28.3.08

O acaso e a memória

Falaram-me ontem, depois do jantar, em tom de maravilha, de «O Físico Prodigioso». Retorqui que era o livro mais auto-biográfico que Jorge de Sena escrevera. A minha interlocutora não o sabia. Esta noite vim confirmar o afirmado e tenho aqui a meu lado o livro e o texto introdutório, escrito em Março de 1977, onde o seu autor o admite. Ia para copiar a citação e reafirmar o ontem dito, quando um estranho sentimento de revisitação surgiu como uma sombra de mim. Lembrei-me então que já tinha escrito isso mesmo. Foi em 22 de Junho de 2007, também depois de um jantar. Encontrei o escrito, aqui. Acho que não me consegui desembaraçar do atónito. Para quem não acredita no acaso, começa a ser demais: um dia lembro-me de ter falado em ter morrido e acordo morto!

26.3.08

O livro das horas

Já não sei há quanto tempo tinha deixado de usar relógio. Primeiro, foi para não me enervar, no incessante olhar para o mostrador, a angústia de ser tão tarde. Nessa altura não havia ainda telemóveis, pelo que não se viam as horas a olhar para o telefone. Depois, foi porque o relógio deixou de ser um instrumento para se saberem as horas que faltava perder com a sua passagem ou as que se tinham ganho deixando-as passar, e transformou-se num acto de exibicionismo, usado quase em cima da mão, fora da camisa, para que todos o vissem e lhe adivinhassem o preço, como quem passeia mulher vistosa para inveja do vizinho, ou automóvel de luxo para raiva dos colegas.
Ontem ofereceram-me um lindo e discreto relógio com marca de relógio, ponteiros de relógio, daqueles que marcam horas e numa janelinha que dia é. Saí com ele hoje à rua, a passeá-lo, com o orgulho de o saber escondido dos outros, num agrado só meu. Houve um momento em que vi, no seu quadrante dividido em sessenta partes, que eram onze e quarenta, vinte para o meio-dia.Uma sensação de conforto com a vida invadiu-me, a lembrança antiga de ser quase a hora de almoço.

24.3.08

A insurreição

Há um livro do Carlos de Oliveira que se chama «O Aprendiz de Feiticeiro». Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1921 e morreu em Lisboa em 1981.Do livro saíu uma primeira edição em 1971. Em 1979 o autor, minucioso, corigiu definitivamente o texto. E do texto consta uma admirável narrativa do pensamento de «O Inquilino». É um pensar interrogativo e dubitativo, uma ladainha de hesitações: «Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete?». Etc. Etc. Lembrei-me disto, porque o livro estava à mão, entre aqueles que não encontro. E lembrei-me disto, sobretudo, porque o texto acaba assim: «Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?».

23.3.08

A anunciação da Aurora

Pelas quatro da madrugada a passarada arranca, em cantoria, a anunciar a chegada do dia. Os homens ainda o não vêm, porque perderam a capacidade de sentir. Mas para aqueles pequenos seres emplumados, que a Mãe Natureza tornou inteligentes através do seu minúsculo coração, é a anuncição da aurora.
Já sentiram, aprisionado na vossa mão, espavorido de medo, um passarinho, mesmo de insignificante tamanho, o príncipe canário ou o plebeu pardal? O coração descompassado, parece que rebenta, ribombando dentro do peito.
Eis o que o humano perdeu. Hoje Dia de Páscoa, há quem celebre Cristo ter liberto os homens que o pregaram na cruz.

21.3.08

A loirinha

Vinha no comboio. O homem contava as suas façanhas. Elevava a voz como quem busca mais auditório. Não tinha. Era eu, ali no bar, à espera que me arranjassem naquele Intercidades lugar sentado em troca do bilhete no Alfa, que me tinha fintado atrasando-se muito e adiantando-se de surpresa comigo à espera ao frio na gare, e um outro anónimo, magro de carnes e curto de ideias, a boca escancarada, do género dos que nunca perdem na vida um comboio, só não sabem é o destino para onde vão.
E a façanha, proeza de bravo, prova de virilidade, aquilo que o homem proclamava como sendo o máximo de si, era ter bebido cinquenta cervejas numa tarde. «Cinquenta», repetiu como num eco do dito, à falta de pergunta.
Fez-se um denso silêncio. Refugiei-me no baixar os olhos. «E sem ir mijar, que aí é que está a coisa», atirou-nos, ao que o ouvia e a mim que tinha de o ouvir.
Um aperto dorido atingiu-me então o por baixo da coisa. Pouco depois vinha o revisor, salvar-me. Raspei-me, esgueirando-e por ele. «Não vai uma loirinha?», perguntou-me. «Não, obrigado», balbuciei atarantado, «não me sinto capaz...».
Lá ficou. «Isto já nem há homens neste mundo» deve ter arrotado, entre tremoços, a boca limpa às costas da mão.

20.3.08

Mecânica estatistica

Há um momento da Mandraloga, essa estupenda peça teatral escrita no início de quinhentos que ainda hoje é uma paródia ao triunfo dos interesses sobre a moralidade, em que Callimaco, falando a Siro da sua ânsia por Lucrezia, mulher de Niccia, fala dos trabalhadores manuais como as «pessoas mecânicas». Uns séculos depois, martelando horas a fio ao computador, mecânica por mecânica, penso que os que vivem puxando pela cabeça, também o são.

9.3.08

O homem da maratona

Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.

8.3.08

O espelho

«No dicionário de Daniel, Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está constantemente diante de si mesma», diz Daniel, a personagem do Lavagante, o livrinho póstumo de José Cardoso Pires, agora editado. «A solidão conta muito para explicar as mulheres ao espelho», respondeu-lhe o seu interlocutor. Hoje é o dia mundial da mulher. Lembrei-me disto, e vim escrevê-lo. Poderia ter escrito tanto sobre tanta coisa de tanta mulher, mas que importa o que se escreve se é sempre para concluir o mesmo.

5.3.08

A república dos corvos

Em Janeiro de 1995 José Cardoso Pires entrou em morte cerebral, a «morte branca» como lhe chamou. Sentiu-a chegar, ao começar a «desmantelar palavras» ele cuja vida de escritor girava em torno delas. Conseguiu regressar do coma e escreveu dois anos depois «A Valsa Lenta» a que chamou «De Profundis», onde descreve a sua passagem por aquele corredor luminoso que é a passagem para lá, o ritual asséptico em que ele «pessoa de coisíssima nenhuma», se surpreende como o Outro, a cumprir as tardes de hospital «num vaguear inocente».
Hoje cruzei-me com um há dias anunciado mas já em segunda edição inédito seu. Trouxe-o comigo. Tudo igual no mundo das letras: as segundas distribuições a chamarem-se de segundas edições, o espólio inesgotável à mercê de insaciáveis leitores.
Li o breve livro numa pausa deste fim de tarde em que a cidade arrefeceu. «São as pessoas a devorarem-se a elas mesmas», disse na página 12 o jornalista que bebe com o narrador e com o barman. Senti isso precisamente, envergonhado porque o livro é fraco e o autor de «A República dos Corvos» merecia mais.

3.3.08

Viver à margem

Tinha sabido que ela existia por causa da «Conta Corrente» do Vergílio Ferreira. Depois vi que era formada em Direito. Disseram agora que morreu e deixa uma extensa obra publicada que «viveu à margem da Literatura». Não entendo o que quer dizer uma tal frase. Sei que tive dificuldade em compreendê-la, coleccionando-lhe os livors para os ler um dia, quando fosse capaz. Se um escritor vive à margem da Literatura, é porque a Literatura é um mundo para os que não são escritores. Chamava-se Maria Gabriela Llansol Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim. Morreu hoje, em Sintra, onde eu vivi numa altura em que não sabia que ela existia.

19.2.08

Obrigadinho à mesma

Era o único táxi naquela praça deserta. Quando entrei ouvia a Sétima Sinfonia de Beethoven. Mais do que ouvir a Antena 2, o que é raro entre os taxistas, tinha saudades da Rádio Luna e dos carolas que a sustentavam a partir do Montijo para garantir um oásis de qualidade num mundo de mediocridade comercial.
Lamentámos durante o percurso a vergonha de o sinal da rádio clássica ser tão errático, tão sujeito a interferências, quando por ser da rádio pública devia ter mais meios para ser melhor, quando pela música que difundem qualquer ruído é uma agressão à sensibilidade do ouvinte. Quando chegávamos perto do meu destino dava-me conta do seu gosto pelo barroco. «Se o senhor não tivesse entrado no meu táxi, eu também estava bem», rematou-me à despedida, em jeito de amabilidade.
Fiquei a pensar nisso e na funda filosofia que a frase contém e no modo verdadeiro como a disse. Era o único táxi naquela praça deserta, fechado que estava no mundo em que o belo pode ser interrompido pelo abrir da porta por um inesperado freguês e com ele a entrada do banal e do boçal. «Mas olhe, amigo», rematou ao deixar-me, «obrigadinho à mesma, foi um bocadinho menos de música por um pedaço bom de conversa».

16.2.08

Escrito algures

Eu tenho que acreditar à força na predestinação, porque encontrei hoje, num alfarrabista o livrinho que o Eugénio Lisboa escreveu sobre o seu José Régio e à tarde, na Guia, o próprio Eugénio Lisboa, a perguntar-me pelo meu Graham Greene, sobre quem eu publicara, e ele não sabia, na Mea Libra, um estudo sobre a sua biografia secreta, isso na data do seu centenário.
E porque nesse livro sobre o Régio, que se editou em 1957, ele conclui que com o poema «Sabedoria» o escritor de A Velha Casa, que eu fui ver a Vila do Conde, em dia de extraordinário acaso, «chega, coincidentemente, ao máximo desespero e à máxima serenidade», eu que me lamuriava então de não mais ter escrito nada sobre nada com afinco e com sistema, estou aqui cheio de energia e de entusiasmo. E se eu seguisse o que está escrito algures que vai ser?

14.2.08

Clízia

Por causa de uma obrigação a que me amarrei, pois não há meio de aprender a dizer que não, vim no comboio a estudar o Maquiavel. Não é ler, que isso faz-se, enfim, como quem leria por estranho desfastio o Orlando Furioso do Ariosto ou por insólito deleite as traduções do italiano feitas pelo Vasco Graça Moura ou relesse mesmo, como se fossem livros novos, os Dostoievski's agora traduzidos do russo ou o Musil enfim traduzido pelo João Barrento, só que nunca mais saindo das desventuras do pupilo Törless.
Não é ler, é estudar, de lápis na mão, a sublinhar, entrando pela errática cronologia das suas obras, pelas dúvidas sobre a sua formação humanista, pelas ambições venais do Secretário, e, chegava o comboio ao Pragal, o Tejo à vista, entrando eu pelas intimidades de saber se a Clizia, a última obra sua, uma peça sobre os efeitos devastadores do amor, representada dois anos antes da sua morte, não seria, em aguda e dolorosa consciência, a comédia da velhice, o crepúsculo senil dos ardores impossíveis, a morte anunciada do amar o amor que lhe deu seis filhos, um casamento, e o enamoramento pelos jogos de poder e sedução.

9.2.08

O porvir da nostalgia

Já o tinha visto, ao livro de Jean-Jacques Lafaye, que é mais uma biografia de Stefan Zweig, o austríaco que ressuscitou agora para os escaparates, depois de se ter suicidado, no Brasil, sua pátria de exílio, onde se matou conjuntamente com sua mulher, abrindo a clareira do insólito facto e a dor do desconhecido fim na alma dos seus muitos leitores.
Tinha hesitado em comprá-lo, porque anunciava que tinha uma apresentação escrita por Mário Soares, que considera essa sua introdução «honra imerecida» e «desnecessária» e, a meu ver, despropositada. Mas, enfim, o nome de Soares é sonante e o mercado editorial, magro de vendas, gosta disso.
Comecei ontem a lê-lo, devagar, porque tem uma letra miúda, com dificuldade porque o meu estado de espírito não é o melhor. É uma narrativa em que o discurso por vezes entra na primeira pessoa, transformando-se em auto-biografia, um livro que fala da «sua intimidade com as as palavras, companheiras de cada momento, sua única fidelidade absoluta». No momento em que parei o autor explicava que para o autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher», a pobreza «é uma abstracção». Talvez, mas a sua maior riqueza foi a capacidade de sentir, com distância crítica embora, e sobretudo saber dizê-lo. O livro chama-se «O Porvir da Nostalgia».

6.2.08

Tiroteio editorial

Consegui creio que ontem, porque os dias e as noites já se me confundem na memória, e os feriados e as pontes ajudam à confusão, dar um salto a uma das FNAC's. De repente apercebi-me que o regicídio tinha desencadeado um torvelinho de livros, sobre os mortos e os seus matadores.
Ao cruzar-me pelo escaparate das novidades quase ribombavam os ecos da carabina Winchester 1907 do Buiça e da pistola Browning calibre 7.65 do Costa, mais a fuzilaria da Guarda Municipal.
No panorama editorial as efemérides são um negócio a prazo, os escritores a esgravatarem com um olho no calendário. Hoje felizmente estive trancado a trabalhar quando não levava com os sermões do Padre António Vieiria e com os que nele descobriram o visionário de um mundo por haver. Passava, qual duche escocês, do jacobinismo ao jesuitismo ao virar de uma estante.

2.2.08

Trama

Tinha prometido que o faria e hoje arranjei uma nesga de tempo para o fazer. Fica na Rua S. Filipe Nery, ao Rato, a rua que se sobe ladeando os correios, onde era o velho armazém da Livraria Almedina. Em 1981 fui lá ver chegar, vindo da tipografia, o meu livro de processo penal, impresso na Tipografia Lousanense. É uma livraria, uma aposta jovem. Chama-se Trama.
Fico sempre com o coração apertado cada vez que entro numa nova iniciativa que tenha a ver com livros, imaginando a dificuldade quantas dificuldades há em vingar um empreendimento cultural.
Encontrei um livro que não conhecia, alguma «correspondência» entre o Jorge de Sena e o Vergílio Ferreira. Logo a propósito, a abrir, uma carta do autor do hoje desaparecido «Mudança», escrita em 5 de Fevereiro de 1950, a pedir que lhe comentasse, em crítica, o livro que editara a expensas próprias. É tocante: «rasamente e miseravelmente lhe confesso, portanto, que desejo a discussão para vender o livro. Diabo, seis contos é peso desconforme para o orçamento de um funcionário público».
No último dia desse ano, Sena pedia-lhe, em carta: «e agora posso pedir-lhe um favor que V. fará se puder ou quiser? Esta edição obriga-me à venda certa de uns tantos exemplares. Vê V. possibilidade de me colocar alguns aí em Évora?». Em 4 de Janeiro, chegava-lhe a desanimadora resposta, vinda da Rua Mesquita, n.º 28: «só lamento não descobrir posibilidades, ao menos para já, de colocar alguns exs., isto porque o mercado das minhas relações está saturado pelas frequentes vendas no género. Versos, romances, desenhos, tudo me tem vindo bater à porta, nestes tempos de futebol e de crise».
Hoje, outros Senas, outros Vergílios Ferreiras, escrevem cartas assim, «nestes tempos de futebol e de crise».

30.1.08

A repetição da História

Não sei como, mas ainda consegui começar a ler o livro de memórias do Manuel Poppe, irmão do Lopes Cardoso que foi ministro da Agricultura e teve o nome amaldiçoado pelas paredes de Lisboa, antes do António Barreto, por causa da Reforma Agrária.
Não são grandes memórias, mas é um livro de grandes momentos, como aquele com quem me cruzei hoje, antes de ter a noite aprisionada, quando descobri que o João Gaspar Simões trabalhou de revisor na Imprensa Nacional, emendando provas, grande presença de espírito seguramente para quem haveria de ser um grande vulto na nossa crítica literária.
Vou na página 77. Ontem lembro-me de ter lido que ele estava convencido de que «para perceber poesia, era indispensável o sofrimento». Assim, «ante de começar a ler deprimia-me, esforçava-me por criar, dentro de mim, infelicidade», acrescenta, para que nos sintamos como se sentiu.
Não vou ter tempo de ler. Fica-me a recordação de ele, que viveu na Guarda, me ter trazido à memória o Dr. João Gomes. Conheci-o e à sua extensa biblioteca, quando ali cheguei, fardado de militar, um aspirante a oficial miliciano, contra-vontade no meio das campanhas «dinamização cultural», em vias de passar de bestial a besta, de «herói anti-fascista» a «vendido reformista». É isto a vida e a sua repetição. Uma longa história ou talvez a mesma História.

24.1.08

Uma história portuguesa

O Francisco Teixeira da Mota escreveu um livro «Alves Reis, uma história portuguesa», editado pela Oficina do Livro.
Convidou-me para lhe apresentar o livro. Daqui a pouco fá-lo-ei. Escrevi este texto, para servir como cábula do que direi.


Sabem os juristas o que é uma burla.
Não é um crime pelo qual alguém se aproprie, embora possa haver apropriação; é um crime pelo qual alguém causa um dano, ao enganado ou a outro. Nisso, é parte deste mundo de lástimas em que nas Faculdades se ensina em volta do «bem jurídico» e nos tribunais se aturam os «males jurídicos», como ironizava ontem um amigo meu, ácido porque esperto, risonho porque irónico.
Mas o que torna a burla um crime atraente é, sobretudo, o facto de ser o crime das pessoas inteligentes. Diz o Código Penal de hoje que a burla concretiza-se através de um processo enganatório astucioso, como o Código Penal de 1886 dizia que se materializava pelo artifício fraudulento.
Ao contrário do ladrão, que pratica o furto apoderando-se de uma coisa, apreendendo-a, subtraindo-a, tendo que se mover, vulgar criatura, no mundo das coisas físicas e materiais, diversamente do que abusa da confiança, que entra na galeria imoral dos traidores, defraudando quem nele confiou, o burlão move-se no plano superior das ideias, usa da argúcia argumentativa, manipula o enredo discursivo, é mestre na arte da encenação, o engano é para ele um meio, o erro da sua vitima a vitória da sua inteligência.
No plano dos afectos, ele, o agente do crime é um amoroso, cortejador, longe da rudeza do gatuno, diferente da vilania do usurário, da malvadez congénita do extorsionário.
O burlão é um sedutor, perante o qual a vítima sente-se, consumado o acto, um idiota, um despeitado, ciumento face à urdidura a que se rendeu, enraivecido pelo desejo da vingança que aplaque a imagem de miséria intelectual com que fica de si mesmo.
Eis as palavras-chave em relação à burla: sedução e dano. Eis o caso Alves Reis.
A história é simples, na sua aparência: a reputada firma britânica Waterlow & Sons, tipografia especial, porque imprimia o mais valioso dos impressos, o papel-moeda, recebeu uma encomenda do Governo de Portugal, imprimir notas de quinhentos escudos, com a efígie Vasco da Gama.
Só que desta feita a encomenda tinha o seu «quê»: tratava-se de uma emissão duplicada, ou seja, com a mesma série numérica de uma emissão já em circulação.
Por ser assim, a encomenda era «secreta».
Para que Sir Wlilliam Alfred Waterlow, velho bulldog da praça financeira londrina, não desconfiasse, as notas em causa, a serem lançadas em circulação, sê-lo-iam no espaço restrito de Angola, pelo que, ao chegarem a Lisboa, ser-lhes-ia aposta a sobrecarga a óleo com o nome desta colónia do Ultramar.
Eis uma história já por si extraordinária: Londres honrou a encomenda, tendo tratado do negócio confidencial directamente com Artur Virgílio Alves Reis, portador de dois contratos forjados pelos quais era autorizado pelo Banco de Portugal a tratar do assunto com a casa impressora inglesa [continua aqui]

18.1.08

«Zé, eu não suporto mais isto!»

O Museu do Neo-Realismo expõe amanhã: «O desenho na obra de Dias Coelho». Militante comunista, entrou na clandestinidade em 1955, foi morto a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961. Escreveu a meias com sua mulher, Margarida Tengarrinha, um livro sobre a resistência.
«De todas as sementes confiadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas». A frase é sua, seu o sangue, nossa a memória esperançosa de que não haja sido em vão.

16.1.08

Sintomático

À procura de uns papéis que não encontrava e que teimava existirem, dei com uns apontamentos manuscritos tirados não sei de que livro do Vergílio Ferreira. Numa qualquer página 45 dizia ele que «o maior sintoma de decadência é vivermos à conta do que já fomos». No caso dele as coisas complicaram-se porque, tirando a «Aparição» que tornando-se livro escolar corre o risco de se tornar para as novas gerações um livro insuportável, a maior parte da sua obra está esgotada e não se reedita.Um destes dias encontrei no lugar inesperado de um tribunal quem tivesse lido a «Conta-Corrente», esse diário em duas séries que ele amaldiçoava escrever e escrevia com amor. Fiquei espantado. Nesse dia senti que a profissão não seca as almas, apenas torna ressequidas as que já chegam a elas empalhadas em vida.