9.4.06

Girando cuidadosamente

Quando eu era garoto a rádio tinha um botão, que se girava, cuidadosamente, cada milímetro fazia diferença, no receio de se perder o sinal. Esta manhã de domingo ouço rádio através da Net, um som puro, cristalino, de uma rádio clássica, em língua inglesa, sabe-se lá se situada no Reino Unido. É uma rádio que tem anúncios e que ao domingo passa discos pedidos . Entre o Porgy and Bess e os concertos brandenburgueses, ouvi-o. Era um anúncio sobre uma empresa que compra apólices de seguros de vida. O negócio é simples: quando não tiver nada mais para vender, venda o seu seguro de vida. Pagamos bem. O anúncio não o diz, mas nós compreendemos: quando morrer, nós recebemos o seu seguro, esse é o nosso lucro. Telefone para a rádio e peça a marcha fúnebre de Chopin, ou a Dança Macabra de Saint-Säens. é gratuito, fazem-lhe companhia e são lindas de morrer.

8.4.06

A extensão, a profundidade, as medidas do sentir

Eu tenho um amigo que é sábio. Não é só a cultura invulgar, a extensão e profundidade daquilo sobre o que se sabe. Procurou-me hoje, como o fazem os amigos quando não lhes aparecemos. Compreendi-o quando irradiou um sorriso acerca de terem nascido patinhos nos jardins da Fundação Gulbenkian; compreendeu-me quando lhe falei da capoeira da minha infância e da aflicção da galinha, que chocou o final dos ovos de uma pata entretanto morta, ao ver, o galináceo coraçãozito aos saltos, o que julgava serem os seus pintos, a atirarem-se para a água, logo ao saírem da casca. Eu tenho um amigo que é sábio e um sábio que é meu amigo, porque hoje, ao ter-me procurado, compreendeu nesse instante o tempo em que se era feliz.

7.4.06

Memórias de uma criada de quarto

Chamavam-se criadas no tempo da exploração serviçal, empregadas domésticas, nestes tempos de proletarização neo-vocabular. A do escritor Jorge Luís Borges chama-se Epifanía Uveda de Robledo, vulgo «Fanny». Alejandro Vaccaro, que diz andar a estudar a vida do escritor argentino há vinte anos, publicou um livro com as memórias dela, por ele coscuvilhadas. «Ninguém é herói para o seu criado de quarto»: a frase já a vi atribuída Hegel, a Platão e a Napoleão. Surpreendido em roupão e chinelos, Borges sai ridicularizado pela proeza. Magoa e ofende ler este livro. Nele conta-se que o biografado tinha uma estranha forma de se ver livre dos livros de que não gostava: abandonava-os, à vezes fazendo pacotes de que fingia esquecido aqui ou ali. Ou me engano muito ou este é o destino que leva! Abandono-o, mas em sítio onde ninguém o encontre. Este ano perfazem-se vinte anos que Borges morreu. Não tinham de o matar outra vez!

6.4.06

O verbo ter

Hoje a Natureza choveu invernosamente em dia de Primavera. Sol, só para a semana! Até lá, esperem e logo verão...

5.4.06

Rebentar de vontade

Eu tinha um blog chamado «A Revolta das Palavras». Num dia de maré vaza do meu interior, apaguei-o. Quando, arrependido por dentro e a disfarçar desenvoltura por fora, quiz repô-lo, o sistema já não o aceitou. Por isso eu hoje tenho um blog que se chama «Revolta das Palavras». Ter ficado sem o «A» foi o preço que a blogoesfera me cobrou pela minha leviandade supressora. Ora quando eu tinha um blog que tinha um «A» escrevia lá coisas que hoje escrevo aqui. Graças à amizade de quem estima o que eu escrevo mais do que eu que as escrevo, salvou-se quase todo o apagado. Isto por exemplo teria vindo para este blog, caso eu na altura o tivesse. Aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2005: «Sexta-feira a noite e estava frio, a porta da livraria, semi-cerrada. Lá dentro, о velho livreiro fechava a caixa do dia. Hesitante, entreabri. «Já fechamos, mas enquanto eu estiver por aqui, esteja a vontade», Fiquei, menos à vontade do que seria possível. O livreiro enganara-se nas contas, revia agora, meticulosamente, verba a verba, na ofídia fita da caixa registadora. Sortilégio invulgar num negócio sem futuro, aparecera-lhe dinheiro a mais: numa vida destas, só podia ser engano. Havia que desfazê-lo e ir enfim para casa, dormir um sono aritmeticamente tranquilo.
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».

4.4.06

O acaso a um euro

Num país em que a maioria dos que lêem são leitoras, eu tenho uma especial propensão por escritoras. Uma delas, como já percebeu quem me lê, é a Maria Ondina Braga, já falecida em Braga precisamente. Só que o destino tem momentos fantásticos de inesperado. Regressado de mais um dia de esgotamento profissional, achei que merecia dar umas voltas sem nexo pelas ruas do meu bairro. Àquela hora saíam dos escritórios, exauridos, os empregados por conta alheia, a vertigem do recolher, a angústia do atraso estampada no rosto, os nervos a expressarem-se em buzinadelas, os rancores na impaciência de cada gesto. Foi então que eu os encontrei, o pequeno ajuntamento de vendedores de velharias, já a empacotarem o que amanhã, uma vez mais, desembrulharão, para tornarem a expor, na mira de os vender, aquele um pouco de tudo já passado, onde há a novidade das surpresas. No meu caso foram duas. Falo aqui de uma delas. Como já dei a entender tenho uma predilecção especial pelo Graham Greene, sobre quem já escrevi em outro local. Então não é que ele ali estava, a «um euro», o seu livro «O Cônsul Honorário», naquela edição encadernada publicada em Junho de 1974 pelo Círculo de Leitores e que a Ondina Braga traduziu? Tenho-o aqui comigo nesta hora já tardia. Sei que não tenho tempo para o ler, nem à edição inglesa que comprara já nem sei onde nem quando, na altura em que comecei a reunir a sua obra.Mas fico-me por uma recordação, a de ter lido numa entrevista da Maria Ondina, em que ela se queixava de ter partido as costas a matraquear à máquina, traduzindo e traduzindo, para ganhar o seu magro sustento. Ao olhar para estas folhas amarelecidas, ao rever cada uma das suas letras que lhe enchem as páginas, eu sinto o alquebrar de um dia esgotante, o corpo carregado de dores, os dedos entumescidos, a alma entristecida, a miséria de tudo terminar a um euro, num jardim, sem nexo e por acaso.

2.4.06

A árvore frondosa

Já vivi numa aldeola que tinha como único ornamento uma igreja sem estilo, uma árvore frondosa que a ladeava, daquelas centenárias, cujas raízes parecem querer arrancar as entranhas da terra e que me lembre nada mais. Junto a essa árvore havia um banco, daqueles vulgares bancos de jardim, a armação em ferro, o assento e o encosto em madeira. Caberiam nele uns três, bem anichados. Ao domingo, lembro-me de o ver ali sentado. Vestia-se a rigor, o fato completo, camisa branca, uma gravata de cuidado nó. Ficava por ali um tempo, o tempo necessário para estar sozinho. Cismava nunca soube em quê. Mais tarde disseram-me que era um militar reformado. A sua guerra, a última batalha que travava, agora era consigo próprio. Eu vivia ao lado do cemitério, ele hoje deve viver por lá, graças ao armísticio com que os deuses da guerra se apiedam daqueles que, na batalha da vida, não sabem vencer e já não têem que perder.

1.4.06

O acaso do sol

Escrevo aqui há tanto tempo e nunca dei comigo a pensar o que pode querer dizer «a janela do ocaso». Um candidato a leitor, amigo, disse-me que não conseguia encontrar o meu blog sobre a janela do «acaso». Pois não, nem eu que já o tentei. Um dia destes, tentando defini-lo numa frase, escrevi que ele era o «blog de um ser neurótico, que escreve sobre a tragédia do existir». É em parte assim. Há em tudo isto um halo marítimo, e uma coloração poente. Mas há sobretudo uma dimensão de infinito e uma ideia de arrependimento pelas origens e remorso pelo passado. Culpando-me pelo que virá e desejando não ter vindo, os cotovelos fincados na balaustrada da vida, abandono-me em pensamentos. Se fumasse exalava-me pelas narinas do desejo, instantes de ardência, desejos de sol.

30.3.06

Porque sim

Continuo sem ler. Agora nem os jornais. Compro-os, dobro-os cuidadosamente, porque os detesto amarrotados, guardo-os na pasta e quando chega o jornal seguinte deito-os fora, sem remorsos sequer. Subnutrido literariamente, tento escerever, mas não há qualquer ideia que me pareça valer a pena. Vim aqui dizer isso. Eu sei que poderia ter-me abstido de dizê-lo. Hoje, porém, alguém me falou do Afonso Lopes Vieira e eu lembrei-me que já escrevi sobre ele, e que já visistei a sua casa, agora vazia, em São Pedro de Moel. Cheguei agora à minha casa e fui procurar na estante o livro onde o seu estilo piruteante e vibrátil havia sido celebrado. Encontrei-o. Tenho-o comigo, fazendo-me companhia, eu a escrever já com a luz do quarto a esvair-se, na rua o ranger dos automóveis dos que regressam a casa porque sim. Escreveu-o João Gaspar Simões. Lopes Vieira morreu em 1946. Escreveu «País Lilás, Desterro Azul», sobreviveu com «Onde a terra se acaba e o Mar começa». Senti-o em São Pedro Moel, estava eu sozinho com uma companhia. Lembrei-me hoje de tudo isto, porque alguém me falou e sobretudo porque sim.

29.3.06

A neguentropia termodinâmica

Zangado com a vida e irritado com o mundo, estive a arrumar os livros que se amontoam no meu quarto, perto da cama, para que eu os leia em vez de adormecer. Separei os que ando a ler, melhor dizendo os que quero mesmo ler até ao fim, pois há alguns, enjeitados da sorte, que não passam das primeiras linhas. Não é que nelas se perceba a inutilidade do resto, é só porque nelas está contido tudo o que haverá de útil para ler. Um, por exemplo, dizia assim, em jeito de dedicatória, na primeira edição: «ao meu cão Pym» e na segunda «àqueles simpáticos seres humanos que perguntaram quem era o meu cão Pym». Li-o nos tempos em que frequantei uma agremiação chamada «Centro de Estudos de Cibernética», albergada numa saleta do Instituto Superior Técnico. Não era do Gordon Pask, nem do Collin Cherry, nem do Bertalanffy, nem do von Neumann. Pronto, não sei de quem é, mas lembro-me do resto, como por exemplo a dedicatória. Nessa altura eu acreditava na segunda lei da termodinâmica, a da desordem entrópica do universo. Hoje convivo com ela, fazendo disso modo de vida, com uma vida de cão, pior que a do Pym!

26.3.06

O veneno do amor

São aquelas edições belíssimas da brasileira Aguilar que a nossa Lello também tinha, encadernadas a sangue de boi, gravadas a ouro velho!. Comprei nela o saltitante Almada Negreiros, não o bisonho Pessoa, ontem atrevi-me e trouxe o desesperado Mário de Sá-Carneiro. Tudo tem uma explicação. Do Pessoa não comprei porque, com tanto escrito póstumo ainda a sair-lhe ainda da arca literária, desconfio das «Obras Completas», que o homem, como se mediúnico fosse, só pode ainda escrever em morto, produz ectoplasmicamente post-cadáver. Mas trouxe o Mário de Sá-Carneiro, porque me quiz oferecer uma prenda de aniversário e porque, folheando-o ainda na livraria, ali estava, esfíngica nótula introdutória, feita pela mão do próprio Pessoa, aquele «quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo», tragédia de todos os amantes, morte de todo o amor. Mário de Sá-Carneiro suicidou-se, envenenando-se, no Hotel de Nice, em 26 de Abril de 1916. Foi enterrado no Cemitério de Pantin, em sepultura que desapareceu em 1949, o ano em que eu nasci.

25.3.06

Em hora de azar

Como ninguém gosta de tipos acabrunhados e macambúzios, e como uma pessoa se torna embaraçosamente notada quando anda pelas vielas da amargura, optei este sábado por abastecer-me na livraria da alegria. Nos meus tempos de garoto, havia no barbeiro onde cortava o cabelo, ao lado dos livros de quadradinhos «O Mundo Ri». Em casa da minha mãe ainda há por lá, amarelinho de antigo, o «Gazes Hilariantes» do Nelson de Barros. Claro que tudo isto é hoje de alfarrábio e de loja de adelo. Fui por isso à literatura fina e dei de caras com uma reedição do livro «As pessoas felizes», que a Agustina Bessa-Luís escreveu em 1975. Trouxe-o comigo. Devolvido, enfim, ao sofá da leitura, cheguei à conclusão que ando em hora de azar. Calho abrir a página 187 e logo ali onde vem: «No ano de 1971 caiu sobre a família dos Carrancas uma série de calamidades. Aconteceram num ritmo tão rápido que não deixaram de impressionar toda a gente. As pessoas felizes desagregavam-se». Desisto.Vou ler o «Angústia para o jantar» do Luís de Sttau Monteiro, ou então, talvez, melhor, vou mesmo jantar, que o meu mal deve ser fome.

24.3.06

O vagabundo caído

Nasci, segundo ouvi contar pelas duas e vinte da madrugada. Nessa noite teria havia uma forte trovoada e um raio atingira em cheio, rachando-a ao meio, uma árvore em frente à nossa casa.
Lembro-me da árvore, dividida em dois corpos, a copa cindida roçando o chão, o tronco carcomido, como as pernas soerguidas de um vagabundo caído. Árvore assombrada, tocada por uma faísca fatal, aquela amalgamava vegetal e mineral, petrificada, estava morta e embalsamada e plantada em frente à minha infância.
Se acreditasse em premonições, aquele espectáculo ígneo de uma árvore fulminada por um relâmpago, ter-me-ia causado o arrepio de uma antevisão do futuro. Mas, afinal, era apenas a expressão de um mau momento na natureza.
Por detrás dela, a árvore morta, cujo nome, eu pouco entendido em árvores, aliás não sei, uma outra, majestosa em altura, se plantara, uma palmeira.
Ao fim da tarde, bandos de corvos, concentravam-se nela, para a noite, onde faziam abrigo. Aquele ritual diário, ao pôr-de-sol, de centenas de aves agitando as suas asas negras e, como cachos, aninhando-se nos ramos dentados da palmeira, ensinou-me, pelo olhar de uma criança, o que era uma vida a cumprir-se, o que era a força arrebatadora do instinto vital feito apelo, o que era, sobretudo, a desolação das almas, cantada no grasnar aflito daqueles rapinantes, projectados majestosamente ao crepúsculo.
Se eu eu tivesse aprebdido então que os nossos sonhos, as nossas ambições, os nossos devaneios, não resistem à migração eterna como a daqueles corvos, a que nossa condição também nos condena, teria evitado algumas das minhas errâncias voluntariosas e ter-me-ia deixado seguir no ciclo vital da rotina e regressado, ao fim de cada dia, como todos os do meu ninho familiar, à minha palmeira.
Assim, nasci por coincidência, num mau momento, e saído um dia da minha palmeira na Rua Vasco da Gama, perdi-me do resto do bando e ao poente, já não regressei. Errante pelo mundo alheio e nele estrangeiro, a minha pátria não é, por isso, um chão a que retorne, é a ideia de umas raízes a que me prenda.

Vamos por partes!

Umas das coisas notáveis da evolução da vida, mesmo a humana, é que uma pessoa chega à conclusão que tem umas partes do corpo mais novas do que outras. O estômago, por exemplo, só se gasta pelas horas das refeições que, no caso dos pobretanas, coitados, são muito breves. O cérebro, por exemplo, em algumas pessoas, só se gasta na hora das digestões, para se lembrarem, os tristes, a que horas é que têem de voltar a comer. Claro que depois há no homem a barba é que é mais nova que o cabelo, a mama que na mulher é mais nova que o umbigo. Quanto ao resto, em que estão a pensar, como dizia o Alfredo Marceneiro, o problema não é de juventude ou de velhice: às vezes não é da idade, são os desgostos da vida! Por isso, parabéns a você e muitos anos de vida e pró menino Zézinho, uma salva de palmas!

23.3.06

A terra do nunca

Hoje, como que a demonstrar que chegou a primavera, largou a chover a voltou o frio. Outro dia alguém me disse que ia mudar a hora. Há algum tempo mudou o século. Pergunto-me, pasmado neste mundo de mudança, se não se poderá manter qualquer das coisas que fluem, nesse vogar do nunca para o sempre. Interrompia-se, por exemplo, aquele minuto de ilusão, em que aos dezoito anos eu escrevia versos silenciosos. Ficávamos por aí; nada mais haveria para dizer, ou sequer a quem.

21.3.06

A sagração da primavera

Começa hoje a primavera e eu, aberta a janela do meu quarto, dou comigo como que a desejar que, também na rua, pudesse estar a chover, uma chuva profunda, o céu abatendo-se sobre o mundo, em bátegas desoladas de uma profunda consternação.

19.3.06

Os ressentimentos à solta

Filho és, pai serás, assim como fizeste, assim acharás. O provérbio popular é antigo. Ouvi-o, li-o, nunca lhe liguei importância. E, no entanto, aquela cena estranha da cama vazia do hospital, naquela tarde de visita, como que a acusar-me de tanta omissão, visitou-me esta tarde. É domingo, cada um dos filhos para cada lado, os remorsos a ocuparem o lugar dos afectos, o dia do pai. E, no entanto, eu tinha então vinte anos, melancólicos e solitários. Saí dali e logo ao lado encomendei um enterro, que as agências funerárias rodeiam hospitais como abutres ao cheiro de morto. Por não podermos mais, pedi o mais barato funeral que houvesse, daqueles em que desaparafusam os crucifixos antes de baixar o caixão ao coval, para os aplicarem no próximo que siga. Quando, ao fim da tarde, esperei a minha mãe ao começo da nossa rua, ela compreendeu na minha presença e no meu silêncio, o que havia para entender. O pai do seu filho tinha, enfim, terminado os seus dias. Acompanhando-nos, velámos o corpo essa noite. No dia seguinte a casa estava mais fria. Os ressentimentos, à solta, gelavam-nos a alma.

17.3.06

O estranho sentimento

Subnutrido literariamente, moído de trabalho, sem tempo sequer para um jornal, estendo-me a um qualquer dos livros já semi-lidos que se acumulam abandonados. Um deles, que já dei como terminado quando devo, afinal, recomeçá-lo, são «Os Meus Sentimentos», da Dulce Cardoso. Outro dia, um qualquer crítico literário dizia do livro ter uma capa algo como ridícula. Senti, ao ofender-me com isso, que lhe tinha ganho amor, aquele estranho sentimento de um leitor pelo seu autor.

16.3.06

Uma cópia do que foi

Em tempos tive um blog a que chamei «O Mundo em Gavetas». Num repente, apaguei-o. Graças à amizade, recuperou-se um cópia. Seria ridículo que, arrependido do acto, o repusesse no ar: tal como as emissões de rádio, que se perdem no éter, a escrita desvanece-se no espaço sideral dos afectos. Mas aqui e além surgirão alguns dos seus momentos: não pelo que significaram então, mas pelo que simbolizam hoje, poeira cósmica no mundo do sentir.

Escrita de sobrevivência

Esta escrita, tal como a vida que ela parasita, tem com os cogumelos uma extraodinária semelhança: vegeta no escuro e alimenta-se de putrefacção. Literatura excrementária, é frequentemente venenosa, por vezes alucinogénica. Pior ainda, espraia-se como tortulhos, prolifera como míscaros, nos cascos podres das árvores. Ela simboliza o que não há, supre o que falta, simula o que existe. A sua ontologia é uma mitologia, a de que escrevendo, sobrevivo.