14.7.07

O hóspede

Ter tantos sítios onde se pode escrever, não quer dizer que se escreva. Às vezes é a falta de tempo, outras a de paciência, muitas vezes o querer falar pelo silênciao.
Ainda por cima um ser humano não se esgota numa profissão, numa militância cívica, mesmo numa vivência filosófica. Sobeja às vezes pessoa dentro do indivíduo.
Aconteceu assim.
Estou, em intervalo do meu viver, num magnífico lugar, casa antiga que hoje sobrevive à conta do turismo de habitação. Casa de memórias acumuladas e poupadas, casa de delicadeza sóbria, de vida experimentada. Local de enamoramento de um casal que a vida não separou. Casal onde se lembram os dias dos aniversários natalícios, dos casamento, as datas da formatura, de nascimento dos filhos e do baptismo dos netos.
Acordo e sinto o passado como se presente estivesse e pesa-me então a lástima do que é uma vida desagregada, um hópede que adopta o calor de uma família alheia, os ecos dos seus risos, a sua angústia ante o futuro, como se fossem os seus, à falta de mais alguém.

23.6.07

Os meus livros

«Para qualquer pessoa em isolamento, que não fala por não ter com quem falar, os livros, se sabe ler, tornam-se companheiros, amigos carinhosos, com quem de boa vontade se trocam impressões. Por isso eu quero os meus». A frase é de Wenceslau de Morais, escrita no seu «viver de exílio». Leio-a, regressado à grande metrópole onde vivo, povoado de criaturas com quem é possível, em teoria, falar-se. Leio-a uma vez mais, o livro encontrado entre os meus livros, amigos carinhosos, que não antecipam na sua cabeça a nossa partida e esperam, impacientes, a sua vez.
O cão de Tokushima, soube ao continuar a leitura, «desconhece o uso das festas e das carícias; se as recebe por acaso, não sabe retribuí-las; quer comer não quer festas». É assim, entre o rosnar do mundo dos homens e os livros. «Por isso eu quero os meus», por isso eis-me entre eles, de boa vontade.

22.6.07

O Diabo encarniçado

Saí deste jantar com a urgente necessidade de vir confirmar quão biográfico seria, como dizia ser, o livro de quem escreveu «O Físico Prodigioso». Encontrei-o e logo nele o excerto que, hesitante, em tempos sublinhara, quando o cavaleiro, «num gemido ansioso abraçou-se ao espaço, voltou-se e rolou, e entregou-se ao Demónio, que fez dele o que quis, e a quem ele fez quanto ele desejou». É Jorge de Sena, o Diabo encarniçado em vão.

16.6.07

O homem que se reduzira a si.

Hoje é um dia em que a Natureza resolveu que chovesse. Dei por isso quando estava já na rua, um livro para continuar a ler. Li, a «A Hora de Estrela», da Clarice Lispector, que prossigo, maravilhado com ela e por sua escrita seduzido.
Na história, Macabea conheceu Olímpico de Jesus, metalúrgico. Ela seca de carnes, encardida e de «cheiro murrinhento», dorida por ser feia.
Namoram sem se amarem, indispondo-se até ao silêncio.
Na hora de se separarem, tentando ser amável e não a ofender, ele diz-lhe: «você é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer». Ela, «rindo por não se lembrar de chorar», pediu-lhe que lhe dissesse logo adeus, abreviando o fim.
É uma história triste, de amores desencontrados com gente vulgar.
Na parte em que estou surge Glória, um «estardalhadaço de existir», a quem ele se agarra com «a força de um zangão», porque «ela lhe daria mel de abelhas e carnes fartas».
Clarice Lispector faleceu a um dia de fazer cinquenta e sete anos de idade, vítima de um cancro fulminante. Este livro escreve-o como se fosse o homem que «reduzira-se a si». Nascida na Ucrânia, escrevia para não morrer.

13.6.07

Dormir até o nunca

Voltei a ela, agora num seu livro de há trinta anos, «A Hora da Estrela». Mulher a fingir narrativa de homem trai-se quando conhece «adjectivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de acção». Conheci a Clarice Lispector, através do Vergílio Ferreira. Foi ele quem, já morto, ma apresentou, ela já morta também, através de um dos seus livros, o neurótico diário do seu ensimesmamento angustiado em que me reconheço.
Hoje é esta mulher ausente quem me fez companhia, dia feriado, eu com os sonos trocados, estirado num sofá, amaciando-me literariamente o ser áspero e rabujento. A sua personagem, insignificante dactilógrafa e só, «para adormecer nas frígidas noites de Inverno enroscava-se em si mesma, recebendo-se e dando-se o próprio parco calor».
Lê-se isto e apetece parar o mundo em sua translação, para que o tempo não siga, em sua rotação para que a noite não chegue e com ela o «dormir até o nunca».

8.6.07

Se eu soubesse

«Não durmas, quando não a noite acaba». Está num livro do João Miguel Fernandes Jorge, que hoje trouxe da magra Feira do Livro. Editado há sete anos chama-se «No Verão é melhor um conto triste». No pórtico está, como se gravada a ouro, uma lição de vida: «se eu soubesse - é a frase mais inútil que conheço». Se eu soubesse como é o fim do dia, tinha acordado na hora de adormecer.

2.6.07

A invenção dos dias

Muitos dos livros que o José Gomes Ferreira escreveu são auto-biográficos. Um deles chama-se «A Imitação dos Dias». O meu exemplar, que é o da edição da Portugália, largou já a capa, por causa de eu o ler repetidamente. Maníaco como sou do mundo ordenado, talvez por viver em desordem permanente, a partir desse momento, tem sido como se o sentisse rasgado em dois, a capa um dos seus segmentos de corpo, agora amputado e dividido. Por isso, irado comigo, não tenho sido capaz de lhe pegar, nem sequer, de si condoído, de olhar para ele. Muitas vezes escondo-o no meio da pilha de livros que vou amontoando ao lado da minha cama, para o poupar à vergonha da sua condição de mutilado.
Esta manhã, devolvido ao mundo com um acordar pastoso como o de uma ressaca, li-lhe o momento em que o António Ribeiro de Pavia, vivendo de desenhar para matar a fome, «com a barriga vazia, nas noites sem amor, pôs-se a inventar mulheres nuas no papel».

1.6.07

Fiambre da perna

Criticando, para o jornal «Público», o livro de contos que escrevi, Pedro Mexia diz que «Barreiros cai demasiadas vezes no excesso de adjectivos, na inversão desnecessária de frases, nos arroubos poéticos invariavelmente falhados ou nas frases estropiadas ou gordurosas». É uma opinião, expressa numa pequena frase com seis adjectivos deprimentes. Só houve uma parte da crítica de que não gostei, a das «frases gordurosas».
Não é que o livro seja de bolso, mas vá que alguém o leve junto ao fato, a obra a escorrer gordurosa, pingue de banha, como se de um embrulho de toucinho ou de um pacote de torresmos se tratasse.
Peço, por isso, licença, para me defender: o livro não é seco de carnes, mas não é tão adiposo como Pedro Mexia o julga.

30.5.07

A agonia do real

Quando uma nave espacial reentra na atmosfera sofre um choque que quase a destrói. Quando uma criança nasce do ventre de sua mãe, grita de dor, como se ao entrar-lhe o ar exterior nos pulmões, lhe entrasse o desejo de sufocar. Quando o mundo da ilusão reencontra o real, sente-se a vontade da loucura, porque ao menos aí a agonia é medicada. Há é claro sempre a solução de se partir de férias e com isso a esperança de que no regresso esteja já, enfim, tudo morto.

26.5.07

A herança da raça

Graças ao meu amigo, que está expatriado em Macau, estive hoje, um sábado com prometida chuva e surpreendente calor, com o Wenceslau de Moraes e um seu livro de paisagens escritas sobre a China e o Japão.
Wenceslau José de Sousa de Moraes, oficial de Marinha, fixou-se em Macau em 1889, transferindo-se definitivamente em 1898 para o Japão, onde viveria os últimos trinta e um anos da sua vida, sem mais regressar.
Ser delicado, qual sismógrafo capaz de registar a mais pequena vibração humana naquela terra de terramotos, deixou-nos páginas de inteligente e ardorosa visão sobre o Oriente «esfíngico e fatal», como lhe chamou Fernando Pessoa, local de exílio voluntário e de fuga redentora, a quem entregou a alma e que lhe recebeu os ossos.
Frequentemente sorumbático por natureza da alma, e erraticamente apaixonado por herança da raça, ele foi no Dai-Nippon, o «senhor Portugal».
Lembrei-me disto esta manhã, ao acordar cedo, os pássaros a cantar: «Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho permanente de sorrisos» escreveu ele, o que viu que «o riso é a linguagem mais em uso nesta terra». Assim eu.

23.5.07

A alma japonesa

Vivendo uma vida isolada, tenho muito poucos amigos. Um deles deixou-se ficar por Macau. É daqueles que compreendem quando não lhes aparecemos e respeitam o nosso exílio, poupando-nos à vergonha de ter de expor em público as nosas chagas. Mandou-me agora dois volumes da obra de Wenceslau de Moares, que está a ser ali editada, aguçando-me o apetite por ler tudo. Esta manhã em que, exaurido, permiti que a preguiça me desse descanso, li a contra-capa de um deles: Aprendi que não se beija uma japonesa, ainda que na face, sem a ofender, «mas poderás talvez beijar, sem que a musumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido».
Claro que, visto pelos olhos da contemporaneidade, pelo espírito prático dos dias de hoje, pela banalidade grotesca em que se tornou a subtileza, tudo isto é ridículo, mesmo eu, disto leitor, num dia como o de hoje, numa manhã como esta.

13.5.07

Andar com o janêro!

«Esta noite nã dí dormido nada!... – Atã perquém? – Os gatos andam p’aí com o janêro, era uma miada qu’a casa até tremia...». Descobri este português magnífico, antigo, viajando com insónias e sem ao menos uma maçã para entreter o dente e aquietar o corpo em sobressalto. Foi em Monchique, em «O Parente de Refóias». Glossário risonho, cheira a sol e a sul, o que a mim, ser bisonho e implicativo é como se fosse do outro lado do mundo da minha neurose, terra onde está sempre a chover.

11.5.07

A vida possível

Ouve-se aqui o amanhecer através do cantar dos pássaros e depois do gorgorejar da água das fontes. Lá em baixo uma cidade com as suas vulgaridades e com os seus recantos de reservada beleza. Preparado para esgotar mais um dia, trancado num sala e de tudo isolado, olho para o livro que trouxe expectante e que a meu lado espera ansioso que eu o leia. «Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível», ainda consegui ler ontem, já os olhos a fecharem-se, impossíveis. Clarice Lispector escreveu-o. Ama-se um mulher que só se conhece através do que escreveu. Eu sei que ela está morta. Guardo por isso esse segredo, para tornar a vida possível, a única vida que já me resta viver.

6.5.07

A mulher a dias

Ontem, dia de preguiça deliberada, ainda consegui arranjar tempo para iniciar a leitura de uma novela da Clarice Lispector que tem o título apelativo «Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres». Trata-se daquele livro em que parece que perdemos a página inicial, porque começa «, estando tão ocupada».
A vida deveria ser assim também, iniciar-se com uma vírgula e sobretudo não ter ponto final.
Trata-se da história de uma mulher que descobriu que «não tinha um dia-a-dia, mas sim uma vida-a-vida», e que não usava «perfumes que a contradiziam».
Como é possível que eu hoje, contradizendo-me, nem tempo tenha tido ou, pior do que isso, disposição haja encontrado para voltar para os braços da perfumada leitura, na minha noite-a-noite de trabalho forçado!

5.5.07

5/50

Aprendi uma lição de sabedoria, dada por quem a tinha recebido em miúdo: «se quiseres ganhar cinco, prepara-te para perder cinquenta». Gostava de saber a que aplica isto, mas sei, por experiência ganha e vida perdida que se aplica a tudo, mesmo!

30.4.07

Viver a vida

A esta hora há gente a entrar para dentro dos cubículos voadores que são os aviões para não sei quantas horas de trabalho desconfortável para que outros viajem felizes, enfermeiros a suportar turnos nocturnos a tentar que a morte não vença, polícias a fazer giros de ronda para que os vizinhos durmam seguros. No meio disto, o incómodo, o monótono, o cansaço, não há moral para nos queixarmos. É só uma vida estúpida, há que vivê-la com estupidez.

29.4.07

Maneiras assimétricas

Zangado com o José Gomes Ferreira e comigo por isso irritado, encontro-o hoje, domingo de tarde, a prefaciar «O escritor confessa-se», que recomecei a ler, a cidade vazia de portugueses. Aquilino, é um lugar comum dizê-lo, brinca com a língua portuguesa, como alguém que às escuras se passeia, insone, por uma casa da qual conhece todos os escaninhos.
Hoje de manhã, surpreendi-me a desejar escrever aqui sobre cada uma das palavras que nele encontro e antes desconhecia ou nem supunha que pudessem sequer surgir-me assim nessa inesperada pragmática. «Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balacé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas», escreveu sobre o padre prefeito do seminário de Beja, por onde estiolou, famélico, a tonsura adiada.
Lê-se e com um amargo de boca, sabendo quanto piores estamos, admitimos que já não se escreve assim; pior, já não se vive uma vida que permita escrever assim; pior ainda, já quase nem há, «alimárias claudicantes» em que nos tornámos, quem consiga entender que a vida pode ser vista inteligentemente assim. Inútil o navegar, o português perdeu a inesperada assimetria, esparramaçado no lodaçal previsível da monotonia de maneiras.

28.4.07

O duplo

Hoje fui aos livros e vim para a casa com a alegria na forma de sacos em plástico atulhados de alfarrábios. Ando a reconstituir a obra completa do José Gomes Ferreira de que julgava, erradamente, já só me faltar a poesia. Foi, por isso, com o contentamento de quem descobre que há mais mundos do que os vividos, que encontrei, ainda editado em 1980, pela Moraes, «O Enigma da Árvore Enamorada». Pobre do momento breve que durou o sentir-me bem. Acabo de o ler, livro lamentável, banal, de uma escrita vulgar, indigna do seu autor e imposível de de ser sequer trabalho de militância política inteligente. Quando gosto de um escritor leio-lhe a obra toda, mesmo que seja para me irritar, como é o caso. Num breve escrito adjacente, de tipo auto-biográfico, o meu autor de hoje confessa que se formou ideologicamente conjugando «o marxismo-leninismo actual com o pensamento de Leonardo Coimbra e de Teixeira de Pacoaes». Talvez por isso me tenha cruzado, ao folhear a biografia que dele escreveu Alexandre Pinheiro Torres, seu familiar político, com o dito «só nunca fui uma coisa: eu próprio». Falava da duplicidade de José Gomes Ferreira, filho de Alexandre Ferreira, o pai da Universidade Livre (a primeira) e dos Inválidos do Comércio.

25.4.07

Refastelado na otomana

Cansado, esgotado e exausto, dia feriado é oportunidade para dormir impunemente, horas a fio. Acorda-se com a boca azeda das obrigações por cumprir, a cabeça pesada pelo agora como vai ser. No intervalo fui ao IKEA comprar uma cadeira para a secretária do meu rapaz. Estonteados entre as filas volteantes de compradores, insectos alados hipnotizados pela luz do consumo, ali um organizado casal media rígidas estantes para os livros encadernados do Círculo, aqui umas desajeitadas jovens apalpavam fofas almofadas para espalharmos pelo chão, diziam, ao fundo da loja, refastelava-se uma avózinha em otomanas para da marquise se fazer mais um quarto, quando vierem os netos a visitá-la.
Aos tropeções, vivi a tragédia adolescente do candeeiro com ou sem luz e halogénio. A meu lado, uma quarentona e muito, mamã tardia, perguntava-me qual a diferença entre dois focos para mesinha de cabeceira. «Acho que são iguais», respondi-lhe por não conseguir acertar na diferença. «Não faz mal, vai este, que, para o que é, tanto serve», retorquiu-me, pegando num a esmo.
Foi aí que vim dormir até às cinco. Como é para esquecer, tanto serve também.

24.4.07

Comigo

Hoje eram cinco a manhã e já andava pelas ruas, dormidas poucas horas e pelas nove em Setúbal, na livraria «Novo Mundo», e procurar, para um amigo, o último «Cartas ao Léu», mais um exemplar da epistolografia do Luiz Pacheco. Amigável, o livreiro disse-me que aquela edição está a acabar, aquele era o último exemplar que lhe restava. Agora, depois de um dia de servidão, são onze da noite e estou a cair de cansaço, a tentar folhear uns livros que comprei entretanto em Matozinhos. Um deles, cuidadosamente encadernado são os versos do Manuel Laranjeira. Agora reparei que no dia dezassete de Janeiro do ano passado tinha escrito sobre ambos, o Pacheco e o Laranjeira. Com a passagem do tempo, esqueci-me, e bem assim que o autor dos versos que agora me acompanham se matou com um tiro na cabeça aos trinta e quatro anos de idade. O livro de versos chama-se «Comigo, versos de um solitário», o último dos poemas «A morte». Trágicamente premonitório e talvez ninguém tivesse reparado.

23.4.07

A sensação amável

Este fim de semana estive em Matozinhos, entre escritores e outros artistas. Foi um refrescamento amigável, ver quem são os que escrevem a escrita com que viajamos pelo mundo do sonho, do consolo e da fantasia. O encontro era precisamente dedicado à Literatura e Viagens.
Ao ter descoberto que tinha dado aulas, no longínquo ano de 1976 e na Faculdade de Direito de Lisboa, sem me lembrar já disso, ao Germano de Almeida, não só me surgiu o ímpeto de ler mais livros dele do que os que já li; veio, lenta e difusamente, a sensação reconfortante de que ainda tenho um mundo inteiro para viver, o das coisas que eu não sabia, não recordava ou a que não tinha dado importância. Viajemos pois!

11.4.07

Um só palavra

Reinaldo de Azevedo e Silva Ferreira, o repórter X, que morreu no dia quatro de Outubro de mil novecentos e trinta e cinco confessou, numa crónica ao jornal «O Diabo», então dirigido por Ferreira de Castro, o seu embaraço ao sentir-se «acartazado» em romancista policial.
Há muitas palavras que eu nem sabia que existiam na língua portuguesa, outras que se calhar nem existem mesmo: «acartazado» é uma delas.
Esta descobri-a, hoje de tarde, num consultório médico, ao ler o livro número setecentos da Colecção Vampiro, dedicada aos mestres da literatura policial, que amigavelmente publica, nesta sua edição comemorativa, as «Memórias de um chauffer de táxi».
Claro que se eu tivesse lido «A Estilística da Língua Portuguesa», de Manuel Rodrigues Lapa, já saberia que «numa simples palavra se pode resumir todo o universo». A ter de escolher, resumiria tudo num «obrigado», a tudo, a todos, a ti, mesmo à Colecção Vampiro, minha companhia de angústia.

9.4.07

O corpo e o muro

Em Outubro de 1968, andava eu já pela Faculdade, ofereceste-me o teu primeiro livro de versos, «O Corpo e o Muro». Estudámos ambos o possível no Liceu, íamos esperar, pacientes, a camioneta dos jornais que nos chegava de Lisboa e passeávamos, horas a fio, pelas ruas desertas de Viseu, conversando intermináveis palavras de inesgotáveis assuntos. Foi graças a ti que encontrei na literatura o sentimento, nos livros as ideias, no ler um sentido para a vida solitária e desnorteada.
Hoje, Luís Miranda Rocha, disseram-me que tinhas morrido. Há séculos que não sabia de ti. Agora que finalmente soube, a tristeza afundou-se em mim, o mundo mais vazio, a juventude envelhecida.
Hoje à noite, devolvido ao meu trivial prosaico, lembro-te um verso, o momento da despedida: «Digo-te adeus adeus e digo-te adeus a ti e é como se dissesse adeus também a isto tudo a esta cidade donde me vou e onde ficas».
Estamos a ficar sem amigos, uns porque morrem, outros porque se desiludem de nós. Um destes dias, os que sobejamos, deixamos de fazer falta a este mundo e marcamos encontro na cidade para onde vais.

7.4.07

O tempo e a volta

A propósito do livro que o médico Alfredo Ribeiro dos Santos dedicou a Leonardo Coimbra, Jesué Pinharanda Gomes escreve, em prefácio: «a perda de tempo é propriedade de Lisboa, que é, em si mesma, um puro tempo perdido». Lembro-me disto, felizmente ainda a tempo, neste momento em que estou a pensar ir dar uma volta, talvez a São Pedro de Moel, a terra de Afonso Lopes Vieira, para a leitura de cujo Amadis de Gaula ainda não consegui encontrar tempo, talvez por viver em Lisboa.

6.4.07

O ser exibicionista

Eu não sei se cheguei a dizer aqui que li o «Calçada do Sol», o pequeno livro biográfico que o José Gomes Ferreira escreveu sobre a sua meninice ou se cheguei a dizer que ainda o não devolvi à estante. Nada disto, fazendo parte do meu íntimo doméstico teria importância não fosse uma circunstância, o estar lá escrito «odiava esse ser exibicionista, mas nunca logrei estrangulá-lo» e a frase perseguir-me como se dissesse «cala-te e pára lá de te lamuriar em público». Hoje o livro regressa para junto dos outros, os definitivamente lidos, que eu quero sossego comigo e paz com os outros.

5.4.07

A sombra

De quando em vez uma pessoa perde-se. Quando dá por si anda por aí, sem rumo, com a ideia de que deveria ter outra vida a seguir àquela em que se vai esgotando.
Os meus pontos de referência são os livros que vou acumulando sem ler e mais os que vão ficando lidos até metade.
Esta noite, envergonhado enfim de tanta ausência, peguei no «Tempo Escandinavo», o livro que José Gomes Ferreira escreveu por causa da circunstância de, aborrecido com o Direito, ter sido cônsul na Noruega.
O exemplar que tenho encontrei numa alfarrabista em Campo de Ourique, chamada Crisálida - de que já falei aqui - e ainda é na edição da defunta Portugália, de Agostinho Fernandes esse mecenas que o ganhava nas conservas de peixe para o afundar no mar da cultura.
Folheei-o, uns contos pelo meio à espera de mim, outros já sublinhados, pois que lidos já nem sei há quanto tempo.
É um livro macio de sensualidade, não a do amor ginástico e secreto, mas o de «um turbilhão de bocas vivas», «com unhas nas palavras e nos silêncios».
Foi lá que vi que os portugueses se convencem «que possuem o segredo de embebedar as mulheres com palavras».
Livro magnífico, narrativa de solidão e amor efémero em que «a sombra tem carne feminina», prometo continuar com ele, mas não hoje, compreende-se!

25.3.07

A hora perdida

Isto de mal ler jornais e nem ver televisão, para já não falar no ouvir rádio, qu raramente ligo, passando agora os dias a escrever, tem de acabar. Hoje acordei e já tinha passado uma hora sem eu ter dado conta. Ainda por cima é o dia do meu aniversário. Fiquei de repente, com essa hora perdida, mais velho sem ter dado conta.

19.3.07

O dia do pai

Hoje é dia do pai. E eu, que tenho uma vida de filho e uma saúde de avô, corro o risco de não chegar a netos. Restam, é certo, as mulheres, de quem se é inocentemente filho e com quem se fazem maliciosamente filhos. Hoje é o dia de me lembrar disto tudo. Resta-me plantar uma árvore, porque livros já escrevi. Se for alta, ainda me penduro nela, não enforcado - cruzes ! - mas a fazer elevações e flexões abdominais até que, condoídos com a flacidez do que de mim sobeja, surjam no horizonte, uns quantos dos amigos que restam e me levem - salve-se a dignidade do que fui! - para o lar dos sem família dos órfãos e dos estéreis, a legião dos sem dia certo nem data a comemorar.

18.3.07

Confissões estúpidas de uma estupidez!

Não vejo televisão, agora quase nem leio jornais, tenho livros indispensáveis a meio, por ler, e outros, exigentes, a um terço, por escrever. Em alguns dias dou comigo inutilizado porque a tensão arterial resolveu disparar, sem eu compreender porquê, outros moído de dores que imagino serem reais, porque as sinto, imaginárias por já nem acreditar que tenham voltado. No meio de tudo isto deram-me ontem um convite para uma exposição sobre a vida e obra de Ruben A., na Fundação Gulbenkian. Descobri hoje, dia 18, ao lê-lo, que tudo foi no dia 15, no dia 16 e no dia 17. Nem sei em que vida estúpida estaria eu sufocado nesses dias que não fui a nada, nem que estupidez de vida me fez nem ter dado conta que isto estava a acontecer. Comprei, volume a volume, tudo o que ele escreveu; consegui mesmo encontrar a sua compilação dos arquivos da casa de Windsor e os novos arquivos da Casa de Windsor e mais os escritos sobre o D. Pedro V. Li-lhe o «Kaos» e hei-de ler a «Torre de Barbela». Num dos volumes do «Cores», porque, devido a um erro de encadernação tinha folhas repetidas em vez de folhas que ali faltavam, pintei a aguarelas o vulto de um «dandy» que nem sei quem é. Diga-se que eu não sei pintar a aguarelas. Não sei qual a estupidez que me faz não saber, mas de facto não sei. Coitado do Ruben A.: reunida que tenho a sua obra, lá lhe perdi a sua vida. Foi na Gulbenkian. Moro mesmo ao lado. Sou mesmo estúpido, reconheçam!

14.3.07

O preciso

Conheci um homem a quem tinham prometido, num momento difícil para si, mundos e fundos de apoio. Na hora da verdade, compreendeu que estava sozinho. Inteligente, deve ter percebido a minha perplexidade ante a sua tranquilidade compreensiva quando tudo ruía à sua volta e os amigos lhe faltavam. «Sabe, quando se precisa, não nos podemos zangar muito», disse-me, mansamente, como se não ensinasse uma regra sapiente da vida. Havia só uma coisa que ele, sábio como era, não sabia: não precisava!

10.3.07

O desejo de ler

Vim passar o fim-de-semana com a ucraniana Clarice Lispector, uma mulher extraordinária, que nos acorda, lendo-a, o sentimento e o desejo de a ler. Importa que eu explique, para que não haja equívocos que ela, uma mulher que escrevia para se manter viva, faleceu em 1977, depois de uma vida em grande parte esgotada no Brasil. Li algures que teria mau feitio e repentes de veemência exaltada, mas, como ela sabia «ninguém se lembra de que os elefantes, de acordo com os estudiosos, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas».

8.3.07

Volta meu cavalo alazão

Eu que levo a vida a rir, só vejo gente triste à minha volta! Pensei nisto e nisto penso em cada hora de sorriso em cada noite de gargalhada.
Ó vós, gentes de cenho carregado, alma sorumbática, que sois musgo nas paredes da vossa alma! Acordai, escancarando-as, de par em par, as janelas do entendimento e percebei, enfim! Façam como eu: rir, rir até mais não! Mas atenção, riam-se de vós e do que parecem. Cavaleiros da triste figura, apeados de montada, escoicinhai nos desgostos passados e parti, esporeando o corcel da vida presente, à desfilada, montanha abaixo, rumo futuro para a terra do nunca, sulcando-as, pedregosas, as veredas do Destino!
Vereis que vale a pena. Para quem não tiver arcaboiço poético, há a Feira Popular, julgo eu, ou até essa, lunapark barato dos sem eira nem beira dos sentimentos fortes, também já desapareceu?

4.3.07

Tempo afectuoso

O Francisco da Conceição Espadinha, da Presença, editou agora um livro de homenagem ao António Alçada Baptista. Tinha-o visto na montra da Bertrand da Avenida de Roma, à noite, mas a livraria estava fechada. Procurei-o, alvoroçado, ainda essa noite na Barata, logo ao lado, mas tinham-se-lhes esgotado os poucos que tinham. Esqueci-me, entretanto. Ontem, na Bertrand do CCB, lá estava à minha espera, para me animar a alma maltratada.
A história do homenageado é conhecida: advogado, fartou-se da advocacia; com o dinheiros de umas heranças, comprou a livraria Moraes, que editava livros de Direito, mas fê-la rumar a outras paragens editoriais, pelas enseadas do pensamento, nos baixios da cultura, notabilizando-a mesmo no mar encapelado da poesia.
Alçada Baptista arruinar-se-ia trazendo para a vida portuguesa obras de pouca leitura, custeando «O Tempo e o Modo», a «Concilium» e tanta outra iniciativa sua e de outros do «humanismo cristão», aqueles a quem João Bénard da Costa chamou num pequeno livrinho de memória, «nós os vencidos do catolicismo».
Ontem ainda, entre a tarde e a noite, consegui ler o livro, para adormecer, já de madrugada com a incómoda sensação de como um homem pode ser descrito mas tantas vezes exilado pelos que dele não estão próximos. Alguns dos que ali escrevem e que tão próximos estiveram, é vergonha que tão distantes pareçam ter estado, a escrita seca, as palavras de palha, frases de panegírico obituário, mesmo historietas banais com que se decidiram sem remorso a colaborar.
É nisso que entendimento não contábil com o mundo», referido por Leonor Xavier, na sua contribuição, me fez sentido, por recortar o biografado, pela diferença, no mundo dos outros.
Acordei hoje para vir dizer isto aqui, com uma tristeza na alma vinda do que li num livro que se chama «Tempo Afectuoso».O António Alçada Baptista, porque é um bom homem, calculo, esteja contente, forma social de se parecer feliz. Eu vou ler o que me falta dos livros dele.

3.3.07

Uma vida debalde

Como todos os defectivos sentimentais, Fernando Pessoa era um esfaimado por afectos. Numa das suas cartas a Ofélia Queiroz lamentava-se, tristonho: «merecia ser mais bem tratado pelo Destino do que estou sendo - pelo Destino e pelas pessoas».
Mas é pela ironia amarga que Nogueira Pessoa - como lhe chama o meu amigo que é sábio - melhor exprime a amargura solitária da sua alma enganadoramente múltipla.
Foi em cinco de Abril de mil novecentos e vinte, numa carta ao seu «bébé pequeno e rabino», já depois de bebida, sozinho, meia garrafa de Porto: «adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo, para descansar o espírito; Assim fazem todos os grandes homens - pelo menos quando têm - 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça».

Ridícula talvez, de amor seguramente, esta carta, a pedir ao tempo que passe e a ela que soubesse ao menos como amá-lo.

P. S. Já tinha escrito isto hoje ao começo da manhã quando li no livrinho «Aspectos críticos da língua portuguesa», de Sandra Duarte Tavares, leitura de sábado, obra minúscula que cabe num canto da pasta, que não existem na língua portuguesa palavras que contenham dois acentos, pelo que se escreve «bebé» e não «bébé». Atenção, porém! O «til», explica-se no mesmo trabalho, não é um acento gráfico mas uma marca de nasalidade, indicando ditongos ou mesmo só vogais anasaladas e por isso mesmo se escreve «bênção» e não «benção». Abençoada língua esta em que, por melhor que se tente, se está sempre errado, mesmo que seja a falar da Ofélia «Queiroz» ou será «Queirós»?!

1.3.07

De que cor é sentir?

Interrompi de novo a leitura do livro sobre O'Neill, porque vi, já tardiamente, um livro com cartas do Fernando Pessoa, escritas entre 1916 e 1925. São textos breves, dos que se lêm antes de adormecer e que por vezes nos tiram o sono. Logo a primeira, escrita a Mário de Sá-Carneiro, no dia 14 de Março, às nove horas e dez da noite: «estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há um presente imóvel com um muro de angústia em torno». Eu nem sei o que diga quando leio esta imensão de ser numa frase só.

24.2.07

O leitor incessante

Isto de eu vir aqui falar dos livros que ando a ler tem talvez a ver com a vontade de que os os outros os leiam também. Claro que há nisto uma tripla vaidade, digo para os que nas condutas alheias só encontram o lado pérfido, raramente o sincero: primeiro, é eu supor que há quem me leia, segundo, o pensar que se interessam pelo que eu leio, terceiro, julgar que há interesse no que eu digo ter lido.
Acordei esta manhã a pensar nisto mesmo, pois consegui acabar a leitura do breve manuscrito de George Agostinho Baptista da Silva que devido ao cuidado amigo de Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho foi recuperado do espólio do mestre.
O que aprendi eu ao ter lido? Por um lado, aquelas coisas pequenas que ou se esquecem de vez ou brilham, fugazes, em conversas ao jantar, fazendo os outros pensar que somos gente culta, quando apenas um sótão de minudências espantosas: por exemplo, que ao referir-se uma coisa de São Salvador da Baía se diz «soteropolitano», vá lá saber-se porquê, e que Barca d'Alva provém de Barca de Este e que assim se chamou até ao século dezasseis, o que faz sentido pois é de leste que nos vem o sol.
Mas o que tornou este pequeno livrinho uma fonte de pensamento, raiz daqueles momentos agónicos ao passar pelos quais não voltamos a ser como éramos, são aqueles surpreendentes acasos de escrita como os que aqui ficam hoje sábado, dia de preguiça e de rebeldia contra o fazer quotidiano.
Li, perplexo pois, num círculo infinito de pensar, que num mundo que «recua ao nada», «se eu pudesse voar do além para o aquém, jamais veria o princípio do mundo, mas ele todo já sendo».
Percebi com a minha cabeça dispersa, depois, rememorando o pessoano «tudo é o que é e assim é que é» que «os sentidos comuns de inventar ou descobrir são abusivos: tudo já estava».
Comovi-me no meu coração maltratado, a propósito da Maria da Ponte, guarda da linha do Minho e Douro, que há Homens «alguns tão bons que mereciam ter sido animal, papoula ou árvore, mas em mundo em que não houvesse homens, para que os não domesticassem, nem colhessem, nem podassem».
Prometi-me, enfim, com a minha vontade incerta, não ser mais como aquelas pessoas que «dão-se a melancolias e abandonos que os desviam de se cumprir o que são, como portugueses e como cidadãos do mundo ao mundo dados».
Como já notou quem me lê, se me lê e se gosta do que lê, eu há muito que não escrevo por ter descoberto nada haver mais para dizer. Leio, leio, incessantemente, escrevendo nos livros dos outros o que eles neles escreveram e dizendo-me, ruminante e conformado, o «é isto mesmo», fonte de todo o silêncio, mãe de todo o saber.

22.2.07

A vida obrigatória

Diz-se dos amores inesperados que se anda neles «embrulhado». Ora eu, infiel ou talvez inconstante, interrompi a leitura do livro com que andava repito «embrulhado», porque encontrei numa livraria em Setúbal um livro do Agostinho da Silva, o «Caderno de Lembranças». O livreiro era amigo do professor e tem dele, por isso, uma fotografia do filósofo errante não consigo, mas com o seu filho mais miúdo. Pequeno, o livro é um convite para que o tenhamos como companhia num intervalo da vida obrigatória e foi nele que vi que teria valido a pena viver «tendo à volta uma muralha de livros tão alta quanto possível, para que me escondesse bem da vida que por aí vai». Por mim, comecei já a reunir primeira fieira de pedregulhos livrescos, em torno da cama, barricando-me nela.

21.2.07

A biblioteca itinerante n.º 17

Ao ter lido, durante este fim de tarde, mais umas folhas da biografia do Alexandre O'Neill, fiquei a saber que, em certo momento de aperto financeiro, ele foi empregado em uma das carrinhas das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, no caso naquela que fazia o percurso pela zona de Sacavém e Loures. O Herberto Helder também por ali andou, ganhando para poder escrever.
Lembrei-me então da minha adolescência em Abravezes, perto de Viseu. Morava ao lado do cemitério. Entre esse lugar de plantação de falecidos e a «tasca do Zé da Bucha» ficava a igreja e o seu invisível cura; mais abaixo a mercearia da Cilinha, que tinha um cão paralítico por ter sido atropelado! De quando em vez, quebrando a monotonia do lugar, lá vinha a carrinha da Fundação, atulhada com livros, para empréstimo domiciliário. Li, com catroze anos, as coisas mais inacreditáveis para a minha idade, como um livro do Husserl de que compreendi nada e de que nem o nome me ficou. Terá sido então que me caíu nas mãos o «Rumor Branco» do Almeida Faria, que me transtornou a cabeça em matéria de literatura. Esta madrugada, em vez de estar a dormir, ou agarrado à minha profissão, estou aqui a lembrar-me disto, como se numa noctívaga fenomenologia do espírito.

20.2.07

O café dos livros abandonados

Estive hoje a olhar para eles: uns lidos até metade, outros à espera que eu os leia. Poucos, muito poucos, aqueles que nunca lerei. O Jorge Luís Borges metia em sacos os livros de que se queria ver livre e abandonava-os, como se perdidos, nos cafés. Claro que muitas vezes lhe acontecia aparecer-lhe o empregado do café, solícito, a devolver-lhe os livros, pensando que, distraído, se tinha esquecido deles. Como se sabe o Borges ficou progressivamente cego e imagino que esta cena sucederia na altura em que ainda conseguiria ler alguma coisa. Comigo, sou eu o empregado do meu café dos livros abandonados. Hoje apareci-me [este verbo tem de ter, para que eu seja feliz, a forma reflexa, diga o que disser a gramática!] com o João Miguel Fernandes Jorge e o seu livro de poesia «Termo de Óbidos». Tinha-o lido, como tantas vezes faço, de trás para a frente, sublinhando aqui e além. A última linha anotada dizia as «letras impressas guardam para nós a escrita».

18.2.07

O medo de me surpreender

Trouxe-a para casa, à biografia do Alexandre O'Neill. A biógrafa nasceu em Viseu, onde, vindo de África, eu nasci interiormente. Comecei ontem a leitura, embriagado naquela vida de boémia desconchavada, um sibarita entre tabernas e alfurjas, o prego e os calotes como modos de resistir. No meio de tudo isto, a recusa do modo funcionário de viver. O'Neill morreu no dia 21 de Agosto de 1986, um dia encalorado. Tempos antes, ressacado de dor, dissera numa entrevista que a morte é uma fuga definitiva a todas as chatices. Hoje é domingo, faz sol, e cá continuo, vivo, a ler. «Quem se destrói, não cansa». Pois não. Tal como ele e os outros escreveram para dizer porque eram surrealistas, perdi o medo de me surpreender.

21.1.07

Alucinado

Hoje andei a entregar cartas. É bom isto, o fazer de paquete, e saber assim onde são as portas e quem as abre. Nada como o trabalho braçal para que os intelectuais saibam quanto custa a vida ao povo, dizia o presidente Mao. Foi por isso que dei com ele, a farda cinzenta de segurança, uma barba a revelar cansaço, dentro do seu casinhoto, conformado, neste entardecer de domingo, fumando, tranquilo, o seu cachimbo. Lembrei-me da lagarta do Alice no País das Maravilhas, lançando ondas multicolores do seu hookah, numa antecipação psicadélica com que a mente genial de Walt Disney enriqueceu o primitivo desenho de John Tenniel. Lembram-se da história: metade do cogumelo fazia crescer, a outra metade encolher. No caso dele, estava do lado menor da vida, recebendo cartas, entre fumos de resignação.

18.1.07

A próxima vez

O senhor Artur estrebuchava, aflito, os seus oitenta e tal anos tornados naquele escanzelado corpo, em convulsões. Entubado, a respirar artificialmente, monitorado em todos os sinais vitais, ei-lo qual peixe moribundo em busca de ar. Nervosa a máquina de vigilância gritava como uma sirene de bombeiros, a luz vermelha piscava insistente. «Tenham calma, tenham calma, que ele aguenta-se», comandava um médico, no que parecia a antevisão do improvável, tais eram os gritos da máquina, o chiar, trepidante, da maca, os ossos, trémulos, num feixe de dor. «Senhor Artur, senhor Artur», chamava-o, crispada, a enfermeira, a voz da própria vida a reclamá-lo. Lentamente, o senhor Artur, parou de tiritar. Abriu de súbito os olhos como se surpreendido com todos e de todos ausente. Regressara até nós, e ficaria connosco à espera da próxima vez. Feliz comigo, dei-me alta. Cá fora o mundo pareceu-me um pouco melhor.

12.1.07

Alma comburente

Começo a suspeitar que há por aí uma Natureza demoníaca e viral que se tenta apoderar dos corpos melancólicos e se diverte a esfacelá-los. Amassa-lhes a ossada, para que acordem bem moídos com a pancada que deviam ter levado por conta dos pecados ainda impunes, faz-lhes chegar a noite a tiritar sem ter febre. Um tipo mesmo com bonomia na alma e humor não bilioso não se salva. Hoje acho que consegui escapar, fugindo para a rua, quase em pijama. Em frente a mim um casal de namorados beijava-se, febril. Eis uma forma de se ter saúde, o corpo animado em combustão!

6.1.07

O legado de Hemingway

O médico chegou-me, enfim, na forma de um livro. Ireneu Cruz, médico gastrenterologista, escreveu um estudo sobre a morte, por suicídio, de Ernest Hemingway. O autor de «O Velho e o Mar» e controverso prémo Nobel da Literatura, teve um final de vida decadente, a sua estrutura física minada pelos excessos de vida, o seu psiquismo possuído pelo desejo libertador de morte. Perdida aos poucos a memória, incapaz de escrever, Hemingway viveu a longa agonia de um sofrimento atroz, até que um dia, com um tiro de caçadeira se restituiu à paz. Numa das suas cartas confessou sentir-se perseguido por um esgotamento nervoso assassino.
Neste seu estudo o ilustre médico pergunta-se, entre outras coisas, se não teria sido o tratamento que lhe foi instituído para debelar a hipertensão a causa da depressão que o liquidou.
Interessante exercício necrológico, autópsia sobre a morte surpreendente, eis a medicina que salva, a medicina que mata.
O livro chama-se «Hemingway, o seu último legado». O legado, a sua dádiva, teria sido morrer, pois ante isso «redobrou-se a atenção clínica para uma mais cuidadosa avaliação e prevenção dos efeitos colaterais dos fármacos» usados no seu caso. Em nome dos que ainda não fomos mortos pela cura, obrigado, pois, «Papá».

3.1.07

Tussa pois!

Aquela anedota do Raúl Solnado do sujeito que vai ao médico e este lhe diz «tussa» e ele tosse, ao que o médico repete «tussa outra vez» e ele de novo tosse, ao que o médico, enfim, lhe diagnostica «o seu mal é tosse», eu vou mandar encaixilhá-la como o diagnóstico por antonomásia. No mais, descobri outra coisa: o nosso organismo tem uma capacidade inata de se curar, mesmo sem remédios, sobretudo sem eles. Às vezes morre-se da cura, ou do esforço de tossir. Mas é, como diria, mais ecológico e, ao menos nisso, estamos com o politicamemte correcto! Tussa, pois!

1.1.07

Só pode ser no gozo!

Primeiro dia do ano, segunda-feira. Normalmente é a altura de se prometerem coisas novas, normalmente a nós próprios, assim mesmo sem grande convicção e prudentemente sem testemunhas. Desta vez resolvi prometer que na próxima incarnação vou ser feliz. Nesta já não tenho tempo a não ser para tentar ainda, se possível, viver contente.
Prometido que está, vou tentar começar na próxima semana: nesta bem gostaria de me iniciar no contentamento, mas para além das adversidades, contratempos e má catadura, há os outros, os que acham que agora é a vez deles gozarem a vida e, claro, nesta vida não há gozo que chegue para tantos!

28.12.06

Fé em Deus e talvez uma aspirina!

Encontrei-a, vinha de um médico, atormentado com o descobrir afinal que doença é esta que me roubou as energias e a vontade de as recuperar: era a biografia do jesuíta Padre Vaz Pinto. Estou a lê-la esta noite. Se é possível formar uma opinião ao ter lido apenas cento e quarenta páginas de quatrocentas e trinta e poucas que a obra tem, aqui vai: acho o livro superficial onde ele se esperava profundo, vulgar onde deveria ter sido complexo.
Não falo do mundo «coquette» que se revê em tantas daquelas páginas e que nelas é chamado nominalmente, para o qual a frase «Deus fez-se homem para que o homem se fizesse Deus» deve dar um travo de glória divina momentânea num quotidiano trivial de mundanidades que uma missa domingueira beatifica.
Falo sim do problema existencial de uma vocação, a explicação da mística que leva um finalista de Direito, com 22 anos, em 1965, a entrar no duro Noviciado da Companhia de Jesus e no mais que se lhe segue segundo a formação delienada por Santo Inácio de Loyola. Lê-se o livro e não há uma chama que convença, uma razão que se imponha, um apelo que se faça entender.
Mais! Como era de esperar de quem diz que na hora de entrar «ia morrendo por dentro, ia-me despedindo dolorosamente de todos e de tudo, como se uma vida de que tanto gostasse desparecesse como o Sol, lenta mas inexoravelmente no horizonte», surge-lhe logo, ante os horrores do mundo, a crise de fé, a dúvida sobre a Omnipotência ou a Suprema Bondade daquele Deus que jurou servir.
É aí que o livro supreende e desanima. Vaz Pinto, padre, filósofo, teólogo, homem do mundo e da cultura, colocado perante o dilema-tentação de saber como se compatibiliza um Deus que é o Supremo Bem e o Supremo Poder com a injustiça, a miséria e o sofrimento da humanidade, contentou-se e com isso regressou à tranquilidade do espírito e à paz do coração, com esta forma cândida de singeleza e ingénua de crendice: os santos, sim, os santos, se continuaram fiéis a Deus, é porque a solução existe. Vai daí, tudo se resolve assim: «aceitei os meus limites e o intransponível mistério de Deus». Ponto final.
Vou continuar a ler e amanhã já nem volto ao médico. Achei a cura do meu mal: um insondável mistério de Deus! À cautela, talvez arrisque, mas só uma prudente aspirina, não vá, herege, arder em febres, nas fogueiras infernais!

25.12.06

Uma alfarrabista

Foi hoje em Sintra, na Volta do Duche, num recanto de uma curva, antes de se chegar à estação. Aberta em dia de Natal, uma livraria-alfarrabista. A juntar à surpresa do encontro, a magia do local, o fantástico das coincidências. Nem me lembro sobre o que conversámos, pelo canto dos olhos encontrava-os, livros que tenho, livros que fui perdendo, livros de que me desapossaram. Ali um Gandra, além um Viterbo, depois os da editora de Colares, que agora é aqui, «do outro lado da rua». Tudo se tornou familiar e mais ainda com a raridade de um nome raro: chamava-se, tal como a minha filha, Adriana, Maria Adriana! Casada com um inglês, Mister Jones, Maria Adriana Jones é conhecida pelos miúdos locais como a Indiana Jones. Na selva dos livros, ela move-se entre os Salteadores da Arca Perdida. Vê-se pelo brilho nos olhos que ama os livros, a ponto de os presentear com a porta aberta ao mundo no Dia de Natal.

24.12.06

As primeiras folhas

Regressei ao primeiro livro da Dulce Cardoso, de há muito deixado a meio, a leitura interrompida. Lembrava-me de cena onde ia, o homem na praia com o caco de vidro cravado no pé, o espectáculo tétrico de levarem-no, num dia de sufocante canícula, o metal e o sol combinados com o alcatrão amolecido, para um indiferente hospital. Li umas folhas antes de cair, fulminado de sono, «o passado demora sempre algum tempo a ser reiventado». Tal como a vida, as primeiras folhas já lidas não são, pois, necessariamente assim.

23.12.06

A antecâmara

Descobri, ao terminar o segundo volume das memórias do José Gomes Ferreira, hoje que consegui recomeçar a leitura, neste dia em que também sinto «vontade de despir o corpo»: «tenho às vezes a impressão de que estou na antecâmara dum médico - à espera da minha vez. Estou doente de vida. Espero ser recebido um dia...». Acreditem, pois! Espero mesmo ser recebido um dia, doente de vida!

22.12.06

O sentimento do «já posso?»

Por esta altura havia na cidade a azáfama formigueira por causa de embrulhos, laços e prendas, ceias, almoços e visitas forçadas. A esta hora, na cidade, subiam-se escadas e atulhavam-se cestos, na ânsia ilusória de se estar bem, sendo-se bom. Por esta altura a cidade afinal não mudou, Eu, estou aqui, a lembrança infantil de uma mesa posta, onde em nada se poderia tocar. A esse sentimento do «já posso?», seguia-se o do «que será?», vivido na noite que as prendas vinham pela chaminé. Tudo isso foi há muito tempo, convenci-me hoje, de facto, há demasiado tempo.

11.12.06

Agulha em palheiro

A Natureza às vezes tem pena e adoece-nos. Sucedeu. Incapaz de trabalhar, defendido por cobertores, estive a folhear uma fotobiografia do José Gomes Ferreira, detendo-me pelo tempo em que ele, concluído o curso de Direito, esteve como cônsul de Portugal na Noruega. Talvez por causa dos passeios nos fiordes, piorei.
Agora que a noite chega ainda consigo, com a febre a subir, acompanhar a paixão de Fernando por Paulina, descrita por Camilo Castelo Branco. Fernando era o filho do sapateiro do poeta Bocage, o que lhe pagava em botas uns versos que fizeram despontar na sua eleita as primeiras flores do amor. Paulina era um dos frutos de um matrimónio do desembargador Briteiros que sabia «de jurisprudência o necessário para convencer-se do pouquíssimo que necessitava saber um magistrado palaciano, benquisto para as alçadas, e braço inflexível para hastear patíbulos».
Amanhã gostava de estar pior! Educado espartanamente, associando desde garoto «vida de cama, vida de lama», perdia-me por aqui, «atrombando na palha»!

4.12.06

Adeus!

António Gedeão foi um poeta precoce aos cinco anos, que só recuperou o dom notável da escrita pela meia idade. Aos oitenta iniciou um diário, fechando-o dez anos mais tarde, após mais de mil e cem páginas, em 35 linhas, com um espaço em branco no final para a data que fosse a da sua morte e, a rematar, a palavra tão nossa: «Adeus». É um testemunho a pensar nos seus tetranetos, para que eles tenham ali, em folhas de papel pautado, uma imagem do mundo que ele viveu.
Soube-o este fim de semana pelo JL, que de quando em vez ainda consigo ler.
Foi no Jardim da Estrela, entre velhos vagueantes, para quem o preço do café ter baixado cinquenta cêntimos teve o sabor de uma alegria domingueira. «É agora no Inverno» explicava a senhora do balcão, «porque isto tem estado fraco», justificava-se. A meu lado, dividida entre o colesterol e a gulodice uma avó olhava para uns vistosos brigadeiros, impantes de chocolate. «Leve um para o lanche», incentivava-o, solícito, o empregado. «Não o consigo comer todo sozinha», respondeu-lhe ela. Ficou-me no ouvido a palavra «sozinha», enquanto alçado numa cadeira pernalta num canto escondido do café lia: «uma das características da vida actual é o desamparo, a solidão, o desapego, a monotonia, a indiferença, o cansaço».

30.11.06

A transsubstanciação

A arte de escrever com pudor, o saber-se da subtileza a arte, só o alcançam almas eleitas, em momentos de excepção. Sebastião Artur Cardoso da Gama. «Andam mais as minhas mãos do que andam os nossos pés», escreveu, num momento só, desprendido de si. Fecham-se os olhos e quase que se sente, táctilmente, do que ele fala, como se de súbito sob o verbo surgisse o corpo.

28.11.06

A Pátria entrevada

As fotobiografias são uma espécie de vida emoldurada, na saleta de estar de uma vida já vivida em tardes friorentas, de luz baça e recordações indiferentes. Mas eu insisto em comprá-las e em lê-las, mesmo quando as acho aquém dos biografados.
Há dois dias, num intervalo nem sei de quê, comprei a do Almada Negreiros. Hoje, vindo dos confins do dever ser, essa masmorra punitiva onde ganho musgo na alma, comecei a folheá-la.
Sentado na cama, a uns metros de mim, há a exposição do Amadeu Souza-Cardoso, que ainda não visitei. Sobre ele escreveu Almada, em manifesto: «Quando um português, genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da Pária entrevada, para lhe dar o parto da sua inteligência, a indiferença espartilhada da família portuguesa ainda não deslaça as mãos de cima da barriga».
As fotobiografias podem ser tudo, uma vida assim, vista do remorso condoído de uma família desfeita, é que já não é nada, nem a indiferença sequer espartilhada.

24.11.06

Um diário inventado

Desci a rua devagar, atrás de mim automóveis acumulavam-se, impacientes. Enfim, quase imperceptível, ei-la ali. Subiu-me à consciência exaltada, vindo dos armazéns pulvurentos da memória, a ideia clara de que lhe já lhe tinha visto a montra, ao passear-me por ali.
Consegui um quarteirão depois um lugar para estacionar. Regressei ao local da surpresa, agora a pé, o passo estugado, os automóveis ainda atulhados na rua, sem paciência: uma livraria, palacete aristocrático de alfarrábios, lar de edições esgotadas, asilo de livros em segunda-mão.
A dona vestia o casaco, depois de um monótono dia sem clientes. Gentil, ao ver-me entrar, disse que tínhamos tempo.
Perguntei-lhe pelo José Gomes Ferreira. Tinha-o todo.
Por causa disso, estou esta noite a tentar ler a «Imitação dos Dias», um diário inventado, também «com restos de gritos na boca a exigirem futuro».
Agradeço a todos, os que me disseram que a procurasse ali, a ela por ter adiado o fim do seu dia. Chama-se Crisálida, borboleteando por entre a cultura em papel. Mostrou-me, como se enamorada por ele, um estudo sobre o Wenceslau de Morais, em papel de arroz, as folhas encadernadas pela outra margem.

19.11.06

A Natureza amiga

«Atirar bolas de algodão para poços de cortiça». Foi a última frase que me ficou do livro do José Gomes Ferreira que estou a ler. É assim o começar dos revoltados mansos, conformados primeiro com a surdez alheia e lentamente com a sua própria mudez. No fim, chega um manto de nevoeiro, como no dia de hoje, domingo, a Natureza, amiga, a querer-nos abraçar, escondendo-nos dos outros o rosto do desespero.

18.11.06

O ronronar incerto

Lembro-me que vinha no avião de Dili, o motor ao meu lado a intranquilizar-me com o seu ronronar incerto, a lê-la. Depois recomendei a leitura. Neste mundo improvável e de seres longínquos há sempre uma criatura com uma vida diária de «Que é que ela tem? Alguém perguntou com uma curiosidade negligente». Vinha a ler essa folha, precisamente quando a lembrança surgiu. São os «Laços de Família», da Clarice Lispector. A narrativa em que «a uma coisa bonita faltava o gesto de a dar».

16.11.06

O local e o mar

Há na curva da estrada da vida um local que mil faróis encandeiam, holofotes potentes da curiosidade, a desventrar o último reduto escondido da almas escondidas. Indiferentes à noite, embalados pelo mar, são para os namorados tais faróis as luzes amigas para o porto tranquilo da sua paixão. Há na curva da estrada um local único, por onde circulam, velozes, os automóveis da indiferença em que a vida se tornou.

13.11.06

Morar-te

«Morar-te até morrer-te». Como nós na língua portuguesa temos uma relação difícil com as formas verbais reflexas. Como nos parece natural o «amar-te» como meio de dizer o «ter-te» e como se nos afigura estranho o «morrer-te» para dizer o «irmo-nos».

11.11.06

O adormecer definitivo

Tal como os velhos que repetem, sem darem conta, a mesma história, eu, recluso neste interior sombrio do cárcere das obrigações, dou comigo a rever o dito, a recontar o escrito. Foi há dois anos, num blog que, em liberdade, apaguei: «O sobressalto na madrugada, a aflição do que fica por viver, como se o coração parasse e a respiração deixasse de assistir. Há nesse breve instante, em que tudo se suspende, o momento agónico da hesitação existencial sobre se valerá a pena continuar assim, sem consciência da origem nem certeza do fim. Quando a madrugada surgir, aurora enfim de um novo dia, espera-se a dúvida resolvida. Saudemos nisso quanto vive e nessa saudação a própria vida que nos é dada viver».
Numa só coisa me revejo, na vida que me é dada viver, as madrugadas são maiores, infinita a vontade de adormecer, sim, definitivamente.

10.11.06

Um espirro

Há no acto de espirrar adulto a expressão dos nossos recalcamentos, de tudo quanto contemos e do tanto que nos limitamos. Carinhosa a lembrança dos dias em que, tal como o sentiamos e a Natureza nos impunha, nos saía um expontâneo e simples «atchim!». Li algures que o espirrar é o melhor antídoto para os soluços. Evita-os. Um resfriado, um dia trancado no quarto, poupa-nos a muitas lágrimas.

8.11.06

A hesitação no dizer

«Diz-me um segredo, mantem-me acordada». Li a frase e no recôndito secreto de mim, surgiu-me uma memória longínqua de uma qualquer sonoridade íntima, familiar e reconfortante, como a de uma tarde em silêncio tendo como companhia o calor contíguo, a simples presença, a hesitação no dizer.

5.11.06

A juventude voluntária

Continuo a ler, aos poucos, os diários do José Gomes Ferreira. Claro que não é a «Memória das Palavras». É um livro que tem o que de irritante e medíocre acontece na vida quotidiana de cada um de nós, mesmo dos que são geniais. Ainda por cima trata-se de um escritor que se confessa um «resignado ao marxismo» e que acabou por ser sacralizado pelos marxistas. Depois, é tudo muito mesquinho de rancores e cego de amores, triviais os afectos. Esqueço, porém, tudo isso. Rara é a folha onde não está uma frase inteligente, que dá sentido à vida, anima e faz companhia. «Envelhecer é construir a juventude voluntária que, embora a gente nova por lei da natureza não acredite, vale quase sempre mais do que a outra, a involuntária». Hoje de manhã, cansado, meio sem norte quanto ao que fazer e com tanto para fazer ainda consegui chegar à página oitenta, onde ele fala do «comércio amável de curvejos em que se resume a vida literária portuguesa». E acrescenta «de curvejos e de coices».

4.11.06

A eternidade do amor

Ainda o tenho aqui, por acabar de ler o «Borges Verbal», recolha paciente de citações do seus escritos. Entre algumas banalidades, genialidades e trivialidades, está ali a ideia de que o «o amor é eterno enquanto dura». Só quem perdeu pela cegueira a noção feliz do espaço, tem uma tal descrença triste na dimensão do tempo. Talvez por estar a entardecer, dou comigo a pensar que para um homem só, o infinito é um momento transitório de si.

Línguas de pedra

Um blog é um espaço privado aos olhos do público. Podemos vir aqui dizer que está a chover ou que não nos apetece ler. Podemos escrever para ninguém e nunca mais pensar no que foi escrito. Nos dias em que a cabeça esvazia é o local ideal para vir recliná-la. Temos depois os outros, os que nos detestam, os que nos invejam, os que imaginam em nós coisas que desejariam ter ou que vêm outras que detestam. Um blog é um espaço que cumpre o espaço dos antigos pelourinhos. Ficamos por ali, amarrados, sujeitos à lapidação pública. Os que tiverem vocação para o martírio, é só abrirem um blog.

3.11.06

Os dias comuns

Tentei voltar a ler, quase sem o conseguir. É um esforço para, cansado, me concentrar nas linhas, uma violência para, confuso, entender as frases. Estou a tentar desde ontem os diários do José Gomes Ferreira, «Os dias comuns». Eu, que já li dele o melhor, custa-me vê-lo agora tão vulgar. Mas talvez haja em mim o já não ser capaz, a eterna lamúria do impossível, «a repetição dos ditos já musgosos». Consegui ainda progredir por umas dez folhas antes de cair, fulminado de sono. Acordei, com os amigos desanimados. Ainda li que «a superioridade da alegria está em ligar os indiferentes. A dor é mais aristocrática. Só aproxima os amigos». Dói-me ver-me neste estado e com amigos preocupados. Hoje levo o livro comigo. Vou tentar voltar a ler, vou tentar conseguir lê-lo.

29.10.06

A inteligência das horas

Hoje, domingo, acordei com a hora mudada. É sempre este o momento em que me confronto com o carácter rudimentar da minha inteligência, ao ter de fazer contas quanto a saber que horas eram quando agora são as que são. Desta vez acho que consegui perceber o que se passou: o relógio atrasou. Já não é mau que até aí ainda chegue. O que não consigo entender é se com isto fiquei a ganhar mais tempo de vida, ou mais perto do fim. É a vantagem dos estúpidos, viverem felizes, ignorando quando chega, afinal, a sua hora.

25.10.06

Pomposamente serventuário

Hoje de manhã olhei para ele. Parece que interrompi a sua leitura há uma eternidade, encarcerado que estou na colónia dos trabalhos forçados. Fui buscá-lo, arrrastando-me para o canto da mesa onde, paciente, me esperava. São assim, silenciosamente disponíveis, nossos amigos, os livros. Abri na última crónica que lera, texto risonho, de uma malícia inteligente, uma escrita refinada. Nela falava-se no «affaire» que «a mãe» tivera há muitos anos com um cangalheiro de Delft «cuja empresa enterrava nessa altura metade do País Baixo e tinha infra-estruturas para enterrar o resto». Graça estava, porém, no lema do seu amante gato-pingado, que podia ser o meu nos dias actuais, os de desespero serventuário: «tudo no fúnebre, nada nas pompas!». São os «Bilhetes de Colares», daquele que os assinou como A. B. Kotter.

22.10.06

As mil e uma noites

Depois de uns dias a trabalhar dia e noite, sem tempo para ler quanto mais para escrever, consegui, nem sei como, uma sexta e um sábado para vir a Londres, aos arquivos britânicos, para acabar o meu próximo livro. Perto do hotel havia um restaurante persa. Chamava-se Sherazade, a história daquela que se amarrou ao cruel destino de ter de contar intermináveis histórias, para escapar à morte certa. De algum modo é assim também comigo. Quando cheguei aqui definhava em agonia, já sem nada para contar.

14.10.06

Gente, fazendo gente

Eu vejo por aí gente que tem, todos os dias, imensas coisas que leu. Eu tanta vez nem jornais leio. Eu sinto que há por aí gente que tem, a todas as horas, carradas de coisas para dizer. E eu tão frequentemente estou vazio de pensamentos. Eu vejo por aí gente que se adorna, para vir mostrar aos da rua do pescoço para cima e dali para baixo. E nisso eu que há dias em que nem saio de casa nem arrisco o pescoço. Eu vejo que há por aí gente, muita gente, essa gente, toda a gente. Olhando para o mundo, como se batendo à porta de uma retrete, um tipo espera ouvir, numa voz alteada da multidão apinhada lá por dentro: está gente!

10.10.06

Estudos cansados

Ando a coleccionar e a jurar que hei-de ler uma série de livros organizados pelo Pedro Calafate, o mesmo que dirigiu a notável «História do Pensamento Filosófico Português» e a que ele chamou «Portugal como problema».
Não tenho nenhum dos livros aqui. Mas depois de mais uma madrugada a trabalhar e poucas horas de sono lebro-me que, ao folheá-lo, dei conta que o Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, franciscano e filósofo, apóstolo da Razão, a propósito dos estudos seus antecedentes lhes chamava os «estudos cansados».
Como eu, que não sou propriamente um paladino da razão geométrica, o compreendo muito bem!

7.10.06

Uma vida adverbial

Hoje estive a olhar para um gato. Dei comigo a pensar o que será passar o dia molemente a dormitar e acordar para preguiçosamente comer. Tudo isto dissolve, tudo isto apetece. Não sei é porque me assaltam estas observações: talvez, raivosamente, por ter uma vida de cão.

2.10.06

O aprendiz das letras

A Bertrand, sem vergonha, deixa esgotar Mestre Aquilino e nem sequer o reedita. Só num alfarrabista consegui encontrar «Um escritor confessa-se», a sua auto-biografia, escrita em 1972, de que me ficou um exemplar num momento da minha vida desfeita. Tem, na edição de 1974, em que o adquiri agora, um prefácio do José Gomes Ferreira, notável pela ironia, a brincar consigo próprio, ele o «aprendiz das letras», a imaginar o livro e o seu intróito numa promoção que dissesse «inútil nota preambular de José Gomes Ferreira postfaciada por 400 páginas de Aquilino Ribeiro». Como este mundo de comedimento morreu, substituído pela impante arrogância, de pomposos prefaciadores de obras que nunca seriam sequer capazes de esboçar.

1.10.06

A negação

Encontrei um diário incompleto. No dia 14 de Maio de 2004, uma sexta-feira, escrevi: «Hoje o dia soterrou-me. Regressei a casa a cambalear por fora e a rastejar por dentro. Lembrei-me da frase do Milôr Fernandes «se você não consegue realizar seus sonhos, realize ao menos seus pesadelos». Lá vim, por isso, escrever estas linhas a este diário. Amanhã é sábado». Leio isto e copio a frase, letra a letra, hoje, domingo de tarde. Penso que é possível ser-se tudo, até negar-se a si próprio o direito de o ser.

30.9.06

O mundo lá fora

Comecei ontem ainda, já de noite. Mesmo a propósito, «As noites brancas», e logo na primeira folha o «será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?». Continuo hoje, sábado de manhã, extenuado, criatura intermédia, fazendo, tal como o sonhador do livro, de mim mesmo um inimigo. Vou na terceira noite. Lá fora o mundo deu em chover.

23.9.06

O Outono

Esta madrugada começou o Outono, a chover copiosamente. De manhã a cidade estava desolada, com areias espalhadas, esgotos entupidos, folhas a revoar, e os velhotes que acordam cedo sem saberem para quê, a arrastarem-se pelas ruas desertas, a caminho de tanto faz. Por vezes voltam com um saquito de pouco para um almoço de nada. Amanhã é domingo, ainda é pior. Seria o dia de lhes chegar a família, que raramente vem.

21.9.06

Maria

Eu se não acredito na transmigração das almas, sou um crédulo no símbolo de um acaso. Ela chama-se Maria e baptizou o seu endereço no msn com uma palavra. Ela chama-se também Maria e é a personagem do livro que esta noite leio para o apresentar amanhã, a surpreender-se em Moçambique com tantas vezes ouvir essa mesma palavra. A palavra de que faço bandeira ao acordar e esperança para o dia seguinte quando me deito é Hakuna Matata. É o «carpem diem» africano, o aproveita o teu dia, mote tristonho numa vida despediçada.

20.9.06

O adelo da vida

«Não me lembro de nada anterior aos livros». Quem o diz é Cruz Santos, um homem que viveu no mundo da edição. Cada vez são menos estas pessoas que ao livro dedicam uma vida sacrificada. Encontrei outro dia um desses, alfarrabista filho de alfarrabista. Ali andava ele de feira em feira, entre os gananciosos das primeiras edições, e as viúvas a desfazerem-se, envergonhadas da sua miséria disfarçada, do que restava na defunta estante lá de casa. Quantas vezes me dói quando vejo, no adelo da vida, uma dedicatória amorosa que o destino atirou para o acaso de alguém que a lembre. Salvei muitas e guardo-as no silêncio recolhidas da minha livraria, devoções a indiferentes, amores esquecidos, na forma de um autógrafo sentido.

18.9.06

O efémero

Estamos em época de estudos bocageanos ou estudos «bocagianos», como diz uma brochura da Câmara Municipal de Setúbal que mão amiga me mostrou. Bocage, não o que dá nome à rua onde está o meu escritório, que é o botânico, mas sim o outro, o poeta, o «incapaz de servir num só terreno». Morreu desgraçado, condenado ao efémero do deboche, esquecida a grandeza do génio. Não há imbecil que não conheça dele a despropósito uma anedota!

17.9.06

O vagão fantasma

«Na sequência das greves dos ferroviários e sabotagem aos comboios como medida reivindicativa, o Governo determina a utilização do “vagão–fantasma”, um vagão aberto cheio de grevistas presos, utilizado à frente da locomotiva, para impedir a sabotagem da via férrea». Foi em 1919. Assim pareço eu agora, colocando-me, aprisionado, à frente da locomotiva da vida, para evitar sabotá-la.

16.9.06

O dia dos jornais

Lembro-me. Era um adolescente, estudava o liceu em Viseu e queria ser culto. Por isso lia na Biblioteca Municipal coisas que não entendia, requisitava na carrinha biblioteca itinerante da Gulbenkian livros que o funcionário me perguntava se eram para algum outro, mais velho. Mas lembrei-me hoje de quando íamos, pelo fim da tarde, a pé, perto precisamente da Biblioteca, esperar, ávidos de saber, a camioneta que trazia os «jornais de Lisboa». Àquela remota província chegavam, atados, vindo da longínqua e inacessível capital do saber. Disputavam-se os poucos exemplares. Depois, eram uns velhotes de ar endurecido e desconfiado a esconderem, conspirativos o «República», debaixo do casaco, nós, uns jovens vaidosos de atrevimento, a mostrarmos orgulhosos, no café, que líamos o «Diário de Lisboa». Tudo isso já acabou. Já acabou o «República» do Raúl Rego, o «Diário de Lisboa» do Ruella Ramos, o «Século» do Pereira da Rosa. Já acabou o «Diário Popular», já acabou «A Capital». Hoje voltei aos meus tempos do liceu em Viseu. Vou esperar aqui em baixo que cheguem os jornais de Lisboa, para que não esgotem. A diferença é que eu estou em Lisboa, são todos em muitos exemplares e eu não sei se ainda tenho a mesma alegria ao trazê-los para o café.

15.9.06

Sem outra lei

Tentei não ler o Borges em português, para esperar o dia em que pudesse lê-lo no original. Encontrei-o agora, em livrinhos pequenos, daqueles que se transportam na pasta ao lado do que pesa como obrigação. Ainda por cima o Jorge Luis Borges escreve textos pequenos com ideias grandes, como se tivesse pena de quem tem pouco tempo. Hoje, nem sei como, lá foram mais umas folhas vividas e numa delas o que poderia ser um modo de viver, não fora o moralismo endémico da infância, o sentido do dever da juventude, o sentido dos limites desta idade: viver a vida «sin otra ley que la fruición y la indiferencia inmediata».

14.9.06

O problema do se

Eu sabia que havia uma lagoa das sete cidades, descobri hoje que havia três cidades dentro de uma cidade e várias pessoas dentro de uma pessoa. Num mundo assim, um homem tem muito por onde passear-se. Assim mesmo, reflexamente.

11.9.06

Chevalier servant

Mimadamente disperso, como diria uma amiga minha, ando a ler a esmo o que os outros já leram há séculos. E ainda por cima não tenho vergonha de o dizer. Ontem estive com os «Bilhetes de Colares», escritos entre 1982 e 1987 pelo A. B. Kotter, esse fantástico pseudónimo que parece autêntico, e que o ainda sobrevivente jornal «Semanário» editou há dezasseis anos. São textos curtos, que se lêem antes de dormir e que dão um sonho risonho. O lido ontem, antes da «deita», era sobre um tal fictício Henri de Beaucul de Monfart, amanuense de Paul Bourget, «chevalier servant» da mamã do autor entre 1937 e 1939. A prosa é doce de estilo e picante de ironia: «Fauxcul, como nós lhe chamávamos», escreve o Dr. Kotter, «por ser mulherenguíssimo, dizia sempre que a Mãe submetia a ortografia à fonética porque pensava com o coração». E continua, a rematar: «Esta causalidade chocha, assim metida a martelo, só enganava, julgo eu, a própria Mãe, vaidosa como todas as mulheres, e era a maneira de Fauxcul se insinuar, felino, entre os lençóis da Senhora sem deixar de luzir nos olhos de Bourget». Ora aí está uma maneira agradável de se começar o dia, a rir. Tem de ser, porque tenho de ir trabalhar! Mimadamente disperso, entre outras coisas trabalho numa profissão que é uma espécie de condenação às galés.

10.9.06

Ausência de si

«Há dias, em que o rosto até se pode transformar e se ausentar de si mesmo... », li isto aqui -»., a propósito do chão de prata. Li e perguntei-me, como se a um espelho me visse, reflexamente, que poderia eu mais dizer.

9.9.06

O cemitério da razão

A frase dizem-me que é do Albert Camus, o homem revoltado: pode ter-se razão e perder. É por isso que a verdade é um combate diário e corpo a corpo e os cemitérios estão cheios de cruzes de reconhecimento póstumo. Há muitos que preferem ficar vivos. A sua sobrevivência é a demonstração da sua vitória.

7.9.06

A grilheta do dever

Havia no Jardim Zoológico um elefante que a troco de uma moeda tocava um sino. Ensinado, recusava, jogando-as fora, as moedas escuras, só aceitando as prateadas. Os miúdos riam a bandeiras despregadas. Amarrado ao inferno de ter ganhar assim o que lhe davam para comer, o animal metia dó. De vez em quando soltava aquele som lúgubre, de aflição, como se lhe faltasse a naturalidade do seu mundo ao qual o haviam raptado. Lembrei-me dele esta noite e do sentimento de profundo desapontamento irritado dos meus pais ante a minha tristeza. Acho que já morreu, ou pelo menos matei-o na minha memória, esgotado de ter pena.

6.9.06

Anrique Paço d'Arcos

Vi na passada semana no JL que passariam no dia 2 de Setembro cem anos sobre a data em que nascera Anrique Paço d'Arcos. Em 1993 a Imprensa Nacional editara-lhe as «Poesias Completas», que vai agora republicar. Irmão do escritor Joaquim Paço d'Arcos estavam ambos praticamente esquecidos. Do Joaquim, que foi funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ainda se encontram pelos alfarrabistas algumas edições do «Tons Verdes em Fundo Escuro», escrito em 1946, do seu magnífico conto «Samovar», e mesmo a história de «Venâncio», na qual todos os funcionários públicos se revêem e o seu inevitável «Ana Paula». Agora do irmão Anrique é que pouco aparece. O «Dicionário da Literatura Portuguesa no Mundo» ignora-o, a História da Literatura do Óscar Lopes e António José Saraiva que eu tenho dos tempos do liceu nem nele falava. Claro que eu esforço-me por acreditar que não há acasos. Mas como explicar que tenha encontrado durante as férias, deambulando já nem sei por onde, uma terceira edição do «Amores e Viagens» do Joaquim, em terceira edição da defunta Parceria António Maria Pereira, publicada em 1943, e ver nele uma comovente dedicatória ao irmão Anrique, aquele que «deste rancho de irmãos que entrou na vida rico de todas as ansiedades». E como explicar sobretudo, ao ler, precisamente no JL a ligação de Anrique a Teixeira de Pascoaess, dos quais ali se publicam duas cartas, que eu não me lembrasse sequer que, precisamente em nome do acaso, escrevera já, curiosamente neste mesmo blog, então a celebrar «minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia», isto mesmo, que hoje reli, como se outro o tivesse escrito! Perplexo parti à descoberta, para me cruzar, no espaço poético com a magnífica ave-azul.

5.9.06

Enfronhado

Dei conta ao reler-me, o que raramente faço, pois nunca tenho tempo: uma pessoa regressa de férias, enfronha-se na profissão, cheio de bons propósitos organisativos, a querer que ela seja apenas uma parte da sua vida, necessária mas que não ultrapasse o suficiente. Vejam o resultado: nestes últimos dias quase só falo de Direito, do que está, do que virá, do que tomara que viesse. A continuar assim, a coisa dá para o torto.

29.8.06

Longínquo

Eu, que não me sinto branco nascido em África, e nasci em Angola, nem europeu se isso não for Portugal, penso agora no Quénia longínquo. Um sentimento apátrida, invade-me o ser, como se um nómada, para quem tivesse morrido a família primeiro e lhe tivessem destruído a aldeia depois.

As leis da Natureza

Claro que eu tinha de ir ler imediatamente Dostoiévski ao chegar. E foi ao lê-lo, naqueles seus «Cadermos Subterrâneos» que me encontrei «com um homem que tivesse, para cúmulo, a especial infelicidade de viver em Petersburgo, a cidade mais abstracta e mais premeditada do planeta». Tudo isto é discutível, eternamente polémico, pretexto para uma interminável discussão para «chegarmos, mediante as mais inelutáveis combinações lógicas, até às mais repugnantes conclusões». Ao ver hoje aquela cidade-cenário, palco de uma itinerante comédia de rua, a contínua passerelle da beleza efémera e do exibicionismo do que é bem, sente-se que é de facto «impossível perdoar às leis da Natureza».

25.8.06

As ideias abstractas

Às vezes acontece, quando se viaja, pegar-se num livro à medida da bagagem que se leva, por causa do espaço, do peso, do tempo livre de que se dispõe. Poucas vezes sucede encontrar um livro que se compatibilize com o problema do local para onde se viaja. No caso um dos personagens do que leio tinha perdido há muito a crença na perfeição da espécie humana; pior, estava já amargamente convicto de que os indivíduos faziam sofrer os outros pela sua brutalidade, a sua malícia, a sua falta de compreensão. Por isso mesmo convivia melhor com as ideias abstractas da reforma social, a igualdade de oportunidades, em suma, a fraternidade humana. Comovia-se, porém, com os milhares de outros que, não ambicionando a liderança, seguiam um ideal com paciência e pobreza.

23.8.06

O labirinto

Imagine-se num local onde nada se entende do que dizemos e não entendemos o que nos querem dizer. Imagine-se um homem diminuido pela arrogância do que o cerca, perdido no labirinto do que procura. Pode ser uma cidade ou um momento da vida. Pode ser estar de férias ou o desejo de tentar sair delas. Imagine-se querer compreender e não conseguir sequer entender.

22.8.06

O mundo oblíquo

Leo Tolstoi tinha como hobby fabricar sapatos, nos intervalos de uma extensa e intensa escrita. Vivia com modéstia, numa das suas casas servido por dez criados. Dostoievsky sofreu na Sibéria a cadeia e o exílio e definhou, esvaindo-se em literatura. O primeiro vivia o problema da mística, o segundo o da angústia dos homens. Cada um deles tem as suas casas evocativas, a do segundo uma casa de esquina, como a de tantos dos seus personagens. Gorki também teve casa, oferecida pelos sovietes mas, como se simbolicamente, está encerrada para obras. Falta quem? Faltam tantos! Maiakovsky, por exemplo, oblíquo, vanguardista, provocador, suicida. No meio das suas vidas surgiu o tumulto dos engenheiros de almas, o anseio do homem novo. Hoje já nada sobeja. Numa das portas do Kremlin está o símbolo da Rolls-Royce, talvez por causa do carro luxuoso usado por Lenine, a bandeira do proletariado. Quantos milhões deram a vida por tudo isto. O motorista que nos conduz benze-se ao passar em cada Igreja. Hoje, já só o próprio Deus o poderá surpreender.

20.8.06

Museu ao ar livre

Viajo. Estou num local onde os computadores acentuam de modo diverso, sem que eu possa usar, ao escrever, o nosso modo de acentuar, obrigando-me a usar palavras que omitam o que por aqui inexiste. Curiosa forma de escrever esta, confinado por exemplo a ter de dizer sim, sem a possibilidade de acesso a uma palavra que exprima a negativa. Estou longe de casa, numa cidade com pouco mais de duzentos anos, um museu ao ar livre, replicando em arte o que de melhor a Europa tinha e as colossais fortunas podiam comprar, caixa de bonecas, de corpos espectaculares que se pavoneiam ante a rua do desinteresse. Oriundo de um Portugal com mais de oitocentos anos de vida independente, trago comigo o peso dos escombros acumulados com que nos fomos fazendo. Tenho saudades, talvez por hoje ser domingo, o dia do aborrecimento universal.

16.8.06

Acontece

Vou viajar. Fiz praia, quase sem lá ir. Saio, sem ter conseguido retomar o primeiro livro da Dulce Cardoso, que encentei há vários meses, o que se chama «Campo de Sangue», já foi prémio «Acontece» e agora a editora despacha a saldos. Hoje ainda peguei nele para me decidir a levá-lo na mala. Uma das últimas frases que ali tinha sublinhado trazia a nostalgia de uma colónia de férias onde eu nunca estive: «no útimo dia de férias deixaram na aldeia uma fila ordeira de pés tristes». Acho que o Verão está a acabar, ou pelo menos as férias. O tempo começa a arrefecer e eu sinto-me cansado já delas.

15.8.06

Sua mercê

Nunca me arrependa eu tanto de uma coisa como me arrependo de mostrar-me na fragilidade que os heróis quotidianos nunca admitem. A vida de hoje é o mundo do êxito, a sociedade o podium dos vitoriosos. Peço pois o favor a todos quantos lerem o que eu possa aqui chorar, de se rirem disso às gargalhadas. Não para que eu ganhe razão, mas para que ganhe ao menos alguma vergonha. Para tristes figuras já basta as que fazemos, escusamos de as contar. É nisso em que a blogoesfera é o muro das lamentações que eu me repugno de mim. Com tanto motivo para me exibir, ando nisto da tristeza e da comiseração enjoada à mercê. Restam, eu sei, uns quantos sincera e carinhosamente condoídos. É a esses que eu peço que desandem. Ridículo por ridículo, prefiro-me assim, pobre e mal agradecido.

14.8.06

Feriado

Há dias em que devia amanhecer logo o dia seguinte. Era assim, como se uma folha a menos no calendário. Amanhã, por exemplo, é feriado para que nada aconteça na vida de muita gente. Podia ser hoje. Para mim, devia ter sido hoje.

O espanto

Ana, a personagem de Clarice Lispector no seu conto «Amor» acabou por «descobrir que também sem felicidade se vive». Antes era «uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável». Vi esta noite, ao chegar a casa que começara a ler o livro, sem o ter terminado e, afinal, sem o ter compreendido. Voltei a ele, tal como ela, com «o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada». A diferença, é que esse novo saber sentido em Ana fora um lar quem «perplexamente lhe dera».