Hoje andei a entregar cartas. É bom isto, o fazer de paquete, e saber assim onde são as portas e quem as abre. Nada como o trabalho braçal para que os intelectuais saibam quanto custa a vida ao povo, dizia o presidente Mao. Foi por isso que dei com ele, a farda cinzenta de segurança, uma barba a revelar cansaço, dentro do seu casinhoto, conformado, neste entardecer de domingo, fumando, tranquilo, o seu cachimbo. Lembrei-me da lagarta do Alice no País das Maravilhas, lançando ondas multicolores do seu hookah, numa antecipação psicadélica com que a mente genial de Walt Disney enriqueceu o primitivo desenho de John Tenniel. Lembram-se da história: metade do cogumelo fazia crescer, a outra metade encolher. No caso dele, estava do lado menor da vida, recebendo cartas, entre fumos de resignação.
21.1.07
18.1.07
A próxima vez
O senhor Artur estrebuchava, aflito, os seus oitenta e tal anos tornados naquele escanzelado corpo, em convulsões. Entubado, a respirar artificialmente, monitorado em todos os sinais vitais, ei-lo qual peixe moribundo em busca de ar. Nervosa a máquina de vigilância gritava como uma sirene de bombeiros, a luz vermelha piscava insistente. «Tenham calma, tenham calma, que ele aguenta-se», comandava um médico, no que parecia a antevisão do improvável, tais eram os gritos da máquina, o chiar, trepidante, da maca, os ossos, trémulos, num feixe de dor. «Senhor Artur, senhor Artur», chamava-o, crispada, a enfermeira, a voz da própria vida a reclamá-lo. Lentamente, o senhor Artur, parou de tiritar. Abriu de súbito os olhos como se surpreendido com todos e de todos ausente. Regressara até nós, e ficaria connosco à espera da próxima vez. Feliz comigo, dei-me alta. Cá fora o mundo pareceu-me um pouco melhor.
12.1.07
Alma comburente
Começo a suspeitar que há por aí uma Natureza demoníaca e viral que se tenta apoderar dos corpos melancólicos e se diverte a esfacelá-los. Amassa-lhes a ossada, para que acordem bem moídos com a pancada que deviam ter levado por conta dos pecados ainda impunes, faz-lhes chegar a noite a tiritar sem ter febre. Um tipo mesmo com bonomia na alma e humor não bilioso não se salva. Hoje acho que consegui escapar, fugindo para a rua, quase em pijama. Em frente a mim um casal de namorados beijava-se, febril. Eis uma forma de se ter saúde, o corpo animado em combustão!
6.1.07
O legado de Hemingway
O médico chegou-me, enfim, na forma de um livro. Ireneu Cruz, médico gastrenterologista, escreveu um estudo sobre a morte, por suicídio, de Ernest Hemingway. O autor de «O Velho e o Mar» e controverso prémo Nobel da Literatura, teve um final de vida decadente, a sua estrutura física minada pelos excessos de vida, o seu psiquismo possuído pelo desejo libertador de morte. Perdida aos poucos a memória, incapaz de escrever, Hemingway viveu a longa agonia de um sofrimento atroz, até que um dia, com um tiro de caçadeira se restituiu à paz. Numa das suas cartas confessou sentir-se perseguido por um esgotamento nervoso assassino.
Neste seu estudo o ilustre médico pergunta-se, entre outras coisas, se não teria sido o tratamento que lhe foi instituído para debelar a hipertensão a causa da depressão que o liquidou.
Interessante exercício necrológico, autópsia sobre a morte surpreendente, eis a medicina que salva, a medicina que mata.
O livro chama-se «Hemingway, o seu último legado». O legado, a sua dádiva, teria sido morrer, pois ante isso «redobrou-se a atenção clínica para uma mais cuidadosa avaliação e prevenção dos efeitos colaterais dos fármacos» usados no seu caso. Em nome dos que ainda não fomos mortos pela cura, obrigado, pois, «Papá».
Neste seu estudo o ilustre médico pergunta-se, entre outras coisas, se não teria sido o tratamento que lhe foi instituído para debelar a hipertensão a causa da depressão que o liquidou.
Interessante exercício necrológico, autópsia sobre a morte surpreendente, eis a medicina que salva, a medicina que mata.
O livro chama-se «Hemingway, o seu último legado». O legado, a sua dádiva, teria sido morrer, pois ante isso «redobrou-se a atenção clínica para uma mais cuidadosa avaliação e prevenção dos efeitos colaterais dos fármacos» usados no seu caso. Em nome dos que ainda não fomos mortos pela cura, obrigado, pois, «Papá».
3.1.07
Tussa pois!
Aquela anedota do Raúl Solnado do sujeito que vai ao médico e este lhe diz «tussa» e ele tosse, ao que o médico repete «tussa outra vez» e ele de novo tosse, ao que o médico, enfim, lhe diagnostica «o seu mal é tosse», eu vou mandar encaixilhá-la como o diagnóstico por antonomásia. No mais, descobri outra coisa: o nosso organismo tem uma capacidade inata de se curar, mesmo sem remédios, sobretudo sem eles. Às vezes morre-se da cura, ou do esforço de tossir. Mas é, como diria, mais ecológico e, ao menos nisso, estamos com o politicamemte correcto! Tussa, pois!
1.1.07
Só pode ser no gozo!
Primeiro dia do ano, segunda-feira. Normalmente é a altura de se prometerem coisas novas, normalmente a nós próprios, assim mesmo sem grande convicção e prudentemente sem testemunhas. Desta vez resolvi prometer que na próxima incarnação vou ser feliz. Nesta já não tenho tempo a não ser para tentar ainda, se possível, viver contente.
Prometido que está, vou tentar começar na próxima semana: nesta bem gostaria de me iniciar no contentamento, mas para além das adversidades, contratempos e má catadura, há os outros, os que acham que agora é a vez deles gozarem a vida e, claro, nesta vida não há gozo que chegue para tantos!
28.12.06
Fé em Deus e talvez uma aspirina!
Encontrei-a, vinha de um médico, atormentado com o descobrir afinal que doença é esta que me roubou as energias e a vontade de as recuperar: era a biografia do jesuíta Padre Vaz Pinto. Estou a lê-la esta noite. Se é possível formar uma opinião ao ter lido apenas cento e quarenta páginas de quatrocentas e trinta e poucas que a obra tem, aqui vai: acho o livro superficial onde ele se esperava profundo, vulgar onde deveria ter sido complexo.
Não falo do mundo «coquette» que se revê em tantas daquelas páginas e que nelas é chamado nominalmente, para o qual a frase «Deus fez-se homem para que o homem se fizesse Deus» deve dar um travo de glória divina momentânea num quotidiano trivial de mundanidades que uma missa domingueira beatifica.
Falo sim do problema existencial de uma vocação, a explicação da mística que leva um finalista de Direito, com 22 anos, em 1965, a entrar no duro Noviciado da Companhia de Jesus e no mais que se lhe segue segundo a formação delienada por Santo Inácio de Loyola. Lê-se o livro e não há uma chama que convença, uma razão que se imponha, um apelo que se faça entender.
Mais! Como era de esperar de quem diz que na hora de entrar «ia morrendo por dentro, ia-me despedindo dolorosamente de todos e de tudo, como se uma vida de que tanto gostasse desparecesse como o Sol, lenta mas inexoravelmente no horizonte», surge-lhe logo, ante os horrores do mundo, a crise de fé, a dúvida sobre a Omnipotência ou a Suprema Bondade daquele Deus que jurou servir.
É aí que o livro supreende e desanima. Vaz Pinto, padre, filósofo, teólogo, homem do mundo e da cultura, colocado perante o dilema-tentação de saber como se compatibiliza um Deus que é o Supremo Bem e o Supremo Poder com a injustiça, a miséria e o sofrimento da humanidade, contentou-se e com isso regressou à tranquilidade do espírito e à paz do coração, com esta forma cândida de singeleza e ingénua de crendice: os santos, sim, os santos, se continuaram fiéis a Deus, é porque a solução existe. Vai daí, tudo se resolve assim: «aceitei os meus limites e o intransponível mistério de Deus». Ponto final.
Vou continuar a ler e amanhã já nem volto ao médico. Achei a cura do meu mal: um insondável mistério de Deus! À cautela, talvez arrisque, mas só uma prudente aspirina, não vá, herege, arder em febres, nas fogueiras infernais!
25.12.06
Uma alfarrabista
Foi hoje em Sintra, na Volta do Duche, num recanto de uma curva, antes de se chegar à estação. Aberta em dia de Natal, uma livraria-alfarrabista. A juntar à surpresa do encontro, a magia do local, o fantástico das coincidências. Nem me lembro sobre o que conversámos, pelo canto dos olhos encontrava-os, livros que tenho, livros que fui perdendo, livros de que me desapossaram. Ali um Gandra, além um Viterbo, depois os da editora de Colares, que agora é aqui, «do outro lado da rua». Tudo se tornou familiar e mais ainda com a raridade de um nome raro: chamava-se, tal como a minha filha, Adriana, Maria Adriana! Casada com um inglês, Mister Jones, Maria Adriana Jones é conhecida pelos miúdos locais como a Indiana Jones. Na selva dos livros, ela move-se entre os Salteadores da Arca Perdida. Vê-se pelo brilho nos olhos que ama os livros, a ponto de os presentear com a porta aberta ao mundo no Dia de Natal.
24.12.06
As primeiras folhas
Regressei ao primeiro livro da Dulce Cardoso, de há muito deixado a meio, a leitura interrompida. Lembrava-me de cena onde ia, o homem na praia com o caco de vidro cravado no pé, o espectáculo tétrico de levarem-no, num dia de sufocante canícula, o metal e o sol combinados com o alcatrão amolecido, para um indiferente hospital. Li umas folhas antes de cair, fulminado de sono, «o passado demora sempre algum tempo a ser reiventado». Tal como a vida, as primeiras folhas já lidas não são, pois, necessariamente assim.
23.12.06
A antecâmara
Descobri, ao terminar o segundo volume das memórias do José Gomes Ferreira, hoje que consegui recomeçar a leitura, neste dia em que também sinto «vontade de despir o corpo»: «tenho às vezes a impressão de que estou na antecâmara dum médico - à espera da minha vez. Estou doente de vida. Espero ser recebido um dia...». Acreditem, pois! Espero mesmo ser recebido um dia, doente de vida!
22.12.06
O sentimento do «já posso?»
Por esta altura havia na cidade a azáfama formigueira por causa de embrulhos, laços e prendas, ceias, almoços e visitas forçadas. A esta hora, na cidade, subiam-se escadas e atulhavam-se cestos, na ânsia ilusória de se estar bem, sendo-se bom. Por esta altura a cidade afinal não mudou, Eu, estou aqui, a lembrança infantil de uma mesa posta, onde em nada se poderia tocar. A esse sentimento do «já posso?», seguia-se o do «que será?», vivido na noite que as prendas vinham pela chaminé. Tudo isso foi há muito tempo, convenci-me hoje, de facto, há demasiado tempo.
11.12.06
Agulha em palheiro
A Natureza às vezes tem pena e adoece-nos. Sucedeu. Incapaz de trabalhar, defendido por cobertores, estive a folhear uma fotobiografia do José Gomes Ferreira, detendo-me pelo tempo em que ele, concluído o curso de Direito, esteve como cônsul de Portugal na Noruega. Talvez por causa dos passeios nos fiordes, piorei.
Agora que a noite chega ainda consigo, com a febre a subir, acompanhar a paixão de Fernando por Paulina, descrita por Camilo Castelo Branco. Fernando era o filho do sapateiro do poeta Bocage, o que lhe pagava em botas uns versos que fizeram despontar na sua eleita as primeiras flores do amor. Paulina era um dos frutos de um matrimónio do desembargador Briteiros que sabia «de jurisprudência o necessário para convencer-se do pouquíssimo que necessitava saber um magistrado palaciano, benquisto para as alçadas, e braço inflexível para hastear patíbulos».
Amanhã gostava de estar pior! Educado espartanamente, associando desde garoto «vida de cama, vida de lama», perdia-me por aqui, «atrombando na palha»!
4.12.06
Adeus!
António Gedeão foi um poeta precoce aos cinco anos, que só recuperou o dom notável da escrita pela meia idade. Aos oitenta iniciou um diário, fechando-o dez anos mais tarde, após mais de mil e cem páginas, em 35 linhas, com um espaço em branco no final para a data que fosse a da sua morte e, a rematar, a palavra tão nossa: «Adeus». É um testemunho a pensar nos seus tetranetos, para que eles tenham ali, em folhas de papel pautado, uma imagem do mundo que ele viveu.
Soube-o este fim de semana pelo JL, que de quando em vez ainda consigo ler.
Foi no Jardim da Estrela, entre velhos vagueantes, para quem o preço do café ter baixado cinquenta cêntimos teve o sabor de uma alegria domingueira. «É agora no Inverno» explicava a senhora do balcão, «porque isto tem estado fraco», justificava-se. A meu lado, dividida entre o colesterol e a gulodice uma avó olhava para uns vistosos brigadeiros, impantes de chocolate. «Leve um para o lanche», incentivava-o, solícito, o empregado. «Não o consigo comer todo sozinha», respondeu-lhe ela. Ficou-me no ouvido a palavra «sozinha», enquanto alçado numa cadeira pernalta num canto escondido do café lia: «uma das características da vida actual é o desamparo, a solidão, o desapego, a monotonia, a indiferença, o cansaço».
30.11.06
A transsubstanciação
A arte de escrever com pudor, o saber-se da subtileza a arte, só o alcançam almas eleitas, em momentos de excepção. Sebastião Artur Cardoso da Gama. «Andam mais as minhas mãos do que andam os nossos pés», escreveu, num momento só, desprendido de si. Fecham-se os olhos e quase que se sente, táctilmente, do que ele fala, como se de súbito sob o verbo surgisse o corpo.
28.11.06
A Pátria entrevada
As fotobiografias são uma espécie de vida emoldurada, na saleta de estar de uma vida já vivida em tardes friorentas, de luz baça e recordações indiferentes. Mas eu insisto em comprá-las e em lê-las, mesmo quando as acho aquém dos biografados.
Há dois dias, num intervalo nem sei de quê, comprei a do Almada Negreiros. Hoje, vindo dos confins do dever ser, essa masmorra punitiva onde ganho musgo na alma, comecei a folheá-la.
Sentado na cama, a uns metros de mim, há a exposição do Amadeu Souza-Cardoso, que ainda não visitei. Sobre ele escreveu Almada, em manifesto: «Quando um português, genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da Pária entrevada, para lhe dar o parto da sua inteligência, a indiferença espartilhada da família portuguesa ainda não deslaça as mãos de cima da barriga».
As fotobiografias podem ser tudo, uma vida assim, vista do remorso condoído de uma família desfeita, é que já não é nada, nem a indiferença sequer espartilhada.
24.11.06
Um diário inventado
Desci a rua devagar, atrás de mim automóveis acumulavam-se, impacientes. Enfim, quase imperceptível, ei-la ali. Subiu-me à consciência exaltada, vindo dos armazéns pulvurentos da memória, a ideia clara de que lhe já lhe tinha visto a montra, ao passear-me por ali.
Consegui um quarteirão depois um lugar para estacionar. Regressei ao local da surpresa, agora a pé, o passo estugado, os automóveis ainda atulhados na rua, sem paciência: uma livraria, palacete aristocrático de alfarrábios, lar de edições esgotadas, asilo de livros em segunda-mão.
A dona vestia o casaco, depois de um monótono dia sem clientes. Gentil, ao ver-me entrar, disse que tínhamos tempo.
Perguntei-lhe pelo José Gomes Ferreira. Tinha-o todo.
Por causa disso, estou esta noite a tentar ler a «Imitação dos Dias», um diário inventado, também «com restos de gritos na boca a exigirem futuro».
Agradeço a todos, os que me disseram que a procurasse ali, a ela por ter adiado o fim do seu dia. Chama-se Crisálida, borboleteando por entre a cultura em papel. Mostrou-me, como se enamorada por ele, um estudo sobre o Wenceslau de Morais, em papel de arroz, as folhas encadernadas pela outra margem.
19.11.06
A Natureza amiga
«Atirar bolas de algodão para poços de cortiça». Foi a última frase que me ficou do livro do José Gomes Ferreira que estou a ler. É assim o começar dos revoltados mansos, conformados primeiro com a surdez alheia e lentamente com a sua própria mudez. No fim, chega um manto de nevoeiro, como no dia de hoje, domingo, a Natureza, amiga, a querer-nos abraçar, escondendo-nos dos outros o rosto do desespero.
18.11.06
O ronronar incerto
Lembro-me que vinha no avião de Dili, o motor ao meu lado a intranquilizar-me com o seu ronronar incerto, a lê-la. Depois recomendei a leitura. Neste mundo improvável e de seres longínquos há sempre uma criatura com uma vida diária de «Que é que ela tem? Alguém perguntou com uma curiosidade negligente». Vinha a ler essa folha, precisamente quando a lembrança surgiu. São os «Laços de Família», da Clarice Lispector. A narrativa em que «a uma coisa bonita faltava o gesto de a dar».
16.11.06
O local e o mar
Há na curva da estrada da vida um local que mil faróis encandeiam, holofotes potentes da curiosidade, a desventrar o último reduto escondido da almas escondidas. Indiferentes à noite, embalados pelo mar, são para os namorados tais faróis as luzes amigas para o porto tranquilo da sua paixão. Há na curva da estrada um local único, por onde circulam, velozes, os automóveis da indiferença em que a vida se tornou.
13.11.06
Morar-te
«Morar-te até morrer-te». Como nós na língua portuguesa temos uma relação difícil com as formas verbais reflexas. Como nos parece natural o «amar-te» como meio de dizer o «ter-te» e como se nos afigura estranho o «morrer-te» para dizer o «irmo-nos».
11.11.06
O adormecer definitivo
Tal como os velhos que repetem, sem darem conta, a mesma história, eu, recluso neste interior sombrio do cárcere das obrigações, dou comigo a rever o dito, a recontar o escrito. Foi há dois anos, num blog que, em liberdade, apaguei: «O sobressalto na madrugada, a aflição do que fica por viver, como se o coração parasse e a respiração deixasse de assistir. Há nesse breve instante, em que tudo se suspende, o momento agónico da hesitação existencial sobre se valerá a pena continuar assim, sem consciência da origem nem certeza do fim. Quando a madrugada surgir, aurora enfim de um novo dia, espera-se a dúvida resolvida. Saudemos nisso quanto vive e nessa saudação a própria vida que nos é dada viver».
Numa só coisa me revejo, na vida que me é dada viver, as madrugadas são maiores, infinita a vontade de adormecer, sim, definitivamente.
10.11.06
Um espirro
Há no acto de espirrar adulto a expressão dos nossos recalcamentos, de tudo quanto contemos e do tanto que nos limitamos. Carinhosa a lembrança dos dias em que, tal como o sentiamos e a Natureza nos impunha, nos saía um expontâneo e simples «atchim!». Li algures que o espirrar é o melhor antídoto para os soluços. Evita-os. Um resfriado, um dia trancado no quarto, poupa-nos a muitas lágrimas.
8.11.06
A hesitação no dizer
«Diz-me um segredo, mantem-me acordada». Li a frase e no recôndito secreto de mim, surgiu-me uma memória longínqua de uma qualquer sonoridade íntima, familiar e reconfortante, como a de uma tarde em silêncio tendo como companhia o calor contíguo, a simples presença, a hesitação no dizer.
5.11.06
A juventude voluntária
Continuo a ler, aos poucos, os diários do José Gomes Ferreira. Claro que não é a «Memória das Palavras». É um livro que tem o que de irritante e medíocre acontece na vida quotidiana de cada um de nós, mesmo dos que são geniais. Ainda por cima trata-se de um escritor que se confessa um «resignado ao marxismo» e que acabou por ser sacralizado pelos marxistas. Depois, é tudo muito mesquinho de rancores e cego de amores, triviais os afectos. Esqueço, porém, tudo isso. Rara é a folha onde não está uma frase inteligente, que dá sentido à vida, anima e faz companhia. «Envelhecer é construir a juventude voluntária que, embora a gente nova por lei da natureza não acredite, vale quase sempre mais do que a outra, a involuntária». Hoje de manhã, cansado, meio sem norte quanto ao que fazer e com tanto para fazer ainda consegui chegar à página oitenta, onde ele fala do «comércio amável de curvejos em que se resume a vida literária portuguesa». E acrescenta «de curvejos e de coices».
4.11.06
A eternidade do amor
Ainda o tenho aqui, por acabar de ler o «Borges Verbal», recolha paciente de citações do seus escritos. Entre algumas banalidades, genialidades e trivialidades, está ali a ideia de que o «o amor é eterno enquanto dura». Só quem perdeu pela cegueira a noção feliz do espaço, tem uma tal descrença triste na dimensão do tempo. Talvez por estar a entardecer, dou comigo a pensar que para um homem só, o infinito é um momento transitório de si.
Línguas de pedra
Um blog é um espaço privado aos olhos do público. Podemos vir aqui dizer que está a chover ou que não nos apetece ler. Podemos escrever para ninguém e nunca mais pensar no que foi escrito. Nos dias em que a cabeça esvazia é o local ideal para vir recliná-la. Temos depois os outros, os que nos detestam, os que nos invejam, os que imaginam em nós coisas que desejariam ter ou que vêm outras que detestam. Um blog é um espaço que cumpre o espaço dos antigos pelourinhos. Ficamos por ali, amarrados, sujeitos à lapidação pública. Os que tiverem vocação para o martírio, é só abrirem um blog.
3.11.06
Os dias comuns
Tentei voltar a ler, quase sem o conseguir. É um esforço para, cansado, me concentrar nas linhas, uma violência para, confuso, entender as frases. Estou a tentar desde ontem os diários do José Gomes Ferreira, «Os dias comuns». Eu, que já li dele o melhor, custa-me vê-lo agora tão vulgar. Mas talvez haja em mim o já não ser capaz, a eterna lamúria do impossível, «a repetição dos ditos já musgosos». Consegui ainda progredir por umas dez folhas antes de cair, fulminado de sono. Acordei, com os amigos desanimados. Ainda li que «a superioridade da alegria está em ligar os indiferentes. A dor é mais aristocrática. Só aproxima os amigos». Dói-me ver-me neste estado e com amigos preocupados. Hoje levo o livro comigo. Vou tentar voltar a ler, vou tentar conseguir lê-lo.
29.10.06
A inteligência das horas
Hoje, domingo, acordei com a hora mudada. É sempre este o momento em que me confronto com o carácter rudimentar da minha inteligência, ao ter de fazer contas quanto a saber que horas eram quando agora são as que são. Desta vez acho que consegui perceber o que se passou: o relógio atrasou. Já não é mau que até aí ainda chegue. O que não consigo entender é se com isto fiquei a ganhar mais tempo de vida, ou mais perto do fim. É a vantagem dos estúpidos, viverem felizes, ignorando quando chega, afinal, a sua hora.
25.10.06
Pomposamente serventuário
Hoje de manhã olhei para ele. Parece que interrompi a sua leitura há uma eternidade, encarcerado que estou na colónia dos trabalhos forçados. Fui buscá-lo, arrrastando-me para o canto da mesa onde, paciente, me esperava. São assim, silenciosamente disponíveis, nossos amigos, os livros. Abri na última crónica que lera, texto risonho, de uma malícia inteligente, uma escrita refinada. Nela falava-se no «affaire» que «a mãe» tivera há muitos anos com um cangalheiro de Delft «cuja empresa enterrava nessa altura metade do País Baixo e tinha infra-estruturas para enterrar o resto». Graça estava, porém, no lema do seu amante gato-pingado, que podia ser o meu nos dias actuais, os de desespero serventuário: «tudo no fúnebre, nada nas pompas!». São os «Bilhetes de Colares», daquele que os assinou como A. B. Kotter.
22.10.06
As mil e uma noites
Depois de uns dias a trabalhar dia e noite, sem tempo para ler quanto mais para escrever, consegui, nem sei como, uma sexta e um sábado para vir a Londres, aos arquivos britânicos, para acabar o meu próximo livro. Perto do hotel havia um restaurante persa. Chamava-se Sherazade, a história daquela que se amarrou ao cruel destino de ter de contar intermináveis histórias, para escapar à morte certa. De algum modo é assim também comigo. Quando cheguei aqui definhava em agonia, já sem nada para contar.
14.10.06
Gente, fazendo gente
Eu vejo por aí gente que tem, todos os dias, imensas coisas que leu. Eu tanta vez nem jornais leio. Eu sinto que há por aí gente que tem, a todas as horas, carradas de coisas para dizer. E eu tão frequentemente estou vazio de pensamentos. Eu vejo por aí gente que se adorna, para vir mostrar aos da rua do pescoço para cima e dali para baixo. E nisso eu que há dias em que nem saio de casa nem arrisco o pescoço. Eu vejo que há por aí gente, muita gente, essa gente, toda a gente. Olhando para o mundo, como se batendo à porta de uma retrete, um tipo espera ouvir, numa voz alteada da multidão apinhada lá por dentro: está gente!
10.10.06
Estudos cansados
Ando a coleccionar e a jurar que hei-de ler uma série de livros organizados pelo Pedro Calafate, o mesmo que dirigiu a notável «História do Pensamento Filosófico Português» e a que ele chamou «Portugal como problema».
Não tenho nenhum dos livros aqui. Mas depois de mais uma madrugada a trabalhar e poucas horas de sono lebro-me que, ao folheá-lo, dei conta que o Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, franciscano e filósofo, apóstolo da Razão, a propósito dos estudos seus antecedentes lhes chamava os «estudos cansados».
Como eu, que não sou propriamente um paladino da razão geométrica, o compreendo muito bem!
7.10.06
Uma vida adverbial
Hoje estive a olhar para um gato. Dei comigo a pensar o que será passar o dia molemente a dormitar e acordar para preguiçosamente comer. Tudo isto dissolve, tudo isto apetece. Não sei é porque me assaltam estas observações: talvez, raivosamente, por ter uma vida de cão.
2.10.06
O aprendiz das letras
A Bertrand, sem vergonha, deixa esgotar Mestre Aquilino e nem sequer o reedita. Só num alfarrabista consegui encontrar «Um escritor confessa-se», a sua auto-biografia, escrita em 1972, de que me ficou um exemplar num momento da minha vida desfeita. Tem, na edição de 1974, em que o adquiri agora, um prefácio do José Gomes Ferreira, notável pela ironia, a brincar consigo próprio, ele o «aprendiz das letras», a imaginar o livro e o seu intróito numa promoção que dissesse «inútil nota preambular de José Gomes Ferreira postfaciada por 400 páginas de Aquilino Ribeiro». Como este mundo de comedimento morreu, substituído pela impante arrogância, de pomposos prefaciadores de obras que nunca seriam sequer capazes de esboçar.
1.10.06
A negação
Encontrei um diário incompleto. No dia 14 de Maio de 2004, uma sexta-feira, escrevi: «Hoje o dia soterrou-me. Regressei a casa a cambalear por fora e a rastejar por dentro. Lembrei-me da frase do Milôr Fernandes «se você não consegue realizar seus sonhos, realize ao menos seus pesadelos». Lá vim, por isso, escrever estas linhas a este diário. Amanhã é sábado». Leio isto e copio a frase, letra a letra, hoje, domingo de tarde. Penso que é possível ser-se tudo, até negar-se a si próprio o direito de o ser.
30.9.06
O mundo lá fora
Comecei ontem ainda, já de noite. Mesmo a propósito, «As noites brancas», e logo na primeira folha o «será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?». Continuo hoje, sábado de manhã, extenuado, criatura intermédia, fazendo, tal como o sonhador do livro, de mim mesmo um inimigo. Vou na terceira noite. Lá fora o mundo deu em chover.
23.9.06
O Outono
Esta madrugada começou o Outono, a chover copiosamente. De manhã a cidade estava desolada, com areias espalhadas, esgotos entupidos, folhas a revoar, e os velhotes que acordam cedo sem saberem para quê, a arrastarem-se pelas ruas desertas, a caminho de tanto faz. Por vezes voltam com um saquito de pouco para um almoço de nada. Amanhã é domingo, ainda é pior. Seria o dia de lhes chegar a família, que raramente vem.
21.9.06
Maria
Eu se não acredito na transmigração das almas, sou um crédulo no símbolo de um acaso. Ela chama-se Maria e baptizou o seu endereço no msn com uma palavra. Ela chama-se também Maria e é a personagem do livro que esta noite leio para o apresentar amanhã, a surpreender-se em Moçambique com tantas vezes ouvir essa mesma palavra. A palavra de que faço bandeira ao acordar e esperança para o dia seguinte quando me deito é Hakuna Matata. É o «carpem diem» africano, o aproveita o teu dia, mote tristonho numa vida despediçada.
20.9.06
O adelo da vida
«Não me lembro de nada anterior aos livros». Quem o diz é Cruz Santos, um homem que viveu no mundo da edição. Cada vez são menos estas pessoas que ao livro dedicam uma vida sacrificada. Encontrei outro dia um desses, alfarrabista filho de alfarrabista. Ali andava ele de feira em feira, entre os gananciosos das primeiras edições, e as viúvas a desfazerem-se, envergonhadas da sua miséria disfarçada, do que restava na defunta estante lá de casa. Quantas vezes me dói quando vejo, no adelo da vida, uma dedicatória amorosa que o destino atirou para o acaso de alguém que a lembre. Salvei muitas e guardo-as no silêncio recolhidas da minha livraria, devoções a indiferentes, amores esquecidos, na forma de um autógrafo sentido.
18.9.06
O efémero
Estamos em época de estudos bocageanos ou estudos «bocagianos», como diz uma brochura da Câmara Municipal de Setúbal que mão amiga me mostrou. Bocage, não o que dá nome à rua onde está o meu escritório, que é o botânico, mas sim o outro, o poeta, o «incapaz de servir num só terreno». Morreu desgraçado, condenado ao efémero do deboche, esquecida a grandeza do génio. Não há imbecil que não conheça dele a despropósito uma anedota!
17.9.06
O vagão fantasma
«Na sequência das greves dos ferroviários e sabotagem aos comboios como medida reivindicativa, o Governo determina a utilização do “vagão–fantasma”, um vagão aberto cheio de grevistas presos, utilizado à frente da locomotiva, para impedir a sabotagem da via férrea». Foi em 1919. Assim pareço eu agora, colocando-me, aprisionado, à frente da locomotiva da vida, para evitar sabotá-la.
16.9.06
O dia dos jornais
Lembro-me. Era um adolescente, estudava o liceu em Viseu e queria ser culto. Por isso lia na Biblioteca Municipal coisas que não entendia, requisitava na carrinha biblioteca itinerante da Gulbenkian livros que o funcionário me perguntava se eram para algum outro, mais velho. Mas lembrei-me hoje de quando íamos, pelo fim da tarde, a pé, perto precisamente da Biblioteca, esperar, ávidos de saber, a camioneta que trazia os «jornais de Lisboa». Àquela remota província chegavam, atados, vindo da longínqua e inacessível capital do saber. Disputavam-se os poucos exemplares. Depois, eram uns velhotes de ar endurecido e desconfiado a esconderem, conspirativos o «República», debaixo do casaco, nós, uns jovens vaidosos de atrevimento, a mostrarmos orgulhosos, no café, que líamos o «Diário de Lisboa». Tudo isso já acabou. Já acabou o «República» do Raúl Rego, o «Diário de Lisboa» do Ruella Ramos, o «Século» do Pereira da Rosa. Já acabou o «Diário Popular», já acabou «A Capital». Hoje voltei aos meus tempos do liceu em Viseu. Vou esperar aqui em baixo que cheguem os jornais de Lisboa, para que não esgotem. A diferença é que eu estou em Lisboa, são todos em muitos exemplares e eu não sei se ainda tenho a mesma alegria ao trazê-los para o café.
15.9.06
Sem outra lei
Tentei não ler o Borges em português, para esperar o dia em que pudesse lê-lo no original. Encontrei-o agora, em livrinhos pequenos, daqueles que se transportam na pasta ao lado do que pesa como obrigação. Ainda por cima o Jorge Luis Borges escreve textos pequenos com ideias grandes, como se tivesse pena de quem tem pouco tempo. Hoje, nem sei como, lá foram mais umas folhas vividas e numa delas o que poderia ser um modo de viver, não fora o moralismo endémico da infância, o sentido do dever da juventude, o sentido dos limites desta idade: viver a vida «sin otra ley que la fruición y la indiferencia inmediata».
14.9.06
O problema do se
Eu sabia que havia uma lagoa das sete cidades, descobri hoje que havia três cidades dentro de uma cidade e várias pessoas dentro de uma pessoa. Num mundo assim, um homem tem muito por onde passear-se. Assim mesmo, reflexamente.
11.9.06
Chevalier servant
Mimadamente disperso, como diria uma amiga minha, ando a ler a esmo o que os outros já leram há séculos. E ainda por cima não tenho vergonha de o dizer. Ontem estive com os «Bilhetes de Colares», escritos entre 1982 e 1987 pelo A. B. Kotter, esse fantástico pseudónimo que parece autêntico, e que o ainda sobrevivente jornal «Semanário» editou há dezasseis anos. São textos curtos, que se lêem antes de dormir e que dão um sonho risonho. O lido ontem, antes da «deita», era sobre um tal fictício Henri de Beaucul de Monfart, amanuense de Paul Bourget, «chevalier servant» da mamã do autor entre 1937 e 1939. A prosa é doce de estilo e picante de ironia: «Fauxcul, como nós lhe chamávamos», escreve o Dr. Kotter, «por ser mulherenguíssimo, dizia sempre que a Mãe submetia a ortografia à fonética porque pensava com o coração». E continua, a rematar: «Esta causalidade chocha, assim metida a martelo, só enganava, julgo eu, a própria Mãe, vaidosa como todas as mulheres, e era a maneira de Fauxcul se insinuar, felino, entre os lençóis da Senhora sem deixar de luzir nos olhos de Bourget». Ora aí está uma maneira agradável de se começar o dia, a rir. Tem de ser, porque tenho de ir trabalhar! Mimadamente disperso, entre outras coisas trabalho numa profissão que é uma espécie de condenação às galés.
10.9.06
Ausência de si
«Há dias, em que o rosto até se pode transformar e se ausentar de si mesmo... », li isto aqui -»., a propósito do chão de prata. Li e perguntei-me, como se a um espelho me visse, reflexamente, que poderia eu mais dizer.
9.9.06
O cemitério da razão
A frase dizem-me que é do Albert Camus, o homem revoltado: pode ter-se razão e perder. É por isso que a verdade é um combate diário e corpo a corpo e os cemitérios estão cheios de cruzes de reconhecimento póstumo. Há muitos que preferem ficar vivos. A sua sobrevivência é a demonstração da sua vitória.
7.9.06
A grilheta do dever
Havia no Jardim Zoológico um elefante que a troco de uma moeda tocava um sino. Ensinado, recusava, jogando-as fora, as moedas escuras, só aceitando as prateadas. Os miúdos riam a bandeiras despregadas. Amarrado ao inferno de ter ganhar assim o que lhe davam para comer, o animal metia dó. De vez em quando soltava aquele som lúgubre, de aflição, como se lhe faltasse a naturalidade do seu mundo ao qual o haviam raptado. Lembrei-me dele esta noite e do sentimento de profundo desapontamento irritado dos meus pais ante a minha tristeza. Acho que já morreu, ou pelo menos matei-o na minha memória, esgotado de ter pena.
6.9.06
Anrique Paço d'Arcos
Vi na passada semana no JL que passariam no dia 2 de Setembro cem anos sobre a data em que nascera Anrique Paço d'Arcos. Em 1993 a Imprensa Nacional editara-lhe as «Poesias Completas», que vai agora republicar. Irmão do escritor Joaquim Paço d'Arcos estavam ambos praticamente esquecidos. Do Joaquim, que foi funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ainda se encontram pelos alfarrabistas algumas edições do «Tons Verdes em Fundo Escuro», escrito em 1946, do seu magnífico conto «Samovar», e mesmo a história de «Venâncio», na qual todos os funcionários públicos se revêem e o seu inevitável «Ana Paula». Agora do irmão Anrique é que pouco aparece. O «Dicionário da Literatura Portuguesa no Mundo» ignora-o, a História da Literatura do Óscar Lopes e António José Saraiva que eu tenho dos tempos do liceu nem nele falava. Claro que eu esforço-me por acreditar que não há acasos. Mas como explicar que tenha encontrado durante as férias, deambulando já nem sei por onde, uma terceira edição do «Amores e Viagens» do Joaquim, em terceira edição da defunta Parceria António Maria Pereira, publicada em 1943, e ver nele uma comovente dedicatória ao irmão Anrique, aquele que «deste rancho de irmãos que entrou na vida rico de todas as ansiedades». E como explicar sobretudo, ao ler, precisamente no JL a ligação de Anrique a Teixeira de Pascoaess, dos quais ali se publicam duas cartas, que eu não me lembrasse sequer que, precisamente em nome do acaso, escrevera já, curiosamente neste mesmo blog, então a celebrar «minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia», isto mesmo, que hoje reli, como se outro o tivesse escrito! Perplexo parti à descoberta, para me cruzar, no espaço poético com a magnífica ave-azul.
5.9.06
Enfronhado
Dei conta ao reler-me, o que raramente faço, pois nunca tenho tempo: uma pessoa regressa de férias, enfronha-se na profissão, cheio de bons propósitos organisativos, a querer que ela seja apenas uma parte da sua vida, necessária mas que não ultrapasse o suficiente. Vejam o resultado: nestes últimos dias quase só falo de Direito, do que está, do que virá, do que tomara que viesse. A continuar assim, a coisa dá para o torto.
29.8.06
Longínquo
Eu, que não me sinto branco nascido em África, e nasci em Angola, nem europeu se isso não for Portugal, penso agora no Quénia longínquo. Um sentimento apátrida, invade-me o ser, como se um nómada, para quem tivesse morrido a família primeiro e lhe tivessem destruído a aldeia depois.
As leis da Natureza
Claro que eu tinha de ir ler imediatamente Dostoiévski ao chegar. E foi ao lê-lo, naqueles seus «Cadermos Subterrâneos» que me encontrei «com um homem que tivesse, para cúmulo, a especial infelicidade de viver em Petersburgo, a cidade mais abstracta e mais premeditada do planeta». Tudo isto é discutível, eternamente polémico, pretexto para uma interminável discussão para «chegarmos, mediante as mais inelutáveis combinações lógicas, até às mais repugnantes conclusões». Ao ver hoje aquela cidade-cenário, palco de uma itinerante comédia de rua, a contínua passerelle da beleza efémera e do exibicionismo do que é bem, sente-se que é de facto «impossível perdoar às leis da Natureza».
25.8.06
As ideias abstractas
Às vezes acontece, quando se viaja, pegar-se num livro à medida da bagagem que se leva, por causa do espaço, do peso, do tempo livre de que se dispõe. Poucas vezes sucede encontrar um livro que se compatibilize com o problema do local para onde se viaja. No caso um dos personagens do que leio tinha perdido há muito a crença na perfeição da espécie humana; pior, estava já amargamente convicto de que os indivíduos faziam sofrer os outros pela sua brutalidade, a sua malícia, a sua falta de compreensão. Por isso mesmo convivia melhor com as ideias abstractas da reforma social, a igualdade de oportunidades, em suma, a fraternidade humana. Comovia-se, porém, com os milhares de outros que, não ambicionando a liderança, seguiam um ideal com paciência e pobreza.
23.8.06
O labirinto
Imagine-se num local onde nada se entende do que dizemos e não entendemos o que nos querem dizer. Imagine-se um homem diminuido pela arrogância do que o cerca, perdido no labirinto do que procura. Pode ser uma cidade ou um momento da vida. Pode ser estar de férias ou o desejo de tentar sair delas. Imagine-se querer compreender e não conseguir sequer entender.
22.8.06
O mundo oblíquo
Leo Tolstoi tinha como hobby fabricar sapatos, nos intervalos de uma extensa e intensa escrita. Vivia com modéstia, numa das suas casas servido por dez criados. Dostoievsky sofreu na Sibéria a cadeia e o exílio e definhou, esvaindo-se em literatura. O primeiro vivia o problema da mística, o segundo o da angústia dos homens. Cada um deles tem as suas casas evocativas, a do segundo uma casa de esquina, como a de tantos dos seus personagens. Gorki também teve casa, oferecida pelos sovietes mas, como se simbolicamente, está encerrada para obras. Falta quem? Faltam tantos! Maiakovsky, por exemplo, oblíquo, vanguardista, provocador, suicida. No meio das suas vidas surgiu o tumulto dos engenheiros de almas, o anseio do homem novo. Hoje já nada sobeja. Numa das portas do Kremlin está o símbolo da Rolls-Royce, talvez por causa do carro luxuoso usado por Lenine, a bandeira do proletariado. Quantos milhões deram a vida por tudo isto. O motorista que nos conduz benze-se ao passar em cada Igreja. Hoje, já só o próprio Deus o poderá surpreender.
20.8.06
Museu ao ar livre
Viajo. Estou num local onde os computadores acentuam de modo diverso, sem que eu possa usar, ao escrever, o nosso modo de acentuar, obrigando-me a usar palavras que omitam o que por aqui inexiste. Curiosa forma de escrever esta, confinado por exemplo a ter de dizer sim, sem a possibilidade de acesso a uma palavra que exprima a negativa. Estou longe de casa, numa cidade com pouco mais de duzentos anos, um museu ao ar livre, replicando em arte o que de melhor a Europa tinha e as colossais fortunas podiam comprar, caixa de bonecas, de corpos espectaculares que se pavoneiam ante a rua do desinteresse. Oriundo de um Portugal com mais de oitocentos anos de vida independente, trago comigo o peso dos escombros acumulados com que nos fomos fazendo. Tenho saudades, talvez por hoje ser domingo, o dia do aborrecimento universal.
16.8.06
Acontece
Vou viajar. Fiz praia, quase sem lá ir. Saio, sem ter conseguido retomar o primeiro livro da Dulce Cardoso, que encentei há vários meses, o que se chama «Campo de Sangue», já foi prémio «Acontece» e agora a editora despacha a saldos. Hoje ainda peguei nele para me decidir a levá-lo na mala. Uma das últimas frases que ali tinha sublinhado trazia a nostalgia de uma colónia de férias onde eu nunca estive: «no útimo dia de férias deixaram na aldeia uma fila ordeira de pés tristes». Acho que o Verão está a acabar, ou pelo menos as férias. O tempo começa a arrefecer e eu sinto-me cansado já delas.
15.8.06
Sua mercê
Nunca me arrependa eu tanto de uma coisa como me arrependo de mostrar-me na fragilidade que os heróis quotidianos nunca admitem. A vida de hoje é o mundo do êxito, a sociedade o podium dos vitoriosos. Peço pois o favor a todos quantos lerem o que eu possa aqui chorar, de se rirem disso às gargalhadas. Não para que eu ganhe razão, mas para que ganhe ao menos alguma vergonha. Para tristes figuras já basta as que fazemos, escusamos de as contar. É nisso em que a blogoesfera é o muro das lamentações que eu me repugno de mim. Com tanto motivo para me exibir, ando nisto da tristeza e da comiseração enjoada à mercê. Restam, eu sei, uns quantos sincera e carinhosamente condoídos. É a esses que eu peço que desandem. Ridículo por ridículo, prefiro-me assim, pobre e mal agradecido.
14.8.06
Feriado
Há dias em que devia amanhecer logo o dia seguinte. Era assim, como se uma folha a menos no calendário. Amanhã, por exemplo, é feriado para que nada aconteça na vida de muita gente. Podia ser hoje. Para mim, devia ter sido hoje.
O espanto
Ana, a personagem de Clarice Lispector no seu conto «Amor» acabou por «descobrir que também sem felicidade se vive». Antes era «uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável». Vi esta noite, ao chegar a casa que começara a ler o livro, sem o ter terminado e, afinal, sem o ter compreendido. Voltei a ele, tal como ela, com «o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada». A diferença, é que esse novo saber sentido em Ana fora um lar quem «perplexamente lhe dera».
11.8.06
A felicidade menor
Ainda consegui ler ontem uma conferência que o Jorge Luis Borges fez na Universidade de Belgrano, em 1979, dedicada ao livro. Trata-se de um ensaio erudito, o livro visto por alguns clássicos, mas que é sobretudo um contraponto entre a forma escrita e a forma oral. O livrinho, onde vem essa conferência e outras quatro chama-se, aliás, «Borges Oral». Nela, o seu autor diz que reler é mais importante do que ler e precisamente para vir aqui deixar esta nota, reli esta manhã o que ontem lera. E que ficou? Por um lado que «se lemos um livro antigo é como se lêssemos todo o tempo que decorreu desde o dia que foi escrito para nós», por outro que «uma forma de felicidade é a leitura; outra forma de felicidade menor é a criação poética, o que chamamos criação, que é uma mistura de esquecimento e de recordação do que lemos». Claro que eu transpus isto para o modo de estar com os outros, para o folhear no outro cada interstício do corpo e cada recanto da alma. Li pois e reli e descobri assim a infelicidade das páginas em branco e de um tempo decorrido em que nada conseguimos ler. Por isso a felicidade menor desta escrita.
10.8.06
O mais azedo dos suores
A vida é feita de acasos. Terminei, enfim, a leitura do livro de memórias do José Gomes Ferreira. E como decidi abolir a diferença entre os dias de férias e aqueles em que trabalho, como quem vive feliz uma infelicidade, depois de ter ido consultar, nesta tarde de calor, um processo a um qualquer desses tribunais, passei por uma biblioteca pública onde encontrei «A Gaveta de Nuvens» outra obrinha sua, de crónicas e apontamentos. Sentei-me, anónimo, num canto a ler. A meu lado, um anafado munícipe usava aquele local de cultura para ler os anúncios do imobiliário, secção «condomínios, vendem-se».
José Gomes Ferreira também tirou o curso de Direito e tentou, sem continuidade ou empenho, a advocacia. Passou como obscuro cônsul na Noruega mas foi a viver da pena, escrevendo de tudo, desde anúncios publicitários a traduções para o cinema, no meio disto um livro policial como autor anónimo, que trabalhou «na escravatura do suor mental (o mais azedo dos suores)», escrevendo andante, em intervalos.
Voltei há pouco à casa onde estou, com a cabeça cheia de pensamentos sobre tudo isto. E eu que escrevo curto, por ser feito daquela «carne tímida» de quem acha que tem pouco a dizer, encontro-me hoje, nesta tarde andarilhante, com a cabeça toldada de ideias, que se atropelam.
Primeiro, que pouco vale uma vida literária. Impressionou-me, comoveu-me mesmo, ver, pela sua palavra, trazidos do pó indiferente do esquecimento, tantos nomes de escritores e artistas, génios no seu tempo por um critério exasperado e exigente e hoje absolutamente olvidados. E causa-me funda impressão, pela razão inversa de o ter lido, a ele Gomes Ferreira, desejoso por raiva de apedrejar as montras das livrarias de Lisboa onde se não encontrava então nem um só dos livros do Teixeira de Pascoaes, já só nos alfarrabistas «para educação das traças».
Depois, neste «labirinto de conversa inútil», dou comigo a pensar o nada que vale um livro. No caso, os dele, editados pela Moraes, que já faliu, pela Portugália, que já morreu, e de que hoje se encontram nas chamadas «livrarias», que mais não são do que armazéns de papel temporário, os mais ridículos, os menos característicos, os que menos dizem do grande escritor de quem falamos. Mas fere-me, sobretudo, o meu livro, este exemplar seu que li e sublinhei e a que quase arranquei as folhas de tanto o ler, onde consta o sangue arrefecido de uma inscrição, manuscrita por alguém, para quem este volume já foi um momento qualquer na sua vida: «Na Parede, 8 Set. 66, quando os anos não têm sido uma parede». Assina: Guida. Não sei quem é, ela não sabe que eu a encontrei. Entre nós, se ainda estamos ambos vivos, há o acontecimento morto que lhe atirou o livro para um adelo, onde o comprei, ao desbarato, amarelecido e esquecido, como se escrito por olhos enormes «da existência de milhões e milhões de lágrimas do mundo por chorar». Tudo isto faz com um homem não queira ser aquilo que é.
9.8.06
O reduto da vontade
Hoje, dia nove de Agosto, uma quarta-feira de sol e de calor, com tanta gente de férias a não escrever por não poder, estou aqui eu a não escrever por não querer. O silêncio tem uma vantagem, raramente se dá por ele.
8.8.06
A modos de que
«Hoje todo o cuidado com os homens é pouco. E mesmo com as mulheres, que já andam ao mesmo», dizia ela, uma vulgar criatura, meia-idade indefinida, alombando sacos de plástico, chanata a arrastar, vinda com outra do mini-mercado, atulhada de mercearias gordas e bebidas adocicadas. «Sim, o parvalhão, a ver-me sozinha na estrada e a oferecer-me boleia, a abrir o vidro do carro, a abrandar a marcha, o metediço, filho de uma grandecíssima vaca. «E tu conhecia-lo, Maria?», inquiria a companheira, magricela de ressabiada, repartindo a carga dos víveres, um garrafão água em cada mão, o jornal amarfanhado debaixo do sovaco suado. «Ora se conhecia. Então não se conhece logo pelos modos! E com as gajas é o mesmo, que já andam desenfreadas ao ataque que ainda outro dia uma...». Foi hoje de manhã. Separámo-nos numa esquina da rua. Eu redobrado de cuidados, não vá toparem-me pelos modos, assim a modos de que.
5.8.06
Borges, perdoa a minha cegueira
Eu sei que é uma vergonha: mas detestava o Jorge Luís Borges só porque um desses arrogantes peralvilhos da nossa cultura, impante de opinião pomposa, o idolatrava. Só que nunca o tinha lido. Hoje, indiferente ao meio, qual cego, descobri-o, tacteando-o. Confesso o meu sentimento de reprovação para com o meu passado vergonhoso. Ando a juntar, livro a livro, cada um dos seus livros e os livros sobre a sua pessoa. Aqui na Feira do Livro de Faro vendia-se o pobre do Borges integral e traduzido a metade do preço. Recusei comprar. Trouxe, para acabar de o ler o «Borges verbal», colectânea de citações, algumas talvez apócrifas, compiladas por Pilar Bravo. Leio-as, por vezes acrítico de maravilhado a essas frases desconcertantes. Arrependido do tempo perdido, rio-me, como se de mim, de uma piada deprimente que circulava em Buenos Aires a seu respeito e que ali vem citada no prefácio: «Borges é uma das provas da inexistência de Deus. Porquê? Porque se Deus realmente existisse, tê-lo-ia feito mudo e não cego».
8.7.06
Sem regresso
Façam de conta que eu lá fiquei, naquela praia, naquele hotel. Imaginem que talvez um ou outro postal se tenha extraviado, ou que eu nem tenha escrito. Imaginem que eu não voltei.
1.7.06
De saída
Vou sair para uma tentativa de descansar. Levo comigo aqueles livros que ando há semanas para acabar de ler, antes que eles acabem com a minha vontade de ler. Vou para perto de uma praia, para que ela me provoque e me faça sentir o desejo. Talvez apanhe sol. Quem sabe, talvez tenha a ousadia de me entregar ao sal de um abraço no mar. Eu vou sair, para descansar de mim. Volto domingo, comigo.
28.6.06
Passados os anos
É uma espécie de biografia que o José Gomes Ferreira escreveu e que encontrei, numa segunda edição, daquelas belíssimas da Portugália. Chama-se «A Memória das Palavras». Comecei a ler, ontem à noite, quase a cair de sono. Lembrei-me hoje de uma frase que lá vem, no prefácio, que na forma de uma carta ele dedica à sua Rosalia: «Aqui tens o meu passado. A parte mais pura do meu passado. A única digna de ti, minha querida companheira de tantos e tantos felizes anos árduos». Eu nem isso consigo escrever, passados os anos, tantos anos depois.
25.6.06
A aura do contentamento
A essência e o afecto que ele transporta conferem a autenticidade à existência. O mais, e o que nele há de acidental são as contingências da vida, as inéricas, as adstringentes conveniências. É a aura do contentamento. Um dia descobre-se que não há perguntas possíveis, nem respostas admissíveis. Um homem perdido na física adocicada do rir, dá consigo na química salgada do chorar.
21.6.06
Trinta quilómetros
Um sonâmbulo ao volante pelas estradas do dever. A ânsia de um momento para poder parar. Agora nas auto-estradas já não há as bermas das estradas. Restam as áreas de serviço. Um homem olha e vê uma tabuleta azul. São só trinta quilómetros. O medo é o não saber se não fecharei os olhos até lá, definitivamente.
15.6.06
E uma muda de roupa
Três livros! O «Mandarim» do Eça, naquelas edições da Lello, em azul, encontrado a saldos num alfarrabista, a cinco euros, que está quase no fim, a Clarice Lispector que, sendo um livro de contos, se vai lendo um de quando em vez e enfim a Ondina Braga, porque sendo para ler toda, já vai lida no terceiro volume da prosa. Três livros e uma muda de roupa. Depois digo como foi. Hoje apetecia-me ir à praia, se eu gostasse de praia. Nem toda a gente sabe que eu escrevi isto. Nem toda a gente o entende. Ainda por cima hoje faz sol, um sol tímido, hesitante, um sol para quem gosta de ler e cega com o excesso de luz.
13.6.06
Sem esforço nem angústia
Guardei para estes dias mais folgados o fazer aquelas coisas que há meses se arrastam, pendentes. O problema é que, devido precisamente à passagem do tempo, já nem me lembro bem quais elas são. O que, como se conclui, que o deixar andar é uma forma muito simpática de ver os problemas resolvidos e sem esforço nem angústia! E eu enganado estes anos todos, com a solução ao alcance da mão!
11.6.06
O sono da lua
A lua foi dormir, depois de ter dado, estou certo disso, uma noite de muito divertimento e alguma alegria a muitos dos meus semelhantes. Companheiro deles, nesta viagem pelo tempo, anichados no planeta terra, à velocidade de translação de 1.783 quilómetros por minuto, fico feliz por eles, como se fossem eu. A lua foi dormir e com ela a segurança de que amanhã volta, menos exuberante, claro, até ao vazio total de se ter esgotado o seu ciclo de criação. Agora que a maré baixa, e é domingo, avançam banhistas em famílias e em casais e uns quantos solitários que a vida desirmanou ao encontro da ilusão refrescante da água, em busca de um horizonte longínquo que os retire de si e da sua mesquinhez terrena. A lua foi dormir sem que tantos tivessem ao menos nela reparado ou voltem sequer a reparar.
10.6.06
Abreviando-se um homem nesta vida
Quando Manuel Laranjeira aos trinta e quatro anos de idade deu um tiro na cabeça, abreviando-se nesta terra, Unamuno escreveu que ele dera vida à própria morte. Comprei agora um livro sobre o seu misticismo pagão, ainda na esperança de que o mundo possa ter uma via salvífica para além dos deuses e aquém de um tiro. Laranjeira, escrevendo sobre a mocidade idealista, que foi a sua, lembrou quanto outrora se faziam excursões aos túmulos dos vencidos, hoje aos arraiais dos vencedores.
9.6.06
A mão
Trancado de manhã e de tarde trancado, rodeado de gente soturna, a ouvir e a vêr o lado feio e mau do mundo que o cerca. Dia após dia, ano após ano, floresce lá fora a primavera e sempre a um homem a viver no interior de um mundo sem paisagem nem natureza. Uma ânsia de um momento de paz, toma conta de uma pessoa que assim vive ou julga que assim é viver. Lembro-me de uma cena horripilante de uma mão hirta e enclavinhada, saída de um esburacado momento de uma casota em madeira, como se, através dela, todo um corpo se quisesse libertar. Ali dentro morriam sufocados, envenenados a gás, todos os membros de uma família. Aquela mão era uma tentativa de escapar ao inevitável, até que as forças lhe faltaram.
7.6.06
Violeta
Confesso que é uma paixão literária forte. Não a conheço pessoalmente mas li-lhe o segundo livro, linha após linha, com o coração a doer-me. Depois disso, procurei o primeiro livro e estou a lê-lo, muito lentamente. Soube que era paixão quando li num jornal que diziam mal da capa daquele livro que eu já li, a que chamou «Os meus sentimentos». Ofendi-me com isso, como se fosse comigo. Esta noite recebi a oferta carinhosa de um link para uma entrevista sua à TSF. Fica aqui. Vou ouvi-la. Até amanhã. Ela chama-se Dulce Cardoso, Dulce Maria Cardoso. A personagem do livro tinha o nome de uma cor que também é o de uma flor. Chamava-se Violeta.
5.6.06
Escrita mendicante
Assírio Bacelar, que deu nome à editora Assírio & Alvim, lembrou, numa recente entrevista, que os autores ganham entre 8 a 10% em cada livro, e que as grandes superfícies, sem arriscarem nada, ganham 45%. Há só uma correcção: é que os autores ganham quando ganham, pois muitas vezes ficam a olhar para as mãos, vazias. E, no entanto, nunca se editou tanto. Não são escritores a escreverem ficção, são escritores a viverem na ficção.
2.6.06
O desaforo dos aforismos
Com aquele estilo grandiloquente de falar de si, enobrecendo-se, Agustina Bessa-Luís publicou um livro de aforismos de que só agora dei conta, por tê-lo encontrado na Feira do Livro. Amarga desilusão, porém: é uma compilação daqueles que ela foi semeando pelos seus muitos livros antecedentes a 1988. Conhecendo-se o apreço que Agustina tem por Agustina, já é azar ter aberto esta obra logo com «um grande livro não pode ser medido pela desordem do seu rosto, mas sim pela grandeza dos seus aforismos». Percebe-se agora porque é há quem se irrite com ela, mesmo os que gostam do que escreve, incluindo os aforismos.
29.5.06
Maria Ondina
Surgiu há muito na minha cabeça, hoje foi apenas a facilidade de lhe dar vida. Talvez a noite soturna, a memória da distância, a agonia da incompreensão. Jardim de essências, é dedicado a Maria Ondina Braga. Coloquei-o aqui.
28.5.06
Uma tarde de calor
Basáltica e rude, a natureza mineral e áspera de todas as coisas, irregular na forma e incerta na sua aparição, nela surge, por um momento fugaz, o milagre da poesia. Abafa-o, porém, a fealdade da indiferença circudante, o ridículo viscoso de uma tarde de calor. Não se inflamam, por isso, as almas presentes, incham, pelo contrário, o corpos dos ausentes. Com o chegar da noite regressou a monotonia do amanhã. Um dia passou. Um dia fora de casa.
27.5.06
A escrita automática
Ao tentar explicar isto aqui escrevi assim: «A Janela do Ocaso» é o meu eu intimista e literário, o ser ledor e reflexivo que vê a vida através do teatro de sombras chinesas que na escrita se project». Como é costume a frase saiu-me, espécie de escrita automática de que me surpreendo ao lê-la. E, no entanto, as contingências da vida empurraram o ser ledor para o saguão escuro em que só há o ser escritor. Prisioneiro de si, esse ser funciona por reflexos, espécie de bolbo raquidiano que comanda apenas o modo, a forma, a concordância verbal. Tudo o mais, como se testamento de morto, está escrito. Povoado de sombras, limito-me a escrevê-lo tal como se o estivesse a ler.
26.5.06
O homem da maratona
É uma luta diária contra o tempo. Começa-se por trabalhar mais depressa, por se encurtarem as horas de refeições, salta-se mesmo o almoço, por vezes nem se janta, há dias em que mal se come. Descobrindo que não há que dormir tanto, rouba-se ao descanso, ilude-se a sonolência, engana-se a habituação viciosa do corpo esgotado ao estridente despertador. Há no homem da maratona, a esganada ambição da meta, a inércia tresloucada do correr. Cronometrado ao segundo, retesa-se num espasmo final, antes de cair de borco, o coração a rebentar, tudo perdido por uma fracção de segundo. No podium da vida não há lugar para tantos e ele é, afinal, um anónimo no pelotão. No sprinter final, joga o seu destino. Um dia, trôpego de velho, uma manta pelos joelhos, é o que lhe valerem as suas recordações. Às vezes são recortes amarelecidos de jornais, fotografias sumidas num álbum sebento. No jardim da indiferença, já ninguém os ouve. São os recordistas da imobilidade, campiões da monotonia, medalhas de ouro de um mundo que já passou.
24.5.06
Um farol de felicidade
Encontrei-a dezassete anos depois, bonita, jovial, entusiasmada. Irradiava alegria pelo que fazia e bem estar no que vivia. A dois metros de nós estava um, a fazer esforços para fingir eficazmente que não me conhecia. Outro, inopinado, apertou-me a mão circunstancialmente no «como está» seco e convencional. Respondi um «olávocêcomovaibemobrigado», aquela frase magnífica com a qual fica logo tudo despachado. Por momentos percebi o que é ser feliz. É algo de irradiante, como se uma incandescência nocturna e encandeante.
22.5.06
Melhor vida
Nm quadro impressionante que está exposto no Museu das Janelas Verdes está o retrato de uma velha de lábio mirrado e olhar oblíquo, de refogado ressentimento. Estão lá as datas do nascimento e morte. A propósito de morte diz-se que foi «para melhor vida». Olhando-a antes de sair, só poderia concordar. «Melhor vida» para ela e para os outros seguramente. Basta olhar para a cara.
20.5.06
O reduto último
Esta noite não ouvi os pássaros que cantam por aqui em frente pelas quatro da manhã. Foi uma noite sem pássaros e sem canto, sem gorgeios e sem piares. Esta noite não vi outra coisa mas só a escuridão do dormir, onde nada se ouve e onde nada nos dizem. É o reduto íntimo último da nossa privacidade, dormimos connosco na ilusão da companhia.
14.5.06
Cada criatura humana
Continuo a ler os «papéis avulsos» do Machado de Assis, onde descobri que «cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro». A observação é interessante, a consequência sinistra. No caso, fardado o homem de alferes, o alferes eliminou o homem. Bem podia a patusca tia Marcolina, inconsolada viúva de capitão, embeiçada pela farda, abraçá-lo, achando-o, deleitada, uma bonito rapaz, e jurar, ambígua, que não havia em toda a província outro «que lhe pusesse o pé adiante». Achando-o sozinho, «nenhum fôlego humano em redor», enfim, «entre galos e galinhas tão-somente, um par de mulas que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois», despido enfim de alferes, o homem descobriu, pela alma interior, que a melhor definição do amor «não vale um beijo de moça namorada».
12.5.06
A lousa de uma vida
Talvez porque um meu amigo me tenha dito que a minha escrita lhe tenha lembrado a do Machado de Assis. Talvez por eu não conhecer o Machado de Assis. Talvez mesmo porque ontem, ainda encontrei, depois do jantar, meia-hora para ir a uma livraria e nela estava um edição comprimida de um livro que o Assis escreveu e de que o meu amigo mandara vir de propósito do Brasil, uma versão original e ainda por cima ilustrada com ironia. Talvez por tudo isto. Talvez por ter acordado de madrugada, com meia-noite mal dormida, ainda li um dos contos desse livro, que se chama «Papéis Avulsos». O conto é curto, mas eu não tive tempo para mais. Agora, talvez como quem bate, aos murros, à porta de toda a gente aqui da rua primeiro e da cidade depois, para os acordar, a meio desta noite, como se fosse a última noite, aqui estou. Cito do «Verba testamentária». É o últimos dos contos, mas sucede-me, muita vez, ler livros de contos do fim para o princípio: «Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito». Acordem, pois, todos os que se zangam comigo! Nada é definitivo. A minha vida, breve que seja, é tudo, afinal, «obra de lápis e esponja».
11.5.06
O hipnótico mundo dos quês
Esgotado de sono e sem conseguir dormir, tentei adormecer. Para me tranquilizar comigo tentei ler. Há quem beba leite quente. Voltei ao «Na tua face» do Vergílio Ferreira. Vou mais adiante já do que na página 143. Mas voltei lá, porque tinha sublinhado: «O homem é um animal que chegou ao extremo de se perguntar porquê e para quê. Tendo hoje conseguido ver que que não há nenhum para quê nem porquê, todo o seu esforço deve ser não perguntar mais e ser feliz». Não sei porque leio isto e muito menos para quê. Por causa disse, adormeci, enfim.
10.5.06
E a natureza sou eu
Tinha voz rouca, falava brasileiro e cantava. Bem disposto, inteligente, vivo de expressão, ágil de pensamento. Não sei quem é. Ouvi-o ontem na rádio, por um acaso. Dizia, falando de si e dos seus: «o meu pai que era pobre por natureza». Nunca tinha ouvido tal coisa, pobre por natureza. Como se isso fosse, e há quem, uma certa maneira de ser.
7.5.06
Um livro finalmente na montra!
O autor deste blog, por falar em janela, quase que se defenestrou em alguns momentos da escrita de um livro que, finalmente, está pronto e para o qual estão convidados todos os que comigo compartilham estes momentos. Para simplicar, digo aqui do que se trata. Depois, de link em link, o leitor percebe os pormenores.
5.5.06
As três da vidairada
Eram três a uma mesa, numa hora já tardia para se almoçar. Coscuvilhavam a vida alheia, num tric-tric martelante, quais máquinas de costura a pedal. Uma, esgalgada de formas, com ar seráfico de confessionário, intrigava uma colega, ausente, ratando-lhe as intimidades. A gorda do grupo, com voz de falsete, apoucava a chefe que tinha lá no serviço, macaqueando-lhe as maneiras. Para não lhes ficar atrás, a meã da companhia, rude de gestos, contava-lhes as últimas que se tinham sabido daquela uma e o que se suspeitava daquel'outra. Tentando concentrar-me na minha tarte de legumes, apercebi-me de que eram professoras do liceu. Coitadinhos dos nossos filhos! Se não houver melhor do que aquilo, dão em fraldiqueiros pela certa. Podem não conhecer a ciência do seu tempo, mas ficam enciclopédicos no que ao pátio das cantigas respeita. E por outro lado, ai de quem se mata a ensinar os filhos alheios e tem que gramar disto como paisagem!
1.5.06
Além do limite
«O meu pai fugira com a criada para o ininteligível», conta Daniel, o personagem de «Na tua face» do Vergíllio Ferreira, desfiando a sua história de tristeza. Ele sabe que «deve haver no homem um limite até onde se é feliz ou infeliz, depois a lei já não funciona». Estou a ler, treze anos depois, perdido, para além do limite e cercado do ininteligível. O livro foi publicado em 1993.
29.4.06
Um modo de contar
Voltei aqui, desesperado de cansaço, depois de uma semana a trabalhar contra vontade, no que chamam a minha profissão «liberal». O José de Almada Negreiros escreveu ou disse, ou ambas as coisas até, que «quem trabalha que nem uma besta é evidentemente uma besta». Li isso hoje à tarde, um sábado com as ruas refulgentes de sol, um sol cansativo, perseguidor, que endoidece por encandeamento, um sol que me confina, a cabeça a estalar, ao mais sombrio de mim e ao sono reparador. Acordei, depois de ter dormido que nem uma besta. E, contando, as bestas, a que trabalha e a que dorme, já vamos em duas, incluindo o «evidentemente».
25.4.06
Valeriana
«Conta-me uma história», uma história qualquer, pode ser mesmo a tua história. Conta-me uma história, de alegria ou de tristeza, uma história pequena, pois é só para adormecer. É com isto que se animam os que escrevem, com isto se encantam os seus leitores. Entre bocejos e sonos refastelados, por vezes um sonho, quantas vezes um pesadelo, vai surgindo, hipnótica, soporífera, a valeriana literatura. Com ela adormecem, entretidas, as dores, acordam, provocadas, as paixões, dormitam, em geral, todos os sentimentos. Eu sou o livro e com uma voz feita de páginas e linhas, palavras e letras, proclamo, a melopeia melíflua de um pedinte: leia-me na cama, acorde comigo, um livro no chão. Se nada mais tiver, tem nessa noite, pelo menos, a ilusão da companhia. Leve-me consigo ao deitar, mesmo que seja só para adormecer. Eu conto-lhe uma história!
23.4.06
Catando gralhas
Escrever e emendar, rectificar e corrigir. Apagar. Reler e rever. Tornar-se o escrito em maldito. No momento em que se odeia, o livro está pronto. Nesse dia há leitores capazes de o apreciarem, alguns mesmo com afagos amigos à escrita do seu autor. Pior que isto, é haver autores sem emenda. Semanas depois, ei-los, uma vez mais, de provas na mão.
22.4.06
A vida ao sábado
Eu não tenho escrito, porque eu não tenho vivido. Não tenho dormido e se pudesse, neste sábado de chuva, não tinha sequer acordado. Eu vim escrever, porque, acordado, descobri, encharcado de sábado, que é aqui a minha forma de viver.
19.4.06
O dever primordial de nós todos
Quando o empresário Manuel Vinhas se ausentou para o fraternal Brasil, por causa da perseguição política que aqui lhe moveram, publicou um livro a que chamou «Profissão: Exilado». Um homem teve a ombridade de, em preito de gratidão, inscrever corajosamente o seu nome nesse livro de memórias amargas: Agostinho da Silva que, num notável texto de apresentação, exprimia, com ironia, o seu contentamento pelo seu amigo ter, à força, sido obrigado a largar os negócios, podendo, enfim, dedicar-se à escrita. Escrito no Natal de 1975, dizia o filósofo da portugalidade, a propósito do empresário das cervejas: «os negócios o afastavam de si próprio, relegando quase para tempo nenhum o seu gosto de escrever, de estudar e de marchar, e decerto obrigando-o a frequentar muito lugar e muita gente que lhe não respondiam ao mais profundo; foi empresário, proprietário, administrador, negociador de acordos, e não sei que mais; faltava-lhe cumprir o dever primordial de nós todos: sermos o que somos».
17.4.06
O dia mundial do livro
Vem aí o dia mundial do livro. Não direi tudo, pois é exagero, mas muitas são as trezentas e sessenta e poucas coisas da vida que têm um dia só para si, a começar pelo pai e pela mãe de cada um. Pois a 23 de Abril, antes que eu me esqueça, será o dia mundial do livro. Autores anónimos e do ignorado, que ninguém lê e que raro escrevem, tradutores saltimbancos de palavras, troca-tintas insignifcantes de significados, editores inescrupulosos, dos que publicam desinteresses e arrecadam o que lhes interessa, distribuidores que melhor negócio fariam em empresas de mudanças ou trasladações funerárias, leitores da fotocópia pirata e do resumo apresssado, todos, todos, terão lugar sentado na cerimónia desse dia, a mesa de torcidinhos, o copo de água, o pigarrear antes do discurso. Claro que há o esforçado escritor, o empenhado editor, o fiel tradutor, o aplicado leitor. Para esses, se houvesse vaga no calendário, eu propunha, não havendo objecção, um outro dia, em Abril ou em Maio, em dia útil ou num domingo. Talvez a 28 de Fevereiro, porque assim, comemorava-se só de vez em quando a sua apagada existência. Para lembrar misérias, já basta uma vez ao ano. No mais, festejamos todos os dias, folha a folha celebrando, até que nos quebre a lombada, as folhas se nos descolem, os olhos se nos apaguem.
16.4.06
Curiosidade
Foi neste livro que eu li sobre as raparigas «que lhe subiam ao quarto por curiosidade de amor, que não era amor». Lê-se isto e não mais se esquece de ter lido. Talvez tenha acontecido assim com o José de Almada-Negreiros. Isso pouco importa, ter sido com ele.
Um futuro insensato
«Os homens sensatos adaptam-se ao mundo, os insensatos tentam que o mundo se adapate a eles. Por isso o progresso depende sempre de homens insensatos». A frase pertence a Bernard Shaw. Dá vontade de acrescentar, «por muito insensato que isso pareça».Mas dá ainda mais vontade ainda de acordar num domingo, manhã cedo, e acreditar tanto nisso que se passa a viver assim.
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