9.4.06

Girando cuidadosamente

Quando eu era garoto a rádio tinha um botão, que se girava, cuidadosamente, cada milímetro fazia diferença, no receio de se perder o sinal. Esta manhã de domingo ouço rádio através da Net, um som puro, cristalino, de uma rádio clássica, em língua inglesa, sabe-se lá se situada no Reino Unido. É uma rádio que tem anúncios e que ao domingo passa discos pedidos . Entre o Porgy and Bess e os concertos brandenburgueses, ouvi-o. Era um anúncio sobre uma empresa que compra apólices de seguros de vida. O negócio é simples: quando não tiver nada mais para vender, venda o seu seguro de vida. Pagamos bem. O anúncio não o diz, mas nós compreendemos: quando morrer, nós recebemos o seu seguro, esse é o nosso lucro. Telefone para a rádio e peça a marcha fúnebre de Chopin, ou a Dança Macabra de Saint-Säens. é gratuito, fazem-lhe companhia e são lindas de morrer.

8.4.06

A extensão, a profundidade, as medidas do sentir

Eu tenho um amigo que é sábio. Não é só a cultura invulgar, a extensão e profundidade daquilo sobre o que se sabe. Procurou-me hoje, como o fazem os amigos quando não lhes aparecemos. Compreendi-o quando irradiou um sorriso acerca de terem nascido patinhos nos jardins da Fundação Gulbenkian; compreendeu-me quando lhe falei da capoeira da minha infância e da aflicção da galinha, que chocou o final dos ovos de uma pata entretanto morta, ao ver, o galináceo coraçãozito aos saltos, o que julgava serem os seus pintos, a atirarem-se para a água, logo ao saírem da casca. Eu tenho um amigo que é sábio e um sábio que é meu amigo, porque hoje, ao ter-me procurado, compreendeu nesse instante o tempo em que se era feliz.

7.4.06

Memórias de uma criada de quarto

Chamavam-se criadas no tempo da exploração serviçal, empregadas domésticas, nestes tempos de proletarização neo-vocabular. A do escritor Jorge Luís Borges chama-se Epifanía Uveda de Robledo, vulgo «Fanny». Alejandro Vaccaro, que diz andar a estudar a vida do escritor argentino há vinte anos, publicou um livro com as memórias dela, por ele coscuvilhadas. «Ninguém é herói para o seu criado de quarto»: a frase já a vi atribuída Hegel, a Platão e a Napoleão. Surpreendido em roupão e chinelos, Borges sai ridicularizado pela proeza. Magoa e ofende ler este livro. Nele conta-se que o biografado tinha uma estranha forma de se ver livre dos livros de que não gostava: abandonava-os, à vezes fazendo pacotes de que fingia esquecido aqui ou ali. Ou me engano muito ou este é o destino que leva! Abandono-o, mas em sítio onde ninguém o encontre. Este ano perfazem-se vinte anos que Borges morreu. Não tinham de o matar outra vez!

6.4.06

O verbo ter

Hoje a Natureza choveu invernosamente em dia de Primavera. Sol, só para a semana! Até lá, esperem e logo verão...

5.4.06

Rebentar de vontade

Eu tinha um blog chamado «A Revolta das Palavras». Num dia de maré vaza do meu interior, apaguei-o. Quando, arrependido por dentro e a disfarçar desenvoltura por fora, quiz repô-lo, o sistema já não o aceitou. Por isso eu hoje tenho um blog que se chama «Revolta das Palavras». Ter ficado sem o «A» foi o preço que a blogoesfera me cobrou pela minha leviandade supressora. Ora quando eu tinha um blog que tinha um «A» escrevia lá coisas que hoje escrevo aqui. Graças à amizade de quem estima o que eu escrevo mais do que eu que as escrevo, salvou-se quase todo o apagado. Isto por exemplo teria vindo para este blog, caso eu na altura o tivesse. Aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2005: «Sexta-feira a noite e estava frio, a porta da livraria, semi-cerrada. Lá dentro, о velho livreiro fechava a caixa do dia. Hesitante, entreabri. «Já fechamos, mas enquanto eu estiver por aqui, esteja a vontade», Fiquei, menos à vontade do que seria possível. O livreiro enganara-se nas contas, revia agora, meticulosamente, verba a verba, na ofídia fita da caixa registadora. Sortilégio invulgar num negócio sem futuro, aparecera-lhe dinheiro a mais: numa vida destas, só podia ser engano. Havia que desfazê-lo e ir enfim para casa, dormir um sono aritmeticamente tranquilo.
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».

4.4.06

O acaso a um euro

Num país em que a maioria dos que lêem são leitoras, eu tenho uma especial propensão por escritoras. Uma delas, como já percebeu quem me lê, é a Maria Ondina Braga, já falecida em Braga precisamente. Só que o destino tem momentos fantásticos de inesperado. Regressado de mais um dia de esgotamento profissional, achei que merecia dar umas voltas sem nexo pelas ruas do meu bairro. Àquela hora saíam dos escritórios, exauridos, os empregados por conta alheia, a vertigem do recolher, a angústia do atraso estampada no rosto, os nervos a expressarem-se em buzinadelas, os rancores na impaciência de cada gesto. Foi então que eu os encontrei, o pequeno ajuntamento de vendedores de velharias, já a empacotarem o que amanhã, uma vez mais, desembrulharão, para tornarem a expor, na mira de os vender, aquele um pouco de tudo já passado, onde há a novidade das surpresas. No meu caso foram duas. Falo aqui de uma delas. Como já dei a entender tenho uma predilecção especial pelo Graham Greene, sobre quem já escrevi em outro local. Então não é que ele ali estava, a «um euro», o seu livro «O Cônsul Honorário», naquela edição encadernada publicada em Junho de 1974 pelo Círculo de Leitores e que a Ondina Braga traduziu? Tenho-o aqui comigo nesta hora já tardia. Sei que não tenho tempo para o ler, nem à edição inglesa que comprara já nem sei onde nem quando, na altura em que comecei a reunir a sua obra.Mas fico-me por uma recordação, a de ter lido numa entrevista da Maria Ondina, em que ela se queixava de ter partido as costas a matraquear à máquina, traduzindo e traduzindo, para ganhar o seu magro sustento. Ao olhar para estas folhas amarelecidas, ao rever cada uma das suas letras que lhe enchem as páginas, eu sinto o alquebrar de um dia esgotante, o corpo carregado de dores, os dedos entumescidos, a alma entristecida, a miséria de tudo terminar a um euro, num jardim, sem nexo e por acaso.

2.4.06

A árvore frondosa

Já vivi numa aldeola que tinha como único ornamento uma igreja sem estilo, uma árvore frondosa que a ladeava, daquelas centenárias, cujas raízes parecem querer arrancar as entranhas da terra e que me lembre nada mais. Junto a essa árvore havia um banco, daqueles vulgares bancos de jardim, a armação em ferro, o assento e o encosto em madeira. Caberiam nele uns três, bem anichados. Ao domingo, lembro-me de o ver ali sentado. Vestia-se a rigor, o fato completo, camisa branca, uma gravata de cuidado nó. Ficava por ali um tempo, o tempo necessário para estar sozinho. Cismava nunca soube em quê. Mais tarde disseram-me que era um militar reformado. A sua guerra, a última batalha que travava, agora era consigo próprio. Eu vivia ao lado do cemitério, ele hoje deve viver por lá, graças ao armísticio com que os deuses da guerra se apiedam daqueles que, na batalha da vida, não sabem vencer e já não têem que perder.

1.4.06

O acaso do sol

Escrevo aqui há tanto tempo e nunca dei comigo a pensar o que pode querer dizer «a janela do ocaso». Um candidato a leitor, amigo, disse-me que não conseguia encontrar o meu blog sobre a janela do «acaso». Pois não, nem eu que já o tentei. Um dia destes, tentando defini-lo numa frase, escrevi que ele era o «blog de um ser neurótico, que escreve sobre a tragédia do existir». É em parte assim. Há em tudo isto um halo marítimo, e uma coloração poente. Mas há sobretudo uma dimensão de infinito e uma ideia de arrependimento pelas origens e remorso pelo passado. Culpando-me pelo que virá e desejando não ter vindo, os cotovelos fincados na balaustrada da vida, abandono-me em pensamentos. Se fumasse exalava-me pelas narinas do desejo, instantes de ardência, desejos de sol.

30.3.06

Porque sim

Continuo sem ler. Agora nem os jornais. Compro-os, dobro-os cuidadosamente, porque os detesto amarrotados, guardo-os na pasta e quando chega o jornal seguinte deito-os fora, sem remorsos sequer. Subnutrido literariamente, tento escerever, mas não há qualquer ideia que me pareça valer a pena. Vim aqui dizer isso. Eu sei que poderia ter-me abstido de dizê-lo. Hoje, porém, alguém me falou do Afonso Lopes Vieira e eu lembrei-me que já escrevi sobre ele, e que já visistei a sua casa, agora vazia, em São Pedro de Moel. Cheguei agora à minha casa e fui procurar na estante o livro onde o seu estilo piruteante e vibrátil havia sido celebrado. Encontrei-o. Tenho-o comigo, fazendo-me companhia, eu a escrever já com a luz do quarto a esvair-se, na rua o ranger dos automóveis dos que regressam a casa porque sim. Escreveu-o João Gaspar Simões. Lopes Vieira morreu em 1946. Escreveu «País Lilás, Desterro Azul», sobreviveu com «Onde a terra se acaba e o Mar começa». Senti-o em São Pedro Moel, estava eu sozinho com uma companhia. Lembrei-me hoje de tudo isto, porque alguém me falou e sobretudo porque sim.

29.3.06

A neguentropia termodinâmica

Zangado com a vida e irritado com o mundo, estive a arrumar os livros que se amontoam no meu quarto, perto da cama, para que eu os leia em vez de adormecer. Separei os que ando a ler, melhor dizendo os que quero mesmo ler até ao fim, pois há alguns, enjeitados da sorte, que não passam das primeiras linhas. Não é que nelas se perceba a inutilidade do resto, é só porque nelas está contido tudo o que haverá de útil para ler. Um, por exemplo, dizia assim, em jeito de dedicatória, na primeira edição: «ao meu cão Pym» e na segunda «àqueles simpáticos seres humanos que perguntaram quem era o meu cão Pym». Li-o nos tempos em que frequantei uma agremiação chamada «Centro de Estudos de Cibernética», albergada numa saleta do Instituto Superior Técnico. Não era do Gordon Pask, nem do Collin Cherry, nem do Bertalanffy, nem do von Neumann. Pronto, não sei de quem é, mas lembro-me do resto, como por exemplo a dedicatória. Nessa altura eu acreditava na segunda lei da termodinâmica, a da desordem entrópica do universo. Hoje convivo com ela, fazendo disso modo de vida, com uma vida de cão, pior que a do Pym!

26.3.06

O veneno do amor

São aquelas edições belíssimas da brasileira Aguilar que a nossa Lello também tinha, encadernadas a sangue de boi, gravadas a ouro velho!. Comprei nela o saltitante Almada Negreiros, não o bisonho Pessoa, ontem atrevi-me e trouxe o desesperado Mário de Sá-Carneiro. Tudo tem uma explicação. Do Pessoa não comprei porque, com tanto escrito póstumo ainda a sair-lhe ainda da arca literária, desconfio das «Obras Completas», que o homem, como se mediúnico fosse, só pode ainda escrever em morto, produz ectoplasmicamente post-cadáver. Mas trouxe o Mário de Sá-Carneiro, porque me quiz oferecer uma prenda de aniversário e porque, folheando-o ainda na livraria, ali estava, esfíngica nótula introdutória, feita pela mão do próprio Pessoa, aquele «quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo», tragédia de todos os amantes, morte de todo o amor. Mário de Sá-Carneiro suicidou-se, envenenando-se, no Hotel de Nice, em 26 de Abril de 1916. Foi enterrado no Cemitério de Pantin, em sepultura que desapareceu em 1949, o ano em que eu nasci.

25.3.06

Em hora de azar

Como ninguém gosta de tipos acabrunhados e macambúzios, e como uma pessoa se torna embaraçosamente notada quando anda pelas vielas da amargura, optei este sábado por abastecer-me na livraria da alegria. Nos meus tempos de garoto, havia no barbeiro onde cortava o cabelo, ao lado dos livros de quadradinhos «O Mundo Ri». Em casa da minha mãe ainda há por lá, amarelinho de antigo, o «Gazes Hilariantes» do Nelson de Barros. Claro que tudo isto é hoje de alfarrábio e de loja de adelo. Fui por isso à literatura fina e dei de caras com uma reedição do livro «As pessoas felizes», que a Agustina Bessa-Luís escreveu em 1975. Trouxe-o comigo. Devolvido, enfim, ao sofá da leitura, cheguei à conclusão que ando em hora de azar. Calho abrir a página 187 e logo ali onde vem: «No ano de 1971 caiu sobre a família dos Carrancas uma série de calamidades. Aconteceram num ritmo tão rápido que não deixaram de impressionar toda a gente. As pessoas felizes desagregavam-se». Desisto.Vou ler o «Angústia para o jantar» do Luís de Sttau Monteiro, ou então, talvez, melhor, vou mesmo jantar, que o meu mal deve ser fome.

24.3.06

O vagabundo caído

Nasci, segundo ouvi contar pelas duas e vinte da madrugada. Nessa noite teria havia uma forte trovoada e um raio atingira em cheio, rachando-a ao meio, uma árvore em frente à nossa casa.
Lembro-me da árvore, dividida em dois corpos, a copa cindida roçando o chão, o tronco carcomido, como as pernas soerguidas de um vagabundo caído. Árvore assombrada, tocada por uma faísca fatal, aquela amalgamava vegetal e mineral, petrificada, estava morta e embalsamada e plantada em frente à minha infância.
Se acreditasse em premonições, aquele espectáculo ígneo de uma árvore fulminada por um relâmpago, ter-me-ia causado o arrepio de uma antevisão do futuro. Mas, afinal, era apenas a expressão de um mau momento na natureza.
Por detrás dela, a árvore morta, cujo nome, eu pouco entendido em árvores, aliás não sei, uma outra, majestosa em altura, se plantara, uma palmeira.
Ao fim da tarde, bandos de corvos, concentravam-se nela, para a noite, onde faziam abrigo. Aquele ritual diário, ao pôr-de-sol, de centenas de aves agitando as suas asas negras e, como cachos, aninhando-se nos ramos dentados da palmeira, ensinou-me, pelo olhar de uma criança, o que era uma vida a cumprir-se, o que era a força arrebatadora do instinto vital feito apelo, o que era, sobretudo, a desolação das almas, cantada no grasnar aflito daqueles rapinantes, projectados majestosamente ao crepúsculo.
Se eu eu tivesse aprebdido então que os nossos sonhos, as nossas ambições, os nossos devaneios, não resistem à migração eterna como a daqueles corvos, a que nossa condição também nos condena, teria evitado algumas das minhas errâncias voluntariosas e ter-me-ia deixado seguir no ciclo vital da rotina e regressado, ao fim de cada dia, como todos os do meu ninho familiar, à minha palmeira.
Assim, nasci por coincidência, num mau momento, e saído um dia da minha palmeira na Rua Vasco da Gama, perdi-me do resto do bando e ao poente, já não regressei. Errante pelo mundo alheio e nele estrangeiro, a minha pátria não é, por isso, um chão a que retorne, é a ideia de umas raízes a que me prenda.

Vamos por partes!

Umas das coisas notáveis da evolução da vida, mesmo a humana, é que uma pessoa chega à conclusão que tem umas partes do corpo mais novas do que outras. O estômago, por exemplo, só se gasta pelas horas das refeições que, no caso dos pobretanas, coitados, são muito breves. O cérebro, por exemplo, em algumas pessoas, só se gasta na hora das digestões, para se lembrarem, os tristes, a que horas é que têem de voltar a comer. Claro que depois há no homem a barba é que é mais nova que o cabelo, a mama que na mulher é mais nova que o umbigo. Quanto ao resto, em que estão a pensar, como dizia o Alfredo Marceneiro, o problema não é de juventude ou de velhice: às vezes não é da idade, são os desgostos da vida! Por isso, parabéns a você e muitos anos de vida e pró menino Zézinho, uma salva de palmas!

23.3.06

A terra do nunca

Hoje, como que a demonstrar que chegou a primavera, largou a chover a voltou o frio. Outro dia alguém me disse que ia mudar a hora. Há algum tempo mudou o século. Pergunto-me, pasmado neste mundo de mudança, se não se poderá manter qualquer das coisas que fluem, nesse vogar do nunca para o sempre. Interrompia-se, por exemplo, aquele minuto de ilusão, em que aos dezoito anos eu escrevia versos silenciosos. Ficávamos por aí; nada mais haveria para dizer, ou sequer a quem.

21.3.06

A sagração da primavera

Começa hoje a primavera e eu, aberta a janela do meu quarto, dou comigo como que a desejar que, também na rua, pudesse estar a chover, uma chuva profunda, o céu abatendo-se sobre o mundo, em bátegas desoladas de uma profunda consternação.

19.3.06

Os ressentimentos à solta

Filho és, pai serás, assim como fizeste, assim acharás. O provérbio popular é antigo. Ouvi-o, li-o, nunca lhe liguei importância. E, no entanto, aquela cena estranha da cama vazia do hospital, naquela tarde de visita, como que a acusar-me de tanta omissão, visitou-me esta tarde. É domingo, cada um dos filhos para cada lado, os remorsos a ocuparem o lugar dos afectos, o dia do pai. E, no entanto, eu tinha então vinte anos, melancólicos e solitários. Saí dali e logo ao lado encomendei um enterro, que as agências funerárias rodeiam hospitais como abutres ao cheiro de morto. Por não podermos mais, pedi o mais barato funeral que houvesse, daqueles em que desaparafusam os crucifixos antes de baixar o caixão ao coval, para os aplicarem no próximo que siga. Quando, ao fim da tarde, esperei a minha mãe ao começo da nossa rua, ela compreendeu na minha presença e no meu silêncio, o que havia para entender. O pai do seu filho tinha, enfim, terminado os seus dias. Acompanhando-nos, velámos o corpo essa noite. No dia seguinte a casa estava mais fria. Os ressentimentos, à solta, gelavam-nos a alma.

17.3.06

O estranho sentimento

Subnutrido literariamente, moído de trabalho, sem tempo sequer para um jornal, estendo-me a um qualquer dos livros já semi-lidos que se acumulam abandonados. Um deles, que já dei como terminado quando devo, afinal, recomeçá-lo, são «Os Meus Sentimentos», da Dulce Cardoso. Outro dia, um qualquer crítico literário dizia do livro ter uma capa algo como ridícula. Senti, ao ofender-me com isso, que lhe tinha ganho amor, aquele estranho sentimento de um leitor pelo seu autor.

16.3.06

Uma cópia do que foi

Em tempos tive um blog a que chamei «O Mundo em Gavetas». Num repente, apaguei-o. Graças à amizade, recuperou-se um cópia. Seria ridículo que, arrependido do acto, o repusesse no ar: tal como as emissões de rádio, que se perdem no éter, a escrita desvanece-se no espaço sideral dos afectos. Mas aqui e além surgirão alguns dos seus momentos: não pelo que significaram então, mas pelo que simbolizam hoje, poeira cósmica no mundo do sentir.

Escrita de sobrevivência

Esta escrita, tal como a vida que ela parasita, tem com os cogumelos uma extraodinária semelhança: vegeta no escuro e alimenta-se de putrefacção. Literatura excrementária, é frequentemente venenosa, por vezes alucinogénica. Pior ainda, espraia-se como tortulhos, prolifera como míscaros, nos cascos podres das árvores. Ela simboliza o que não há, supre o que falta, simula o que existe. A sua ontologia é uma mitologia, a de que escrevendo, sobrevivo.

15.3.06

Trabalho inútil

Ainda do Alçada Baptista, é dele uma resposta curiosa quando lhe perguntaram se tinha inimigos. Disse que não, explicando que isso de ter inimigos é uma coisa que dá muito trabalho. Só por isso, nem vale a pena.

14.3.06

Os paus de fora

Num livro de que eu já por aqui falei, feito de pequenos nadas em breves crónicas, o José Rodrigues Miguéis, que foi advogado até se fartar, e fartou-se depressa, com escritório improvisado na Rua do Coliseu dos Recreios, local muito a propósito para um advogado ter escritório, precisamente por causa da ironia dos recreios, nesse livro, dizia eu, que a esta hora da noite já me perco no que ia para dizer, e que chama «O espelho poliédrico», contava, numa prosa chamada «Lembranças em Estilhaços», umas larachas que diz ter escutado ao Teixeira de Pascoaes. Em uma delas era acerca dos tiques gastronómicos dos homens de letras que, ao contrário do que se supõe dos vates, que se imaginam alimentados a ambrósia e néctar, como os deuses no Olimpo, fala do Leonardo Coimbra. «O Leonardo [...] batia-nos a todos. Era capaz de comer um boi, começando pelo rabo, e só lhe deixava os paus de fora, para arremeter contra a filosofia». Ora aí está um excerto que, precisamente por eu já ter jantado um tão diminuto bacalhau com batatas e há tanto tempo, trancado que estou a trabalhar, me faz compará-lo com os que, na vida em geral, se alimentam a peixe, e deixam as espinhas na beira do prato.

11.3.06

O Catador de Histórias

Chamei-lhe «O Catador de Histórias». Era para nele contar histórias do quotidiano, mas fiquei semanas sem o actualizar. Hoje não é que me tenha vindo a inspiração, vieram sim, os remorsos. Estou lá eu e outros como eu.

A morte como evasiva

Encontrei-o, encardernado a carneira, ornada a lombada com filetes a ouro, um livrinho modesto dedicado e por isso chamado «Os amores e os ciúmes e a graça de Camilo». Foi publicado no ano terrível de 1939, em que a II Guerra Mundial começou. O autor, António Cabral, hoje ignorado, começou com o «Ó Fábia que foste Fábia», uma peça em três actos e seis quadros, em verso , representado pelo curso do 5º ano jurídico de 1885, e continuou com uma série de outras singelezas. Há pouco nesse livro que se leia, depois da frase com que ele abre, o bilhete que Camilo Castelo Branco escreve, pelas dez da noite de 22 de Novembro de 1886, antes de morrer: «A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o terminus da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e vituoso quem o puder ser». Camilo matou-se, o suicídio uma evasiva. A ideia era nele obsessiva. Perto do Natal do ano anterior escreveu a Trindade Coleho: «Conto com pouca vida; e, se não a encurto, é porque me custa a deixar um filho que lucra alguma coisa com a minha vida». Um dia, evadiu-se do cárcere.

Calor tropical

Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no café central, o seu café. Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.

A hipnose e o apetite

O fascínio hipnótico que os velhos exercem nos jovens é terem uma vida para contar, que a estes apeteceria viver. A ilusão que os velhos vivem, contando a sua vida aos jovens, é apetecer-lhes terem uma vida como a deles, que os fascina, hipnotizando-os. No fundo é uma alegria fugaz, como um dia de sol na manhã de um reformado.

9.3.06

Os apanha bolas

Imagine-se que diz o «Diário da República» de hoje que «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.o 5 do artigo 166.o da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que legisle no sentido de estabelecer um código de boas práticas ambientais aplicáveis a campos de golfe». Imagine-se o Parlamento a perder tempo e a meter-se nestas recomendações ao Governo. É caso para dizer: mas que grande tacada!

8.3.06

Um cão

Naqueles pequenos dias em que se anoitece pela hora de acordar, em que se sonha diurnamente o que se não dormiu, um homem sorri-se do que os outros choram e lamenta-se da paciência que não perdeu. Na minha rua há um cão com isso parecido e de mim semelhante. Ladramos à vida que passa e à lua cheia que haverá de chegar. No mais, vagueamos, nocturnos e vigilantes, do resto indiferentes.

Pessoa até amanhã

E de repente um filho pergunta-nos se temos alguma coisa sobre os heterónimos do Fernando Pessoa, porque tem teste e é já amanhã de tarde. E talvez saia o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos, ou o Caeiro. E qual deles era o pastor e se tu pensas que eu agora consigo ler isto tudo e a professora já falou nisso, o que é isso do Livro do Desassossego. Por momentos fica-se suspenso, sem saber bem o que dizer ou fazer. Todo o Pessoa até amanhã, mas pai, não te rales muito é só uma pergunta. Olha este livro é porreiro, explica tudo em cinco folhas, já me podias ter dito que tinhas isto, bolas!

7.3.06

Literatura comestível

Compro livros, começo a lê-los, vejo outros, inicio-os, volto aos primeiros, retomo os segundos, esqueço-me onde ia, compro mais. Se tudo isto não faz de mim, a curto prazo, um homem culto, erudito, sábio mesmo, naquele sentido desnorteado do termo, em que as conversas se encadeiam, desconexas, umas nas outras e há sempre uma ideia ou uma história a propósito de tudo, não sei como lá chegarei. Hoje emprestaram-me mais um desses milhentos livros que são o meu farnel, porque se aperceberam do ar glutão com que eu o devorava, na casa de onde veio. «Basta que um livro seja possível para que exista» escrevera o autor no passo onde eu ia, refastelando-me, regurgitante leitor, na digestão da ideia. Um pedaço depois deram comigo, a boca escancarada, óculos quase caídos no tapete, o livro, a meia-ilharga, aberto sobre o meu ventre ressonante: dormia, profundamente, a alma saciada de leitura.

6.3.06

O ócio e a vagabundagem

Ontem ainda consegui um momento para ouvir uma das entrevistas que Agostinho da Silva deu a Fernando Alves e que andam agora a ser distribuídas em CD. O entrevistador falava-lhe na vadiagem como ócio, o velho sábio respondia-lhe com mil e uma iniciativas com que sonhava ainda e com a sua incessante vagabundagem interior. Depois o entrevistador veio-lhe com a ideia dos desempregados para quem aquele apelo poderia parecer provocatório, Agostinho replicou-lhe que para esses ociosos à força havia outros a trabalhar, pagando-lhes os subsídio. Uma coisa é certa: a espiritualidade peripatética do velho pensador não encontrava meio de se fazer expressar, o pequeno mundo real sempre a atrapalhar-lhe o caminho. Nada como ser-se sábio para se estar sozinho.

O jardim de Deus


«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.

5.3.06

O meu coincidente

Nasci às duas e vinte da manhã. Quando andava na Faculdade descobri um colega que fazia anos exactamente no mesmo dia, viera à luz no mesmo ano e...extraordinária coincidência...à mesma hora. A diferença é que ele surgiu em Sintra eu em Angola. Ele é uma figura conhecida, e não sei gostaria que eu revelasse aqui o nome. Dedica-se à literatura e à cultura em geral e com isso se sustenta. Eu ando pelos tribunais para ganhar para o sustento da família e da literatura que consumo. Espero que quando eu terminar não me ferrem com a biblioteca, vendida a peso, num alfarrabista. De facto, parte dela foi lá que eu a comprei, no vazadouro das heranças dos que não merecem aquele que os antecedeu. Por isso, nas costas dos outros antecipo eu já as minhas. Mas na esperança que esse seja o mundo dos outros, venha de lá mais um livrinho. Hoje não, que é domingo e estou trancado a trabalhar, feito advogado. A partir de segunda-feira, tudo é possível, até o meu coincidente amigo se cruzar comigo entre as estantes de uma livraria de adelo.

4.3.06

A enfermaria da liberdade

Hoje o tempo está chuvoso e frio e eu estou na masmorra dos meus trabalhos forçados, sem tempo para ler ou para pensar, sem jeito sequer para sentir. Olho para a grilheta que me prende ao lugar do meu cativeiro, para a chave que tenho em cima da mesa, para a teimosia orgulhosa que faz com que não me liberte e aflijo-me comigo. No lugar em frente da minha janela há um hospital, que nem pejado de doentes está, mas com a meia-dúzia a quem o azar de uma maleita libertou desta sorte. Lamentam-se na breve hora da visita, recontando os seus achaques e a indiferença dos que os tratam. Os saudáveis familiares e alguns amigos que os visitam, deixadas as bolachas, a água mineral, uma ou outra flor e revistas idiotas compradas enfastiadamente para os entreter, raspam-se à formiga com um «então as melhoras», assustados de um dia, eles também, poderem espojar-se naqueles lençóis, estirando as pernas e tremelicando os dedos dos pés, num sábado de chuva, com a liberdade de quem fica na cama, sem ter para onde ir, ou mais que fazer.

O Rebelo da Silva em marcha

O «blog» sobre o Luiz Augusto Rebelo da Silva começou, enfim, a mover-se com a lembrança tristonha do local onde viveu e a rememoração risonha do que dele disse Ramalho Ortigão.

3.3.06

A grande tentação

Não é a minha faceta saturnina, é só porque a tentação foi grande. Chama-se «O Culto do Oculto» e é um novo blog. Como já havia poucos...

O grisol

O homem explicou-me como era na ilha de Jersey. Fiquei a saber como gostava do coletinho que vestia por cima da camisa, as casas bem aquecidas por dentro, as pessoas indiferentes ao frio da rua. Claro, imaginei, que é um paraíso fiscal e aí vive-se à grande. Só que, no caso dele, trabalhava lá numa pizzeria, era a farda dos empregados, hoje guiava um táxi. «O senhor parece que está com frio», perguntou-me, como quem afirma, ao ver-me tão embuçado. «Não», respondi-lhe entre dentes, «estou é com arrepios!». É do «grisol» rematou ele, no vocabulário portuga que não há ilha de Jersey que nos seque na língua.

A luz e as sombras

Vivendo em «O Mundo das Sombras», numa total imobilidade, resolvi acender-lhe a luz.

2.3.06

Uma barrela total

Andavam a distribuir pelas ruas em folhetos. Anunciavam uma «limpeza espiritual», a qual lavaria a alma contra todas as maleitas. Ora eu que vinha a matutar quando é que teria tempo de levar o carro à lavagem automática, talvez me tente. Não sei se também aspiram por dentro, porque no meu caso, com o lixo que se vai acumulando no dia-a-dia, bem precisava. E já agora mudavam-me o óleo e alinhavam-me a direcção que em certos dias sinto da vida o volante a fugir.

1.3.06

Rápida, a sombra

Hoje acordei com a notícia que se perfaziam dez anos que faleceu o Vergílio Ferreira. E eu que, pacientemente estou a reconstituir a biblioteca com os seus livros, e a lê-los vagarosamente pelos cantos, vivi o dia todo com a urgência de vir aqui deixar ao menos uma palavra de lembrança. Uma sua amiga disse, a esse respeito, que se deve ter deixado morrer. Pressentia-se isso mesmo em cada página da sua «Conta-Corrente», esse diário que teimava em manter. Toda a sua obra é precisamente o anúncio desse momento de agonia e de solidão. «Não me dói o morrer (...). O que me custa é ter vida a sacrificar, vivi tudo o que é possível nas vidas», escreveu em «Rápida, a sombra».

28.2.06

O estado de sítio

Acabo de descobrir a solução para a agonia das minhas obrigações incumpridas! Anulo a diferença entre o dia e a noite, entre os dias de trabalho e os de descanso, entre a hora das refeições e a das digestões. Mas posso ainda mais: anulo a diferença entre o racional e o emotivo, o humano e o animalesco. Com um esforço mais, passo do vivo ao vegetativo e por fim ao mineral. Num lance final, transmuto-me de sólido em líquido e finalmente em gasoso. Quando finalmente for só um halo de energia, uma poeira no cosmos, tento fazer tudo outra vez. Talvez dê em rural pastor de erráticos rebanhos ou em vendedor urbano de cautelas de lotarias. Encantar-me com o sol poente ou enfeitiçar-me na ilusão da sorte grande, tudo serve se for essa a solução. A inevitabilidade dos deveres de amanhã, isso é que não! Não só me agoniam, dão-me mesmo vontade de vomitar.

27.2.06

Interpretação consoladora

Com a mania de andar por tudo quanto é alfarrabista, como quem anda ao trapo ou ao ferro-velho, encontro, por vezes, momentos de insólito e de confronto com a minha própria mania. Exprimiu-se desta vez a loucura coleccionadora na forma de um livrinho encadernado que na magra lombada mais não tinha do que umas iniciais: «V.S.». Era, afinal, a compilação de modestos estudos de um professor liceal, chamado Vítor Santos, do Redondo. Textos minúsculos, editados entre 1926 e 1945, eles iam desde uns aforismos a uma novela, incluindo uma compilação de detalhes sobre a sua terra e uma conferência no Ateneu de despedida dos seus alunos. Não sei porque o comprei, arriscando doze euros, que bem podiam ter trazido dois Camilos na edição popular, de tal modo tudo aquilo é desesperadamente humilde. Consolo-me ao menos, porque um dos pensamentos, do folheto «Ditos e feitos, mal ditos e mal feitos», reza que «isto de doidos ou de ajuizados é só uma questão de interpretação». Ao menos isso, porque já ninguém me aceita o livro de volta e nem eu, que daqui o olho carinhosamente, sei o que haverá nele para ler.

26.2.06

Borges, sem porquê

Ando a reconciliar-me com os meus preconceitos, alguns muito estúpidos, quase todos irracionais. Um deles foi detestar, sem saber porquê, o Jorge Luís Borges, sem nunca o ter lido, recusando-me a lê-lo, entretendo-me em irritar-me logo aquela sua figura, talvez porque de Saramago, ou pela María Kodama, sua eterna bengala. Não sei!. Confesso agora aquilo que sei me envergonha, a infâmia de nem tudo em mim ser inteligente, nem belo, nem motivado por nobres razões. A controvérsia de mim comigo mesmo, que se passa toda na minha cabeça e me salga, corroendo-mo, o coração, é isto mesmo. Mas há uns dias decidi-me. Estou extasiado!. Tive a sorte de começar por um estudo filosófico sobre a eternidade, cuja leitura compartilho com a «Biblioteca Pessoal». É o mundo da palavra maravilhosa, das ideias surpreendentes. Não sei como tudo isto aconteceu em mim. Leio-o agora ao Borges, devoradamente. «La rosa es sin porqué», escreve ele, citando Angelus Silesius, que nasceu em 1624. Tantos séculos se volveram sobre esta palavra, poderia ter sido escrita esta manhã.

Os blogs de JAB

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.

25.2.06

O entre-choque

Há um método de postergação infinita e indefinida que é no tantrismo o retardamento do orgasmo, na música de Wagner o adiamento do clímax final, na novela policial o entreter até à descoberta da chave do enigma. Há um método contrário a esse, que é o de viver encurtando o tempo, como se o tempo nos faltasse, confinando o espaço como se toda a terra nos fosse estrangeira. Aprendi o primeiro na arte poética, o segundo na vida prática. Um dia entrechocam-se e tudo acaba, a eternidade no instantâneo.

24.2.06

Uma vida que já foi

Foi hoje, descia eu a rua, indiferente a que fosse aquela, alheio ao que ia fazer. E de repente um estranho pensamento acometeu-me, insólito, inesperado, sem lógica com o lugar ou propósito com o momento. Hoje, nesssa rua, uma qualquer rua de um qualquer lugar de um momento qualquer, dei comigo a pensar que em breve já não tenho 56 anos de idade, mas sim 57. São terríveis os números. Na sua simbologia oculta deles ressaltam pressentimentos trágicos, como se na sua ordem abstracta eles fossem uma forma de o futuro nos surgir, premonitório, na forma de presente. Todos temos, inconscientemente, a idade-limite além da qual já nos imaginamos possíveis. Em jovem, na adolescência quando desponta a barba e com ela os primeiros amores, era a melancolia solitária de não me supor além dos 35. E, no entanto, se invertesse os dígitos de um tal numeral, com optimismo e saúde, que nessa altura não nos faltam, podia projectar-me aos 53. Ah! mas hoje ainda, nesta madrugada em que escrevo, tenho 56 anos de uma idade em que, aplicando a mesma regra, não me inquieta a plausibilidade de chegar aos 65, só porque é possível o tempo suficiente para lá chegar. Só que dentro de umas semanas, a menos de um mês, com 57 anos, colocar-se-me-á, definitiva e inexorável, a aposta de mim com a minha subsistência, a agonia do será que chegarei aos 75. Foi hoje, descia eu a rua, uma rua qualquer, que esse estranho sentimento de me despedir do que rodeia surgiu, a meu lado como se fosse a minha sombra, esse reflexo difuso de uma vida que já foi. Quando tiver 61, volto a pensar no assunto, na esperança de então, reconciliado com o mundo e pacificado comigo, ter ainda a esperança de recomeçar.

23.2.06

Um outro santo Agostinho

Agora que por causa do centenário todos falam do Agostinho da Silva e eu, amarrado, qual burro cego, à nora da quinta, mal tenho tempo de ler, deixem-me só trazer aqui dois momentos de fina ironia que com ele se relacionam. Um, quando Antónia de Sousa o entrevistou para o que viria a ser um livro e abriu a conversa com a natural pergunta «creio que o professor Agostinho da Silva tem oitenta anos, não é?» e ele respondeu «eu também creio»!; outro, que é uma frase sua que, desdobrando-se em duas, vem citada por Artur Manso num ensaio sobre a sua vida e obra e que eu gostaria de tornar em ideal de vida: «não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total. Na realidade não estou interessado em coisa alguma; sim, porém, em viver».

21.2.06

A porta aberta

Anda tudo gazeado no ciber-espaço. Os «blogs» colectivos são como as famílias irritadiças: pegam-se pelo que um diz, e pelo que o outro devia ter dito pegam-se também. Uns batem com a porta da rua e, ainda estão os outros atónitos com o estrondo, re-entram, façanhudos, para num grito final, despejado para os de dentro e, antes de zarparem de vez, se sairem com um: «e obrigadinho pelo que fizeram, ouviram?» O seu drama é o ridículo de saberem que normalmente ninguém ouviu e a vida sem eles seguir como dantes. Há só uma espécie que me faz pena: a dos inteligentes que, num momento de zanga consigo, esgotados de um esforço recente ou furibundos por não se reconhecerem agora naquilo que já foram, implicam por tudo e irritam-se com nada. Quanto a esses o melhor é nem se ligar. Basta deixar a porta aberta. Não é que eles voltem, é só para que não se gabem de terem sido expulsos.

20.2.06

E digam lá que não!

A coisa tinha o seu ar de paradoxal: a senhora pedia açucar e adoçante, ao mesmo tempo. A pergunta impunha-se e foi feita, à volta do porquê. Respondeu com desenvoltura: açucar para adoçar, adoçante para não engordar. Pois claro!

18.2.06

O jardim de Deus

O jornal chama-se The Northwest Telegraph e estava na saleta de entrada do hotel. Símbolo deste novo mundo em que vivemos, trazia na primeira página o obituário, com o anúncio dos novos mortos e propaganda a uma agência funerária. Ao lado informava que em Londonderry os gay católicos se sentiam mais seguros, quando das suas manfestações, do que os seus homólogos protestantes. Ah! A propósito, de uma das novas mortas, citava esta coisa extraordinária: o jardim de Deus deve ser belíssimo, pois ele só colhe as melhores flores. Hoje é sábado e por um momento, antes do pequeno almoço, senti a tranquilidade de não ser protestante ou católico, nem gay, nem viver em Londonderry e nem ter que ler imprensa desta nem quase nenhuma. Sou só manifestante e muitas vezes para dentro, zangado comigo mesmo.

16.2.06

«A Luta» continua

Um tipo dorme três manhosas horas já pela madrugada, e depois de um dia de trabalho bestial chega e tropeça num monte de mais serviço que se acumula até ao telhado e os telefonemas que não fez, os prazos que devia cumprir, as gentilezas que ficaram no olvido. Um tipo, esquecido de si e ignorado pela maioria dos outros, afunda-se num sofá, como se cama fosse, e ao tirar os sapatos, faz disso um mimo e um carinho, como se só a isso tivesse direito. Um tipo saca da estante um livro a esmo, um livro qualquer, e lê o que lhe apetecia ter já como epitáfio mortuário, ao menos para morrer a rir: «aqui jaz Bento Bexiga, que acendeu um fósforo, para ver de tinha gasolina no depósito do carro; e tinha mesmo!». Eis o resumo de um dia. Escreveu-o Alexandre O' Neill, em 3 de Agosto de 1976, num jornal de que ainda fui Advogado. O jornal, que se chamava «A Luta» faliu, eu ainda por cá ando, de fósforo na mão.

14.2.06

Um amor que mata!

Um homem que tem pouco tempo para ler, só pode gostar de livros de contos, por uma única razão: são fáceis de resolver. Em tempos comecei os «Contos Impopulares» da Agustina. Ora não é azar que, logo hoje, que é dia dos namorados, em que muitos masculinos se abeiram do ninho, arrulhantes, na ânsia de por um dia mostrarem ternura e florinhas às suas companhias, eu dei com este passo de um desses contos entre os muitos que me faltam lêr! E logo, e por isso vim aqui, aquele que dizia assim: «era uma mulherzinha miúda, quase linda, e cujo queixo agudo profetizava uma dessas azedas velhas borralheiras e aduncas, para as quais parece que a eutanásia foi inventada». Se algum leitor meu, lêr isto antes de ir ao encontro desta noite, peço, rogo e quase imploro que olhem, mirem e remirem, no alvo dos vossos encantos e amores, todas as minúcias etéras da alma, todos os rendilhados íntimos da sensibilidade, mas por favor, não no queixo agudo. É que há o grave risco, olhado o queixo agudo, de a noite vos terminar mal, muito mal mesmo!

Morte no capítulo três

Errático na vida, irregular nas leituras, talvez haja em mim um nunca mais acabar no convívio com os livros. Comecei muito tarde. Há poucos anos descobri o real valor da ficção, há muitos secou-me a capacidade de não ser prosaico. Hoje cada folha em que progrido a escrever é um passo atrás na regressão do tempo vivido. Havia outrora os analfabetos de origem, para quem a quarta classe só se alcançava na tropa, os que escreviam juntando as letras, como quem faz artimética elementar, contando-a com os dedos da mão. Esta noite percebi, enfim, o ridículo desta escrita: renasço com ela em cada linha e com ela morro em cada página. Tal como nas historietas baratuchas, ao terceiro capítulo, o autor abate-me; umas folhas adiante o leitor, distraído e entretido, já nem se lembra de mim.

12.2.06

O a e o de, essa inescapável diferença

O «Mil Folhas» entrevistou o escritor português Rui Nunes que é um expatriado mental residente na Áustria, que diz que fica doente quando vem a Portugal. Diz nela, pois estas coisas parecem ser hoje ingredientes de biografia literária, que é homosexual e de uma esquerda ligada ao Partido Comunista. Pois bem! O seu último livro abrirá, segundo ali se diz, pois ainda o não li, com uma frase de Horácio «quem da Pátria sai, a si mesmo escapa». É daquelas ideias com que se concorda, sobretudo com uma variante: «quem da Pátria sai, de si mesmo escapa»; não por uma questão de correcção ortográfica, mas por um mundo de diferença semântica.

11.2.06

Poetria

Primeiro foi a Buchholz, agora, no Porto, a Poetria, especializada em poesia e teatro, em riscos de fechar. A primeira salvou-se, esta pede ajuda. Pelo caminho, náufragas invisíveis no mar da indiferença, dezenas de livrarias fecham, famílias com casas decoradas em high tech mandam para caixotes e caves milhares de livros, para que morram em silêncio, como velhos em lares, longe da vista. Excepto alguns, cuja opulenta encadernação os salva, nesta vida prosaica, que falta lhes faz a poesia? E, no entanto, tudo isto senilmente me comove. Como se junto ao leito de um mundo agozinante, a sua esquálida mão na minha mão, peço, num murmúrio envergonhado: não morras, por favor, porque contigo todos morreremos.

Um sábado de cores

Mário Cáudio encerrou com «Gémeos» a trilogia que iniciara com «Ursa Maior». O livro já tem três anos, vai na segunda edição, só agora dei com ele e com uma sua personagem, estalajadeira, companhia talvez, mas «fechada à inteligência daquilo que tamanho sofrimento causava em mim». É o livro, tal como no seu «Amadeo», o de um obsessivo, ansioso por escrever a biografia alheia, a de um pintor. Vive, assim, ilusório, aos ziguezagues, em desatinados pinchos, num desnorte infantil. Esquece a negritude e o cinzento, por isso, mal fala de si.

10.2.06

A via salvífica

Ainda Pascoaes! Chamava-se Joaquim Maria Teixeira de Vasconcelos e já disse aqui que era advogado, num acanhado escritório na Rua das Taipas, no Porto. Um dia, esgotado da advocacia, deu em escritor. Disse que foi assim: «o poeta venceu o advogado, adoecendo, ou tirando forças da fraqueza». Talvez possa ser assim, pois a não se ter essa sorte, não há salvação possível.

9.2.06

Acaso

O acaso quis que eu soubesse, o que para muitos era óbvio, que Anrique Paço d'Arcos era o discreto irmão do conhecido Joaquim Paço d'Arcos, ambos escritores. E o acaso quis mais que eu hoje, refugiado num bar esconso, soubesse que dos poucos que acompanharam Teixeira de Pascoaes ao cemitério de Gatão, ele era um deles. Estive em Amarante, para saber que a casa do poeta é hoje um lugar de turismo rural. Tivesse ido eu ao epitáfio que, numa só frase simboliza o que dele resta, ao menos para ler o «apagado de tanta luz que deu, frio de tanto calor que derramou»! Mas o acaso não o quis, daí a minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia.

Amanhã, melhor dormido

Por estranho que pareça aos que julgam que me conhecem eu tenho os quarenta e cinco volumes da obra completa do Vladmir Ilitch Oulianov, vulgo «Lénine», naquelas edições de Moscovo, encadernadas, e que na capa de cada volume tinham ainda fotografia do dito, ao longo dos anos em que viveu; edições, diga-se, prefaciadas pelo Roger Garaudy que, entretanto, caíu em desgraça. «Lénine», como se sabe era jurista e muito do que escreveu ainda no seu país resultava de livros que a paciente irmã requisitava na Biblioteca da Ordem dos Advogados russos. Meticuloso, registava, o tempo de viagem de cada livro, de Moscovo para a Sibéria, mais o tempo que levaria a lê-lo e atirava-se dia e noite à leitura, aproveitando o tempo até ao limite da exaustão. Lembro-me hoje disto, talvez pela exaustão. Mas lembro-me sobretudo porque acho que foi num dos volumes finais, dos que ainda consegui ler, que ele diz, numa carta, que a actividade intelectual deve ser como a actividade física: nem sempre correr, nem sempre marchar, urge intervalar o esforço e o descanso. Ora eis o que esta noite eu estou a fazer: exercícios de musculação oftálmica, para tentar manter os olhos abertos, ante que caia de sono, como se nota aliás pelo estilo meio desconexo do que aqui fica. Amanhã, melhor dormido, talvez melhor.

7.2.06

Trabalhos manuais

A um tipo que tem a mania que escreve, convém comprar uns dicionários, para ir melhorando o seu vocabulário. Há uns dias lá trouxe para a minha estante que já se espalha pelo chão um «Novo Dicionário do calão» do jornalista Afonso Praça, que diz na capa, em estilo de desafio: «conheça a língua portuguesa na sua intimidade: da gíria ao jargão, do vernáculo ao simples palavrão». Com o pouco tempo que me persegue, lá o folheei apressado, para descobrir coisas óbvias como o «dar de frosques», para querer dizer fugir, e outras coisas com isso parecidas. Agora o que eu nunca tinha ouvido nem lido era que «tocar a furriéis» quer dizer masturbar-se e vá lá saber-se porquê! Ainda por cima dos meus tempos de soldado cadete, no quartel em Mafra, ainda me ficou o básico da «ordem unida», a instrução das continências, e mormente o momento grave e agora a propósito do «apresentar, arma!» e eis-nos, os do segundo pelotão da segunda companhia, com ela, hirta e empinada, a G3 segura na mão, em sentido, que no dizer aos berros do alferes «não mexe nem um pelo!». Mas agora com esta do «tocar a furriéis», o que me confunde, ainda na matéria da ordem unida, é aquela parte do «ombro, arma!». É que de facto, ou a coisa passa por artes de contorcionismo, ou então nem sei o que diga, que nem imaginar consigo, que até tonturas dá!

O galo Zagalo

Ali estava ele, em Estremoz, a peliça de serrubeco para não rapar mais frio do que por ali lhe rondava a ossada e o reumatismo, gola soerguida a esconder-lhe as fauces, o vendedor de criação. Numa gaiola improvisada, feita do que já fora um caixote, uma rede de arame a fazer de portinhola, umas quantas galinhas sonolentas e um galo altivo. Caracoleante galo, esse, com tudo o que um da sua espécie precisa para mostrar altivez: crista eriçada, barbilhões vermelhuscos, esporas afiadas, e sobretudo aquele voltear soberbo de cabeça, como os cegos em busca dos sons. Havia na proliferação de cores das suas penas todo o cromatismo do que nasce para viver. «Atiradiço, não?», perguntei, afirmando, vendo uma das galinhas quase careca à força de tanta bicada no acto de a galar, que nele se adivinhava vicioso. «Parece que sim», veio-me como embaraçada resposta. Saí dali com uma valente constipação e na cabeça com duas dúvidas quanto à arte de bem falar a língua que é a nossa. Primeiro, porque não se chama galinheiro ao que vende galinhas; segundo porque se chamará galar ao coito dos galináceos, verbalizando o substantivo masculino como meio de designar a coisa. Falássemos de gatos e dir-se-ia gatar. Em português é muito frequente, gatar, naturalmente.

4.2.06

O homem, esse desconhecido

O nevoeiro tem a vantagem de amortecer o que se ouve e de ocultar o que se vê. O homem recolhe-se ao seu interior e, ainda que seja por um começo de manhã, dá enfim por si. É então que nota quanto se desconhecia. Às vezes está-se longe de casa, quantas vezes isto é perto de tudo.

2.2.06

A graça rudimentar

Falando do Corvo, nas suas «Ilhas Encantadas», Raúl Brandão diz que ali só há uma coisa a fazer, e «não é olhar para fora, é olhar para as almas». Lugar tosco de frases rudimentares, nela se encontravam palavras insólitas para situações invulgares. «Morreu, mas engraçada», dizia-se, então, querendo dizer-se «morreu, mas feliz». Nós, os de hoje, os que perdemos a graça, sabemos como isso é, à conta, não direi de morrer, seguramente de viver, em qualquer caso de um viver infeliz.

1.2.06

A mosca tsé-tsé!

Eu tinha a angústia dos que pensam que, ao dormirem oito horas por dia, passam um terço da sua vida a dormir. Mas ontem, antes de adormecer, ainda consegui ler num momento uma crónica que o Miguel Esteves Cardoso arquivou no seu livro «Os meus problemas». O essencial do argumento é que nada se faz enquanto se dorme, donde só se vive enquanto se está acordado. Ora como o tempo do nada é tempo a descontar nos anos de vida, quem não falhar as suas oito horas diárias de soninho reparador, ao chegar aos sessenta anos, afinal, só tem quarenta. Claro que, nisto, com as minhas madrugadas de trabalho e as minhas noitadas de leitura, eu já não vou a tempo de resolver o problema. Mas se me deitasse agora e acordasse em 2034 talvez ainda conseguisse viver mais uns anos e com melhor aparência e sobretudo melhor disposição!

31.1.06

Pilhas de graça!

Depois de terem mudado a pilha à chave do automóvel, a que abre o sistema centralizado de fecho das portas e mais a ignição e não sei o quê mais, explicaram amáveis os da oficina: se não funcionar à primeira, agora que a pilha é nova, carregue cinco vezes. Não disseram porquê, nem me atrevi a querer saber. Se fosse, em vez de uma chave, uma pistola para eu me matar, preferia uma corda pendurada ao pescoço. Se não funcionasse à primeira, sempre mudava de ideias. Logo à noite, quando entrar na garagem, talvez leve uma gazua, não para assaltar o que é meu, mas para tentar não chegar tarde ao jantar, ainda por cima por falta de pilha.

29.1.06

Começa um vida

A Irene Lisboa escreveu sob vários pseudónimos, um deles, o masculino «João Falco», por julgar talvez que um livro de homem teria mais aceitação junto dos leitores. Em 1940, em plena guerra, a «Seara Nova» editou-lhe o «Começa uma vida», que a Maria Keil do Amaral ilustrou. O livro é modesto de tamanho e de cuidado tipográfico e, por isso, aquele que, maravilhado e grato, tenho esta noite nas mãos, ameaça desfazer-se a cada momento do meu cuidadoso folhear. Não se trata de uma biografia, mas há muito de próprio e de intimista no que ali se diz, prenunciando uma escrita de tristeza e de solidão que seria, afinal, o seu modo de se exprimir em literatura. Ainda, sem saber como, consegui uns minutos hoje para começar a lê-lo até ao momento em que descrevendo o seu internato num colégio de freiras e relatando «despoeticamente» o seu viver sentimental de adolescente, partilha com quem a lê: «descobrira o prazer da tristeza, a sua espécie de função masturbante, ou de irritação e conformidade, de devaneio».

28.1.06

Rebelo da Silva

Talvez nem seja da família. Nunca pensei nisso. Também não tem interesse para o que se pretende. Começou hoje, aqui, uma forma de o recordar.

A pequena escala

Acordar pelas doze com a horrível sensação de metade do dia estar esgotado, sendo mau, ainda é, em pequena escala, mais suportável que aos cinquenta e seis termos percebido que, não vivendo até aos cem, já foi vivido quase tudo o que havia para viver. Aí, não há hipótese de tomar banho a correr, sair à rua ofegante e já estar esgotado, afinal, o próprio jornal do dia.

27.1.06

O deleite e a desarrumação

Há dias em que verdadeiramente penso, tal como o António Alçada Baptista, que «a cultura é uma palavra-sótão, onde se arrumam os trastes que não somos capazes de meter noutro lugar». Lembrei-me desta, quando depois de dormir pouco por sonhar muito, acordei pelas sete, meio estremunhado, e ainda a cambalear, enfiei um valente biqueiro num molho de livros que se acumulam, dispersos e desconexos, ao lado da cama, eu na ilusão de ainda os ler e já na desistência de os arrumar.

26.1.06

Nós outros

Os que dizem «nós», em vez de «eu», nem sempre o fazem pelo plural majestático, às vezes é só pelo eco que neles causam as suas próprias palavras. No Governo usa-se muito, para dar a ideia de que cada um diz o que pensam todos. É uma ilusão. No jornal seguinte, desmentem-se logo e «nós» ficamos totalmente esclarecidos.

25.1.06

Salve-se a geometria!

Eu tenho por aí um blog que anda a vegetar e que se chama «Geometria do Abismo». O nome fui buscá-lo ao «Livro do Desassossego» do Fernando Pessoa. A princípio era uma espécie de metáfora de um mundo euclidiano escrita por um homem que vive humanamente só com operações aritméticas das que dão resto zero. Depois, o blog foi ficando num marasmo tal que hoje é um asteróide morto no ciber-espaço. Hoje descobri que ele ainda tem salvação, como os quadros daqueles pintores que raspavam as telas e as pintavam por cima. A ideia essa eu tenho-a e nítida na cabeça e tempo, como se sabe, é coisa que não me falta. Por isso, agora, vai ser só o mãos à obra. Veremos o que sai daqui. O Almada Negreiros descobriu qual era a ordem dos painéis do Nuno Gonçalves ao olhar para o chão e ao ver como estava pintado o ladrilho. É mais ou menos assim: com os olhos no chão, ainda chego lá!

Crónica da hora que passa

Uma leitora disse uma vez em estilo de amabilidade, ao ler o que por aí escrevinho, «as coisas que lhe passam pela cabeça!». É! Sou assim a modos que um passador. Não por andar passado de todo, mas por tudo aquilo por que já passei. Passar por passar, escrevo isto e lembro-me do personagem do livro do Sttau Monteiro, o Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro, o que escreveu «Um homem não chora», que andava sempre com um pacotinho de passas no bolso: num caso, como no outro, carências de açúcar e excesso de afecto.

23.1.06

O quem era e o porque é

Vim para casa carregado com os quatro volumes das «Obras Completas» do Delfim Santos, para verificar ontem que, afinal, já os tinha. Encontrei num alfarrabista, com infinita alegria o «Prazer e Glória» da Agustina para encontrar em casa uma edição igual. Para rematar, até um do Alçada Baptista eu já tinha, só que desta feita o que veio é a primeira edição, a da Moraes. Isto sucede assim porque em Portugal quem quer ler compra livros livros para os ler um dia, porque no dia em que lhe apetecer a leitura não os encontra em sítio algum. O mercado da livralhada hoje é assim: entram uns nos escaparates e uma semana depois somem-se para os armazéns dos editores, substituídos por uma nova remessa. Dizem-me que, neste país de iletrados, saem quarenta novos títulos por dia. A 30% nas livrarias, a 60 e mais nas grandes superfícies, eis o comércio na sua melhor expressão. O autor com sorte, esse chega à ilusão dos 10% e à desilusão de raramente os receber. Amanhã vou tentar que mos troquem, quando não espalho-os pelos amigos. Se algum se perguntar a que propósito leva com uma resma de Delfim Santos já sabe: escusa de perguntar quem era, que eu nem digo porque é!

22.1.06

Clientes de mão

Lembrei-me agora deles, ao ler o que o José Cardoso Pires escreveu sobre o Fernando Assis Pacheco, ambos mortos: os galegos, de tempos que também já foram, a cuja modéstia serviçal Lisboa tanto deve. Eram os amoladores de tesouras e navalhas, sombrinhas e chapéus de sol, assobiando os ares com o trinado de uma gaita de beiços que os anunciava, de rua em rua; os carregadores de pianos, animais de carga, corda enrolada a tiracolo, ajoujando escada acima cargas bestiais, em troca de uns vinténs; e eram, enfim, os das carvoarias e tascas, casas de pasto e por vezes pensões de curta permanência. A Lisboa gastronómica chique do «Gambrinus» a eles se deve, o popular «João do Grão», a eles pertence. Com uma variante que Cardoso Pires recorda: o João do Grão tinha os talheres presos à mesa com correntes, «para evitar distracções do cliente de mão sem escrúpulos». E o que por aí há mais são distraídos.

Uma vida que começa

Partiu, ontem, cedo na manhã. Uma vida adulta que enfim começa. E em mim, na desolação solitária daquele instante, no que eu gostaria de ter sabido converter em lágrimas, o desejo profundo do melhor dos mundos para ela. Hoje, neste domingo dorminhoco de Inverno, um estranho vazio acompanha-me. Escreveu-me, uma mensagem breve, daquelas em que tudo se diz no pequeno écran de um telefone. O texto é curto, diz que chegou bem, começa com a palavra pai.

O único e o singular de cada amor

Não tinha chegado a dizê-lo, mas o «Diário Íntimo» do Manuel Laranjeira, li-o há dias numa biblioteca pública, aproveitando o tempo durante o qual muitos outros almoçam. Mas ontem que foi sábado, encontrei-o, muito escondido e como se agachado num alfarrabista do Chiado. E esta manhã, ao acordar tarde, com a angústia de já passar das dez, um súbito ímpeto levou-me a ler-lhe o prefácio, o que na altura desconsiderara. Escreveu-o Alberto de Serpa. O prefaciador conheceu o prefaciado e sente-se que o absolve, àquele «pessimista místico», desencontrado com Deus, aquele que viveu «pedindo à existência terrena perfeição e paz que nunca podem ser dela» e morreu com as próprias mãos. Mas um «Diário Íntimo», um diário de amores, é algo de tão próprio, tão único e tão singular, que editá-lo é como que vingar um morto, ante a nudez embaraçosa dos vivos. Mas quando há delicadeza e carinho pelo outro escreve-se como ele escreveu, a justificar-se: «um quinquagenário sabe já bem quanto meio século é pouca coisa, e por tal fui-me às inciais, aos prenomes e aos apelidos com que Laranjeira indicou personagens femininas de ainda possível descoberta, e dei-lhes uma simples letra».

17.1.06

Mau parecer

A imprensa noticia que o Brasil está a exportar para Portugal anti-rugas falsificado. Percebe-se agora porque andam todos de semblante façanhudo: até a nossa aparência verdadeira é falsa.

Uma víscera ruim

Manuel Fernandes Laranjeira compôs em 1908 um «Diário Íntimo» onde anotou que, afinal, a alma é uma víscera ruim. Pouco antes do regicídio escreveu uma série de artigos, que Luiz Pacheco viria a editar-lhe, em trezentos modestos exemplares, na Contraponto. São notas soltas sobre o «pessimismo nacional», sobre as «quadrilhas messiânicas», sobre a «enfermidade congénita» dos portugueses, maleita que é um sintoma alarmante «de uma doença infecciosa grave», toda «de natureza parasitária». Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho no dia 22 de Fevereiro de 1912, com um tiro na cabeça, como era inevitável. Dele disse Miguel de Unamuno que «a vida o matou e ele deu vida à morte», como à de Portugal uma «Nação morta destinada a ser devorada pelas Nações vivas». Numa carta a Amadeo de Souza-Cardoso, Laranjeira, médico, diagnosticou a sua doença, a dos que sentem «morrer a vida» por não talhar a vida ao seu ideal.

16.1.06

Um dia

A indelicadeza é isto, visitarem-nos e nós não retribuirmos, falarem em nós e ser como se nem tivessemos dado conta. A selvajaria, porém, é tudo isto acontecer e um dia, a dois de Janeiro, ter morrido alguém e isso ser como se nem tivesse acontecido. Claro que há um sentimento de remorso. Confessá-lo não resolve, é uma forma apenas de me envergonhar publicamente.

15.1.06

É só carregar no «on»!

Groucho Marx considerava a televisão um meio muito educativo: cada vez que alguém a ligava, ele ia ler um livro. Hoje, com a proliferação de canais, é caso para se dizer, podem ler-se bibliotecas inteiras.

Nos teus olhos altamente perigosas

«Tu não poderias ficar presa comigo à roda em que apodreço, apodrecemos». Hoje é domingo, ouve comigo Alexandre O'Neill. A alegria sonâmbula, o modo funcionário de viver, a miséria de uma noite gerada por um dia igual.

Saudades do gasolim

Na selvajaria de que se faz vida há lugares magníficos onde não vamos, momentos de beleza que perdemos, recantos de sensibilidade que esquecemos. Hoje voltei ao gasolim ultramarino, para matar saudades.

A Praça de Espanha

Hoje o dia deu em chuva. Por ser domingo parece que chove mais e de modo que mais encharca. Refugiado num patamar de uma rua sem cafés, pesa-me tudo o que poderia estar a fazer a esta hora. Um casal de turistas pergunta-me pela Paça de Espanha. Condenando-o à desilusão do inóspito com que se vão surpeender quando lá chegarem, digo-lhes que é ali, mais em frente, sempre em frente.

Ler, rir e viajar

Há nos jornais suplementos sobre viagens, que parecem publicidade encapotada dos departamentos turísticos das embaixadas estrangeiras, quando não das próprias agências de viagens. São todos tão informativos como o «Guide Michelin», alguns sóbrios como o «Rough Guide». O que raramente são é divertidos. Ler e rir nem sempre acontece. Mas sucedeu hoje. O artigo é sobre o homem que atravessou um país inteiro durante uma semana, conhecendo-o detalhadamente. O país chama-se Andorra.

Tempus fugit

Há um livro onde se explica porque é que o tempo parece correr mais depressa à medida que envelhecemos, demonstrando como por o nosso relógio biológico, com a passagem do tempo, andar com mais vagar, tudo o resto parece decorrer mais rápido. Será um livro interessante, mas seguramente é daqueles que não vou ler, só por já não ter tempo para isso. Há pouco ainda me parecia ser sábado, amanhã já é segunda feira. Um vizinho desce a escada apressado, o autocarro em frente arranca veloz, um jovem casal, abraçado, corre ágil para fugir da chuva.

13.1.06

Alça daqui!

Viaja-se no espaço Schengen, e são os acordos de Schengen, e não há cooperação judicial que não seja a de Schengen, nem questões sobre passaportes em que não se fale de Schengen. Nesta maçada institucionalizada que é a Europa, uma coisa fantástica está na parede de uma igreja, a caminho da feira da ladra: «Schengen, sai deste espaço!». Assim, sem mais nem menos, a bazar! Um cão tristonho, pelo rente e ar desiludido, alçava ali pata, regando a dita parede. Vadio, ele era, em quatro patas, a imagem da excepção a Schengen: nas suas deambulações por este seu mundo de caixotes do lixo, é a liberdade de circulação total!

11.1.06

Um furo!

Tive um furo, ou melhor dizendo, o pneu do meu carro furou! E então são aqueles momentos da descobertas das maravilhas do nosso mundo moderno. Primeiro, fica-se a saber que antigamente o pneu sobressalente era um pneu igual aos outros e agora é uma rodinha ridícula, a vergonha de todas as rodas que se prezam, mais pequeno que os outros pneus e pintada a uma cor absurda, com um letreiro garrafal a dizer que não pode andar a mais de oitenta à hora. Já não basta o embaraço de ficar no meio da estrada naqueles propósitos, ainda se segue depois aquela humilhação do olha aquele furou! Mas há mais! O macaco que vem no carro é um verdadeiro saguí, o liliput de toda a genealogia simiesca, espécie de alavanquinha absurda com a qual se tem que alçar o carro à força de braço, na singular posição de estar metade do tempo de cócoras e outra metade de joelhos, os intervalos agarrado aos rins. Ainda por cima, para ajudar à festa, a coisa tem todo o ar de se desconjuntar a todo o momento e cair-nos o carro em cima de um pé. Agora com os coletinhos verdes fosforecentes, um tipo nestes ademanes vê-se à meia-légua. Dirá quem me lê que o meu problema foi ter sido apanhado nesta. Não, não foi, porque consegui arrumar-me para uma ruela sossegada. Ironia do destino era em frente de uma escola de condução, onde se calhar ensinavam num quadro como mudar teoricamente um pneu. O que mais me desassossegou foi uma amiga minha dizer-me num amigável e carinhoso «coitado de ti só te faltava esta» que «um furo, que é coisa que quase não há». Pois é, minha querida, quase não há mas houve: e foi hoje e comigo, na estrada de Sintra. E não foi ao volante de um Chevrolet, nem pela estrada do sonho!

A caderneta escolar

Tenho pudor em dizer a quem pertencia. Mas ali estava, no chão, à venda, entre bugigangas diversas, a caderneta escolar de uma mulher de quem se disseram já coisas civicamente maravilhosas. É assim a Pátria agradecida e assim são as famílias que, morta a criatura, lhe despejam os papéis para o lixo. Se é para isto que serve ter família, antes ser sozinho, ou morrer pobre, sem nada para deixar.

9.1.06

O homem de Manhufe

Consegui estar este fim de semana em Amarante, por causa do Amadeo de Souza-Cardoso. A casa da família, onde viveu, está fechada a visitas. Para a descobrir é preciso perguntar e muitas vezes. Muita gente da terra nem sabe onde é Manhufe. Mas, enfim, de curva em curva, entre rotundas e inversões de marcha, lá acertámos. Já na rua da pequeníssima localidade, hesitante, abordei um passeante nos seus sessentas, que pela samarra e passo vagaroso me parecia um habitante da terra: «a casa do Amadeo Souza-Cardoso é aquela ali em baixo?», perguntei. «É sim», respondeu-me, solícito, o meu interlocutor, acrescentando, prestável: «mas olhe que ele não deve estar em casa, pois costuma ir até Lisboa». Pois costuma, pensei eu, mas a última vez que isso aconteceu foi em 1916. Pensei mas não disse, talvez com receio de ouvir como resposta um «Ah! Bem me parecia! Por isso o não vejo há tanto tempo».

8.1.06

Sendo-se justo

Acabei, enfim, a leitura do «Diário» do José Régio. Hesitante quanto ao que pensariam os seus leitores sobre as pessoas quanto às quais ele formulava, nesse gotejar de pensamentos íntimos, opiniões tão vincadas e sobretudo em que medida se influenciariam irremediavelmente em função dos seus tão vivos juízos de desfavor, Régio prevenia quanto ao que havia de circunstancial nessas suas mordazes opiniões. Vítima de críticas nem sempre respeitosas, desabafou, entretanto, por escrúpulo, num momento de verdade que difícil é ser-se justo quando se é vítima de injustiça.

7.1.06

Cantam as nossas almas

O meu pai, hoje faria anos. Nasceu há dois séculos, em 1898. Era mais velho do que o pai da minha mãe. Sempre tive um pai mais velho do que o meu avô. Tudo isso me deu uma noção da precariedade do tempo, do relativo da idade. Absoluto só o nascer, mesmo a morte conta pouco. Hoje, a estar cá, estaria de parabéns. Era o seu dia. Ao nascer, nasci, a possibilidade de mim na forma do ele.

A intranquila sensação

Cheguei com a cidade tragada por um nevoeiro gélido. Acordei com ela devolvida a uma luz crua do sol. O acordar tarde, uma sensação de estremunhamento, a angústia do tempo perdido, a ansiedade do pouco tempo que resta, os sentimentos habituais da intranquilidade. A quatrocentos quilómetros de casa, ou no quotidiano da minha monótona aldeia, sempre a mesma ideia pesecutória do mundo por haver. São quase dez e meia da manhã. A rua vazia, em redor a pacatez dorminhoca de sábado, todos indiferentes ao pecado do dormir demais.

5.1.06

Uma escrita exaurida

Há homens que ficam amarrados ao que parecem. No José Régio são os Cristos de antiquário, a fazer supor que ele era um beato católico, quando ele nega o catolicismo, declarando-se cristão; é a escrita familiar, intimista e dorida, a sugerir que ele fosse um conservador, quando ele se confessa socialista. Mas o que mais espanta é sobretudo aquele ar de eterno celibatário e misógeno, quando no seu Diário o surpreendemos nas suas obsessões sexuais e, quando calhava, a dar-lhes livre curso, até à exaustão. Há homens que parecem, enfim, amarrados ao que ficam.

4.1.06

Morreu

Saudava-o com um «olá, autor de Fast Lane», que fora o seu primeiro livro de ficção. Ele, com a bonomia tranquila expressa num sorriso, respondia com um «olá, ilustre causídico». Hoje morreu, no livro da realidade. E o ilustre causídico, agrilhoado ao remo de mais um julgamento, nem tempo terá para ir ao seu funeral. Olá Cáceres Monteiro, autor de «Fast Lane, um exercício de sedução», esta será a tua última reportagem, em busca de um Deus desconhecido.

3.1.06

A cidadela sitiada

Uma alma inquieta, mesmo contemporânea, é como uma cidadela medieval, sitiada pelo exterior das suas muralhas defensivas: confinada a si, morre de fome, saindo ao exterior é assassinada. Nisto não há nada melhor do que viver de portas abertas em convívio ameno com os nossos invasores. Claro que há nisso o risco de, num minuto de distracção, se morrer atropelado ou, num momento de distenção, nos miscigenarmos com eles.

2.1.06

A definição de uma alma

Talvez porque o António Telmo fale no José Régio, dei comigo a ler-lhe o diário que o António Maria Lisboa, seu estudioso, compilou e que se chama «Páginas de um Diário Íntimo». E ali encontro a excepcionalidade de uma definição que em si contém, em extensão e densidade, todo o conteúdo de uma alma única: «eu sou, a meus próprios olhos, um doido que por acaso nasceu com juízo». Em Régio a neurastia é aparente, surge apenas como a obsessão da sua inquietude, o seu «furioso desejo de Nada».

Adivinha quem vem jantar?

Nada como a companhia de um livro quando se janta sozinho: o livro evita-nos ter de olhar para os outros, o livro poupa-nos a ter de reparar que estão a olhar para nós. Esta noite foi uma entrevista de António Telmo a José Manuel Viegas, que ele compilou num livro a que chamou, talvez por causa do Agostinho da Silva «Viagem a Granada». Tinha acabado a sopa, uma sopa invernosa e espessa, excelente para um dia de frio, quando a frase chegou: cada português transporta dentro de si a pátria portuguesa.Telmo diz, numa outra entrevista, que Fernando Pessoa é um «poeta enorme». Do ponto de vista do que contém e deixa perceber, esta frase também.

Um tiro às escuras

A referência vem aqui, num artigo sobre a adaptação ao cinema de histórias previamente contadas em livro. Uma das graças é que «no livro as imagens são sempre melhores do que no cinema». Mas o que me ficou foi a menção a Tchekov, quando, a propósito ainda do teatro, dizia, a propósito dos tempos cénicos, que se há uma arma na primeira cena, ela tem que ser disparada na segunda. A atentar em algumas peças de teatro, o risco é serem disparadas sim, mas da plateia sobre o palco. O mesmo se diga do cinema, mas com menos sucesso.

Um homem em fuga

Sempre a fugir do calendário e a tentar fintar a agenda, fazendo da noite dia, e dos minutos horas, lá tento ler, quando posso e sobretudo quanto posso. Claro que, há umas semanas, estava a ler «As intermitências da morte», comprado logo no dia em que ele saíu. Hoje, que o tempo passou sem eu dar conta, continuo a lê-lo, no mesmo sítio onde ia. Saramago falava na folha que eu agora abri, dos que morrem de «morte parada». Também os há, eu sei, e por causa disso, o melhor é eu ler amanhã. Em matéria de leituras intermitentes, hoje fico parado.

1.1.06

Dias assim

Só um aceno. Cheguei há momentos. Não tenho nada para dizer e não quero ouvir coisa alguma. Há dias assim, completos!