22.9.07
Rijo como um labrego
Ontem à noite, com os olhos meios piscos, as letras a trocarem-se, tomei em mãos o Manuel Laranjeira, e de novo as suas «Cartas».
Já nem sei se foi este o último livro dos muitos cuja leitura interrompi, mas reencontrei-o numa carta a Ângelo de Almeida, desanimado, possuído da sua desolação infinita, em «apocalíptica lamentação», enfim o estilo decadente que lhe marca a patológica psicologia, numa sociedade mais doente do que ele.
Os meus amigos quando eu escrevo estas coisas pensam que por algum mimetismo eu estarei num estado semelhante, tal como naquela lei sociológica da imitação que já fez escola há umas dezenas largas de anos atrás.
Ah!, os meus amigos, aqueles que, a escreverem-me deveriam tal como ele desejou ao dito Almeida esperar encontrar-me «rijo como um labrego». Rijo e analfabeto, que as letras matam o corpo, fazendo o coração pensar e a cabeça sentir.
15.9.07
A escada do infinito céu
8.9.07
Leituras de cabeceira
25.8.07
Resultado zero
19.8.07
A renovação do ser
18.8.07
Leituras iniciáticas
Acho que já me queixei aqui disto: a Livaria Bertrand, que terá os direitos autorais do Aquilino Ribeiro ,deixou esgotar grande parte das suas obras, sem as reeditar. A mesma Bertrand, que editou em vida o Vergílio Ferreira, praticamente já só vende do Vergílio Ferreira a «Aparição», que passou, coitado dele, à maldição compulsiva de livro escolar.
Claro que os editores não são beneméritos da Pátria, mas estes livros não deveriam ser daqueles que deveriam fazer parte de um acervo de obras obrigatórias que o Ministério da Cultura tornasse inesgotáveis?
Lembrei-me disto porque ontem um artista plástico, filho e neto de bibliófilos, me falava, com enlevo, nas várias primeiras edições que havia em sua casa, entre elas uma obra extraordinária do Camilo Castelo Branco, o «Frei Luís de Sousa».
Não me ri porque me apeteceu chorar. Razão teve o Camilo para dar um tiro na cabeça!
Hoje na FNAC uma bem arranjadinha senhora, daquelas de malinha e gargantilha, que educou filhos e toma agora conta dos netos quando os pais vão ao cinema ou se divorciam, ou em ambas as circunstâncias, folheava, pausada e deliciada, a secção de literatura erótica. Nunca é tarde para se aprender, de facto. Afastei-me, discreto, deixando-a no deleite daquela iniciação ao tempo que lhe resta com o corpo que lhe sobra.
17.8.07
Um instante
16.8.07
O Príncipe, de comboio
Cheguei agora, ao Hotel da Estação, e cruzei-me na recepção com o revisor e o maquinista, que vão também pernoitar por aqui. Qualquer dia eu e a CP somos uma família e ainda passamos a Consoada juntos.
Instalado, vim aqui ao meu bloco de notas, deixar um apontamento do que li ferroviariamente.
Maquiavel quiz dedicar a obra a Juliano de Médicis, que teria na altura 25 anos. Só que este magnífico florentino morreria inesperadamente e o livro seria dedicado a Lourenço de Medicis, duque de Urbino, O Magnífico, que por sua vez morreria, jovem também, em 1519, sem poder concretizar os conselhos que assim recebia.
É por isso patético o momento em que, no capítulo 26, exortando o jovem a que cumpra o espírito italiano e trate da redenção da sua terra e a liberte «das mãos dos bárbaros», lhe lembra que «Deus não deseja tudo fazer, para não vos tolher o livre arbítrio e o quinhão de glória que soubermos merecer».
Tinha razão: Deus, não desejando tudo fazer, encarregou a morte do que tinha de ser feito.
11.8.07
A piedade de Deus
8.8.07
O vácuo
7.8.07
Livros idos
Vem isto no site da Biblioteca Nacional, a propósito de uma exposição documental sobre Jorge Dias. Até 4 de Setembro. Não me devolverão os meus livros, nem me atrevo a pedi-los. Irei matar saudades deles e da falta que me faz a ideia de os ter.
4.8.07
Afinidades
31.7.07
A atracção lunar
22.7.07
A pragmática da comunicação crustácea
20.7.07
Mossas na alma
18.7.07
Triste hino à alegria
16.7.07
O encontro e a separação
14.7.07
O hóspede
23.6.07
Os meus livros
22.6.07
O Diabo encarniçado
16.6.07
O homem que se reduzira a si.
13.6.07
Dormir até o nunca
8.6.07
Se eu soubesse
2.6.07
A invenção dos dias
1.6.07
Fiambre da perna
30.5.07
A agonia do real
26.5.07
A herança da raça
23.5.07
A alma japonesa
13.5.07
Andar com o janêro!
11.5.07
A vida possível
6.5.07
A mulher a dias
5.5.07
5/50
30.4.07
Viver a vida
29.4.07
Maneiras assimétricas
28.4.07
O duplo
25.4.07
Refastelado na otomana
24.4.07
Comigo
23.4.07
A sensação amável
Ao ter descoberto que tinha dado aulas, no longínquo ano de 1976 e na Faculdade de Direito de Lisboa, sem me lembrar já disso, ao Germano de Almeida, não só me surgiu o ímpeto de ler mais livros dele do que os que já li; veio, lenta e difusamente, a sensação reconfortante de que ainda tenho um mundo inteiro para viver, o das coisas que eu não sabia, não recordava ou a que não tinha dado importância. Viajemos pois!
11.4.07
Um só palavra
9.4.07
O corpo e o muro
7.4.07
O tempo e a volta
6.4.07
O ser exibicionista
5.4.07
A sombra
25.3.07
A hora perdida
19.3.07
O dia do pai
18.3.07
Confissões estúpidas de uma estupidez!
14.3.07
O preciso
10.3.07
O desejo de ler
8.3.07
Volta meu cavalo alazão
4.3.07
Tempo afectuoso
3.3.07
Uma vida debalde
Ridícula talvez, de amor seguramente, esta carta, a pedir ao tempo que passe e a ela que soubesse ao menos como amá-lo.
P. S. Já tinha escrito isto hoje ao começo da manhã quando li no livrinho «Aspectos críticos da língua portuguesa», de Sandra Duarte Tavares, leitura de sábado, obra minúscula que cabe num canto da pasta, que não existem na língua portuguesa palavras que contenham dois acentos, pelo que se escreve «bebé» e não «bébé». Atenção, porém! O «til», explica-se no mesmo trabalho, não é um acento gráfico mas uma marca de nasalidade, indicando ditongos ou mesmo só vogais anasaladas e por isso mesmo se escreve «bênção» e não «benção». Abençoada língua esta em que, por melhor que se tente, se está sempre errado, mesmo que seja a falar da Ofélia «Queiroz» ou será «Queirós»?!
1.3.07
De que cor é sentir?
24.2.07
O leitor incessante
22.2.07
A vida obrigatória
21.2.07
A biblioteca itinerante n.º 17
20.2.07
O café dos livros abandonados
18.2.07
O medo de me surpreender
21.1.07
Alucinado
18.1.07
A próxima vez
12.1.07
Alma comburente
6.1.07
O legado de Hemingway
Neste seu estudo o ilustre médico pergunta-se, entre outras coisas, se não teria sido o tratamento que lhe foi instituído para debelar a hipertensão a causa da depressão que o liquidou.
Interessante exercício necrológico, autópsia sobre a morte surpreendente, eis a medicina que salva, a medicina que mata.
O livro chama-se «Hemingway, o seu último legado». O legado, a sua dádiva, teria sido morrer, pois ante isso «redobrou-se a atenção clínica para uma mais cuidadosa avaliação e prevenção dos efeitos colaterais dos fármacos» usados no seu caso. Em nome dos que ainda não fomos mortos pela cura, obrigado, pois, «Papá».