23.3.06

A terra do nunca

Hoje, como que a demonstrar que chegou a primavera, largou a chover a voltou o frio. Outro dia alguém me disse que ia mudar a hora. Há algum tempo mudou o século. Pergunto-me, pasmado neste mundo de mudança, se não se poderá manter qualquer das coisas que fluem, nesse vogar do nunca para o sempre. Interrompia-se, por exemplo, aquele minuto de ilusão, em que aos dezoito anos eu escrevia versos silenciosos. Ficávamos por aí; nada mais haveria para dizer, ou sequer a quem.

21.3.06

A sagração da primavera

Começa hoje a primavera e eu, aberta a janela do meu quarto, dou comigo como que a desejar que, também na rua, pudesse estar a chover, uma chuva profunda, o céu abatendo-se sobre o mundo, em bátegas desoladas de uma profunda consternação.

19.3.06

Os ressentimentos à solta

Filho és, pai serás, assim como fizeste, assim acharás. O provérbio popular é antigo. Ouvi-o, li-o, nunca lhe liguei importância. E, no entanto, aquela cena estranha da cama vazia do hospital, naquela tarde de visita, como que a acusar-me de tanta omissão, visitou-me esta tarde. É domingo, cada um dos filhos para cada lado, os remorsos a ocuparem o lugar dos afectos, o dia do pai. E, no entanto, eu tinha então vinte anos, melancólicos e solitários. Saí dali e logo ao lado encomendei um enterro, que as agências funerárias rodeiam hospitais como abutres ao cheiro de morto. Por não podermos mais, pedi o mais barato funeral que houvesse, daqueles em que desaparafusam os crucifixos antes de baixar o caixão ao coval, para os aplicarem no próximo que siga. Quando, ao fim da tarde, esperei a minha mãe ao começo da nossa rua, ela compreendeu na minha presença e no meu silêncio, o que havia para entender. O pai do seu filho tinha, enfim, terminado os seus dias. Acompanhando-nos, velámos o corpo essa noite. No dia seguinte a casa estava mais fria. Os ressentimentos, à solta, gelavam-nos a alma.

17.3.06

O estranho sentimento

Subnutrido literariamente, moído de trabalho, sem tempo sequer para um jornal, estendo-me a um qualquer dos livros já semi-lidos que se acumulam abandonados. Um deles, que já dei como terminado quando devo, afinal, recomeçá-lo, são «Os Meus Sentimentos», da Dulce Cardoso. Outro dia, um qualquer crítico literário dizia do livro ter uma capa algo como ridícula. Senti, ao ofender-me com isso, que lhe tinha ganho amor, aquele estranho sentimento de um leitor pelo seu autor.

16.3.06

Uma cópia do que foi

Em tempos tive um blog a que chamei «O Mundo em Gavetas». Num repente, apaguei-o. Graças à amizade, recuperou-se um cópia. Seria ridículo que, arrependido do acto, o repusesse no ar: tal como as emissões de rádio, que se perdem no éter, a escrita desvanece-se no espaço sideral dos afectos. Mas aqui e além surgirão alguns dos seus momentos: não pelo que significaram então, mas pelo que simbolizam hoje, poeira cósmica no mundo do sentir.

Escrita de sobrevivência

Esta escrita, tal como a vida que ela parasita, tem com os cogumelos uma extraodinária semelhança: vegeta no escuro e alimenta-se de putrefacção. Literatura excrementária, é frequentemente venenosa, por vezes alucinogénica. Pior ainda, espraia-se como tortulhos, prolifera como míscaros, nos cascos podres das árvores. Ela simboliza o que não há, supre o que falta, simula o que existe. A sua ontologia é uma mitologia, a de que escrevendo, sobrevivo.

15.3.06

Trabalho inútil

Ainda do Alçada Baptista, é dele uma resposta curiosa quando lhe perguntaram se tinha inimigos. Disse que não, explicando que isso de ter inimigos é uma coisa que dá muito trabalho. Só por isso, nem vale a pena.

14.3.06

Os paus de fora

Num livro de que eu já por aqui falei, feito de pequenos nadas em breves crónicas, o José Rodrigues Miguéis, que foi advogado até se fartar, e fartou-se depressa, com escritório improvisado na Rua do Coliseu dos Recreios, local muito a propósito para um advogado ter escritório, precisamente por causa da ironia dos recreios, nesse livro, dizia eu, que a esta hora da noite já me perco no que ia para dizer, e que chama «O espelho poliédrico», contava, numa prosa chamada «Lembranças em Estilhaços», umas larachas que diz ter escutado ao Teixeira de Pascoaes. Em uma delas era acerca dos tiques gastronómicos dos homens de letras que, ao contrário do que se supõe dos vates, que se imaginam alimentados a ambrósia e néctar, como os deuses no Olimpo, fala do Leonardo Coimbra. «O Leonardo [...] batia-nos a todos. Era capaz de comer um boi, começando pelo rabo, e só lhe deixava os paus de fora, para arremeter contra a filosofia». Ora aí está um excerto que, precisamente por eu já ter jantado um tão diminuto bacalhau com batatas e há tanto tempo, trancado que estou a trabalhar, me faz compará-lo com os que, na vida em geral, se alimentam a peixe, e deixam as espinhas na beira do prato.

11.3.06

O Catador de Histórias

Chamei-lhe «O Catador de Histórias». Era para nele contar histórias do quotidiano, mas fiquei semanas sem o actualizar. Hoje não é que me tenha vindo a inspiração, vieram sim, os remorsos. Estou lá eu e outros como eu.

A morte como evasiva

Encontrei-o, encardernado a carneira, ornada a lombada com filetes a ouro, um livrinho modesto dedicado e por isso chamado «Os amores e os ciúmes e a graça de Camilo». Foi publicado no ano terrível de 1939, em que a II Guerra Mundial começou. O autor, António Cabral, hoje ignorado, começou com o «Ó Fábia que foste Fábia», uma peça em três actos e seis quadros, em verso , representado pelo curso do 5º ano jurídico de 1885, e continuou com uma série de outras singelezas. Há pouco nesse livro que se leia, depois da frase com que ele abre, o bilhete que Camilo Castelo Branco escreve, pelas dez da noite de 22 de Novembro de 1886, antes de morrer: «A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o terminus da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e vituoso quem o puder ser». Camilo matou-se, o suicídio uma evasiva. A ideia era nele obsessiva. Perto do Natal do ano anterior escreveu a Trindade Coleho: «Conto com pouca vida; e, se não a encurto, é porque me custa a deixar um filho que lucra alguma coisa com a minha vida». Um dia, evadiu-se do cárcere.

Calor tropical

Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no café central, o seu café. Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.

A hipnose e o apetite

O fascínio hipnótico que os velhos exercem nos jovens é terem uma vida para contar, que a estes apeteceria viver. A ilusão que os velhos vivem, contando a sua vida aos jovens, é apetecer-lhes terem uma vida como a deles, que os fascina, hipnotizando-os. No fundo é uma alegria fugaz, como um dia de sol na manhã de um reformado.

9.3.06

Os apanha bolas

Imagine-se que diz o «Diário da República» de hoje que «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.o 5 do artigo 166.o da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que legisle no sentido de estabelecer um código de boas práticas ambientais aplicáveis a campos de golfe». Imagine-se o Parlamento a perder tempo e a meter-se nestas recomendações ao Governo. É caso para dizer: mas que grande tacada!

8.3.06

Um cão

Naqueles pequenos dias em que se anoitece pela hora de acordar, em que se sonha diurnamente o que se não dormiu, um homem sorri-se do que os outros choram e lamenta-se da paciência que não perdeu. Na minha rua há um cão com isso parecido e de mim semelhante. Ladramos à vida que passa e à lua cheia que haverá de chegar. No mais, vagueamos, nocturnos e vigilantes, do resto indiferentes.

Pessoa até amanhã

E de repente um filho pergunta-nos se temos alguma coisa sobre os heterónimos do Fernando Pessoa, porque tem teste e é já amanhã de tarde. E talvez saia o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos, ou o Caeiro. E qual deles era o pastor e se tu pensas que eu agora consigo ler isto tudo e a professora já falou nisso, o que é isso do Livro do Desassossego. Por momentos fica-se suspenso, sem saber bem o que dizer ou fazer. Todo o Pessoa até amanhã, mas pai, não te rales muito é só uma pergunta. Olha este livro é porreiro, explica tudo em cinco folhas, já me podias ter dito que tinhas isto, bolas!

7.3.06

Literatura comestível

Compro livros, começo a lê-los, vejo outros, inicio-os, volto aos primeiros, retomo os segundos, esqueço-me onde ia, compro mais. Se tudo isto não faz de mim, a curto prazo, um homem culto, erudito, sábio mesmo, naquele sentido desnorteado do termo, em que as conversas se encadeiam, desconexas, umas nas outras e há sempre uma ideia ou uma história a propósito de tudo, não sei como lá chegarei. Hoje emprestaram-me mais um desses milhentos livros que são o meu farnel, porque se aperceberam do ar glutão com que eu o devorava, na casa de onde veio. «Basta que um livro seja possível para que exista» escrevera o autor no passo onde eu ia, refastelando-me, regurgitante leitor, na digestão da ideia. Um pedaço depois deram comigo, a boca escancarada, óculos quase caídos no tapete, o livro, a meia-ilharga, aberto sobre o meu ventre ressonante: dormia, profundamente, a alma saciada de leitura.

6.3.06

O ócio e a vagabundagem

Ontem ainda consegui um momento para ouvir uma das entrevistas que Agostinho da Silva deu a Fernando Alves e que andam agora a ser distribuídas em CD. O entrevistador falava-lhe na vadiagem como ócio, o velho sábio respondia-lhe com mil e uma iniciativas com que sonhava ainda e com a sua incessante vagabundagem interior. Depois o entrevistador veio-lhe com a ideia dos desempregados para quem aquele apelo poderia parecer provocatório, Agostinho replicou-lhe que para esses ociosos à força havia outros a trabalhar, pagando-lhes os subsídio. Uma coisa é certa: a espiritualidade peripatética do velho pensador não encontrava meio de se fazer expressar, o pequeno mundo real sempre a atrapalhar-lhe o caminho. Nada como ser-se sábio para se estar sozinho.

O jardim de Deus


«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.

5.3.06

O meu coincidente

Nasci às duas e vinte da manhã. Quando andava na Faculdade descobri um colega que fazia anos exactamente no mesmo dia, viera à luz no mesmo ano e...extraordinária coincidência...à mesma hora. A diferença é que ele surgiu em Sintra eu em Angola. Ele é uma figura conhecida, e não sei gostaria que eu revelasse aqui o nome. Dedica-se à literatura e à cultura em geral e com isso se sustenta. Eu ando pelos tribunais para ganhar para o sustento da família e da literatura que consumo. Espero que quando eu terminar não me ferrem com a biblioteca, vendida a peso, num alfarrabista. De facto, parte dela foi lá que eu a comprei, no vazadouro das heranças dos que não merecem aquele que os antecedeu. Por isso, nas costas dos outros antecipo eu já as minhas. Mas na esperança que esse seja o mundo dos outros, venha de lá mais um livrinho. Hoje não, que é domingo e estou trancado a trabalhar, feito advogado. A partir de segunda-feira, tudo é possível, até o meu coincidente amigo se cruzar comigo entre as estantes de uma livraria de adelo.

4.3.06

A enfermaria da liberdade

Hoje o tempo está chuvoso e frio e eu estou na masmorra dos meus trabalhos forçados, sem tempo para ler ou para pensar, sem jeito sequer para sentir. Olho para a grilheta que me prende ao lugar do meu cativeiro, para a chave que tenho em cima da mesa, para a teimosia orgulhosa que faz com que não me liberte e aflijo-me comigo. No lugar em frente da minha janela há um hospital, que nem pejado de doentes está, mas com a meia-dúzia a quem o azar de uma maleita libertou desta sorte. Lamentam-se na breve hora da visita, recontando os seus achaques e a indiferença dos que os tratam. Os saudáveis familiares e alguns amigos que os visitam, deixadas as bolachas, a água mineral, uma ou outra flor e revistas idiotas compradas enfastiadamente para os entreter, raspam-se à formiga com um «então as melhoras», assustados de um dia, eles também, poderem espojar-se naqueles lençóis, estirando as pernas e tremelicando os dedos dos pés, num sábado de chuva, com a liberdade de quem fica na cama, sem ter para onde ir, ou mais que fazer.