11.3.06

Calor tropical

Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no café central, o seu café. Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.

A hipnose e o apetite

O fascínio hipnótico que os velhos exercem nos jovens é terem uma vida para contar, que a estes apeteceria viver. A ilusão que os velhos vivem, contando a sua vida aos jovens, é apetecer-lhes terem uma vida como a deles, que os fascina, hipnotizando-os. No fundo é uma alegria fugaz, como um dia de sol na manhã de um reformado.

9.3.06

Os apanha bolas

Imagine-se que diz o «Diário da República» de hoje que «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.o 5 do artigo 166.o da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que legisle no sentido de estabelecer um código de boas práticas ambientais aplicáveis a campos de golfe». Imagine-se o Parlamento a perder tempo e a meter-se nestas recomendações ao Governo. É caso para dizer: mas que grande tacada!

8.3.06

Um cão

Naqueles pequenos dias em que se anoitece pela hora de acordar, em que se sonha diurnamente o que se não dormiu, um homem sorri-se do que os outros choram e lamenta-se da paciência que não perdeu. Na minha rua há um cão com isso parecido e de mim semelhante. Ladramos à vida que passa e à lua cheia que haverá de chegar. No mais, vagueamos, nocturnos e vigilantes, do resto indiferentes.

Pessoa até amanhã

E de repente um filho pergunta-nos se temos alguma coisa sobre os heterónimos do Fernando Pessoa, porque tem teste e é já amanhã de tarde. E talvez saia o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos, ou o Caeiro. E qual deles era o pastor e se tu pensas que eu agora consigo ler isto tudo e a professora já falou nisso, o que é isso do Livro do Desassossego. Por momentos fica-se suspenso, sem saber bem o que dizer ou fazer. Todo o Pessoa até amanhã, mas pai, não te rales muito é só uma pergunta. Olha este livro é porreiro, explica tudo em cinco folhas, já me podias ter dito que tinhas isto, bolas!

7.3.06

Literatura comestível

Compro livros, começo a lê-los, vejo outros, inicio-os, volto aos primeiros, retomo os segundos, esqueço-me onde ia, compro mais. Se tudo isto não faz de mim, a curto prazo, um homem culto, erudito, sábio mesmo, naquele sentido desnorteado do termo, em que as conversas se encadeiam, desconexas, umas nas outras e há sempre uma ideia ou uma história a propósito de tudo, não sei como lá chegarei. Hoje emprestaram-me mais um desses milhentos livros que são o meu farnel, porque se aperceberam do ar glutão com que eu o devorava, na casa de onde veio. «Basta que um livro seja possível para que exista» escrevera o autor no passo onde eu ia, refastelando-me, regurgitante leitor, na digestão da ideia. Um pedaço depois deram comigo, a boca escancarada, óculos quase caídos no tapete, o livro, a meia-ilharga, aberto sobre o meu ventre ressonante: dormia, profundamente, a alma saciada de leitura.

6.3.06

O ócio e a vagabundagem

Ontem ainda consegui um momento para ouvir uma das entrevistas que Agostinho da Silva deu a Fernando Alves e que andam agora a ser distribuídas em CD. O entrevistador falava-lhe na vadiagem como ócio, o velho sábio respondia-lhe com mil e uma iniciativas com que sonhava ainda e com a sua incessante vagabundagem interior. Depois o entrevistador veio-lhe com a ideia dos desempregados para quem aquele apelo poderia parecer provocatório, Agostinho replicou-lhe que para esses ociosos à força havia outros a trabalhar, pagando-lhes os subsídio. Uma coisa é certa: a espiritualidade peripatética do velho pensador não encontrava meio de se fazer expressar, o pequeno mundo real sempre a atrapalhar-lhe o caminho. Nada como ser-se sábio para se estar sozinho.

O jardim de Deus


«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.

5.3.06

O meu coincidente

Nasci às duas e vinte da manhã. Quando andava na Faculdade descobri um colega que fazia anos exactamente no mesmo dia, viera à luz no mesmo ano e...extraordinária coincidência...à mesma hora. A diferença é que ele surgiu em Sintra eu em Angola. Ele é uma figura conhecida, e não sei gostaria que eu revelasse aqui o nome. Dedica-se à literatura e à cultura em geral e com isso se sustenta. Eu ando pelos tribunais para ganhar para o sustento da família e da literatura que consumo. Espero que quando eu terminar não me ferrem com a biblioteca, vendida a peso, num alfarrabista. De facto, parte dela foi lá que eu a comprei, no vazadouro das heranças dos que não merecem aquele que os antecedeu. Por isso, nas costas dos outros antecipo eu já as minhas. Mas na esperança que esse seja o mundo dos outros, venha de lá mais um livrinho. Hoje não, que é domingo e estou trancado a trabalhar, feito advogado. A partir de segunda-feira, tudo é possível, até o meu coincidente amigo se cruzar comigo entre as estantes de uma livraria de adelo.

4.3.06

A enfermaria da liberdade

Hoje o tempo está chuvoso e frio e eu estou na masmorra dos meus trabalhos forçados, sem tempo para ler ou para pensar, sem jeito sequer para sentir. Olho para a grilheta que me prende ao lugar do meu cativeiro, para a chave que tenho em cima da mesa, para a teimosia orgulhosa que faz com que não me liberte e aflijo-me comigo. No lugar em frente da minha janela há um hospital, que nem pejado de doentes está, mas com a meia-dúzia a quem o azar de uma maleita libertou desta sorte. Lamentam-se na breve hora da visita, recontando os seus achaques e a indiferença dos que os tratam. Os saudáveis familiares e alguns amigos que os visitam, deixadas as bolachas, a água mineral, uma ou outra flor e revistas idiotas compradas enfastiadamente para os entreter, raspam-se à formiga com um «então as melhoras», assustados de um dia, eles também, poderem espojar-se naqueles lençóis, estirando as pernas e tremelicando os dedos dos pés, num sábado de chuva, com a liberdade de quem fica na cama, sem ter para onde ir, ou mais que fazer.

O Rebelo da Silva em marcha

O «blog» sobre o Luiz Augusto Rebelo da Silva começou, enfim, a mover-se com a lembrança tristonha do local onde viveu e a rememoração risonha do que dele disse Ramalho Ortigão.

3.3.06

A grande tentação

Não é a minha faceta saturnina, é só porque a tentação foi grande. Chama-se «O Culto do Oculto» e é um novo blog. Como já havia poucos...

O grisol

O homem explicou-me como era na ilha de Jersey. Fiquei a saber como gostava do coletinho que vestia por cima da camisa, as casas bem aquecidas por dentro, as pessoas indiferentes ao frio da rua. Claro, imaginei, que é um paraíso fiscal e aí vive-se à grande. Só que, no caso dele, trabalhava lá numa pizzeria, era a farda dos empregados, hoje guiava um táxi. «O senhor parece que está com frio», perguntou-me, como quem afirma, ao ver-me tão embuçado. «Não», respondi-lhe entre dentes, «estou é com arrepios!». É do «grisol» rematou ele, no vocabulário portuga que não há ilha de Jersey que nos seque na língua.

A luz e as sombras

Vivendo em «O Mundo das Sombras», numa total imobilidade, resolvi acender-lhe a luz.

2.3.06

Uma barrela total

Andavam a distribuir pelas ruas em folhetos. Anunciavam uma «limpeza espiritual», a qual lavaria a alma contra todas as maleitas. Ora eu que vinha a matutar quando é que teria tempo de levar o carro à lavagem automática, talvez me tente. Não sei se também aspiram por dentro, porque no meu caso, com o lixo que se vai acumulando no dia-a-dia, bem precisava. E já agora mudavam-me o óleo e alinhavam-me a direcção que em certos dias sinto da vida o volante a fugir.

1.3.06

Rápida, a sombra

Hoje acordei com a notícia que se perfaziam dez anos que faleceu o Vergílio Ferreira. E eu que, pacientemente estou a reconstituir a biblioteca com os seus livros, e a lê-los vagarosamente pelos cantos, vivi o dia todo com a urgência de vir aqui deixar ao menos uma palavra de lembrança. Uma sua amiga disse, a esse respeito, que se deve ter deixado morrer. Pressentia-se isso mesmo em cada página da sua «Conta-Corrente», esse diário que teimava em manter. Toda a sua obra é precisamente o anúncio desse momento de agonia e de solidão. «Não me dói o morrer (...). O que me custa é ter vida a sacrificar, vivi tudo o que é possível nas vidas», escreveu em «Rápida, a sombra».

28.2.06

O estado de sítio

Acabo de descobrir a solução para a agonia das minhas obrigações incumpridas! Anulo a diferença entre o dia e a noite, entre os dias de trabalho e os de descanso, entre a hora das refeições e a das digestões. Mas posso ainda mais: anulo a diferença entre o racional e o emotivo, o humano e o animalesco. Com um esforço mais, passo do vivo ao vegetativo e por fim ao mineral. Num lance final, transmuto-me de sólido em líquido e finalmente em gasoso. Quando finalmente for só um halo de energia, uma poeira no cosmos, tento fazer tudo outra vez. Talvez dê em rural pastor de erráticos rebanhos ou em vendedor urbano de cautelas de lotarias. Encantar-me com o sol poente ou enfeitiçar-me na ilusão da sorte grande, tudo serve se for essa a solução. A inevitabilidade dos deveres de amanhã, isso é que não! Não só me agoniam, dão-me mesmo vontade de vomitar.

27.2.06

Interpretação consoladora

Com a mania de andar por tudo quanto é alfarrabista, como quem anda ao trapo ou ao ferro-velho, encontro, por vezes, momentos de insólito e de confronto com a minha própria mania. Exprimiu-se desta vez a loucura coleccionadora na forma de um livrinho encadernado que na magra lombada mais não tinha do que umas iniciais: «V.S.». Era, afinal, a compilação de modestos estudos de um professor liceal, chamado Vítor Santos, do Redondo. Textos minúsculos, editados entre 1926 e 1945, eles iam desde uns aforismos a uma novela, incluindo uma compilação de detalhes sobre a sua terra e uma conferência no Ateneu de despedida dos seus alunos. Não sei porque o comprei, arriscando doze euros, que bem podiam ter trazido dois Camilos na edição popular, de tal modo tudo aquilo é desesperadamente humilde. Consolo-me ao menos, porque um dos pensamentos, do folheto «Ditos e feitos, mal ditos e mal feitos», reza que «isto de doidos ou de ajuizados é só uma questão de interpretação». Ao menos isso, porque já ninguém me aceita o livro de volta e nem eu, que daqui o olho carinhosamente, sei o que haverá nele para ler.

26.2.06

Borges, sem porquê

Ando a reconciliar-me com os meus preconceitos, alguns muito estúpidos, quase todos irracionais. Um deles foi detestar, sem saber porquê, o Jorge Luís Borges, sem nunca o ter lido, recusando-me a lê-lo, entretendo-me em irritar-me logo aquela sua figura, talvez porque de Saramago, ou pela María Kodama, sua eterna bengala. Não sei!. Confesso agora aquilo que sei me envergonha, a infâmia de nem tudo em mim ser inteligente, nem belo, nem motivado por nobres razões. A controvérsia de mim comigo mesmo, que se passa toda na minha cabeça e me salga, corroendo-mo, o coração, é isto mesmo. Mas há uns dias decidi-me. Estou extasiado!. Tive a sorte de começar por um estudo filosófico sobre a eternidade, cuja leitura compartilho com a «Biblioteca Pessoal». É o mundo da palavra maravilhosa, das ideias surpreendentes. Não sei como tudo isto aconteceu em mim. Leio-o agora ao Borges, devoradamente. «La rosa es sin porqué», escreve ele, citando Angelus Silesius, que nasceu em 1624. Tantos séculos se volveram sobre esta palavra, poderia ter sido escrita esta manhã.

Os blogs de JAB

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.