A essência e o afecto que ele transporta conferem a autenticidade à existência. O mais, e o que nele há de acidental são as contingências da vida, as inéricas, as adstringentes conveniências. É a aura do contentamento. Um dia descobre-se que não há perguntas possíveis, nem respostas admissíveis. Um homem perdido na física adocicada do rir, dá consigo na química salgada do chorar.
25.6.06
21.6.06
Trinta quilómetros
Um sonâmbulo ao volante pelas estradas do dever. A ânsia de um momento para poder parar. Agora nas auto-estradas já não há as bermas das estradas. Restam as áreas de serviço. Um homem olha e vê uma tabuleta azul. São só trinta quilómetros. O medo é o não saber se não fecharei os olhos até lá, definitivamente.
15.6.06
E uma muda de roupa
Três livros! O «Mandarim» do Eça, naquelas edições da Lello, em azul, encontrado a saldos num alfarrabista, a cinco euros, que está quase no fim, a Clarice Lispector que, sendo um livro de contos, se vai lendo um de quando em vez e enfim a Ondina Braga, porque sendo para ler toda, já vai lida no terceiro volume da prosa. Três livros e uma muda de roupa. Depois digo como foi. Hoje apetecia-me ir à praia, se eu gostasse de praia. Nem toda a gente sabe que eu escrevi isto. Nem toda a gente o entende. Ainda por cima hoje faz sol, um sol tímido, hesitante, um sol para quem gosta de ler e cega com o excesso de luz.
13.6.06
Sem esforço nem angústia
Guardei para estes dias mais folgados o fazer aquelas coisas que há meses se arrastam, pendentes. O problema é que, devido precisamente à passagem do tempo, já nem me lembro bem quais elas são. O que, como se conclui, que o deixar andar é uma forma muito simpática de ver os problemas resolvidos e sem esforço nem angústia! E eu enganado estes anos todos, com a solução ao alcance da mão!
11.6.06
O sono da lua
A lua foi dormir, depois de ter dado, estou certo disso, uma noite de muito divertimento e alguma alegria a muitos dos meus semelhantes. Companheiro deles, nesta viagem pelo tempo, anichados no planeta terra, à velocidade de translação de 1.783 quilómetros por minuto, fico feliz por eles, como se fossem eu. A lua foi dormir e com ela a segurança de que amanhã volta, menos exuberante, claro, até ao vazio total de se ter esgotado o seu ciclo de criação. Agora que a maré baixa, e é domingo, avançam banhistas em famílias e em casais e uns quantos solitários que a vida desirmanou ao encontro da ilusão refrescante da água, em busca de um horizonte longínquo que os retire de si e da sua mesquinhez terrena. A lua foi dormir sem que tantos tivessem ao menos nela reparado ou voltem sequer a reparar.
10.6.06
Abreviando-se um homem nesta vida
Quando Manuel Laranjeira aos trinta e quatro anos de idade deu um tiro na cabeça, abreviando-se nesta terra, Unamuno escreveu que ele dera vida à própria morte. Comprei agora um livro sobre o seu misticismo pagão, ainda na esperança de que o mundo possa ter uma via salvífica para além dos deuses e aquém de um tiro. Laranjeira, escrevendo sobre a mocidade idealista, que foi a sua, lembrou quanto outrora se faziam excursões aos túmulos dos vencidos, hoje aos arraiais dos vencedores.
9.6.06
A mão
Trancado de manhã e de tarde trancado, rodeado de gente soturna, a ouvir e a vêr o lado feio e mau do mundo que o cerca. Dia após dia, ano após ano, floresce lá fora a primavera e sempre a um homem a viver no interior de um mundo sem paisagem nem natureza. Uma ânsia de um momento de paz, toma conta de uma pessoa que assim vive ou julga que assim é viver. Lembro-me de uma cena horripilante de uma mão hirta e enclavinhada, saída de um esburacado momento de uma casota em madeira, como se, através dela, todo um corpo se quisesse libertar. Ali dentro morriam sufocados, envenenados a gás, todos os membros de uma família. Aquela mão era uma tentativa de escapar ao inevitável, até que as forças lhe faltaram.
7.6.06
Violeta
Confesso que é uma paixão literária forte. Não a conheço pessoalmente mas li-lhe o segundo livro, linha após linha, com o coração a doer-me. Depois disso, procurei o primeiro livro e estou a lê-lo, muito lentamente. Soube que era paixão quando li num jornal que diziam mal da capa daquele livro que eu já li, a que chamou «Os meus sentimentos». Ofendi-me com isso, como se fosse comigo. Esta noite recebi a oferta carinhosa de um link para uma entrevista sua à TSF. Fica aqui. Vou ouvi-la. Até amanhã. Ela chama-se Dulce Cardoso, Dulce Maria Cardoso. A personagem do livro tinha o nome de uma cor que também é o de uma flor. Chamava-se Violeta.
5.6.06
Escrita mendicante
Assírio Bacelar, que deu nome à editora Assírio & Alvim, lembrou, numa recente entrevista, que os autores ganham entre 8 a 10% em cada livro, e que as grandes superfícies, sem arriscarem nada, ganham 45%. Há só uma correcção: é que os autores ganham quando ganham, pois muitas vezes ficam a olhar para as mãos, vazias. E, no entanto, nunca se editou tanto. Não são escritores a escreverem ficção, são escritores a viverem na ficção.
2.6.06
O desaforo dos aforismos
Com aquele estilo grandiloquente de falar de si, enobrecendo-se, Agustina Bessa-Luís publicou um livro de aforismos de que só agora dei conta, por tê-lo encontrado na Feira do Livro. Amarga desilusão, porém: é uma compilação daqueles que ela foi semeando pelos seus muitos livros antecedentes a 1988. Conhecendo-se o apreço que Agustina tem por Agustina, já é azar ter aberto esta obra logo com «um grande livro não pode ser medido pela desordem do seu rosto, mas sim pela grandeza dos seus aforismos». Percebe-se agora porque é há quem se irrite com ela, mesmo os que gostam do que escreve, incluindo os aforismos.
29.5.06
Maria Ondina
Surgiu há muito na minha cabeça, hoje foi apenas a facilidade de lhe dar vida. Talvez a noite soturna, a memória da distância, a agonia da incompreensão. Jardim de essências, é dedicado a Maria Ondina Braga. Coloquei-o aqui.
28.5.06
Uma tarde de calor
Basáltica e rude, a natureza mineral e áspera de todas as coisas, irregular na forma e incerta na sua aparição, nela surge, por um momento fugaz, o milagre da poesia. Abafa-o, porém, a fealdade da indiferença circudante, o ridículo viscoso de uma tarde de calor. Não se inflamam, por isso, as almas presentes, incham, pelo contrário, o corpos dos ausentes. Com o chegar da noite regressou a monotonia do amanhã. Um dia passou. Um dia fora de casa.
27.5.06
A escrita automática
Ao tentar explicar isto aqui escrevi assim: «A Janela do Ocaso» é o meu eu intimista e literário, o ser ledor e reflexivo que vê a vida através do teatro de sombras chinesas que na escrita se project». Como é costume a frase saiu-me, espécie de escrita automática de que me surpreendo ao lê-la. E, no entanto, as contingências da vida empurraram o ser ledor para o saguão escuro em que só há o ser escritor. Prisioneiro de si, esse ser funciona por reflexos, espécie de bolbo raquidiano que comanda apenas o modo, a forma, a concordância verbal. Tudo o mais, como se testamento de morto, está escrito. Povoado de sombras, limito-me a escrevê-lo tal como se o estivesse a ler.
26.5.06
O homem da maratona
É uma luta diária contra o tempo. Começa-se por trabalhar mais depressa, por se encurtarem as horas de refeições, salta-se mesmo o almoço, por vezes nem se janta, há dias em que mal se come. Descobrindo que não há que dormir tanto, rouba-se ao descanso, ilude-se a sonolência, engana-se a habituação viciosa do corpo esgotado ao estridente despertador. Há no homem da maratona, a esganada ambição da meta, a inércia tresloucada do correr. Cronometrado ao segundo, retesa-se num espasmo final, antes de cair de borco, o coração a rebentar, tudo perdido por uma fracção de segundo. No podium da vida não há lugar para tantos e ele é, afinal, um anónimo no pelotão. No sprinter final, joga o seu destino. Um dia, trôpego de velho, uma manta pelos joelhos, é o que lhe valerem as suas recordações. Às vezes são recortes amarelecidos de jornais, fotografias sumidas num álbum sebento. No jardim da indiferença, já ninguém os ouve. São os recordistas da imobilidade, campiões da monotonia, medalhas de ouro de um mundo que já passou.
24.5.06
Um farol de felicidade
Encontrei-a dezassete anos depois, bonita, jovial, entusiasmada. Irradiava alegria pelo que fazia e bem estar no que vivia. A dois metros de nós estava um, a fazer esforços para fingir eficazmente que não me conhecia. Outro, inopinado, apertou-me a mão circunstancialmente no «como está» seco e convencional. Respondi um «olávocêcomovaibemobrigado», aquela frase magnífica com a qual fica logo tudo despachado. Por momentos percebi o que é ser feliz. É algo de irradiante, como se uma incandescência nocturna e encandeante.
22.5.06
Melhor vida
Nm quadro impressionante que está exposto no Museu das Janelas Verdes está o retrato de uma velha de lábio mirrado e olhar oblíquo, de refogado ressentimento. Estão lá as datas do nascimento e morte. A propósito de morte diz-se que foi «para melhor vida». Olhando-a antes de sair, só poderia concordar. «Melhor vida» para ela e para os outros seguramente. Basta olhar para a cara.
20.5.06
O reduto último
Esta noite não ouvi os pássaros que cantam por aqui em frente pelas quatro da manhã. Foi uma noite sem pássaros e sem canto, sem gorgeios e sem piares. Esta noite não vi outra coisa mas só a escuridão do dormir, onde nada se ouve e onde nada nos dizem. É o reduto íntimo último da nossa privacidade, dormimos connosco na ilusão da companhia.
14.5.06
Cada criatura humana
Continuo a ler os «papéis avulsos» do Machado de Assis, onde descobri que «cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro». A observação é interessante, a consequência sinistra. No caso, fardado o homem de alferes, o alferes eliminou o homem. Bem podia a patusca tia Marcolina, inconsolada viúva de capitão, embeiçada pela farda, abraçá-lo, achando-o, deleitada, uma bonito rapaz, e jurar, ambígua, que não havia em toda a província outro «que lhe pusesse o pé adiante». Achando-o sozinho, «nenhum fôlego humano em redor», enfim, «entre galos e galinhas tão-somente, um par de mulas que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois», despido enfim de alferes, o homem descobriu, pela alma interior, que a melhor definição do amor «não vale um beijo de moça namorada».
12.5.06
A lousa de uma vida
Talvez porque um meu amigo me tenha dito que a minha escrita lhe tenha lembrado a do Machado de Assis. Talvez por eu não conhecer o Machado de Assis. Talvez mesmo porque ontem, ainda encontrei, depois do jantar, meia-hora para ir a uma livraria e nela estava um edição comprimida de um livro que o Assis escreveu e de que o meu amigo mandara vir de propósito do Brasil, uma versão original e ainda por cima ilustrada com ironia. Talvez por tudo isto. Talvez por ter acordado de madrugada, com meia-noite mal dormida, ainda li um dos contos desse livro, que se chama «Papéis Avulsos». O conto é curto, mas eu não tive tempo para mais. Agora, talvez como quem bate, aos murros, à porta de toda a gente aqui da rua primeiro e da cidade depois, para os acordar, a meio desta noite, como se fosse a última noite, aqui estou. Cito do «Verba testamentária». É o últimos dos contos, mas sucede-me, muita vez, ler livros de contos do fim para o princípio: «Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito». Acordem, pois, todos os que se zangam comigo! Nada é definitivo. A minha vida, breve que seja, é tudo, afinal, «obra de lápis e esponja».
11.5.06
O hipnótico mundo dos quês
Esgotado de sono e sem conseguir dormir, tentei adormecer. Para me tranquilizar comigo tentei ler. Há quem beba leite quente. Voltei ao «Na tua face» do Vergílio Ferreira. Vou mais adiante já do que na página 143. Mas voltei lá, porque tinha sublinhado: «O homem é um animal que chegou ao extremo de se perguntar porquê e para quê. Tendo hoje conseguido ver que que não há nenhum para quê nem porquê, todo o seu esforço deve ser não perguntar mais e ser feliz». Não sei porque leio isto e muito menos para quê. Por causa disse, adormeci, enfim.
10.5.06
E a natureza sou eu
Tinha voz rouca, falava brasileiro e cantava. Bem disposto, inteligente, vivo de expressão, ágil de pensamento. Não sei quem é. Ouvi-o ontem na rádio, por um acaso. Dizia, falando de si e dos seus: «o meu pai que era pobre por natureza». Nunca tinha ouvido tal coisa, pobre por natureza. Como se isso fosse, e há quem, uma certa maneira de ser.
7.5.06
Um livro finalmente na montra!
O autor deste blog, por falar em janela, quase que se defenestrou em alguns momentos da escrita de um livro que, finalmente, está pronto e para o qual estão convidados todos os que comigo compartilham estes momentos. Para simplicar, digo aqui do que se trata. Depois, de link em link, o leitor percebe os pormenores.
5.5.06
As três da vidairada
Eram três a uma mesa, numa hora já tardia para se almoçar. Coscuvilhavam a vida alheia, num tric-tric martelante, quais máquinas de costura a pedal. Uma, esgalgada de formas, com ar seráfico de confessionário, intrigava uma colega, ausente, ratando-lhe as intimidades. A gorda do grupo, com voz de falsete, apoucava a chefe que tinha lá no serviço, macaqueando-lhe as maneiras. Para não lhes ficar atrás, a meã da companhia, rude de gestos, contava-lhes as últimas que se tinham sabido daquela uma e o que se suspeitava daquel'outra. Tentando concentrar-me na minha tarte de legumes, apercebi-me de que eram professoras do liceu. Coitadinhos dos nossos filhos! Se não houver melhor do que aquilo, dão em fraldiqueiros pela certa. Podem não conhecer a ciência do seu tempo, mas ficam enciclopédicos no que ao pátio das cantigas respeita. E por outro lado, ai de quem se mata a ensinar os filhos alheios e tem que gramar disto como paisagem!
1.5.06
Além do limite
«O meu pai fugira com a criada para o ininteligível», conta Daniel, o personagem de «Na tua face» do Vergíllio Ferreira, desfiando a sua história de tristeza. Ele sabe que «deve haver no homem um limite até onde se é feliz ou infeliz, depois a lei já não funciona». Estou a ler, treze anos depois, perdido, para além do limite e cercado do ininteligível. O livro foi publicado em 1993.
29.4.06
Um modo de contar
Voltei aqui, desesperado de cansaço, depois de uma semana a trabalhar contra vontade, no que chamam a minha profissão «liberal». O José de Almada Negreiros escreveu ou disse, ou ambas as coisas até, que «quem trabalha que nem uma besta é evidentemente uma besta». Li isso hoje à tarde, um sábado com as ruas refulgentes de sol, um sol cansativo, perseguidor, que endoidece por encandeamento, um sol que me confina, a cabeça a estalar, ao mais sombrio de mim e ao sono reparador. Acordei, depois de ter dormido que nem uma besta. E, contando, as bestas, a que trabalha e a que dorme, já vamos em duas, incluindo o «evidentemente».
25.4.06
Valeriana
«Conta-me uma história», uma história qualquer, pode ser mesmo a tua história. Conta-me uma história, de alegria ou de tristeza, uma história pequena, pois é só para adormecer. É com isto que se animam os que escrevem, com isto se encantam os seus leitores. Entre bocejos e sonos refastelados, por vezes um sonho, quantas vezes um pesadelo, vai surgindo, hipnótica, soporífera, a valeriana literatura. Com ela adormecem, entretidas, as dores, acordam, provocadas, as paixões, dormitam, em geral, todos os sentimentos. Eu sou o livro e com uma voz feita de páginas e linhas, palavras e letras, proclamo, a melopeia melíflua de um pedinte: leia-me na cama, acorde comigo, um livro no chão. Se nada mais tiver, tem nessa noite, pelo menos, a ilusão da companhia. Leve-me consigo ao deitar, mesmo que seja só para adormecer. Eu conto-lhe uma história!
23.4.06
Catando gralhas
Escrever e emendar, rectificar e corrigir. Apagar. Reler e rever. Tornar-se o escrito em maldito. No momento em que se odeia, o livro está pronto. Nesse dia há leitores capazes de o apreciarem, alguns mesmo com afagos amigos à escrita do seu autor. Pior que isto, é haver autores sem emenda. Semanas depois, ei-los, uma vez mais, de provas na mão.
22.4.06
A vida ao sábado
Eu não tenho escrito, porque eu não tenho vivido. Não tenho dormido e se pudesse, neste sábado de chuva, não tinha sequer acordado. Eu vim escrever, porque, acordado, descobri, encharcado de sábado, que é aqui a minha forma de viver.
19.4.06
O dever primordial de nós todos
Quando o empresário Manuel Vinhas se ausentou para o fraternal Brasil, por causa da perseguição política que aqui lhe moveram, publicou um livro a que chamou «Profissão: Exilado». Um homem teve a ombridade de, em preito de gratidão, inscrever corajosamente o seu nome nesse livro de memórias amargas: Agostinho da Silva que, num notável texto de apresentação, exprimia, com ironia, o seu contentamento pelo seu amigo ter, à força, sido obrigado a largar os negócios, podendo, enfim, dedicar-se à escrita. Escrito no Natal de 1975, dizia o filósofo da portugalidade, a propósito do empresário das cervejas: «os negócios o afastavam de si próprio, relegando quase para tempo nenhum o seu gosto de escrever, de estudar e de marchar, e decerto obrigando-o a frequentar muito lugar e muita gente que lhe não respondiam ao mais profundo; foi empresário, proprietário, administrador, negociador de acordos, e não sei que mais; faltava-lhe cumprir o dever primordial de nós todos: sermos o que somos».
17.4.06
O dia mundial do livro
Vem aí o dia mundial do livro. Não direi tudo, pois é exagero, mas muitas são as trezentas e sessenta e poucas coisas da vida que têm um dia só para si, a começar pelo pai e pela mãe de cada um. Pois a 23 de Abril, antes que eu me esqueça, será o dia mundial do livro. Autores anónimos e do ignorado, que ninguém lê e que raro escrevem, tradutores saltimbancos de palavras, troca-tintas insignifcantes de significados, editores inescrupulosos, dos que publicam desinteresses e arrecadam o que lhes interessa, distribuidores que melhor negócio fariam em empresas de mudanças ou trasladações funerárias, leitores da fotocópia pirata e do resumo apresssado, todos, todos, terão lugar sentado na cerimónia desse dia, a mesa de torcidinhos, o copo de água, o pigarrear antes do discurso. Claro que há o esforçado escritor, o empenhado editor, o fiel tradutor, o aplicado leitor. Para esses, se houvesse vaga no calendário, eu propunha, não havendo objecção, um outro dia, em Abril ou em Maio, em dia útil ou num domingo. Talvez a 28 de Fevereiro, porque assim, comemorava-se só de vez em quando a sua apagada existência. Para lembrar misérias, já basta uma vez ao ano. No mais, festejamos todos os dias, folha a folha celebrando, até que nos quebre a lombada, as folhas se nos descolem, os olhos se nos apaguem.
16.4.06
Curiosidade
Foi neste livro que eu li sobre as raparigas «que lhe subiam ao quarto por curiosidade de amor, que não era amor». Lê-se isto e não mais se esquece de ter lido. Talvez tenha acontecido assim com o José de Almada-Negreiros. Isso pouco importa, ter sido com ele.
Um futuro insensato
«Os homens sensatos adaptam-se ao mundo, os insensatos tentam que o mundo se adapate a eles. Por isso o progresso depende sempre de homens insensatos». A frase pertence a Bernard Shaw. Dá vontade de acrescentar, «por muito insensato que isso pareça».Mas dá ainda mais vontade ainda de acordar num domingo, manhã cedo, e acreditar tanto nisso que se passa a viver assim.
14.4.06
O homem do Livro das Maravilhas
Descobri-as, as outras línguas, compreensíveis numa parte, adivinháveis no resto. Não mais sairei daqui, deste mundo análogo dos dicionários, invariante das gramáticas, expansível da fonética, dúctil da morfologia. Começo com Ramon Lull, que terá nascido em 1232 e falecido em 1315 e que tem estátua em Palma de Maiorca. Vem no seu Cant de Ramon:
«(...) Vull morir en pèlag d'amor.
Per ésser gran no n'hai paor
de mal príncep ne mal pastor.
Tots jorns consir la deshonor
que fan a Dé li gran senyor
qui meten lo món en error (...)».
É uma hossana magnífica, linda de se dizer, e que termina em glória, assim e por esta forma:
«(...) Man Déus als cels e als elements,
plantes e totes res vivents
que no em facen mal ni turments.
Dó'm Déus companyons coneixen'
devots, lleials, humils, tements,
a procurar sos honraments».
Um tempo cruel
Os que desde ontem vinham, porta fora, à busca de sol levam com chuva. Encalorados, devem estar hoje em casa, à janela, a fumegar. Domingo regressam para as suas vidas quotidianas, em banho-maria.
12.4.06
Farsi
Segundo noticia o jornal o site iraniano «Iranmania», o povo português está cada vez mais interessado em aprender «farsi»e conhecer as literaturas orientais. Sepideh Radfar, uma linguista residente em Portugal anunciou assim a publicação em português do poema «Masnaviy-e Manavi ». A notícia já havia sido divulgada há um ano num blog que, entretanto, desapareceu. A língua farsi é das mais faladas línguas persas. Quem conhecer este nosso país pensaria que seria a língua dos farsantes, daí o seu progressivo interesse. Passe a brincadeira, o assunto é sério e vale a pena: Um universo desconhecido, num mundo carregado de trivialidades.
10.4.06
As penas de quem vive da pena
Um autor acaba um livro quando sente, raivoso, que o odeia, quando não acredita, desconfiado, que aquilo seja legível, quando morde, danado, em que lho queira emendar. Eu acho que um autor acaba um livro quando o entrega aos críticos para que o desfaçam, aos leitores para que o venalizem, trocando-o por reles dinheiro. Eu acho que acabei um livro. Ainda estou sem críticos e sem dinheiro, mas já tenho quem me odeie a mim, leia o livro e nos emende a ambos, às gralhas dele e aos meus ódios, raivas e danações. Eu acho que acabei o livro, antes que o livro acabasse comigo. Foi em legítima defesa da literatura, juro! Agora rendo-me aos tipógrafos, aos gráficos e aos distribuidores, os meus carcereiros para a longa pena de reclusão editorial a que me condeno.Quando sair a segunda edição, talvez venha a casa, de precária, um fim de semana.
9.4.06
Girando cuidadosamente
Quando eu era garoto a rádio tinha um botão, que se girava, cuidadosamente, cada milímetro fazia diferença, no receio de se perder o sinal. Esta manhã de domingo ouço rádio através da Net, um som puro, cristalino, de uma rádio clássica, em língua inglesa, sabe-se lá se situada no Reino Unido. É uma rádio que tem anúncios e que ao domingo passa discos pedidos . Entre o Porgy and Bess e os concertos brandenburgueses, ouvi-o. Era um anúncio sobre uma empresa que compra apólices de seguros de vida. O negócio é simples: quando não tiver nada mais para vender, venda o seu seguro de vida. Pagamos bem. O anúncio não o diz, mas nós compreendemos: quando morrer, nós recebemos o seu seguro, esse é o nosso lucro. Telefone para a rádio e peça a marcha fúnebre de Chopin, ou a Dança Macabra de Saint-Säens. é gratuito, fazem-lhe companhia e são lindas de morrer.
8.4.06
A extensão, a profundidade, as medidas do sentir
Eu tenho um amigo que é sábio. Não é só a cultura invulgar, a extensão e profundidade daquilo sobre o que se sabe. Procurou-me hoje, como o fazem os amigos quando não lhes aparecemos. Compreendi-o quando irradiou um sorriso acerca de terem nascido patinhos nos jardins da Fundação Gulbenkian; compreendeu-me quando lhe falei da capoeira da minha infância e da aflicção da galinha, que chocou o final dos ovos de uma pata entretanto morta, ao ver, o galináceo coraçãozito aos saltos, o que julgava serem os seus pintos, a atirarem-se para a água, logo ao saírem da casca. Eu tenho um amigo que é sábio e um sábio que é meu amigo, porque hoje, ao ter-me procurado, compreendeu nesse instante o tempo em que se era feliz.
7.4.06
Memórias de uma criada de quarto
Chamavam-se criadas no tempo da exploração serviçal, empregadas domésticas, nestes tempos de proletarização neo-vocabular. A do escritor Jorge Luís Borges chama-se Epifanía Uveda de Robledo, vulgo «Fanny». Alejandro Vaccaro, que diz andar a estudar a vida do escritor argentino há vinte anos, publicou um livro com as memórias dela, por ele coscuvilhadas. «Ninguém é herói para o seu criado de quarto»: a frase já a vi atribuída Hegel, a Platão e a Napoleão. Surpreendido em roupão e chinelos, Borges sai ridicularizado pela proeza. Magoa e ofende ler este livro. Nele conta-se que o biografado tinha uma estranha forma de se ver livre dos livros de que não gostava: abandonava-os, à vezes fazendo pacotes de que fingia esquecido aqui ou ali. Ou me engano muito ou este é o destino que leva! Abandono-o, mas em sítio onde ninguém o encontre. Este ano perfazem-se vinte anos que Borges morreu. Não tinham de o matar outra vez!
6.4.06
O verbo ter
Hoje a Natureza choveu invernosamente em dia de Primavera. Sol, só para a semana! Até lá, esperem e logo verão...
5.4.06
Rebentar de vontade
Eu tinha um blog chamado «A Revolta das Palavras». Num dia de maré vaza do meu interior, apaguei-o. Quando, arrependido por dentro e a disfarçar desenvoltura por fora, quiz repô-lo, o sistema já não o aceitou. Por isso eu hoje tenho um blog que se chama «Revolta das Palavras». Ter ficado sem o «A» foi o preço que a blogoesfera me cobrou pela minha leviandade supressora. Ora quando eu tinha um blog que tinha um «A» escrevia lá coisas que hoje escrevo aqui. Graças à amizade de quem estima o que eu escrevo mais do que eu que as escrevo, salvou-se quase todo o apagado. Isto por exemplo teria vindo para este blog, caso eu na altura o tivesse. Aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2005: «Sexta-feira a noite e estava frio, a porta da livraria, semi-cerrada. Lá dentro, о velho livreiro fechava a caixa do dia. Hesitante, entreabri. «Já fechamos, mas enquanto eu estiver por aqui, esteja a vontade», Fiquei, menos à vontade do que seria possível. O livreiro enganara-se nas contas, revia agora, meticulosamente, verba a verba, na ofídia fita da caixa registadora. Sortilégio invulgar num negócio sem futuro, aparecera-lhe dinheiro a mais: numa vida destas, só podia ser engano. Havia que desfazê-lo e ir enfim para casa, dormir um sono aritmeticamente tranquilo.
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».
4.4.06
O acaso a um euro
Num país em que a maioria dos que lêem são leitoras, eu tenho uma especial propensão por escritoras. Uma delas, como já percebeu quem me lê, é a Maria Ondina Braga, já falecida em Braga precisamente. Só que o destino tem momentos fantásticos de inesperado. Regressado de mais um dia de esgotamento profissional, achei que merecia dar umas voltas sem nexo pelas ruas do meu bairro. Àquela hora saíam dos escritórios, exauridos, os empregados por conta alheia, a vertigem do recolher, a angústia do atraso estampada no rosto, os nervos a expressarem-se em buzinadelas, os rancores na impaciência de cada gesto. Foi então que eu os encontrei, o pequeno ajuntamento de vendedores de velharias, já a empacotarem o que amanhã, uma vez mais, desembrulharão, para tornarem a expor, na mira de os vender, aquele um pouco de tudo já passado, onde há a novidade das surpresas. No meu caso foram duas. Falo aqui de uma delas. Como já dei a entender tenho uma predilecção especial pelo Graham Greene, sobre quem já escrevi em outro local. Então não é que ele ali estava, a «um euro», o seu livro «O Cônsul Honorário», naquela edição encadernada publicada em Junho de 1974 pelo Círculo de Leitores e que a Ondina Braga traduziu? Tenho-o aqui comigo nesta hora já tardia. Sei que não tenho tempo para o ler, nem à edição inglesa que comprara já nem sei onde nem quando, na altura em que comecei a reunir a sua obra.Mas fico-me por uma recordação, a de ter lido numa entrevista da Maria Ondina, em que ela se queixava de ter partido as costas a matraquear à máquina, traduzindo e traduzindo, para ganhar o seu magro sustento. Ao olhar para estas folhas amarelecidas, ao rever cada uma das suas letras que lhe enchem as páginas, eu sinto o alquebrar de um dia esgotante, o corpo carregado de dores, os dedos entumescidos, a alma entristecida, a miséria de tudo terminar a um euro, num jardim, sem nexo e por acaso.
2.4.06
A árvore frondosa
Já vivi numa aldeola que tinha como único ornamento uma igreja sem estilo, uma árvore frondosa que a ladeava, daquelas centenárias, cujas raízes parecem querer arrancar as entranhas da terra e que me lembre nada mais. Junto a essa árvore havia um banco, daqueles vulgares bancos de jardim, a armação em ferro, o assento e o encosto em madeira. Caberiam nele uns três, bem anichados. Ao domingo, lembro-me de o ver ali sentado. Vestia-se a rigor, o fato completo, camisa branca, uma gravata de cuidado nó. Ficava por ali um tempo, o tempo necessário para estar sozinho. Cismava nunca soube em quê. Mais tarde disseram-me que era um militar reformado. A sua guerra, a última batalha que travava, agora era consigo próprio. Eu vivia ao lado do cemitério, ele hoje deve viver por lá, graças ao armísticio com que os deuses da guerra se apiedam daqueles que, na batalha da vida, não sabem vencer e já não têem que perder.
1.4.06
O acaso do sol
Escrevo aqui há tanto tempo e nunca dei comigo a pensar o que pode querer dizer «a janela do ocaso». Um candidato a leitor, amigo, disse-me que não conseguia encontrar o meu blog sobre a janela do «acaso». Pois não, nem eu que já o tentei. Um dia destes, tentando defini-lo numa frase, escrevi que ele era o «blog de um ser neurótico, que escreve sobre a tragédia do existir». É em parte assim. Há em tudo isto um halo marítimo, e uma coloração poente. Mas há sobretudo uma dimensão de infinito e uma ideia de arrependimento pelas origens e remorso pelo passado. Culpando-me pelo que virá e desejando não ter vindo, os cotovelos fincados na balaustrada da vida, abandono-me em pensamentos. Se fumasse exalava-me pelas narinas do desejo, instantes de ardência, desejos de sol.
30.3.06
Porque sim
Continuo sem ler. Agora nem os jornais. Compro-os, dobro-os cuidadosamente, porque os detesto amarrotados, guardo-os na pasta e quando chega o jornal seguinte deito-os fora, sem remorsos sequer. Subnutrido literariamente, tento escerever, mas não há qualquer ideia que me pareça valer a pena. Vim aqui dizer isso. Eu sei que poderia ter-me abstido de dizê-lo. Hoje, porém, alguém me falou do Afonso Lopes Vieira e eu lembrei-me que já escrevi sobre ele, e que já visistei a sua casa, agora vazia, em São Pedro de Moel. Cheguei agora à minha casa e fui procurar na estante o livro onde o seu estilo piruteante e vibrátil havia sido celebrado. Encontrei-o. Tenho-o comigo, fazendo-me companhia, eu a escrever já com a luz do quarto a esvair-se, na rua o ranger dos automóveis dos que regressam a casa porque sim. Escreveu-o João Gaspar Simões. Lopes Vieira morreu em 1946. Escreveu «País Lilás, Desterro Azul», sobreviveu com «Onde a terra se acaba e o Mar começa». Senti-o em São Pedro Moel, estava eu sozinho com uma companhia. Lembrei-me hoje de tudo isto, porque alguém me falou e sobretudo porque sim.
29.3.06
A neguentropia termodinâmica
Zangado com a vida e irritado com o mundo, estive a arrumar os livros que se amontoam no meu quarto, perto da cama, para que eu os leia em vez de adormecer. Separei os que ando a ler, melhor dizendo os que quero mesmo ler até ao fim, pois há alguns, enjeitados da sorte, que não passam das primeiras linhas. Não é que nelas se perceba a inutilidade do resto, é só porque nelas está contido tudo o que haverá de útil para ler. Um, por exemplo, dizia assim, em jeito de dedicatória, na primeira edição: «ao meu cão Pym» e na segunda «àqueles simpáticos seres humanos que perguntaram quem era o meu cão Pym». Li-o nos tempos em que frequantei uma agremiação chamada «Centro de Estudos de Cibernética», albergada numa saleta do Instituto Superior Técnico. Não era do Gordon Pask, nem do Collin Cherry, nem do Bertalanffy, nem do von Neumann. Pronto, não sei de quem é, mas lembro-me do resto, como por exemplo a dedicatória. Nessa altura eu acreditava na segunda lei da termodinâmica, a da desordem entrópica do universo. Hoje convivo com ela, fazendo disso modo de vida, com uma vida de cão, pior que a do Pym!
26.3.06
O veneno do amor
São aquelas edições belíssimas da brasileira Aguilar que a nossa Lello também tinha, encadernadas a sangue de boi, gravadas a ouro velho!. Comprei nela o saltitante Almada Negreiros, não o bisonho Pessoa, ontem atrevi-me e trouxe o desesperado Mário de Sá-Carneiro. Tudo tem uma explicação. Do Pessoa não comprei porque, com tanto escrito póstumo ainda a sair-lhe ainda da arca literária, desconfio das «Obras Completas», que o homem, como se mediúnico fosse, só pode ainda escrever em morto, produz ectoplasmicamente post-cadáver. Mas trouxe o Mário de Sá-Carneiro, porque me quiz oferecer uma prenda de aniversário e porque, folheando-o ainda na livraria, ali estava, esfíngica nótula introdutória, feita pela mão do próprio Pessoa, aquele «quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo», tragédia de todos os amantes, morte de todo o amor. Mário de Sá-Carneiro suicidou-se, envenenando-se, no Hotel de Nice, em 26 de Abril de 1916. Foi enterrado no Cemitério de Pantin, em sepultura que desapareceu em 1949, o ano em que eu nasci.
25.3.06
Em hora de azar
Como ninguém gosta de tipos acabrunhados e macambúzios, e como uma pessoa se torna embaraçosamente notada quando anda pelas vielas da amargura, optei este sábado por abastecer-me na livraria da alegria. Nos meus tempos de garoto, havia no barbeiro onde cortava o cabelo, ao lado dos livros de quadradinhos «O Mundo Ri». Em casa da minha mãe ainda há por lá, amarelinho de antigo, o «Gazes Hilariantes» do Nelson de Barros. Claro que tudo isto é hoje de alfarrábio e de loja de adelo. Fui por isso à literatura fina e dei de caras com uma reedição do livro «As pessoas felizes», que a Agustina Bessa-Luís escreveu em 1975. Trouxe-o comigo. Devolvido, enfim, ao sofá da leitura, cheguei à conclusão que ando em hora de azar. Calho abrir a página 187 e logo ali onde vem: «No ano de 1971 caiu sobre a família dos Carrancas uma série de calamidades. Aconteceram num ritmo tão rápido que não deixaram de impressionar toda a gente. As pessoas felizes desagregavam-se». Desisto.Vou ler o «Angústia para o jantar» do Luís de Sttau Monteiro, ou então, talvez, melhor, vou mesmo jantar, que o meu mal deve ser fome.
24.3.06
O vagabundo caído
Nasci, segundo ouvi contar pelas duas e vinte da madrugada. Nessa noite teria havia uma forte trovoada e um raio atingira em cheio, rachando-a ao meio, uma árvore em frente à nossa casa.
Lembro-me da árvore, dividida em dois corpos, a copa cindida roçando o chão, o tronco carcomido, como as pernas soerguidas de um vagabundo caído. Árvore assombrada, tocada por uma faísca fatal, aquela amalgamava vegetal e mineral, petrificada, estava morta e embalsamada e plantada em frente à minha infância.
Se acreditasse em premonições, aquele espectáculo ígneo de uma árvore fulminada por um relâmpago, ter-me-ia causado o arrepio de uma antevisão do futuro. Mas, afinal, era apenas a expressão de um mau momento na natureza.
Por detrás dela, a árvore morta, cujo nome, eu pouco entendido em árvores, aliás não sei, uma outra, majestosa em altura, se plantara, uma palmeira.
Ao fim da tarde, bandos de corvos, concentravam-se nela, para a noite, onde faziam abrigo. Aquele ritual diário, ao pôr-de-sol, de centenas de aves agitando as suas asas negras e, como cachos, aninhando-se nos ramos dentados da palmeira, ensinou-me, pelo olhar de uma criança, o que era uma vida a cumprir-se, o que era a força arrebatadora do instinto vital feito apelo, o que era, sobretudo, a desolação das almas, cantada no grasnar aflito daqueles rapinantes, projectados majestosamente ao crepúsculo.
Se eu eu tivesse aprebdido então que os nossos sonhos, as nossas ambições, os nossos devaneios, não resistem à migração eterna como a daqueles corvos, a que nossa condição também nos condena, teria evitado algumas das minhas errâncias voluntariosas e ter-me-ia deixado seguir no ciclo vital da rotina e regressado, ao fim de cada dia, como todos os do meu ninho familiar, à minha palmeira.
Assim, nasci por coincidência, num mau momento, e saído um dia da minha palmeira na Rua Vasco da Gama, perdi-me do resto do bando e ao poente, já não regressei. Errante pelo mundo alheio e nele estrangeiro, a minha pátria não é, por isso, um chão a que retorne, é a ideia de umas raízes a que me prenda.
Lembro-me da árvore, dividida em dois corpos, a copa cindida roçando o chão, o tronco carcomido, como as pernas soerguidas de um vagabundo caído. Árvore assombrada, tocada por uma faísca fatal, aquela amalgamava vegetal e mineral, petrificada, estava morta e embalsamada e plantada em frente à minha infância.
Se acreditasse em premonições, aquele espectáculo ígneo de uma árvore fulminada por um relâmpago, ter-me-ia causado o arrepio de uma antevisão do futuro. Mas, afinal, era apenas a expressão de um mau momento na natureza.
Por detrás dela, a árvore morta, cujo nome, eu pouco entendido em árvores, aliás não sei, uma outra, majestosa em altura, se plantara, uma palmeira.
Ao fim da tarde, bandos de corvos, concentravam-se nela, para a noite, onde faziam abrigo. Aquele ritual diário, ao pôr-de-sol, de centenas de aves agitando as suas asas negras e, como cachos, aninhando-se nos ramos dentados da palmeira, ensinou-me, pelo olhar de uma criança, o que era uma vida a cumprir-se, o que era a força arrebatadora do instinto vital feito apelo, o que era, sobretudo, a desolação das almas, cantada no grasnar aflito daqueles rapinantes, projectados majestosamente ao crepúsculo.
Se eu eu tivesse aprebdido então que os nossos sonhos, as nossas ambições, os nossos devaneios, não resistem à migração eterna como a daqueles corvos, a que nossa condição também nos condena, teria evitado algumas das minhas errâncias voluntariosas e ter-me-ia deixado seguir no ciclo vital da rotina e regressado, ao fim de cada dia, como todos os do meu ninho familiar, à minha palmeira.
Assim, nasci por coincidência, num mau momento, e saído um dia da minha palmeira na Rua Vasco da Gama, perdi-me do resto do bando e ao poente, já não regressei. Errante pelo mundo alheio e nele estrangeiro, a minha pátria não é, por isso, um chão a que retorne, é a ideia de umas raízes a que me prenda.
Vamos por partes!
Umas das coisas notáveis da evolução da vida, mesmo a humana, é que uma pessoa chega à conclusão que tem umas partes do corpo mais novas do que outras. O estômago, por exemplo, só se gasta pelas horas das refeições que, no caso dos pobretanas, coitados, são muito breves. O cérebro, por exemplo, em algumas pessoas, só se gasta na hora das digestões, para se lembrarem, os tristes, a que horas é que têem de voltar a comer. Claro que depois há no homem a barba é que é mais nova que o cabelo, a mama que na mulher é mais nova que o umbigo. Quanto ao resto, em que estão a pensar, como dizia o Alfredo Marceneiro, o problema não é de juventude ou de velhice: às vezes não é da idade, são os desgostos da vida! Por isso, parabéns a você e muitos anos de vida e pró menino Zézinho, uma salva de palmas!
23.3.06
A terra do nunca
Hoje, como que a demonstrar que chegou a primavera, largou a chover a voltou o frio. Outro dia alguém me disse que ia mudar a hora. Há algum tempo mudou o século. Pergunto-me, pasmado neste mundo de mudança, se não se poderá manter qualquer das coisas que fluem, nesse vogar do nunca para o sempre. Interrompia-se, por exemplo, aquele minuto de ilusão, em que aos dezoito anos eu escrevia versos silenciosos. Ficávamos por aí; nada mais haveria para dizer, ou sequer a quem.
21.3.06
A sagração da primavera
Começa hoje a primavera e eu, aberta a janela do meu quarto, dou comigo como que a desejar que, também na rua, pudesse estar a chover, uma chuva profunda, o céu abatendo-se sobre o mundo, em bátegas desoladas de uma profunda consternação.
19.3.06
Os ressentimentos à solta
Filho és, pai serás, assim como fizeste, assim acharás. O provérbio popular é antigo. Ouvi-o, li-o, nunca lhe liguei importância. E, no entanto, aquela cena estranha da cama vazia do hospital, naquela tarde de visita, como que a acusar-me de tanta omissão, visitou-me esta tarde. É domingo, cada um dos filhos para cada lado, os remorsos a ocuparem o lugar dos afectos, o dia do pai. E, no entanto, eu tinha então vinte anos, melancólicos e solitários. Saí dali e logo ao lado encomendei um enterro, que as agências funerárias rodeiam hospitais como abutres ao cheiro de morto. Por não podermos mais, pedi o mais barato funeral que houvesse, daqueles em que desaparafusam os crucifixos antes de baixar o caixão ao coval, para os aplicarem no próximo que siga. Quando, ao fim da tarde, esperei a minha mãe ao começo da nossa rua, ela compreendeu na minha presença e no meu silêncio, o que havia para entender. O pai do seu filho tinha, enfim, terminado os seus dias. Acompanhando-nos, velámos o corpo essa noite. No dia seguinte a casa estava mais fria. Os ressentimentos, à solta, gelavam-nos a alma.
17.3.06
O estranho sentimento
Subnutrido literariamente, moído de trabalho, sem tempo sequer para um jornal, estendo-me a um qualquer dos livros já semi-lidos que se acumulam abandonados. Um deles, que já dei como terminado quando devo, afinal, recomeçá-lo, são «Os Meus Sentimentos», da Dulce Cardoso. Outro dia, um qualquer crítico literário dizia do livro ter uma capa algo como ridícula. Senti, ao ofender-me com isso, que lhe tinha ganho amor, aquele estranho sentimento de um leitor pelo seu autor.
16.3.06
Uma cópia do que foi
Em tempos tive um blog a que chamei «O Mundo em Gavetas». Num repente, apaguei-o. Graças à amizade, recuperou-se um cópia. Seria ridículo que, arrependido do acto, o repusesse no ar: tal como as emissões de rádio, que se perdem no éter, a escrita desvanece-se no espaço sideral dos afectos. Mas aqui e além surgirão alguns dos seus momentos: não pelo que significaram então, mas pelo que simbolizam hoje, poeira cósmica no mundo do sentir.
Escrita de sobrevivência
Esta escrita, tal como a vida que ela parasita, tem com os cogumelos uma extraodinária semelhança: vegeta no escuro e alimenta-se de putrefacção. Literatura excrementária, é frequentemente venenosa, por vezes alucinogénica. Pior ainda, espraia-se como tortulhos, prolifera como míscaros, nos cascos podres das árvores. Ela simboliza o que não há, supre o que falta, simula o que existe. A sua ontologia é uma mitologia, a de que escrevendo, sobrevivo.
15.3.06
Trabalho inútil
Ainda do Alçada Baptista, é dele uma resposta curiosa quando lhe perguntaram se tinha inimigos. Disse que não, explicando que isso de ter inimigos é uma coisa que dá muito trabalho. Só por isso, nem vale a pena.
14.3.06
Os paus de fora
Num livro de que eu já por aqui falei, feito de pequenos nadas em breves crónicas, o José Rodrigues Miguéis, que foi advogado até se fartar, e fartou-se depressa, com escritório improvisado na Rua do Coliseu dos Recreios, local muito a propósito para um advogado ter escritório, precisamente por causa da ironia dos recreios, nesse livro, dizia eu, que a esta hora da noite já me perco no que ia para dizer, e que chama «O espelho poliédrico», contava, numa prosa chamada «Lembranças em Estilhaços», umas larachas que diz ter escutado ao Teixeira de Pascoaes. Em uma delas era acerca dos tiques gastronómicos dos homens de letras que, ao contrário do que se supõe dos vates, que se imaginam alimentados a ambrósia e néctar, como os deuses no Olimpo, fala do Leonardo Coimbra. «O Leonardo [...] batia-nos a todos. Era capaz de comer um boi, começando pelo rabo, e só lhe deixava os paus de fora, para arremeter contra a filosofia». Ora aí está um excerto que, precisamente por eu já ter jantado um tão diminuto bacalhau com batatas e há tanto tempo, trancado que estou a trabalhar, me faz compará-lo com os que, na vida em geral, se alimentam a peixe, e deixam as espinhas na beira do prato.
11.3.06
O Catador de Histórias
Chamei-lhe «O Catador de Histórias». Era para nele contar histórias do quotidiano, mas fiquei semanas sem o actualizar. Hoje não é que me tenha vindo a inspiração, vieram sim, os remorsos. Estou lá eu e outros como eu.
A morte como evasiva
Encontrei-o, encardernado a carneira, ornada a lombada com filetes a ouro, um livrinho modesto dedicado e por isso chamado «Os amores e os ciúmes e a graça de Camilo». Foi publicado no ano terrível de 1939, em que a II Guerra Mundial começou. O autor, António Cabral, hoje ignorado, começou com o «Ó Fábia que foste Fábia», uma peça em três actos e seis quadros, em verso , representado pelo curso do 5º ano jurídico de 1885, e continuou com uma série de outras singelezas. Há pouco nesse livro que se leia, depois da frase com que ele abre, o bilhete que Camilo Castelo Branco escreve, pelas dez da noite de 22 de Novembro de 1886, antes de morrer: «A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o terminus da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e vituoso quem o puder ser». Camilo matou-se, o suicídio uma evasiva. A ideia era nele obsessiva. Perto do Natal do ano anterior escreveu a Trindade Coleho: «Conto com pouca vida; e, se não a encurto, é porque me custa a deixar um filho que lucra alguma coisa com a minha vida». Um dia, evadiu-se do cárcere.
Calor tropical
Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no café central, o seu café. Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.
A hipnose e o apetite
O fascínio hipnótico que os velhos exercem nos jovens é terem uma vida para contar, que a estes apeteceria viver. A ilusão que os velhos vivem, contando a sua vida aos jovens, é apetecer-lhes terem uma vida como a deles, que os fascina, hipnotizando-os. No fundo é uma alegria fugaz, como um dia de sol na manhã de um reformado.
9.3.06
Os apanha bolas
Imagine-se que diz o «Diário da República» de hoje que «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.o 5 do artigo 166.o da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que legisle no sentido de estabelecer um código de boas práticas ambientais aplicáveis a campos de golfe». Imagine-se o Parlamento a perder tempo e a meter-se nestas recomendações ao Governo. É caso para dizer: mas que grande tacada!
8.3.06
Um cão
Naqueles pequenos dias em que se anoitece pela hora de acordar, em que se sonha diurnamente o que se não dormiu, um homem sorri-se do que os outros choram e lamenta-se da paciência que não perdeu. Na minha rua há um cão com isso parecido e de mim semelhante. Ladramos à vida que passa e à lua cheia que haverá de chegar. No mais, vagueamos, nocturnos e vigilantes, do resto indiferentes.
Pessoa até amanhã
E de repente um filho pergunta-nos se temos alguma coisa sobre os heterónimos do Fernando Pessoa, porque tem teste e é já amanhã de tarde. E talvez saia o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos, ou o Caeiro. E qual deles era o pastor e se tu pensas que eu agora consigo ler isto tudo e a professora já falou nisso, o que é isso do Livro do Desassossego. Por momentos fica-se suspenso, sem saber bem o que dizer ou fazer. Todo o Pessoa até amanhã, mas pai, não te rales muito é só uma pergunta. Olha este livro é porreiro, explica tudo em cinco folhas, já me podias ter dito que tinhas isto, bolas!
7.3.06
Literatura comestível
Compro livros, começo a lê-los, vejo outros, inicio-os, volto aos primeiros, retomo os segundos, esqueço-me onde ia, compro mais. Se tudo isto não faz de mim, a curto prazo, um homem culto, erudito, sábio mesmo, naquele sentido desnorteado do termo, em que as conversas se encadeiam, desconexas, umas nas outras e há sempre uma ideia ou uma história a propósito de tudo, não sei como lá chegarei. Hoje emprestaram-me mais um desses milhentos livros que são o meu farnel, porque se aperceberam do ar glutão com que eu o devorava, na casa de onde veio. «Basta que um livro seja possível para que exista» escrevera o autor no passo onde eu ia, refastelando-me, regurgitante leitor, na digestão da ideia. Um pedaço depois deram comigo, a boca escancarada, óculos quase caídos no tapete, o livro, a meia-ilharga, aberto sobre o meu ventre ressonante: dormia, profundamente, a alma saciada de leitura.
6.3.06
O ócio e a vagabundagem
Ontem ainda consegui um momento para ouvir uma das entrevistas que Agostinho da Silva deu a Fernando Alves e que andam agora a ser distribuídas em CD. O entrevistador falava-lhe na vadiagem como ócio, o velho sábio respondia-lhe com mil e uma iniciativas com que sonhava ainda e com a sua incessante vagabundagem interior. Depois o entrevistador veio-lhe com a ideia dos desempregados para quem aquele apelo poderia parecer provocatório, Agostinho replicou-lhe que para esses ociosos à força havia outros a trabalhar, pagando-lhes os subsídio. Uma coisa é certa: a espiritualidade peripatética do velho pensador não encontrava meio de se fazer expressar, o pequeno mundo real sempre a atrapalhar-lhe o caminho. Nada como ser-se sábio para se estar sozinho.
O jardim de Deus

«Quem tem as flores não precisa de Deus. É uma frase que Alberto Caeiro não aproveitou para o seu poema «O Guardador de Rebanhos». A Biblioteca Nacional recuperou-a agora, perfumada e viçosamente, para todos nós.
5.3.06
O meu coincidente
Nasci às duas e vinte da manhã. Quando andava na Faculdade descobri um colega que fazia anos exactamente no mesmo dia, viera à luz no mesmo ano e...extraordinária coincidência...à mesma hora. A diferença é que ele surgiu em Sintra eu em Angola. Ele é uma figura conhecida, e não sei gostaria que eu revelasse aqui o nome. Dedica-se à literatura e à cultura em geral e com isso se sustenta. Eu ando pelos tribunais para ganhar para o sustento da família e da literatura que consumo. Espero que quando eu terminar não me ferrem com a biblioteca, vendida a peso, num alfarrabista. De facto, parte dela foi lá que eu a comprei, no vazadouro das heranças dos que não merecem aquele que os antecedeu. Por isso, nas costas dos outros antecipo eu já as minhas. Mas na esperança que esse seja o mundo dos outros, venha de lá mais um livrinho. Hoje não, que é domingo e estou trancado a trabalhar, feito advogado. A partir de segunda-feira, tudo é possível, até o meu coincidente amigo se cruzar comigo entre as estantes de uma livraria de adelo.
4.3.06
A enfermaria da liberdade
Hoje o tempo está chuvoso e frio e eu estou na masmorra dos meus trabalhos forçados, sem tempo para ler ou para pensar, sem jeito sequer para sentir. Olho para a grilheta que me prende ao lugar do meu cativeiro, para a chave que tenho em cima da mesa, para a teimosia orgulhosa que faz com que não me liberte e aflijo-me comigo. No lugar em frente da minha janela há um hospital, que nem pejado de doentes está, mas com a meia-dúzia a quem o azar de uma maleita libertou desta sorte. Lamentam-se na breve hora da visita, recontando os seus achaques e a indiferença dos que os tratam. Os saudáveis familiares e alguns amigos que os visitam, deixadas as bolachas, a água mineral, uma ou outra flor e revistas idiotas compradas enfastiadamente para os entreter, raspam-se à formiga com um «então as melhoras», assustados de um dia, eles também, poderem espojar-se naqueles lençóis, estirando as pernas e tremelicando os dedos dos pés, num sábado de chuva, com a liberdade de quem fica na cama, sem ter para onde ir, ou mais que fazer.
O Rebelo da Silva em marcha
O «blog» sobre o Luiz Augusto Rebelo da Silva começou, enfim, a mover-se com a lembrança tristonha do local onde viveu e a rememoração risonha do que dele disse Ramalho Ortigão.
3.3.06
A grande tentação
Não é a minha faceta saturnina, é só porque a tentação foi grande. Chama-se «O Culto do Oculto» e é um novo blog. Como já havia poucos...
O grisol
O homem explicou-me como era na ilha de Jersey. Fiquei a saber como gostava do coletinho que vestia por cima da camisa, as casas bem aquecidas por dentro, as pessoas indiferentes ao frio da rua. Claro, imaginei, que é um paraíso fiscal e aí vive-se à grande. Só que, no caso dele, trabalhava lá numa pizzeria, era a farda dos empregados, hoje guiava um táxi. «O senhor parece que está com frio», perguntou-me, como quem afirma, ao ver-me tão embuçado. «Não», respondi-lhe entre dentes, «estou é com arrepios!». É do «grisol» rematou ele, no vocabulário portuga que não há ilha de Jersey que nos seque na língua.
A luz e as sombras
Vivendo em «O Mundo das Sombras», numa total imobilidade, resolvi acender-lhe a luz.
2.3.06
Uma barrela total
Andavam a distribuir pelas ruas em folhetos. Anunciavam uma «limpeza espiritual», a qual lavaria a alma contra todas as maleitas. Ora eu que vinha a matutar quando é que teria tempo de levar o carro à lavagem automática, talvez me tente. Não sei se também aspiram por dentro, porque no meu caso, com o lixo que se vai acumulando no dia-a-dia, bem precisava. E já agora mudavam-me o óleo e alinhavam-me a direcção que em certos dias sinto da vida o volante a fugir.
1.3.06
Rápida, a sombra
Hoje acordei com a notícia que se perfaziam dez anos que faleceu o Vergílio Ferreira. E eu que, pacientemente estou a reconstituir a biblioteca com os seus livros, e a lê-los vagarosamente pelos cantos, vivi o dia todo com a urgência de vir aqui deixar ao menos uma palavra de lembrança. Uma sua amiga disse, a esse respeito, que se deve ter deixado morrer. Pressentia-se isso mesmo em cada página da sua «Conta-Corrente», esse diário que teimava em manter. Toda a sua obra é precisamente o anúncio desse momento de agonia e de solidão. «Não me dói o morrer (...). O que me custa é ter vida a sacrificar, vivi tudo o que é possível nas vidas», escreveu em «Rápida, a sombra».
28.2.06
O estado de sítio
Acabo de descobrir a solução para a agonia das minhas obrigações incumpridas! Anulo a diferença entre o dia e a noite, entre os dias de trabalho e os de descanso, entre a hora das refeições e a das digestões. Mas posso ainda mais: anulo a diferença entre o racional e o emotivo, o humano e o animalesco. Com um esforço mais, passo do vivo ao vegetativo e por fim ao mineral. Num lance final, transmuto-me de sólido em líquido e finalmente em gasoso. Quando finalmente for só um halo de energia, uma poeira no cosmos, tento fazer tudo outra vez. Talvez dê em rural pastor de erráticos rebanhos ou em vendedor urbano de cautelas de lotarias. Encantar-me com o sol poente ou enfeitiçar-me na ilusão da sorte grande, tudo serve se for essa a solução. A inevitabilidade dos deveres de amanhã, isso é que não! Não só me agoniam, dão-me mesmo vontade de vomitar.
27.2.06
Interpretação consoladora
Com a mania de andar por tudo quanto é alfarrabista, como quem anda ao trapo ou ao ferro-velho, encontro, por vezes, momentos de insólito e de confronto com a minha própria mania. Exprimiu-se desta vez a loucura coleccionadora na forma de um livrinho encadernado que na magra lombada mais não tinha do que umas iniciais: «V.S.». Era, afinal, a compilação de modestos estudos de um professor liceal, chamado Vítor Santos, do Redondo. Textos minúsculos, editados entre 1926 e 1945, eles iam desde uns aforismos a uma novela, incluindo uma compilação de detalhes sobre a sua terra e uma conferência no Ateneu de despedida dos seus alunos. Não sei porque o comprei, arriscando doze euros, que bem podiam ter trazido dois Camilos na edição popular, de tal modo tudo aquilo é desesperadamente humilde. Consolo-me ao menos, porque um dos pensamentos, do folheto «Ditos e feitos, mal ditos e mal feitos», reza que «isto de doidos ou de ajuizados é só uma questão de interpretação». Ao menos isso, porque já ninguém me aceita o livro de volta e nem eu, que daqui o olho carinhosamente, sei o que haverá nele para ler.
26.2.06
Borges, sem porquê
Ando a reconciliar-me com os meus preconceitos, alguns muito estúpidos, quase todos irracionais. Um deles foi detestar, sem saber porquê, o Jorge Luís Borges, sem nunca o ter lido, recusando-me a lê-lo, entretendo-me em irritar-me logo aquela sua figura, talvez porque de Saramago, ou pela María Kodama, sua eterna bengala. Não sei!. Confesso agora aquilo que sei me envergonha, a infâmia de nem tudo em mim ser inteligente, nem belo, nem motivado por nobres razões. A controvérsia de mim comigo mesmo, que se passa toda na minha cabeça e me salga, corroendo-mo, o coração, é isto mesmo. Mas há uns dias decidi-me. Estou extasiado!. Tive a sorte de começar por um estudo filosófico sobre a eternidade, cuja leitura compartilho com a «Biblioteca Pessoal». É o mundo da palavra maravilhosa, das ideias surpreendentes. Não sei como tudo isto aconteceu em mim. Leio-o agora ao Borges, devoradamente. «La rosa es sin porqué», escreve ele, citando Angelus Silesius, que nasceu em 1624. Tantos séculos se volveram sobre esta palavra, poderia ter sido escrita esta manhã.
Os blogs de JAB
Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.
25.2.06
O entre-choque
Há um método de postergação infinita e indefinida que é no tantrismo o retardamento do orgasmo, na música de Wagner o adiamento do clímax final, na novela policial o entreter até à descoberta da chave do enigma. Há um método contrário a esse, que é o de viver encurtando o tempo, como se o tempo nos faltasse, confinando o espaço como se toda a terra nos fosse estrangeira. Aprendi o primeiro na arte poética, o segundo na vida prática. Um dia entrechocam-se e tudo acaba, a eternidade no instantâneo.
24.2.06
Uma vida que já foi
Foi hoje, descia eu a rua, indiferente a que fosse aquela, alheio ao que ia fazer. E de repente um estranho pensamento acometeu-me, insólito, inesperado, sem lógica com o lugar ou propósito com o momento. Hoje, nesssa rua, uma qualquer rua de um qualquer lugar de um momento qualquer, dei comigo a pensar que em breve já não tenho 56 anos de idade, mas sim 57. São terríveis os números. Na sua simbologia oculta deles ressaltam pressentimentos trágicos, como se na sua ordem abstracta eles fossem uma forma de o futuro nos surgir, premonitório, na forma de presente. Todos temos, inconscientemente, a idade-limite além da qual já nos imaginamos possíveis. Em jovem, na adolescência quando desponta a barba e com ela os primeiros amores, era a melancolia solitária de não me supor além dos 35. E, no entanto, se invertesse os dígitos de um tal numeral, com optimismo e saúde, que nessa altura não nos faltam, podia projectar-me aos 53. Ah! mas hoje ainda, nesta madrugada em que escrevo, tenho 56 anos de uma idade em que, aplicando a mesma regra, não me inquieta a plausibilidade de chegar aos 65, só porque é possível o tempo suficiente para lá chegar. Só que dentro de umas semanas, a menos de um mês, com 57 anos, colocar-se-me-á, definitiva e inexorável, a aposta de mim com a minha subsistência, a agonia do será que chegarei aos 75. Foi hoje, descia eu a rua, uma rua qualquer, que esse estranho sentimento de me despedir do que rodeia surgiu, a meu lado como se fosse a minha sombra, esse reflexo difuso de uma vida que já foi. Quando tiver 61, volto a pensar no assunto, na esperança de então, reconciliado com o mundo e pacificado comigo, ter ainda a esperança de recomeçar.
23.2.06
Um outro santo Agostinho
Agora que por causa do centenário todos falam do Agostinho da Silva e eu, amarrado, qual burro cego, à nora da quinta, mal tenho tempo de ler, deixem-me só trazer aqui dois momentos de fina ironia que com ele se relacionam. Um, quando Antónia de Sousa o entrevistou para o que viria a ser um livro e abriu a conversa com a natural pergunta «creio que o professor Agostinho da Silva tem oitenta anos, não é?» e ele respondeu «eu também creio»!; outro, que é uma frase sua que, desdobrando-se em duas, vem citada por Artur Manso num ensaio sobre a sua vida e obra e que eu gostaria de tornar em ideal de vida: «não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total. Na realidade não estou interessado em coisa alguma; sim, porém, em viver».
21.2.06
A porta aberta
Anda tudo gazeado no ciber-espaço. Os «blogs» colectivos são como as famílias irritadiças: pegam-se pelo que um diz, e pelo que o outro devia ter dito pegam-se também. Uns batem com a porta da rua e, ainda estão os outros atónitos com o estrondo, re-entram, façanhudos, para num grito final, despejado para os de dentro e, antes de zarparem de vez, se sairem com um: «e obrigadinho pelo que fizeram, ouviram?» O seu drama é o ridículo de saberem que normalmente ninguém ouviu e a vida sem eles seguir como dantes. Há só uma espécie que me faz pena: a dos inteligentes que, num momento de zanga consigo, esgotados de um esforço recente ou furibundos por não se reconhecerem agora naquilo que já foram, implicam por tudo e irritam-se com nada. Quanto a esses o melhor é nem se ligar. Basta deixar a porta aberta. Não é que eles voltem, é só para que não se gabem de terem sido expulsos.
20.2.06
E digam lá que não!
A coisa tinha o seu ar de paradoxal: a senhora pedia açucar e adoçante, ao mesmo tempo. A pergunta impunha-se e foi feita, à volta do porquê. Respondeu com desenvoltura: açucar para adoçar, adoçante para não engordar. Pois claro!
18.2.06
O jardim de Deus
O jornal chama-se The Northwest Telegraph e estava na saleta de entrada do hotel. Símbolo deste novo mundo em que vivemos, trazia na primeira página o obituário, com o anúncio dos novos mortos e propaganda a uma agência funerária. Ao lado informava que em Londonderry os gay católicos se sentiam mais seguros, quando das suas manfestações, do que os seus homólogos protestantes. Ah! A propósito, de uma das novas mortas, citava esta coisa extraordinária: o jardim de Deus deve ser belíssimo, pois ele só colhe as melhores flores. Hoje é sábado e por um momento, antes do pequeno almoço, senti a tranquilidade de não ser protestante ou católico, nem gay, nem viver em Londonderry e nem ter que ler imprensa desta nem quase nenhuma. Sou só manifestante e muitas vezes para dentro, zangado comigo mesmo.
16.2.06
«A Luta» continua
Um tipo dorme três manhosas horas já pela madrugada, e depois de um dia de trabalho bestial chega e tropeça num monte de mais serviço que se acumula até ao telhado e os telefonemas que não fez, os prazos que devia cumprir, as gentilezas que ficaram no olvido. Um tipo, esquecido de si e ignorado pela maioria dos outros, afunda-se num sofá, como se cama fosse, e ao tirar os sapatos, faz disso um mimo e um carinho, como se só a isso tivesse direito. Um tipo saca da estante um livro a esmo, um livro qualquer, e lê o que lhe apetecia ter já como epitáfio mortuário, ao menos para morrer a rir: «aqui jaz Bento Bexiga, que acendeu um fósforo, para ver de tinha gasolina no depósito do carro; e tinha mesmo!». Eis o resumo de um dia. Escreveu-o Alexandre O' Neill, em 3 de Agosto de 1976, num jornal de que ainda fui Advogado. O jornal, que se chamava «A Luta» faliu, eu ainda por cá ando, de fósforo na mão.
14.2.06
Um amor que mata!
Um homem que tem pouco tempo para ler, só pode gostar de livros de contos, por uma única razão: são fáceis de resolver. Em tempos comecei os «Contos Impopulares» da Agustina. Ora não é azar que, logo hoje, que é dia dos namorados, em que muitos masculinos se abeiram do ninho, arrulhantes, na ânsia de por um dia mostrarem ternura e florinhas às suas companhias, eu dei com este passo de um desses contos entre os muitos que me faltam lêr! E logo, e por isso vim aqui, aquele que dizia assim: «era uma mulherzinha miúda, quase linda, e cujo queixo agudo profetizava uma dessas azedas velhas borralheiras e aduncas, para as quais parece que a eutanásia foi inventada». Se algum leitor meu, lêr isto antes de ir ao encontro desta noite, peço, rogo e quase imploro que olhem, mirem e remirem, no alvo dos vossos encantos e amores, todas as minúcias etéras da alma, todos os rendilhados íntimos da sensibilidade, mas por favor, não no queixo agudo. É que há o grave risco, olhado o queixo agudo, de a noite vos terminar mal, muito mal mesmo!
Morte no capítulo três
Errático na vida, irregular nas leituras, talvez haja em mim um nunca mais acabar no convívio com os livros. Comecei muito tarde. Há poucos anos descobri o real valor da ficção, há muitos secou-me a capacidade de não ser prosaico. Hoje cada folha em que progrido a escrever é um passo atrás na regressão do tempo vivido. Havia outrora os analfabetos de origem, para quem a quarta classe só se alcançava na tropa, os que escreviam juntando as letras, como quem faz artimética elementar, contando-a com os dedos da mão. Esta noite percebi, enfim, o ridículo desta escrita: renasço com ela em cada linha e com ela morro em cada página. Tal como nas historietas baratuchas, ao terceiro capítulo, o autor abate-me; umas folhas adiante o leitor, distraído e entretido, já nem se lembra de mim.
12.2.06
O a e o de, essa inescapável diferença
O «Mil Folhas» entrevistou o escritor português Rui Nunes que é um expatriado mental residente na Áustria, que diz que fica doente quando vem a Portugal. Diz nela, pois estas coisas parecem ser hoje ingredientes de biografia literária, que é homosexual e de uma esquerda ligada ao Partido Comunista. Pois bem! O seu último livro abrirá, segundo ali se diz, pois ainda o não li, com uma frase de Horácio «quem da Pátria sai, a si mesmo escapa». É daquelas ideias com que se concorda, sobretudo com uma variante: «quem da Pátria sai, de si mesmo escapa»; não por uma questão de correcção ortográfica, mas por um mundo de diferença semântica.
11.2.06
Poetria
Primeiro foi a Buchholz, agora, no Porto, a Poetria, especializada em poesia e teatro, em riscos de fechar. A primeira salvou-se, esta pede ajuda. Pelo caminho, náufragas invisíveis no mar da indiferença, dezenas de livrarias fecham, famílias com casas decoradas em high tech mandam para caixotes e caves milhares de livros, para que morram em silêncio, como velhos em lares, longe da vista. Excepto alguns, cuja opulenta encadernação os salva, nesta vida prosaica, que falta lhes faz a poesia? E, no entanto, tudo isto senilmente me comove. Como se junto ao leito de um mundo agozinante, a sua esquálida mão na minha mão, peço, num murmúrio envergonhado: não morras, por favor, porque contigo todos morreremos.
Um sábado de cores
Mário Cáudio encerrou com «Gémeos» a trilogia que iniciara com «Ursa Maior». O livro já tem três anos, vai na segunda edição, só agora dei com ele e com uma sua personagem, estalajadeira, companhia talvez, mas «fechada à inteligência daquilo que tamanho sofrimento causava em mim». É o livro, tal como no seu «Amadeo», o de um obsessivo, ansioso por escrever a biografia alheia, a de um pintor. Vive, assim, ilusório, aos ziguezagues, em desatinados pinchos, num desnorte infantil. Esquece a negritude e o cinzento, por isso, mal fala de si.
10.2.06
A via salvífica
Ainda Pascoaes! Chamava-se Joaquim Maria Teixeira de Vasconcelos e já disse aqui que era advogado, num acanhado escritório na Rua das Taipas, no Porto. Um dia, esgotado da advocacia, deu em escritor. Disse que foi assim: «o poeta venceu o advogado, adoecendo, ou tirando forças da fraqueza». Talvez possa ser assim, pois a não se ter essa sorte, não há salvação possível.
9.2.06
Acaso
O acaso quis que eu soubesse, o que para muitos era óbvio, que Anrique Paço d'Arcos era o discreto irmão do conhecido Joaquim Paço d'Arcos, ambos escritores. E o acaso quis mais que eu hoje, refugiado num bar esconso, soubesse que dos poucos que acompanharam Teixeira de Pascoaes ao cemitério de Gatão, ele era um deles. Estive em Amarante, para saber que a casa do poeta é hoje um lugar de turismo rural. Tivesse ido eu ao epitáfio que, numa só frase simboliza o que dele resta, ao menos para ler o «apagado de tanta luz que deu, frio de tanto calor que derramou»! Mas o acaso não o quis, daí a minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia.
Amanhã, melhor dormido
Por estranho que pareça aos que julgam que me conhecem eu tenho os quarenta e cinco volumes da obra completa do Vladmir Ilitch Oulianov, vulgo «Lénine», naquelas edições de Moscovo, encadernadas, e que na capa de cada volume tinham ainda fotografia do dito, ao longo dos anos em que viveu; edições, diga-se, prefaciadas pelo Roger Garaudy que, entretanto, caíu em desgraça. «Lénine», como se sabe era jurista e muito do que escreveu ainda no seu país resultava de livros que a paciente irmã requisitava na Biblioteca da Ordem dos Advogados russos. Meticuloso, registava, o tempo de viagem de cada livro, de Moscovo para a Sibéria, mais o tempo que levaria a lê-lo e atirava-se dia e noite à leitura, aproveitando o tempo até ao limite da exaustão. Lembro-me hoje disto, talvez pela exaustão. Mas lembro-me sobretudo porque acho que foi num dos volumes finais, dos que ainda consegui ler, que ele diz, numa carta, que a actividade intelectual deve ser como a actividade física: nem sempre correr, nem sempre marchar, urge intervalar o esforço e o descanso. Ora eis o que esta noite eu estou a fazer: exercícios de musculação oftálmica, para tentar manter os olhos abertos, ante que caia de sono, como se nota aliás pelo estilo meio desconexo do que aqui fica. Amanhã, melhor dormido, talvez melhor.
7.2.06
Trabalhos manuais
A um tipo que tem a mania que escreve, convém comprar uns dicionários, para ir melhorando o seu vocabulário. Há uns dias lá trouxe para a minha estante que já se espalha pelo chão um «Novo Dicionário do calão» do jornalista Afonso Praça, que diz na capa, em estilo de desafio: «conheça a língua portuguesa na sua intimidade: da gíria ao jargão, do vernáculo ao simples palavrão». Com o pouco tempo que me persegue, lá o folheei apressado, para descobrir coisas óbvias como o «dar de frosques», para querer dizer fugir, e outras coisas com isso parecidas. Agora o que eu nunca tinha ouvido nem lido era que «tocar a furriéis» quer dizer masturbar-se e vá lá saber-se porquê! Ainda por cima dos meus tempos de soldado cadete, no quartel em Mafra, ainda me ficou o básico da «ordem unida», a instrução das continências, e mormente o momento grave e agora a propósito do «apresentar, arma!» e eis-nos, os do segundo pelotão da segunda companhia, com ela, hirta e empinada, a G3 segura na mão, em sentido, que no dizer aos berros do alferes «não mexe nem um pelo!». Mas agora com esta do «tocar a furriéis», o que me confunde, ainda na matéria da ordem unida, é aquela parte do «ombro, arma!». É que de facto, ou a coisa passa por artes de contorcionismo, ou então nem sei o que diga, que nem imaginar consigo, que até tonturas dá!
O galo Zagalo
Ali estava ele, em Estremoz, a peliça de serrubeco para não rapar mais frio do que por ali lhe rondava a ossada e o reumatismo, gola soerguida a esconder-lhe as fauces, o vendedor de criação. Numa gaiola improvisada, feita do que já fora um caixote, uma rede de arame a fazer de portinhola, umas quantas galinhas sonolentas e um galo altivo. Caracoleante galo, esse, com tudo o que um da sua espécie precisa para mostrar altivez: crista eriçada, barbilhões vermelhuscos, esporas afiadas, e sobretudo aquele voltear soberbo de cabeça, como os cegos em busca dos sons. Havia na proliferação de cores das suas penas todo o cromatismo do que nasce para viver. «Atiradiço, não?», perguntei, afirmando, vendo uma das galinhas quase careca à força de tanta bicada no acto de a galar, que nele se adivinhava vicioso. «Parece que sim», veio-me como embaraçada resposta. Saí dali com uma valente constipação e na cabeça com duas dúvidas quanto à arte de bem falar a língua que é a nossa. Primeiro, porque não se chama galinheiro ao que vende galinhas; segundo porque se chamará galar ao coito dos galináceos, verbalizando o substantivo masculino como meio de designar a coisa. Falássemos de gatos e dir-se-ia gatar. Em português é muito frequente, gatar, naturalmente.
4.2.06
O homem, esse desconhecido
O nevoeiro tem a vantagem de amortecer o que se ouve e de ocultar o que se vê. O homem recolhe-se ao seu interior e, ainda que seja por um começo de manhã, dá enfim por si. É então que nota quanto se desconhecia. Às vezes está-se longe de casa, quantas vezes isto é perto de tudo.
2.2.06
A graça rudimentar
Falando do Corvo, nas suas «Ilhas Encantadas», Raúl Brandão diz que ali só há uma coisa a fazer, e «não é olhar para fora, é olhar para as almas». Lugar tosco de frases rudimentares, nela se encontravam palavras insólitas para situações invulgares. «Morreu, mas engraçada», dizia-se, então, querendo dizer-se «morreu, mas feliz». Nós, os de hoje, os que perdemos a graça, sabemos como isso é, à conta, não direi de morrer, seguramente de viver, em qualquer caso de um viver infeliz.
1.2.06
A mosca tsé-tsé!
Eu tinha a angústia dos que pensam que, ao dormirem oito horas por dia, passam um terço da sua vida a dormir. Mas ontem, antes de adormecer, ainda consegui ler num momento uma crónica que o Miguel Esteves Cardoso arquivou no seu livro «Os meus problemas». O essencial do argumento é que nada se faz enquanto se dorme, donde só se vive enquanto se está acordado. Ora como o tempo do nada é tempo a descontar nos anos de vida, quem não falhar as suas oito horas diárias de soninho reparador, ao chegar aos sessenta anos, afinal, só tem quarenta. Claro que, nisto, com as minhas madrugadas de trabalho e as minhas noitadas de leitura, eu já não vou a tempo de resolver o problema. Mas se me deitasse agora e acordasse em 2034 talvez ainda conseguisse viver mais uns anos e com melhor aparência e sobretudo melhor disposição!
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