9.4.08

A incontável felicidade

A arte de contar de Jorge Luís Borges não é apenas o saber condensar em poucas páginas uma biblioteca de ideias, mas o supremo saber ver tão profundamente cada uma das coisas que, sendo cego, só podiam estar nas entranhas anímicas de si. É impossível que este homem tenha morrido.
Encontrei há uns dias mais um dos seus livrinhos, na língua original. Trouxe-o comigo e como tantas vezes me sucede, comecei a lê-lo do fim.
Servido de uma memória de prodígio, de um cultura de excepção, o que mais maravilha em Borges é a capacidade de imaginar o irreal possível, tornando quase o absurdo desejável. Com ele o que não há, devia ser.
No caso, falava dos Yahoos uma inventada tribo de estupendos seres, que moravam em Mlch, nome que só parece invulgar a quem julgue que fazem falta vogais numa língua e a língua deles, povo estranho em que só alguns tinham nome - e para que haverá tudo e todos de ter nome? -era formada por monosílabos em que cada um traduz uma ideia geral , como nrz, por exemplo, que significava dispersão de manchas e tanto podia querer dizer céu estrelado como leopardo ou até um bando de aves ou tantas outras coisas, tudo dependendo do contexto e da expressão facial de quem dissesse, pelo que era impossível escrever-se, já que o idioma yahoo pressupunha que as pessoas falassem umas com as outras, não que se lessem, as ideias e os sentimentos expressos através de todo o corpo e seus gestos.
Mas vinha isto a propósito de tal excepcional povo ter um sistema numérico contado pelos dedos em que apenas quatro dígitos individualizavam o mundo da quantidade e assim um, dois, três, quatro, muitos, o polegar correspodendo ao infinito.
Ficou no presente real esse insólito sistema fabuloso de um passado inventado: perguntados sobre se vai tudo bem, erguemos o polegar para dizer que sim, o tudo bem, esse dedo a dizer da incontável felicidade do ser.

8.4.08

O Emaús da escrita

Escreveu-me uma carta à mão, como já não se escrevem, com letra tão irregular como incertos os sentimentos que o animaram ao escrevê-la. E contou-me na carta uma história real. O garoto viaja com a mãe no eléctrico, carro aberto, instável, aos sacões. Por causa disso, a senhora, num brusco movimento do transporte, perdeu um sapato. Aflitos ambos, impossível recuperá-lo, o sapato a ficar cada vez mais distante quando, num gesto repentino e intencional, a mãe joga, ante o olhar atónito do filho, o outro sapato à linha, tentando, a golpe de braço, que fique perto do que perdera.
Pergunta o jovem, perplexo, porquê. «Porque a mim o sapato sobejante já não serve sem o perdido, que já não podemos encontrar, aqui vai este para que, juntos, sirvam a quem possa deles aproveitar-se».
Eis a vida numa moral simples. Li a carta até ao fim. Guardei-a junto às outras coisas que nesta vida junto, e que tanta gente não saberia sequer aproveitar.

1.4.08

O troco

A probabilidade de um taxista apanhar em Lisboa duas vezes o mesmo passageiro no mesmo local pelas onze da noite é pequena, mas existe. A eventualidade de o passageiro dizer o nome da rua para onde vai e o taxista lembrar-se da rua com a qual ela faz cruzamento já é menor; mas aconteceu hoje tudo isso com o taxista que adorava a Rádio Luna do Montijo, pela música clássica que passava, a quem hoje resta a Antena Dois.
Desta vez estava taciturno: pouco serviço, por causa do futebol, «o senhor não vê pois eu também não, mas o pessoal fica todo em casa, além disso esta maldita rádio agora deu em ser só conversa». Pois era, «uma chatice», comentei para lhe fazer companhia. Depois disse-me que tinha ouvido no concerto para jovens o Mendelsohn, que não conhecia. «É o da marcha nupcial», disse-lhe, para não ficar calado. «Há outra do Wagner», ainda quis dizer, mas tinha-se instalado entretanto um silêncio de chumbo. A probabilidade de um taxista e seu passageiro irem sorumbáticamente calados essa é muito maior. Cheguei a casa. «Pague-se de sete», disse-lhe eu e «até qualquer dia» ouvi como se a dizer-me «e guarde o troco».

31.3.08

A qualidade do ser

Por hábito compro o JL, algumas vezes consigo lê-lo quase todo, a maior parte das vezes, arrumo-o para o ler com o da vez seguinte e acabo por passar adiante, lido nenhum.
Desta vez vi na capa a palavra mágica «Musil» e sobressaltei-me. Ainda não abri o jornal, mas já vi, espreitando as folhas entreabertas, que era o João Barreto a anunciar mais um passo de gigante na saga de traduzir este notável militar austríaco que marchou para a Literatura Universal; desta feita virá o primeiro de três volumes, dedicado a «O Homem sem Qualidades».
Enfim, uma tradução com qualidades, as do prestígio do tradutor. De há muito que a velha edição dos «Livros do Brasil», publicando a tradução de Mário Braga precisava de sucessor.
Uma das coisas que eu aprendi com o Robert Musil é que «um acontecimento e uma verdade possíveis não são iguais a um aconntecimento e uma verdade reais menos o valor "realidade"». Nesta equação em que equilibriam a ontologia do ser, a lógica da verdade e a epistemologia do conhecer está contida, quase que timidamente, a totalidade da vida. No mais, o livro é um prodígio de ironia, como quando nos lembra que «a zoologia ensina que a soma de indivíduos diminuídos pode resultar num indivíduo genial».

28.3.08

O acaso e a memória

Falaram-me ontem, depois do jantar, em tom de maravilha, de «O Físico Prodigioso». Retorqui que era o livro mais auto-biográfico que Jorge de Sena escrevera. A minha interlocutora não o sabia. Esta noite vim confirmar o afirmado e tenho aqui a meu lado o livro e o texto introdutório, escrito em Março de 1977, onde o seu autor o admite. Ia para copiar a citação e reafirmar o ontem dito, quando um estranho sentimento de revisitação surgiu como uma sombra de mim. Lembrei-me então que já tinha escrito isso mesmo. Foi em 22 de Junho de 2007, também depois de um jantar. Encontrei o escrito, aqui. Acho que não me consegui desembaraçar do atónito. Para quem não acredita no acaso, começa a ser demais: um dia lembro-me de ter falado em ter morrido e acordo morto!

26.3.08

O livro das horas

Já não sei há quanto tempo tinha deixado de usar relógio. Primeiro, foi para não me enervar, no incessante olhar para o mostrador, a angústia de ser tão tarde. Nessa altura não havia ainda telemóveis, pelo que não se viam as horas a olhar para o telefone. Depois, foi porque o relógio deixou de ser um instrumento para se saberem as horas que faltava perder com a sua passagem ou as que se tinham ganho deixando-as passar, e transformou-se num acto de exibicionismo, usado quase em cima da mão, fora da camisa, para que todos o vissem e lhe adivinhassem o preço, como quem passeia mulher vistosa para inveja do vizinho, ou automóvel de luxo para raiva dos colegas.
Ontem ofereceram-me um lindo e discreto relógio com marca de relógio, ponteiros de relógio, daqueles que marcam horas e numa janelinha que dia é. Saí com ele hoje à rua, a passeá-lo, com o orgulho de o saber escondido dos outros, num agrado só meu. Houve um momento em que vi, no seu quadrante dividido em sessenta partes, que eram onze e quarenta, vinte para o meio-dia.Uma sensação de conforto com a vida invadiu-me, a lembrança antiga de ser quase a hora de almoço.

24.3.08

A insurreição

Há um livro do Carlos de Oliveira que se chama «O Aprendiz de Feiticeiro». Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1921 e morreu em Lisboa em 1981.Do livro saíu uma primeira edição em 1971. Em 1979 o autor, minucioso, corigiu definitivamente o texto. E do texto consta uma admirável narrativa do pensamento de «O Inquilino». É um pensar interrogativo e dubitativo, uma ladainha de hesitações: «Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete?». Etc. Etc. Lembrei-me disto, porque o livro estava à mão, entre aqueles que não encontro. E lembrei-me disto, sobretudo, porque o texto acaba assim: «Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?».

23.3.08

A anunciação da Aurora

Pelas quatro da madrugada a passarada arranca, em cantoria, a anunciar a chegada do dia. Os homens ainda o não vêm, porque perderam a capacidade de sentir. Mas para aqueles pequenos seres emplumados, que a Mãe Natureza tornou inteligentes através do seu minúsculo coração, é a anuncição da aurora.
Já sentiram, aprisionado na vossa mão, espavorido de medo, um passarinho, mesmo de insignificante tamanho, o príncipe canário ou o plebeu pardal? O coração descompassado, parece que rebenta, ribombando dentro do peito.
Eis o que o humano perdeu. Hoje Dia de Páscoa, há quem celebre Cristo ter liberto os homens que o pregaram na cruz.

21.3.08

A loirinha

Vinha no comboio. O homem contava as suas façanhas. Elevava a voz como quem busca mais auditório. Não tinha. Era eu, ali no bar, à espera que me arranjassem naquele Intercidades lugar sentado em troca do bilhete no Alfa, que me tinha fintado atrasando-se muito e adiantando-se de surpresa comigo à espera ao frio na gare, e um outro anónimo, magro de carnes e curto de ideias, a boca escancarada, do género dos que nunca perdem na vida um comboio, só não sabem é o destino para onde vão.
E a façanha, proeza de bravo, prova de virilidade, aquilo que o homem proclamava como sendo o máximo de si, era ter bebido cinquenta cervejas numa tarde. «Cinquenta», repetiu como num eco do dito, à falta de pergunta.
Fez-se um denso silêncio. Refugiei-me no baixar os olhos. «E sem ir mijar, que aí é que está a coisa», atirou-nos, ao que o ouvia e a mim que tinha de o ouvir.
Um aperto dorido atingiu-me então o por baixo da coisa. Pouco depois vinha o revisor, salvar-me. Raspei-me, esgueirando-e por ele. «Não vai uma loirinha?», perguntou-me. «Não, obrigado», balbuciei atarantado, «não me sinto capaz...».
Lá ficou. «Isto já nem há homens neste mundo» deve ter arrotado, entre tremoços, a boca limpa às costas da mão.

20.3.08

Mecânica estatistica

Há um momento da Mandraloga, essa estupenda peça teatral escrita no início de quinhentos que ainda hoje é uma paródia ao triunfo dos interesses sobre a moralidade, em que Callimaco, falando a Siro da sua ânsia por Lucrezia, mulher de Niccia, fala dos trabalhadores manuais como as «pessoas mecânicas». Uns séculos depois, martelando horas a fio ao computador, mecânica por mecânica, penso que os que vivem puxando pela cabeça, também o são.

9.3.08

O homem da maratona

Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.

8.3.08

O espelho

«No dicionário de Daniel, Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está constantemente diante de si mesma», diz Daniel, a personagem do Lavagante, o livrinho póstumo de José Cardoso Pires, agora editado. «A solidão conta muito para explicar as mulheres ao espelho», respondeu-lhe o seu interlocutor. Hoje é o dia mundial da mulher. Lembrei-me disto, e vim escrevê-lo. Poderia ter escrito tanto sobre tanta coisa de tanta mulher, mas que importa o que se escreve se é sempre para concluir o mesmo.

5.3.08

A república dos corvos

Em Janeiro de 1995 José Cardoso Pires entrou em morte cerebral, a «morte branca» como lhe chamou. Sentiu-a chegar, ao começar a «desmantelar palavras» ele cuja vida de escritor girava em torno delas. Conseguiu regressar do coma e escreveu dois anos depois «A Valsa Lenta» a que chamou «De Profundis», onde descreve a sua passagem por aquele corredor luminoso que é a passagem para lá, o ritual asséptico em que ele «pessoa de coisíssima nenhuma», se surpreende como o Outro, a cumprir as tardes de hospital «num vaguear inocente».
Hoje cruzei-me com um há dias anunciado mas já em segunda edição inédito seu. Trouxe-o comigo. Tudo igual no mundo das letras: as segundas distribuições a chamarem-se de segundas edições, o espólio inesgotável à mercê de insaciáveis leitores.
Li o breve livro numa pausa deste fim de tarde em que a cidade arrefeceu. «São as pessoas a devorarem-se a elas mesmas», disse na página 12 o jornalista que bebe com o narrador e com o barman. Senti isso precisamente, envergonhado porque o livro é fraco e o autor de «A República dos Corvos» merecia mais.

3.3.08

Viver à margem

Tinha sabido que ela existia por causa da «Conta Corrente» do Vergílio Ferreira. Depois vi que era formada em Direito. Disseram agora que morreu e deixa uma extensa obra publicada que «viveu à margem da Literatura». Não entendo o que quer dizer uma tal frase. Sei que tive dificuldade em compreendê-la, coleccionando-lhe os livors para os ler um dia, quando fosse capaz. Se um escritor vive à margem da Literatura, é porque a Literatura é um mundo para os que não são escritores. Chamava-se Maria Gabriela Llansol Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim. Morreu hoje, em Sintra, onde eu vivi numa altura em que não sabia que ela existia.

19.2.08

Obrigadinho à mesma

Era o único táxi naquela praça deserta. Quando entrei ouvia a Sétima Sinfonia de Beethoven. Mais do que ouvir a Antena 2, o que é raro entre os taxistas, tinha saudades da Rádio Luna e dos carolas que a sustentavam a partir do Montijo para garantir um oásis de qualidade num mundo de mediocridade comercial.
Lamentámos durante o percurso a vergonha de o sinal da rádio clássica ser tão errático, tão sujeito a interferências, quando por ser da rádio pública devia ter mais meios para ser melhor, quando pela música que difundem qualquer ruído é uma agressão à sensibilidade do ouvinte. Quando chegávamos perto do meu destino dava-me conta do seu gosto pelo barroco. «Se o senhor não tivesse entrado no meu táxi, eu também estava bem», rematou-me à despedida, em jeito de amabilidade.
Fiquei a pensar nisso e na funda filosofia que a frase contém e no modo verdadeiro como a disse. Era o único táxi naquela praça deserta, fechado que estava no mundo em que o belo pode ser interrompido pelo abrir da porta por um inesperado freguês e com ele a entrada do banal e do boçal. «Mas olhe, amigo», rematou ao deixar-me, «obrigadinho à mesma, foi um bocadinho menos de música por um pedaço bom de conversa».

16.2.08

Escrito algures

Eu tenho que acreditar à força na predestinação, porque encontrei hoje, num alfarrabista o livrinho que o Eugénio Lisboa escreveu sobre o seu José Régio e à tarde, na Guia, o próprio Eugénio Lisboa, a perguntar-me pelo meu Graham Greene, sobre quem eu publicara, e ele não sabia, na Mea Libra, um estudo sobre a sua biografia secreta, isso na data do seu centenário.
E porque nesse livro sobre o Régio, que se editou em 1957, ele conclui que com o poema «Sabedoria» o escritor de A Velha Casa, que eu fui ver a Vila do Conde, em dia de extraordinário acaso, «chega, coincidentemente, ao máximo desespero e à máxima serenidade», eu que me lamuriava então de não mais ter escrito nada sobre nada com afinco e com sistema, estou aqui cheio de energia e de entusiasmo. E se eu seguisse o que está escrito algures que vai ser?

14.2.08

Clízia

Por causa de uma obrigação a que me amarrei, pois não há meio de aprender a dizer que não, vim no comboio a estudar o Maquiavel. Não é ler, que isso faz-se, enfim, como quem leria por estranho desfastio o Orlando Furioso do Ariosto ou por insólito deleite as traduções do italiano feitas pelo Vasco Graça Moura ou relesse mesmo, como se fossem livros novos, os Dostoievski's agora traduzidos do russo ou o Musil enfim traduzido pelo João Barrento, só que nunca mais saindo das desventuras do pupilo Törless.
Não é ler, é estudar, de lápis na mão, a sublinhar, entrando pela errática cronologia das suas obras, pelas dúvidas sobre a sua formação humanista, pelas ambições venais do Secretário, e, chegava o comboio ao Pragal, o Tejo à vista, entrando eu pelas intimidades de saber se a Clizia, a última obra sua, uma peça sobre os efeitos devastadores do amor, representada dois anos antes da sua morte, não seria, em aguda e dolorosa consciência, a comédia da velhice, o crepúsculo senil dos ardores impossíveis, a morte anunciada do amar o amor que lhe deu seis filhos, um casamento, e o enamoramento pelos jogos de poder e sedução.

9.2.08

O porvir da nostalgia

Já o tinha visto, ao livro de Jean-Jacques Lafaye, que é mais uma biografia de Stefan Zweig, o austríaco que ressuscitou agora para os escaparates, depois de se ter suicidado, no Brasil, sua pátria de exílio, onde se matou conjuntamente com sua mulher, abrindo a clareira do insólito facto e a dor do desconhecido fim na alma dos seus muitos leitores.
Tinha hesitado em comprá-lo, porque anunciava que tinha uma apresentação escrita por Mário Soares, que considera essa sua introdução «honra imerecida» e «desnecessária» e, a meu ver, despropositada. Mas, enfim, o nome de Soares é sonante e o mercado editorial, magro de vendas, gosta disso.
Comecei ontem a lê-lo, devagar, porque tem uma letra miúda, com dificuldade porque o meu estado de espírito não é o melhor. É uma narrativa em que o discurso por vezes entra na primeira pessoa, transformando-se em auto-biografia, um livro que fala da «sua intimidade com as as palavras, companheiras de cada momento, sua única fidelidade absoluta». No momento em que parei o autor explicava que para o autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher», a pobreza «é uma abstracção». Talvez, mas a sua maior riqueza foi a capacidade de sentir, com distância crítica embora, e sobretudo saber dizê-lo. O livro chama-se «O Porvir da Nostalgia».

6.2.08

Tiroteio editorial

Consegui creio que ontem, porque os dias e as noites já se me confundem na memória, e os feriados e as pontes ajudam à confusão, dar um salto a uma das FNAC's. De repente apercebi-me que o regicídio tinha desencadeado um torvelinho de livros, sobre os mortos e os seus matadores.
Ao cruzar-me pelo escaparate das novidades quase ribombavam os ecos da carabina Winchester 1907 do Buiça e da pistola Browning calibre 7.65 do Costa, mais a fuzilaria da Guarda Municipal.
No panorama editorial as efemérides são um negócio a prazo, os escritores a esgravatarem com um olho no calendário. Hoje felizmente estive trancado a trabalhar quando não levava com os sermões do Padre António Vieiria e com os que nele descobriram o visionário de um mundo por haver. Passava, qual duche escocês, do jacobinismo ao jesuitismo ao virar de uma estante.

2.2.08

Trama

Tinha prometido que o faria e hoje arranjei uma nesga de tempo para o fazer. Fica na Rua S. Filipe Nery, ao Rato, a rua que se sobe ladeando os correios, onde era o velho armazém da Livraria Almedina. Em 1981 fui lá ver chegar, vindo da tipografia, o meu livro de processo penal, impresso na Tipografia Lousanense. É uma livraria, uma aposta jovem. Chama-se Trama.
Fico sempre com o coração apertado cada vez que entro numa nova iniciativa que tenha a ver com livros, imaginando a dificuldade quantas dificuldades há em vingar um empreendimento cultural.
Encontrei um livro que não conhecia, alguma «correspondência» entre o Jorge de Sena e o Vergílio Ferreira. Logo a propósito, a abrir, uma carta do autor do hoje desaparecido «Mudança», escrita em 5 de Fevereiro de 1950, a pedir que lhe comentasse, em crítica, o livro que editara a expensas próprias. É tocante: «rasamente e miseravelmente lhe confesso, portanto, que desejo a discussão para vender o livro. Diabo, seis contos é peso desconforme para o orçamento de um funcionário público».
No último dia desse ano, Sena pedia-lhe, em carta: «e agora posso pedir-lhe um favor que V. fará se puder ou quiser? Esta edição obriga-me à venda certa de uns tantos exemplares. Vê V. possibilidade de me colocar alguns aí em Évora?». Em 4 de Janeiro, chegava-lhe a desanimadora resposta, vinda da Rua Mesquita, n.º 28: «só lamento não descobrir posibilidades, ao menos para já, de colocar alguns exs., isto porque o mercado das minhas relações está saturado pelas frequentes vendas no género. Versos, romances, desenhos, tudo me tem vindo bater à porta, nestes tempos de futebol e de crise».
Hoje, outros Senas, outros Vergílios Ferreiras, escrevem cartas assim, «nestes tempos de futebol e de crise».

30.1.08

A repetição da História

Não sei como, mas ainda consegui começar a ler o livro de memórias do Manuel Poppe, irmão do Lopes Cardoso que foi ministro da Agricultura e teve o nome amaldiçoado pelas paredes de Lisboa, antes do António Barreto, por causa da Reforma Agrária.
Não são grandes memórias, mas é um livro de grandes momentos, como aquele com quem me cruzei hoje, antes de ter a noite aprisionada, quando descobri que o João Gaspar Simões trabalhou de revisor na Imprensa Nacional, emendando provas, grande presença de espírito seguramente para quem haveria de ser um grande vulto na nossa crítica literária.
Vou na página 77. Ontem lembro-me de ter lido que ele estava convencido de que «para perceber poesia, era indispensável o sofrimento». Assim, «ante de começar a ler deprimia-me, esforçava-me por criar, dentro de mim, infelicidade», acrescenta, para que nos sintamos como se sentiu.
Não vou ter tempo de ler. Fica-me a recordação de ele, que viveu na Guarda, me ter trazido à memória o Dr. João Gomes. Conheci-o e à sua extensa biblioteca, quando ali cheguei, fardado de militar, um aspirante a oficial miliciano, contra-vontade no meio das campanhas «dinamização cultural», em vias de passar de bestial a besta, de «herói anti-fascista» a «vendido reformista». É isto a vida e a sua repetição. Uma longa história ou talvez a mesma História.

24.1.08

Uma história portuguesa

O Francisco Teixeira da Mota escreveu um livro «Alves Reis, uma história portuguesa», editado pela Oficina do Livro.
Convidou-me para lhe apresentar o livro. Daqui a pouco fá-lo-ei. Escrevi este texto, para servir como cábula do que direi.


Sabem os juristas o que é uma burla.
Não é um crime pelo qual alguém se aproprie, embora possa haver apropriação; é um crime pelo qual alguém causa um dano, ao enganado ou a outro. Nisso, é parte deste mundo de lástimas em que nas Faculdades se ensina em volta do «bem jurídico» e nos tribunais se aturam os «males jurídicos», como ironizava ontem um amigo meu, ácido porque esperto, risonho porque irónico.
Mas o que torna a burla um crime atraente é, sobretudo, o facto de ser o crime das pessoas inteligentes. Diz o Código Penal de hoje que a burla concretiza-se através de um processo enganatório astucioso, como o Código Penal de 1886 dizia que se materializava pelo artifício fraudulento.
Ao contrário do ladrão, que pratica o furto apoderando-se de uma coisa, apreendendo-a, subtraindo-a, tendo que se mover, vulgar criatura, no mundo das coisas físicas e materiais, diversamente do que abusa da confiança, que entra na galeria imoral dos traidores, defraudando quem nele confiou, o burlão move-se no plano superior das ideias, usa da argúcia argumentativa, manipula o enredo discursivo, é mestre na arte da encenação, o engano é para ele um meio, o erro da sua vitima a vitória da sua inteligência.
No plano dos afectos, ele, o agente do crime é um amoroso, cortejador, longe da rudeza do gatuno, diferente da vilania do usurário, da malvadez congénita do extorsionário.
O burlão é um sedutor, perante o qual a vítima sente-se, consumado o acto, um idiota, um despeitado, ciumento face à urdidura a que se rendeu, enraivecido pelo desejo da vingança que aplaque a imagem de miséria intelectual com que fica de si mesmo.
Eis as palavras-chave em relação à burla: sedução e dano. Eis o caso Alves Reis.
A história é simples, na sua aparência: a reputada firma britânica Waterlow & Sons, tipografia especial, porque imprimia o mais valioso dos impressos, o papel-moeda, recebeu uma encomenda do Governo de Portugal, imprimir notas de quinhentos escudos, com a efígie Vasco da Gama.
Só que desta feita a encomenda tinha o seu «quê»: tratava-se de uma emissão duplicada, ou seja, com a mesma série numérica de uma emissão já em circulação.
Por ser assim, a encomenda era «secreta».
Para que Sir Wlilliam Alfred Waterlow, velho bulldog da praça financeira londrina, não desconfiasse, as notas em causa, a serem lançadas em circulação, sê-lo-iam no espaço restrito de Angola, pelo que, ao chegarem a Lisboa, ser-lhes-ia aposta a sobrecarga a óleo com o nome desta colónia do Ultramar.
Eis uma história já por si extraordinária: Londres honrou a encomenda, tendo tratado do negócio confidencial directamente com Artur Virgílio Alves Reis, portador de dois contratos forjados pelos quais era autorizado pelo Banco de Portugal a tratar do assunto com a casa impressora inglesa [continua aqui]

18.1.08

«Zé, eu não suporto mais isto!»

O Museu do Neo-Realismo expõe amanhã: «O desenho na obra de Dias Coelho». Militante comunista, entrou na clandestinidade em 1955, foi morto a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961. Escreveu a meias com sua mulher, Margarida Tengarrinha, um livro sobre a resistência.
«De todas as sementes confiadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas». A frase é sua, seu o sangue, nossa a memória esperançosa de que não haja sido em vão.

16.1.08

Sintomático

À procura de uns papéis que não encontrava e que teimava existirem, dei com uns apontamentos manuscritos tirados não sei de que livro do Vergílio Ferreira. Numa qualquer página 45 dizia ele que «o maior sintoma de decadência é vivermos à conta do que já fomos». No caso dele as coisas complicaram-se porque, tirando a «Aparição» que tornando-se livro escolar corre o risco de se tornar para as novas gerações um livro insuportável, a maior parte da sua obra está esgotada e não se reedita.Um destes dias encontrei no lugar inesperado de um tribunal quem tivesse lido a «Conta-Corrente», esse diário em duas séries que ele amaldiçoava escrever e escrevia com amor. Fiquei espantado. Nesse dia senti que a profissão não seca as almas, apenas torna ressequidas as que já chegam a elas empalhadas em vida.

13.1.08

O sentimento do reflexo

Trouxe-os de Itália, os que encontrei, livros de Italo Calvino. Esta manhã de chuva peganhenta levei um deles comigo, a «Collezione di sabbia», por ser pequeno, por ser leve, caber-me na persistente pasta e poder fazer-me companhia, sem peso ou excesso de presença.
O título deve-se a quanto impressionou o autor, numa exposição de coleccionismo em Paris, ter-se deparado, de entre tão diversos objectos arrecadáveis, de selos a caricas, o trivial dos armazenistas açambarcadores do vulgar, catalogadores do acumulado, frascos de areia das mais diversas partes do mundo, diferente na textura, na consistência, na cor e na maciez, como se epiderme fosse cada uma da terra remota de onde proveio.
Cheguei agora a casa para escrever sobre o que li. Há no livro um capítulo sobre o Japão e neste um artigo em que se diz que viajar serve para reactivar o uso dos olhos, é uma leitura visual do mundo, ver assim o que não se via, distinguir o indistinto
Li e vi que o amor pela lua se confunde muitas vezes com o amor do seu reflexo.

12.1.08

O eu falar de mim

Li-as durante a noite e consegui-o, as 262 páginas do livro de Maria Luísa Blanco, de «Conversas com António Lobo Antunes». Livro emprestado, folheado meticulosamente, está pronto para ser dado de volta, imensamente grato, ao seu dono.
A autora é espanhola e a edição original saíu em 2001. A Dom Quixote, agora deglutida pelo voraz grupo de Paes do Amaral, deu-o à estampa no ano seguinte, traduzido.
Não sei que estranha sensação invade ao penetrar-se nas intimidades de um escritor laureado, mesmo daqueles de quem se passou a gostar: saber-lhe dos amores e dos terrores, a ilusão da infância e o pavor da velhice, as obsessões familiares e a congénita solidão.
António Lobo Antunes nunca se sente só quando está sozinho; a solidão dorida nasce-lhe quando das convivências que lhe roubam o tempo para escrever.
Sabendo-o escritor, escusava de ter querido sabê-lo pessoa, ainda por cima, através do seu próprio verbo.
Foi assim, com esse sentimento de devassa que o surpreendi na banalidade de conversar sobre si, como se numa vulgar bisbilhotice de falar sobre os outros.
Terminei e concluo: prefiro lê-lo, mesmo quando não gosto, no discurso indirecto que nele parece, aliás, sempre directo; é que a auto-biografia, no seu caso, não explica, apenas justifica e pouco.
Salvou-me tê-lo visto, entrevistado por Mário Crespo, em transposição de discurso: «o Mário escreve», diz ele, como se não dissesse «eu escrevo». Extraordinário.

5.1.08

A sabedoria da Rita

Há um amigo meu que nos últimos sete anos manda imprimir, a expensas próprias, um caderninho, de formato sempre igual, no qual compila textos que o marcaram durante o ano. Oferece-o sempre pelo Natal. No deste ano vem uma página dedicada a frases de crianças, como esta fantástica «há muitas coisas que a gente sabe e que as notas não dizem». É da Rita, com dez anos de imensa sabedoria.

2.1.08

O mundo infinito dos livros

Deve ser seguramente da idade e do medo pavoroso da anorexia mental. Mas acho que já disse que me veio parar às mãos um livro chamadao «Libroterapia», que, editado em Itália, ostenta como subtítulo «Um viaggio nel mondo infinito dei libro, perché i ibri curano l'anima».
E porque deve ser seguramente da idade, abri no capítulo que se intitula a velhice cura-se lendo [«la vechhiaia si cura leggendo»], para me confortar, no que ao meu atraso cultural respeita, com a magnífica frase: «leggere in tarda età significa reccuperare il territorio dell'immaginario».
Transportado pelas asas da literatura, era, pois, uma vez...

26.12.07

Um critério em azul

Reconciliei-me, até mais ver, com o António Lobo Antunes, e decidi-me então a conhecer-lhe a escrita. Esqueço o homem e o modo como se descreve, em constante adjectivação de si. Comecei, atrasado vinte e oito anos, com «A Memória de Elefante». Passo adiante dos escancardos palavrões, que enxameiam o texto para além do necessário, mesmo quando proferidos por bocas reais, nas quais são linguagem comum, menos suja a língua do que a alma. Evito subrogar-me, envergonhado, à família quando na sua narrativa descreve factos, dos mais íntimos aos mais torpes, em que os envolve, incluindo os dolorosos e os ternos, como se em cada página matasse de desgosto a própria mãe, expusesse da mulher a própria nudez.
António Lobo Antunes atira-se, de borco, para a sua escrita, mesmo quando sórdida, enlameando-se nela, onde raramente encontramos um momento em que o vejamos sentir a grandeza do momento grande que sabe criar.
É, tenho de o reconhecer, um modo magnífico de escrever o que sente, de descrever sentidamente o que vê. Vou em frente no livro, lerei todos os livros, mesmo quando, já me preveniram, ele muda de estilo e se torna ilegível, dizem-me.
A acção aqui decorre num hospital, a personagem um psiquiatra, filho de médico, traumatizado pela sua condição burguesa, agredido nas suas memórias pela vivido na guerra colonial, esfarelado por uma sensibilidade que quase lhe desintegra o entendimento. É «o que outros chamamos de loucura, que é afinal a nossa e da qual nos protegemos ao etiquetá-la».
Leio e pergunto-me se muitos dos que se dizem seus leitores, por gostarem dele, o serão de facto mais do que eu, que o detesto e aprendi a amar-lhe a escrita. Talvez sejam os olhos azuis que marquem a diferença. Não sei. Deixem-me ler.

25.12.07

O gozo imortal

O Charlie Chaplin que conhecemos é aquela figura coincidente com o garoto que teve roubar comida para sobreviver, fruto de uma infância desvalida, o vagabundo Charlot.
Mas há um outro, o homem da reiterada infelicidade conjugal, semeando um caudal de relações falhadas, divórcios sucessivos e amores irrealizados.
Morreu no dia de Natal. Três meses depois, ladrões roubaram o corpo, para tentarem extorquir dinheiro à família à conta do resgate.
Terminou assim em caricatura milionária , uma vida em que a miséria foi elevada à categoria de ridículo, para gozo imortal de todos nós.

24.12.07

O piar do passarinho

De todas as coisas compráveis, das mil lembranças transportáveis, de tudo o que é possível dar-se, há quem tenha comprado dois passarinhos para dar companhia a quem a não tem. De todos os pássaros compráveis, transportáveis e oferecíveis, houve quem tivesse tido o cuidado de comprar dois, para que um fizesse companhia ao outro, na solidão extrema que é ter de acompanhar quem não nos acompanha. No mais, daqui a pouco, começando a escurecer, é Natal, disse-mo um passarinho, perdão, dois.

22.12.07

A Lua Azul

Quantos sabem que a lua cheia é a totalidade da lua reflectida sobre a terra? Sabem todos os que, vendo a lua, nela pensarem, sentindo-a na alucinação das nocturnas ideias, na revolta das madrugadas sensíveis.
Mas quantos sabem que a lua azul é a segunda lua cheia no mesmo mês? Aconteceu pela última vez no dia 31 de Maio deste ano.
A lua azul é a lua inesperada, a lua do improvável suceder.

19.12.07

O homem de vastos amanheceres

Jorge Luis Borges, descrevendo, num dos seus extraordinários contos o brasileiro chefe de bando Azevedo Bandeira, mostra-o como «um mestre na arte da intimidação progressiva, na satânica manobra de humilhar o interlocutor gradualmente, combinando verdades e mentiras», e explica como é que ele mandou matar Benjamín Otálora, que mais virtude não tinha, nos «vastos amanheceres» de que fazia vida, se não «a enfatuação da coragem» e que ousara desafiar a sua autoridade sobre as coisas e o seu mando sobre os homens.
Com a profundidade de vista de quem é cego, o notável argentino remata a breve narrativa, contando como é que a Otálora foi permitido, antes de o matarem, dentro da sua própria lei, a da bala, viver o mando e o triunfo, mandando, livre, nos jagunços de Bandeira e fruindo-lhe, adúltero, as exigêncidas da sua própria amante: é que, desde o dia em que, ciumento por tudo o que era o ter e mandar, o condenou a morrer, Bandeira já o sabia morto.
Voltei a ler, enfim! Retomei Borges, o livro chama-se «El Aleph», Borges na língua pátria, o modo de pensar como se num esperanto afectivo, a linguagem compreensiva de toda a humanidade.

16.12.07

A perdição dos livros

Leio que abriram aqui 3 300 metros quadrados de livraria; chega-me ao mesmo tempo, por mão amiga, a notícia de que abriu na Rua Augusto Gil 15-B, junto à Avenida de Roma, uma livraria chamada «Círculo das Letras». Quem me avisa diz que será ali «o nosso ponto de encontro». Só pode, seguramente. Na outra, uma pessoa perde-se.

13.12.07

O gato das botas

Houve tempos em que escrevia à mão, em que cheguei a Freiburgo na Alemanha, de comboio, carregando ao ombro uma caixa de fichas bibliográficas, a que colara a etiqueta «frágil», que trouxera do aeroporto.
Houve tempos em que uma amiga minha, investigadora desse instituto, ao ver-me sair da gare ferroviária naquele propósito, me perguntou, em francês, que era então a nossa língua franca, por causa do meu rudimentar alemão: «fragile, qui, vous?».
Hoje foi-se a caixa, que comprara no J. B. Fernandes, ali perto da Praça do Município, que também já fechou. Foi-se a minha amiga alemã. Foram-se as fichas bibliográficas. Foi-se mesmo o chegar a Freiburgo, a pé que seja.
Hoje é tudo na base do computador.
É por causa disso que de quando em vez perco tudo, mais do que perdia: a paciência por exemplo, sobretudo quando me dizem que o problema talvez seja da «motherboard» e de eu não ter feito «backup dos psts's no server».
Houve tempos em que eu escrevia à mão e tinha tempo e paciência para passar tudo a limpo, à máquina. Hoje é tudo mais «fragile», «trés fragile», como descobri ontem que, como se tocasse piano, reaprendi a falar francês. Só falta miar, porque de dores lombares, dizem que por causa da posição defeituosa ao computador, elas são de ganir!

12.12.07

O primeiro violinista

Foi só porque a televisão, entre tantos defeitos, permite captar soberbos momentos que isto foi possível. Foi esta noite no canal «Mezzo», Cecilia Bartoli, com uma ária da ópera de Mozart, Don Giovanni. Segura, sem excessos de afirmação vocal, progredia em sonoridades densas, os imensos olhos negros como se cravados no infinito da glória. Foi então que, o surpreendi, aplicado no seu frágil e desconcertante instrumento musical, esse prodígio da criação melódica, o primeiro violinista, desconcentrar-se por um momento, seduzido por aquele voz. Socorreu-o, nesse silêncio comprometedor, todo o naipe de cordas em seu redor. Naquele segundo, os olhos marejados de lágrimas, ele era, apagando-se como artista para assim contemplar, extasiado, a própria Arte, a imagem real do que é o amor.

11.12.07

Erros na conjugação

Primeiro, a desdentação, grito de alerta nos carnívoros, fealdade facial no lugar da sua mais gritante evidência, a morte do sorriso natural, o mirrar-se uma pessoa engolfada nas entranhas ressequidas de si. Depois, o ranger da ossada, as dores persecutórias a todas as horas do dia e pesadelo companheiro da noite. Imobilizado o corpo, perdida a vontade de rir, resta o voo errático da alma, pelo devaneio de um resto de janela tristonha.
Primeiro, é não notar sequer quem são, depois é segui-las, figurinhas vibráteis de uma juventude que se soergue, soberba da glória carnal, leve na despreocupada forma de viver, adejante, a própria existência.
Um dia acorda-se a pensar de quantos adjectivos é feita a nossa indiferença, empedernidos os verbos, o futuro condicional pior ainda do que o pretérito imperfeito.

9.12.07

Camões e Macau

Eu tenho um amigo que possui, na sua maneira discreta de ser, uma capacidade profunda de surpreender. Quase como quem anda pé-ante-pé por um casa adormecida que não quer acordar, passou por todos nós, a cumprimentar-nos pelos êxitos efémeros, escondidos debaixo do braço, os rolos de um desconhecido texto seu, de que nem murmúrio nos chegava, preocupado connosco.
Ei-lo, enfim. «Camões esteve ou não em Macau?», pergunta Eduardo Ribeiro, um irmão a cuja seriedade eu devo não ter ficado enforcado na corda da infâmia naquele Oriente fatal onde ele se radicou. Como foi possível que tu nem a nós desses conta de que albergavas dentro de ti aquele valor que o teu trabalho demonstra?

A boca e os braços

Generalizou-se o beijo como cumprimento entre homem e mulher e no vice-versa cumprimentador de ambos.
Passou a haver o ritual do um só beijo, a distinguir os que, refinados, não dão os dois beijos plebeus, os que deixam por vezes o segundo beijo no ar das intenções, a cara do outro já recolhida, por imaginar terminada a saudação.
E há os três beijos, tricolores, afrancesados, quase como se distribuindo, na face, força, beleza, vigor; liberdade, igualdade e fraternidade.
Banalizou-se o beijo. O beijo na cara entre desconhecidos que se acabam de conhecer, o beijinho a marcar, em diminuitivo galaico-português, uma expressão de diferença meiga, a beijoca adolescente e ruidosa, o xoxo onomatopaicamente sugante.
Foi-se o beijo na testa, que já nem as crianças recebem. Distingue-se, pois que raro, o beija-mão, venerador e amarquesado. Pareceria hoje equívoco o beijo na boca, à russa, condecoração militar entre homens.
Arrepiraria o beijo no pescoço, vampiresco, o beijar a orelha, ósculo de segundas intenções. E fiquemo-nos por aqui na geografia corporal do beijo.
Multiplicou-se, enfim, o beijo. Foi-se o estender da mão, acto igualitário e republicano, ajudado por enérgicas sacudidelas públicas e burguesas, como se a aspergir alegrias demonstráveis, enterrou-se no baú das velharis a genuflexão ante a senhoria, o abanicar da mão a floreá-la, os dedos fibrilhantes, num volteio de borboleta.
Não há hoje carta, bilhete de recado, email ou conversa que não termine assim, beijocando.
E depois há, neste mundo de abreviaturas sentimentais, o «bjs» e o «bj» querendo dizer o beijo.
A tal ponto se beija, que uma mulher se embaraçaria se um homem, no fru-fru social mais banal, lhe desse, não um beijo ou mesmo dois, mas um simples abraço: no momento em que os corpos se enlaçassem haveria mais humanidade sim no exteriorizar desse saudarem-se ambos, as almas tocando-se, mas mais atrevimento, a físico-química do sentir contido a iniciar a sua função vital, ruborizando-os.

8.12.07

Charamba

É uma canção popular açoriana e chama-se Charamba. Ouvi-a na voz do Adriano Correia de Oliveira, com estes versos que não lhe conhecia: «a saudade é um luto, é um luto, uma afeição, é um cortinado roxo que me corta o coração».
Não sei que outro amor ao que se perdeu, paixão em agonia ao que se não tem, rasgão na pele dos sentimentos idos, melhor exprimirá este modo dorido de o dizer.

26.11.07

O mundo maravilhado

Passam-se os anos, interiormente séculos, quase uma vida se esvai e de súbito, num comboio que termina a sua marcha encontram-se no sorriso da indesmentível alegria de se reverem Ela mirava-o eternecida, acanhada, ele sentiu, ao surpreendê-la, o rufar da alegria no seu interior em festa. Pelos vistos há demasiado tempo que se tinham perdido. Seguiram cada um para o seu lado. Ao perdê-los de vista, carregando as minhas malas, revivi com eles a incontrolável força do gostar. A minha alma, sorriu-se melancólica à ideia, a vida real interrompida por aquele instante de sonho. Estarão hoje remoendo o seu passado perdido, talvez a dificuldade do seu presente, Naquele segundo, porém, todo o mundo parou, maravilhado para lhes dar espaço e tempo de uma vida por viver.

17.11.07

O Príncipe e o pobre

O pai de Niccolò Machiavelli chamava-se Bernardo. Letrado em jurisprudência, ignorava a arte de enriquecer, ao contrário de tantos dos advogados e notários florentinos. Amava, porém, os livros e comprava-os, trocando quantas vezes para isso produtos hortícolas da sua propriedade rural. Maurizio Viroli, cujo estudo sobre o sorriso de Maquiavel estou a ler, diz que a história de Roma, de Tito Lívio, com base na qual o autor da Mandrágora compôs o que foi uma das suas melhores obras, embora a menos conhecida, o Discorsi sopra la prime deca di Tito Livio, a conseguiu ele, elaborando, minuciosa e pacientemente, durante nove meses, um índice dos lugares citados na obra. Como penhor de que cumpriria, o pai Bernardo deixaria ao editor «tre fiaschi di vino vermiglio e un fiasco d'aceto».

14.11.07

O vinho

«Vinda sabe-se lá de onde, uma nuvem entra por mim dentro, invade-me com a sua escura e ardente melancolia». João de Melo escreveu e Paula Rego ilustrou. É um livro sobre o vinho. Ofereceram-mo hoje. Embriagado de cansaço, sonhando mostos e roendo grainhas, lembro-a da fermentação etílica que é o processo de nos irmos evaporando no lento sonho da ressaca de uma vida mal curtida. No fim vomita-se, na valeta do desconsolo, a alegria breve da bebedeira, o sarro pastoso dos copos por beber. É a alquimia mágica do viver.

2.11.07

Criaturas embiocadas

Gente do Algarve, gente que acredita que há quem leia o que vale a pena ser lido, foi buscar a um conto de Manuel Teixeira-Gomes, o nome para uma editora. Chama-se «Gente Singular». Eu e o texto éramos então uma mesma alegria.
Na página 17 já o narrador, saído da casa de Monsenhor Romualdo Simas e suas três irmãs Sebastiana, Prudência e Faustina, «criaturas embiocadas em lenços negros», se acoitara num pensão, ouvindo da «língua horrorosa» do Dr. Ximenes sobre o conservador da comarca de Faro que «tinha palavras de semana santa e obras de Entrudo», do Pedro Carneiro, escriturário da Fazenda que, sedento das «lindas moiras» se embrulhara na ideia hipnótica dos amavios de uma sultana a tal ponto que, aproximando-se da cama do que julgava ser uma noite no serralho, «sem acender a luz para mais apimentar os preâmbulos da aventura», se cruzara no ansioso palpar com o Celestino, sua voz grossa e sabe-se lá o quê de inesperadamente pronto.

27.10.07

A desbunda do arrear crítico

Dizer que um livro de Urbano Tavares Rodrigues, para mais um seu livro recente, é medíocre, é arriscarmo-nos a arranjar sarilhos, porque em Portugal há figuras que atingem uma grau de soberana intangibilidade e as pessoas receiam desdizer, concentrando em outros bodes a desbunda do arrear critico. Mas eu estou na fase do querer lá saber.
Fere-me estar a ler parágrafos de escrita vulgar no seu romance «Ao contrário das Ondas», que ontem trouxe de uma livraria de Aveiro e ainda pela noite, já a cair de desolado cansaço, tentei ler.
São frases que pretendem ser, obsessivamente, mostras de azedume cívico, demonstrações de intervenção social, credos na boca de esquerdismo político, como se o leitor não soubesse quem ele é e quem ele foi, e Urbano tivesse de exibir na cidade vigiada das Artes, a cada polícia da boa literatura militante, o seu passaporte com o visto em ordem, sem o qual não há livre trânsito na escrita.
Ali há um tal António Pedro que vai ao teatro e, claro, a peça é de Bernardo Santareno, há uma conversa à mesa, e obviamente tem de ser sobre a queda do Governo de Vasco Gonçalves, fala-se de Lisboa e lá vem, pois, que é gente bacoca «com ódio à liberdade, e com desdém pelo povo, excepto quando fazem discursos eleitorais». Há ali disto de embarda.
Eis aqui neste modo de escrever, tardio, teimoso, o que desvalorizou, como arte, o neo-realismo: o fingir ignorar, na sua ânsia de ser política através da escrita, que há mais mundos que os do clandestino homem da bicicleta, há mais humano que no social.
E, no entanto, Urbano tem momentos de densidade sentimental, como quando nos conta que para Lívio, em Sabina, havia «muitas zonas da sua intimidade que lhe eram alheias», para aí surgir António Pedro que, subrogando-se a Lívio, «a impediu de secar completamente como mulher». Só que, é neste livro, desgraçadamente é amiúde uma sensibilidade espasmódica de fornicação, o sexo como ginástica do corpo, mecânica dos fluídos, ócio dos afectos, omitida a palavra amor, os beijos-ventosas salivados de insanciável sensualidade, o «nada de sentimentalismos, disse ela, repelindo-o».
E, claro, logo adiante e por todo o lado, como se num comício sempre dos mesmos contra os do costume, o livro feito cartaz, a literatura propaganda, lá vai Lívio falar sobre a blogoesfera à Fundação Luso-Americana para se dizer que se troçava da assistência, o Lívio que, deputado do MDP, falava com elegância de questões de fundo, não sem antes, como independente de esquerda, chefiar um serviço na RTP, eis um moço que é da JCP e detesta o ministro da Justiça, até, enfim ei-lo que chega, o próprio cego que vai tocar gaita de beiços ao monte alentejano e obviamente toca a Kalinka e, ai, a Cumparsita!
Fico-me, social traidor e decadente burguês, pelo tango, roçagante, lascivo, lubrificante, omitida a palavra amor. Acompanhou-me na noite sovada. Hoje, pois acordei, vou ler o resto do livro, para me irritar. Depois ataco a «Obra Completa», na esperança de de que haja um Urbano diferente e sobretudo melhor.

26.10.07

Se uma gaivota voasse

Estive esta tarde no museu do mar em Ílhavo para descobrir o que é a solidão de um um homem, na pequenez entorpecente de um «dóri», o mar gélido como presença, um fio de pesca como esperança, a dura faina pesqueira como ganha-pão.
Foram heróis, na Terra Nova, esses nossos portugueses, escravos marítimos, salgados nas entranhas, como os bacalhaus que pescavam.
Etimologicamente a palavra «dóri» provém de dor, da dor sentida, para além dos ossos e nos confins da alma. Afogada em aguardente, nas saudades de casa, no contido desejo de voltar.
Sente-se hoje o cheiro do pescado salobre, a caminho do Cais do Sodré, na Rua dos Bacalhoeiros, impregnado na cal das paredes, ida que foi a frota de pesca, perdidos os barcos, recolhidas as velas, ancorada uma vida em terra, como gaivota entristecida sem céu para voar.

3.10.07

Tempo presente

O «blogger» permite fazer o que vou fazer: atrasar o tempo, fazendo com que estas palavras tivessem sido escritas antes da hora em que a Cinderela perde o sapato de cristal.
Faço isso para ficar feliz com a ilusão de que consigo pensar todos os dias, quando há dias em que, robotizado, nem tempo para isso há, e faço isso para que pareça que tenho, como espaço, todo o tempo do mundo.
Claro que há a aparência de verdade de já passarem sete minutos da meia-noite e o desespero de eu estar em Braga, com lembranças de Braga e saudades de Lisboa. Dentro de segundos, graças ao blogger torno o passado presente, como quem empurra para longe de si o tempo futuro.

1.10.07

O vai-vem

Ir para os lados de Aveiro de manhã e de manhã regressar, ter de trabalhar antes de ir, ainda noite escura, e ter de trabalhar pela noite fora, agora que escureceu, só não me dói porque me dói mais a dor dos outros, com vidas ainda piores e que, com dignidade, silenciam o seu queixume.
A meio da viagem, na Antena 2, ouvi um programa sobre William Faulkner e uma das suas frases inesquecíveis. Perguntando-lhe alguém «mas, senhor Faulkner, que deve fazer quem não entende os seus livros, mesmo depois de os ler três vezes?», respondeu com ironia o laureado Nobel: «lê-los uma quarta vez!».
Ao chegar a Lisboa, a cair de sono e a ter de me acordar, pensei que na quarta vez em que viver, talvez entenda a vida que vivo.

22.9.07

Rijo como um labrego

Parece que foi há um século que deixei de ler sem ser por obrigação.
Ontem à noite, com os olhos meios piscos, as letras a trocarem-se, tomei em mãos o Manuel Laranjeira, e de novo as suas «Cartas».
Já nem sei se foi este o último livro dos muitos cuja leitura interrompi, mas reencontrei-o numa carta a Ângelo de Almeida, desanimado, possuído da sua desolação infinita, em «apocalíptica lamentação», enfim o estilo decadente que lhe marca a patológica psicologia, numa sociedade mais doente do que ele.
Os meus amigos quando eu escrevo estas coisas pensam que por algum mimetismo eu estarei num estado semelhante, tal como naquela lei sociológica da imitação que já fez escola há umas dezenas largas de anos atrás.
Ah!, os meus amigos, aqueles que, a escreverem-me deveriam tal como ele desejou ao dito Almeida esperar encontrar-me «rijo como um labrego». Rijo e analfabeto, que as letras matam o corpo, fazendo o coração pensar e a cabeça sentir.

15.9.07

A escada do infinito céu

Ando à procura de uma escada que seja alta na medida suficiente para me permitir alcançar a parte superior da estante dos meus livros. É que estou a cansar-me de os ver rastejantes, cercando-me a cama, por impossibilidade de os arrumar lá em cima, no lugar que, ansioso, os aguarda.
Procurei em vários sítios. Já me contento que ela seja em frio alumínio, desejando-a, embora, em morna madeira! Hoje, na loja do chinês aqui em baixo, a empregada tentava, entre vénias, explicar-me naquela língua em que os «erres» agressivos foram substituído pelos «éles» amaciados: «não ále, só dois deglaus, alto mais não fazê-le».
Olhei aquela filha do Império Celeste, a idade a mantê-la naquele corpito franzino eternamente de adolescente, o íntimo pensamento impenetrável. Esbocei um sorriso. À saída um Buda em plástico, que dá alma aquele amontoado de quinquilharia barata, sorriu-me também.
Inútil tentar subir ao céu quem nasceu para viver na terra. Irei ao IKEA, rumo ao Norte. Talvez ali, mais perto da Estrela Polar, na via do sonho, encontre a minha escada.

8.9.07

Leituras de cabeceira

A ânsia de ler o atrasado, aqueles livros que houve um tempo em que todos os tinham lido, mesmo os que os não entenderam o que liam; a pressa reler os livros que não faziam falta quando os pude ter e já não existiam quando os desejei rehaver. Tudo isso é hoje o meu modo de ser enquanto leitor.
Sim, porque ter lido o «Rumor Branco» do Almeida Faria naquela primeira edição que deu brado não é o mesmo que tê-lo hoje que tem obra consagrada e parece que já nem escreve.
E depois é aquela preocupação obsessiva de, quando se gosta de um autor, querer ler tudo o que ele escreveu, comprar um a um todos os seus livros e todos os livros sobre si, fazer listas e no fim correr de adelo em alfarrabista para reconstituir o que falta, parecendo que há sempre mais um na bibliografia inédita.
Claro que se sofre com isto. Foi assim com a obra do José Gomes Ferreira. O que eu me entristeci quando li «O enigma da Árvore Enamorada, divertimento em forma de novela quase policial», por achá-lo petulante de título e péssimo de estilo, a narrativa da «árvore que se apaixonara por Ema e que tinha ciúmes do cão!».
A personagem central chama-se Martinho de Samardã, nome foneticamente adequado para o caso, onomatopaicamente sugestivo de recorrências.
Hoje, que andei a arrumar os dispersos que já cercam o estrado que faz de cama, dei com ele, aplicadamente sublinhado, porque o li todo, sacrificado mas fiel.

25.8.07

Resultado zero

Enfim, a chuva, lavadora de valetas humanas, fecundadora da terra de si ansiosa. A chuva e a sua companheira trovoada. Há muito que a não ouvia, electrizante, ribombando, multiplicando ecos e iluminando-nos com as suas múltiplas estridências. Quando era garoto contava pelos dedos o tempo em segundos da faísca ao trovão e como produto de cada cálculo mental da multiplicação por trezentos e quarenta metros achava a distância do raio, normalmene em quilómetros. Era uma forma infantil de me ir assuntando à medida que o número decrescia.
Um dia, andava pela terceira classe uma descarga fulminou o pára-raios da minha escola. Foi aí que descobri que pequeno é o Homem comparado com a grandeza da Natureza e aprendi a primeira lição de humildade. Nesse dia a minha conta ia dando resultado zero. Igual a nada!

19.8.07

A renovação do ser

Há o costume de no dia 31 de Dezembro se jogarem fora coisas velhas, de no primeiro dia do ano se ir almoçar fora, tudo esperanças de que o renovar do calendário traga novidade e, nas sociedades onde há pobreza, comida!
Há entre os orientais, o hábito de nesse dia comprarem um animal em cativeiro, como um pássaro numa gaiola, ou um peixe num aquário e darem-lhe a liberdade.
Há em mim o começar muitas vezes o ano sob o peso das amarras, na ânsia de me renovar: assim é no dia um de Janeiro, depois das férias de Verão, quando fico mais velho um ano, quando acordo de manhã bem disposto.
Hoje ouvi falar da beleza do mar e lembrei-me da sua eterna renovação. Por um instante quis ser o peixe ou o pássaro devolvido a todas as possibilidades do ser, que é, filosoficamente, a essência primária da liberdade.

18.8.07

Leituras iniciáticas

Acho que já me queixei aqui disto: a Livaria Bertrand, que terá os direitos autorais do Aquilino Ribeiro ,deixou esgotar grande parte das suas obras, sem as reeditar. A mesma Bertrand, que editou em vida o Vergílio Ferreira, praticamente já só vende do Vergílio Ferreira a «Aparição», que passou, coitado dele, à maldição compulsiva de livro escolar.
Claro que os editores não são beneméritos da Pátria, mas estes livros não deveriam ser daqueles que deveriam fazer parte de um acervo de obras obrigatórias que o Ministério da Cultura tornasse inesgotáveis?
Lembrei-me disto porque ontem um artista plástico, filho e neto de bibliófilos, me falava, com enlevo, nas várias primeiras edições que havia em sua casa, entre elas uma obra extraordinária do Camilo Castelo Branco, o «Frei Luís de Sousa».
Não me ri porque me apeteceu chorar. Razão teve o Camilo para dar um tiro na cabeça!
Hoje na FNAC uma bem arranjadinha senhora, daquelas de malinha e gargantilha, que educou filhos e toma agora conta dos netos quando os pais vão ao cinema ou se divorciam, ou em ambas as circunstâncias, folheava, pausada e deliciada, a secção de literatura erótica. Nunca é tarde para se aprender, de facto. Afastei-me, discreto, deixando-a no deleite daquela iniciação ao tempo que lhe resta com o corpo que lhe sobra.

17.8.07

Um instante

Usava um kilt, mas nem sequer era europeu quanto mais escocês. Era negro e americano. Usava botas militares e ao peito um símbolo pacifista. A roupa era medíocre, os dedos vinham inchados de anéis em ouro. Acompanhava-o um cão dos que guiam cegos, mas nem ele era cego e o cão era uma cadela. Eu regressava de comboio com vontade de viajar de comboio. O mundo parou por um instante e sorriu para nós. A rapariga bonita que viajava connosco sumiu-se na multidão, ignorando-nos, os olhos postos no ponto imaginário de alguém que a desejasse.

16.8.07

O Príncipe, de comboio

Vim de comboio de Loulé a Braga a ler o «Príncipe» do Maquiavel, por causa de uma promessa de trabalho em que me enredei e quero cumprir até ao final de Setembro. Cheguei à conclusão que ele escreveu a obra para fomentar um principado que salvasse a Itália dividida, quando o seu coração se inclinava para a República romana.
Cheguei agora, ao Hotel da Estação, e cruzei-me na recepção com o revisor e o maquinista, que vão também pernoitar por aqui. Qualquer dia eu e a CP somos uma família e ainda passamos a Consoada juntos.
Instalado, vim aqui ao meu bloco de notas, deixar um apontamento do que li ferroviariamente.
Maquiavel quiz dedicar a obra a Juliano de Médicis, que teria na altura 25 anos. Só que este magnífico florentino morreria inesperadamente e o livro seria dedicado a Lourenço de Medicis, duque de Urbino, O Magnífico, que por sua vez morreria, jovem também, em 1519, sem poder concretizar os conselhos que assim recebia.
É por isso patético o momento em que, no capítulo 26, exortando o jovem a que cumpra o espírito italiano e trate da redenção da sua terra e a liberte «das mãos dos bárbaros», lhe lembra que «Deus não deseja tudo fazer, para não vos tolher o livre arbítrio e o quinhão de glória que soubermos merecer».
Tinha razão: Deus, não desejando tudo fazer, encarregou a morte do que tinha de ser feito.

11.8.07

A piedade de Deus

Vaidoso, senhor de si, barroco no estilo, petulante mesmo na forma, Hermano Saraiva está a deixar um legado invulgar sobre a visão do Mundo e da sua pessoa. Nos fascículos em que nos conta, dispersas, as suas memórias, são os pequenos momentos que me atraem e me prendem à leitura.
Como naquela escrita, tão íntima e sentida, perpassa o amor que ele nutria pelo irmão António José, que lhe ganhou a dianteira no caminho para a morte!
Ei-lo, ante o Panteão em Roma, a sentir-se capaz de ali mesmo, ante aquelas gigantescas colunas, rezar e a recordar que aquele que era carne da sua mesma carne «não rezaria em nenhum altar. Nunca estava contente consigo próprio. Pensava e rasgava o já pensado».
A um homem destes, falho de fé, só lhe vale a piedade de Deus, se Deus o não abandonar, misericordioso e contristado pela sua alma.
Hoje é sábado, continuo a ler, tal como ele na Piazza Navona: «tenho o sentimento de que não sou eu que estou na praça, é a praça que está em mim».

8.8.07

O vácuo

Acabei de ler um extraordinário livro que sendo sobre o culto do chá é, afinal, uma escola de vida. Há nas suas poucas folhas, momento singulares em que o taoismo, o confucionismo e o Zen se convocam para nos mostrar quanto enganados andamos na multiplicade das nossas exigências, na quantidade das coisas que nos cercam.
É «a reiteração do inútil» que caraceriza a maioria dos nossos lares. Ora só no vazio está a essência do todo, só ele permite preencher o espaço através da imaginação. Ao deixar algo por dizer, fica sempre a eventualidade de se completar a ideia, ensinou Laotse. Acabei de ler um livro pequeno, em que as folhas que lhe faltam são, afinal, tudo o que há para ser pensado.

7.8.07

Livros idos

Lembro-me do livro sobre Vilarinho das Furnas. Ficou. Ficou outro sobre Rio de Onor. Tantos outros ficaram. Recordo-me deles, ao ler esta madrugada: «etnólogo e antropólogo português, António Jorge Dias nasceu no Porto, cursando Filologia Germânica na Universidade de Coimbra e ingressando, a partir de 1938, como leitor de Português em universidades alemãs e, posteriormente, em Espanha. Foi na Alemanha que, influenciado pelos estudos locais, se especializou em Etnologia, onde veio a doutorar-se em 1944».
Vem isto no site da Biblioteca Nacional, a propósito de uma exposição documental sobre Jorge Dias. Até 4 de Setembro. Não me devolverão os meus livros, nem me atrevo a pedi-los. Irei matar saudades deles e da falta que me faz a ideia de os ter.

4.8.07

Afinidades

Trouxe comigo, entre outros, um dos livros do Wenceslau de Moraes que não consegui acabar de ler durante os últimos meses, «Os Serões no Japão». São apontamentos, menos do que crónicas, mais do que notas. Um deles, queontem li, abre com uma anedota a de um velho juiz que, a julgar um caso de bigamia, e ao não se lembrar que pena cabia a tal crime, segredou ao colega a pergunta respectiva, obtendo como resposta que a pena era «ter de aturar duas sogras».
Como, nos termos da lei, as afinidade se não quebram com os divórcios, quem casou muitas vezes com ex-casadas, vulgaridade neste mundo moderno em que os casamentos se numeram, está condenado a mais uma infelicidade desse seu atribulado passado conjugal. Qualquer que seja a ex- para que se volte houve-a falar «na minha sogra», querendo dizer a mãe do outro. Depois uma pessoa habitua-se a que aquilo não tem sintomaticamente a ver consigo. Ao menos, nesse linguajar doméstico, algumas viúvas, que se vão pela lei da morte libertando, estão mais defendidas, porque se referem sempre ao «falecido que Deus haja». Algumas acrescentam «e que a terra lhe seja leve, apesar de tudo». O dito, esse, não passsa pelo embaraço de ouvir.

31.7.07

A atracção lunar

O livro é muito pequeno e é daqueles que os livreiros, astutos, colocam perto da saída, para tentarem os leitores. Ali estão, num «leva-me contigo» que chega a fazer dó, depois de tantos outros terem ficado para trás.
Trouxe-o. Trata do culto do chá, é escrito por um japonês e tem por isso a beleza subtil das coisas profundas que nos passam despercebidas: Kakuzo Okakura.
Através dele e da sua delicada escrita, abeirei-me do sublime, em silenciosa reverência. Esta noite a lua começa a descer já nos céus, quente e tentadora. «Sonhemos com a evanescência, e demoremo-nos na bela tolice das coisas». Estou neste momento com esta frase, a desejar sair pelas ruas, sem motivo razoável, sem destino a que chame certo, sem a inteligência sequer de um rumo. Tal como as marés, atraído pela força lunar e seu magnífico apelo à renovação das almas.

22.7.07

A pragmática da comunicação crustácea

Regressei a Lisboa ouvindo a «Antena 2» e nela uma entrevista sobre o autor de um livro que há pouco comprei sobre a série que a «Caminho» está a editar sobre linguística. Este é dedicado à pragmática. O seu autor, José Pinto de Lima, escreve melhor do que fala, o que me recordou o capítulo inicial do seu opúsculo intitulado interrogativamente será verdade que «há falar e há fazer?». Que o digam na política os mestres cantores das promessas, na sociedade civil os obreiros silenciosos.
A pragmática trata da função da língua. Hoje ao almoço, ainda com o mar à vista, perguntou-se ao empregado do restaurante o que havia de sobremesa. Respondeu «nada, só fruta, pudim e gelados». No fundo o que ele queria dizer «não repararam que temos gente à espera da mesa?». Não se tinha reparado, nomeadamente que era um grupo de estrangeiros dos que com muita probabibilidade comem lagosta com vinho rosé. Um pragmático, em suma, mestre linguista, empírico mas eficaz.

20.7.07

Mossas na alma

Ao findar um «epitáfio» aos «Textos Sadinos» do Luiz Pacheco, de que o seu amigo editor Raposo Nunes encontrou agora uns quantos exemplares, com um dos quais me cruzei esta tarde, Ângela Caires cita o escritor: «Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta Viagem». O livro alberga textos diversos, um deles a narrativa da história que levou Pacheco ao Torel, dali ao Tribunal da Boa-Hora, para fundear na cadeia, por envolvimento sexual, porque amoroso, com uma menor. Nas suas próprias palavras «é uma história de amor, triste como o costume. As histórias de amor alegres não são para contar. As verdadeiras acabam sempre mal duma maneira ou doutra». Consegui ler o livro quase todo, esta tarde, nos intervalos da profissão: «estas coisas aos vinte anos custam, lembrá-las aos sessenta faz mossas na nossa alma». Estou quase lá. Mais dois anos, carregado de nódoas negras.

18.7.07

Triste hino à alegria

Porque há mais mundo do que o social, ontem estive ainda com o «Diário Íntimo» de Manuel Laranjeira. Médico em Espinho, Laranjeira suicidou-se por já não conseguir sobreviver à vida. O Diário é um escrito singelo, sem pompa, por vezes ingénuo, com momentos de surpreendente observação. No dia 8 de Maio de 1908, uma sexta-feira, confiou à folha da agenda médica de que fazia repositório memorialista, como descobrira que Beethoven fora «infinitamente triste, tragicamente triste, divinamente triste»: porque «concebeu e sonhou uma alegria que não existe».

16.7.07

O encontro e a separação

Graças ao meu amigo que lá se ficou pelo Oriente fatal, continuo a ler o Wenceslau de Moraes, de que ele me envia, pelo correio, livro a livro, todos os que estão a ser editados em Macau evocativos da sua extraordinária obra. Estive ontem com um dos seus contos, em torno de um provérbio japonês. Escreve-se, em grafia ocidental, «Au Wa wakaré no hajimé» e traduz-se, diz Moraes, em versão livre como «o encontro é o começo da separação».
Curioso não é a natureza budista desta frase, mas sim, que, ante ela, e colocado perante o confrangedor princípio segundo o qual «se quiseres evitar a separação, evita o encontro», ele nos anuncie, com aquela candura triste que a velhice traz que «em assuntos de amor, eu creio mais nas borboletas do que em Buda».

14.7.07

O hóspede

Ter tantos sítios onde se pode escrever, não quer dizer que se escreva. Às vezes é a falta de tempo, outras a de paciência, muitas vezes o querer falar pelo silênciao.
Ainda por cima um ser humano não se esgota numa profissão, numa militância cívica, mesmo numa vivência filosófica. Sobeja às vezes pessoa dentro do indivíduo.
Aconteceu assim.
Estou, em intervalo do meu viver, num magnífico lugar, casa antiga que hoje sobrevive à conta do turismo de habitação. Casa de memórias acumuladas e poupadas, casa de delicadeza sóbria, de vida experimentada. Local de enamoramento de um casal que a vida não separou. Casal onde se lembram os dias dos aniversários natalícios, dos casamento, as datas da formatura, de nascimento dos filhos e do baptismo dos netos.
Acordo e sinto o passado como se presente estivesse e pesa-me então a lástima do que é uma vida desagregada, um hópede que adopta o calor de uma família alheia, os ecos dos seus risos, a sua angústia ante o futuro, como se fossem os seus, à falta de mais alguém.

23.6.07

Os meus livros

«Para qualquer pessoa em isolamento, que não fala por não ter com quem falar, os livros, se sabe ler, tornam-se companheiros, amigos carinhosos, com quem de boa vontade se trocam impressões. Por isso eu quero os meus». A frase é de Wenceslau de Morais, escrita no seu «viver de exílio». Leio-a, regressado à grande metrópole onde vivo, povoado de criaturas com quem é possível, em teoria, falar-se. Leio-a uma vez mais, o livro encontrado entre os meus livros, amigos carinhosos, que não antecipam na sua cabeça a nossa partida e esperam, impacientes, a sua vez.
O cão de Tokushima, soube ao continuar a leitura, «desconhece o uso das festas e das carícias; se as recebe por acaso, não sabe retribuí-las; quer comer não quer festas». É assim, entre o rosnar do mundo dos homens e os livros. «Por isso eu quero os meus», por isso eis-me entre eles, de boa vontade.

22.6.07

O Diabo encarniçado

Saí deste jantar com a urgente necessidade de vir confirmar quão biográfico seria, como dizia ser, o livro de quem escreveu «O Físico Prodigioso». Encontrei-o e logo nele o excerto que, hesitante, em tempos sublinhara, quando o cavaleiro, «num gemido ansioso abraçou-se ao espaço, voltou-se e rolou, e entregou-se ao Demónio, que fez dele o que quis, e a quem ele fez quanto ele desejou». É Jorge de Sena, o Diabo encarniçado em vão.

16.6.07

O homem que se reduzira a si.

Hoje é um dia em que a Natureza resolveu que chovesse. Dei por isso quando estava já na rua, um livro para continuar a ler. Li, a «A Hora de Estrela», da Clarice Lispector, que prossigo, maravilhado com ela e por sua escrita seduzido.
Na história, Macabea conheceu Olímpico de Jesus, metalúrgico. Ela seca de carnes, encardida e de «cheiro murrinhento», dorida por ser feia.
Namoram sem se amarem, indispondo-se até ao silêncio.
Na hora de se separarem, tentando ser amável e não a ofender, ele diz-lhe: «você é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer». Ela, «rindo por não se lembrar de chorar», pediu-lhe que lhe dissesse logo adeus, abreviando o fim.
É uma história triste, de amores desencontrados com gente vulgar.
Na parte em que estou surge Glória, um «estardalhadaço de existir», a quem ele se agarra com «a força de um zangão», porque «ela lhe daria mel de abelhas e carnes fartas».
Clarice Lispector faleceu a um dia de fazer cinquenta e sete anos de idade, vítima de um cancro fulminante. Este livro escreve-o como se fosse o homem que «reduzira-se a si». Nascida na Ucrânia, escrevia para não morrer.

13.6.07

Dormir até o nunca

Voltei a ela, agora num seu livro de há trinta anos, «A Hora da Estrela». Mulher a fingir narrativa de homem trai-se quando conhece «adjectivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de acção». Conheci a Clarice Lispector, através do Vergílio Ferreira. Foi ele quem, já morto, ma apresentou, ela já morta também, através de um dos seus livros, o neurótico diário do seu ensimesmamento angustiado em que me reconheço.
Hoje é esta mulher ausente quem me fez companhia, dia feriado, eu com os sonos trocados, estirado num sofá, amaciando-me literariamente o ser áspero e rabujento. A sua personagem, insignificante dactilógrafa e só, «para adormecer nas frígidas noites de Inverno enroscava-se em si mesma, recebendo-se e dando-se o próprio parco calor».
Lê-se isto e apetece parar o mundo em sua translação, para que o tempo não siga, em sua rotação para que a noite não chegue e com ela o «dormir até o nunca».

8.6.07

Se eu soubesse

«Não durmas, quando não a noite acaba». Está num livro do João Miguel Fernandes Jorge, que hoje trouxe da magra Feira do Livro. Editado há sete anos chama-se «No Verão é melhor um conto triste». No pórtico está, como se gravada a ouro, uma lição de vida: «se eu soubesse - é a frase mais inútil que conheço». Se eu soubesse como é o fim do dia, tinha acordado na hora de adormecer.

2.6.07

A invenção dos dias

Muitos dos livros que o José Gomes Ferreira escreveu são auto-biográficos. Um deles chama-se «A Imitação dos Dias». O meu exemplar, que é o da edição da Portugália, largou já a capa, por causa de eu o ler repetidamente. Maníaco como sou do mundo ordenado, talvez por viver em desordem permanente, a partir desse momento, tem sido como se o sentisse rasgado em dois, a capa um dos seus segmentos de corpo, agora amputado e dividido. Por isso, irado comigo, não tenho sido capaz de lhe pegar, nem sequer, de si condoído, de olhar para ele. Muitas vezes escondo-o no meio da pilha de livros que vou amontoando ao lado da minha cama, para o poupar à vergonha da sua condição de mutilado.
Esta manhã, devolvido ao mundo com um acordar pastoso como o de uma ressaca, li-lhe o momento em que o António Ribeiro de Pavia, vivendo de desenhar para matar a fome, «com a barriga vazia, nas noites sem amor, pôs-se a inventar mulheres nuas no papel».

1.6.07

Fiambre da perna

Criticando, para o jornal «Público», o livro de contos que escrevi, Pedro Mexia diz que «Barreiros cai demasiadas vezes no excesso de adjectivos, na inversão desnecessária de frases, nos arroubos poéticos invariavelmente falhados ou nas frases estropiadas ou gordurosas». É uma opinião, expressa numa pequena frase com seis adjectivos deprimentes. Só houve uma parte da crítica de que não gostei, a das «frases gordurosas».
Não é que o livro seja de bolso, mas vá que alguém o leve junto ao fato, a obra a escorrer gordurosa, pingue de banha, como se de um embrulho de toucinho ou de um pacote de torresmos se tratasse.
Peço, por isso, licença, para me defender: o livro não é seco de carnes, mas não é tão adiposo como Pedro Mexia o julga.

30.5.07

A agonia do real

Quando uma nave espacial reentra na atmosfera sofre um choque que quase a destrói. Quando uma criança nasce do ventre de sua mãe, grita de dor, como se ao entrar-lhe o ar exterior nos pulmões, lhe entrasse o desejo de sufocar. Quando o mundo da ilusão reencontra o real, sente-se a vontade da loucura, porque ao menos aí a agonia é medicada. Há é claro sempre a solução de se partir de férias e com isso a esperança de que no regresso esteja já, enfim, tudo morto.

26.5.07

A herança da raça

Graças ao meu amigo, que está expatriado em Macau, estive hoje, um sábado com prometida chuva e surpreendente calor, com o Wenceslau de Moraes e um seu livro de paisagens escritas sobre a China e o Japão.
Wenceslau José de Sousa de Moraes, oficial de Marinha, fixou-se em Macau em 1889, transferindo-se definitivamente em 1898 para o Japão, onde viveria os últimos trinta e um anos da sua vida, sem mais regressar.
Ser delicado, qual sismógrafo capaz de registar a mais pequena vibração humana naquela terra de terramotos, deixou-nos páginas de inteligente e ardorosa visão sobre o Oriente «esfíngico e fatal», como lhe chamou Fernando Pessoa, local de exílio voluntário e de fuga redentora, a quem entregou a alma e que lhe recebeu os ossos.
Frequentemente sorumbático por natureza da alma, e erraticamente apaixonado por herança da raça, ele foi no Dai-Nippon, o «senhor Portugal».
Lembrei-me disto esta manhã, ao acordar cedo, os pássaros a cantar: «Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho permanente de sorrisos» escreveu ele, o que viu que «o riso é a linguagem mais em uso nesta terra». Assim eu.

23.5.07

A alma japonesa

Vivendo uma vida isolada, tenho muito poucos amigos. Um deles deixou-se ficar por Macau. É daqueles que compreendem quando não lhes aparecemos e respeitam o nosso exílio, poupando-nos à vergonha de ter de expor em público as nosas chagas. Mandou-me agora dois volumes da obra de Wenceslau de Moares, que está a ser ali editada, aguçando-me o apetite por ler tudo. Esta manhã em que, exaurido, permiti que a preguiça me desse descanso, li a contra-capa de um deles: Aprendi que não se beija uma japonesa, ainda que na face, sem a ofender, «mas poderás talvez beijar, sem que a musumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido».
Claro que, visto pelos olhos da contemporaneidade, pelo espírito prático dos dias de hoje, pela banalidade grotesca em que se tornou a subtileza, tudo isto é ridículo, mesmo eu, disto leitor, num dia como o de hoje, numa manhã como esta.

13.5.07

Andar com o janêro!

«Esta noite nã dí dormido nada!... – Atã perquém? – Os gatos andam p’aí com o janêro, era uma miada qu’a casa até tremia...». Descobri este português magnífico, antigo, viajando com insónias e sem ao menos uma maçã para entreter o dente e aquietar o corpo em sobressalto. Foi em Monchique, em «O Parente de Refóias». Glossário risonho, cheira a sol e a sul, o que a mim, ser bisonho e implicativo é como se fosse do outro lado do mundo da minha neurose, terra onde está sempre a chover.

11.5.07

A vida possível

Ouve-se aqui o amanhecer através do cantar dos pássaros e depois do gorgorejar da água das fontes. Lá em baixo uma cidade com as suas vulgaridades e com os seus recantos de reservada beleza. Preparado para esgotar mais um dia, trancado num sala e de tudo isolado, olho para o livro que trouxe expectante e que a meu lado espera ansioso que eu o leia. «Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível», ainda consegui ler ontem, já os olhos a fecharem-se, impossíveis. Clarice Lispector escreveu-o. Ama-se um mulher que só se conhece através do que escreveu. Eu sei que ela está morta. Guardo por isso esse segredo, para tornar a vida possível, a única vida que já me resta viver.

6.5.07

A mulher a dias

Ontem, dia de preguiça deliberada, ainda consegui arranjar tempo para iniciar a leitura de uma novela da Clarice Lispector que tem o título apelativo «Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres». Trata-se daquele livro em que parece que perdemos a página inicial, porque começa «, estando tão ocupada».
A vida deveria ser assim também, iniciar-se com uma vírgula e sobretudo não ter ponto final.
Trata-se da história de uma mulher que descobriu que «não tinha um dia-a-dia, mas sim uma vida-a-vida», e que não usava «perfumes que a contradiziam».
Como é possível que eu hoje, contradizendo-me, nem tempo tenha tido ou, pior do que isso, disposição haja encontrado para voltar para os braços da perfumada leitura, na minha noite-a-noite de trabalho forçado!

5.5.07

5/50

Aprendi uma lição de sabedoria, dada por quem a tinha recebido em miúdo: «se quiseres ganhar cinco, prepara-te para perder cinquenta». Gostava de saber a que aplica isto, mas sei, por experiência ganha e vida perdida que se aplica a tudo, mesmo!

30.4.07

Viver a vida

A esta hora há gente a entrar para dentro dos cubículos voadores que são os aviões para não sei quantas horas de trabalho desconfortável para que outros viajem felizes, enfermeiros a suportar turnos nocturnos a tentar que a morte não vença, polícias a fazer giros de ronda para que os vizinhos durmam seguros. No meio disto, o incómodo, o monótono, o cansaço, não há moral para nos queixarmos. É só uma vida estúpida, há que vivê-la com estupidez.

29.4.07

Maneiras assimétricas

Zangado com o José Gomes Ferreira e comigo por isso irritado, encontro-o hoje, domingo de tarde, a prefaciar «O escritor confessa-se», que recomecei a ler, a cidade vazia de portugueses. Aquilino, é um lugar comum dizê-lo, brinca com a língua portuguesa, como alguém que às escuras se passeia, insone, por uma casa da qual conhece todos os escaninhos.
Hoje de manhã, surpreendi-me a desejar escrever aqui sobre cada uma das palavras que nele encontro e antes desconhecia ou nem supunha que pudessem sequer surgir-me assim nessa inesperada pragmática. «Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balacé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas», escreveu sobre o padre prefeito do seminário de Beja, por onde estiolou, famélico, a tonsura adiada.
Lê-se e com um amargo de boca, sabendo quanto piores estamos, admitimos que já não se escreve assim; pior, já não se vive uma vida que permita escrever assim; pior ainda, já quase nem há, «alimárias claudicantes» em que nos tornámos, quem consiga entender que a vida pode ser vista inteligentemente assim. Inútil o navegar, o português perdeu a inesperada assimetria, esparramaçado no lodaçal previsível da monotonia de maneiras.

28.4.07

O duplo

Hoje fui aos livros e vim para a casa com a alegria na forma de sacos em plástico atulhados de alfarrábios. Ando a reconstituir a obra completa do José Gomes Ferreira de que julgava, erradamente, já só me faltar a poesia. Foi, por isso, com o contentamento de quem descobre que há mais mundos do que os vividos, que encontrei, ainda editado em 1980, pela Moraes, «O Enigma da Árvore Enamorada». Pobre do momento breve que durou o sentir-me bem. Acabo de o ler, livro lamentável, banal, de uma escrita vulgar, indigna do seu autor e imposível de de ser sequer trabalho de militância política inteligente. Quando gosto de um escritor leio-lhe a obra toda, mesmo que seja para me irritar, como é o caso. Num breve escrito adjacente, de tipo auto-biográfico, o meu autor de hoje confessa que se formou ideologicamente conjugando «o marxismo-leninismo actual com o pensamento de Leonardo Coimbra e de Teixeira de Pacoaes». Talvez por isso me tenha cruzado, ao folhear a biografia que dele escreveu Alexandre Pinheiro Torres, seu familiar político, com o dito «só nunca fui uma coisa: eu próprio». Falava da duplicidade de José Gomes Ferreira, filho de Alexandre Ferreira, o pai da Universidade Livre (a primeira) e dos Inválidos do Comércio.

25.4.07

Refastelado na otomana

Cansado, esgotado e exausto, dia feriado é oportunidade para dormir impunemente, horas a fio. Acorda-se com a boca azeda das obrigações por cumprir, a cabeça pesada pelo agora como vai ser. No intervalo fui ao IKEA comprar uma cadeira para a secretária do meu rapaz. Estonteados entre as filas volteantes de compradores, insectos alados hipnotizados pela luz do consumo, ali um organizado casal media rígidas estantes para os livros encadernados do Círculo, aqui umas desajeitadas jovens apalpavam fofas almofadas para espalharmos pelo chão, diziam, ao fundo da loja, refastelava-se uma avózinha em otomanas para da marquise se fazer mais um quarto, quando vierem os netos a visitá-la.
Aos tropeções, vivi a tragédia adolescente do candeeiro com ou sem luz e halogénio. A meu lado, uma quarentona e muito, mamã tardia, perguntava-me qual a diferença entre dois focos para mesinha de cabeceira. «Acho que são iguais», respondi-lhe por não conseguir acertar na diferença. «Não faz mal, vai este, que, para o que é, tanto serve», retorquiu-me, pegando num a esmo.
Foi aí que vim dormir até às cinco. Como é para esquecer, tanto serve também.

24.4.07

Comigo

Hoje eram cinco a manhã e já andava pelas ruas, dormidas poucas horas e pelas nove em Setúbal, na livraria «Novo Mundo», e procurar, para um amigo, o último «Cartas ao Léu», mais um exemplar da epistolografia do Luiz Pacheco. Amigável, o livreiro disse-me que aquela edição está a acabar, aquele era o último exemplar que lhe restava. Agora, depois de um dia de servidão, são onze da noite e estou a cair de cansaço, a tentar folhear uns livros que comprei entretanto em Matozinhos. Um deles, cuidadosamente encadernado são os versos do Manuel Laranjeira. Agora reparei que no dia dezassete de Janeiro do ano passado tinha escrito sobre ambos, o Pacheco e o Laranjeira. Com a passagem do tempo, esqueci-me, e bem assim que o autor dos versos que agora me acompanham se matou com um tiro na cabeça aos trinta e quatro anos de idade. O livro de versos chama-se «Comigo, versos de um solitário», o último dos poemas «A morte». Trágicamente premonitório e talvez ninguém tivesse reparado.

23.4.07

A sensação amável

Este fim de semana estive em Matozinhos, entre escritores e outros artistas. Foi um refrescamento amigável, ver quem são os que escrevem a escrita com que viajamos pelo mundo do sonho, do consolo e da fantasia. O encontro era precisamente dedicado à Literatura e Viagens.
Ao ter descoberto que tinha dado aulas, no longínquo ano de 1976 e na Faculdade de Direito de Lisboa, sem me lembrar já disso, ao Germano de Almeida, não só me surgiu o ímpeto de ler mais livros dele do que os que já li; veio, lenta e difusamente, a sensação reconfortante de que ainda tenho um mundo inteiro para viver, o das coisas que eu não sabia, não recordava ou a que não tinha dado importância. Viajemos pois!

11.4.07

Um só palavra

Reinaldo de Azevedo e Silva Ferreira, o repórter X, que morreu no dia quatro de Outubro de mil novecentos e trinta e cinco confessou, numa crónica ao jornal «O Diabo», então dirigido por Ferreira de Castro, o seu embaraço ao sentir-se «acartazado» em romancista policial.
Há muitas palavras que eu nem sabia que existiam na língua portuguesa, outras que se calhar nem existem mesmo: «acartazado» é uma delas.
Esta descobri-a, hoje de tarde, num consultório médico, ao ler o livro número setecentos da Colecção Vampiro, dedicada aos mestres da literatura policial, que amigavelmente publica, nesta sua edição comemorativa, as «Memórias de um chauffer de táxi».
Claro que se eu tivesse lido «A Estilística da Língua Portuguesa», de Manuel Rodrigues Lapa, já saberia que «numa simples palavra se pode resumir todo o universo». A ter de escolher, resumiria tudo num «obrigado», a tudo, a todos, a ti, mesmo à Colecção Vampiro, minha companhia de angústia.

9.4.07

O corpo e o muro

Em Outubro de 1968, andava eu já pela Faculdade, ofereceste-me o teu primeiro livro de versos, «O Corpo e o Muro». Estudámos ambos o possível no Liceu, íamos esperar, pacientes, a camioneta dos jornais que nos chegava de Lisboa e passeávamos, horas a fio, pelas ruas desertas de Viseu, conversando intermináveis palavras de inesgotáveis assuntos. Foi graças a ti que encontrei na literatura o sentimento, nos livros as ideias, no ler um sentido para a vida solitária e desnorteada.
Hoje, Luís Miranda Rocha, disseram-me que tinhas morrido. Há séculos que não sabia de ti. Agora que finalmente soube, a tristeza afundou-se em mim, o mundo mais vazio, a juventude envelhecida.
Hoje à noite, devolvido ao meu trivial prosaico, lembro-te um verso, o momento da despedida: «Digo-te adeus adeus e digo-te adeus a ti e é como se dissesse adeus também a isto tudo a esta cidade donde me vou e onde ficas».
Estamos a ficar sem amigos, uns porque morrem, outros porque se desiludem de nós. Um destes dias, os que sobejamos, deixamos de fazer falta a este mundo e marcamos encontro na cidade para onde vais.

7.4.07

O tempo e a volta

A propósito do livro que o médico Alfredo Ribeiro dos Santos dedicou a Leonardo Coimbra, Jesué Pinharanda Gomes escreve, em prefácio: «a perda de tempo é propriedade de Lisboa, que é, em si mesma, um puro tempo perdido». Lembro-me disto, felizmente ainda a tempo, neste momento em que estou a pensar ir dar uma volta, talvez a São Pedro de Moel, a terra de Afonso Lopes Vieira, para a leitura de cujo Amadis de Gaula ainda não consegui encontrar tempo, talvez por viver em Lisboa.

6.4.07

O ser exibicionista

Eu não sei se cheguei a dizer aqui que li o «Calçada do Sol», o pequeno livro biográfico que o José Gomes Ferreira escreveu sobre a sua meninice ou se cheguei a dizer que ainda o não devolvi à estante. Nada disto, fazendo parte do meu íntimo doméstico teria importância não fosse uma circunstância, o estar lá escrito «odiava esse ser exibicionista, mas nunca logrei estrangulá-lo» e a frase perseguir-me como se dissesse «cala-te e pára lá de te lamuriar em público». Hoje o livro regressa para junto dos outros, os definitivamente lidos, que eu quero sossego comigo e paz com os outros.

5.4.07

A sombra

De quando em vez uma pessoa perde-se. Quando dá por si anda por aí, sem rumo, com a ideia de que deveria ter outra vida a seguir àquela em que se vai esgotando.
Os meus pontos de referência são os livros que vou acumulando sem ler e mais os que vão ficando lidos até metade.
Esta noite, envergonhado enfim de tanta ausência, peguei no «Tempo Escandinavo», o livro que José Gomes Ferreira escreveu por causa da circunstância de, aborrecido com o Direito, ter sido cônsul na Noruega.
O exemplar que tenho encontrei numa alfarrabista em Campo de Ourique, chamada Crisálida - de que já falei aqui - e ainda é na edição da defunta Portugália, de Agostinho Fernandes esse mecenas que o ganhava nas conservas de peixe para o afundar no mar da cultura.
Folheei-o, uns contos pelo meio à espera de mim, outros já sublinhados, pois que lidos já nem sei há quanto tempo.
É um livro macio de sensualidade, não a do amor ginástico e secreto, mas o de «um turbilhão de bocas vivas», «com unhas nas palavras e nos silêncios».
Foi lá que vi que os portugueses se convencem «que possuem o segredo de embebedar as mulheres com palavras».
Livro magnífico, narrativa de solidão e amor efémero em que «a sombra tem carne feminina», prometo continuar com ele, mas não hoje, compreende-se!

25.3.07

A hora perdida

Isto de mal ler jornais e nem ver televisão, para já não falar no ouvir rádio, qu raramente ligo, passando agora os dias a escrever, tem de acabar. Hoje acordei e já tinha passado uma hora sem eu ter dado conta. Ainda por cima é o dia do meu aniversário. Fiquei de repente, com essa hora perdida, mais velho sem ter dado conta.

19.3.07

O dia do pai

Hoje é dia do pai. E eu, que tenho uma vida de filho e uma saúde de avô, corro o risco de não chegar a netos. Restam, é certo, as mulheres, de quem se é inocentemente filho e com quem se fazem maliciosamente filhos. Hoje é o dia de me lembrar disto tudo. Resta-me plantar uma árvore, porque livros já escrevi. Se for alta, ainda me penduro nela, não enforcado - cruzes ! - mas a fazer elevações e flexões abdominais até que, condoídos com a flacidez do que de mim sobeja, surjam no horizonte, uns quantos dos amigos que restam e me levem - salve-se a dignidade do que fui! - para o lar dos sem família dos órfãos e dos estéreis, a legião dos sem dia certo nem data a comemorar.

18.3.07

Confissões estúpidas de uma estupidez!

Não vejo televisão, agora quase nem leio jornais, tenho livros indispensáveis a meio, por ler, e outros, exigentes, a um terço, por escrever. Em alguns dias dou comigo inutilizado porque a tensão arterial resolveu disparar, sem eu compreender porquê, outros moído de dores que imagino serem reais, porque as sinto, imaginárias por já nem acreditar que tenham voltado. No meio de tudo isto deram-me ontem um convite para uma exposição sobre a vida e obra de Ruben A., na Fundação Gulbenkian. Descobri hoje, dia 18, ao lê-lo, que tudo foi no dia 15, no dia 16 e no dia 17. Nem sei em que vida estúpida estaria eu sufocado nesses dias que não fui a nada, nem que estupidez de vida me fez nem ter dado conta que isto estava a acontecer. Comprei, volume a volume, tudo o que ele escreveu; consegui mesmo encontrar a sua compilação dos arquivos da casa de Windsor e os novos arquivos da Casa de Windsor e mais os escritos sobre o D. Pedro V. Li-lhe o «Kaos» e hei-de ler a «Torre de Barbela». Num dos volumes do «Cores», porque, devido a um erro de encadernação tinha folhas repetidas em vez de folhas que ali faltavam, pintei a aguarelas o vulto de um «dandy» que nem sei quem é. Diga-se que eu não sei pintar a aguarelas. Não sei qual a estupidez que me faz não saber, mas de facto não sei. Coitado do Ruben A.: reunida que tenho a sua obra, lá lhe perdi a sua vida. Foi na Gulbenkian. Moro mesmo ao lado. Sou mesmo estúpido, reconheçam!

14.3.07

O preciso

Conheci um homem a quem tinham prometido, num momento difícil para si, mundos e fundos de apoio. Na hora da verdade, compreendeu que estava sozinho. Inteligente, deve ter percebido a minha perplexidade ante a sua tranquilidade compreensiva quando tudo ruía à sua volta e os amigos lhe faltavam. «Sabe, quando se precisa, não nos podemos zangar muito», disse-me, mansamente, como se não ensinasse uma regra sapiente da vida. Havia só uma coisa que ele, sábio como era, não sabia: não precisava!

10.3.07

O desejo de ler

Vim passar o fim-de-semana com a ucraniana Clarice Lispector, uma mulher extraordinária, que nos acorda, lendo-a, o sentimento e o desejo de a ler. Importa que eu explique, para que não haja equívocos que ela, uma mulher que escrevia para se manter viva, faleceu em 1977, depois de uma vida em grande parte esgotada no Brasil. Li algures que teria mau feitio e repentes de veemência exaltada, mas, como ela sabia «ninguém se lembra de que os elefantes, de acordo com os estudiosos, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas».

8.3.07

Volta meu cavalo alazão

Eu que levo a vida a rir, só vejo gente triste à minha volta! Pensei nisto e nisto penso em cada hora de sorriso em cada noite de gargalhada.
Ó vós, gentes de cenho carregado, alma sorumbática, que sois musgo nas paredes da vossa alma! Acordai, escancarando-as, de par em par, as janelas do entendimento e percebei, enfim! Façam como eu: rir, rir até mais não! Mas atenção, riam-se de vós e do que parecem. Cavaleiros da triste figura, apeados de montada, escoicinhai nos desgostos passados e parti, esporeando o corcel da vida presente, à desfilada, montanha abaixo, rumo futuro para a terra do nunca, sulcando-as, pedregosas, as veredas do Destino!
Vereis que vale a pena. Para quem não tiver arcaboiço poético, há a Feira Popular, julgo eu, ou até essa, lunapark barato dos sem eira nem beira dos sentimentos fortes, também já desapareceu?

4.3.07

Tempo afectuoso

O Francisco da Conceição Espadinha, da Presença, editou agora um livro de homenagem ao António Alçada Baptista. Tinha-o visto na montra da Bertrand da Avenida de Roma, à noite, mas a livraria estava fechada. Procurei-o, alvoroçado, ainda essa noite na Barata, logo ao lado, mas tinham-se-lhes esgotado os poucos que tinham. Esqueci-me, entretanto. Ontem, na Bertrand do CCB, lá estava à minha espera, para me animar a alma maltratada.
A história do homenageado é conhecida: advogado, fartou-se da advocacia; com o dinheiros de umas heranças, comprou a livraria Moraes, que editava livros de Direito, mas fê-la rumar a outras paragens editoriais, pelas enseadas do pensamento, nos baixios da cultura, notabilizando-a mesmo no mar encapelado da poesia.
Alçada Baptista arruinar-se-ia trazendo para a vida portuguesa obras de pouca leitura, custeando «O Tempo e o Modo», a «Concilium» e tanta outra iniciativa sua e de outros do «humanismo cristão», aqueles a quem João Bénard da Costa chamou num pequeno livrinho de memória, «nós os vencidos do catolicismo».
Ontem ainda, entre a tarde e a noite, consegui ler o livro, para adormecer, já de madrugada com a incómoda sensação de como um homem pode ser descrito mas tantas vezes exilado pelos que dele não estão próximos. Alguns dos que ali escrevem e que tão próximos estiveram, é vergonha que tão distantes pareçam ter estado, a escrita seca, as palavras de palha, frases de panegírico obituário, mesmo historietas banais com que se decidiram sem remorso a colaborar.
É nisso que entendimento não contábil com o mundo», referido por Leonor Xavier, na sua contribuição, me fez sentido, por recortar o biografado, pela diferença, no mundo dos outros.
Acordei hoje para vir dizer isto aqui, com uma tristeza na alma vinda do que li num livro que se chama «Tempo Afectuoso».O António Alçada Baptista, porque é um bom homem, calculo, esteja contente, forma social de se parecer feliz. Eu vou ler o que me falta dos livros dele.