Foi neste livro que eu li sobre as raparigas «que lhe subiam ao quarto por curiosidade de amor, que não era amor». Lê-se isto e não mais se esquece de ter lido. Talvez tenha acontecido assim com o José de Almada-Negreiros. Isso pouco importa, ter sido com ele.
16.4.06
Um futuro insensato
«Os homens sensatos adaptam-se ao mundo, os insensatos tentam que o mundo se adapate a eles. Por isso o progresso depende sempre de homens insensatos». A frase pertence a Bernard Shaw. Dá vontade de acrescentar, «por muito insensato que isso pareça».Mas dá ainda mais vontade ainda de acordar num domingo, manhã cedo, e acreditar tanto nisso que se passa a viver assim.
14.4.06
O homem do Livro das Maravilhas
Descobri-as, as outras línguas, compreensíveis numa parte, adivinháveis no resto. Não mais sairei daqui, deste mundo análogo dos dicionários, invariante das gramáticas, expansível da fonética, dúctil da morfologia. Começo com Ramon Lull, que terá nascido em 1232 e falecido em 1315 e que tem estátua em Palma de Maiorca. Vem no seu Cant de Ramon:
«(...) Vull morir en pèlag d'amor.
Per ésser gran no n'hai paor
de mal príncep ne mal pastor.
Tots jorns consir la deshonor
que fan a Dé li gran senyor
qui meten lo món en error (...)».
É uma hossana magnífica, linda de se dizer, e que termina em glória, assim e por esta forma:
«(...) Man Déus als cels e als elements,
plantes e totes res vivents
que no em facen mal ni turments.
Dó'm Déus companyons coneixen'
devots, lleials, humils, tements,
a procurar sos honraments».
Um tempo cruel
Os que desde ontem vinham, porta fora, à busca de sol levam com chuva. Encalorados, devem estar hoje em casa, à janela, a fumegar. Domingo regressam para as suas vidas quotidianas, em banho-maria.
12.4.06
Farsi
Segundo noticia o jornal o site iraniano «Iranmania», o povo português está cada vez mais interessado em aprender «farsi»e conhecer as literaturas orientais. Sepideh Radfar, uma linguista residente em Portugal anunciou assim a publicação em português do poema «Masnaviy-e Manavi ». A notícia já havia sido divulgada há um ano num blog que, entretanto, desapareceu. A língua farsi é das mais faladas línguas persas. Quem conhecer este nosso país pensaria que seria a língua dos farsantes, daí o seu progressivo interesse. Passe a brincadeira, o assunto é sério e vale a pena: Um universo desconhecido, num mundo carregado de trivialidades.
10.4.06
As penas de quem vive da pena
Um autor acaba um livro quando sente, raivoso, que o odeia, quando não acredita, desconfiado, que aquilo seja legível, quando morde, danado, em que lho queira emendar. Eu acho que um autor acaba um livro quando o entrega aos críticos para que o desfaçam, aos leitores para que o venalizem, trocando-o por reles dinheiro. Eu acho que acabei um livro. Ainda estou sem críticos e sem dinheiro, mas já tenho quem me odeie a mim, leia o livro e nos emende a ambos, às gralhas dele e aos meus ódios, raivas e danações. Eu acho que acabei o livro, antes que o livro acabasse comigo. Foi em legítima defesa da literatura, juro! Agora rendo-me aos tipógrafos, aos gráficos e aos distribuidores, os meus carcereiros para a longa pena de reclusão editorial a que me condeno.Quando sair a segunda edição, talvez venha a casa, de precária, um fim de semana.
9.4.06
Girando cuidadosamente
Quando eu era garoto a rádio tinha um botão, que se girava, cuidadosamente, cada milímetro fazia diferença, no receio de se perder o sinal. Esta manhã de domingo ouço rádio através da Net, um som puro, cristalino, de uma rádio clássica, em língua inglesa, sabe-se lá se situada no Reino Unido. É uma rádio que tem anúncios e que ao domingo passa discos pedidos . Entre o Porgy and Bess e os concertos brandenburgueses, ouvi-o. Era um anúncio sobre uma empresa que compra apólices de seguros de vida. O negócio é simples: quando não tiver nada mais para vender, venda o seu seguro de vida. Pagamos bem. O anúncio não o diz, mas nós compreendemos: quando morrer, nós recebemos o seu seguro, esse é o nosso lucro. Telefone para a rádio e peça a marcha fúnebre de Chopin, ou a Dança Macabra de Saint-Säens. é gratuito, fazem-lhe companhia e são lindas de morrer.
8.4.06
A extensão, a profundidade, as medidas do sentir
Eu tenho um amigo que é sábio. Não é só a cultura invulgar, a extensão e profundidade daquilo sobre o que se sabe. Procurou-me hoje, como o fazem os amigos quando não lhes aparecemos. Compreendi-o quando irradiou um sorriso acerca de terem nascido patinhos nos jardins da Fundação Gulbenkian; compreendeu-me quando lhe falei da capoeira da minha infância e da aflicção da galinha, que chocou o final dos ovos de uma pata entretanto morta, ao ver, o galináceo coraçãozito aos saltos, o que julgava serem os seus pintos, a atirarem-se para a água, logo ao saírem da casca. Eu tenho um amigo que é sábio e um sábio que é meu amigo, porque hoje, ao ter-me procurado, compreendeu nesse instante o tempo em que se era feliz.
7.4.06
Memórias de uma criada de quarto
Chamavam-se criadas no tempo da exploração serviçal, empregadas domésticas, nestes tempos de proletarização neo-vocabular. A do escritor Jorge Luís Borges chama-se Epifanía Uveda de Robledo, vulgo «Fanny». Alejandro Vaccaro, que diz andar a estudar a vida do escritor argentino há vinte anos, publicou um livro com as memórias dela, por ele coscuvilhadas. «Ninguém é herói para o seu criado de quarto»: a frase já a vi atribuída Hegel, a Platão e a Napoleão. Surpreendido em roupão e chinelos, Borges sai ridicularizado pela proeza. Magoa e ofende ler este livro. Nele conta-se que o biografado tinha uma estranha forma de se ver livre dos livros de que não gostava: abandonava-os, à vezes fazendo pacotes de que fingia esquecido aqui ou ali. Ou me engano muito ou este é o destino que leva! Abandono-o, mas em sítio onde ninguém o encontre. Este ano perfazem-se vinte anos que Borges morreu. Não tinham de o matar outra vez!
6.4.06
O verbo ter
Hoje a Natureza choveu invernosamente em dia de Primavera. Sol, só para a semana! Até lá, esperem e logo verão...
5.4.06
Rebentar de vontade
Eu tinha um blog chamado «A Revolta das Palavras». Num dia de maré vaza do meu interior, apaguei-o. Quando, arrependido por dentro e a disfarçar desenvoltura por fora, quiz repô-lo, o sistema já não o aceitou. Por isso eu hoje tenho um blog que se chama «Revolta das Palavras». Ter ficado sem o «A» foi o preço que a blogoesfera me cobrou pela minha leviandade supressora. Ora quando eu tinha um blog que tinha um «A» escrevia lá coisas que hoje escrevo aqui. Graças à amizade de quem estima o que eu escrevo mais do que eu que as escrevo, salvou-se quase todo o apagado. Isto por exemplo teria vindo para este blog, caso eu na altura o tivesse. Aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2005: «Sexta-feira a noite e estava frio, a porta da livraria, semi-cerrada. Lá dentro, о velho livreiro fechava a caixa do dia. Hesitante, entreabri. «Já fechamos, mas enquanto eu estiver por aqui, esteja a vontade», Fiquei, menos à vontade do que seria possível. O livreiro enganara-se nas contas, revia agora, meticulosamente, verba a verba, na ofídia fita da caixa registadora. Sortilégio invulgar num negócio sem futuro, aparecera-lhe dinheiro a mais: numa vida destas, só podia ser engano. Havia que desfazê-lo e ir enfim para casa, dormir um sono aritmeticamente tranquilo.
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».
4.4.06
O acaso a um euro
Num país em que a maioria dos que lêem são leitoras, eu tenho uma especial propensão por escritoras. Uma delas, como já percebeu quem me lê, é a Maria Ondina Braga, já falecida em Braga precisamente. Só que o destino tem momentos fantásticos de inesperado. Regressado de mais um dia de esgotamento profissional, achei que merecia dar umas voltas sem nexo pelas ruas do meu bairro. Àquela hora saíam dos escritórios, exauridos, os empregados por conta alheia, a vertigem do recolher, a angústia do atraso estampada no rosto, os nervos a expressarem-se em buzinadelas, os rancores na impaciência de cada gesto. Foi então que eu os encontrei, o pequeno ajuntamento de vendedores de velharias, já a empacotarem o que amanhã, uma vez mais, desembrulharão, para tornarem a expor, na mira de os vender, aquele um pouco de tudo já passado, onde há a novidade das surpresas. No meu caso foram duas. Falo aqui de uma delas. Como já dei a entender tenho uma predilecção especial pelo Graham Greene, sobre quem já escrevi em outro local. Então não é que ele ali estava, a «um euro», o seu livro «O Cônsul Honorário», naquela edição encadernada publicada em Junho de 1974 pelo Círculo de Leitores e que a Ondina Braga traduziu? Tenho-o aqui comigo nesta hora já tardia. Sei que não tenho tempo para o ler, nem à edição inglesa que comprara já nem sei onde nem quando, na altura em que comecei a reunir a sua obra.Mas fico-me por uma recordação, a de ter lido numa entrevista da Maria Ondina, em que ela se queixava de ter partido as costas a matraquear à máquina, traduzindo e traduzindo, para ganhar o seu magro sustento. Ao olhar para estas folhas amarelecidas, ao rever cada uma das suas letras que lhe enchem as páginas, eu sinto o alquebrar de um dia esgotante, o corpo carregado de dores, os dedos entumescidos, a alma entristecida, a miséria de tudo terminar a um euro, num jardim, sem nexo e por acaso.
2.4.06
A árvore frondosa
Já vivi numa aldeola que tinha como único ornamento uma igreja sem estilo, uma árvore frondosa que a ladeava, daquelas centenárias, cujas raízes parecem querer arrancar as entranhas da terra e que me lembre nada mais. Junto a essa árvore havia um banco, daqueles vulgares bancos de jardim, a armação em ferro, o assento e o encosto em madeira. Caberiam nele uns três, bem anichados. Ao domingo, lembro-me de o ver ali sentado. Vestia-se a rigor, o fato completo, camisa branca, uma gravata de cuidado nó. Ficava por ali um tempo, o tempo necessário para estar sozinho. Cismava nunca soube em quê. Mais tarde disseram-me que era um militar reformado. A sua guerra, a última batalha que travava, agora era consigo próprio. Eu vivia ao lado do cemitério, ele hoje deve viver por lá, graças ao armísticio com que os deuses da guerra se apiedam daqueles que, na batalha da vida, não sabem vencer e já não têem que perder.
1.4.06
O acaso do sol
Escrevo aqui há tanto tempo e nunca dei comigo a pensar o que pode querer dizer «a janela do ocaso». Um candidato a leitor, amigo, disse-me que não conseguia encontrar o meu blog sobre a janela do «acaso». Pois não, nem eu que já o tentei. Um dia destes, tentando defini-lo numa frase, escrevi que ele era o «blog de um ser neurótico, que escreve sobre a tragédia do existir». É em parte assim. Há em tudo isto um halo marítimo, e uma coloração poente. Mas há sobretudo uma dimensão de infinito e uma ideia de arrependimento pelas origens e remorso pelo passado. Culpando-me pelo que virá e desejando não ter vindo, os cotovelos fincados na balaustrada da vida, abandono-me em pensamentos. Se fumasse exalava-me pelas narinas do desejo, instantes de ardência, desejos de sol.
30.3.06
Porque sim
Continuo sem ler. Agora nem os jornais. Compro-os, dobro-os cuidadosamente, porque os detesto amarrotados, guardo-os na pasta e quando chega o jornal seguinte deito-os fora, sem remorsos sequer. Subnutrido literariamente, tento escerever, mas não há qualquer ideia que me pareça valer a pena. Vim aqui dizer isso. Eu sei que poderia ter-me abstido de dizê-lo. Hoje, porém, alguém me falou do Afonso Lopes Vieira e eu lembrei-me que já escrevi sobre ele, e que já visistei a sua casa, agora vazia, em São Pedro de Moel. Cheguei agora à minha casa e fui procurar na estante o livro onde o seu estilo piruteante e vibrátil havia sido celebrado. Encontrei-o. Tenho-o comigo, fazendo-me companhia, eu a escrever já com a luz do quarto a esvair-se, na rua o ranger dos automóveis dos que regressam a casa porque sim. Escreveu-o João Gaspar Simões. Lopes Vieira morreu em 1946. Escreveu «País Lilás, Desterro Azul», sobreviveu com «Onde a terra se acaba e o Mar começa». Senti-o em São Pedro Moel, estava eu sozinho com uma companhia. Lembrei-me hoje de tudo isto, porque alguém me falou e sobretudo porque sim.
29.3.06
A neguentropia termodinâmica
Zangado com a vida e irritado com o mundo, estive a arrumar os livros que se amontoam no meu quarto, perto da cama, para que eu os leia em vez de adormecer. Separei os que ando a ler, melhor dizendo os que quero mesmo ler até ao fim, pois há alguns, enjeitados da sorte, que não passam das primeiras linhas. Não é que nelas se perceba a inutilidade do resto, é só porque nelas está contido tudo o que haverá de útil para ler. Um, por exemplo, dizia assim, em jeito de dedicatória, na primeira edição: «ao meu cão Pym» e na segunda «àqueles simpáticos seres humanos que perguntaram quem era o meu cão Pym». Li-o nos tempos em que frequantei uma agremiação chamada «Centro de Estudos de Cibernética», albergada numa saleta do Instituto Superior Técnico. Não era do Gordon Pask, nem do Collin Cherry, nem do Bertalanffy, nem do von Neumann. Pronto, não sei de quem é, mas lembro-me do resto, como por exemplo a dedicatória. Nessa altura eu acreditava na segunda lei da termodinâmica, a da desordem entrópica do universo. Hoje convivo com ela, fazendo disso modo de vida, com uma vida de cão, pior que a do Pym!
26.3.06
O veneno do amor
São aquelas edições belíssimas da brasileira Aguilar que a nossa Lello também tinha, encadernadas a sangue de boi, gravadas a ouro velho!. Comprei nela o saltitante Almada Negreiros, não o bisonho Pessoa, ontem atrevi-me e trouxe o desesperado Mário de Sá-Carneiro. Tudo tem uma explicação. Do Pessoa não comprei porque, com tanto escrito póstumo ainda a sair-lhe ainda da arca literária, desconfio das «Obras Completas», que o homem, como se mediúnico fosse, só pode ainda escrever em morto, produz ectoplasmicamente post-cadáver. Mas trouxe o Mário de Sá-Carneiro, porque me quiz oferecer uma prenda de aniversário e porque, folheando-o ainda na livraria, ali estava, esfíngica nótula introdutória, feita pela mão do próprio Pessoa, aquele «quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo», tragédia de todos os amantes, morte de todo o amor. Mário de Sá-Carneiro suicidou-se, envenenando-se, no Hotel de Nice, em 26 de Abril de 1916. Foi enterrado no Cemitério de Pantin, em sepultura que desapareceu em 1949, o ano em que eu nasci.
25.3.06
Em hora de azar
Como ninguém gosta de tipos acabrunhados e macambúzios, e como uma pessoa se torna embaraçosamente notada quando anda pelas vielas da amargura, optei este sábado por abastecer-me na livraria da alegria. Nos meus tempos de garoto, havia no barbeiro onde cortava o cabelo, ao lado dos livros de quadradinhos «O Mundo Ri». Em casa da minha mãe ainda há por lá, amarelinho de antigo, o «Gazes Hilariantes» do Nelson de Barros. Claro que tudo isto é hoje de alfarrábio e de loja de adelo. Fui por isso à literatura fina e dei de caras com uma reedição do livro «As pessoas felizes», que a Agustina Bessa-Luís escreveu em 1975. Trouxe-o comigo. Devolvido, enfim, ao sofá da leitura, cheguei à conclusão que ando em hora de azar. Calho abrir a página 187 e logo ali onde vem: «No ano de 1971 caiu sobre a família dos Carrancas uma série de calamidades. Aconteceram num ritmo tão rápido que não deixaram de impressionar toda a gente. As pessoas felizes desagregavam-se». Desisto.Vou ler o «Angústia para o jantar» do Luís de Sttau Monteiro, ou então, talvez, melhor, vou mesmo jantar, que o meu mal deve ser fome.
24.3.06
O vagabundo caído
Nasci, segundo ouvi contar pelas duas e vinte da madrugada. Nessa noite teria havia uma forte trovoada e um raio atingira em cheio, rachando-a ao meio, uma árvore em frente à nossa casa.
Lembro-me da árvore, dividida em dois corpos, a copa cindida roçando o chão, o tronco carcomido, como as pernas soerguidas de um vagabundo caído. Árvore assombrada, tocada por uma faísca fatal, aquela amalgamava vegetal e mineral, petrificada, estava morta e embalsamada e plantada em frente à minha infância.
Se acreditasse em premonições, aquele espectáculo ígneo de uma árvore fulminada por um relâmpago, ter-me-ia causado o arrepio de uma antevisão do futuro. Mas, afinal, era apenas a expressão de um mau momento na natureza.
Por detrás dela, a árvore morta, cujo nome, eu pouco entendido em árvores, aliás não sei, uma outra, majestosa em altura, se plantara, uma palmeira.
Ao fim da tarde, bandos de corvos, concentravam-se nela, para a noite, onde faziam abrigo. Aquele ritual diário, ao pôr-de-sol, de centenas de aves agitando as suas asas negras e, como cachos, aninhando-se nos ramos dentados da palmeira, ensinou-me, pelo olhar de uma criança, o que era uma vida a cumprir-se, o que era a força arrebatadora do instinto vital feito apelo, o que era, sobretudo, a desolação das almas, cantada no grasnar aflito daqueles rapinantes, projectados majestosamente ao crepúsculo.
Se eu eu tivesse aprebdido então que os nossos sonhos, as nossas ambições, os nossos devaneios, não resistem à migração eterna como a daqueles corvos, a que nossa condição também nos condena, teria evitado algumas das minhas errâncias voluntariosas e ter-me-ia deixado seguir no ciclo vital da rotina e regressado, ao fim de cada dia, como todos os do meu ninho familiar, à minha palmeira.
Assim, nasci por coincidência, num mau momento, e saído um dia da minha palmeira na Rua Vasco da Gama, perdi-me do resto do bando e ao poente, já não regressei. Errante pelo mundo alheio e nele estrangeiro, a minha pátria não é, por isso, um chão a que retorne, é a ideia de umas raízes a que me prenda.
Lembro-me da árvore, dividida em dois corpos, a copa cindida roçando o chão, o tronco carcomido, como as pernas soerguidas de um vagabundo caído. Árvore assombrada, tocada por uma faísca fatal, aquela amalgamava vegetal e mineral, petrificada, estava morta e embalsamada e plantada em frente à minha infância.
Se acreditasse em premonições, aquele espectáculo ígneo de uma árvore fulminada por um relâmpago, ter-me-ia causado o arrepio de uma antevisão do futuro. Mas, afinal, era apenas a expressão de um mau momento na natureza.
Por detrás dela, a árvore morta, cujo nome, eu pouco entendido em árvores, aliás não sei, uma outra, majestosa em altura, se plantara, uma palmeira.
Ao fim da tarde, bandos de corvos, concentravam-se nela, para a noite, onde faziam abrigo. Aquele ritual diário, ao pôr-de-sol, de centenas de aves agitando as suas asas negras e, como cachos, aninhando-se nos ramos dentados da palmeira, ensinou-me, pelo olhar de uma criança, o que era uma vida a cumprir-se, o que era a força arrebatadora do instinto vital feito apelo, o que era, sobretudo, a desolação das almas, cantada no grasnar aflito daqueles rapinantes, projectados majestosamente ao crepúsculo.
Se eu eu tivesse aprebdido então que os nossos sonhos, as nossas ambições, os nossos devaneios, não resistem à migração eterna como a daqueles corvos, a que nossa condição também nos condena, teria evitado algumas das minhas errâncias voluntariosas e ter-me-ia deixado seguir no ciclo vital da rotina e regressado, ao fim de cada dia, como todos os do meu ninho familiar, à minha palmeira.
Assim, nasci por coincidência, num mau momento, e saído um dia da minha palmeira na Rua Vasco da Gama, perdi-me do resto do bando e ao poente, já não regressei. Errante pelo mundo alheio e nele estrangeiro, a minha pátria não é, por isso, um chão a que retorne, é a ideia de umas raízes a que me prenda.
Vamos por partes!
Umas das coisas notáveis da evolução da vida, mesmo a humana, é que uma pessoa chega à conclusão que tem umas partes do corpo mais novas do que outras. O estômago, por exemplo, só se gasta pelas horas das refeições que, no caso dos pobretanas, coitados, são muito breves. O cérebro, por exemplo, em algumas pessoas, só se gasta na hora das digestões, para se lembrarem, os tristes, a que horas é que têem de voltar a comer. Claro que depois há no homem a barba é que é mais nova que o cabelo, a mama que na mulher é mais nova que o umbigo. Quanto ao resto, em que estão a pensar, como dizia o Alfredo Marceneiro, o problema não é de juventude ou de velhice: às vezes não é da idade, são os desgostos da vida! Por isso, parabéns a você e muitos anos de vida e pró menino Zézinho, uma salva de palmas!
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