15.3.06

Trabalho inútil

Ainda do Alçada Baptista, é dele uma resposta curiosa quando lhe perguntaram se tinha inimigos. Disse que não, explicando que isso de ter inimigos é uma coisa que dá muito trabalho. Só por isso, nem vale a pena.

14.3.06

Os paus de fora

Num livro de que eu já por aqui falei, feito de pequenos nadas em breves crónicas, o José Rodrigues Miguéis, que foi advogado até se fartar, e fartou-se depressa, com escritório improvisado na Rua do Coliseu dos Recreios, local muito a propósito para um advogado ter escritório, precisamente por causa da ironia dos recreios, nesse livro, dizia eu, que a esta hora da noite já me perco no que ia para dizer, e que chama «O espelho poliédrico», contava, numa prosa chamada «Lembranças em Estilhaços», umas larachas que diz ter escutado ao Teixeira de Pascoaes. Em uma delas era acerca dos tiques gastronómicos dos homens de letras que, ao contrário do que se supõe dos vates, que se imaginam alimentados a ambrósia e néctar, como os deuses no Olimpo, fala do Leonardo Coimbra. «O Leonardo [...] batia-nos a todos. Era capaz de comer um boi, começando pelo rabo, e só lhe deixava os paus de fora, para arremeter contra a filosofia». Ora aí está um excerto que, precisamente por eu já ter jantado um tão diminuto bacalhau com batatas e há tanto tempo, trancado que estou a trabalhar, me faz compará-lo com os que, na vida em geral, se alimentam a peixe, e deixam as espinhas na beira do prato.

11.3.06

O Catador de Histórias

Chamei-lhe «O Catador de Histórias». Era para nele contar histórias do quotidiano, mas fiquei semanas sem o actualizar. Hoje não é que me tenha vindo a inspiração, vieram sim, os remorsos. Estou lá eu e outros como eu.

A morte como evasiva

Encontrei-o, encardernado a carneira, ornada a lombada com filetes a ouro, um livrinho modesto dedicado e por isso chamado «Os amores e os ciúmes e a graça de Camilo». Foi publicado no ano terrível de 1939, em que a II Guerra Mundial começou. O autor, António Cabral, hoje ignorado, começou com o «Ó Fábia que foste Fábia», uma peça em três actos e seis quadros, em verso , representado pelo curso do 5º ano jurídico de 1885, e continuou com uma série de outras singelezas. Há pouco nesse livro que se leia, depois da frase com que ele abre, o bilhete que Camilo Castelo Branco escreve, pelas dez da noite de 22 de Novembro de 1886, antes de morrer: «A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o terminus da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e vituoso quem o puder ser». Camilo matou-se, o suicídio uma evasiva. A ideia era nele obsessiva. Perto do Natal do ano anterior escreveu a Trindade Coleho: «Conto com pouca vida; e, se não a encurto, é porque me custa a deixar um filho que lucra alguma coisa com a minha vida». Um dia, evadiu-se do cárcere.

Calor tropical

Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no café central, o seu café. Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.

A hipnose e o apetite

O fascínio hipnótico que os velhos exercem nos jovens é terem uma vida para contar, que a estes apeteceria viver. A ilusão que os velhos vivem, contando a sua vida aos jovens, é apetecer-lhes terem uma vida como a deles, que os fascina, hipnotizando-os. No fundo é uma alegria fugaz, como um dia de sol na manhã de um reformado.

9.3.06

Os apanha bolas

Imagine-se que diz o «Diário da República» de hoje que «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.o 5 do artigo 166.o da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que legisle no sentido de estabelecer um código de boas práticas ambientais aplicáveis a campos de golfe». Imagine-se o Parlamento a perder tempo e a meter-se nestas recomendações ao Governo. É caso para dizer: mas que grande tacada!

8.3.06

Um cão

Naqueles pequenos dias em que se anoitece pela hora de acordar, em que se sonha diurnamente o que se não dormiu, um homem sorri-se do que os outros choram e lamenta-se da paciência que não perdeu. Na minha rua há um cão com isso parecido e de mim semelhante. Ladramos à vida que passa e à lua cheia que haverá de chegar. No mais, vagueamos, nocturnos e vigilantes, do resto indiferentes.

Pessoa até amanhã

E de repente um filho pergunta-nos se temos alguma coisa sobre os heterónimos do Fernando Pessoa, porque tem teste e é já amanhã de tarde. E talvez saia o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos, ou o Caeiro. E qual deles era o pastor e se tu pensas que eu agora consigo ler isto tudo e a professora já falou nisso, o que é isso do Livro do Desassossego. Por momentos fica-se suspenso, sem saber bem o que dizer ou fazer. Todo o Pessoa até amanhã, mas pai, não te rales muito é só uma pergunta. Olha este livro é porreiro, explica tudo em cinco folhas, já me podias ter dito que tinhas isto, bolas!

7.3.06

Literatura comestível

Compro livros, começo a lê-los, vejo outros, inicio-os, volto aos primeiros, retomo os segundos, esqueço-me onde ia, compro mais. Se tudo isto não faz de mim, a curto prazo, um homem culto, erudito, sábio mesmo, naquele sentido desnorteado do termo, em que as conversas se encadeiam, desconexas, umas nas outras e há sempre uma ideia ou uma história a propósito de tudo, não sei como lá chegarei. Hoje emprestaram-me mais um desses milhentos livros que são o meu farnel, porque se aperceberam do ar glutão com que eu o devorava, na casa de onde veio. «Basta que um livro seja possível para que exista» escrevera o autor no passo onde eu ia, refastelando-me, regurgitante leitor, na digestão da ideia. Um pedaço depois deram comigo, a boca escancarada, óculos quase caídos no tapete, o livro, a meia-ilharga, aberto sobre o meu ventre ressonante: dormia, profundamente, a alma saciada de leitura.

6.3.06

O ócio e a vagabundagem

Ontem ainda consegui um momento para ouvir uma das entrevistas que Agostinho da Silva deu a Fernando Alves e que andam agora a ser distribuídas em CD. O entrevistador falava-lhe na vadiagem como ócio, o velho sábio respondia-lhe com mil e uma iniciativas com que sonhava ainda e com a sua incessante vagabundagem interior. Depois o entrevistador veio-lhe com a ideia dos desempregados para quem aquele apelo poderia parecer provocatório, Agostinho replicou-lhe que para esses ociosos à força havia outros a trabalhar, pagando-lhes os subsídio. Uma coisa é certa: a espiritualidade peripatética do velho pensador não encontrava meio de se fazer expressar, o pequeno mundo real sempre a atrapalhar-lhe o caminho. Nada como ser-se sábio para se estar sozinho.

O jardim de Deus


«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.

5.3.06

O meu coincidente

Nasci às duas e vinte da manhã. Quando andava na Faculdade descobri um colega que fazia anos exactamente no mesmo dia, viera à luz no mesmo ano e...extraordinária coincidência...à mesma hora. A diferença é que ele surgiu em Sintra eu em Angola. Ele é uma figura conhecida, e não sei gostaria que eu revelasse aqui o nome. Dedica-se à literatura e à cultura em geral e com isso se sustenta. Eu ando pelos tribunais para ganhar para o sustento da família e da literatura que consumo. Espero que quando eu terminar não me ferrem com a biblioteca, vendida a peso, num alfarrabista. De facto, parte dela foi lá que eu a comprei, no vazadouro das heranças dos que não merecem aquele que os antecedeu. Por isso, nas costas dos outros antecipo eu já as minhas. Mas na esperança que esse seja o mundo dos outros, venha de lá mais um livrinho. Hoje não, que é domingo e estou trancado a trabalhar, feito advogado. A partir de segunda-feira, tudo é possível, até o meu coincidente amigo se cruzar comigo entre as estantes de uma livraria de adelo.

4.3.06

A enfermaria da liberdade

Hoje o tempo está chuvoso e frio e eu estou na masmorra dos meus trabalhos forçados, sem tempo para ler ou para pensar, sem jeito sequer para sentir. Olho para a grilheta que me prende ao lugar do meu cativeiro, para a chave que tenho em cima da mesa, para a teimosia orgulhosa que faz com que não me liberte e aflijo-me comigo. No lugar em frente da minha janela há um hospital, que nem pejado de doentes está, mas com a meia-dúzia a quem o azar de uma maleita libertou desta sorte. Lamentam-se na breve hora da visita, recontando os seus achaques e a indiferença dos que os tratam. Os saudáveis familiares e alguns amigos que os visitam, deixadas as bolachas, a água mineral, uma ou outra flor e revistas idiotas compradas enfastiadamente para os entreter, raspam-se à formiga com um «então as melhoras», assustados de um dia, eles também, poderem espojar-se naqueles lençóis, estirando as pernas e tremelicando os dedos dos pés, num sábado de chuva, com a liberdade de quem fica na cama, sem ter para onde ir, ou mais que fazer.

O Rebelo da Silva em marcha

O «blog» sobre o Luiz Augusto Rebelo da Silva começou, enfim, a mover-se com a lembrança tristonha do local onde viveu e a rememoração risonha do que dele disse Ramalho Ortigão.

3.3.06

A grande tentação

Não é a minha faceta saturnina, é só porque a tentação foi grande. Chama-se «O Culto do Oculto» e é um novo blog. Como já havia poucos...

O grisol

O homem explicou-me como era na ilha de Jersey. Fiquei a saber como gostava do coletinho que vestia por cima da camisa, as casas bem aquecidas por dentro, as pessoas indiferentes ao frio da rua. Claro, imaginei, que é um paraíso fiscal e aí vive-se à grande. Só que, no caso dele, trabalhava lá numa pizzeria, era a farda dos empregados, hoje guiava um táxi. «O senhor parece que está com frio», perguntou-me, como quem afirma, ao ver-me tão embuçado. «Não», respondi-lhe entre dentes, «estou é com arrepios!». É do «grisol» rematou ele, no vocabulário portuga que não há ilha de Jersey que nos seque na língua.

A luz e as sombras

Vivendo em «O Mundo das Sombras», numa total imobilidade, resolvi acender-lhe a luz.

2.3.06

Uma barrela total

Andavam a distribuir pelas ruas em folhetos. Anunciavam uma «limpeza espiritual», a qual lavaria a alma contra todas as maleitas. Ora eu que vinha a matutar quando é que teria tempo de levar o carro à lavagem automática, talvez me tente. Não sei se também aspiram por dentro, porque no meu caso, com o lixo que se vai acumulando no dia-a-dia, bem precisava. E já agora mudavam-me o óleo e alinhavam-me a direcção que em certos dias sinto da vida o volante a fugir.

1.3.06

Rápida, a sombra

Hoje acordei com a notícia que se perfaziam dez anos que faleceu o Vergílio Ferreira. E eu que, pacientemente estou a reconstituir a biblioteca com os seus livros, e a lê-los vagarosamente pelos cantos, vivi o dia todo com a urgência de vir aqui deixar ao menos uma palavra de lembrança. Uma sua amiga disse, a esse respeito, que se deve ter deixado morrer. Pressentia-se isso mesmo em cada página da sua «Conta-Corrente», esse diário que teimava em manter. Toda a sua obra é precisamente o anúncio desse momento de agonia e de solidão. «Não me dói o morrer (...). O que me custa é ter vida a sacrificar, vivi tudo o que é possível nas vidas», escreveu em «Rápida, a sombra».