Porque há mais mundo do que o social, ontem estive ainda com o «Diário Íntimo» de Manuel Laranjeira. Médico em Espinho, Laranjeira suicidou-se por já não conseguir sobreviver à vida. O Diário é um escrito singelo, sem pompa, por vezes ingénuo, com momentos de surpreendente observação. No dia 8 de Maio de 1908, uma sexta-feira, confiou à folha da agenda médica de que fazia repositório memorialista, como descobrira que Beethoven fora «infinitamente triste, tragicamente triste, divinamente triste»: porque «concebeu e sonhou uma alegria que não existe».
18.7.07
16.7.07
O encontro e a separação
Graças ao meu amigo que lá se ficou pelo Oriente fatal, continuo a ler o Wenceslau de Moraes, de que ele me envia, pelo correio, livro a livro, todos os que estão a ser editados em Macau evocativos da sua extraordinária obra. Estive ontem com um dos seus contos, em torno de um provérbio japonês. Escreve-se, em grafia ocidental, «Au Wa wakaré no hajimé» e traduz-se, diz Moraes, em versão livre como «o encontro é o começo da separação».
Curioso não é a natureza budista desta frase, mas sim, que, ante ela, e colocado perante o confrangedor princípio segundo o qual «se quiseres evitar a separação, evita o encontro», ele nos anuncie, com aquela candura triste que a velhice traz que «em assuntos de amor, eu creio mais nas borboletas do que em Buda».
14.7.07
O hóspede
Ter tantos sítios onde se pode escrever, não quer dizer que se escreva. Às vezes é a falta de tempo, outras a de paciência, muitas vezes o querer falar pelo silênciao.
Ainda por cima um ser humano não se esgota numa profissão, numa militância cívica, mesmo numa vivência filosófica. Sobeja às vezes pessoa dentro do indivíduo.
Aconteceu assim.
Estou, em intervalo do meu viver, num magnífico lugar, casa antiga que hoje sobrevive à conta do turismo de habitação. Casa de memórias acumuladas e poupadas, casa de delicadeza sóbria, de vida experimentada. Local de enamoramento de um casal que a vida não separou. Casal onde se lembram os dias dos aniversários natalícios, dos casamento, as datas da formatura, de nascimento dos filhos e do baptismo dos netos.
Acordo e sinto o passado como se presente estivesse e pesa-me então a lástima do que é uma vida desagregada, um hópede que adopta o calor de uma família alheia, os ecos dos seus risos, a sua angústia ante o futuro, como se fossem os seus, à falta de mais alguém.
23.6.07
Os meus livros
«Para qualquer pessoa em isolamento, que não fala por não ter com quem falar, os livros, se sabe ler, tornam-se companheiros, amigos carinhosos, com quem de boa vontade se trocam impressões. Por isso eu quero os meus». A frase é de Wenceslau de Morais, escrita no seu «viver de exílio». Leio-a, regressado à grande metrópole onde vivo, povoado de criaturas com quem é possível, em teoria, falar-se. Leio-a uma vez mais, o livro encontrado entre os meus livros, amigos carinhosos, que não antecipam na sua cabeça a nossa partida e esperam, impacientes, a sua vez.
O cão de Tokushima, soube ao continuar a leitura, «desconhece o uso das festas e das carícias; se as recebe por acaso, não sabe retribuí-las; quer comer não quer festas». É assim, entre o rosnar do mundo dos homens e os livros. «Por isso eu quero os meus», por isso eis-me entre eles, de boa vontade.
22.6.07
O Diabo encarniçado
Saí deste jantar com a urgente necessidade de vir confirmar quão biográfico seria, como dizia ser, o livro de quem escreveu «O Físico Prodigioso». Encontrei-o e logo nele o excerto que, hesitante, em tempos sublinhara, quando o cavaleiro, «num gemido ansioso abraçou-se ao espaço, voltou-se e rolou, e entregou-se ao Demónio, que fez dele o que quis, e a quem ele fez quanto ele desejou». É Jorge de Sena, o Diabo encarniçado em vão.
16.6.07
O homem que se reduzira a si.
Hoje é um dia em que a Natureza resolveu que chovesse. Dei por isso quando estava já na rua, um livro para continuar a ler. Li, a «A Hora de Estrela», da Clarice Lispector, que prossigo, maravilhado com ela e por sua escrita seduzido.
Na história, Macabea conheceu Olímpico de Jesus, metalúrgico. Ela seca de carnes, encardida e de «cheiro murrinhento», dorida por ser feia.
Namoram sem se amarem, indispondo-se até ao silêncio.
Na hora de se separarem, tentando ser amável e não a ofender, ele diz-lhe: «você é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer». Ela, «rindo por não se lembrar de chorar», pediu-lhe que lhe dissesse logo adeus, abreviando o fim.
É uma história triste, de amores desencontrados com gente vulgar.
Na parte em que estou surge Glória, um «estardalhadaço de existir», a quem ele se agarra com «a força de um zangão», porque «ela lhe daria mel de abelhas e carnes fartas».
Clarice Lispector faleceu a um dia de fazer cinquenta e sete anos de idade, vítima de um cancro fulminante. Este livro escreve-o como se fosse o homem que «reduzira-se a si». Nascida na Ucrânia, escrevia para não morrer.
13.6.07
Dormir até o nunca
Voltei a ela, agora num seu livro de há trinta anos, «A Hora da Estrela». Mulher a fingir narrativa de homem trai-se quando conhece «adjectivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de acção». Conheci a Clarice Lispector, através do Vergílio Ferreira. Foi ele quem, já morto, ma apresentou, ela já morta também, através de um dos seus livros, o neurótico diário do seu ensimesmamento angustiado em que me reconheço.
Hoje é esta mulher ausente quem me fez companhia, dia feriado, eu com os sonos trocados, estirado num sofá, amaciando-me literariamente o ser áspero e rabujento. A sua personagem, insignificante dactilógrafa e só, «para adormecer nas frígidas noites de Inverno enroscava-se em si mesma, recebendo-se e dando-se o próprio parco calor».
Lê-se isto e apetece parar o mundo em sua translação, para que o tempo não siga, em sua rotação para que a noite não chegue e com ela o «dormir até o nunca».
8.6.07
Se eu soubesse
«Não durmas, quando não a noite acaba». Está num livro do João Miguel Fernandes Jorge, que hoje trouxe da magra Feira do Livro. Editado há sete anos chama-se «No Verão é melhor um conto triste». No pórtico está, como se gravada a ouro, uma lição de vida: «se eu soubesse - é a frase mais inútil que conheço». Se eu soubesse como é o fim do dia, tinha acordado na hora de adormecer.
2.6.07
A invenção dos dias
Muitos dos livros que o José Gomes Ferreira escreveu são auto-biográficos. Um deles chama-se «A Imitação dos Dias». O meu exemplar, que é o da edição da Portugália, largou já a capa, por causa de eu o ler repetidamente. Maníaco como sou do mundo ordenado, talvez por viver em desordem permanente, a partir desse momento, tem sido como se o sentisse rasgado em dois, a capa um dos seus segmentos de corpo, agora amputado e dividido. Por isso, irado comigo, não tenho sido capaz de lhe pegar, nem sequer, de si condoído, de olhar para ele. Muitas vezes escondo-o no meio da pilha de livros que vou amontoando ao lado da minha cama, para o poupar à vergonha da sua condição de mutilado.
Esta manhã, devolvido ao mundo com um acordar pastoso como o de uma ressaca, li-lhe o momento em que o António Ribeiro de Pavia, vivendo de desenhar para matar a fome, «com a barriga vazia, nas noites sem amor, pôs-se a inventar mulheres nuas no papel».
1.6.07
Fiambre da perna
Criticando, para o jornal «Público», o livro de contos que escrevi, Pedro Mexia diz que «Barreiros cai demasiadas vezes no excesso de adjectivos, na inversão desnecessária de frases, nos arroubos poéticos invariavelmente falhados ou nas frases estropiadas ou gordurosas». É uma opinião, expressa numa pequena frase com seis adjectivos deprimentes. Só houve uma parte da crítica de que não gostei, a das «frases gordurosas».
Não é que o livro seja de bolso, mas vá que alguém o leve junto ao fato, a obra a escorrer gordurosa, pingue de banha, como se de um embrulho de toucinho ou de um pacote de torresmos se tratasse.
Peço, por isso, licença, para me defender: o livro não é seco de carnes, mas não é tão adiposo como Pedro Mexia o julga.
30.5.07
A agonia do real
Quando uma nave espacial reentra na atmosfera sofre um choque que quase a destrói. Quando uma criança nasce do ventre de sua mãe, grita de dor, como se ao entrar-lhe o ar exterior nos pulmões, lhe entrasse o desejo de sufocar. Quando o mundo da ilusão reencontra o real, sente-se a vontade da loucura, porque ao menos aí a agonia é medicada. Há é claro sempre a solução de se partir de férias e com isso a esperança de que no regresso esteja já, enfim, tudo morto.
26.5.07
A herança da raça
Graças ao meu amigo, que está expatriado em Macau, estive hoje, um sábado com prometida chuva e surpreendente calor, com o Wenceslau de Moraes e um seu livro de paisagens escritas sobre a China e o Japão.
Wenceslau José de Sousa de Moraes, oficial de Marinha, fixou-se em Macau em 1889, transferindo-se definitivamente em 1898 para o Japão, onde viveria os últimos trinta e um anos da sua vida, sem mais regressar.
Ser delicado, qual sismógrafo capaz de registar a mais pequena vibração humana naquela terra de terramotos, deixou-nos páginas de inteligente e ardorosa visão sobre o Oriente «esfíngico e fatal», como lhe chamou Fernando Pessoa, local de exílio voluntário e de fuga redentora, a quem entregou a alma e que lhe recebeu os ossos.
Frequentemente sorumbático por natureza da alma, e erraticamente apaixonado por herança da raça, ele foi no Dai-Nippon, o «senhor Portugal».
Lembrei-me disto esta manhã, ao acordar cedo, os pássaros a cantar: «Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho permanente de sorrisos» escreveu ele, o que viu que «o riso é a linguagem mais em uso nesta terra». Assim eu.
23.5.07
A alma japonesa
Vivendo uma vida isolada, tenho muito poucos amigos. Um deles deixou-se ficar por Macau. É daqueles que compreendem quando não lhes aparecemos e respeitam o nosso exílio, poupando-nos à vergonha de ter de expor em público as nosas chagas. Mandou-me agora dois volumes da obra de Wenceslau de Moares, que está a ser ali editada, aguçando-me o apetite por ler tudo. Esta manhã em que, exaurido, permiti que a preguiça me desse descanso, li a contra-capa de um deles: Aprendi que não se beija uma japonesa, ainda que na face, sem a ofender, «mas poderás talvez beijar, sem que a musumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido».
Claro que, visto pelos olhos da contemporaneidade, pelo espírito prático dos dias de hoje, pela banalidade grotesca em que se tornou a subtileza, tudo isto é ridículo, mesmo eu, disto leitor, num dia como o de hoje, numa manhã como esta.
13.5.07
Andar com o janêro!
«Esta noite nã dí dormido nada!... – Atã perquém? – Os gatos andam p’aí com o janêro, era uma miada qu’a casa até tremia...». Descobri este português magnífico, antigo, viajando com insónias e sem ao menos uma maçã para entreter o dente e aquietar o corpo em sobressalto. Foi em Monchique, em «O Parente de Refóias». Glossário risonho, cheira a sol e a sul, o que a mim, ser bisonho e implicativo é como se fosse do outro lado do mundo da minha neurose, terra onde está sempre a chover.
11.5.07
A vida possível
Ouve-se aqui o amanhecer através do cantar dos pássaros e depois do gorgorejar da água das fontes. Lá em baixo uma cidade com as suas vulgaridades e com os seus recantos de reservada beleza. Preparado para esgotar mais um dia, trancado num sala e de tudo isolado, olho para o livro que trouxe expectante e que a meu lado espera ansioso que eu o leia. «Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível», ainda consegui ler ontem, já os olhos a fecharem-se, impossíveis. Clarice Lispector escreveu-o. Ama-se um mulher que só se conhece através do que escreveu. Eu sei que ela está morta. Guardo por isso esse segredo, para tornar a vida possível, a única vida que já me resta viver.
6.5.07
A mulher a dias
Ontem, dia de preguiça deliberada, ainda consegui arranjar tempo para iniciar a leitura de uma novela da Clarice Lispector que tem o título apelativo «Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres». Trata-se daquele livro em que parece que perdemos a página inicial, porque começa «, estando tão ocupada».
A vida deveria ser assim também, iniciar-se com uma vírgula e sobretudo não ter ponto final.
Trata-se da história de uma mulher que descobriu que «não tinha um dia-a-dia, mas sim uma vida-a-vida», e que não usava «perfumes que a contradiziam».
Como é possível que eu hoje, contradizendo-me, nem tempo tenha tido ou, pior do que isso, disposição haja encontrado para voltar para os braços da perfumada leitura, na minha noite-a-noite de trabalho forçado!
5.5.07
5/50
Aprendi uma lição de sabedoria, dada por quem a tinha recebido em miúdo: «se quiseres ganhar cinco, prepara-te para perder cinquenta». Gostava de saber a que aplica isto, mas sei, por experiência ganha e vida perdida que se aplica a tudo, mesmo!
30.4.07
Viver a vida
A esta hora há gente a entrar para dentro dos cubículos voadores que são os aviões para não sei quantas horas de trabalho desconfortável para que outros viajem felizes, enfermeiros a suportar turnos nocturnos a tentar que a morte não vença, polícias a fazer giros de ronda para que os vizinhos durmam seguros. No meio disto, o incómodo, o monótono, o cansaço, não há moral para nos queixarmos. É só uma vida estúpida, há que vivê-la com estupidez.
29.4.07
Maneiras assimétricas
Zangado com o José Gomes Ferreira e comigo por isso irritado, encontro-o hoje, domingo de tarde, a prefaciar «O escritor confessa-se», que recomecei a ler, a cidade vazia de portugueses. Aquilino, é um lugar comum dizê-lo, brinca com a língua portuguesa, como alguém que às escuras se passeia, insone, por uma casa da qual conhece todos os escaninhos.
Hoje de manhã, surpreendi-me a desejar escrever aqui sobre cada uma das palavras que nele encontro e antes desconhecia ou nem supunha que pudessem sequer surgir-me assim nessa inesperada pragmática. «Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balacé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas», escreveu sobre o padre prefeito do seminário de Beja, por onde estiolou, famélico, a tonsura adiada.
Lê-se e com um amargo de boca, sabendo quanto piores estamos, admitimos que já não se escreve assim; pior, já não se vive uma vida que permita escrever assim; pior ainda, já quase nem há, «alimárias claudicantes» em que nos tornámos, quem consiga entender que a vida pode ser vista inteligentemente assim. Inútil o navegar, o português perdeu a inesperada assimetria, esparramaçado no lodaçal previsível da monotonia de maneiras.
28.4.07
O duplo
Hoje fui aos livros e vim para a casa com a alegria na forma de sacos em plástico atulhados de alfarrábios. Ando a reconstituir a obra completa do José Gomes Ferreira de que julgava, erradamente, já só me faltar a poesia. Foi, por isso, com o contentamento de quem descobre que há mais mundos do que os vividos, que encontrei, ainda editado em 1980, pela Moraes, «O Enigma da Árvore Enamorada». Pobre do momento breve que durou o sentir-me bem. Acabo de o ler, livro lamentável, banal, de uma escrita vulgar, indigna do seu autor e imposível de de ser sequer trabalho de militância política inteligente. Quando gosto de um escritor leio-lhe a obra toda, mesmo que seja para me irritar, como é o caso. Num breve escrito adjacente, de tipo auto-biográfico, o meu autor de hoje confessa que se formou ideologicamente conjugando «o marxismo-leninismo actual com o pensamento de Leonardo Coimbra e de Teixeira de Pacoaes». Talvez por isso me tenha cruzado, ao folhear a biografia que dele escreveu Alexandre Pinheiro Torres, seu familiar político, com o dito «só nunca fui uma coisa: eu próprio». Falava da duplicidade de José Gomes Ferreira, filho de Alexandre Ferreira, o pai da Universidade Livre (a primeira) e dos Inválidos do Comércio.
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