30.11.06

A transsubstanciação

A arte de escrever com pudor, o saber-se da subtileza a arte, só o alcançam almas eleitas, em momentos de excepção. Sebastião Artur Cardoso da Gama. «Andam mais as minhas mãos do que andam os nossos pés», escreveu, num momento só, desprendido de si. Fecham-se os olhos e quase que se sente, táctilmente, do que ele fala, como se de súbito sob o verbo surgisse o corpo.

28.11.06

A Pátria entrevada

As fotobiografias são uma espécie de vida emoldurada, na saleta de estar de uma vida já vivida em tardes friorentas, de luz baça e recordações indiferentes. Mas eu insisto em comprá-las e em lê-las, mesmo quando as acho aquém dos biografados.
Há dois dias, num intervalo nem sei de quê, comprei a do Almada Negreiros. Hoje, vindo dos confins do dever ser, essa masmorra punitiva onde ganho musgo na alma, comecei a folheá-la.
Sentado na cama, a uns metros de mim, há a exposição do Amadeu Souza-Cardoso, que ainda não visitei. Sobre ele escreveu Almada, em manifesto: «Quando um português, genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da Pária entrevada, para lhe dar o parto da sua inteligência, a indiferença espartilhada da família portuguesa ainda não deslaça as mãos de cima da barriga».
As fotobiografias podem ser tudo, uma vida assim, vista do remorso condoído de uma família desfeita, é que já não é nada, nem a indiferença sequer espartilhada.

24.11.06

Um diário inventado

Desci a rua devagar, atrás de mim automóveis acumulavam-se, impacientes. Enfim, quase imperceptível, ei-la ali. Subiu-me à consciência exaltada, vindo dos armazéns pulvurentos da memória, a ideia clara de que lhe já lhe tinha visto a montra, ao passear-me por ali.
Consegui um quarteirão depois um lugar para estacionar. Regressei ao local da surpresa, agora a pé, o passo estugado, os automóveis ainda atulhados na rua, sem paciência: uma livraria, palacete aristocrático de alfarrábios, lar de edições esgotadas, asilo de livros em segunda-mão.
A dona vestia o casaco, depois de um monótono dia sem clientes. Gentil, ao ver-me entrar, disse que tínhamos tempo.
Perguntei-lhe pelo José Gomes Ferreira. Tinha-o todo.
Por causa disso, estou esta noite a tentar ler a «Imitação dos Dias», um diário inventado, também «com restos de gritos na boca a exigirem futuro».
Agradeço a todos, os que me disseram que a procurasse ali, a ela por ter adiado o fim do seu dia. Chama-se Crisálida, borboleteando por entre a cultura em papel. Mostrou-me, como se enamorada por ele, um estudo sobre o Wenceslau de Morais, em papel de arroz, as folhas encadernadas pela outra margem.

19.11.06

A Natureza amiga

«Atirar bolas de algodão para poços de cortiça». Foi a última frase que me ficou do livro do José Gomes Ferreira que estou a ler. É assim o começar dos revoltados mansos, conformados primeiro com a surdez alheia e lentamente com a sua própria mudez. No fim, chega um manto de nevoeiro, como no dia de hoje, domingo, a Natureza, amiga, a querer-nos abraçar, escondendo-nos dos outros o rosto do desespero.

18.11.06

O ronronar incerto

Lembro-me que vinha no avião de Dili, o motor ao meu lado a intranquilizar-me com o seu ronronar incerto, a lê-la. Depois recomendei a leitura. Neste mundo improvável e de seres longínquos há sempre uma criatura com uma vida diária de «Que é que ela tem? Alguém perguntou com uma curiosidade negligente». Vinha a ler essa folha, precisamente quando a lembrança surgiu. São os «Laços de Família», da Clarice Lispector. A narrativa em que «a uma coisa bonita faltava o gesto de a dar».

16.11.06

O local e o mar

Há na curva da estrada da vida um local que mil faróis encandeiam, holofotes potentes da curiosidade, a desventrar o último reduto escondido da almas escondidas. Indiferentes à noite, embalados pelo mar, são para os namorados tais faróis as luzes amigas para o porto tranquilo da sua paixão. Há na curva da estrada um local único, por onde circulam, velozes, os automóveis da indiferença em que a vida se tornou.

13.11.06

Morar-te

«Morar-te até morrer-te». Como nós na língua portuguesa temos uma relação difícil com as formas verbais reflexas. Como nos parece natural o «amar-te» como meio de dizer o «ter-te» e como se nos afigura estranho o «morrer-te» para dizer o «irmo-nos».

11.11.06

O adormecer definitivo

Tal como os velhos que repetem, sem darem conta, a mesma história, eu, recluso neste interior sombrio do cárcere das obrigações, dou comigo a rever o dito, a recontar o escrito. Foi há dois anos, num blog que, em liberdade, apaguei: «O sobressalto na madrugada, a aflição do que fica por viver, como se o coração parasse e a respiração deixasse de assistir. Há nesse breve instante, em que tudo se suspende, o momento agónico da hesitação existencial sobre se valerá a pena continuar assim, sem consciência da origem nem certeza do fim. Quando a madrugada surgir, aurora enfim de um novo dia, espera-se a dúvida resolvida. Saudemos nisso quanto vive e nessa saudação a própria vida que nos é dada viver».
Numa só coisa me revejo, na vida que me é dada viver, as madrugadas são maiores, infinita a vontade de adormecer, sim, definitivamente.

10.11.06

Um espirro

Há no acto de espirrar adulto a expressão dos nossos recalcamentos, de tudo quanto contemos e do tanto que nos limitamos. Carinhosa a lembrança dos dias em que, tal como o sentiamos e a Natureza nos impunha, nos saía um expontâneo e simples «atchim!». Li algures que o espirrar é o melhor antídoto para os soluços. Evita-os. Um resfriado, um dia trancado no quarto, poupa-nos a muitas lágrimas.

8.11.06

A hesitação no dizer

«Diz-me um segredo, mantem-me acordada». Li a frase e no recôndito secreto de mim, surgiu-me uma memória longínqua de uma qualquer sonoridade íntima, familiar e reconfortante, como a de uma tarde em silêncio tendo como companhia o calor contíguo, a simples presença, a hesitação no dizer.

5.11.06

A juventude voluntária

Continuo a ler, aos poucos, os diários do José Gomes Ferreira. Claro que não é a «Memória das Palavras». É um livro que tem o que de irritante e medíocre acontece na vida quotidiana de cada um de nós, mesmo dos que são geniais. Ainda por cima trata-se de um escritor que se confessa um «resignado ao marxismo» e que acabou por ser sacralizado pelos marxistas. Depois, é tudo muito mesquinho de rancores e cego de amores, triviais os afectos. Esqueço, porém, tudo isso. Rara é a folha onde não está uma frase inteligente, que dá sentido à vida, anima e faz companhia. «Envelhecer é construir a juventude voluntária que, embora a gente nova por lei da natureza não acredite, vale quase sempre mais do que a outra, a involuntária». Hoje de manhã, cansado, meio sem norte quanto ao que fazer e com tanto para fazer ainda consegui chegar à página oitenta, onde ele fala do «comércio amável de curvejos em que se resume a vida literária portuguesa». E acrescenta «de curvejos e de coices».

4.11.06

A eternidade do amor

Ainda o tenho aqui, por acabar de ler o «Borges Verbal», recolha paciente de citações do seus escritos. Entre algumas banalidades, genialidades e trivialidades, está ali a ideia de que o «o amor é eterno enquanto dura». Só quem perdeu pela cegueira a noção feliz do espaço, tem uma tal descrença triste na dimensão do tempo. Talvez por estar a entardecer, dou comigo a pensar que para um homem só, o infinito é um momento transitório de si.

Línguas de pedra

Um blog é um espaço privado aos olhos do público. Podemos vir aqui dizer que está a chover ou que não nos apetece ler. Podemos escrever para ninguém e nunca mais pensar no que foi escrito. Nos dias em que a cabeça esvazia é o local ideal para vir recliná-la. Temos depois os outros, os que nos detestam, os que nos invejam, os que imaginam em nós coisas que desejariam ter ou que vêm outras que detestam. Um blog é um espaço que cumpre o espaço dos antigos pelourinhos. Ficamos por ali, amarrados, sujeitos à lapidação pública. Os que tiverem vocação para o martírio, é só abrirem um blog.

3.11.06

Os dias comuns

Tentei voltar a ler, quase sem o conseguir. É um esforço para, cansado, me concentrar nas linhas, uma violência para, confuso, entender as frases. Estou a tentar desde ontem os diários do José Gomes Ferreira, «Os dias comuns». Eu, que já li dele o melhor, custa-me vê-lo agora tão vulgar. Mas talvez haja em mim o já não ser capaz, a eterna lamúria do impossível, «a repetição dos ditos já musgosos». Consegui ainda progredir por umas dez folhas antes de cair, fulminado de sono. Acordei, com os amigos desanimados. Ainda li que «a superioridade da alegria está em ligar os indiferentes. A dor é mais aristocrática. Só aproxima os amigos». Dói-me ver-me neste estado e com amigos preocupados. Hoje levo o livro comigo. Vou tentar voltar a ler, vou tentar conseguir lê-lo.

29.10.06

A inteligência das horas

Hoje, domingo, acordei com a hora mudada. É sempre este o momento em que me confronto com o carácter rudimentar da minha inteligência, ao ter de fazer contas quanto a saber que horas eram quando agora são as que são. Desta vez acho que consegui perceber o que se passou: o relógio atrasou. Já não é mau que até aí ainda chegue. O que não consigo entender é se com isto fiquei a ganhar mais tempo de vida, ou mais perto do fim. É a vantagem dos estúpidos, viverem felizes, ignorando quando chega, afinal, a sua hora.

25.10.06

Pomposamente serventuário

Hoje de manhã olhei para ele. Parece que interrompi a sua leitura há uma eternidade, encarcerado que estou na colónia dos trabalhos forçados. Fui buscá-lo, arrrastando-me para o canto da mesa onde, paciente, me esperava. São assim, silenciosamente disponíveis, nossos amigos, os livros. Abri na última crónica que lera, texto risonho, de uma malícia inteligente, uma escrita refinada. Nela falava-se no «affaire» que «a mãe» tivera há muitos anos com um cangalheiro de Delft «cuja empresa enterrava nessa altura metade do País Baixo e tinha infra-estruturas para enterrar o resto». Graça estava, porém, no lema do seu amante gato-pingado, que podia ser o meu nos dias actuais, os de desespero serventuário: «tudo no fúnebre, nada nas pompas!». São os «Bilhetes de Colares», daquele que os assinou como A. B. Kotter.

22.10.06

As mil e uma noites

Depois de uns dias a trabalhar dia e noite, sem tempo para ler quanto mais para escrever, consegui, nem sei como, uma sexta e um sábado para vir a Londres, aos arquivos britânicos, para acabar o meu próximo livro. Perto do hotel havia um restaurante persa. Chamava-se Sherazade, a história daquela que se amarrou ao cruel destino de ter de contar intermináveis histórias, para escapar à morte certa. De algum modo é assim também comigo. Quando cheguei aqui definhava em agonia, já sem nada para contar.

14.10.06

Gente, fazendo gente

Eu vejo por aí gente que tem, todos os dias, imensas coisas que leu. Eu tanta vez nem jornais leio. Eu sinto que há por aí gente que tem, a todas as horas, carradas de coisas para dizer. E eu tão frequentemente estou vazio de pensamentos. Eu vejo por aí gente que se adorna, para vir mostrar aos da rua do pescoço para cima e dali para baixo. E nisso eu que há dias em que nem saio de casa nem arrisco o pescoço. Eu vejo que há por aí gente, muita gente, essa gente, toda a gente. Olhando para o mundo, como se batendo à porta de uma retrete, um tipo espera ouvir, numa voz alteada da multidão apinhada lá por dentro: está gente!

10.10.06

Estudos cansados

Ando a coleccionar e a jurar que hei-de ler uma série de livros organizados pelo Pedro Calafate, o mesmo que dirigiu a notável «História do Pensamento Filosófico Português» e a que ele chamou «Portugal como problema».
Não tenho nenhum dos livros aqui. Mas depois de mais uma madrugada a trabalhar e poucas horas de sono lebro-me que, ao folheá-lo, dei conta que o Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, franciscano e filósofo, apóstolo da Razão, a propósito dos estudos seus antecedentes lhes chamava os «estudos cansados».
Como eu, que não sou propriamente um paladino da razão geométrica, o compreendo muito bem!

7.10.06

Uma vida adverbial

Hoje estive a olhar para um gato. Dei comigo a pensar o que será passar o dia molemente a dormitar e acordar para preguiçosamente comer. Tudo isto dissolve, tudo isto apetece. Não sei é porque me assaltam estas observações: talvez, raivosamente, por ter uma vida de cão.