Um blog é um espaço privado aos olhos do público. Podemos vir aqui dizer que está a chover ou que não nos apetece ler. Podemos escrever para ninguém e nunca mais pensar no que foi escrito. Nos dias em que a cabeça esvazia é o local ideal para vir recliná-la. Temos depois os outros, os que nos detestam, os que nos invejam, os que imaginam em nós coisas que desejariam ter ou que vêm outras que detestam. Um blog é um espaço que cumpre o espaço dos antigos pelourinhos. Ficamos por ali, amarrados, sujeitos à lapidação pública. Os que tiverem vocação para o martírio, é só abrirem um blog.
4.11.06
3.11.06
Os dias comuns
Tentei voltar a ler, quase sem o conseguir. É um esforço para, cansado, me concentrar nas linhas, uma violência para, confuso, entender as frases. Estou a tentar desde ontem os diários do José Gomes Ferreira, «Os dias comuns». Eu, que já li dele o melhor, custa-me vê-lo agora tão vulgar. Mas talvez haja em mim o já não ser capaz, a eterna lamúria do impossível, «a repetição dos ditos já musgosos». Consegui ainda progredir por umas dez folhas antes de cair, fulminado de sono. Acordei, com os amigos desanimados. Ainda li que «a superioridade da alegria está em ligar os indiferentes. A dor é mais aristocrática. Só aproxima os amigos». Dói-me ver-me neste estado e com amigos preocupados. Hoje levo o livro comigo. Vou tentar voltar a ler, vou tentar conseguir lê-lo.
29.10.06
A inteligência das horas
Hoje, domingo, acordei com a hora mudada. É sempre este o momento em que me confronto com o carácter rudimentar da minha inteligência, ao ter de fazer contas quanto a saber que horas eram quando agora são as que são. Desta vez acho que consegui perceber o que se passou: o relógio atrasou. Já não é mau que até aí ainda chegue. O que não consigo entender é se com isto fiquei a ganhar mais tempo de vida, ou mais perto do fim. É a vantagem dos estúpidos, viverem felizes, ignorando quando chega, afinal, a sua hora.
25.10.06
Pomposamente serventuário
Hoje de manhã olhei para ele. Parece que interrompi a sua leitura há uma eternidade, encarcerado que estou na colónia dos trabalhos forçados. Fui buscá-lo, arrrastando-me para o canto da mesa onde, paciente, me esperava. São assim, silenciosamente disponíveis, nossos amigos, os livros. Abri na última crónica que lera, texto risonho, de uma malícia inteligente, uma escrita refinada. Nela falava-se no «affaire» que «a mãe» tivera há muitos anos com um cangalheiro de Delft «cuja empresa enterrava nessa altura metade do País Baixo e tinha infra-estruturas para enterrar o resto». Graça estava, porém, no lema do seu amante gato-pingado, que podia ser o meu nos dias actuais, os de desespero serventuário: «tudo no fúnebre, nada nas pompas!». São os «Bilhetes de Colares», daquele que os assinou como A. B. Kotter.
22.10.06
As mil e uma noites
Depois de uns dias a trabalhar dia e noite, sem tempo para ler quanto mais para escrever, consegui, nem sei como, uma sexta e um sábado para vir a Londres, aos arquivos britânicos, para acabar o meu próximo livro. Perto do hotel havia um restaurante persa. Chamava-se Sherazade, a história daquela que se amarrou ao cruel destino de ter de contar intermináveis histórias, para escapar à morte certa. De algum modo é assim também comigo. Quando cheguei aqui definhava em agonia, já sem nada para contar.
14.10.06
Gente, fazendo gente
Eu vejo por aí gente que tem, todos os dias, imensas coisas que leu. Eu tanta vez nem jornais leio. Eu sinto que há por aí gente que tem, a todas as horas, carradas de coisas para dizer. E eu tão frequentemente estou vazio de pensamentos. Eu vejo por aí gente que se adorna, para vir mostrar aos da rua do pescoço para cima e dali para baixo. E nisso eu que há dias em que nem saio de casa nem arrisco o pescoço. Eu vejo que há por aí gente, muita gente, essa gente, toda a gente. Olhando para o mundo, como se batendo à porta de uma retrete, um tipo espera ouvir, numa voz alteada da multidão apinhada lá por dentro: está gente!
10.10.06
Estudos cansados
Ando a coleccionar e a jurar que hei-de ler uma série de livros organizados pelo Pedro Calafate, o mesmo que dirigiu a notável «História do Pensamento Filosófico Português» e a que ele chamou «Portugal como problema».
Não tenho nenhum dos livros aqui. Mas depois de mais uma madrugada a trabalhar e poucas horas de sono lebro-me que, ao folheá-lo, dei conta que o Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, franciscano e filósofo, apóstolo da Razão, a propósito dos estudos seus antecedentes lhes chamava os «estudos cansados».
Como eu, que não sou propriamente um paladino da razão geométrica, o compreendo muito bem!
7.10.06
Uma vida adverbial
Hoje estive a olhar para um gato. Dei comigo a pensar o que será passar o dia molemente a dormitar e acordar para preguiçosamente comer. Tudo isto dissolve, tudo isto apetece. Não sei é porque me assaltam estas observações: talvez, raivosamente, por ter uma vida de cão.
2.10.06
O aprendiz das letras
A Bertrand, sem vergonha, deixa esgotar Mestre Aquilino e nem sequer o reedita. Só num alfarrabista consegui encontrar «Um escritor confessa-se», a sua auto-biografia, escrita em 1972, de que me ficou um exemplar num momento da minha vida desfeita. Tem, na edição de 1974, em que o adquiri agora, um prefácio do José Gomes Ferreira, notável pela ironia, a brincar consigo próprio, ele o «aprendiz das letras», a imaginar o livro e o seu intróito numa promoção que dissesse «inútil nota preambular de José Gomes Ferreira postfaciada por 400 páginas de Aquilino Ribeiro». Como este mundo de comedimento morreu, substituído pela impante arrogância, de pomposos prefaciadores de obras que nunca seriam sequer capazes de esboçar.
1.10.06
A negação
Encontrei um diário incompleto. No dia 14 de Maio de 2004, uma sexta-feira, escrevi: «Hoje o dia soterrou-me. Regressei a casa a cambalear por fora e a rastejar por dentro. Lembrei-me da frase do Milôr Fernandes «se você não consegue realizar seus sonhos, realize ao menos seus pesadelos». Lá vim, por isso, escrever estas linhas a este diário. Amanhã é sábado». Leio isto e copio a frase, letra a letra, hoje, domingo de tarde. Penso que é possível ser-se tudo, até negar-se a si próprio o direito de o ser.
30.9.06
O mundo lá fora
Comecei ontem ainda, já de noite. Mesmo a propósito, «As noites brancas», e logo na primeira folha o «será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?». Continuo hoje, sábado de manhã, extenuado, criatura intermédia, fazendo, tal como o sonhador do livro, de mim mesmo um inimigo. Vou na terceira noite. Lá fora o mundo deu em chover.
23.9.06
O Outono
Esta madrugada começou o Outono, a chover copiosamente. De manhã a cidade estava desolada, com areias espalhadas, esgotos entupidos, folhas a revoar, e os velhotes que acordam cedo sem saberem para quê, a arrastarem-se pelas ruas desertas, a caminho de tanto faz. Por vezes voltam com um saquito de pouco para um almoço de nada. Amanhã é domingo, ainda é pior. Seria o dia de lhes chegar a família, que raramente vem.
21.9.06
Maria
Eu se não acredito na transmigração das almas, sou um crédulo no símbolo de um acaso. Ela chama-se Maria e baptizou o seu endereço no msn com uma palavra. Ela chama-se também Maria e é a personagem do livro que esta noite leio para o apresentar amanhã, a surpreender-se em Moçambique com tantas vezes ouvir essa mesma palavra. A palavra de que faço bandeira ao acordar e esperança para o dia seguinte quando me deito é Hakuna Matata. É o «carpem diem» africano, o aproveita o teu dia, mote tristonho numa vida despediçada.
20.9.06
O adelo da vida
«Não me lembro de nada anterior aos livros». Quem o diz é Cruz Santos, um homem que viveu no mundo da edição. Cada vez são menos estas pessoas que ao livro dedicam uma vida sacrificada. Encontrei outro dia um desses, alfarrabista filho de alfarrabista. Ali andava ele de feira em feira, entre os gananciosos das primeiras edições, e as viúvas a desfazerem-se, envergonhadas da sua miséria disfarçada, do que restava na defunta estante lá de casa. Quantas vezes me dói quando vejo, no adelo da vida, uma dedicatória amorosa que o destino atirou para o acaso de alguém que a lembre. Salvei muitas e guardo-as no silêncio recolhidas da minha livraria, devoções a indiferentes, amores esquecidos, na forma de um autógrafo sentido.
18.9.06
O efémero
Estamos em época de estudos bocageanos ou estudos «bocagianos», como diz uma brochura da Câmara Municipal de Setúbal que mão amiga me mostrou. Bocage, não o que dá nome à rua onde está o meu escritório, que é o botânico, mas sim o outro, o poeta, o «incapaz de servir num só terreno». Morreu desgraçado, condenado ao efémero do deboche, esquecida a grandeza do génio. Não há imbecil que não conheça dele a despropósito uma anedota!
17.9.06
O vagão fantasma
«Na sequência das greves dos ferroviários e sabotagem aos comboios como medida reivindicativa, o Governo determina a utilização do “vagão–fantasma”, um vagão aberto cheio de grevistas presos, utilizado à frente da locomotiva, para impedir a sabotagem da via férrea». Foi em 1919. Assim pareço eu agora, colocando-me, aprisionado, à frente da locomotiva da vida, para evitar sabotá-la.
16.9.06
O dia dos jornais
Lembro-me. Era um adolescente, estudava o liceu em Viseu e queria ser culto. Por isso lia na Biblioteca Municipal coisas que não entendia, requisitava na carrinha biblioteca itinerante da Gulbenkian livros que o funcionário me perguntava se eram para algum outro, mais velho. Mas lembrei-me hoje de quando íamos, pelo fim da tarde, a pé, perto precisamente da Biblioteca, esperar, ávidos de saber, a camioneta que trazia os «jornais de Lisboa». Àquela remota província chegavam, atados, vindo da longínqua e inacessível capital do saber. Disputavam-se os poucos exemplares. Depois, eram uns velhotes de ar endurecido e desconfiado a esconderem, conspirativos o «República», debaixo do casaco, nós, uns jovens vaidosos de atrevimento, a mostrarmos orgulhosos, no café, que líamos o «Diário de Lisboa». Tudo isso já acabou. Já acabou o «República» do Raúl Rego, o «Diário de Lisboa» do Ruella Ramos, o «Século» do Pereira da Rosa. Já acabou o «Diário Popular», já acabou «A Capital». Hoje voltei aos meus tempos do liceu em Viseu. Vou esperar aqui em baixo que cheguem os jornais de Lisboa, para que não esgotem. A diferença é que eu estou em Lisboa, são todos em muitos exemplares e eu não sei se ainda tenho a mesma alegria ao trazê-los para o café.
15.9.06
Sem outra lei
Tentei não ler o Borges em português, para esperar o dia em que pudesse lê-lo no original. Encontrei-o agora, em livrinhos pequenos, daqueles que se transportam na pasta ao lado do que pesa como obrigação. Ainda por cima o Jorge Luis Borges escreve textos pequenos com ideias grandes, como se tivesse pena de quem tem pouco tempo. Hoje, nem sei como, lá foram mais umas folhas vividas e numa delas o que poderia ser um modo de viver, não fora o moralismo endémico da infância, o sentido do dever da juventude, o sentido dos limites desta idade: viver a vida «sin otra ley que la fruición y la indiferencia inmediata».
14.9.06
O problema do se
Eu sabia que havia uma lagoa das sete cidades, descobri hoje que havia três cidades dentro de uma cidade e várias pessoas dentro de uma pessoa. Num mundo assim, um homem tem muito por onde passear-se. Assim mesmo, reflexamente.
11.9.06
Chevalier servant
Mimadamente disperso, como diria uma amiga minha, ando a ler a esmo o que os outros já leram há séculos. E ainda por cima não tenho vergonha de o dizer. Ontem estive com os «Bilhetes de Colares», escritos entre 1982 e 1987 pelo A. B. Kotter, esse fantástico pseudónimo que parece autêntico, e que o ainda sobrevivente jornal «Semanário» editou há dezasseis anos. São textos curtos, que se lêem antes de dormir e que dão um sonho risonho. O lido ontem, antes da «deita», era sobre um tal fictício Henri de Beaucul de Monfart, amanuense de Paul Bourget, «chevalier servant» da mamã do autor entre 1937 e 1939. A prosa é doce de estilo e picante de ironia: «Fauxcul, como nós lhe chamávamos», escreve o Dr. Kotter, «por ser mulherenguíssimo, dizia sempre que a Mãe submetia a ortografia à fonética porque pensava com o coração». E continua, a rematar: «Esta causalidade chocha, assim metida a martelo, só enganava, julgo eu, a própria Mãe, vaidosa como todas as mulheres, e era a maneira de Fauxcul se insinuar, felino, entre os lençóis da Senhora sem deixar de luzir nos olhos de Bourget». Ora aí está uma maneira agradável de se começar o dia, a rir. Tem de ser, porque tenho de ir trabalhar! Mimadamente disperso, entre outras coisas trabalho numa profissão que é uma espécie de condenação às galés.
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