6.5.08

Chitty Chitty, Bang Bang

Internado no hospital, Ian Lancaster Fleming, na sequência de um ataque cardíaco, escreveu um livro para crianças, «Chitty Chitty, Bang Bang», a história do carro que não era apenas um conglomerado de aço, e fios e borracha e plástico, mas um génio auto-suficiente, como o simbolizava a matrícula GEN II.
A história é de uma beleza cativante, o leitor, mesmo adulto, anseia pela folha seguinte: é a narrativa de um comandante de marinha, e Fleming foi-o, o comandante Pott, que inventava coisas tão práticas e insólitas como batatas cúbicas, que são mais fáceis de descascar.
Fleming teve um filho que se suicidaria com pouco mais de vinte anos. Este livro é uma visão do que poderia ter sido uma paternidade feliz.

5.5.08

A ignorada tristeza

A esmagadora maioria das pessoas têm dias assim: chegam à noite e, para além de terem estado a trabalhar nas suas profissões, é como se nada tivesse acontecido, muitos, porque estiveram confinados ao interior de paredes, lendo enfadonhos papéis, com os olhos de cegueira fixos em écrans de computador, outros porque passaram pelas ruas e pelas pesssoas e nem notaram, no seu rodopiar incessante, que a vida existe ali à mão de a afagar.
O viver contemporâneo é, nas sociedades que construímos, uma forma de estar em coma. Nas cidades o Homem nem percebe que há a Natureza e quase nem repara que há seres humanos dentro de cada indivíduo.
Ao chegarem a casa a quantos nem família os espera, tantos dão de caras com umas pessoas que entre o aparelho de TV e o estarem de saída, por ali passam, porque casamentos, uniões de facto e suas consequências os tornaram convivas forçados do mesmo espaço, partilhando a mesma sanita nem sempre as mesma intimidades.
A esmagadora maioria das pessoas estão tristes e nem sabem porquê.

4.5.08

Vidas vividas

Uma das coisas boas na leitura é ir lendo, hoje um livro, amanhã outro; mas o melhor é nunca ter a preocupação de ler até ao fim. Um livro é como uma pessoa, não se esgota, vai-se vivendo com ela, folheando-a, sem índice, ao sabor do momento.
Comecei há tempos, e disse-o aqui, a leitura de uma biografia do Stefan Zweig, escrita pelo Jean-Jacques Lafaye. É uma visão sentida e direi mesmo dorida do autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher».
Há duas noites entretive uma insónia teimosa com a recta final da história, o momento em que, separado já de Frederike, sua mulher, Zweig chama para junto de si Lotte, a sua secretária e amiga íntima. «Chamando Lotte para seu lado, não é a paixão que fala mas uma legítima compaixão por uma mulher abandonada e sobretudo o amor ao seu próprio trabalho que ela consegue comunicar-lhe pela constância da sua dedicação e o seu sentido de boa ordem».
Fiquei aí, na página 194, antes de me começar a doer a cabeça, no momento em que entendia o que é amar-se um homem pelo que há em si de demónio criador, devorados por isso um a um os sentimentos.
Matar-se-iam os dois, envenenando-se, deixando juntos a vida que os unira. Há vidas que, tal como os livros, não podem ser vividas até ao fim.

3.5.08

Pânico

Encontrei-a na estação de comboios. Sabia que estava a escrever o próximo romance. Só mais tarde, em viagem, descobri que não era um romance. São narrativas, entre o breve apontamento e o conto que não chega a ser novela. Editou-o este ano a Asa, que agora se chama Asa II. Dois dos textos tinha-os lido, em suplementos de jornais, um deles a história de Doris, do farol, o mundo em azul, a mulher ganha ao jogo e perdida pela batota da vida e suas cartas marcadas. É Dulce Maria Cardoso, depois de Os Meus Sentimentos. Sim, «(...) o pai tem de acreditar que, apesar de as mãos tremerem no medo de coisa inexplicável, de os pés se terem tolhido num pavor desconhecido, está tudo bem», diz, num dos instantes do que li, o filho, o contador de tempos, rápido, o tempo sem fim, ao qual «já não será possível escapar». Encontrei-a na estação de comboios, não a pessoa dela mas, o mesmo é dizê-lo, a criatura magnífica e insólita que a habita e nos frequenta.

1.5.08

Muito e abundante

Chega uma altura da vida em que já temos tudo, porque queremos pouco: os mesmos sapatos de sempre, porque o pé se afeiçoou a eles, os fatos de uns anos para os outros, porque o corpo já não muda de formato. Depois come-se menos e os divertimentos começam a ser baratos, estar anónimo num canto a ver a vida chega para ocupar um momento, velhos há para quem o jardim púbico é o cinema a três dimensões, fêmeas maduras que galgaram já o muro dos devaneios a engalanarem-se para sentirem a memória adocicada de serem cortejadas.
Há quem não dispense as viagens incessantes por ressorts insólitos, o último grito em matéria indumentária, os spas e as mil extravagâncias «for the very few», os gastos astronómicos em refeições concorridas e demonstráveis, o excesso esgotante em troca do vazio.
Não é propriamente o meu caso que aprendi com o Graham Greene a viver a vida «por subtracção, em vez de a viver por adição». E, sobretudo, vivo isolado e nem tenho muito tempo para viver bem, quase nenhum para viver sequer.
Ora foi a ler a auto-biografia do Graham Greene, numa tradução da Maria Ondina Braga - como o mundo é pequeno ! - que comecei o meu dia, depois de ter dormido profundamente até às três e meia da manhã. O livro em português chama-se «Uma espécie de vida».
Nas folhas finais da sua narrativa, Greene vê o adiantamento de três anos que o seu editor lhe concedera, para que ele pudesse dedicar-se apenas à escrita, a acabar. Minado de dívidas, socorreu-se da escrita de crítica a romances para The Spectator. Isso aconteceu «Graças a Peter Fleming», acrescenta.
Fantástica coincidência. Estive em Londres para descobrir que Peter é irmão de Ian Fleming e já tinha uma obra reputada editada por Johnatan Cape quando o criador de 007 se iniciou com o Casino Royale». Escreveu um livro fantástico chamado «Uma Aventura no Brasil». E trabalhou, tal como o irmão, tal como Greene, nos serviços secretos britânicos durante a Guerra: aquele no Mi6, Ian no NID, Greene na secção V.
Quase no momento de encerrar a leitura para vir trabalhar - pois hoje é dia do trabalhador! - estava o autor de «O Americano Tranquilo» a contar como é que vivia os seus dias entre uma «vereda lamacenta» e a estalagem «Live and Let Live». E eu, que até ao dia 12 ainda tenho que ler «Live and Let Die» do Ian Fleming, por causa de um livro que tenho mesmo que acabar!
Há momentos em que já temos tudo e darem-nos um livro é, como sucede com as crianças, um mar de espumante alegria!

23.4.08

As entranhas do ser

Uma amiga minha enviou-me um link para os mapas de metropolitano de todo o mundo. No mundo subterrâneo dos que têm de encafuar-se em obrigações, um instrumento desses é mais do que indispensável. Tal como os que fazem vidas clandestinas, refugiados na marginalidade, criaturas da noite e homens da bicicleta, as entranhas da terra são como que uma mãe amiga, esconderijo seguro e lugar de paz. «Vem ao interior da terra e rectificando encontrarás a lápide oculta», escreve-se na câmara de reflexões, uma caveira por companhia. Depois há a luz crua da realidade, apagada a bruxuleante vela da ilusão.

14.4.08

O eu

Através do Eugénio Lisboa revi o José Régio. Depois encontrei-o um dia em Sintra e uma outra passeando em Cascais. Arredio do mundo público da Literatura e das suas tricas, maravilho-me com tudo o que vejo. Esta semana no JL vi que ele tinha escrito sobre si próprio. Não deixei de comparar. Com que desvelo ele escreveu sobre o Régio e com que parcimónia fala de si. Em nossa casa o «eu» era muito mal visto li na biografia de um dos de 'Medici, a propósito de um livro de que estou a rever provas. É isto que marca a grandeza, é sobretudo isto que separa os grandes das miudezas pequenas.

13.4.08

Sentimentos e qualidades

Esta noite encontrei enfim numa Bertrand, ali na Rua de Viriato, «O Homem sem Qualidades», que sabia iria ser publicado este mês, a partir da tradução do original alemão feita pelo João Barrento e que já procurara em vão. Ora eu a julgar que sairia no imediato um só volume, eis dois tomos, o primeiro muito espesso, tudo junto um esforço de perder fôlego e o Musil não se pode ler em passo de corrida, porque aperta o coração e esfalfa os sentimentos. Eis-me, por isso, agora em casa, desesperado, a olhar para eles, estes dois paralelipípedos de papel, e um terceiro ainda virá, sem saber quando me será possível ler o que neles se contém.
Amanhã pela manhã, regressa a rotina e vou ter de acordar de madrugada. Talvez devesse ler, antes de dormir, um texto auto-biográfico que o Eugénio Lisboa escreveu para o JL. Traz dele uma fotografia, oficial miliciano no Quartel em Portalegre como que a explicar porque há nele tanto do José Régio.
Mas estou cansado. Deveria ter começado a escrever, nem ler consigo.

9.4.08

A incontável felicidade

A arte de contar de Jorge Luís Borges não é apenas o saber condensar em poucas páginas uma biblioteca de ideias, mas o supremo saber ver tão profundamente cada uma das coisas que, sendo cego, só podiam estar nas entranhas anímicas de si. É impossível que este homem tenha morrido.
Encontrei há uns dias mais um dos seus livrinhos, na língua original. Trouxe-o comigo e como tantas vezes me sucede, comecei a lê-lo do fim.
Servido de uma memória de prodígio, de um cultura de excepção, o que mais maravilha em Borges é a capacidade de imaginar o irreal possível, tornando quase o absurdo desejável. Com ele o que não há, devia ser.
No caso, falava dos Yahoos uma inventada tribo de estupendos seres, que moravam em Mlch, nome que só parece invulgar a quem julgue que fazem falta vogais numa língua e a língua deles, povo estranho em que só alguns tinham nome - e para que haverá tudo e todos de ter nome? -era formada por monosílabos em que cada um traduz uma ideia geral , como nrz, por exemplo, que significava dispersão de manchas e tanto podia querer dizer céu estrelado como leopardo ou até um bando de aves ou tantas outras coisas, tudo dependendo do contexto e da expressão facial de quem dissesse, pelo que era impossível escrever-se, já que o idioma yahoo pressupunha que as pessoas falassem umas com as outras, não que se lessem, as ideias e os sentimentos expressos através de todo o corpo e seus gestos.
Mas vinha isto a propósito de tal excepcional povo ter um sistema numérico contado pelos dedos em que apenas quatro dígitos individualizavam o mundo da quantidade e assim um, dois, três, quatro, muitos, o polegar correspodendo ao infinito.
Ficou no presente real esse insólito sistema fabuloso de um passado inventado: perguntados sobre se vai tudo bem, erguemos o polegar para dizer que sim, o tudo bem, esse dedo a dizer da incontável felicidade do ser.

8.4.08

O Emaús da escrita

Escreveu-me uma carta à mão, como já não se escrevem, com letra tão irregular como incertos os sentimentos que o animaram ao escrevê-la. E contou-me na carta uma história real. O garoto viaja com a mãe no eléctrico, carro aberto, instável, aos sacões. Por causa disso, a senhora, num brusco movimento do transporte, perdeu um sapato. Aflitos ambos, impossível recuperá-lo, o sapato a ficar cada vez mais distante quando, num gesto repentino e intencional, a mãe joga, ante o olhar atónito do filho, o outro sapato à linha, tentando, a golpe de braço, que fique perto do que perdera.
Pergunta o jovem, perplexo, porquê. «Porque a mim o sapato sobejante já não serve sem o perdido, que já não podemos encontrar, aqui vai este para que, juntos, sirvam a quem possa deles aproveitar-se».
Eis a vida numa moral simples. Li a carta até ao fim. Guardei-a junto às outras coisas que nesta vida junto, e que tanta gente não saberia sequer aproveitar.

1.4.08

O troco

A probabilidade de um taxista apanhar em Lisboa duas vezes o mesmo passageiro no mesmo local pelas onze da noite é pequena, mas existe. A eventualidade de o passageiro dizer o nome da rua para onde vai e o taxista lembrar-se da rua com a qual ela faz cruzamento já é menor; mas aconteceu hoje tudo isso com o taxista que adorava a Rádio Luna do Montijo, pela música clássica que passava, a quem hoje resta a Antena Dois.
Desta vez estava taciturno: pouco serviço, por causa do futebol, «o senhor não vê pois eu também não, mas o pessoal fica todo em casa, além disso esta maldita rádio agora deu em ser só conversa». Pois era, «uma chatice», comentei para lhe fazer companhia. Depois disse-me que tinha ouvido no concerto para jovens o Mendelsohn, que não conhecia. «É o da marcha nupcial», disse-lhe, para não ficar calado. «Há outra do Wagner», ainda quis dizer, mas tinha-se instalado entretanto um silêncio de chumbo. A probabilidade de um taxista e seu passageiro irem sorumbáticamente calados essa é muito maior. Cheguei a casa. «Pague-se de sete», disse-lhe eu e «até qualquer dia» ouvi como se a dizer-me «e guarde o troco».

31.3.08

A qualidade do ser

Por hábito compro o JL, algumas vezes consigo lê-lo quase todo, a maior parte das vezes, arrumo-o para o ler com o da vez seguinte e acabo por passar adiante, lido nenhum.
Desta vez vi na capa a palavra mágica «Musil» e sobressaltei-me. Ainda não abri o jornal, mas já vi, espreitando as folhas entreabertas, que era o João Barreto a anunciar mais um passo de gigante na saga de traduzir este notável militar austríaco que marchou para a Literatura Universal; desta feita virá o primeiro de três volumes, dedicado a «O Homem sem Qualidades».
Enfim, uma tradução com qualidades, as do prestígio do tradutor. De há muito que a velha edição dos «Livros do Brasil», publicando a tradução de Mário Braga precisava de sucessor.
Uma das coisas que eu aprendi com o Robert Musil é que «um acontecimento e uma verdade possíveis não são iguais a um aconntecimento e uma verdade reais menos o valor "realidade"». Nesta equação em que equilibriam a ontologia do ser, a lógica da verdade e a epistemologia do conhecer está contida, quase que timidamente, a totalidade da vida. No mais, o livro é um prodígio de ironia, como quando nos lembra que «a zoologia ensina que a soma de indivíduos diminuídos pode resultar num indivíduo genial».

28.3.08

O acaso e a memória

Falaram-me ontem, depois do jantar, em tom de maravilha, de «O Físico Prodigioso». Retorqui que era o livro mais auto-biográfico que Jorge de Sena escrevera. A minha interlocutora não o sabia. Esta noite vim confirmar o afirmado e tenho aqui a meu lado o livro e o texto introdutório, escrito em Março de 1977, onde o seu autor o admite. Ia para copiar a citação e reafirmar o ontem dito, quando um estranho sentimento de revisitação surgiu como uma sombra de mim. Lembrei-me então que já tinha escrito isso mesmo. Foi em 22 de Junho de 2007, também depois de um jantar. Encontrei o escrito, aqui. Acho que não me consegui desembaraçar do atónito. Para quem não acredita no acaso, começa a ser demais: um dia lembro-me de ter falado em ter morrido e acordo morto!

26.3.08

O livro das horas

Já não sei há quanto tempo tinha deixado de usar relógio. Primeiro, foi para não me enervar, no incessante olhar para o mostrador, a angústia de ser tão tarde. Nessa altura não havia ainda telemóveis, pelo que não se viam as horas a olhar para o telefone. Depois, foi porque o relógio deixou de ser um instrumento para se saberem as horas que faltava perder com a sua passagem ou as que se tinham ganho deixando-as passar, e transformou-se num acto de exibicionismo, usado quase em cima da mão, fora da camisa, para que todos o vissem e lhe adivinhassem o preço, como quem passeia mulher vistosa para inveja do vizinho, ou automóvel de luxo para raiva dos colegas.
Ontem ofereceram-me um lindo e discreto relógio com marca de relógio, ponteiros de relógio, daqueles que marcam horas e numa janelinha que dia é. Saí com ele hoje à rua, a passeá-lo, com o orgulho de o saber escondido dos outros, num agrado só meu. Houve um momento em que vi, no seu quadrante dividido em sessenta partes, que eram onze e quarenta, vinte para o meio-dia.Uma sensação de conforto com a vida invadiu-me, a lembrança antiga de ser quase a hora de almoço.

24.3.08

A insurreição

Há um livro do Carlos de Oliveira que se chama «O Aprendiz de Feiticeiro». Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1921 e morreu em Lisboa em 1981.Do livro saíu uma primeira edição em 1971. Em 1979 o autor, minucioso, corigiu definitivamente o texto. E do texto consta uma admirável narrativa do pensamento de «O Inquilino». É um pensar interrogativo e dubitativo, uma ladainha de hesitações: «Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete?». Etc. Etc. Lembrei-me disto, porque o livro estava à mão, entre aqueles que não encontro. E lembrei-me disto, sobretudo, porque o texto acaba assim: «Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?».

23.3.08

A anunciação da Aurora

Pelas quatro da madrugada a passarada arranca, em cantoria, a anunciar a chegada do dia. Os homens ainda o não vêm, porque perderam a capacidade de sentir. Mas para aqueles pequenos seres emplumados, que a Mãe Natureza tornou inteligentes através do seu minúsculo coração, é a anuncição da aurora.
Já sentiram, aprisionado na vossa mão, espavorido de medo, um passarinho, mesmo de insignificante tamanho, o príncipe canário ou o plebeu pardal? O coração descompassado, parece que rebenta, ribombando dentro do peito.
Eis o que o humano perdeu. Hoje Dia de Páscoa, há quem celebre Cristo ter liberto os homens que o pregaram na cruz.

21.3.08

A loirinha

Vinha no comboio. O homem contava as suas façanhas. Elevava a voz como quem busca mais auditório. Não tinha. Era eu, ali no bar, à espera que me arranjassem naquele Intercidades lugar sentado em troca do bilhete no Alfa, que me tinha fintado atrasando-se muito e adiantando-se de surpresa comigo à espera ao frio na gare, e um outro anónimo, magro de carnes e curto de ideias, a boca escancarada, do género dos que nunca perdem na vida um comboio, só não sabem é o destino para onde vão.
E a façanha, proeza de bravo, prova de virilidade, aquilo que o homem proclamava como sendo o máximo de si, era ter bebido cinquenta cervejas numa tarde. «Cinquenta», repetiu como num eco do dito, à falta de pergunta.
Fez-se um denso silêncio. Refugiei-me no baixar os olhos. «E sem ir mijar, que aí é que está a coisa», atirou-nos, ao que o ouvia e a mim que tinha de o ouvir.
Um aperto dorido atingiu-me então o por baixo da coisa. Pouco depois vinha o revisor, salvar-me. Raspei-me, esgueirando-e por ele. «Não vai uma loirinha?», perguntou-me. «Não, obrigado», balbuciei atarantado, «não me sinto capaz...».
Lá ficou. «Isto já nem há homens neste mundo» deve ter arrotado, entre tremoços, a boca limpa às costas da mão.

20.3.08

Mecânica estatistica

Há um momento da Mandraloga, essa estupenda peça teatral escrita no início de quinhentos que ainda hoje é uma paródia ao triunfo dos interesses sobre a moralidade, em que Callimaco, falando a Siro da sua ânsia por Lucrezia, mulher de Niccia, fala dos trabalhadores manuais como as «pessoas mecânicas». Uns séculos depois, martelando horas a fio ao computador, mecânica por mecânica, penso que os que vivem puxando pela cabeça, também o são.

9.3.08

O homem da maratona

Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.

8.3.08

O espelho

«No dicionário de Daniel, Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está constantemente diante de si mesma», diz Daniel, a personagem do Lavagante, o livrinho póstumo de José Cardoso Pires, agora editado. «A solidão conta muito para explicar as mulheres ao espelho», respondeu-lhe o seu interlocutor. Hoje é o dia mundial da mulher. Lembrei-me disto, e vim escrevê-lo. Poderia ter escrito tanto sobre tanta coisa de tanta mulher, mas que importa o que se escreve se é sempre para concluir o mesmo.