11.5.06

O hipnótico mundo dos quês

Esgotado de sono e sem conseguir dormir, tentei adormecer. Para me tranquilizar comigo tentei ler. Há quem beba leite quente. Voltei ao «Na tua face» do Vergílio Ferreira. Vou mais adiante já do que na página 143. Mas voltei lá, porque tinha sublinhado: «O homem é um animal que chegou ao extremo de se perguntar porquê e para quê. Tendo hoje conseguido ver que que não há nenhum para quê nem porquê, todo o seu esforço deve ser não perguntar mais e ser feliz». Não sei porque leio isto e muito menos para quê. Por causa disse, adormeci, enfim.

10.5.06

E a natureza sou eu

Tinha voz rouca, falava brasileiro e cantava. Bem disposto, inteligente, vivo de expressão, ágil de pensamento. Não sei quem é. Ouvi-o ontem na rádio, por um acaso. Dizia, falando de si e dos seus: «o meu pai que era pobre por natureza». Nunca tinha ouvido tal coisa, pobre por natureza. Como se isso fosse, e há quem, uma certa maneira de ser.

7.5.06

Um livro finalmente na montra!

O autor deste blog, por falar em janela, quase que se defenestrou em alguns momentos da escrita de um livro que, finalmente, está pronto e para o qual estão convidados todos os que comigo compartilham estes momentos. Para simplicar, digo aqui do que se trata. Depois, de link em link, o leitor percebe os pormenores.

5.5.06

As três da vidairada

Eram três a uma mesa, numa hora já tardia para se almoçar. Coscuvilhavam a vida alheia, num tric-tric martelante, quais máquinas de costura a pedal. Uma, esgalgada de formas, com ar seráfico de confessionário, intrigava uma colega, ausente, ratando-lhe as intimidades. A gorda do grupo, com voz de falsete, apoucava a chefe que tinha lá no serviço, macaqueando-lhe as maneiras. Para não lhes ficar atrás, a meã da companhia, rude de gestos, contava-lhes as últimas que se tinham sabido daquela uma e o que se suspeitava daquel'outra. Tentando concentrar-me na minha tarte de legumes, apercebi-me de que eram professoras do liceu. Coitadinhos dos nossos filhos! Se não houver melhor do que aquilo, dão em fraldiqueiros pela certa. Podem não conhecer a ciência do seu tempo, mas ficam enciclopédicos no que ao pátio das cantigas respeita. E por outro lado, ai de quem se mata a ensinar os filhos alheios e tem que gramar disto como paisagem!

1.5.06

Além do limite

«O meu pai fugira com a criada para o ininteligível», conta Daniel, o personagem de «Na tua face» do Vergíllio Ferreira, desfiando a sua história de tristeza. Ele sabe que «deve haver no homem um limite até onde se é feliz ou infeliz, depois a lei já não funciona». Estou a ler, treze anos depois, perdido, para além do limite e cercado do ininteligível. O livro foi publicado em 1993.

29.4.06

Um modo de contar

Voltei aqui, desesperado de cansaço, depois de uma semana a trabalhar contra vontade, no que chamam a minha profissão «liberal». O José de Almada Negreiros escreveu ou disse, ou ambas as coisas até, que «quem trabalha que nem uma besta é evidentemente uma besta». Li isso hoje à tarde, um sábado com as ruas refulgentes de sol, um sol cansativo, perseguidor, que endoidece por encandeamento, um sol que me confina, a cabeça a estalar, ao mais sombrio de mim e ao sono reparador. Acordei, depois de ter dormido que nem uma besta. E, contando, as bestas, a que trabalha e a que dorme, já vamos em duas, incluindo o «evidentemente».

25.4.06

Valeriana

«Conta-me uma história», uma história qualquer, pode ser mesmo a tua história. Conta-me uma história, de alegria ou de tristeza, uma história pequena, pois é só para adormecer. É com isto que se animam os que escrevem, com isto se encantam os seus leitores. Entre bocejos e sonos refastelados, por vezes um sonho, quantas vezes um pesadelo, vai surgindo, hipnótica, soporífera, a valeriana literatura. Com ela adormecem, entretidas, as dores, acordam, provocadas, as paixões, dormitam, em geral, todos os sentimentos. Eu sou o livro e com uma voz feita de páginas e linhas, palavras e letras, proclamo, a melopeia melíflua de um pedinte: leia-me na cama, acorde comigo, um livro no chão. Se nada mais tiver, tem nessa noite, pelo menos, a ilusão da companhia. Leve-me consigo ao deitar, mesmo que seja só para adormecer. Eu conto-lhe uma história!

23.4.06

Catando gralhas

Escrever e emendar, rectificar e corrigir. Apagar. Reler e rever. Tornar-se o escrito em maldito. No momento em que se odeia, o livro está pronto. Nesse dia há leitores capazes de o apreciarem, alguns mesmo com afagos amigos à escrita do seu autor. Pior que isto, é haver autores sem emenda. Semanas depois, ei-los, uma vez mais, de provas na mão.

22.4.06

A vida ao sábado

Eu não tenho escrito, porque eu não tenho vivido. Não tenho dormido e se pudesse, neste sábado de chuva, não tinha sequer acordado. Eu vim escrever, porque, acordado, descobri, encharcado de sábado, que é aqui a minha forma de viver.

19.4.06

O dever primordial de nós todos

Quando o empresário Manuel Vinhas se ausentou para o fraternal Brasil, por causa da perseguição política que aqui lhe moveram, publicou um livro a que chamou «Profissão: Exilado». Um homem teve a ombridade de, em preito de gratidão, inscrever corajosamente o seu nome nesse livro de memórias amargas: Agostinho da Silva que, num notável texto de apresentação, exprimia, com ironia, o seu contentamento pelo seu amigo ter, à força, sido obrigado a largar os negócios, podendo, enfim, dedicar-se à escrita. Escrito no Natal de 1975, dizia o filósofo da portugalidade, a propósito do empresário das cervejas: «os negócios o afastavam de si próprio, relegando quase para tempo nenhum o seu gosto de escrever, de estudar e de marchar, e decerto obrigando-o a frequentar muito lugar e muita gente que lhe não respondiam ao mais profundo; foi empresário, proprietário, administrador, negociador de acordos, e não sei que mais; faltava-lhe cumprir o dever primordial de nós todos: sermos o que somos».

17.4.06

O dia mundial do livro

Vem aí o dia mundial do livro. Não direi tudo, pois é exagero, mas muitas são as trezentas e sessenta e poucas coisas da vida que têm um dia só para si, a começar pelo pai e pela mãe de cada um. Pois a 23 de Abril, antes que eu me esqueça, será o dia mundial do livro. Autores anónimos e do ignorado, que ninguém lê e que raro escrevem, tradutores saltimbancos de palavras, troca-tintas insignifcantes de significados, editores inescrupulosos, dos que publicam desinteresses e arrecadam o que lhes interessa, distribuidores que melhor negócio fariam em empresas de mudanças ou trasladações funerárias, leitores da fotocópia pirata e do resumo apresssado, todos, todos, terão lugar sentado na cerimónia desse dia, a mesa de torcidinhos, o copo de água, o pigarrear antes do discurso. Claro que há o esforçado escritor, o empenhado editor, o fiel tradutor, o aplicado leitor. Para esses, se houvesse vaga no calendário, eu propunha, não havendo objecção, um outro dia, em Abril ou em Maio, em dia útil ou num domingo. Talvez a 28 de Fevereiro, porque assim, comemorava-se só de vez em quando a sua apagada existência. Para lembrar misérias, já basta uma vez ao ano. No mais, festejamos todos os dias, folha a folha celebrando, até que nos quebre a lombada, as folhas se nos descolem, os olhos se nos apaguem.

16.4.06

Curiosidade

Foi neste livro que eu li sobre as raparigas «que lhe subiam ao quarto por curiosidade de amor, que não era amor». Lê-se isto e não mais se esquece de ter lido. Talvez tenha acontecido assim com o José de Almada-Negreiros. Isso pouco importa, ter sido com ele.

Um futuro insensato

«Os homens sensatos adaptam-se ao mundo, os insensatos tentam que o mundo se adapate a eles. Por isso o progresso depende sempre de homens insensatos». A frase pertence a Bernard Shaw. Dá vontade de acrescentar, «por muito insensato que isso pareça».Mas dá ainda mais vontade ainda de acordar num domingo, manhã cedo, e acreditar tanto nisso que se passa a viver assim.

14.4.06

O homem do Livro das Maravilhas

Descobri-as, as outras línguas, compreensíveis numa parte, adivinháveis no resto. Não mais sairei daqui, deste mundo análogo dos dicionários, invariante das gramáticas, expansível da fonética, dúctil da morfologia. Começo com Ramon Lull, que terá nascido em 1232 e falecido em 1315 e que tem estátua em Palma de Maiorca. Vem no seu Cant de Ramon:

«(...) Vull morir en pèlag d'amor.
Per ésser gran no n'hai paor
de mal príncep ne mal pastor.
Tots jorns consir la deshonor
que fan a Dé li gran senyor
qui meten lo món en error (...)».

É uma hossana magnífica, linda de se dizer, e que termina em glória, assim e por esta forma:

«(...) Man Déus als cels e als elements,
plantes e totes res vivents
que no em facen mal ni turments.
Dó'm Déus companyons coneixen'
devots, lleials, humils, tements,
a procurar sos honraments».

Um tempo cruel

Os que desde ontem vinham, porta fora, à busca de sol levam com chuva. Encalorados, devem estar hoje em casa, à janela, a fumegar. Domingo regressam para as suas vidas quotidianas, em banho-maria.

12.4.06

Farsi

Segundo noticia o jornal o site iraniano «Iranmania», o povo português está cada vez mais interessado em aprender «farsi»e conhecer as literaturas orientais. Sepideh Radfar, uma linguista residente em Portugal anunciou assim a publicação em português do poema «Masnaviy-e Manavi ». A notícia já havia sido divulgada há um ano num blog que, entretanto, desapareceu. A língua farsi é das mais faladas línguas persas. Quem conhecer este nosso país pensaria que seria a língua dos farsantes, daí o seu progressivo interesse. Passe a brincadeira, o assunto é sério e vale a pena: Um universo desconhecido, num mundo carregado de trivialidades.

10.4.06

As penas de quem vive da pena

Um autor acaba um livro quando sente, raivoso, que o odeia, quando não acredita, desconfiado, que aquilo seja legível, quando morde, danado, em que lho queira emendar. Eu acho que um autor acaba um livro quando o entrega aos críticos para que o desfaçam, aos leitores para que o venalizem, trocando-o por reles dinheiro. Eu acho que acabei um livro. Ainda estou sem críticos e sem dinheiro, mas já tenho quem me odeie a mim, leia o livro e nos emende a ambos, às gralhas dele e aos meus ódios, raivas e danações. Eu acho que acabei o livro, antes que o livro acabasse comigo. Foi em legítima defesa da literatura, juro! Agora rendo-me aos tipógrafos, aos gráficos e aos distribuidores, os meus carcereiros para a longa pena de reclusão editorial a que me condeno.Quando sair a segunda edição, talvez venha a casa, de precária, um fim de semana.

9.4.06

Girando cuidadosamente

Quando eu era garoto a rádio tinha um botão, que se girava, cuidadosamente, cada milímetro fazia diferença, no receio de se perder o sinal. Esta manhã de domingo ouço rádio através da Net, um som puro, cristalino, de uma rádio clássica, em língua inglesa, sabe-se lá se situada no Reino Unido. É uma rádio que tem anúncios e que ao domingo passa discos pedidos . Entre o Porgy and Bess e os concertos brandenburgueses, ouvi-o. Era um anúncio sobre uma empresa que compra apólices de seguros de vida. O negócio é simples: quando não tiver nada mais para vender, venda o seu seguro de vida. Pagamos bem. O anúncio não o diz, mas nós compreendemos: quando morrer, nós recebemos o seu seguro, esse é o nosso lucro. Telefone para a rádio e peça a marcha fúnebre de Chopin, ou a Dança Macabra de Saint-Säens. é gratuito, fazem-lhe companhia e são lindas de morrer.

8.4.06

A extensão, a profundidade, as medidas do sentir

Eu tenho um amigo que é sábio. Não é só a cultura invulgar, a extensão e profundidade daquilo sobre o que se sabe. Procurou-me hoje, como o fazem os amigos quando não lhes aparecemos. Compreendi-o quando irradiou um sorriso acerca de terem nascido patinhos nos jardins da Fundação Gulbenkian; compreendeu-me quando lhe falei da capoeira da minha infância e da aflicção da galinha, que chocou o final dos ovos de uma pata entretanto morta, ao ver, o galináceo coraçãozito aos saltos, o que julgava serem os seus pintos, a atirarem-se para a água, logo ao saírem da casca. Eu tenho um amigo que é sábio e um sábio que é meu amigo, porque hoje, ao ter-me procurado, compreendeu nesse instante o tempo em que se era feliz.

7.4.06

Memórias de uma criada de quarto

Chamavam-se criadas no tempo da exploração serviçal, empregadas domésticas, nestes tempos de proletarização neo-vocabular. A do escritor Jorge Luís Borges chama-se Epifanía Uveda de Robledo, vulgo «Fanny». Alejandro Vaccaro, que diz andar a estudar a vida do escritor argentino há vinte anos, publicou um livro com as memórias dela, por ele coscuvilhadas. «Ninguém é herói para o seu criado de quarto»: a frase já a vi atribuída Hegel, a Platão e a Napoleão. Surpreendido em roupão e chinelos, Borges sai ridicularizado pela proeza. Magoa e ofende ler este livro. Nele conta-se que o biografado tinha uma estranha forma de se ver livre dos livros de que não gostava: abandonava-os, à vezes fazendo pacotes de que fingia esquecido aqui ou ali. Ou me engano muito ou este é o destino que leva! Abandono-o, mas em sítio onde ninguém o encontre. Este ano perfazem-se vinte anos que Borges morreu. Não tinham de o matar outra vez!