25.8.08

A vida aos repelões

Depois de ter gozado mais do que a lei manda, Luiz Pacheco dedicou o Diário Remendado «ao Senhor Doutor João Pedro George, colaborador impecável, meu biógrafo improvável», que escreveu o que chamou de «posfácio» de tal obra. O mesmo George edita-lhe agora, com uma introdução, algumas das pachecais entrevistas, num livro tirado pela Tinta da China, belíssimo como todos os livros dessa editora. Vale a pena ler a introdução. E vale a pena notar o aparente fair play de quem foi tratado, precisamente numa entrevista ao JL por «uma espécie de índio chupista». E como se já não bastasse, arrumou-lhe com: «O gajo sabe mais de mim do que eu. Mas isso do posfácio também não interessa: a malta lê meia dúzia de páginas do Diário e larga, ninguém chega ao posfácio».
Interessante, sim, a introdução dizia eu nesta manhã meia confusa de ideias, a escrever depois das onze como se fosse pelas onze de ontem. Nela João Pedro fala de Luiz a propósito da «comercialização da excentricidade», refere-o como «escritor maldito» quando fala na «maldição como estratégia de legitimação», trá-lo a nós leitores como alguém que tem «um grau de liberdade a cujo luxo os outros não se podem dar». Estão quites eles também.
O livro chama-se O Crocodilo Que Voa.
P. S. Uma coisa é interessante, sim, esquecia-me. João Pedro George desmascara quantos andaram a provocar o pior de Pacheco, a viperina língua, o escárnio permanente e quantos fizeram à sua conta manchetes e títulos de sensação! Desde o célebre título de primeira página no defunto O Independente:«Santana só fez merda na Câmara de Lisboa, mas eu acho graça a isso», até ao perguntar: «Quantas coisas fizeste de ilegal ou de condenável?» [Baptista-Bastos], «E vontade de matar alguém, já tiveste?» [idem], há de tudo. Um um crocodilo que voa, sim, mas por vezes muito baixinho.

24.8.08

Os amantes

Dizem que os editores não gostam que os autores se viciem em contos. Têm talvez a ideia de que estão a dizer concentradamente o que podiam engrossar num livro, diluindo-o.
Num conto talvez seja tudo mais rápido, mais intenso, mais breve, como um beijo numa noite de chegada por contraposição a uma noite de amor na hora da despedida.
Vem isto a propósito do último parágrafo de um conto de David Mourão-Ferreira, chamado Os Amantes, escrito em 1968: «E finalmente deito-me a teu lado. Não sei bem se a teu lado se dentro de ti».
Vi-o esta manhã, por ser capa do livro que comprei ontem. Lê-lo-ei esta noite. Acabei agora, com a noite a chegar, o primeiro dos contos, onde está: «É preciso inventar? Ou contar a verdade? Só o que invento me comove; só a verdade te emociona. Temos então de deitar à sorte: ainda não sei qual de nós merece agora reaprender a chorar». Chama-se Nem Tudo É História. Uma única e a mesma história.

22.8.08

Pese a admiração...

Eugénio de Andrade deveria detestar António Botto como poeta e por isso escreveu: «como poeta desde há muito que o tenho em pouca conta». Eduardo Pitta, que organizou o volume das Canções, lembra isso e lembra mais: que quando escreveu aquilo, ele ainda não era Eugénio de Andrade, mas sim «José Fontinhas». E para que o leitor perceba bem acrescenta, em nota de rodapé, que José Fontinhas é o «nome civil do poeta Eugénio de Andrade».
Ficam quites, pois, Andrade e Pitta e o leitor, basbaque, a ver.
Ah! Esquecia-me: ainda a propósito do brevíssimo apontamento biográfico que faz sobre o autor do poema «Ama sim, mas não obrigues a alma», diz Pitta que Botto, «homossexual assumido» acabaria erradicado do funcionalismo público, onde teria «modesto emprego», em 1942, «num tempo em que os mecenas não punham Fundações aos poetas».
Ora aí está a piadinha assassina! Atirado Fontinhas ao chão, há que pôr-lhe o pé no pescoço. O tiro de misericórdia vem a seguir. Citando-a à obra de Fontinhas enquanto Andrade, ressalva Pitta: «pese a admiração que por ela nutro».
Naturalmente, nem seria preciso dizer, porque o leitor nesta altura já está esclarecido quanto a ser imensa a admiração.

20.8.08

A Torre de São Patrício

Há no Monte Estoril um Museu da Música Portuguesa. Fica numa casa que Raul Lino desenhou. A bem dizer é mais um arquivo sonoro e de documentação do que um museu. Expostos estão alguns instrumentos musicais que faziam parte da colecção de Michel Giacometti. Poucos. E pouco mais. A casa recebeu também o espólio de Fernando Lopes Graça, mas dele pouco está exposto.
Há em Cascais um casa que inicialmente era a Torre de São Patrício e hoje se chama Verdades Faria em homenagem à mulher de Mantero Belard, seu proprietário, pois adquiriu-a em 1942 e benemérito, porque a doou ao município para que ali continuasse a promoção cultural.
Visitei-a.
Ora há na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, junto a minha casa, o projecto pelo qual em 1919 Raul Lino projectou a «reconstrução da casa do Exmo. Senhor Jorge O'Neill», que era a edificação original da casa de Verdades Faria.
Há pois entre a casa em que vivo e a casa que visitei a distância entre o estar e o ir, entre a necessidade estática de um lugar e a satisfação remexida de uma ideia.

16.8.08

Uma espécie de Pessoa

«O Destino é uma espécie de pessoa, e deixa de nos falar se mostramos que não nos importamos com o que ele nos faz», escreveu Fernando Pessoa a Ofélia Queirós em 28 de Maio de 1920, no Arcada, perto da hora do jantar. E acrescentava: «Por isso tu deves ter força de vontade de só pensar nisto: gosto do Fernando, não há mais nada».
Pessoa conheceu Ofélia Queirós por esta trabalhar como escriturária no escritório da firma Félix, Valadas & Freitas, Lda., na Rua da Assunção, n.º 42, 2º, de que um seu primo, Mário Nogueira de Freitas, era sócio. Sobrinha do poeta Carlos Queirós mudar-se-ia mais tarde para a C. Dupin & Companhia. Por essa altura o autor da Ode Marítima, morava em Benfica, primeiro no Alto da Belavista e depois na Avenida Gomes Pereira.
Vinte e dois dias antes, Pessoa tinha-lhe escrito: «Então o meu Bébé fez-me uma careta quando eu passei? Então o meu Bébé, que disse que me ia escrever ontem, não me escreveu? Então o meu Bébé não gosta do Nininho? (Não é por causa da careta, mas por causa do não escrever)».
Talvez isto não tenha propósito nem outra grandeza que não seja a da sua pungente humanidade. Talvez por ter acordado cedo, deu-me para ler isto e para isto escrever. Sem mais complicações, é um modo como qualquer outro de começar uma manhã.

15.8.08

A Lebre

Álvaro Guerra escreveu em 1970 A Lebre. Conheço-lhe mal a obra posterior, mas temo que perca excelência. Verei à medida que lhe encontre os livros, sofrendo o mau para valorizar o sabor do bom.
Talvez consiga acabá-lo hoje. O livro é breve, mas estou a lê-lo devagar. Em cada folha vem ao de cima uma hesitação quanto ao haver ainda mais que se diga depois de escritas como estas. Talvez inventando. «E o que não sabemos inventamos. E o que não inventamos nunca será», diz-se na página 42.
A Lebre é um cenário, de predações cruzadas, Miguel e Sofia «a conjugal mentira - mentira conjugada a dois», Inês, «uma aguda sensação de prazer na ponta dos dedos», António que «aos vinte anos ainda não se luta contra o tempo, luta-se a favor do tempo». Notável.

14.8.08

A inefável união

Hildegard Bettencourt e Fernando Lopes Graça traduziram «Tristão», um magnífico pequeno conto de Thomas Mann.
É uma história de um amor trágico, vivida num sanatório. Li-o esta noite, impressionado com a força narrativa com que o autor de A Montanha Mágica consegue acompanhar o caudal dos sentimentos amorosos, ao mesmo tempo que a personagem feminina da história arranca do piano o equivalente a todo arco orquestral do segundo acto de Tristão e Isolda, e surge então, o mistério sagrado da consumação o «despertar da paixão» subindo e elevando «em êxtase até à inefável união», uma música e um momento em que «duas forças, dois seres distantes aspiravam, no sofrimento e na felicidade, à união, e abraçavam-se num desejo louco e arrebatado do eterno e do absoluto». Gabriela morre, de tísica e de aniquilamento, consumida pela «vida vulgar, ridícula e, contudo, triunfante» de um casamento infeliz, uma vida profanada pelo «irritante simplismo», pelo «quotidiano vulgar», pelo que é, em suma, a «eterna antítese e o inimigo mortal da Beleza».
Lê-se como se seguisse a pauta da partitura, a poética e a música uma e a mesma forma de dizer.

11.8.08

A Terra Nova

Há daquelas coisas de que uma pessoa se esquece o que são e depois, quando as reencontra, se penaliza pela amnésia. Uma delas aconteceu hoje, ao comer uma coisa gelatinosa e fibrosa e quase nada saborosa, em que o dente tinha dificuldade em entrar e que no final da refeição deixou o sentimento do vazio que é o prenúncio da fome.
Chamam-se caras de bacalhau.
Ora eu, que nem faço má cara à comida, porque desde pequeno aprendi a lição o que tu pesquinhas há muito quem queira, foi só mesmo em nome desse princípio que lá ingurgitei as ditas caras, empurrando-as com feijão verde, uma batata e ovo cozido na esperança de criar lastro, como se faz no porão dos navios que vogam sem carga.
Regressado, aqui estou com um vago sabor a bacalhau no palato e, por associação de ideias, um travo de Terra Nova, sonho de novidade vivido na solidão de um dóri, de pescador à linha.

9.8.08

Saltos altos

Eu vinha por um caminho estreito, gradeado, paralelo à linha férrea, ladeado por um muro velho e outras velharias, no qual cabe uma pessoa de cada vez e quando se cruzam um tem de pedir licença e o outro tem que lha dar. Ela ia adiante, num caminhar tal modo miúdo que, mau grado o peso que transportava, um saco numa mão, a pasta na outra e a alma carregada de angústias, surpreendi-me ao alcançá-la. Sucedeu no momento em que o acanhado corredor se abriu num baldio descuidado, pedregoso, terreiro feio que dava acesso, enfim, à estação.
Iniciou-se-lhe aí o momento complicado. Alçada nos seus sapatinhos de salto alto, qual insecto de andar bamboleante, pé aqui, pé ali, dir-se-ia uma aranha em forma de mulher. Visivelmente míope, daquelas para as quais, a não existir a vaidade, se exigiriam óculos, franziu a testa para melhor acertar no local da brita que se ensarilhava nos sapatos e a fazia escorregar, em risco até de cair.
Parei até que se decidisse.
Foi então que tomou uma decisão heróica, demonstrativa que ainda sobeja força de alma neste país anémico: deu dois passinhos atrás e ei-la que contornou pelo largo, assentando os delicados sapatinhos num bocadinho que a Natureza atapetara de relva, em apreço a tão frágeis criaturinhas. Resoluta seguiu em frente. O mundo aplaudiu silenciosamente.
Momentos depois ali estávamos, cada um em sua plataforma, ela a caminho de Meleças, o tic-tac dos sapatos a marcarem a sua presença, na plataforma número dois. Transformara-se numa leoa, lançando em redor ondas de volúpia, do alto dos seus sapatos, do cimo da sua arrogância.

31.7.08

Um homem à janela

Tinha-a comprado quando saíu em 1979, numa separata de O Jornal, onde escrevi tantos artigos, enviados ao meu querido amigo e colega de curso Cáceres Monteiro: um inédito do Eça de Queiroz, intitulado «Primeiro de Maio».
Depois a vida, as mudanças forçadas de casa deixaram-no para trás, na companhia de outras centenas de seus semelhantes.
Encontrei-o ontem, ao dar o meu passeio higiénico pelo bairro, tal os que passeiam o cão, eu sem cão nem trela.
A livraria estava fechada. Puz então, hoje de tarde, um papelinho em cima da mesa da casa de jantar, para não me esquecer de ir lá, ao Pó dos Livros, recuperá-lo, antes que esgotasse.
Tenho-o aqui. Trouxe com ele uma biografia do Kafka, na qual o primeiro capítulo se chama «um homem à janela». É uma ideia.

28.7.08

As velas

Definitivamente a escrita deve ser a da personagem não a do seu autor. O atrevimento deste falar através daquele paga-se caro em Literatura, a ficção auto-biográfica uma tentação insuportável. Deliciam-se, claro, os leitores, no que pior há no seu voyeurismo, o traduzir a ausência de uma vida capaz, em cada linha do que lêem descobrindo uma dor, em cada ironia um contentamento. Espojam-se, cães escorraçando as pulgas, os escritores do infortúnio, vivendo dos subentendidos, do que permitem seja lido e interpretado, purgando-se nestas defecações da alma em edições muitas, a sugestão um modo de dizer sem o risco de ter dito.
Definitivamente a escrita deve ser uma outra coisa que não a própria vida. Ao terminar ontem o dia deveria ter escrito que, ao deitar-me, li mais umas folhas do livro onde se fala do general que estudava no colégio «as coisas que não deviam dizer-se». Chama-se As velas ardem até ao fim.

23.7.08

O relógio sem ponteiros

Impossível mais, mas avancei uma folhas nesse notável livro do Vergílio Ferreira que se chama «Em nome da terra». É uma narrativa dorida, feita de compaixão humana, escrita como se arrancada do próprio corpo em decomposição, um hino à vida com a morte à vista.
A personagem foi juiz e hoje, uma perna amputada, fala, como se lhe escrevesse, à grande paixão a que coincidiu, no extraordinário improvável, com a que foi a sua mulher.
Mónica: «tem-se piedade do doente que não abusa de um prazo razoável para o não ser, não de um doente sem prazo nenhum. (...) A piedade é um prazer de quem a tem mas só se a coisa se resolve depressa. Mas como ter piedade por um doente que se não despacha e abusa imenso tempo até se decidir a morrer
Eu sei que é uma frase risonha, rude com tanta verdade, pensada e escrita como se num lar de idosos ao abandono, cheios do «ranço da idade», pessoas a viver «a última probabilidade de terem um corpo e aproveitam-na», sem saberem o que é a eternidade esse «relógio sem ponteiros».
Vergílio Ferreira foi professor em Faro em 1942. No Largo onde morou será um dia o Tribunal da Relação.

21.7.08

A criada

Eu sei que há sentimentos feitos de embirrações. Com o Borges comecei por embirar com ele, como já confessei aqui, até começar a lê-lo e descobrir-lhe, na sua língua de origem, a genialidade. A razão é simples: eu considerava insuportavelmente petulante e cretinamente peralvilho um colega meu que enchia de Borges a boca. Foi um caso de rancor trespassado.
Agora descobri que tinha transferido, irracional, a embirração para a viúva do Borges. Ao ler a revista Os Meus Livros que, maliciosamente, os argentinos lhe chamavam «la viudissima», rejubilei, os maus fígados purgados. Eu sei que é maldade, mas é a conselho médico. E que querem? Prefiro a criada do Borges, pronto!
É que, vinte anos depois, ver o notável autor às mãos de advogados e de processos, de testamentos controversos e daquela executora testamentária é de morrer, iletrado e sem direitos de autor.

Noites insones

Trouxe-o por empréstimo. As folhas ressequidas de quarente e oito anos de vida, cortado em oitavo, que era a forma de poupar papel naqueles tempos de penúria, editado pela Civilização.
«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias».
Começa assim, o pequeno conto. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas», continua Stefan Zweig. O texto data de 1914, o mundo dilacerado por uma guerrra que sacrificou milhões. Chama-se «O Mundo não pode dormir», título que deu nome à obra. Quando foi editada uma nova chacina dizimava a Europa, o berço do homem que se julga civilizado.
Trouxe-o comigo, emprestado, pela dor que causa este anseio de paz, este desejo enfim de sono, a condição do sonho, o local de refúgio dos desiludidos.
Stefan Zweig suicidar-se-ia, em 23 de Fevereiro de 1942, com Lott Altmann, no Brasil, recluso no fundo de si mesmo.
Metódico, deixou tudo arrumado e organizado ao pormenor, antes de dar, enfim, sentido à vida. Tinha sessenta anos de idade.

20.7.08

O Mundo que partilhamos

Ontem, ao fim da tarde, em Vila Real de Santo António, descubro um contista, daqueles a quem as editoras sugerem que se atrevam a um romance, mas que são resistentes a teimar na grandeza da pequenez.
No caso chama-se Paulo Kellerman.
Pela noite inicei-me na sua escrita. Abre com um texto no feminino: «lentamente, desligas-te de mim; abandonas-me e esqueces-me, regressas a ti». É a crónica de um amor que findou, um casal a «recuperar os pedaços que cada um cedeu (ou emprestou?) para a construção do nosso amor; pedaços do eu, que formaram um nós. Mas o nós norreu e há que realizar o funeral», escreve, num conto que tem precisamente esse nome «O nosso funeral».
«Você também é um contista», disse-me, acrescentando uma amabilidade, eu tímido, de livro na mão, «já agora, atrevo-me a pedir que mo autografe». Assinou-o e assim ficámos em torno de «Os Mundos que Partilhamos».

18.7.08

Faz impressão, eu sei

Uma tipografia erra e no livro a lombada fica por imprimir. A tipografia assume a culpa e aceita fazer novas capas, a lombada desta vez, enfim, impressa.
Tudo se resolve menos isto: os amigos que, tendo acorrido à apresentação do livro, foram generosos, levaram para casa livros únicos, estranhos, que se tornarão raridades face à edição oficial, a expurgada do erro, em que está tudo a que uma pessoa tem direito num livro.
É embaraçoso, pois já que um livro é um amontoado de letras que se pagam, ao menos que os leitores levem, em troca do que se lhes esportulou, o alfabeto todo, em caixa alta e em caixa baixa, na capa, contra-capa, miolo, badana e, claro, na lombada! Letras comidas, só na sopa.
Mas pronto! Não se aceitam devoluções! Há quem faça tiragens numeradas, limitadas, só para os eleitos. É o caso. Esta tem uma originalidade que a distingue das correntes: o chic da lombada vazia. E assim, em vez do nome do autor, escrevam o vosso, à mão que seja. Não é que outro dia alguém me dizia, sabia você que comprar um livro é apenas adquirir o direito de o ler e nada mais? Atenção, pois, nada de rasgar. Os meus advogados processam-vos!

16.7.08

O efeito rerógrado

Num livro sobre Kant li que «manifestar tanto engenho para ficar de boa saúde é um sinal de doença». O filósofo alemão só continuava de boa saúde porque acreditava estar sempre doente. Eis o poder das convicções no seu perverso efeito retrógrado, a lógica do mundo em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio: o ser hipocondríaco como terapia para a doença real através da doença imaginária.
Se um mundo assim tem uma lógica, ela só pode ser a dos «professores do desinteresse» e a dos «discípulos indesejados», numa noite de insónia nascida da vontade de não dormir. As frases, estas, são do Nietzsche, que era, na sua genialidade, um agregado de doenças do corpo e de mazelas da alma.

11.7.08

Um dia na vida de...

Receber em mãos, vindos frescos da tipografia, pacotes com o livro que se escreveu, que saiu do nada e tenta ser alguma coisa.
Carregá-los, pesados, à força de braço, depois de os ter gerado à força do esgotamento.
Entregá-los então, à espera que alguém os queira e por eles se interesse.
Primeiro, a agonia do papel em branco, enfim, o medo pelo que está lá escrito.
Foi assim, um dia instante na minha vida, entre tanta realidade e tanta ilusão.

10.7.08

Um modo de dizer

Acabei esta noite a leitura do Até ao Fim, o romance que o Vergílio Ferreira escreveu em 1987. É uma história, como é normal num romance, que não tinha de terminar assim, mas deixemos isso, porque um autor também tem direito a arranjar modo de se ver livre da servidão da escrita, inventando um fim.
Leio os livros com um lápis na mão, a sublinhar as frases que têem uma ideia, os parágrafos que exprimem um modo singular de dizer. É isso que, esgotada a leitura, me deixa a sensação da natureza marcante desta obra, por ser rara a página em que não ficou uma marca de importância. «Mas quem é que consegue dizer de que trata um romance, mesmo depois de o conhecer?», escreveu Vergílio, como vem na página 214. «Toda a pergunta inclui já uma resposta», li eu uma folhas antes.

8.7.08

O lado de lá da mesma rua

Houve uma altura da vida em que por causa da penúria não lia. Claro que há a penúria económica, a que faz com que não se tenha dinheiro para livros e a penúria de tempo, a que faz com tempo nem haja para ir a uma Biblioteca.
Quando morava em Abravezes ainda havia a carrinha da Gulbenkian, e nessa altura em não sabia que o Herberto Helder tinha trabalhado lá motorizadamente itinerante e talvez nem soubesse que havia um ser chamado Herberto Helder.
Houve depois uma outra altura em que tentei vencer o atraso nas leituras e o tempo perdido sem ler e gastei o dinheiro que apanhava a comprar livros.
Descontadas as bibliotecas que se recomeçam, porque há os divórcios perdulários na base do virar costas a tudo, comecei a ter tempo sim, mas para ganhar dinheiro e com ele comprar livros que não tinha tempo para ler.
Há o tempo de agora. Com mais dinheiro ou menos dinheiro, tem de haver tempo para a dose diária de leitura, como os diabéticos e a sua picadela quotidiana de insulina.
Vista assim a vida, é tudo mais doce. Um homem abre a janela e descobre que a sua rua aumentou em comprimento e sobretudo em grandeza. Do lado de lá do acaso universal, mãe de todas as aventuras, há quem queira ouvir a nossa voz. É então o momento de escrever.