17.9.06

O vagão fantasma

«Na sequência das greves dos ferroviários e sabotagem aos comboios como medida reivindicativa, o Governo determina a utilização do “vagão–fantasma”, um vagão aberto cheio de grevistas presos, utilizado à frente da locomotiva, para impedir a sabotagem da via férrea». Foi em 1919. Assim pareço eu agora, colocando-me, aprisionado, à frente da locomotiva da vida, para evitar sabotá-la.

16.9.06

O dia dos jornais

Lembro-me. Era um adolescente, estudava o liceu em Viseu e queria ser culto. Por isso lia na Biblioteca Municipal coisas que não entendia, requisitava na carrinha biblioteca itinerante da Gulbenkian livros que o funcionário me perguntava se eram para algum outro, mais velho. Mas lembrei-me hoje de quando íamos, pelo fim da tarde, a pé, perto precisamente da Biblioteca, esperar, ávidos de saber, a camioneta que trazia os «jornais de Lisboa». Àquela remota província chegavam, atados, vindo da longínqua e inacessível capital do saber. Disputavam-se os poucos exemplares. Depois, eram uns velhotes de ar endurecido e desconfiado a esconderem, conspirativos o «República», debaixo do casaco, nós, uns jovens vaidosos de atrevimento, a mostrarmos orgulhosos, no café, que líamos o «Diário de Lisboa». Tudo isso já acabou. Já acabou o «República» do Raúl Rego, o «Diário de Lisboa» do Ruella Ramos, o «Século» do Pereira da Rosa. Já acabou o «Diário Popular», já acabou «A Capital». Hoje voltei aos meus tempos do liceu em Viseu. Vou esperar aqui em baixo que cheguem os jornais de Lisboa, para que não esgotem. A diferença é que eu estou em Lisboa, são todos em muitos exemplares e eu não sei se ainda tenho a mesma alegria ao trazê-los para o café.

15.9.06

Sem outra lei

Tentei não ler o Borges em português, para esperar o dia em que pudesse lê-lo no original. Encontrei-o agora, em livrinhos pequenos, daqueles que se transportam na pasta ao lado do que pesa como obrigação. Ainda por cima o Jorge Luis Borges escreve textos pequenos com ideias grandes, como se tivesse pena de quem tem pouco tempo. Hoje, nem sei como, lá foram mais umas folhas vividas e numa delas o que poderia ser um modo de viver, não fora o moralismo endémico da infância, o sentido do dever da juventude, o sentido dos limites desta idade: viver a vida «sin otra ley que la fruición y la indiferencia inmediata».

14.9.06

O problema do se

Eu sabia que havia uma lagoa das sete cidades, descobri hoje que havia três cidades dentro de uma cidade e várias pessoas dentro de uma pessoa. Num mundo assim, um homem tem muito por onde passear-se. Assim mesmo, reflexamente.

11.9.06

Chevalier servant

Mimadamente disperso, como diria uma amiga minha, ando a ler a esmo o que os outros já leram há séculos. E ainda por cima não tenho vergonha de o dizer. Ontem estive com os «Bilhetes de Colares», escritos entre 1982 e 1987 pelo A. B. Kotter, esse fantástico pseudónimo que parece autêntico, e que o ainda sobrevivente jornal «Semanário» editou há dezasseis anos. São textos curtos, que se lêem antes de dormir e que dão um sonho risonho. O lido ontem, antes da «deita», era sobre um tal fictício Henri de Beaucul de Monfart, amanuense de Paul Bourget, «chevalier servant» da mamã do autor entre 1937 e 1939. A prosa é doce de estilo e picante de ironia: «Fauxcul, como nós lhe chamávamos», escreve o Dr. Kotter, «por ser mulherenguíssimo, dizia sempre que a Mãe submetia a ortografia à fonética porque pensava com o coração». E continua, a rematar: «Esta causalidade chocha, assim metida a martelo, só enganava, julgo eu, a própria Mãe, vaidosa como todas as mulheres, e era a maneira de Fauxcul se insinuar, felino, entre os lençóis da Senhora sem deixar de luzir nos olhos de Bourget». Ora aí está uma maneira agradável de se começar o dia, a rir. Tem de ser, porque tenho de ir trabalhar! Mimadamente disperso, entre outras coisas trabalho numa profissão que é uma espécie de condenação às galés.

10.9.06

Ausência de si

«Há dias, em que o rosto até se pode transformar e se ausentar de si mesmo... », li isto aqui -»., a propósito do chão de prata. Li e perguntei-me, como se a um espelho me visse, reflexamente, que poderia eu mais dizer.

9.9.06

O cemitério da razão

A frase dizem-me que é do Albert Camus, o homem revoltado: pode ter-se razão e perder. É por isso que a verdade é um combate diário e corpo a corpo e os cemitérios estão cheios de cruzes de reconhecimento póstumo. Há muitos que preferem ficar vivos. A sua sobrevivência é a demonstração da sua vitória.

7.9.06

A grilheta do dever

Havia no Jardim Zoológico um elefante que a troco de uma moeda tocava um sino. Ensinado, recusava, jogando-as fora, as moedas escuras, só aceitando as prateadas. Os miúdos riam a bandeiras despregadas. Amarrado ao inferno de ter ganhar assim o que lhe davam para comer, o animal metia dó. De vez em quando soltava aquele som lúgubre, de aflição, como se lhe faltasse a naturalidade do seu mundo ao qual o haviam raptado. Lembrei-me dele esta noite e do sentimento de profundo desapontamento irritado dos meus pais ante a minha tristeza. Acho que já morreu, ou pelo menos matei-o na minha memória, esgotado de ter pena.

6.9.06

Anrique Paço d'Arcos

Vi na passada semana no JL que passariam no dia 2 de Setembro cem anos sobre a data em que nascera Anrique Paço d'Arcos. Em 1993 a Imprensa Nacional editara-lhe as «Poesias Completas», que vai agora republicar. Irmão do escritor Joaquim Paço d'Arcos estavam ambos praticamente esquecidos. Do Joaquim, que foi funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ainda se encontram pelos alfarrabistas algumas edições do «Tons Verdes em Fundo Escuro», escrito em 1946, do seu magnífico conto «Samovar», e mesmo a história de «Venâncio», na qual todos os funcionários públicos se revêem e o seu inevitável «Ana Paula». Agora do irmão Anrique é que pouco aparece. O «Dicionário da Literatura Portuguesa no Mundo» ignora-o, a História da Literatura do Óscar Lopes e António José Saraiva que eu tenho dos tempos do liceu nem nele falava. Claro que eu esforço-me por acreditar que não há acasos. Mas como explicar que tenha encontrado durante as férias, deambulando já nem sei por onde, uma terceira edição do «Amores e Viagens» do Joaquim, em terceira edição da defunta Parceria António Maria Pereira, publicada em 1943, e ver nele uma comovente dedicatória ao irmão Anrique, aquele que «deste rancho de irmãos que entrou na vida rico de todas as ansiedades». E como explicar sobretudo, ao ler, precisamente no JL a ligação de Anrique a Teixeira de Pascoaess, dos quais ali se publicam duas cartas, que eu não me lembrasse sequer que, precisamente em nome do acaso, escrevera já, curiosamente neste mesmo blog, então a celebrar «minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia», isto mesmo, que hoje reli, como se outro o tivesse escrito! Perplexo parti à descoberta, para me cruzar, no espaço poético com a magnífica ave-azul.

5.9.06

Enfronhado

Dei conta ao reler-me, o que raramente faço, pois nunca tenho tempo: uma pessoa regressa de férias, enfronha-se na profissão, cheio de bons propósitos organisativos, a querer que ela seja apenas uma parte da sua vida, necessária mas que não ultrapasse o suficiente. Vejam o resultado: nestes últimos dias quase só falo de Direito, do que está, do que virá, do que tomara que viesse. A continuar assim, a coisa dá para o torto.

29.8.06

Longínquo

Eu, que não me sinto branco nascido em África, e nasci em Angola, nem europeu se isso não for Portugal, penso agora no Quénia longínquo. Um sentimento apátrida, invade-me o ser, como se um nómada, para quem tivesse morrido a família primeiro e lhe tivessem destruído a aldeia depois.

As leis da Natureza

Claro que eu tinha de ir ler imediatamente Dostoiévski ao chegar. E foi ao lê-lo, naqueles seus «Cadermos Subterrâneos» que me encontrei «com um homem que tivesse, para cúmulo, a especial infelicidade de viver em Petersburgo, a cidade mais abstracta e mais premeditada do planeta». Tudo isto é discutível, eternamente polémico, pretexto para uma interminável discussão para «chegarmos, mediante as mais inelutáveis combinações lógicas, até às mais repugnantes conclusões». Ao ver hoje aquela cidade-cenário, palco de uma itinerante comédia de rua, a contínua passerelle da beleza efémera e do exibicionismo do que é bem, sente-se que é de facto «impossível perdoar às leis da Natureza».

25.8.06

As ideias abstractas

Às vezes acontece, quando se viaja, pegar-se num livro à medida da bagagem que se leva, por causa do espaço, do peso, do tempo livre de que se dispõe. Poucas vezes sucede encontrar um livro que se compatibilize com o problema do local para onde se viaja. No caso um dos personagens do que leio tinha perdido há muito a crença na perfeição da espécie humana; pior, estava já amargamente convicto de que os indivíduos faziam sofrer os outros pela sua brutalidade, a sua malícia, a sua falta de compreensão. Por isso mesmo convivia melhor com as ideias abstractas da reforma social, a igualdade de oportunidades, em suma, a fraternidade humana. Comovia-se, porém, com os milhares de outros que, não ambicionando a liderança, seguiam um ideal com paciência e pobreza.

23.8.06

O labirinto

Imagine-se num local onde nada se entende do que dizemos e não entendemos o que nos querem dizer. Imagine-se um homem diminuido pela arrogância do que o cerca, perdido no labirinto do que procura. Pode ser uma cidade ou um momento da vida. Pode ser estar de férias ou o desejo de tentar sair delas. Imagine-se querer compreender e não conseguir sequer entender.

22.8.06

O mundo oblíquo

Leo Tolstoi tinha como hobby fabricar sapatos, nos intervalos de uma extensa e intensa escrita. Vivia com modéstia, numa das suas casas servido por dez criados. Dostoievsky sofreu na Sibéria a cadeia e o exílio e definhou, esvaindo-se em literatura. O primeiro vivia o problema da mística, o segundo o da angústia dos homens. Cada um deles tem as suas casas evocativas, a do segundo uma casa de esquina, como a de tantos dos seus personagens. Gorki também teve casa, oferecida pelos sovietes mas, como se simbolicamente, está encerrada para obras. Falta quem? Faltam tantos! Maiakovsky, por exemplo, oblíquo, vanguardista, provocador, suicida. No meio das suas vidas surgiu o tumulto dos engenheiros de almas, o anseio do homem novo. Hoje já nada sobeja. Numa das portas do Kremlin está o símbolo da Rolls-Royce, talvez por causa do carro luxuoso usado por Lenine, a bandeira do proletariado. Quantos milhões deram a vida por tudo isto. O motorista que nos conduz benze-se ao passar em cada Igreja. Hoje, já só o próprio Deus o poderá surpreender.

20.8.06

Museu ao ar livre

Viajo. Estou num local onde os computadores acentuam de modo diverso, sem que eu possa usar, ao escrever, o nosso modo de acentuar, obrigando-me a usar palavras que omitam o que por aqui inexiste. Curiosa forma de escrever esta, confinado por exemplo a ter de dizer sim, sem a possibilidade de acesso a uma palavra que exprima a negativa. Estou longe de casa, numa cidade com pouco mais de duzentos anos, um museu ao ar livre, replicando em arte o que de melhor a Europa tinha e as colossais fortunas podiam comprar, caixa de bonecas, de corpos espectaculares que se pavoneiam ante a rua do desinteresse. Oriundo de um Portugal com mais de oitocentos anos de vida independente, trago comigo o peso dos escombros acumulados com que nos fomos fazendo. Tenho saudades, talvez por hoje ser domingo, o dia do aborrecimento universal.

16.8.06

Acontece

Vou viajar. Fiz praia, quase sem lá ir. Saio, sem ter conseguido retomar o primeiro livro da Dulce Cardoso, que encentei há vários meses, o que se chama «Campo de Sangue», já foi prémio «Acontece» e agora a editora despacha a saldos. Hoje ainda peguei nele para me decidir a levá-lo na mala. Uma das últimas frases que ali tinha sublinhado trazia a nostalgia de uma colónia de férias onde eu nunca estive: «no útimo dia de férias deixaram na aldeia uma fila ordeira de pés tristes». Acho que o Verão está a acabar, ou pelo menos as férias. O tempo começa a arrefecer e eu sinto-me cansado já delas.

15.8.06

Sua mercê

Nunca me arrependa eu tanto de uma coisa como me arrependo de mostrar-me na fragilidade que os heróis quotidianos nunca admitem. A vida de hoje é o mundo do êxito, a sociedade o podium dos vitoriosos. Peço pois o favor a todos quantos lerem o que eu possa aqui chorar, de se rirem disso às gargalhadas. Não para que eu ganhe razão, mas para que ganhe ao menos alguma vergonha. Para tristes figuras já basta as que fazemos, escusamos de as contar. É nisso em que a blogoesfera é o muro das lamentações que eu me repugno de mim. Com tanto motivo para me exibir, ando nisto da tristeza e da comiseração enjoada à mercê. Restam, eu sei, uns quantos sincera e carinhosamente condoídos. É a esses que eu peço que desandem. Ridículo por ridículo, prefiro-me assim, pobre e mal agradecido.

14.8.06

Feriado

Há dias em que devia amanhecer logo o dia seguinte. Era assim, como se uma folha a menos no calendário. Amanhã, por exemplo, é feriado para que nada aconteça na vida de muita gente. Podia ser hoje. Para mim, devia ter sido hoje.

O espanto

Ana, a personagem de Clarice Lispector no seu conto «Amor» acabou por «descobrir que também sem felicidade se vive». Antes era «uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável». Vi esta noite, ao chegar a casa que começara a ler o livro, sem o ter terminado e, afinal, sem o ter compreendido. Voltei a ele, tal como ela, com «o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada». A diferença, é que esse novo saber sentido em Ana fora um lar quem «perplexamente lhe dera».