16.11.06

O local e o mar

Há na curva da estrada da vida um local que mil faróis encandeiam, holofotes potentes da curiosidade, a desventrar o último reduto escondido da almas escondidas. Indiferentes à noite, embalados pelo mar, são para os namorados tais faróis as luzes amigas para o porto tranquilo da sua paixão. Há na curva da estrada um local único, por onde circulam, velozes, os automóveis da indiferença em que a vida se tornou.

13.11.06

Morar-te

«Morar-te até morrer-te». Como nós na língua portuguesa temos uma relação difícil com as formas verbais reflexas. Como nos parece natural o «amar-te» como meio de dizer o «ter-te» e como se nos afigura estranho o «morrer-te» para dizer o «irmo-nos».

11.11.06

O adormecer definitivo

Tal como os velhos que repetem, sem darem conta, a mesma história, eu, recluso neste interior sombrio do cárcere das obrigações, dou comigo a rever o dito, a recontar o escrito. Foi há dois anos, num blog que, em liberdade, apaguei: «O sobressalto na madrugada, a aflição do que fica por viver, como se o coração parasse e a respiração deixasse de assistir. Há nesse breve instante, em que tudo se suspende, o momento agónico da hesitação existencial sobre se valerá a pena continuar assim, sem consciência da origem nem certeza do fim. Quando a madrugada surgir, aurora enfim de um novo dia, espera-se a dúvida resolvida. Saudemos nisso quanto vive e nessa saudação a própria vida que nos é dada viver».
Numa só coisa me revejo, na vida que me é dada viver, as madrugadas são maiores, infinita a vontade de adormecer, sim, definitivamente.

10.11.06

Um espirro

Há no acto de espirrar adulto a expressão dos nossos recalcamentos, de tudo quanto contemos e do tanto que nos limitamos. Carinhosa a lembrança dos dias em que, tal como o sentiamos e a Natureza nos impunha, nos saía um expontâneo e simples «atchim!». Li algures que o espirrar é o melhor antídoto para os soluços. Evita-os. Um resfriado, um dia trancado no quarto, poupa-nos a muitas lágrimas.

8.11.06

A hesitação no dizer

«Diz-me um segredo, mantem-me acordada». Li a frase e no recôndito secreto de mim, surgiu-me uma memória longínqua de uma qualquer sonoridade íntima, familiar e reconfortante, como a de uma tarde em silêncio tendo como companhia o calor contíguo, a simples presença, a hesitação no dizer.

5.11.06

A juventude voluntária

Continuo a ler, aos poucos, os diários do José Gomes Ferreira. Claro que não é a «Memória das Palavras». É um livro que tem o que de irritante e medíocre acontece na vida quotidiana de cada um de nós, mesmo dos que são geniais. Ainda por cima trata-se de um escritor que se confessa um «resignado ao marxismo» e que acabou por ser sacralizado pelos marxistas. Depois, é tudo muito mesquinho de rancores e cego de amores, triviais os afectos. Esqueço, porém, tudo isso. Rara é a folha onde não está uma frase inteligente, que dá sentido à vida, anima e faz companhia. «Envelhecer é construir a juventude voluntária que, embora a gente nova por lei da natureza não acredite, vale quase sempre mais do que a outra, a involuntária». Hoje de manhã, cansado, meio sem norte quanto ao que fazer e com tanto para fazer ainda consegui chegar à página oitenta, onde ele fala do «comércio amável de curvejos em que se resume a vida literária portuguesa». E acrescenta «de curvejos e de coices».

4.11.06

A eternidade do amor

Ainda o tenho aqui, por acabar de ler o «Borges Verbal», recolha paciente de citações do seus escritos. Entre algumas banalidades, genialidades e trivialidades, está ali a ideia de que o «o amor é eterno enquanto dura». Só quem perdeu pela cegueira a noção feliz do espaço, tem uma tal descrença triste na dimensão do tempo. Talvez por estar a entardecer, dou comigo a pensar que para um homem só, o infinito é um momento transitório de si.

Línguas de pedra

Um blog é um espaço privado aos olhos do público. Podemos vir aqui dizer que está a chover ou que não nos apetece ler. Podemos escrever para ninguém e nunca mais pensar no que foi escrito. Nos dias em que a cabeça esvazia é o local ideal para vir recliná-la. Temos depois os outros, os que nos detestam, os que nos invejam, os que imaginam em nós coisas que desejariam ter ou que vêm outras que detestam. Um blog é um espaço que cumpre o espaço dos antigos pelourinhos. Ficamos por ali, amarrados, sujeitos à lapidação pública. Os que tiverem vocação para o martírio, é só abrirem um blog.

3.11.06

Os dias comuns

Tentei voltar a ler, quase sem o conseguir. É um esforço para, cansado, me concentrar nas linhas, uma violência para, confuso, entender as frases. Estou a tentar desde ontem os diários do José Gomes Ferreira, «Os dias comuns». Eu, que já li dele o melhor, custa-me vê-lo agora tão vulgar. Mas talvez haja em mim o já não ser capaz, a eterna lamúria do impossível, «a repetição dos ditos já musgosos». Consegui ainda progredir por umas dez folhas antes de cair, fulminado de sono. Acordei, com os amigos desanimados. Ainda li que «a superioridade da alegria está em ligar os indiferentes. A dor é mais aristocrática. Só aproxima os amigos». Dói-me ver-me neste estado e com amigos preocupados. Hoje levo o livro comigo. Vou tentar voltar a ler, vou tentar conseguir lê-lo.

29.10.06

A inteligência das horas

Hoje, domingo, acordei com a hora mudada. É sempre este o momento em que me confronto com o carácter rudimentar da minha inteligência, ao ter de fazer contas quanto a saber que horas eram quando agora são as que são. Desta vez acho que consegui perceber o que se passou: o relógio atrasou. Já não é mau que até aí ainda chegue. O que não consigo entender é se com isto fiquei a ganhar mais tempo de vida, ou mais perto do fim. É a vantagem dos estúpidos, viverem felizes, ignorando quando chega, afinal, a sua hora.

25.10.06

Pomposamente serventuário

Hoje de manhã olhei para ele. Parece que interrompi a sua leitura há uma eternidade, encarcerado que estou na colónia dos trabalhos forçados. Fui buscá-lo, arrrastando-me para o canto da mesa onde, paciente, me esperava. São assim, silenciosamente disponíveis, nossos amigos, os livros. Abri na última crónica que lera, texto risonho, de uma malícia inteligente, uma escrita refinada. Nela falava-se no «affaire» que «a mãe» tivera há muitos anos com um cangalheiro de Delft «cuja empresa enterrava nessa altura metade do País Baixo e tinha infra-estruturas para enterrar o resto». Graça estava, porém, no lema do seu amante gato-pingado, que podia ser o meu nos dias actuais, os de desespero serventuário: «tudo no fúnebre, nada nas pompas!». São os «Bilhetes de Colares», daquele que os assinou como A. B. Kotter.

22.10.06

As mil e uma noites

Depois de uns dias a trabalhar dia e noite, sem tempo para ler quanto mais para escrever, consegui, nem sei como, uma sexta e um sábado para vir a Londres, aos arquivos britânicos, para acabar o meu próximo livro. Perto do hotel havia um restaurante persa. Chamava-se Sherazade, a história daquela que se amarrou ao cruel destino de ter de contar intermináveis histórias, para escapar à morte certa. De algum modo é assim também comigo. Quando cheguei aqui definhava em agonia, já sem nada para contar.

14.10.06

Gente, fazendo gente

Eu vejo por aí gente que tem, todos os dias, imensas coisas que leu. Eu tanta vez nem jornais leio. Eu sinto que há por aí gente que tem, a todas as horas, carradas de coisas para dizer. E eu tão frequentemente estou vazio de pensamentos. Eu vejo por aí gente que se adorna, para vir mostrar aos da rua do pescoço para cima e dali para baixo. E nisso eu que há dias em que nem saio de casa nem arrisco o pescoço. Eu vejo que há por aí gente, muita gente, essa gente, toda a gente. Olhando para o mundo, como se batendo à porta de uma retrete, um tipo espera ouvir, numa voz alteada da multidão apinhada lá por dentro: está gente!

10.10.06

Estudos cansados

Ando a coleccionar e a jurar que hei-de ler uma série de livros organizados pelo Pedro Calafate, o mesmo que dirigiu a notável «História do Pensamento Filosófico Português» e a que ele chamou «Portugal como problema».
Não tenho nenhum dos livros aqui. Mas depois de mais uma madrugada a trabalhar e poucas horas de sono lebro-me que, ao folheá-lo, dei conta que o Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, franciscano e filósofo, apóstolo da Razão, a propósito dos estudos seus antecedentes lhes chamava os «estudos cansados».
Como eu, que não sou propriamente um paladino da razão geométrica, o compreendo muito bem!

7.10.06

Uma vida adverbial

Hoje estive a olhar para um gato. Dei comigo a pensar o que será passar o dia molemente a dormitar e acordar para preguiçosamente comer. Tudo isto dissolve, tudo isto apetece. Não sei é porque me assaltam estas observações: talvez, raivosamente, por ter uma vida de cão.

2.10.06

O aprendiz das letras

A Bertrand, sem vergonha, deixa esgotar Mestre Aquilino e nem sequer o reedita. Só num alfarrabista consegui encontrar «Um escritor confessa-se», a sua auto-biografia, escrita em 1972, de que me ficou um exemplar num momento da minha vida desfeita. Tem, na edição de 1974, em que o adquiri agora, um prefácio do José Gomes Ferreira, notável pela ironia, a brincar consigo próprio, ele o «aprendiz das letras», a imaginar o livro e o seu intróito numa promoção que dissesse «inútil nota preambular de José Gomes Ferreira postfaciada por 400 páginas de Aquilino Ribeiro». Como este mundo de comedimento morreu, substituído pela impante arrogância, de pomposos prefaciadores de obras que nunca seriam sequer capazes de esboçar.

1.10.06

A negação

Encontrei um diário incompleto. No dia 14 de Maio de 2004, uma sexta-feira, escrevi: «Hoje o dia soterrou-me. Regressei a casa a cambalear por fora e a rastejar por dentro. Lembrei-me da frase do Milôr Fernandes «se você não consegue realizar seus sonhos, realize ao menos seus pesadelos». Lá vim, por isso, escrever estas linhas a este diário. Amanhã é sábado». Leio isto e copio a frase, letra a letra, hoje, domingo de tarde. Penso que é possível ser-se tudo, até negar-se a si próprio o direito de o ser.

30.9.06

O mundo lá fora

Comecei ontem ainda, já de noite. Mesmo a propósito, «As noites brancas», e logo na primeira folha o «será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?». Continuo hoje, sábado de manhã, extenuado, criatura intermédia, fazendo, tal como o sonhador do livro, de mim mesmo um inimigo. Vou na terceira noite. Lá fora o mundo deu em chover.

23.9.06

O Outono

Esta madrugada começou o Outono, a chover copiosamente. De manhã a cidade estava desolada, com areias espalhadas, esgotos entupidos, folhas a revoar, e os velhotes que acordam cedo sem saberem para quê, a arrastarem-se pelas ruas desertas, a caminho de tanto faz. Por vezes voltam com um saquito de pouco para um almoço de nada. Amanhã é domingo, ainda é pior. Seria o dia de lhes chegar a família, que raramente vem.

21.9.06

Maria

Eu se não acredito na transmigração das almas, sou um crédulo no símbolo de um acaso. Ela chama-se Maria e baptizou o seu endereço no msn com uma palavra. Ela chama-se também Maria e é a personagem do livro que esta noite leio para o apresentar amanhã, a surpreender-se em Moçambique com tantas vezes ouvir essa mesma palavra. A palavra de que faço bandeira ao acordar e esperança para o dia seguinte quando me deito é Hakuna Matata. É o «carpem diem» africano, o aproveita o teu dia, mote tristonho numa vida despediçada.