangeira. Aprendi o primeiro na arte poética, o segundo na vida prática. Um dia entrechocam-se e tudo acaba, a eternidade no instantâneo.

24.2.06

Uma vida que já foi

Foi hoje, descia eu a rua, indiferente a que fosse aquela, alheio ao que ia fazer. E de repente um estranho pensamento acometeu-me, insólito, inesperado, sem lógica com o lugar ou propósito com o momento. Hoje, nesssa rua, uma qualquer rua de um qualquer lugar de um momento qualquer, dei comigo a pensar que em breve já não tenho 56 anos de idade, mas sim 57. São terríveis os números. Na sua simbologia oculta deles ressaltam pressentimentos trágicos, como se na sua ordem abstracta eles fossem uma forma de o futuro nos surgir, premonitório, na forma de presente. Todos temos, inconscientemente, a idade-limite além da qual já nos imaginamos possíveis. Em jovem, na adolescência quando desponta a barba e com ela os primeiros amores, era a melancolia solitária de não me supor além dos 35. E, no entanto, se invertesse os dígitos de um tal numeral, com optimismo e saúde, que nessa altura não nos faltam, podia projectar-me aos 53. Ah! mas hoje ainda, nesta madrugada em que escrevo, tenho 56 anos de uma idade em que, aplicando a mesma regra, não me inquieta a plausibilidade de chegar aos 65, só porque é possível o tempo suficiente para lá chegar. Só que dentro de umas semanas, a menos de um mês, com 57 anos, colocar-se-me-á, definitiva e inexorável, a aposta de mim com a minha subsistência, a agonia do será que chegarei aos 75. Foi hoje, descia eu a rua, uma rua qualquer, que esse estranho sentimento de me despedir do que rodeia surgiu, a meu lado como se fosse a minha sombra, esse reflexo difuso de uma vida que já foi. Quando tiver 61, volto a pensar no assunto, na esperança de então, reconciliado com o mundo e pacificado comigo, ter ainda a esperança de recomeçar.

23.2.06

Um outro santo Agostinho

Agora que por causa do centenário todos falam do Agostinho da Silva e eu, amarrado, qual burro cego, à nora da quinta, mal tenho tempo de ler, deixem-me só trazer aqui dois momentos de fina ironia que com ele se relacionam. Um, quando Antónia de Sousa o entrevistou para o que viria a ser um livro e abriu a conversa com a natural pergunta «creio que o professor Agostinho da Silva tem oitenta anos, não é?» e ele respondeu «eu também creio»!; outro, que é uma frase sua que, desdobrando-se em duas, vem citada por Artur Manso num ensaio sobre a sua vida e obra e que eu gostaria de tornar em ideal de vida: «não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total. Na realidade não estou interessado em coisa alguma; sim, porém, em viver».

21.2.06

A porta aberta

Anda tudo gazeado no ciber-espaço. Os «blogs» colectivos são como as famílias irritadiças: pegam-se pelo que um diz, e pelo que o outro devia ter dito pegam-se também. Uns batem com a porta da rua e, ainda estão os outros atónitos com o estrondo, re-entram, façanhudos, para num grito final, despejado para os de dentro e, antes de zarparem de vez, se sairem com um: «e obrigadinho pelo que fizeram, ouviram?» O seu drama é o ridículo de saberem que normalmente ninguém ouviu e a vida sem eles seguir como dantes. Há só uma espécie que me faz pena: a dos inteligentes que, num momento de zanga consigo, esgotados de um esforço recente ou furibundos por não se reconhecerem agora naquilo que já foram, implicam por tudo e irritam-se com nada. Quanto a esses o melhor é nem se ligar. Basta deixar a porta aberta. Não é que eles voltem, é só para que não se gabem de terem sido expulsos.