21.7.08

A criada

Eu sei que há sentimentos feitos de embirrações. Com o Borges comecei por embirar com ele, como já confessei aqui, até começar a lê-lo e descobrir-lhe, na sua língua de origem, a genialidade. A razão é simples: eu considerava insuportavelmente petulante e cretinamente peralvilho um colega meu que enchia de Borges a boca. Foi um caso de rancor trespassado.
Agora descobri que tinha transferido, irracional, a embirração para a viúva do Borges. Ao ler a revista Os Meus Livros que, maliciosamente, os argentinos lhe chamavam «la viudissima», rejubilei, os maus fígados purgados. Eu sei que é maldade, mas é a conselho médico. E que querem? Prefiro a criada do Borges, pronto!
É que, vinte anos depois, ver o notável autor às mãos de advogados e de processos, de testamentos controversos e daquela executora testamentária é de morrer, iletrado e sem direitos de autor.

Noites insones

Trouxe-o por empréstimo. As folhas ressequidas de quarente e oito anos de vida, cortado em oitavo, que era a forma de poupar papel naqueles tempos de penúria, editado pela Civilização.
«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias».
Começa assim, o pequeno conto. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas», continua Stefan Zweig. O texto data de 1914, o mundo dilacerado por uma guerrra que sacrificou milhões. Chama-se «O Mundo não pode dormir», título que deu nome à obra. Quando foi editada uma nova chacina dizimava a Europa, o berço do homem que se julga civilizado.
Trouxe-o comigo, emprestado, pela dor que causa este anseio de paz, este desejo enfim de sono, a condição do sonho, o local de refúgio dos desiludidos.
Stefan Zweig suicidar-se-ia, em 23 de Fevereiro de 1942, com Lott Altmann, no Brasil, recluso no fundo de si mesmo.
Metódico, deixou tudo arrumado e organizado ao pormenor, antes de dar, enfim, sentido à vida. Tinha sessenta anos de idade.

20.7.08

O Mundo que partilhamos

Ontem, ao fim da tarde, em Vila Real de Santo António, descubro um contista, daqueles a quem as editoras sugerem que se atrevam a um romance, mas que são resistentes a teimar na grandeza da pequenez.
No caso chama-se Paulo Kellerman.
Pela noite inicei-me na sua escrita. Abre com um texto no feminino: «lentamente, desligas-te de mim; abandonas-me e esqueces-me, regressas a ti». É a crónica de um amor que findou, um casal a «recuperar os pedaços que cada um cedeu (ou emprestou?) para a construção do nosso amor; pedaços do eu, que formaram um nós. Mas o nós norreu e há que realizar o funeral», escreve, num conto que tem precisamente esse nome «O nosso funeral».
«Você também é um contista», disse-me, acrescentando uma amabilidade, eu tímido, de livro na mão, «já agora, atrevo-me a pedir que mo autografe». Assinou-o e assim ficámos em torno de «Os Mundos que Partilhamos».

18.7.08

Faz impressão, eu sei

Uma tipografia erra e no livro a lombada fica por imprimir. A tipografia assume a culpa e aceita fazer novas capas, a lombada desta vez, enfim, impressa.
Tudo se resolve menos isto: os amigos que, tendo acorrido à apresentação do livro, foram generosos, levaram para casa livros únicos, estranhos, que se tornarão raridades face à edição oficial, a expurgada do erro, em que está tudo a que uma pessoa tem direito num livro.
É embaraçoso, pois já que um livro é um amontoado de letras que se pagam, ao menos que os leitores levem, em troca do que se lhes esportulou, o alfabeto todo, em caixa alta e em caixa baixa, na capa, contra-capa, miolo, badana e, claro, na lombada! Letras comidas, só na sopa.
Mas pronto! Não se aceitam devoluções! Há quem faça tiragens numeradas, limitadas, só para os eleitos. É o caso. Esta tem uma originalidade que a distingue das correntes: o chic da lombada vazia. E assim, em vez do nome do autor, escrevam o vosso, à mão que seja. Não é que outro dia alguém me dizia, sabia você que comprar um livro é apenas adquirir o direito de o ler e nada mais? Atenção, pois, nada de rasgar. Os meus advogados processam-vos!

16.7.08

O efeito rerógrado

Num livro sobre Kant li que «manifestar tanto engenho para ficar de boa saúde é um sinal de doença». O filósofo alemão só continuava de boa saúde porque acreditava estar sempre doente. Eis o poder das convicções no seu perverso efeito retrógrado, a lógica do mundo em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio: o ser hipocondríaco como terapia para a doença real através da doença imaginária.
Se um mundo assim tem uma lógica, ela só pode ser a dos «professores do desinteresse» e a dos «discípulos indesejados», numa noite de insónia nascida da vontade de não dormir. As frases, estas, são do Nietzsche, que era, na sua genialidade, um agregado de doenças do corpo e de mazelas da alma.

11.7.08

Um dia na vida de...

Receber em mãos, vindos frescos da tipografia, pacotes com o livro que se escreveu, que saiu do nada e tenta ser alguma coisa.
Carregá-los, pesados, à força de braço, depois de os ter gerado à força do esgotamento.
Entregá-los então, à espera que alguém os queira e por eles se interesse.
Primeiro, a agonia do papel em branco, enfim, o medo pelo que está lá escrito.
Foi assim, um dia instante na minha vida, entre tanta realidade e tanta ilusão.

10.7.08

Um modo de dizer

Acabei esta noite a leitura do Até ao Fim, o romance que o Vergílio Ferreira escreveu em 1987. É uma história, como é normal num romance, que não tinha de terminar assim, mas deixemos isso, porque um autor também tem direito a arranjar modo de se ver livre da servidão da escrita, inventando um fim.
Leio os livros com um lápis na mão, a sublinhar as frases que têem uma ideia, os parágrafos que exprimem um modo singular de dizer. É isso que, esgotada a leitura, me deixa a sensação da natureza marcante desta obra, por ser rara a página em que não ficou uma marca de importância. «Mas quem é que consegue dizer de que trata um romance, mesmo depois de o conhecer?», escreveu Vergílio, como vem na página 214. «Toda a pergunta inclui já uma resposta», li eu uma folhas antes.

8.7.08

O lado de lá da mesma rua

Houve uma altura da vida em que por causa da penúria não lia. Claro que há a penúria económica, a que faz com que não se tenha dinheiro para livros e a penúria de tempo, a que faz com tempo nem haja para ir a uma Biblioteca.
Quando morava em Abravezes ainda havia a carrinha da Gulbenkian, e nessa altura em não sabia que o Herberto Helder tinha trabalhado lá motorizadamente itinerante e talvez nem soubesse que havia um ser chamado Herberto Helder.
Houve depois uma outra altura em que tentei vencer o atraso nas leituras e o tempo perdido sem ler e gastei o dinheiro que apanhava a comprar livros.
Descontadas as bibliotecas que se recomeçam, porque há os divórcios perdulários na base do virar costas a tudo, comecei a ter tempo sim, mas para ganhar dinheiro e com ele comprar livros que não tinha tempo para ler.
Há o tempo de agora. Com mais dinheiro ou menos dinheiro, tem de haver tempo para a dose diária de leitura, como os diabéticos e a sua picadela quotidiana de insulina.
Vista assim a vida, é tudo mais doce. Um homem abre a janela e descobre que a sua rua aumentou em comprimento e sobretudo em grandeza. Do lado de lá do acaso universal, mãe de todas as aventuras, há quem queira ouvir a nossa voz. É então o momento de escrever.

6.7.08

Um canteiro de flores

Acho que conseguirei muito em breve concluir a leitura do «Até ao Fim». o romance que Vergílio Ferreira escreveu em 1987. Li depressa, como se soubesse tudo o que lá está e o folhear fosse apenas uma forma de rememorar.
Esta manhã, porque acordei cedo e antes de voltar a adormecer logo a seguir, ainda li aquela página em que ele se coloca, através de iniciais, no meio da narrativa, na sua casa em Fontanelas, entre pinheiros, e a mulher, de que não cita o nome e se chama Regina e que queria ter um canteiro de flores.
E veio-me então à memória, lembrança triste em dia triste a casa em frente e eu ter querido comprá-la, nem sei com que dinheiro para no quintal construir um anexo e dividi-la assim com os meus filhos. «Até hoje nunca um filho pediu satisfações a um pai por tê-lo feito existir», diz Miguel, filho de Cáudio.

1.7.08

O irreal da infinitude

Como se escreve um romance? E para que se escreve um romance? Para quê e como e porquê uma história em que a parte inventada tenta parecer real para que a realidade se esconda por detrás de cada página?
Não sei responder e talvez por isso fui à estante e o «Até ao Fim» pareceu-me ser a resposta possível às minhas inquietações literárias. Estive com ele ao jantar, Cláudio e a sua vigília naquela «noite tranquila de inocência», a noite irrazoável pois «não há razão nenhuma que se aguente com sono», e o lugar em que «os cães estacam de ladrar», o Martinho «coveiro, familiar dos mortos, deve-lhes ter perdido o respeito», a irmã do Leonel, prostituta, que «ofereceu-lhe uma peliça, ganhou-a honestamente com a distribuição do prazer».
Li, li, absorto e ao resto indiferente, chegou a pescada «cozida a anzol», vem temperada da copa, passei, dorido, pelo Miguel, o filho que recusa, enojado, «a metafísica da descendência», «essa mistificação de um acto simples egoísta», «farto de hipocrisias, de convenções sociais», as questões fisiológicas do «montaste-te numa mulher chamada Flora. E eu nasci».
Como se lê um romace e para que se lê e porque estou eu a lê-lo, «e tudo é belo como se o fosse», e «todo o mundo reduzido a mim e a ti. Com muitas adjacentes sem importância nenhuma»? Não sei.
Estou de novo em casa, na página 47.
O ar condicionado deste restaurante «escangalhou-se», disse, o eterno sorriso redondo no rosto, a esconjurar a adversidade, a dona do lugar. «Avariou-se», corrigiu-lhe a filha, os olhos profundos, o corpo recatadamente boleado, um porte de contenção ante as adjacências como eu, único comensal na noite de hoje. «Durou trinta anos. Houve tempos em que esta casa enchia ao jantar». Hoje resto eu.
Estou em casa. Também aqui «o dia morre nas altas janelas».
Escreve-se um romance para que um dia alguém o leia, «o olhar calmo até ao irreal da infinitude». Vergílio Ferreira escreveu. Em 1987. Hoje, nesta noite morna, trouxe-o comigo, «a disponibilidade da alegria gratuita, da simples alegria de existir, esquecer, esquecer».

28.6.08

Em nome do Pai

Entraram às dezenas com as motos para dentro do cemitério, a fim de prestarem, com o trovejar dos seus escapes, a última homenagem ao seu camarada motard falecido. Na tarde de calor abrasivo, a raiva exprimia-se assim, brutal como a fatalidade. A paz do cemitério acordou por um instante, como se a trombeta do Final dos Tempos tivesse enfim, rugido, chamamdo os mortos ao Juízo Final.
Escorrendo suor, lágrimas a misturarem-se, uniam a sua forma rude de dizerem que lhes doía a alma.
No enterro ao lado, entre meia-dúzia de lacónicos circunstantes, um diácono tentava fazer-se ouvir, na encomendação do corpo, sem conseguir chegar ao «Dai-lhe Senhor Eterno Descanso e que descanse em paz».
«Já não há respeito por nada», murmurava-se a meu lado, enquanto a polícia, de longe, vigiava o insólito, sem saber o que fazer. «Não te esqueceremos nunca», lia-se na tshirt de duas miduitas que, amparando-se, seguiam, de regresso a casa, chorando o seu irmão de raça.
Foi ontem, no cemitério de Benfica. A cerimónia do adeus marca-se, desde os tempos bizantinos, pelo beijo ao falecido. Abriu-se a urna, antes que a terra a devorasse. Adeus, adeus, até qualquer dia, acenava-se aqui.
Lado a lado, a escolta motorizada, executava, com os estampidos dos motores, a salva de três tiros: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

27.6.08

O formigueiro

Trancam a porta e barricam-se em casa. Deixam de telefonar, primeiro, de atender o telefone depois. Na cidade irrequieta, o formigueiro de gente super-ocupada nem dá, na sua agitação indiferente, pela sua falta. Apenas aqueles para quem os dias são inesgotavelmente vazios e o tempo esgotantemente breve notam qualquer vazio. Comenta-se no jardim antes de mudar de assunto, no café da rua à falta de outro assunto. Deixaram de ser vistos.
No interior da sua reclusão, começa então a preparação do covil do animal moribundo. Amontoa-se o inútil, atulham-se os pequenos quartos com tudo o que não serve, pacotes de leite vazios, uma imensidão de sacos plásticos contendo de tudo um pouco e papéis e caixas e restos de tudo o que pode restar, sobejos, inutilidades, farrapos. Uma fina camada de pó vai soterrando tudo, o ar envenena-se de irrespirável.
A raiva de viver torna-se então na preguiça de consentir a sobrevivência. Num voltear incessante, remexendo no que está, há uma fera que vai soltando as suas garras, desprendendo-se do que a prende à vida.
Um dia acaba tudo naquele antro de miséria fétida. Os sobreviventes fingem não ter dado conta. Há um silêncio de remorsos que se resolve num dia de funeral, a cidade sem saber.
No dia seguinte cada um, em sua casa, remoe os seus rancores, trancando a porta, barricando a sua alma. Em seu redor o formigueiro continua, indiferente ao apodrecimento das almas que matamos no nosso coração.

23.6.08

Desejos

Tinha começado a ler e fiquei com a ideia de que os tinha lido todos. Mas, pelos vistos, estava longe de ser assim. Reuni-os à minha volta e havia tantos que nem sequer começara. Ainda bem, porque mesmo os que li são de tal modo novos aos meus olhos que dá para os reler como se lesse pela primeira vez. Falo do Wenceslau de Moraes. Comecei com o Relance da Alma Japonesa. Há um momento em que ele fala da linguagem e da escrita japonesa e depois de explicar que «o substantivo e o adjectivo são invariáveis, quanto ao número e quanto ao género», se pergunta «porque é que os europeus dão sexo às coisas sem vida, dizendo por exemplo que mar é masculino, que chuva é feminino?». E acrescenta: «havemos de convir que a concepção sexual predomina na emotividade do europeu, exactamente ao contrário do que se dá com os japoneses, que até ao homem e à mulher chamarão mais comummente indivíduo, em substituição dos termos que lhes conferem honras de sexo».
Não sei porque parei aqui. Talvez por ter adormecido cansado do trabalho que é masculino e com desejos de preguiça que é feminina! Só pode!

21.6.08

Amigos meus

Ainda o tenho aqui ao meu lado, o livro feito por Alejandre Vaccaro a partir das memórias da criada do Jorge Luís Borges, Epifania Uveda de Robledo. Abri-o ao acaso e na página 181 eu tinha sublinhado - porque leio sempre de lápis na mão para marcar o que poderia ficar deitando-se fora a inutilidade do resto dos livros, como quem recorte da maçã a casca, às vezes para descobrir que está podre - sublinhara, dizia, aquele momento em que, falando da japonesa Kazu Takeda, pintora, se diz: «Takeda não se considerava amiga de Borges, uma vez que ninguém se pode considerar como tal até que outra pessoa o autorize». Ora se toda a gente se desse ao trabalho de perguntar, em termos de amizade: «posso?»...

17.6.08

Historietas ao jantar

Quanto se janta sozinho um livro ajuda, para se não parecer tão sem ninguém. Ao sair de casa para ir aqui em frente jantar olhei para eles todos, os livros na estante, como se a convidá-los para jantarem comigo. Fui com o Jorge Luís Borges, ou melhor com um livro de historietas que foi escrito a partir de testemunhas da criada do Jorge Luís Borges. Já tinha começado a lê-lo e odiei-o então, talvez por ser a visão de quem vê o génio em roupão e chinelos, na pequenez dos seus maus humores, nos cheiros familiares, nos segredos que se escondem por detrás das janelas públicas. Desta vez tentei começar a lê-lo a partir do fim, enquanto negava o queijo e o presunto, porque não posso abusar do sal, e quando vier a sobremesa diga-me se tem fruta, porque não devo exagerar nos doces. «O que é realmente bom na minha vida de escritor é que as pessoas compram os meus livros, mas não os lêem», disse o autor de Aleph. Estive para interromper com um «com a devida consideração, eu leio, enquanto como pampo grelhado!». Ingrato! Da próxima janto com a criada!

14.6.08

Muitos e diversos

Por amabilidade do Francisco da Conceição Espadinha, que tem confiado na minha pessoa mais do que a minha auto-estima, escrevi para a Editorial Presença, uma apresentação para uma nova edição, traduzida do italiano, de O Príncipe, de Maquiavel.
Confirmei ontem, numa Bertrand, que Diogo Pires Aurélio viu publicar agora também um texto com a mesma natureza, para o Círculo de Leitores. Não tive ainda tempo de o ler. Mas, num folhear apressado, entendo que estamos entre duas lógicas diferentes: a dele, que é cientista político e professor, e nos traz os conceitos que subjazem ao pensamento do Secretário e a minha, que traz para o campo da polémica o ser humano que Maquiavel foi, por ser, no melhor e no pior, idêntico a tantos de nós.
Escrevi, pois, sobre a condição humana, a tragédia da existência, o enigma daquele sorriso. Antes de nós, Martim de Albuquerque, professor também, mas de Direito, tinha vindo a público, continuando a luta que a Sociedade de Jesus iniciara e mantém, desde há séculos, contra a «ética maquiavélica». Martim é um estudioso erudito sobre o assunto.
É bom sermos muitos e diversos. Já em tempos Jorge de Sena soubera encontrar em O Príncipe o humano através do escrito, Manuel Mendes vira nele um democrata, onde Francisco Morais tinha visto um fascista.
É esta a eternidade do escrever, a sorte e a virtude deste pequeno livro: está para além de todos nós.

9.6.08

A intimidade do Amor

Irene Fonseca editou um «Diário Inédito» de Vergílio Ferreira. São sempre difíceis estas opções de se trazerem a lume as intimidades privadas de homens que pela escrita se tornaram públicos. O próprio Vergílio Ferreira hesitou muito em dar-nos conta, volume após volume, da conta-corrente que foi minutando e de que se foi rindo, naquela «caligrafia somítica», o registo dos seus dias vividos depois de ter completado aquela idade inverosímil dos cinquenta e três anos.
Estou a ler, outro dia umas vinte folhas, há minutos mais umas tantas. E não sei o que pense ou o que conclua.
Precisava eu de ter sabido, que no dia em que se casou, a 16 de Fevereiro, anotou no seu diário apenas «casei-me»? Precisava a viúva que nós soubéssemos que, três dias depois, ele, como se lhe escrevesse, tenha anotado: «Gina, amo-te; mas não acabo de entender porque te amo assim, deste modo estranho que não tem nada de amor antigo. Zangas-te se te disser que sou principalmente teu amigo? (...)»?
Ganha com isso a Literatura? E Florbela Espanca de quem, em 12 de Outubro, ele diz que «cometeu a temeridade de não amar apenas em poesia»?
Não sei quem perde. Ganhará com isso o Amor, a verdade de se entender em público a sua natureza verdadeiramente íntima e seguramente privada. Talvez seja isso.

5.6.08

Tarde complexa

Esta tarde assisti a um interessante paradoxo.
No Círculo Eça de Queirós, a propósito de Joaquim Paço d'Arcos, Marcelo Rebelo de Sousa explicava que o facto de ter caído no esquecimento se devia a ter desaparecido e a ter-se transformado aquela burguesia que ele retratava, com a visão cosmopolita de um «estrangeirado», mas com o rigor de quem era dela convivente. A seguir Eugénio Lisboa explicou-nos que, repudiando uma superficial crítica que o identificava como o retratista de banqueiros e marquesas, o autor de «Tons Verdes em Fundo Escuro», se defendera, e com razão, mostrando quanto conhecia e como nos mostrara no seus livros a vida amarga dos deserdados, nascido que fora embora em casa apalaçada mas em zona de varinas e outros plebeus.
Nessa tarde, para chegar ali, àquela sala apinhada, estive retido em frente ao Teatro Nacional, o local onde sedeou a Inquisição, a ver passar uma gigantesca manifestação de trabalhadores.
Num só fim de tarde estiveram todos, os trabahadores, os burgueses e os clericais. Ah! E uma série de vadios e outros vagabundos, daqueles para quem a vida é bela quando faz sol, mesmo que não haja que ler, por não saberem, ou que comerem, por não o terem.

31.5.08

O Prontuário

Haverá quem o faça com facilidade, sem emendas, sem segundas leituras, indiferente aos erros factuais, escrevendo como sai, para ser lido como calhou.
Mas há aqueles que vivem cercados pelos censores do estilo, pelos críticos do modo de dizer, diminuídos pelas exigências inderrogáveis da sintaxe, ansiosos pela perceptibilidade do discurso, receosos da deselegância das repetições, ameaçados pelo excesso de adjectivação e pela impropriedade dos substantivos, avisados de que não tornem a dizer «afinal», e «enfim», podendo dispensá-los, e que não abusem do «um» não sendo caso de indeterminação nem daquelas horrendas frases começadas por «só que».
Como se isso não bastasse, qual rigidez senil a entorpecer o irrequietismo da mão criadora, há os que vivem sob o pavor de escreverem a data errada ou o nome mal citado.
Coitados desses escriturários. Cada linha deles é um acto de atrevimento, o livro que está escrito na sua cabeça é como se estivesse a ser ditado, monótono, palavra a palavra, sob a ameaça de palmatória, a gramática em frente, ao lado o dicionário, por ali espalhada a bibliografia de apoio, e por detrás, na escuridão das noites esgotantes, os olhos ferozes dos leitores cruéis, à espera da primeira gralha, à cata da primeira vírgula duvidosa, num «segue, segue», animador, o do chacal sobre a sua presa, e o pobre, coitado, martelando teclas, será que correão se escreve com dois «cc's»?

29.5.08

Só se vive duas vezes

A indústria editorial adora espólios de mortos, sobretudo consagrados. Ei-los que surgem, os «dispersos» de Alexandre O'Neill, de quem parecia tudo publicado, mas ainda faltava um molho, encontrado entre os restos, textos embrulhados em 1981, de que tinham saído já 43 numa editora e mais 13 em outra, mas agora vem tudo junto sob o título «Já cá não está quem falou».
Lembrei-me ontem disso, pela noite dentro, por causa de um livro, escrito por um tal Sebastian Faulks, chamado «Devil May Care», que é uma aventura do James Bond, que regressa «com uma vingança», anuncia o editor.
A obra foi lançada ontem, com pompa e erotismo com uma «vamp» boleada e a imagem da Marinha britânica a fazer o «decor», perdido o Império e reduzidos, ridículos, os súbditos de Sua Majestade, a soldadinhos de chumbo.
Coitado do Bond que não morreu quando em 1964 morreu o seu criador. É que agora, diz a capa, o dito Faulks «escreve como Ian Fleming».
Nem quero imaginar o que seja esta semelhança necrológico-literária! Já chegavam todos os que continuaram Bond sem Fleming: Amis, Gardner e Benson, mais os «Young Bonds». Agora temos este Faulks. Volta Ernst Blofeld, estás perdoado!