1.6.07

Fiambre da perna

Criticando, para o jornal «Público», o livro de contos que escrevi, Pedro Mexia diz que «Barreiros cai demasiadas vezes no excesso de adjectivos, na inversão desnecessária de frases, nos arroubos poéticos invariavelmente falhados ou nas frases estropiadas ou gordurosas». É uma opinião, expressa numa pequena frase com seis adjectivos deprimentes. Só houve uma parte da crítica de que não gostei, a das «frases gordurosas».
Não é que o livro seja de bolso, mas vá que alguém o leve junto ao fato, a obra a escorrer gordurosa, pingue de banha, como se de um embrulho de toucinho ou de um pacote de torresmos se tratasse.
Peço, por isso, licença, para me defender: o livro não é seco de carnes, mas não é tão adiposo como Pedro Mexia o julga.

30.5.07

A agonia do real

Quando uma nave espacial reentra na atmosfera sofre um choque que quase a destrói. Quando uma criança nasce do ventre de sua mãe, grita de dor, como se ao entrar-lhe o ar exterior nos pulmões, lhe entrasse o desejo de sufocar. Quando o mundo da ilusão reencontra o real, sente-se a vontade da loucura, porque ao menos aí a agonia é medicada. Há é claro sempre a solução de se partir de férias e com isso a esperança de que no regresso esteja já, enfim, tudo morto.

26.5.07

A herança da raça

Graças ao meu amigo, que está expatriado em Macau, estive hoje, um sábado com prometida chuva e surpreendente calor, com o Wenceslau de Moraes e um seu livro de paisagens escritas sobre a China e o Japão.
Wenceslau José de Sousa de Moraes, oficial de Marinha, fixou-se em Macau em 1889, transferindo-se definitivamente em 1898 para o Japão, onde viveria os últimos trinta e um anos da sua vida, sem mais regressar.
Ser delicado, qual sismógrafo capaz de registar a mais pequena vibração humana naquela terra de terramotos, deixou-nos páginas de inteligente e ardorosa visão sobre o Oriente «esfíngico e fatal», como lhe chamou Fernando Pessoa, local de exílio voluntário e de fuga redentora, a quem entregou a alma e que lhe recebeu os ossos.
Frequentemente sorumbático por natureza da alma, e erraticamente apaixonado por herança da raça, ele foi no Dai-Nippon, o «senhor Portugal».
Lembrei-me disto esta manhã, ao acordar cedo, os pássaros a cantar: «Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho permanente de sorrisos» escreveu ele, o que viu que «o riso é a linguagem mais em uso nesta terra». Assim eu.

23.5.07

A alma japonesa

Vivendo uma vida isolada, tenho muito poucos amigos. Um deles deixou-se ficar por Macau. É daqueles que compreendem quando não lhes aparecemos e respeitam o nosso exílio, poupando-nos à vergonha de ter de expor em público as nosas chagas. Mandou-me agora dois volumes da obra de Wenceslau de Moares, que está a ser ali editada, aguçando-me o apetite por ler tudo. Esta manhã em que, exaurido, permiti que a preguiça me desse descanso, li a contra-capa de um deles: Aprendi que não se beija uma japonesa, ainda que na face, sem a ofender, «mas poderás talvez beijar, sem que a musumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido».
Claro que, visto pelos olhos da contemporaneidade, pelo espírito prático dos dias de hoje, pela banalidade grotesca em que se tornou a subtileza, tudo isto é ridículo, mesmo eu, disto leitor, num dia como o de hoje, numa manhã como esta.

13.5.07

Andar com o janêro!

«Esta noite nã dí dormido nada!... – Atã perquém? – Os gatos andam p’aí com o janêro, era uma miada qu’a casa até tremia...». Descobri este português magnífico, antigo, viajando com insónias e sem ao menos uma maçã para entreter o dente e aquietar o corpo em sobressalto. Foi em Monchique, em «O Parente de Refóias». Glossário risonho, cheira a sol e a sul, o que a mim, ser bisonho e implicativo é como se fosse do outro lado do mundo da minha neurose, terra onde está sempre a chover.

11.5.07

A vida possível

Ouve-se aqui o amanhecer através do cantar dos pássaros e depois do gorgorejar da água das fontes. Lá em baixo uma cidade com as suas vulgaridades e com os seus recantos de reservada beleza. Preparado para esgotar mais um dia, trancado num sala e de tudo isolado, olho para o livro que trouxe expectante e que a meu lado espera ansioso que eu o leia. «Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível», ainda consegui ler ontem, já os olhos a fecharem-se, impossíveis. Clarice Lispector escreveu-o. Ama-se um mulher que só se conhece através do que escreveu. Eu sei que ela está morta. Guardo por isso esse segredo, para tornar a vida possível, a única vida que já me resta viver.

6.5.07

A mulher a dias

Ontem, dia de preguiça deliberada, ainda consegui arranjar tempo para iniciar a leitura de uma novela da Clarice Lispector que tem o título apelativo «Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres». Trata-se daquele livro em que parece que perdemos a página inicial, porque começa «, estando tão ocupada».
A vida deveria ser assim também, iniciar-se com uma vírgula e sobretudo não ter ponto final.
Trata-se da história de uma mulher que descobriu que «não tinha um dia-a-dia, mas sim uma vida-a-vida», e que não usava «perfumes que a contradiziam».
Como é possível que eu hoje, contradizendo-me, nem tempo tenha tido ou, pior do que isso, disposição haja encontrado para voltar para os braços da perfumada leitura, na minha noite-a-noite de trabalho forçado!

5.5.07

5/50

Aprendi uma lição de sabedoria, dada por quem a tinha recebido em miúdo: «se quiseres ganhar cinco, prepara-te para perder cinquenta». Gostava de saber a que aplica isto, mas sei, por experiência ganha e vida perdida que se aplica a tudo, mesmo!

30.4.07

Viver a vida

A esta hora há gente a entrar para dentro dos cubículos voadores que são os aviões para não sei quantas horas de trabalho desconfortável para que outros viajem felizes, enfermeiros a suportar turnos nocturnos a tentar que a morte não vença, polícias a fazer giros de ronda para que os vizinhos durmam seguros. No meio disto, o incómodo, o monótono, o cansaço, não há moral para nos queixarmos. É só uma vida estúpida, há que vivê-la com estupidez.

29.4.07

Maneiras assimétricas

Zangado com o José Gomes Ferreira e comigo por isso irritado, encontro-o hoje, domingo de tarde, a prefaciar «O escritor confessa-se», que recomecei a ler, a cidade vazia de portugueses. Aquilino, é um lugar comum dizê-lo, brinca com a língua portuguesa, como alguém que às escuras se passeia, insone, por uma casa da qual conhece todos os escaninhos.
Hoje de manhã, surpreendi-me a desejar escrever aqui sobre cada uma das palavras que nele encontro e antes desconhecia ou nem supunha que pudessem sequer surgir-me assim nessa inesperada pragmática. «Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balacé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas», escreveu sobre o padre prefeito do seminário de Beja, por onde estiolou, famélico, a tonsura adiada.
Lê-se e com um amargo de boca, sabendo quanto piores estamos, admitimos que já não se escreve assim; pior, já não se vive uma vida que permita escrever assim; pior ainda, já quase nem há, «alimárias claudicantes» em que nos tornámos, quem consiga entender que a vida pode ser vista inteligentemente assim. Inútil o navegar, o português perdeu a inesperada assimetria, esparramaçado no lodaçal previsível da monotonia de maneiras.

28.4.07

O duplo

Hoje fui aos livros e vim para a casa com a alegria na forma de sacos em plástico atulhados de alfarrábios. Ando a reconstituir a obra completa do José Gomes Ferreira de que julgava, erradamente, já só me faltar a poesia. Foi, por isso, com o contentamento de quem descobre que há mais mundos do que os vividos, que encontrei, ainda editado em 1980, pela Moraes, «O Enigma da Árvore Enamorada». Pobre do momento breve que durou o sentir-me bem. Acabo de o ler, livro lamentável, banal, de uma escrita vulgar, indigna do seu autor e imposível de de ser sequer trabalho de militância política inteligente. Quando gosto de um escritor leio-lhe a obra toda, mesmo que seja para me irritar, como é o caso. Num breve escrito adjacente, de tipo auto-biográfico, o meu autor de hoje confessa que se formou ideologicamente conjugando «o marxismo-leninismo actual com o pensamento de Leonardo Coimbra e de Teixeira de Pacoaes». Talvez por isso me tenha cruzado, ao folhear a biografia que dele escreveu Alexandre Pinheiro Torres, seu familiar político, com o dito «só nunca fui uma coisa: eu próprio». Falava da duplicidade de José Gomes Ferreira, filho de Alexandre Ferreira, o pai da Universidade Livre (a primeira) e dos Inválidos do Comércio.

25.4.07

Refastelado na otomana

Cansado, esgotado e exausto, dia feriado é oportunidade para dormir impunemente, horas a fio. Acorda-se com a boca azeda das obrigações por cumprir, a cabeça pesada pelo agora como vai ser. No intervalo fui ao IKEA comprar uma cadeira para a secretária do meu rapaz. Estonteados entre as filas volteantes de compradores, insectos alados hipnotizados pela luz do consumo, ali um organizado casal media rígidas estantes para os livros encadernados do Círculo, aqui umas desajeitadas jovens apalpavam fofas almofadas para espalharmos pelo chão, diziam, ao fundo da loja, refastelava-se uma avózinha em otomanas para da marquise se fazer mais um quarto, quando vierem os netos a visitá-la.
Aos tropeções, vivi a tragédia adolescente do candeeiro com ou sem luz e halogénio. A meu lado, uma quarentona e muito, mamã tardia, perguntava-me qual a diferença entre dois focos para mesinha de cabeceira. «Acho que são iguais», respondi-lhe por não conseguir acertar na diferença. «Não faz mal, vai este, que, para o que é, tanto serve», retorquiu-me, pegando num a esmo.
Foi aí que vim dormir até às cinco. Como é para esquecer, tanto serve também.

24.4.07

Comigo

Hoje eram cinco a manhã e já andava pelas ruas, dormidas poucas horas e pelas nove em Setúbal, na livraria «Novo Mundo», e procurar, para um amigo, o último «Cartas ao Léu», mais um exemplar da epistolografia do Luiz Pacheco. Amigável, o livreiro disse-me que aquela edição está a acabar, aquele era o último exemplar que lhe restava. Agora, depois de um dia de servidão, são onze da noite e estou a cair de cansaço, a tentar folhear uns livros que comprei entretanto em Matozinhos. Um deles, cuidadosamente encadernado são os versos do Manuel Laranjeira. Agora reparei que no dia dezassete de Janeiro do ano passado tinha escrito sobre ambos, o Pacheco e o Laranjeira. Com a passagem do tempo, esqueci-me, e bem assim que o autor dos versos que agora me acompanham se matou com um tiro na cabeça aos trinta e quatro anos de idade. O livro de versos chama-se «Comigo, versos de um solitário», o último dos poemas «A morte». Trágicamente premonitório e talvez ninguém tivesse reparado.

23.4.07

A sensação amável

Este fim de semana estive em Matozinhos, entre escritores e outros artistas. Foi um refrescamento amigável, ver quem são os que escrevem a escrita com que viajamos pelo mundo do sonho, do consolo e da fantasia. O encontro era precisamente dedicado à Literatura e Viagens.
Ao ter descoberto que tinha dado aulas, no longínquo ano de 1976 e na Faculdade de Direito de Lisboa, sem me lembrar já disso, ao Germano de Almeida, não só me surgiu o ímpeto de ler mais livros dele do que os que já li; veio, lenta e difusamente, a sensação reconfortante de que ainda tenho um mundo inteiro para viver, o das coisas que eu não sabia, não recordava ou a que não tinha dado importância. Viajemos pois!

11.4.07

Um só palavra

Reinaldo de Azevedo e Silva Ferreira, o repórter X, que morreu no dia quatro de Outubro de mil novecentos e trinta e cinco confessou, numa crónica ao jornal «O Diabo», então dirigido por Ferreira de Castro, o seu embaraço ao sentir-se «acartazado» em romancista policial.
Há muitas palavras que eu nem sabia que existiam na língua portuguesa, outras que se calhar nem existem mesmo: «acartazado» é uma delas.
Esta descobri-a, hoje de tarde, num consultório médico, ao ler o livro número setecentos da Colecção Vampiro, dedicada aos mestres da literatura policial, que amigavelmente publica, nesta sua edição comemorativa, as «Memórias de um chauffer de táxi».
Claro que se eu tivesse lido «A Estilística da Língua Portuguesa», de Manuel Rodrigues Lapa, já saberia que «numa simples palavra se pode resumir todo o universo». A ter de escolher, resumiria tudo num «obrigado», a tudo, a todos, a ti, mesmo à Colecção Vampiro, minha companhia de angústia.

9.4.07

O corpo e o muro

Em Outubro de 1968, andava eu já pela Faculdade, ofereceste-me o teu primeiro livro de versos, «O Corpo e o Muro». Estudámos ambos o possível no Liceu, íamos esperar, pacientes, a camioneta dos jornais que nos chegava de Lisboa e passeávamos, horas a fio, pelas ruas desertas de Viseu, conversando intermináveis palavras de inesgotáveis assuntos. Foi graças a ti que encontrei na literatura o sentimento, nos livros as ideias, no ler um sentido para a vida solitária e desnorteada.
Hoje, Luís Miranda Rocha, disseram-me que tinhas morrido. Há séculos que não sabia de ti. Agora que finalmente soube, a tristeza afundou-se em mim, o mundo mais vazio, a juventude envelhecida.
Hoje à noite, devolvido ao meu trivial prosaico, lembro-te um verso, o momento da despedida: «Digo-te adeus adeus e digo-te adeus a ti e é como se dissesse adeus também a isto tudo a esta cidade donde me vou e onde ficas».
Estamos a ficar sem amigos, uns porque morrem, outros porque se desiludem de nós. Um destes dias, os que sobejamos, deixamos de fazer falta a este mundo e marcamos encontro na cidade para onde vais.

7.4.07

O tempo e a volta

A propósito do livro que o médico Alfredo Ribeiro dos Santos dedicou a Leonardo Coimbra, Jesué Pinharanda Gomes escreve, em prefácio: «a perda de tempo é propriedade de Lisboa, que é, em si mesma, um puro tempo perdido». Lembro-me disto, felizmente ainda a tempo, neste momento em que estou a pensar ir dar uma volta, talvez a São Pedro de Moel, a terra de Afonso Lopes Vieira, para a leitura de cujo Amadis de Gaula ainda não consegui encontrar tempo, talvez por viver em Lisboa.

6.4.07

O ser exibicionista

Eu não sei se cheguei a dizer aqui que li o «Calçada do Sol», o pequeno livro biográfico que o José Gomes Ferreira escreveu sobre a sua meninice ou se cheguei a dizer que ainda o não devolvi à estante. Nada disto, fazendo parte do meu íntimo doméstico teria importância não fosse uma circunstância, o estar lá escrito «odiava esse ser exibicionista, mas nunca logrei estrangulá-lo» e a frase perseguir-me como se dissesse «cala-te e pára lá de te lamuriar em público». Hoje o livro regressa para junto dos outros, os definitivamente lidos, que eu quero sossego comigo e paz com os outros.

5.4.07

A sombra

De quando em vez uma pessoa perde-se. Quando dá por si anda por aí, sem rumo, com a ideia de que deveria ter outra vida a seguir àquela em que se vai esgotando.
Os meus pontos de referência são os livros que vou acumulando sem ler e mais os que vão ficando lidos até metade.
Esta noite, envergonhado enfim de tanta ausência, peguei no «Tempo Escandinavo», o livro que José Gomes Ferreira escreveu por causa da circunstância de, aborrecido com o Direito, ter sido cônsul na Noruega.
O exemplar que tenho encontrei numa alfarrabista em Campo de Ourique, chamada Crisálida - de que já falei aqui - e ainda é na edição da defunta Portugália, de Agostinho Fernandes esse mecenas que o ganhava nas conservas de peixe para o afundar no mar da cultura.
Folheei-o, uns contos pelo meio à espera de mim, outros já sublinhados, pois que lidos já nem sei há quanto tempo.
É um livro macio de sensualidade, não a do amor ginástico e secreto, mas o de «um turbilhão de bocas vivas», «com unhas nas palavras e nos silêncios».
Foi lá que vi que os portugueses se convencem «que possuem o segredo de embebedar as mulheres com palavras».
Livro magnífico, narrativa de solidão e amor efémero em que «a sombra tem carne feminina», prometo continuar com ele, mas não hoje, compreende-se!

25.3.07

A hora perdida

Isto de mal ler jornais e nem ver televisão, para já não falar no ouvir rádio, qu raramente ligo, passando agora os dias a escrever, tem de acabar. Hoje acordei e já tinha passado uma hora sem eu ter dado conta. Ainda por cima é o dia do meu aniversário. Fiquei de repente, com essa hora perdida, mais velho sem ter dado conta.