1.1.07

Só pode ser no gozo!

Primeiro dia do ano, segunda-feira. Normalmente é a altura de se prometerem coisas novas, normalmente a nós próprios, assim mesmo sem grande convicção e prudentemente sem testemunhas. Desta vez resolvi prometer que na próxima incarnação vou ser feliz. Nesta já não tenho tempo a não ser para tentar ainda, se possível, viver contente.
Prometido que está, vou tentar começar na próxima semana: nesta bem gostaria de me iniciar no contentamento, mas para além das adversidades, contratempos e má catadura, há os outros, os que acham que agora é a vez deles gozarem a vida e, claro, nesta vida não há gozo que chegue para tantos!

28.12.06

Fé em Deus e talvez uma aspirina!

Encontrei-a, vinha de um médico, atormentado com o descobrir afinal que doença é esta que me roubou as energias e a vontade de as recuperar: era a biografia do jesuíta Padre Vaz Pinto. Estou a lê-la esta noite. Se é possível formar uma opinião ao ter lido apenas cento e quarenta páginas de quatrocentas e trinta e poucas que a obra tem, aqui vai: acho o livro superficial onde ele se esperava profundo, vulgar onde deveria ter sido complexo.
Não falo do mundo «coquette» que se revê em tantas daquelas páginas e que nelas é chamado nominalmente, para o qual a frase «Deus fez-se homem para que o homem se fizesse Deus» deve dar um travo de glória divina momentânea num quotidiano trivial de mundanidades que uma missa domingueira beatifica.
Falo sim do problema existencial de uma vocação, a explicação da mística que leva um finalista de Direito, com 22 anos, em 1965, a entrar no duro Noviciado da Companhia de Jesus e no mais que se lhe segue segundo a formação delienada por Santo Inácio de Loyola. Lê-se o livro e não há uma chama que convença, uma razão que se imponha, um apelo que se faça entender.
Mais! Como era de esperar de quem diz que na hora de entrar «ia morrendo por dentro, ia-me despedindo dolorosamente de todos e de tudo, como se uma vida de que tanto gostasse desparecesse como o Sol, lenta mas inexoravelmente no horizonte», surge-lhe logo, ante os horrores do mundo, a crise de fé, a dúvida sobre a Omnipotência ou a Suprema Bondade daquele Deus que jurou servir.
É aí que o livro supreende e desanima. Vaz Pinto, padre, filósofo, teólogo, homem do mundo e da cultura, colocado perante o dilema-tentação de saber como se compatibiliza um Deus que é o Supremo Bem e o Supremo Poder com a injustiça, a miséria e o sofrimento da humanidade, contentou-se e com isso regressou à tranquilidade do espírito e à paz do coração, com esta forma cândida de singeleza e ingénua de crendice: os santos, sim, os santos, se continuaram fiéis a Deus, é porque a solução existe. Vai daí, tudo se resolve assim: «aceitei os meus limites e o intransponível mistério de Deus». Ponto final.
Vou continuar a ler e amanhã já nem volto ao médico. Achei a cura do meu mal: um insondável mistério de Deus! À cautela, talvez arrisque, mas só uma prudente aspirina, não vá, herege, arder em febres, nas fogueiras infernais!

25.12.06

Uma alfarrabista

Foi hoje em Sintra, na Volta do Duche, num recanto de uma curva, antes de se chegar à estação. Aberta em dia de Natal, uma livraria-alfarrabista. A juntar à surpresa do encontro, a magia do local, o fantástico das coincidências. Nem me lembro sobre o que conversámos, pelo canto dos olhos encontrava-os, livros que tenho, livros que fui perdendo, livros de que me desapossaram. Ali um Gandra, além um Viterbo, depois os da editora de Colares, que agora é aqui, «do outro lado da rua». Tudo se tornou familiar e mais ainda com a raridade de um nome raro: chamava-se, tal como a minha filha, Adriana, Maria Adriana! Casada com um inglês, Mister Jones, Maria Adriana Jones é conhecida pelos miúdos locais como a Indiana Jones. Na selva dos livros, ela move-se entre os Salteadores da Arca Perdida. Vê-se pelo brilho nos olhos que ama os livros, a ponto de os presentear com a porta aberta ao mundo no Dia de Natal.

24.12.06

As primeiras folhas

Regressei ao primeiro livro da Dulce Cardoso, de há muito deixado a meio, a leitura interrompida. Lembrava-me de cena onde ia, o homem na praia com o caco de vidro cravado no pé, o espectáculo tétrico de levarem-no, num dia de sufocante canícula, o metal e o sol combinados com o alcatrão amolecido, para um indiferente hospital. Li umas folhas antes de cair, fulminado de sono, «o passado demora sempre algum tempo a ser reiventado». Tal como a vida, as primeiras folhas já lidas não são, pois, necessariamente assim.

23.12.06

A antecâmara

Descobri, ao terminar o segundo volume das memórias do José Gomes Ferreira, hoje que consegui recomeçar a leitura, neste dia em que também sinto «vontade de despir o corpo»: «tenho às vezes a impressão de que estou na antecâmara dum médico - à espera da minha vez. Estou doente de vida. Espero ser recebido um dia...». Acreditem, pois! Espero mesmo ser recebido um dia, doente de vida!

22.12.06

O sentimento do «já posso?»

Por esta altura havia na cidade a azáfama formigueira por causa de embrulhos, laços e prendas, ceias, almoços e visitas forçadas. A esta hora, na cidade, subiam-se escadas e atulhavam-se cestos, na ânsia ilusória de se estar bem, sendo-se bom. Por esta altura a cidade afinal não mudou, Eu, estou aqui, a lembrança infantil de uma mesa posta, onde em nada se poderia tocar. A esse sentimento do «já posso?», seguia-se o do «que será?», vivido na noite que as prendas vinham pela chaminé. Tudo isso foi há muito tempo, convenci-me hoje, de facto, há demasiado tempo.

11.12.06

Agulha em palheiro

A Natureza às vezes tem pena e adoece-nos. Sucedeu. Incapaz de trabalhar, defendido por cobertores, estive a folhear uma fotobiografia do José Gomes Ferreira, detendo-me pelo tempo em que ele, concluído o curso de Direito, esteve como cônsul de Portugal na Noruega. Talvez por causa dos passeios nos fiordes, piorei.
Agora que a noite chega ainda consigo, com a febre a subir, acompanhar a paixão de Fernando por Paulina, descrita por Camilo Castelo Branco. Fernando era o filho do sapateiro do poeta Bocage, o que lhe pagava em botas uns versos que fizeram despontar na sua eleita as primeiras flores do amor. Paulina era um dos frutos de um matrimónio do desembargador Briteiros que sabia «de jurisprudência o necessário para convencer-se do pouquíssimo que necessitava saber um magistrado palaciano, benquisto para as alçadas, e braço inflexível para hastear patíbulos».
Amanhã gostava de estar pior! Educado espartanamente, associando desde garoto «vida de cama, vida de lama», perdia-me por aqui, «atrombando na palha»!

4.12.06

Adeus!

António Gedeão foi um poeta precoce aos cinco anos, que só recuperou o dom notável da escrita pela meia idade. Aos oitenta iniciou um diário, fechando-o dez anos mais tarde, após mais de mil e cem páginas, em 35 linhas, com um espaço em branco no final para a data que fosse a da sua morte e, a rematar, a palavra tão nossa: «Adeus». É um testemunho a pensar nos seus tetranetos, para que eles tenham ali, em folhas de papel pautado, uma imagem do mundo que ele viveu.
Soube-o este fim de semana pelo JL, que de quando em vez ainda consigo ler.
Foi no Jardim da Estrela, entre velhos vagueantes, para quem o preço do café ter baixado cinquenta cêntimos teve o sabor de uma alegria domingueira. «É agora no Inverno» explicava a senhora do balcão, «porque isto tem estado fraco», justificava-se. A meu lado, dividida entre o colesterol e a gulodice uma avó olhava para uns vistosos brigadeiros, impantes de chocolate. «Leve um para o lanche», incentivava-o, solícito, o empregado. «Não o consigo comer todo sozinha», respondeu-lhe ela. Ficou-me no ouvido a palavra «sozinha», enquanto alçado numa cadeira pernalta num canto escondido do café lia: «uma das características da vida actual é o desamparo, a solidão, o desapego, a monotonia, a indiferença, o cansaço».

30.11.06

A transsubstanciação

A arte de escrever com pudor, o saber-se da subtileza a arte, só o alcançam almas eleitas, em momentos de excepção. Sebastião Artur Cardoso da Gama. «Andam mais as minhas mãos do que andam os nossos pés», escreveu, num momento só, desprendido de si. Fecham-se os olhos e quase que se sente, táctilmente, do que ele fala, como se de súbito sob o verbo surgisse o corpo.

28.11.06

A Pátria entrevada

As fotobiografias são uma espécie de vida emoldurada, na saleta de estar de uma vida já vivida em tardes friorentas, de luz baça e recordações indiferentes. Mas eu insisto em comprá-las e em lê-las, mesmo quando as acho aquém dos biografados.
Há dois dias, num intervalo nem sei de quê, comprei a do Almada Negreiros. Hoje, vindo dos confins do dever ser, essa masmorra punitiva onde ganho musgo na alma, comecei a folheá-la.
Sentado na cama, a uns metros de mim, há a exposição do Amadeu Souza-Cardoso, que ainda não visitei. Sobre ele escreveu Almada, em manifesto: «Quando um português, genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da Pária entrevada, para lhe dar o parto da sua inteligência, a indiferença espartilhada da família portuguesa ainda não deslaça as mãos de cima da barriga».
As fotobiografias podem ser tudo, uma vida assim, vista do remorso condoído de uma família desfeita, é que já não é nada, nem a indiferença sequer espartilhada.

24.11.06

Um diário inventado

Desci a rua devagar, atrás de mim automóveis acumulavam-se, impacientes. Enfim, quase imperceptível, ei-la ali. Subiu-me à consciência exaltada, vindo dos armazéns pulvurentos da memória, a ideia clara de que lhe já lhe tinha visto a montra, ao passear-me por ali.
Consegui um quarteirão depois um lugar para estacionar. Regressei ao local da surpresa, agora a pé, o passo estugado, os automóveis ainda atulhados na rua, sem paciência: uma livraria, palacete aristocrático de alfarrábios, lar de edições esgotadas, asilo de livros em segunda-mão.
A dona vestia o casaco, depois de um monótono dia sem clientes. Gentil, ao ver-me entrar, disse que tínhamos tempo.
Perguntei-lhe pelo José Gomes Ferreira. Tinha-o todo.
Por causa disso, estou esta noite a tentar ler a «Imitação dos Dias», um diário inventado, também «com restos de gritos na boca a exigirem futuro».
Agradeço a todos, os que me disseram que a procurasse ali, a ela por ter adiado o fim do seu dia. Chama-se Crisálida, borboleteando por entre a cultura em papel. Mostrou-me, como se enamorada por ele, um estudo sobre o Wenceslau de Morais, em papel de arroz, as folhas encadernadas pela outra margem.

19.11.06

A Natureza amiga

«Atirar bolas de algodão para poços de cortiça». Foi a última frase que me ficou do livro do José Gomes Ferreira que estou a ler. É assim o começar dos revoltados mansos, conformados primeiro com a surdez alheia e lentamente com a sua própria mudez. No fim, chega um manto de nevoeiro, como no dia de hoje, domingo, a Natureza, amiga, a querer-nos abraçar, escondendo-nos dos outros o rosto do desespero.

18.11.06

O ronronar incerto

Lembro-me que vinha no avião de Dili, o motor ao meu lado a intranquilizar-me com o seu ronronar incerto, a lê-la. Depois recomendei a leitura. Neste mundo improvável e de seres longínquos há sempre uma criatura com uma vida diária de «Que é que ela tem? Alguém perguntou com uma curiosidade negligente». Vinha a ler essa folha, precisamente quando a lembrança surgiu. São os «Laços de Família», da Clarice Lispector. A narrativa em que «a uma coisa bonita faltava o gesto de a dar».

16.11.06

O local e o mar

Há na curva da estrada da vida um local que mil faróis encandeiam, holofotes potentes da curiosidade, a desventrar o último reduto escondido da almas escondidas. Indiferentes à noite, embalados pelo mar, são para os namorados tais faróis as luzes amigas para o porto tranquilo da sua paixão. Há na curva da estrada um local único, por onde circulam, velozes, os automóveis da indiferença em que a vida se tornou.

13.11.06

Morar-te

«Morar-te até morrer-te». Como nós na língua portuguesa temos uma relação difícil com as formas verbais reflexas. Como nos parece natural o «amar-te» como meio de dizer o «ter-te» e como se nos afigura estranho o «morrer-te» para dizer o «irmo-nos».

11.11.06

O adormecer definitivo

Tal como os velhos que repetem, sem darem conta, a mesma história, eu, recluso neste interior sombrio do cárcere das obrigações, dou comigo a rever o dito, a recontar o escrito. Foi há dois anos, num blog que, em liberdade, apaguei: «O sobressalto na madrugada, a aflição do que fica por viver, como se o coração parasse e a respiração deixasse de assistir. Há nesse breve instante, em que tudo se suspende, o momento agónico da hesitação existencial sobre se valerá a pena continuar assim, sem consciência da origem nem certeza do fim. Quando a madrugada surgir, aurora enfim de um novo dia, espera-se a dúvida resolvida. Saudemos nisso quanto vive e nessa saudação a própria vida que nos é dada viver».
Numa só coisa me revejo, na vida que me é dada viver, as madrugadas são maiores, infinita a vontade de adormecer, sim, definitivamente.

10.11.06

Um espirro

Há no acto de espirrar adulto a expressão dos nossos recalcamentos, de tudo quanto contemos e do tanto que nos limitamos. Carinhosa a lembrança dos dias em que, tal como o sentiamos e a Natureza nos impunha, nos saía um expontâneo e simples «atchim!». Li algures que o espirrar é o melhor antídoto para os soluços. Evita-os. Um resfriado, um dia trancado no quarto, poupa-nos a muitas lágrimas.

8.11.06

A hesitação no dizer

«Diz-me um segredo, mantem-me acordada». Li a frase e no recôndito secreto de mim, surgiu-me uma memória longínqua de uma qualquer sonoridade íntima, familiar e reconfortante, como a de uma tarde em silêncio tendo como companhia o calor contíguo, a simples presença, a hesitação no dizer.

5.11.06

A juventude voluntária

Continuo a ler, aos poucos, os diários do José Gomes Ferreira. Claro que não é a «Memória das Palavras». É um livro que tem o que de irritante e medíocre acontece na vida quotidiana de cada um de nós, mesmo dos que são geniais. Ainda por cima trata-se de um escritor que se confessa um «resignado ao marxismo» e que acabou por ser sacralizado pelos marxistas. Depois, é tudo muito mesquinho de rancores e cego de amores, triviais os afectos. Esqueço, porém, tudo isso. Rara é a folha onde não está uma frase inteligente, que dá sentido à vida, anima e faz companhia. «Envelhecer é construir a juventude voluntária que, embora a gente nova por lei da natureza não acredite, vale quase sempre mais do que a outra, a involuntária». Hoje de manhã, cansado, meio sem norte quanto ao que fazer e com tanto para fazer ainda consegui chegar à página oitenta, onde ele fala do «comércio amável de curvejos em que se resume a vida literária portuguesa». E acrescenta «de curvejos e de coices».

4.11.06

A eternidade do amor

Ainda o tenho aqui, por acabar de ler o «Borges Verbal», recolha paciente de citações do seus escritos. Entre algumas banalidades, genialidades e trivialidades, está ali a ideia de que o «o amor é eterno enquanto dura». Só quem perdeu pela cegueira a noção feliz do espaço, tem uma tal descrença triste na dimensão do tempo. Talvez por estar a entardecer, dou comigo a pensar que para um homem só, o infinito é um momento transitório de si.