20.8.08

A Torre de São Patrício

Há no Monte Estoril um Museu da Música Portuguesa. Fica numa casa que Raul Lino desenhou. A bem dizer é mais um arquivo sonoro e de documentação do que um museu. Expostos estão alguns instrumentos musicais que faziam parte da colecção de Michel Giacometti. Poucos. E pouco mais. A casa recebeu também o espólio de Fernando Lopes Graça, mas dele pouco está exposto.
Há em Cascais um casa que inicialmente era a Torre de São Patrício e hoje se chama Verdades Faria em homenagem à mulher de Mantero Belard, seu proprietário, pois adquiriu-a em 1942 e benemérito, porque a doou ao município para que ali continuasse a promoção cultural.
Visitei-a.
Ora há na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, junto a minha casa, o projecto pelo qual em 1919 Raul Lino projectou a «reconstrução da casa do Exmo. Senhor Jorge O'Neill», que era a edificação original da casa de Verdades Faria.
Há pois entre a casa em que vivo e a casa que visitei a distância entre o estar e o ir, entre a necessidade estática de um lugar e a satisfação remexida de uma ideia.

16.8.08

Uma espécie de Pessoa

«O Destino é uma espécie de pessoa, e deixa de nos falar se mostramos que não nos importamos com o que ele nos faz», escreveu Fernando Pessoa a Ofélia Queirós em 28 de Maio de 1920, no Arcada, perto da hora do jantar. E acrescentava: «Por isso tu deves ter força de vontade de só pensar nisto: gosto do Fernando, não há mais nada».
Pessoa conheceu Ofélia Queirós por esta trabalhar como escriturária no escritório da firma Félix, Valadas & Freitas, Lda., na Rua da Assunção, n.º 42, 2º, de que um seu primo, Mário Nogueira de Freitas, era sócio. Sobrinha do poeta Carlos Queirós mudar-se-ia mais tarde para a C. Dupin & Companhia. Por essa altura o autor da Ode Marítima, morava em Benfica, primeiro no Alto da Belavista e depois na Avenida Gomes Pereira.
Vinte e dois dias antes, Pessoa tinha-lhe escrito: «Então o meu Bébé fez-me uma careta quando eu passei? Então o meu Bébé, que disse que me ia escrever ontem, não me escreveu? Então o meu Bébé não gosta do Nininho? (Não é por causa da careta, mas por causa do não escrever)».
Talvez isto não tenha propósito nem outra grandeza que não seja a da sua pungente humanidade. Talvez por ter acordado cedo, deu-me para ler isto e para isto escrever. Sem mais complicações, é um modo como qualquer outro de começar uma manhã.

15.8.08

A Lebre

Álvaro Guerra escreveu em 1970 A Lebre. Conheço-lhe mal a obra posterior, mas temo que perca excelência. Verei à medida que lhe encontre os livros, sofrendo o mau para valorizar o sabor do bom.
Talvez consiga acabá-lo hoje. O livro é breve, mas estou a lê-lo devagar. Em cada folha vem ao de cima uma hesitação quanto ao haver ainda mais que se diga depois de escritas como estas. Talvez inventando. «E o que não sabemos inventamos. E o que não inventamos nunca será», diz-se na página 42.
A Lebre é um cenário, de predações cruzadas, Miguel e Sofia «a conjugal mentira - mentira conjugada a dois», Inês, «uma aguda sensação de prazer na ponta dos dedos», António que «aos vinte anos ainda não se luta contra o tempo, luta-se a favor do tempo». Notável.

14.8.08

A inefável união

Hildegard Bettencourt e Fernando Lopes Graça traduziram «Tristão», um magnífico pequeno conto de Thomas Mann.
É uma história de um amor trágico, vivida num sanatório. Li-o esta noite, impressionado com a força narrativa com que o autor de A Montanha Mágica consegue acompanhar o caudal dos sentimentos amorosos, ao mesmo tempo que a personagem feminina da história arranca do piano o equivalente a todo arco orquestral do segundo acto de Tristão e Isolda, e surge então, o mistério sagrado da consumação o «despertar da paixão» subindo e elevando «em êxtase até à inefável união», uma música e um momento em que «duas forças, dois seres distantes aspiravam, no sofrimento e na felicidade, à união, e abraçavam-se num desejo louco e arrebatado do eterno e do absoluto». Gabriela morre, de tísica e de aniquilamento, consumida pela «vida vulgar, ridícula e, contudo, triunfante» de um casamento infeliz, uma vida profanada pelo «irritante simplismo», pelo «quotidiano vulgar», pelo que é, em suma, a «eterna antítese e o inimigo mortal da Beleza».
Lê-se como se seguisse a pauta da partitura, a poética e a música uma e a mesma forma de dizer.

11.8.08

A Terra Nova

Há daquelas coisas de que uma pessoa se esquece o que são e depois, quando as reencontra, se penaliza pela amnésia. Uma delas aconteceu hoje, ao comer uma coisa gelatinosa e fibrosa e quase nada saborosa, em que o dente tinha dificuldade em entrar e que no final da refeição deixou o sentimento do vazio que é o prenúncio da fome.
Chamam-se caras de bacalhau.
Ora eu, que nem faço má cara à comida, porque desde pequeno aprendi a lição o que tu pesquinhas há muito quem queira, foi só mesmo em nome desse princípio que lá ingurgitei as ditas caras, empurrando-as com feijão verde, uma batata e ovo cozido na esperança de criar lastro, como se faz no porão dos navios que vogam sem carga.
Regressado, aqui estou com um vago sabor a bacalhau no palato e, por associação de ideias, um travo de Terra Nova, sonho de novidade vivido na solidão de um dóri, de pescador à linha.

9.8.08

Saltos altos

Eu vinha por um caminho estreito, gradeado, paralelo à linha férrea, ladeado por um muro velho e outras velharias, no qual cabe uma pessoa de cada vez e quando se cruzam um tem de pedir licença e o outro tem que lha dar. Ela ia adiante, num caminhar tal modo miúdo que, mau grado o peso que transportava, um saco numa mão, a pasta na outra e a alma carregada de angústias, surpreendi-me ao alcançá-la. Sucedeu no momento em que o acanhado corredor se abriu num baldio descuidado, pedregoso, terreiro feio que dava acesso, enfim, à estação.
Iniciou-se-lhe aí o momento complicado. Alçada nos seus sapatinhos de salto alto, qual insecto de andar bamboleante, pé aqui, pé ali, dir-se-ia uma aranha em forma de mulher. Visivelmente míope, daquelas para as quais, a não existir a vaidade, se exigiriam óculos, franziu a testa para melhor acertar no local da brita que se ensarilhava nos sapatos e a fazia escorregar, em risco até de cair.
Parei até que se decidisse.
Foi então que tomou uma decisão heróica, demonstrativa que ainda sobeja força de alma neste país anémico: deu dois passinhos atrás e ei-la que contornou pelo largo, assentando os delicados sapatinhos num bocadinho que a Natureza atapetara de relva, em apreço a tão frágeis criaturinhas. Resoluta seguiu em frente. O mundo aplaudiu silenciosamente.
Momentos depois ali estávamos, cada um em sua plataforma, ela a caminho de Meleças, o tic-tac dos sapatos a marcarem a sua presença, na plataforma número dois. Transformara-se numa leoa, lançando em redor ondas de volúpia, do alto dos seus sapatos, do cimo da sua arrogância.

31.7.08

Um homem à janela

Tinha-a comprado quando saíu em 1979, numa separata de O Jornal, onde escrevi tantos artigos, enviados ao meu querido amigo e colega de curso Cáceres Monteiro: um inédito do Eça de Queiroz, intitulado «Primeiro de Maio».
Depois a vida, as mudanças forçadas de casa deixaram-no para trás, na companhia de outras centenas de seus semelhantes.
Encontrei-o ontem, ao dar o meu passeio higiénico pelo bairro, tal os que passeiam o cão, eu sem cão nem trela.
A livraria estava fechada. Puz então, hoje de tarde, um papelinho em cima da mesa da casa de jantar, para não me esquecer de ir lá, ao Pó dos Livros, recuperá-lo, antes que esgotasse.
Tenho-o aqui. Trouxe com ele uma biografia do Kafka, na qual o primeiro capítulo se chama «um homem à janela». É uma ideia.

28.7.08

As velas

Definitivamente a escrita deve ser a da personagem não a do seu autor. O atrevimento deste falar através daquele paga-se caro em Literatura, a ficção auto-biográfica uma tentação insuportável. Deliciam-se, claro, os leitores, no que pior há no seu voyeurismo, o traduzir a ausência de uma vida capaz, em cada linha do que lêem descobrindo uma dor, em cada ironia um contentamento. Espojam-se, cães escorraçando as pulgas, os escritores do infortúnio, vivendo dos subentendidos, do que permitem seja lido e interpretado, purgando-se nestas defecações da alma em edições muitas, a sugestão um modo de dizer sem o risco de ter dito.
Definitivamente a escrita deve ser uma outra coisa que não a própria vida. Ao terminar ontem o dia deveria ter escrito que, ao deitar-me, li mais umas folhas do livro onde se fala do general que estudava no colégio «as coisas que não deviam dizer-se». Chama-se As velas ardem até ao fim.

23.7.08

O relógio sem ponteiros

Impossível mais, mas avancei uma folhas nesse notável livro do Vergílio Ferreira que se chama «Em nome da terra». É uma narrativa dorida, feita de compaixão humana, escrita como se arrancada do próprio corpo em decomposição, um hino à vida com a morte à vista.
A personagem foi juiz e hoje, uma perna amputada, fala, como se lhe escrevesse, à grande paixão a que coincidiu, no extraordinário improvável, com a que foi a sua mulher.
Mónica: «tem-se piedade do doente que não abusa de um prazo razoável para o não ser, não de um doente sem prazo nenhum. (...) A piedade é um prazer de quem a tem mas só se a coisa se resolve depressa. Mas como ter piedade por um doente que se não despacha e abusa imenso tempo até se decidir a morrer
Eu sei que é uma frase risonha, rude com tanta verdade, pensada e escrita como se num lar de idosos ao abandono, cheios do «ranço da idade», pessoas a viver «a última probabilidade de terem um corpo e aproveitam-na», sem saberem o que é a eternidade esse «relógio sem ponteiros».
Vergílio Ferreira foi professor em Faro em 1942. No Largo onde morou será um dia o Tribunal da Relação.

21.7.08

A criada

Eu sei que há sentimentos feitos de embirrações. Com o Borges comecei por embirar com ele, como já confessei aqui, até começar a lê-lo e descobrir-lhe, na sua língua de origem, a genialidade. A razão é simples: eu considerava insuportavelmente petulante e cretinamente peralvilho um colega meu que enchia de Borges a boca. Foi um caso de rancor trespassado.
Agora descobri que tinha transferido, irracional, a embirração para a viúva do Borges. Ao ler a revista Os Meus Livros que, maliciosamente, os argentinos lhe chamavam «la viudissima», rejubilei, os maus fígados purgados. Eu sei que é maldade, mas é a conselho médico. E que querem? Prefiro a criada do Borges, pronto!
É que, vinte anos depois, ver o notável autor às mãos de advogados e de processos, de testamentos controversos e daquela executora testamentária é de morrer, iletrado e sem direitos de autor.

Noites insones

Trouxe-o por empréstimo. As folhas ressequidas de quarente e oito anos de vida, cortado em oitavo, que era a forma de poupar papel naqueles tempos de penúria, editado pela Civilização.
«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias».
Começa assim, o pequeno conto. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas», continua Stefan Zweig. O texto data de 1914, o mundo dilacerado por uma guerrra que sacrificou milhões. Chama-se «O Mundo não pode dormir», título que deu nome à obra. Quando foi editada uma nova chacina dizimava a Europa, o berço do homem que se julga civilizado.
Trouxe-o comigo, emprestado, pela dor que causa este anseio de paz, este desejo enfim de sono, a condição do sonho, o local de refúgio dos desiludidos.
Stefan Zweig suicidar-se-ia, em 23 de Fevereiro de 1942, com Lott Altmann, no Brasil, recluso no fundo de si mesmo.
Metódico, deixou tudo arrumado e organizado ao pormenor, antes de dar, enfim, sentido à vida. Tinha sessenta anos de idade.

20.7.08

O Mundo que partilhamos

Ontem, ao fim da tarde, em Vila Real de Santo António, descubro um contista, daqueles a quem as editoras sugerem que se atrevam a um romance, mas que são resistentes a teimar na grandeza da pequenez.
No caso chama-se Paulo Kellerman.
Pela noite inicei-me na sua escrita. Abre com um texto no feminino: «lentamente, desligas-te de mim; abandonas-me e esqueces-me, regressas a ti». É a crónica de um amor que findou, um casal a «recuperar os pedaços que cada um cedeu (ou emprestou?) para a construção do nosso amor; pedaços do eu, que formaram um nós. Mas o nós norreu e há que realizar o funeral», escreve, num conto que tem precisamente esse nome «O nosso funeral».
«Você também é um contista», disse-me, acrescentando uma amabilidade, eu tímido, de livro na mão, «já agora, atrevo-me a pedir que mo autografe». Assinou-o e assim ficámos em torno de «Os Mundos que Partilhamos».

18.7.08

Faz impressão, eu sei

Uma tipografia erra e no livro a lombada fica por imprimir. A tipografia assume a culpa e aceita fazer novas capas, a lombada desta vez, enfim, impressa.
Tudo se resolve menos isto: os amigos que, tendo acorrido à apresentação do livro, foram generosos, levaram para casa livros únicos, estranhos, que se tornarão raridades face à edição oficial, a expurgada do erro, em que está tudo a que uma pessoa tem direito num livro.
É embaraçoso, pois já que um livro é um amontoado de letras que se pagam, ao menos que os leitores levem, em troca do que se lhes esportulou, o alfabeto todo, em caixa alta e em caixa baixa, na capa, contra-capa, miolo, badana e, claro, na lombada! Letras comidas, só na sopa.
Mas pronto! Não se aceitam devoluções! Há quem faça tiragens numeradas, limitadas, só para os eleitos. É o caso. Esta tem uma originalidade que a distingue das correntes: o chic da lombada vazia. E assim, em vez do nome do autor, escrevam o vosso, à mão que seja. Não é que outro dia alguém me dizia, sabia você que comprar um livro é apenas adquirir o direito de o ler e nada mais? Atenção, pois, nada de rasgar. Os meus advogados processam-vos!

16.7.08

O efeito rerógrado

Num livro sobre Kant li que «manifestar tanto engenho para ficar de boa saúde é um sinal de doença». O filósofo alemão só continuava de boa saúde porque acreditava estar sempre doente. Eis o poder das convicções no seu perverso efeito retrógrado, a lógica do mundo em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio: o ser hipocondríaco como terapia para a doença real através da doença imaginária.
Se um mundo assim tem uma lógica, ela só pode ser a dos «professores do desinteresse» e a dos «discípulos indesejados», numa noite de insónia nascida da vontade de não dormir. As frases, estas, são do Nietzsche, que era, na sua genialidade, um agregado de doenças do corpo e de mazelas da alma.

11.7.08

Um dia na vida de...

Receber em mãos, vindos frescos da tipografia, pacotes com o livro que se escreveu, que saiu do nada e tenta ser alguma coisa.
Carregá-los, pesados, à força de braço, depois de os ter gerado à força do esgotamento.
Entregá-los então, à espera que alguém os queira e por eles se interesse.
Primeiro, a agonia do papel em branco, enfim, o medo pelo que está lá escrito.
Foi assim, um dia instante na minha vida, entre tanta realidade e tanta ilusão.

10.7.08

Um modo de dizer

Acabei esta noite a leitura do Até ao Fim, o romance que o Vergílio Ferreira escreveu em 1987. É uma história, como é normal num romance, que não tinha de terminar assim, mas deixemos isso, porque um autor também tem direito a arranjar modo de se ver livre da servidão da escrita, inventando um fim.
Leio os livros com um lápis na mão, a sublinhar as frases que têem uma ideia, os parágrafos que exprimem um modo singular de dizer. É isso que, esgotada a leitura, me deixa a sensação da natureza marcante desta obra, por ser rara a página em que não ficou uma marca de importância. «Mas quem é que consegue dizer de que trata um romance, mesmo depois de o conhecer?», escreveu Vergílio, como vem na página 214. «Toda a pergunta inclui já uma resposta», li eu uma folhas antes.

8.7.08

O lado de lá da mesma rua

Houve uma altura da vida em que por causa da penúria não lia. Claro que há a penúria económica, a que faz com que não se tenha dinheiro para livros e a penúria de tempo, a que faz com tempo nem haja para ir a uma Biblioteca.
Quando morava em Abravezes ainda havia a carrinha da Gulbenkian, e nessa altura em não sabia que o Herberto Helder tinha trabalhado lá motorizadamente itinerante e talvez nem soubesse que havia um ser chamado Herberto Helder.
Houve depois uma outra altura em que tentei vencer o atraso nas leituras e o tempo perdido sem ler e gastei o dinheiro que apanhava a comprar livros.
Descontadas as bibliotecas que se recomeçam, porque há os divórcios perdulários na base do virar costas a tudo, comecei a ter tempo sim, mas para ganhar dinheiro e com ele comprar livros que não tinha tempo para ler.
Há o tempo de agora. Com mais dinheiro ou menos dinheiro, tem de haver tempo para a dose diária de leitura, como os diabéticos e a sua picadela quotidiana de insulina.
Vista assim a vida, é tudo mais doce. Um homem abre a janela e descobre que a sua rua aumentou em comprimento e sobretudo em grandeza. Do lado de lá do acaso universal, mãe de todas as aventuras, há quem queira ouvir a nossa voz. É então o momento de escrever.

6.7.08

Um canteiro de flores

Acho que conseguirei muito em breve concluir a leitura do «Até ao Fim». o romance que Vergílio Ferreira escreveu em 1987. Li depressa, como se soubesse tudo o que lá está e o folhear fosse apenas uma forma de rememorar.
Esta manhã, porque acordei cedo e antes de voltar a adormecer logo a seguir, ainda li aquela página em que ele se coloca, através de iniciais, no meio da narrativa, na sua casa em Fontanelas, entre pinheiros, e a mulher, de que não cita o nome e se chama Regina e que queria ter um canteiro de flores.
E veio-me então à memória, lembrança triste em dia triste a casa em frente e eu ter querido comprá-la, nem sei com que dinheiro para no quintal construir um anexo e dividi-la assim com os meus filhos. «Até hoje nunca um filho pediu satisfações a um pai por tê-lo feito existir», diz Miguel, filho de Cáudio.

1.7.08

O irreal da infinitude

Como se escreve um romance? E para que se escreve um romance? Para quê e como e porquê uma história em que a parte inventada tenta parecer real para que a realidade se esconda por detrás de cada página?
Não sei responder e talvez por isso fui à estante e o «Até ao Fim» pareceu-me ser a resposta possível às minhas inquietações literárias. Estive com ele ao jantar, Cláudio e a sua vigília naquela «noite tranquila de inocência», a noite irrazoável pois «não há razão nenhuma que se aguente com sono», e o lugar em que «os cães estacam de ladrar», o Martinho «coveiro, familiar dos mortos, deve-lhes ter perdido o respeito», a irmã do Leonel, prostituta, que «ofereceu-lhe uma peliça, ganhou-a honestamente com a distribuição do prazer».
Li, li, absorto e ao resto indiferente, chegou a pescada «cozida a anzol», vem temperada da copa, passei, dorido, pelo Miguel, o filho que recusa, enojado, «a metafísica da descendência», «essa mistificação de um acto simples egoísta», «farto de hipocrisias, de convenções sociais», as questões fisiológicas do «montaste-te numa mulher chamada Flora. E eu nasci».
Como se lê um romace e para que se lê e porque estou eu a lê-lo, «e tudo é belo como se o fosse», e «todo o mundo reduzido a mim e a ti. Com muitas adjacentes sem importância nenhuma»? Não sei.
Estou de novo em casa, na página 47.
O ar condicionado deste restaurante «escangalhou-se», disse, o eterno sorriso redondo no rosto, a esconjurar a adversidade, a dona do lugar. «Avariou-se», corrigiu-lhe a filha, os olhos profundos, o corpo recatadamente boleado, um porte de contenção ante as adjacências como eu, único comensal na noite de hoje. «Durou trinta anos. Houve tempos em que esta casa enchia ao jantar». Hoje resto eu.
Estou em casa. Também aqui «o dia morre nas altas janelas».
Escreve-se um romance para que um dia alguém o leia, «o olhar calmo até ao irreal da infinitude». Vergílio Ferreira escreveu. Em 1987. Hoje, nesta noite morna, trouxe-o comigo, «a disponibilidade da alegria gratuita, da simples alegria de existir, esquecer, esquecer».

28.6.08

Em nome do Pai

Entraram às dezenas com as motos para dentro do cemitério, a fim de prestarem, com o trovejar dos seus escapes, a última homenagem ao seu camarada motard falecido. Na tarde de calor abrasivo, a raiva exprimia-se assim, brutal como a fatalidade. A paz do cemitério acordou por um instante, como se a trombeta do Final dos Tempos tivesse enfim, rugido, chamamdo os mortos ao Juízo Final.
Escorrendo suor, lágrimas a misturarem-se, uniam a sua forma rude de dizerem que lhes doía a alma.
No enterro ao lado, entre meia-dúzia de lacónicos circunstantes, um diácono tentava fazer-se ouvir, na encomendação do corpo, sem conseguir chegar ao «Dai-lhe Senhor Eterno Descanso e que descanse em paz».
«Já não há respeito por nada», murmurava-se a meu lado, enquanto a polícia, de longe, vigiava o insólito, sem saber o que fazer. «Não te esqueceremos nunca», lia-se na tshirt de duas miduitas que, amparando-se, seguiam, de regresso a casa, chorando o seu irmão de raça.
Foi ontem, no cemitério de Benfica. A cerimónia do adeus marca-se, desde os tempos bizantinos, pelo beijo ao falecido. Abriu-se a urna, antes que a terra a devorasse. Adeus, adeus, até qualquer dia, acenava-se aqui.
Lado a lado, a escolta motorizada, executava, com os estampidos dos motores, a salva de três tiros: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

27.6.08

O formigueiro

Trancam a porta e barricam-se em casa. Deixam de telefonar, primeiro, de atender o telefone depois. Na cidade irrequieta, o formigueiro de gente super-ocupada nem dá, na sua agitação indiferente, pela sua falta. Apenas aqueles para quem os dias são inesgotavelmente vazios e o tempo esgotantemente breve notam qualquer vazio. Comenta-se no jardim antes de mudar de assunto, no café da rua à falta de outro assunto. Deixaram de ser vistos.
No interior da sua reclusão, começa então a preparação do covil do animal moribundo. Amontoa-se o inútil, atulham-se os pequenos quartos com tudo o que não serve, pacotes de leite vazios, uma imensidão de sacos plásticos contendo de tudo um pouco e papéis e caixas e restos de tudo o que pode restar, sobejos, inutilidades, farrapos. Uma fina camada de pó vai soterrando tudo, o ar envenena-se de irrespirável.
A raiva de viver torna-se então na preguiça de consentir a sobrevivência. Num voltear incessante, remexendo no que está, há uma fera que vai soltando as suas garras, desprendendo-se do que a prende à vida.
Um dia acaba tudo naquele antro de miséria fétida. Os sobreviventes fingem não ter dado conta. Há um silêncio de remorsos que se resolve num dia de funeral, a cidade sem saber.
No dia seguinte cada um, em sua casa, remoe os seus rancores, trancando a porta, barricando a sua alma. Em seu redor o formigueiro continua, indiferente ao apodrecimento das almas que matamos no nosso coração.

23.6.08

Desejos

Tinha começado a ler e fiquei com a ideia de que os tinha lido todos. Mas, pelos vistos, estava longe de ser assim. Reuni-os à minha volta e havia tantos que nem sequer começara. Ainda bem, porque mesmo os que li são de tal modo novos aos meus olhos que dá para os reler como se lesse pela primeira vez. Falo do Wenceslau de Moraes. Comecei com o Relance da Alma Japonesa. Há um momento em que ele fala da linguagem e da escrita japonesa e depois de explicar que «o substantivo e o adjectivo são invariáveis, quanto ao número e quanto ao género», se pergunta «porque é que os europeus dão sexo às coisas sem vida, dizendo por exemplo que mar é masculino, que chuva é feminino?». E acrescenta: «havemos de convir que a concepção sexual predomina na emotividade do europeu, exactamente ao contrário do que se dá com os japoneses, que até ao homem e à mulher chamarão mais comummente indivíduo, em substituição dos termos que lhes conferem honras de sexo».
Não sei porque parei aqui. Talvez por ter adormecido cansado do trabalho que é masculino e com desejos de preguiça que é feminina! Só pode!

21.6.08

Amigos meus

Ainda o tenho aqui ao meu lado, o livro feito por Alejandre Vaccaro a partir das memórias da criada do Jorge Luís Borges, Epifania Uveda de Robledo. Abri-o ao acaso e na página 181 eu tinha sublinhado - porque leio sempre de lápis na mão para marcar o que poderia ficar deitando-se fora a inutilidade do resto dos livros, como quem recorte da maçã a casca, às vezes para descobrir que está podre - sublinhara, dizia, aquele momento em que, falando da japonesa Kazu Takeda, pintora, se diz: «Takeda não se considerava amiga de Borges, uma vez que ninguém se pode considerar como tal até que outra pessoa o autorize». Ora se toda a gente se desse ao trabalho de perguntar, em termos de amizade: «posso?»...

17.6.08

Historietas ao jantar

Quanto se janta sozinho um livro ajuda, para se não parecer tão sem ninguém. Ao sair de casa para ir aqui em frente jantar olhei para eles todos, os livros na estante, como se a convidá-los para jantarem comigo. Fui com o Jorge Luís Borges, ou melhor com um livro de historietas que foi escrito a partir de testemunhas da criada do Jorge Luís Borges. Já tinha começado a lê-lo e odiei-o então, talvez por ser a visão de quem vê o génio em roupão e chinelos, na pequenez dos seus maus humores, nos cheiros familiares, nos segredos que se escondem por detrás das janelas públicas. Desta vez tentei começar a lê-lo a partir do fim, enquanto negava o queijo e o presunto, porque não posso abusar do sal, e quando vier a sobremesa diga-me se tem fruta, porque não devo exagerar nos doces. «O que é realmente bom na minha vida de escritor é que as pessoas compram os meus livros, mas não os lêem», disse o autor de Aleph. Estive para interromper com um «com a devida consideração, eu leio, enquanto como pampo grelhado!». Ingrato! Da próxima janto com a criada!

14.6.08

Muitos e diversos

Por amabilidade do Francisco da Conceição Espadinha, que tem confiado na minha pessoa mais do que a minha auto-estima, escrevi para a Editorial Presença, uma apresentação para uma nova edição, traduzida do italiano, de O Príncipe, de Maquiavel.
Confirmei ontem, numa Bertrand, que Diogo Pires Aurélio viu publicar agora também um texto com a mesma natureza, para o Círculo de Leitores. Não tive ainda tempo de o ler. Mas, num folhear apressado, entendo que estamos entre duas lógicas diferentes: a dele, que é cientista político e professor, e nos traz os conceitos que subjazem ao pensamento do Secretário e a minha, que traz para o campo da polémica o ser humano que Maquiavel foi, por ser, no melhor e no pior, idêntico a tantos de nós.
Escrevi, pois, sobre a condição humana, a tragédia da existência, o enigma daquele sorriso. Antes de nós, Martim de Albuquerque, professor também, mas de Direito, tinha vindo a público, continuando a luta que a Sociedade de Jesus iniciara e mantém, desde há séculos, contra a «ética maquiavélica». Martim é um estudioso erudito sobre o assunto.
É bom sermos muitos e diversos. Já em tempos Jorge de Sena soubera encontrar em O Príncipe o humano através do escrito, Manuel Mendes vira nele um democrata, onde Francisco Morais tinha visto um fascista.
É esta a eternidade do escrever, a sorte e a virtude deste pequeno livro: está para além de todos nós.

9.6.08

A intimidade do Amor

Irene Fonseca editou um «Diário Inédito» de Vergílio Ferreira. São sempre difíceis estas opções de se trazerem a lume as intimidades privadas de homens que pela escrita se tornaram públicos. O próprio Vergílio Ferreira hesitou muito em dar-nos conta, volume após volume, da conta-corrente que foi minutando e de que se foi rindo, naquela «caligrafia somítica», o registo dos seus dias vividos depois de ter completado aquela idade inverosímil dos cinquenta e três anos.
Estou a ler, outro dia umas vinte folhas, há minutos mais umas tantas. E não sei o que pense ou o que conclua.
Precisava eu de ter sabido, que no dia em que se casou, a 16 de Fevereiro, anotou no seu diário apenas «casei-me»? Precisava a viúva que nós soubéssemos que, três dias depois, ele, como se lhe escrevesse, tenha anotado: «Gina, amo-te; mas não acabo de entender porque te amo assim, deste modo estranho que não tem nada de amor antigo. Zangas-te se te disser que sou principalmente teu amigo? (...)»?
Ganha com isso a Literatura? E Florbela Espanca de quem, em 12 de Outubro, ele diz que «cometeu a temeridade de não amar apenas em poesia»?
Não sei quem perde. Ganhará com isso o Amor, a verdade de se entender em público a sua natureza verdadeiramente íntima e seguramente privada. Talvez seja isso.

5.6.08

Tarde complexa

Esta tarde assisti a um interessante paradoxo.
No Círculo Eça de Queirós, a propósito de Joaquim Paço d'Arcos, Marcelo Rebelo de Sousa explicava que o facto de ter caído no esquecimento se devia a ter desaparecido e a ter-se transformado aquela burguesia que ele retratava, com a visão cosmopolita de um «estrangeirado», mas com o rigor de quem era dela convivente. A seguir Eugénio Lisboa explicou-nos que, repudiando uma superficial crítica que o identificava como o retratista de banqueiros e marquesas, o autor de «Tons Verdes em Fundo Escuro», se defendera, e com razão, mostrando quanto conhecia e como nos mostrara no seus livros a vida amarga dos deserdados, nascido que fora embora em casa apalaçada mas em zona de varinas e outros plebeus.
Nessa tarde, para chegar ali, àquela sala apinhada, estive retido em frente ao Teatro Nacional, o local onde sedeou a Inquisição, a ver passar uma gigantesca manifestação de trabalhadores.
Num só fim de tarde estiveram todos, os trabahadores, os burgueses e os clericais. Ah! E uma série de vadios e outros vagabundos, daqueles para quem a vida é bela quando faz sol, mesmo que não haja que ler, por não saberem, ou que comerem, por não o terem.

31.5.08

O Prontuário

Haverá quem o faça com facilidade, sem emendas, sem segundas leituras, indiferente aos erros factuais, escrevendo como sai, para ser lido como calhou.
Mas há aqueles que vivem cercados pelos censores do estilo, pelos críticos do modo de dizer, diminuídos pelas exigências inderrogáveis da sintaxe, ansiosos pela perceptibilidade do discurso, receosos da deselegância das repetições, ameaçados pelo excesso de adjectivação e pela impropriedade dos substantivos, avisados de que não tornem a dizer «afinal», e «enfim», podendo dispensá-los, e que não abusem do «um» não sendo caso de indeterminação nem daquelas horrendas frases começadas por «só que».
Como se isso não bastasse, qual rigidez senil a entorpecer o irrequietismo da mão criadora, há os que vivem sob o pavor de escreverem a data errada ou o nome mal citado.
Coitados desses escriturários. Cada linha deles é um acto de atrevimento, o livro que está escrito na sua cabeça é como se estivesse a ser ditado, monótono, palavra a palavra, sob a ameaça de palmatória, a gramática em frente, ao lado o dicionário, por ali espalhada a bibliografia de apoio, e por detrás, na escuridão das noites esgotantes, os olhos ferozes dos leitores cruéis, à espera da primeira gralha, à cata da primeira vírgula duvidosa, num «segue, segue», animador, o do chacal sobre a sua presa, e o pobre, coitado, martelando teclas, será que correão se escreve com dois «cc's»?

29.5.08

Só se vive duas vezes

A indústria editorial adora espólios de mortos, sobretudo consagrados. Ei-los que surgem, os «dispersos» de Alexandre O'Neill, de quem parecia tudo publicado, mas ainda faltava um molho, encontrado entre os restos, textos embrulhados em 1981, de que tinham saído já 43 numa editora e mais 13 em outra, mas agora vem tudo junto sob o título «Já cá não está quem falou».
Lembrei-me ontem disso, pela noite dentro, por causa de um livro, escrito por um tal Sebastian Faulks, chamado «Devil May Care», que é uma aventura do James Bond, que regressa «com uma vingança», anuncia o editor.
A obra foi lançada ontem, com pompa e erotismo com uma «vamp» boleada e a imagem da Marinha britânica a fazer o «decor», perdido o Império e reduzidos, ridículos, os súbditos de Sua Majestade, a soldadinhos de chumbo.
Coitado do Bond que não morreu quando em 1964 morreu o seu criador. É que agora, diz a capa, o dito Faulks «escreve como Ian Fleming».
Nem quero imaginar o que seja esta semelhança necrológico-literária! Já chegavam todos os que continuaram Bond sem Fleming: Amis, Gardner e Benson, mais os «Young Bonds». Agora temos este Faulks. Volta Ernst Blofeld, estás perdoado!

6.5.08

Chitty Chitty, Bang Bang

Internado no hospital, Ian Lancaster Fleming, na sequência de um ataque cardíaco, escreveu um livro para crianças, «Chitty Chitty, Bang Bang», a história do carro que não era apenas um conglomerado de aço, e fios e borracha e plástico, mas um génio auto-suficiente, como o simbolizava a matrícula GEN II.
A história é de uma beleza cativante, o leitor, mesmo adulto, anseia pela folha seguinte: é a narrativa de um comandante de marinha, e Fleming foi-o, o comandante Pott, que inventava coisas tão práticas e insólitas como batatas cúbicas, que são mais fáceis de descascar.
Fleming teve um filho que se suicidaria com pouco mais de vinte anos. Este livro é uma visão do que poderia ter sido uma paternidade feliz.

5.5.08

A ignorada tristeza

A esmagadora maioria das pessoas têm dias assim: chegam à noite e, para além de terem estado a trabalhar nas suas profissões, é como se nada tivesse acontecido, muitos, porque estiveram confinados ao interior de paredes, lendo enfadonhos papéis, com os olhos de cegueira fixos em écrans de computador, outros porque passaram pelas ruas e pelas pesssoas e nem notaram, no seu rodopiar incessante, que a vida existe ali à mão de a afagar.
O viver contemporâneo é, nas sociedades que construímos, uma forma de estar em coma. Nas cidades o Homem nem percebe que há a Natureza e quase nem repara que há seres humanos dentro de cada indivíduo.
Ao chegarem a casa a quantos nem família os espera, tantos dão de caras com umas pessoas que entre o aparelho de TV e o estarem de saída, por ali passam, porque casamentos, uniões de facto e suas consequências os tornaram convivas forçados do mesmo espaço, partilhando a mesma sanita nem sempre as mesma intimidades.
A esmagadora maioria das pessoas estão tristes e nem sabem porquê.

4.5.08

Vidas vividas

Uma das coisas boas na leitura é ir lendo, hoje um livro, amanhã outro; mas o melhor é nunca ter a preocupação de ler até ao fim. Um livro é como uma pessoa, não se esgota, vai-se vivendo com ela, folheando-a, sem índice, ao sabor do momento.
Comecei há tempos, e disse-o aqui, a leitura de uma biografia do Stefan Zweig, escrita pelo Jean-Jacques Lafaye. É uma visão sentida e direi mesmo dorida do autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher».
Há duas noites entretive uma insónia teimosa com a recta final da história, o momento em que, separado já de Frederike, sua mulher, Zweig chama para junto de si Lotte, a sua secretária e amiga íntima. «Chamando Lotte para seu lado, não é a paixão que fala mas uma legítima compaixão por uma mulher abandonada e sobretudo o amor ao seu próprio trabalho que ela consegue comunicar-lhe pela constância da sua dedicação e o seu sentido de boa ordem».
Fiquei aí, na página 194, antes de me começar a doer a cabeça, no momento em que entendia o que é amar-se um homem pelo que há em si de demónio criador, devorados por isso um a um os sentimentos.
Matar-se-iam os dois, envenenando-se, deixando juntos a vida que os unira. Há vidas que, tal como os livros, não podem ser vividas até ao fim.

3.5.08

Pânico

Encontrei-a na estação de comboios. Sabia que estava a escrever o próximo romance. Só mais tarde, em viagem, descobri que não era um romance. São narrativas, entre o breve apontamento e o conto que não chega a ser novela. Editou-o este ano a Asa, que agora se chama Asa II. Dois dos textos tinha-os lido, em suplementos de jornais, um deles a história de Doris, do farol, o mundo em azul, a mulher ganha ao jogo e perdida pela batota da vida e suas cartas marcadas. É Dulce Maria Cardoso, depois de Os Meus Sentimentos. Sim, «(...) o pai tem de acreditar que, apesar de as mãos tremerem no medo de coisa inexplicável, de os pés se terem tolhido num pavor desconhecido, está tudo bem», diz, num dos instantes do que li, o filho, o contador de tempos, rápido, o tempo sem fim, ao qual «já não será possível escapar». Encontrei-a na estação de comboios, não a pessoa dela mas, o mesmo é dizê-lo, a criatura magnífica e insólita que a habita e nos frequenta.

1.5.08

Muito e abundante

Chega uma altura da vida em que já temos tudo, porque queremos pouco: os mesmos sapatos de sempre, porque o pé se afeiçoou a eles, os fatos de uns anos para os outros, porque o corpo já não muda de formato. Depois come-se menos e os divertimentos começam a ser baratos, estar anónimo num canto a ver a vida chega para ocupar um momento, velhos há para quem o jardim púbico é o cinema a três dimensões, fêmeas maduras que galgaram já o muro dos devaneios a engalanarem-se para sentirem a memória adocicada de serem cortejadas.
Há quem não dispense as viagens incessantes por ressorts insólitos, o último grito em matéria indumentária, os spas e as mil extravagâncias «for the very few», os gastos astronómicos em refeições concorridas e demonstráveis, o excesso esgotante em troca do vazio.
Não é propriamente o meu caso que aprendi com o Graham Greene a viver a vida «por subtracção, em vez de a viver por adição». E, sobretudo, vivo isolado e nem tenho muito tempo para viver bem, quase nenhum para viver sequer.
Ora foi a ler a auto-biografia do Graham Greene, numa tradução da Maria Ondina Braga - como o mundo é pequeno ! - que comecei o meu dia, depois de ter dormido profundamente até às três e meia da manhã. O livro em português chama-se «Uma espécie de vida».
Nas folhas finais da sua narrativa, Greene vê o adiantamento de três anos que o seu editor lhe concedera, para que ele pudesse dedicar-se apenas à escrita, a acabar. Minado de dívidas, socorreu-se da escrita de crítica a romances para The Spectator. Isso aconteceu «Graças a Peter Fleming», acrescenta.
Fantástica coincidência. Estive em Londres para descobrir que Peter é irmão de Ian Fleming e já tinha uma obra reputada editada por Johnatan Cape quando o criador de 007 se iniciou com o Casino Royale». Escreveu um livro fantástico chamado «Uma Aventura no Brasil». E trabalhou, tal como o irmão, tal como Greene, nos serviços secretos britânicos durante a Guerra: aquele no Mi6, Ian no NID, Greene na secção V.
Quase no momento de encerrar a leitura para vir trabalhar - pois hoje é dia do trabalhador! - estava o autor de «O Americano Tranquilo» a contar como é que vivia os seus dias entre uma «vereda lamacenta» e a estalagem «Live and Let Live». E eu, que até ao dia 12 ainda tenho que ler «Live and Let Die» do Ian Fleming, por causa de um livro que tenho mesmo que acabar!
Há momentos em que já temos tudo e darem-nos um livro é, como sucede com as crianças, um mar de espumante alegria!

23.4.08

As entranhas do ser

Uma amiga minha enviou-me um link para os mapas de metropolitano de todo o mundo. No mundo subterrâneo dos que têm de encafuar-se em obrigações, um instrumento desses é mais do que indispensável. Tal como os que fazem vidas clandestinas, refugiados na marginalidade, criaturas da noite e homens da bicicleta, as entranhas da terra são como que uma mãe amiga, esconderijo seguro e lugar de paz. «Vem ao interior da terra e rectificando encontrarás a lápide oculta», escreve-se na câmara de reflexões, uma caveira por companhia. Depois há a luz crua da realidade, apagada a bruxuleante vela da ilusão.

14.4.08

O eu

Através do Eugénio Lisboa revi o José Régio. Depois encontrei-o um dia em Sintra e uma outra passeando em Cascais. Arredio do mundo público da Literatura e das suas tricas, maravilho-me com tudo o que vejo. Esta semana no JL vi que ele tinha escrito sobre si próprio. Não deixei de comparar. Com que desvelo ele escreveu sobre o Régio e com que parcimónia fala de si. Em nossa casa o «eu» era muito mal visto li na biografia de um dos de 'Medici, a propósito de um livro de que estou a rever provas. É isto que marca a grandeza, é sobretudo isto que separa os grandes das miudezas pequenas.

13.4.08

Sentimentos e qualidades

Esta noite encontrei enfim numa Bertrand, ali na Rua de Viriato, «O Homem sem Qualidades», que sabia iria ser publicado este mês, a partir da tradução do original alemão feita pelo João Barrento e que já procurara em vão. Ora eu a julgar que sairia no imediato um só volume, eis dois tomos, o primeiro muito espesso, tudo junto um esforço de perder fôlego e o Musil não se pode ler em passo de corrida, porque aperta o coração e esfalfa os sentimentos. Eis-me, por isso, agora em casa, desesperado, a olhar para eles, estes dois paralelipípedos de papel, e um terceiro ainda virá, sem saber quando me será possível ler o que neles se contém.
Amanhã pela manhã, regressa a rotina e vou ter de acordar de madrugada. Talvez devesse ler, antes de dormir, um texto auto-biográfico que o Eugénio Lisboa escreveu para o JL. Traz dele uma fotografia, oficial miliciano no Quartel em Portalegre como que a explicar porque há nele tanto do José Régio.
Mas estou cansado. Deveria ter começado a escrever, nem ler consigo.

9.4.08

A incontável felicidade

A arte de contar de Jorge Luís Borges não é apenas o saber condensar em poucas páginas uma biblioteca de ideias, mas o supremo saber ver tão profundamente cada uma das coisas que, sendo cego, só podiam estar nas entranhas anímicas de si. É impossível que este homem tenha morrido.
Encontrei há uns dias mais um dos seus livrinhos, na língua original. Trouxe-o comigo e como tantas vezes me sucede, comecei a lê-lo do fim.
Servido de uma memória de prodígio, de um cultura de excepção, o que mais maravilha em Borges é a capacidade de imaginar o irreal possível, tornando quase o absurdo desejável. Com ele o que não há, devia ser.
No caso, falava dos Yahoos uma inventada tribo de estupendos seres, que moravam em Mlch, nome que só parece invulgar a quem julgue que fazem falta vogais numa língua e a língua deles, povo estranho em que só alguns tinham nome - e para que haverá tudo e todos de ter nome? -era formada por monosílabos em que cada um traduz uma ideia geral , como nrz, por exemplo, que significava dispersão de manchas e tanto podia querer dizer céu estrelado como leopardo ou até um bando de aves ou tantas outras coisas, tudo dependendo do contexto e da expressão facial de quem dissesse, pelo que era impossível escrever-se, já que o idioma yahoo pressupunha que as pessoas falassem umas com as outras, não que se lessem, as ideias e os sentimentos expressos através de todo o corpo e seus gestos.
Mas vinha isto a propósito de tal excepcional povo ter um sistema numérico contado pelos dedos em que apenas quatro dígitos individualizavam o mundo da quantidade e assim um, dois, três, quatro, muitos, o polegar correspodendo ao infinito.
Ficou no presente real esse insólito sistema fabuloso de um passado inventado: perguntados sobre se vai tudo bem, erguemos o polegar para dizer que sim, o tudo bem, esse dedo a dizer da incontável felicidade do ser.

8.4.08

O Emaús da escrita

Escreveu-me uma carta à mão, como já não se escrevem, com letra tão irregular como incertos os sentimentos que o animaram ao escrevê-la. E contou-me na carta uma história real. O garoto viaja com a mãe no eléctrico, carro aberto, instável, aos sacões. Por causa disso, a senhora, num brusco movimento do transporte, perdeu um sapato. Aflitos ambos, impossível recuperá-lo, o sapato a ficar cada vez mais distante quando, num gesto repentino e intencional, a mãe joga, ante o olhar atónito do filho, o outro sapato à linha, tentando, a golpe de braço, que fique perto do que perdera.
Pergunta o jovem, perplexo, porquê. «Porque a mim o sapato sobejante já não serve sem o perdido, que já não podemos encontrar, aqui vai este para que, juntos, sirvam a quem possa deles aproveitar-se».
Eis a vida numa moral simples. Li a carta até ao fim. Guardei-a junto às outras coisas que nesta vida junto, e que tanta gente não saberia sequer aproveitar.

1.4.08

O troco

A probabilidade de um taxista apanhar em Lisboa duas vezes o mesmo passageiro no mesmo local pelas onze da noite é pequena, mas existe. A eventualidade de o passageiro dizer o nome da rua para onde vai e o taxista lembrar-se da rua com a qual ela faz cruzamento já é menor; mas aconteceu hoje tudo isso com o taxista que adorava a Rádio Luna do Montijo, pela música clássica que passava, a quem hoje resta a Antena Dois.
Desta vez estava taciturno: pouco serviço, por causa do futebol, «o senhor não vê pois eu também não, mas o pessoal fica todo em casa, além disso esta maldita rádio agora deu em ser só conversa». Pois era, «uma chatice», comentei para lhe fazer companhia. Depois disse-me que tinha ouvido no concerto para jovens o Mendelsohn, que não conhecia. «É o da marcha nupcial», disse-lhe, para não ficar calado. «Há outra do Wagner», ainda quis dizer, mas tinha-se instalado entretanto um silêncio de chumbo. A probabilidade de um taxista e seu passageiro irem sorumbáticamente calados essa é muito maior. Cheguei a casa. «Pague-se de sete», disse-lhe eu e «até qualquer dia» ouvi como se a dizer-me «e guarde o troco».

31.3.08

A qualidade do ser

Por hábito compro o JL, algumas vezes consigo lê-lo quase todo, a maior parte das vezes, arrumo-o para o ler com o da vez seguinte e acabo por passar adiante, lido nenhum.
Desta vez vi na capa a palavra mágica «Musil» e sobressaltei-me. Ainda não abri o jornal, mas já vi, espreitando as folhas entreabertas, que era o João Barreto a anunciar mais um passo de gigante na saga de traduzir este notável militar austríaco que marchou para a Literatura Universal; desta feita virá o primeiro de três volumes, dedicado a «O Homem sem Qualidades».
Enfim, uma tradução com qualidades, as do prestígio do tradutor. De há muito que a velha edição dos «Livros do Brasil», publicando a tradução de Mário Braga precisava de sucessor.
Uma das coisas que eu aprendi com o Robert Musil é que «um acontecimento e uma verdade possíveis não são iguais a um aconntecimento e uma verdade reais menos o valor "realidade"». Nesta equação em que equilibriam a ontologia do ser, a lógica da verdade e a epistemologia do conhecer está contida, quase que timidamente, a totalidade da vida. No mais, o livro é um prodígio de ironia, como quando nos lembra que «a zoologia ensina que a soma de indivíduos diminuídos pode resultar num indivíduo genial».

28.3.08

O acaso e a memória

Falaram-me ontem, depois do jantar, em tom de maravilha, de «O Físico Prodigioso». Retorqui que era o livro mais auto-biográfico que Jorge de Sena escrevera. A minha interlocutora não o sabia. Esta noite vim confirmar o afirmado e tenho aqui a meu lado o livro e o texto introdutório, escrito em Março de 1977, onde o seu autor o admite. Ia para copiar a citação e reafirmar o ontem dito, quando um estranho sentimento de revisitação surgiu como uma sombra de mim. Lembrei-me então que já tinha escrito isso mesmo. Foi em 22 de Junho de 2007, também depois de um jantar. Encontrei o escrito, aqui. Acho que não me consegui desembaraçar do atónito. Para quem não acredita no acaso, começa a ser demais: um dia lembro-me de ter falado em ter morrido e acordo morto!

26.3.08

O livro das horas

Já não sei há quanto tempo tinha deixado de usar relógio. Primeiro, foi para não me enervar, no incessante olhar para o mostrador, a angústia de ser tão tarde. Nessa altura não havia ainda telemóveis, pelo que não se viam as horas a olhar para o telefone. Depois, foi porque o relógio deixou de ser um instrumento para se saberem as horas que faltava perder com a sua passagem ou as que se tinham ganho deixando-as passar, e transformou-se num acto de exibicionismo, usado quase em cima da mão, fora da camisa, para que todos o vissem e lhe adivinhassem o preço, como quem passeia mulher vistosa para inveja do vizinho, ou automóvel de luxo para raiva dos colegas.
Ontem ofereceram-me um lindo e discreto relógio com marca de relógio, ponteiros de relógio, daqueles que marcam horas e numa janelinha que dia é. Saí com ele hoje à rua, a passeá-lo, com o orgulho de o saber escondido dos outros, num agrado só meu. Houve um momento em que vi, no seu quadrante dividido em sessenta partes, que eram onze e quarenta, vinte para o meio-dia.Uma sensação de conforto com a vida invadiu-me, a lembrança antiga de ser quase a hora de almoço.

24.3.08

A insurreição

Há um livro do Carlos de Oliveira que se chama «O Aprendiz de Feiticeiro». Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1921 e morreu em Lisboa em 1981.Do livro saíu uma primeira edição em 1971. Em 1979 o autor, minucioso, corigiu definitivamente o texto. E do texto consta uma admirável narrativa do pensamento de «O Inquilino». É um pensar interrogativo e dubitativo, uma ladainha de hesitações: «Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete?». Etc. Etc. Lembrei-me disto, porque o livro estava à mão, entre aqueles que não encontro. E lembrei-me disto, sobretudo, porque o texto acaba assim: «Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?».

23.3.08

A anunciação da Aurora

Pelas quatro da madrugada a passarada arranca, em cantoria, a anunciar a chegada do dia. Os homens ainda o não vêm, porque perderam a capacidade de sentir. Mas para aqueles pequenos seres emplumados, que a Mãe Natureza tornou inteligentes através do seu minúsculo coração, é a anuncição da aurora.
Já sentiram, aprisionado na vossa mão, espavorido de medo, um passarinho, mesmo de insignificante tamanho, o príncipe canário ou o plebeu pardal? O coração descompassado, parece que rebenta, ribombando dentro do peito.
Eis o que o humano perdeu. Hoje Dia de Páscoa, há quem celebre Cristo ter liberto os homens que o pregaram na cruz.

21.3.08

A loirinha

Vinha no comboio. O homem contava as suas façanhas. Elevava a voz como quem busca mais auditório. Não tinha. Era eu, ali no bar, à espera que me arranjassem naquele Intercidades lugar sentado em troca do bilhete no Alfa, que me tinha fintado atrasando-se muito e adiantando-se de surpresa comigo à espera ao frio na gare, e um outro anónimo, magro de carnes e curto de ideias, a boca escancarada, do género dos que nunca perdem na vida um comboio, só não sabem é o destino para onde vão.
E a façanha, proeza de bravo, prova de virilidade, aquilo que o homem proclamava como sendo o máximo de si, era ter bebido cinquenta cervejas numa tarde. «Cinquenta», repetiu como num eco do dito, à falta de pergunta.
Fez-se um denso silêncio. Refugiei-me no baixar os olhos. «E sem ir mijar, que aí é que está a coisa», atirou-nos, ao que o ouvia e a mim que tinha de o ouvir.
Um aperto dorido atingiu-me então o por baixo da coisa. Pouco depois vinha o revisor, salvar-me. Raspei-me, esgueirando-e por ele. «Não vai uma loirinha?», perguntou-me. «Não, obrigado», balbuciei atarantado, «não me sinto capaz...».
Lá ficou. «Isto já nem há homens neste mundo» deve ter arrotado, entre tremoços, a boca limpa às costas da mão.

20.3.08

Mecânica estatistica

Há um momento da Mandraloga, essa estupenda peça teatral escrita no início de quinhentos que ainda hoje é uma paródia ao triunfo dos interesses sobre a moralidade, em que Callimaco, falando a Siro da sua ânsia por Lucrezia, mulher de Niccia, fala dos trabalhadores manuais como as «pessoas mecânicas». Uns séculos depois, martelando horas a fio ao computador, mecânica por mecânica, penso que os que vivem puxando pela cabeça, também o são.

9.3.08

O homem da maratona

Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.

8.3.08

O espelho

«No dicionário de Daniel, Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está constantemente diante de si mesma», diz Daniel, a personagem do Lavagante, o livrinho póstumo de José Cardoso Pires, agora editado. «A solidão conta muito para explicar as mulheres ao espelho», respondeu-lhe o seu interlocutor. Hoje é o dia mundial da mulher. Lembrei-me disto, e vim escrevê-lo. Poderia ter escrito tanto sobre tanta coisa de tanta mulher, mas que importa o que se escreve se é sempre para concluir o mesmo.

5.3.08

A república dos corvos

Em Janeiro de 1995 José Cardoso Pires entrou em morte cerebral, a «morte branca» como lhe chamou. Sentiu-a chegar, ao começar a «desmantelar palavras» ele cuja vida de escritor girava em torno delas. Conseguiu regressar do coma e escreveu dois anos depois «A Valsa Lenta» a que chamou «De Profundis», onde descreve a sua passagem por aquele corredor luminoso que é a passagem para lá, o ritual asséptico em que ele «pessoa de coisíssima nenhuma», se surpreende como o Outro, a cumprir as tardes de hospital «num vaguear inocente».
Hoje cruzei-me com um há dias anunciado mas já em segunda edição inédito seu. Trouxe-o comigo. Tudo igual no mundo das letras: as segundas distribuições a chamarem-se de segundas edições, o espólio inesgotável à mercê de insaciáveis leitores.
Li o breve livro numa pausa deste fim de tarde em que a cidade arrefeceu. «São as pessoas a devorarem-se a elas mesmas», disse na página 12 o jornalista que bebe com o narrador e com o barman. Senti isso precisamente, envergonhado porque o livro é fraco e o autor de «A República dos Corvos» merecia mais.

3.3.08

Viver à margem

Tinha sabido que ela existia por causa da «Conta Corrente» do Vergílio Ferreira. Depois vi que era formada em Direito. Disseram agora que morreu e deixa uma extensa obra publicada que «viveu à margem da Literatura». Não entendo o que quer dizer uma tal frase. Sei que tive dificuldade em compreendê-la, coleccionando-lhe os livors para os ler um dia, quando fosse capaz. Se um escritor vive à margem da Literatura, é porque a Literatura é um mundo para os que não são escritores. Chamava-se Maria Gabriela Llansol Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim. Morreu hoje, em Sintra, onde eu vivi numa altura em que não sabia que ela existia.

19.2.08

Obrigadinho à mesma

Era o único táxi naquela praça deserta. Quando entrei ouvia a Sétima Sinfonia de Beethoven. Mais do que ouvir a Antena 2, o que é raro entre os taxistas, tinha saudades da Rádio Luna e dos carolas que a sustentavam a partir do Montijo para garantir um oásis de qualidade num mundo de mediocridade comercial.
Lamentámos durante o percurso a vergonha de o sinal da rádio clássica ser tão errático, tão sujeito a interferências, quando por ser da rádio pública devia ter mais meios para ser melhor, quando pela música que difundem qualquer ruído é uma agressão à sensibilidade do ouvinte. Quando chegávamos perto do meu destino dava-me conta do seu gosto pelo barroco. «Se o senhor não tivesse entrado no meu táxi, eu também estava bem», rematou-me à despedida, em jeito de amabilidade.
Fiquei a pensar nisso e na funda filosofia que a frase contém e no modo verdadeiro como a disse. Era o único táxi naquela praça deserta, fechado que estava no mundo em que o belo pode ser interrompido pelo abrir da porta por um inesperado freguês e com ele a entrada do banal e do boçal. «Mas olhe, amigo», rematou ao deixar-me, «obrigadinho à mesma, foi um bocadinho menos de música por um pedaço bom de conversa».

16.2.08

Escrito algures

Eu tenho que acreditar à força na predestinação, porque encontrei hoje, num alfarrabista o livrinho que o Eugénio Lisboa escreveu sobre o seu José Régio e à tarde, na Guia, o próprio Eugénio Lisboa, a perguntar-me pelo meu Graham Greene, sobre quem eu publicara, e ele não sabia, na Mea Libra, um estudo sobre a sua biografia secreta, isso na data do seu centenário.
E porque nesse livro sobre o Régio, que se editou em 1957, ele conclui que com o poema «Sabedoria» o escritor de A Velha Casa, que eu fui ver a Vila do Conde, em dia de extraordinário acaso, «chega, coincidentemente, ao máximo desespero e à máxima serenidade», eu que me lamuriava então de não mais ter escrito nada sobre nada com afinco e com sistema, estou aqui cheio de energia e de entusiasmo. E se eu seguisse o que está escrito algures que vai ser?

14.2.08

Clízia

Por causa de uma obrigação a que me amarrei, pois não há meio de aprender a dizer que não, vim no comboio a estudar o Maquiavel. Não é ler, que isso faz-se, enfim, como quem leria por estranho desfastio o Orlando Furioso do Ariosto ou por insólito deleite as traduções do italiano feitas pelo Vasco Graça Moura ou relesse mesmo, como se fossem livros novos, os Dostoievski's agora traduzidos do russo ou o Musil enfim traduzido pelo João Barrento, só que nunca mais saindo das desventuras do pupilo Törless.
Não é ler, é estudar, de lápis na mão, a sublinhar, entrando pela errática cronologia das suas obras, pelas dúvidas sobre a sua formação humanista, pelas ambições venais do Secretário, e, chegava o comboio ao Pragal, o Tejo à vista, entrando eu pelas intimidades de saber se a Clizia, a última obra sua, uma peça sobre os efeitos devastadores do amor, representada dois anos antes da sua morte, não seria, em aguda e dolorosa consciência, a comédia da velhice, o crepúsculo senil dos ardores impossíveis, a morte anunciada do amar o amor que lhe deu seis filhos, um casamento, e o enamoramento pelos jogos de poder e sedução.

9.2.08

O porvir da nostalgia

Já o tinha visto, ao livro de Jean-Jacques Lafaye, que é mais uma biografia de Stefan Zweig, o austríaco que ressuscitou agora para os escaparates, depois de se ter suicidado, no Brasil, sua pátria de exílio, onde se matou conjuntamente com sua mulher, abrindo a clareira do insólito facto e a dor do desconhecido fim na alma dos seus muitos leitores.
Tinha hesitado em comprá-lo, porque anunciava que tinha uma apresentação escrita por Mário Soares, que considera essa sua introdução «honra imerecida» e «desnecessária» e, a meu ver, despropositada. Mas, enfim, o nome de Soares é sonante e o mercado editorial, magro de vendas, gosta disso.
Comecei ontem a lê-lo, devagar, porque tem uma letra miúda, com dificuldade porque o meu estado de espírito não é o melhor. É uma narrativa em que o discurso por vezes entra na primeira pessoa, transformando-se em auto-biografia, um livro que fala da «sua intimidade com as as palavras, companheiras de cada momento, sua única fidelidade absoluta». No momento em que parei o autor explicava que para o autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher», a pobreza «é uma abstracção». Talvez, mas a sua maior riqueza foi a capacidade de sentir, com distância crítica embora, e sobretudo saber dizê-lo. O livro chama-se «O Porvir da Nostalgia».

6.2.08

Tiroteio editorial

Consegui creio que ontem, porque os dias e as noites já se me confundem na memória, e os feriados e as pontes ajudam à confusão, dar um salto a uma das FNAC's. De repente apercebi-me que o regicídio tinha desencadeado um torvelinho de livros, sobre os mortos e os seus matadores.
Ao cruzar-me pelo escaparate das novidades quase ribombavam os ecos da carabina Winchester 1907 do Buiça e da pistola Browning calibre 7.65 do Costa, mais a fuzilaria da Guarda Municipal.
No panorama editorial as efemérides são um negócio a prazo, os escritores a esgravatarem com um olho no calendário. Hoje felizmente estive trancado a trabalhar quando não levava com os sermões do Padre António Vieiria e com os que nele descobriram o visionário de um mundo por haver. Passava, qual duche escocês, do jacobinismo ao jesuitismo ao virar de uma estante.

2.2.08

Trama

Tinha prometido que o faria e hoje arranjei uma nesga de tempo para o fazer. Fica na Rua S. Filipe Nery, ao Rato, a rua que se sobe ladeando os correios, onde era o velho armazém da Livraria Almedina. Em 1981 fui lá ver chegar, vindo da tipografia, o meu livro de processo penal, impresso na Tipografia Lousanense. É uma livraria, uma aposta jovem. Chama-se Trama.
Fico sempre com o coração apertado cada vez que entro numa nova iniciativa que tenha a ver com livros, imaginando a dificuldade quantas dificuldades há em vingar um empreendimento cultural.
Encontrei um livro que não conhecia, alguma «correspondência» entre o Jorge de Sena e o Vergílio Ferreira. Logo a propósito, a abrir, uma carta do autor do hoje desaparecido «Mudança», escrita em 5 de Fevereiro de 1950, a pedir que lhe comentasse, em crítica, o livro que editara a expensas próprias. É tocante: «rasamente e miseravelmente lhe confesso, portanto, que desejo a discussão para vender o livro. Diabo, seis contos é peso desconforme para o orçamento de um funcionário público».
No último dia desse ano, Sena pedia-lhe, em carta: «e agora posso pedir-lhe um favor que V. fará se puder ou quiser? Esta edição obriga-me à venda certa de uns tantos exemplares. Vê V. possibilidade de me colocar alguns aí em Évora?». Em 4 de Janeiro, chegava-lhe a desanimadora resposta, vinda da Rua Mesquita, n.º 28: «só lamento não descobrir posibilidades, ao menos para já, de colocar alguns exs., isto porque o mercado das minhas relações está saturado pelas frequentes vendas no género. Versos, romances, desenhos, tudo me tem vindo bater à porta, nestes tempos de futebol e de crise».
Hoje, outros Senas, outros Vergílios Ferreiras, escrevem cartas assim, «nestes tempos de futebol e de crise».

30.1.08

A repetição da História

Não sei como, mas ainda consegui começar a ler o livro de memórias do Manuel Poppe, irmão do Lopes Cardoso que foi ministro da Agricultura e teve o nome amaldiçoado pelas paredes de Lisboa, antes do António Barreto, por causa da Reforma Agrária.
Não são grandes memórias, mas é um livro de grandes momentos, como aquele com quem me cruzei hoje, antes de ter a noite aprisionada, quando descobri que o João Gaspar Simões trabalhou de revisor na Imprensa Nacional, emendando provas, grande presença de espírito seguramente para quem haveria de ser um grande vulto na nossa crítica literária.
Vou na página 77. Ontem lembro-me de ter lido que ele estava convencido de que «para perceber poesia, era indispensável o sofrimento». Assim, «ante de começar a ler deprimia-me, esforçava-me por criar, dentro de mim, infelicidade», acrescenta, para que nos sintamos como se sentiu.
Não vou ter tempo de ler. Fica-me a recordação de ele, que viveu na Guarda, me ter trazido à memória o Dr. João Gomes. Conheci-o e à sua extensa biblioteca, quando ali cheguei, fardado de militar, um aspirante a oficial miliciano, contra-vontade no meio das campanhas «dinamização cultural», em vias de passar de bestial a besta, de «herói anti-fascista» a «vendido reformista». É isto a vida e a sua repetição. Uma longa história ou talvez a mesma História.

24.1.08

Uma história portuguesa

O Francisco Teixeira da Mota escreveu um livro «Alves Reis, uma história portuguesa», editado pela Oficina do Livro.
Convidou-me para lhe apresentar o livro. Daqui a pouco fá-lo-ei. Escrevi este texto, para servir como cábula do que direi.


Sabem os juristas o que é uma burla.
Não é um crime pelo qual alguém se aproprie, embora possa haver apropriação; é um crime pelo qual alguém causa um dano, ao enganado ou a outro. Nisso, é parte deste mundo de lástimas em que nas Faculdades se ensina em volta do «bem jurídico» e nos tribunais se aturam os «males jurídicos», como ironizava ontem um amigo meu, ácido porque esperto, risonho porque irónico.
Mas o que torna a burla um crime atraente é, sobretudo, o facto de ser o crime das pessoas inteligentes. Diz o Código Penal de hoje que a burla concretiza-se através de um processo enganatório astucioso, como o Código Penal de 1886 dizia que se materializava pelo artifício fraudulento.
Ao contrário do ladrão, que pratica o furto apoderando-se de uma coisa, apreendendo-a, subtraindo-a, tendo que se mover, vulgar criatura, no mundo das coisas físicas e materiais, diversamente do que abusa da confiança, que entra na galeria imoral dos traidores, defraudando quem nele confiou, o burlão move-se no plano superior das ideias, usa da argúcia argumentativa, manipula o enredo discursivo, é mestre na arte da encenação, o engano é para ele um meio, o erro da sua vitima a vitória da sua inteligência.
No plano dos afectos, ele, o agente do crime é um amoroso, cortejador, longe da rudeza do gatuno, diferente da vilania do usurário, da malvadez congénita do extorsionário.
O burlão é um sedutor, perante o qual a vítima sente-se, consumado o acto, um idiota, um despeitado, ciumento face à urdidura a que se rendeu, enraivecido pelo desejo da vingança que aplaque a imagem de miséria intelectual com que fica de si mesmo.
Eis as palavras-chave em relação à burla: sedução e dano. Eis o caso Alves Reis.
A história é simples, na sua aparência: a reputada firma britânica Waterlow & Sons, tipografia especial, porque imprimia o mais valioso dos impressos, o papel-moeda, recebeu uma encomenda do Governo de Portugal, imprimir notas de quinhentos escudos, com a efígie Vasco da Gama.
Só que desta feita a encomenda tinha o seu «quê»: tratava-se de uma emissão duplicada, ou seja, com a mesma série numérica de uma emissão já em circulação.
Por ser assim, a encomenda era «secreta».
Para que Sir Wlilliam Alfred Waterlow, velho bulldog da praça financeira londrina, não desconfiasse, as notas em causa, a serem lançadas em circulação, sê-lo-iam no espaço restrito de Angola, pelo que, ao chegarem a Lisboa, ser-lhes-ia aposta a sobrecarga a óleo com o nome desta colónia do Ultramar.
Eis uma história já por si extraordinária: Londres honrou a encomenda, tendo tratado do negócio confidencial directamente com Artur Virgílio Alves Reis, portador de dois contratos forjados pelos quais era autorizado pelo Banco de Portugal a tratar do assunto com a casa impressora inglesa [continua aqui]

18.1.08

«Zé, eu não suporto mais isto!»

O Museu do Neo-Realismo expõe amanhã: «O desenho na obra de Dias Coelho». Militante comunista, entrou na clandestinidade em 1955, foi morto a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961. Escreveu a meias com sua mulher, Margarida Tengarrinha, um livro sobre a resistência.
«De todas as sementes confiadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas». A frase é sua, seu o sangue, nossa a memória esperançosa de que não haja sido em vão.

16.1.08

Sintomático

À procura de uns papéis que não encontrava e que teimava existirem, dei com uns apontamentos manuscritos tirados não sei de que livro do Vergílio Ferreira. Numa qualquer página 45 dizia ele que «o maior sintoma de decadência é vivermos à conta do que já fomos». No caso dele as coisas complicaram-se porque, tirando a «Aparição» que tornando-se livro escolar corre o risco de se tornar para as novas gerações um livro insuportável, a maior parte da sua obra está esgotada e não se reedita.Um destes dias encontrei no lugar inesperado de um tribunal quem tivesse lido a «Conta-Corrente», esse diário em duas séries que ele amaldiçoava escrever e escrevia com amor. Fiquei espantado. Nesse dia senti que a profissão não seca as almas, apenas torna ressequidas as que já chegam a elas empalhadas em vida.

13.1.08

O sentimento do reflexo

Trouxe-os de Itália, os que encontrei, livros de Italo Calvino. Esta manhã de chuva peganhenta levei um deles comigo, a «Collezione di sabbia», por ser pequeno, por ser leve, caber-me na persistente pasta e poder fazer-me companhia, sem peso ou excesso de presença.
O título deve-se a quanto impressionou o autor, numa exposição de coleccionismo em Paris, ter-se deparado, de entre tão diversos objectos arrecadáveis, de selos a caricas, o trivial dos armazenistas açambarcadores do vulgar, catalogadores do acumulado, frascos de areia das mais diversas partes do mundo, diferente na textura, na consistência, na cor e na maciez, como se epiderme fosse cada uma da terra remota de onde proveio.
Cheguei agora a casa para escrever sobre o que li. Há no livro um capítulo sobre o Japão e neste um artigo em que se diz que viajar serve para reactivar o uso dos olhos, é uma leitura visual do mundo, ver assim o que não se via, distinguir o indistinto
Li e vi que o amor pela lua se confunde muitas vezes com o amor do seu reflexo.

12.1.08

O eu falar de mim

Li-as durante a noite e consegui-o, as 262 páginas do livro de Maria Luísa Blanco, de «Conversas com António Lobo Antunes». Livro emprestado, folheado meticulosamente, está pronto para ser dado de volta, imensamente grato, ao seu dono.
A autora é espanhola e a edição original saíu em 2001. A Dom Quixote, agora deglutida pelo voraz grupo de Paes do Amaral, deu-o à estampa no ano seguinte, traduzido.
Não sei que estranha sensação invade ao penetrar-se nas intimidades de um escritor laureado, mesmo daqueles de quem se passou a gostar: saber-lhe dos amores e dos terrores, a ilusão da infância e o pavor da velhice, as obsessões familiares e a congénita solidão.
António Lobo Antunes nunca se sente só quando está sozinho; a solidão dorida nasce-lhe quando das convivências que lhe roubam o tempo para escrever.
Sabendo-o escritor, escusava de ter querido sabê-lo pessoa, ainda por cima, através do seu próprio verbo.
Foi assim, com esse sentimento de devassa que o surpreendi na banalidade de conversar sobre si, como se numa vulgar bisbilhotice de falar sobre os outros.
Terminei e concluo: prefiro lê-lo, mesmo quando não gosto, no discurso indirecto que nele parece, aliás, sempre directo; é que a auto-biografia, no seu caso, não explica, apenas justifica e pouco.
Salvou-me tê-lo visto, entrevistado por Mário Crespo, em transposição de discurso: «o Mário escreve», diz ele, como se não dissesse «eu escrevo». Extraordinário.

5.1.08

A sabedoria da Rita

Há um amigo meu que nos últimos sete anos manda imprimir, a expensas próprias, um caderninho, de formato sempre igual, no qual compila textos que o marcaram durante o ano. Oferece-o sempre pelo Natal. No deste ano vem uma página dedicada a frases de crianças, como esta fantástica «há muitas coisas que a gente sabe e que as notas não dizem». É da Rita, com dez anos de imensa sabedoria.

2.1.08

O mundo infinito dos livros

Deve ser seguramente da idade e do medo pavoroso da anorexia mental. Mas acho que já disse que me veio parar às mãos um livro chamadao «Libroterapia», que, editado em Itália, ostenta como subtítulo «Um viaggio nel mondo infinito dei libro, perché i ibri curano l'anima».
E porque deve ser seguramente da idade, abri no capítulo que se intitula a velhice cura-se lendo [«la vechhiaia si cura leggendo»], para me confortar, no que ao meu atraso cultural respeita, com a magnífica frase: «leggere in tarda età significa reccuperare il territorio dell'immaginario».
Transportado pelas asas da literatura, era, pois, uma vez...

26.12.07

Um critério em azul

Reconciliei-me, até mais ver, com o António Lobo Antunes, e decidi-me então a conhecer-lhe a escrita. Esqueço o homem e o modo como se descreve, em constante adjectivação de si. Comecei, atrasado vinte e oito anos, com «A Memória de Elefante». Passo adiante dos escancardos palavrões, que enxameiam o texto para além do necessário, mesmo quando proferidos por bocas reais, nas quais são linguagem comum, menos suja a língua do que a alma. Evito subrogar-me, envergonhado, à família quando na sua narrativa descreve factos, dos mais íntimos aos mais torpes, em que os envolve, incluindo os dolorosos e os ternos, como se em cada página matasse de desgosto a própria mãe, expusesse da mulher a própria nudez.
António Lobo Antunes atira-se, de borco, para a sua escrita, mesmo quando sórdida, enlameando-se nela, onde raramente encontramos um momento em que o vejamos sentir a grandeza do momento grande que sabe criar.
É, tenho de o reconhecer, um modo magnífico de escrever o que sente, de descrever sentidamente o que vê. Vou em frente no livro, lerei todos os livros, mesmo quando, já me preveniram, ele muda de estilo e se torna ilegível, dizem-me.
A acção aqui decorre num hospital, a personagem um psiquiatra, filho de médico, traumatizado pela sua condição burguesa, agredido nas suas memórias pela vivido na guerra colonial, esfarelado por uma sensibilidade que quase lhe desintegra o entendimento. É «o que outros chamamos de loucura, que é afinal a nossa e da qual nos protegemos ao etiquetá-la».
Leio e pergunto-me se muitos dos que se dizem seus leitores, por gostarem dele, o serão de facto mais do que eu, que o detesto e aprendi a amar-lhe a escrita. Talvez sejam os olhos azuis que marquem a diferença. Não sei. Deixem-me ler.

25.12.07

O gozo imortal

O Charlie Chaplin que conhecemos é aquela figura coincidente com o garoto que teve roubar comida para sobreviver, fruto de uma infância desvalida, o vagabundo Charlot.
Mas há um outro, o homem da reiterada infelicidade conjugal, semeando um caudal de relações falhadas, divórcios sucessivos e amores irrealizados.
Morreu no dia de Natal. Três meses depois, ladrões roubaram o corpo, para tentarem extorquir dinheiro à família à conta do resgate.
Terminou assim em caricatura milionária , uma vida em que a miséria foi elevada à categoria de ridículo, para gozo imortal de todos nós.

24.12.07

O piar do passarinho

De todas as coisas compráveis, das mil lembranças transportáveis, de tudo o que é possível dar-se, há quem tenha comprado dois passarinhos para dar companhia a quem a não tem. De todos os pássaros compráveis, transportáveis e oferecíveis, houve quem tivesse tido o cuidado de comprar dois, para que um fizesse companhia ao outro, na solidão extrema que é ter de acompanhar quem não nos acompanha. No mais, daqui a pouco, começando a escurecer, é Natal, disse-mo um passarinho, perdão, dois.

22.12.07

A Lua Azul

Quantos sabem que a lua cheia é a totalidade da lua reflectida sobre a terra? Sabem todos os que, vendo a lua, nela pensarem, sentindo-a na alucinação das nocturnas ideias, na revolta das madrugadas sensíveis.
Mas quantos sabem que a lua azul é a segunda lua cheia no mesmo mês? Aconteceu pela última vez no dia 31 de Maio deste ano.
A lua azul é a lua inesperada, a lua do improvável suceder.

19.12.07

O homem de vastos amanheceres

Jorge Luis Borges, descrevendo, num dos seus extraordinários contos o brasileiro chefe de bando Azevedo Bandeira, mostra-o como «um mestre na arte da intimidação progressiva, na satânica manobra de humilhar o interlocutor gradualmente, combinando verdades e mentiras», e explica como é que ele mandou matar Benjamín Otálora, que mais virtude não tinha, nos «vastos amanheceres» de que fazia vida, se não «a enfatuação da coragem» e que ousara desafiar a sua autoridade sobre as coisas e o seu mando sobre os homens.
Com a profundidade de vista de quem é cego, o notável argentino remata a breve narrativa, contando como é que a Otálora foi permitido, antes de o matarem, dentro da sua própria lei, a da bala, viver o mando e o triunfo, mandando, livre, nos jagunços de Bandeira e fruindo-lhe, adúltero, as exigêncidas da sua própria amante: é que, desde o dia em que, ciumento por tudo o que era o ter e mandar, o condenou a morrer, Bandeira já o sabia morto.
Voltei a ler, enfim! Retomei Borges, o livro chama-se «El Aleph», Borges na língua pátria, o modo de pensar como se num esperanto afectivo, a linguagem compreensiva de toda a humanidade.

16.12.07

A perdição dos livros

Leio que abriram aqui 3 300 metros quadrados de livraria; chega-me ao mesmo tempo, por mão amiga, a notícia de que abriu na Rua Augusto Gil 15-B, junto à Avenida de Roma, uma livraria chamada «Círculo das Letras». Quem me avisa diz que será ali «o nosso ponto de encontro». Só pode, seguramente. Na outra, uma pessoa perde-se.

13.12.07

O gato das botas

Houve tempos em que escrevia à mão, em que cheguei a Freiburgo na Alemanha, de comboio, carregando ao ombro uma caixa de fichas bibliográficas, a que colara a etiqueta «frágil», que trouxera do aeroporto.
Houve tempos em que uma amiga minha, investigadora desse instituto, ao ver-me sair da gare ferroviária naquele propósito, me perguntou, em francês, que era então a nossa língua franca, por causa do meu rudimentar alemão: «fragile, qui, vous?».
Hoje foi-se a caixa, que comprara no J. B. Fernandes, ali perto da Praça do Município, que também já fechou. Foi-se a minha amiga alemã. Foram-se as fichas bibliográficas. Foi-se mesmo o chegar a Freiburgo, a pé que seja.
Hoje é tudo na base do computador.
É por causa disso que de quando em vez perco tudo, mais do que perdia: a paciência por exemplo, sobretudo quando me dizem que o problema talvez seja da «motherboard» e de eu não ter feito «backup dos psts's no server».
Houve tempos em que eu escrevia à mão e tinha tempo e paciência para passar tudo a limpo, à máquina. Hoje é tudo mais «fragile», «trés fragile», como descobri ontem que, como se tocasse piano, reaprendi a falar francês. Só falta miar, porque de dores lombares, dizem que por causa da posição defeituosa ao computador, elas são de ganir!

12.12.07

O primeiro violinista

Foi só porque a televisão, entre tantos defeitos, permite captar soberbos momentos que isto foi possível. Foi esta noite no canal «Mezzo», Cecilia Bartoli, com uma ária da ópera de Mozart, Don Giovanni. Segura, sem excessos de afirmação vocal, progredia em sonoridades densas, os imensos olhos negros como se cravados no infinito da glória. Foi então que, o surpreendi, aplicado no seu frágil e desconcertante instrumento musical, esse prodígio da criação melódica, o primeiro violinista, desconcentrar-se por um momento, seduzido por aquele voz. Socorreu-o, nesse silêncio comprometedor, todo o naipe de cordas em seu redor. Naquele segundo, os olhos marejados de lágrimas, ele era, apagando-se como artista para assim contemplar, extasiado, a própria Arte, a imagem real do que é o amor.

11.12.07

Erros na conjugação

Primeiro, a desdentação, grito de alerta nos carnívoros, fealdade facial no lugar da sua mais gritante evidência, a morte do sorriso natural, o mirrar-se uma pessoa engolfada nas entranhas ressequidas de si. Depois, o ranger da ossada, as dores persecutórias a todas as horas do dia e pesadelo companheiro da noite. Imobilizado o corpo, perdida a vontade de rir, resta o voo errático da alma, pelo devaneio de um resto de janela tristonha.
Primeiro, é não notar sequer quem são, depois é segui-las, figurinhas vibráteis de uma juventude que se soergue, soberba da glória carnal, leve na despreocupada forma de viver, adejante, a própria existência.
Um dia acorda-se a pensar de quantos adjectivos é feita a nossa indiferença, empedernidos os verbos, o futuro condicional pior ainda do que o pretérito imperfeito.

9.12.07

Camões e Macau

Eu tenho um amigo que possui, na sua maneira discreta de ser, uma capacidade profunda de surpreender. Quase como quem anda pé-ante-pé por um casa adormecida que não quer acordar, passou por todos nós, a cumprimentar-nos pelos êxitos efémeros, escondidos debaixo do braço, os rolos de um desconhecido texto seu, de que nem murmúrio nos chegava, preocupado connosco.
Ei-lo, enfim. «Camões esteve ou não em Macau?», pergunta Eduardo Ribeiro, um irmão a cuja seriedade eu devo não ter ficado enforcado na corda da infâmia naquele Oriente fatal onde ele se radicou. Como foi possível que tu nem a nós desses conta de que albergavas dentro de ti aquele valor que o teu trabalho demonstra?

A boca e os braços

Generalizou-se o beijo como cumprimento entre homem e mulher e no vice-versa cumprimentador de ambos.
Passou a haver o ritual do um só beijo, a distinguir os que, refinados, não dão os dois beijos plebeus, os que deixam por vezes o segundo beijo no ar das intenções, a cara do outro já recolhida, por imaginar terminada a saudação.
E há os três beijos, tricolores, afrancesados, quase como se distribuindo, na face, força, beleza, vigor; liberdade, igualdade e fraternidade.
Banalizou-se o beijo. O beijo na cara entre desconhecidos que se acabam de conhecer, o beijinho a marcar, em diminuitivo galaico-português, uma expressão de diferença meiga, a beijoca adolescente e ruidosa, o xoxo onomatopaicamente sugante.
Foi-se o beijo na testa, que já nem as crianças recebem. Distingue-se, pois que raro, o beija-mão, venerador e amarquesado. Pareceria hoje equívoco o beijo na boca, à russa, condecoração militar entre homens.
Arrepiraria o beijo no pescoço, vampiresco, o beijar a orelha, ósculo de segundas intenções. E fiquemo-nos por aqui na geografia corporal do beijo.
Multiplicou-se, enfim, o beijo. Foi-se o estender da mão, acto igualitário e republicano, ajudado por enérgicas sacudidelas públicas e burguesas, como se a aspergir alegrias demonstráveis, enterrou-se no baú das velharis a genuflexão ante a senhoria, o abanicar da mão a floreá-la, os dedos fibrilhantes, num volteio de borboleta.
Não há hoje carta, bilhete de recado, email ou conversa que não termine assim, beijocando.
E depois há, neste mundo de abreviaturas sentimentais, o «bjs» e o «bj» querendo dizer o beijo.
A tal ponto se beija, que uma mulher se embaraçaria se um homem, no fru-fru social mais banal, lhe desse, não um beijo ou mesmo dois, mas um simples abraço: no momento em que os corpos se enlaçassem haveria mais humanidade sim no exteriorizar desse saudarem-se ambos, as almas tocando-se, mas mais atrevimento, a físico-química do sentir contido a iniciar a sua função vital, ruborizando-os.

8.12.07

Charamba

É uma canção popular açoriana e chama-se Charamba. Ouvi-a na voz do Adriano Correia de Oliveira, com estes versos que não lhe conhecia: «a saudade é um luto, é um luto, uma afeição, é um cortinado roxo que me corta o coração».
Não sei que outro amor ao que se perdeu, paixão em agonia ao que se não tem, rasgão na pele dos sentimentos idos, melhor exprimirá este modo dorido de o dizer.

26.11.07

O mundo maravilhado

Passam-se os anos, interiormente séculos, quase uma vida se esvai e de súbito, num comboio que termina a sua marcha encontram-se no sorriso da indesmentível alegria de se reverem Ela mirava-o eternecida, acanhada, ele sentiu, ao surpreendê-la, o rufar da alegria no seu interior em festa. Pelos vistos há demasiado tempo que se tinham perdido. Seguiram cada um para o seu lado. Ao perdê-los de vista, carregando as minhas malas, revivi com eles a incontrolável força do gostar. A minha alma, sorriu-se melancólica à ideia, a vida real interrompida por aquele instante de sonho. Estarão hoje remoendo o seu passado perdido, talvez a dificuldade do seu presente, Naquele segundo, porém, todo o mundo parou, maravilhado para lhes dar espaço e tempo de uma vida por viver.

17.11.07

O Príncipe e o pobre

O pai de Niccolò Machiavelli chamava-se Bernardo. Letrado em jurisprudência, ignorava a arte de enriquecer, ao contrário de tantos dos advogados e notários florentinos. Amava, porém, os livros e comprava-os, trocando quantas vezes para isso produtos hortícolas da sua propriedade rural. Maurizio Viroli, cujo estudo sobre o sorriso de Maquiavel estou a ler, diz que a história de Roma, de Tito Lívio, com base na qual o autor da Mandrágora compôs o que foi uma das suas melhores obras, embora a menos conhecida, o Discorsi sopra la prime deca di Tito Livio, a conseguiu ele, elaborando, minuciosa e pacientemente, durante nove meses, um índice dos lugares citados na obra. Como penhor de que cumpriria, o pai Bernardo deixaria ao editor «tre fiaschi di vino vermiglio e un fiasco d'aceto».

14.11.07

O vinho

«Vinda sabe-se lá de onde, uma nuvem entra por mim dentro, invade-me com a sua escura e ardente melancolia». João de Melo escreveu e Paula Rego ilustrou. É um livro sobre o vinho. Ofereceram-mo hoje. Embriagado de cansaço, sonhando mostos e roendo grainhas, lembro-a da fermentação etílica que é o processo de nos irmos evaporando no lento sonho da ressaca de uma vida mal curtida. No fim vomita-se, na valeta do desconsolo, a alegria breve da bebedeira, o sarro pastoso dos copos por beber. É a alquimia mágica do viver.

2.11.07

Criaturas embiocadas

Gente do Algarve, gente que acredita que há quem leia o que vale a pena ser lido, foi buscar a um conto de Manuel Teixeira-Gomes, o nome para uma editora. Chama-se «Gente Singular». Eu e o texto éramos então uma mesma alegria.
Na página 17 já o narrador, saído da casa de Monsenhor Romualdo Simas e suas três irmãs Sebastiana, Prudência e Faustina, «criaturas embiocadas em lenços negros», se acoitara num pensão, ouvindo da «língua horrorosa» do Dr. Ximenes sobre o conservador da comarca de Faro que «tinha palavras de semana santa e obras de Entrudo», do Pedro Carneiro, escriturário da Fazenda que, sedento das «lindas moiras» se embrulhara na ideia hipnótica dos amavios de uma sultana a tal ponto que, aproximando-se da cama do que julgava ser uma noite no serralho, «sem acender a luz para mais apimentar os preâmbulos da aventura», se cruzara no ansioso palpar com o Celestino, sua voz grossa e sabe-se lá o quê de inesperadamente pronto.

27.10.07

A desbunda do arrear crítico

Dizer que um livro de Urbano Tavares Rodrigues, para mais um seu livro recente, é medíocre, é arriscarmo-nos a arranjar sarilhos, porque em Portugal há figuras que atingem uma grau de soberana intangibilidade e as pessoas receiam desdizer, concentrando em outros bodes a desbunda do arrear critico. Mas eu estou na fase do querer lá saber.
Fere-me estar a ler parágrafos de escrita vulgar no seu romance «Ao contrário das Ondas», que ontem trouxe de uma livraria de Aveiro e ainda pela noite, já a cair de desolado cansaço, tentei ler.
São frases que pretendem ser, obsessivamente, mostras de azedume cívico, demonstrações de intervenção social, credos na boca de esquerdismo político, como se o leitor não soubesse quem ele é e quem ele foi, e Urbano tivesse de exibir na cidade vigiada das Artes, a cada polícia da boa literatura militante, o seu passaporte com o visto em ordem, sem o qual não há livre trânsito na escrita.
Ali há um tal António Pedro que vai ao teatro e, claro, a peça é de Bernardo Santareno, há uma conversa à mesa, e obviamente tem de ser sobre a queda do Governo de Vasco Gonçalves, fala-se de Lisboa e lá vem, pois, que é gente bacoca «com ódio à liberdade, e com desdém pelo povo, excepto quando fazem discursos eleitorais». Há ali disto de embarda.
Eis aqui neste modo de escrever, tardio, teimoso, o que desvalorizou, como arte, o neo-realismo: o fingir ignorar, na sua ânsia de ser política através da escrita, que há mais mundos que os do clandestino homem da bicicleta, há mais humano que no social.
E, no entanto, Urbano tem momentos de densidade sentimental, como quando nos conta que para Lívio, em Sabina, havia «muitas zonas da sua intimidade que lhe eram alheias», para aí surgir António Pedro que, subrogando-se a Lívio, «a impediu de secar completamente como mulher». Só que, é neste livro, desgraçadamente é amiúde uma sensibilidade espasmódica de fornicação, o sexo como ginástica do corpo, mecânica dos fluídos, ócio dos afectos, omitida a palavra amor, os beijos-ventosas salivados de insanciável sensualidade, o «nada de sentimentalismos, disse ela, repelindo-o».
E, claro, logo adiante e por todo o lado, como se num comício sempre dos mesmos contra os do costume, o livro feito cartaz, a literatura propaganda, lá vai Lívio falar sobre a blogoesfera à Fundação Luso-Americana para se dizer que se troçava da assistência, o Lívio que, deputado do MDP, falava com elegância de questões de fundo, não sem antes, como independente de esquerda, chefiar um serviço na RTP, eis um moço que é da JCP e detesta o ministro da Justiça, até, enfim ei-lo que chega, o próprio cego que vai tocar gaita de beiços ao monte alentejano e obviamente toca a Kalinka e, ai, a Cumparsita!
Fico-me, social traidor e decadente burguês, pelo tango, roçagante, lascivo, lubrificante, omitida a palavra amor. Acompanhou-me na noite sovada. Hoje, pois acordei, vou ler o resto do livro, para me irritar. Depois ataco a «Obra Completa», na esperança de de que haja um Urbano diferente e sobretudo melhor.

26.10.07

Se uma gaivota voasse

Estive esta tarde no museu do mar em Ílhavo para descobrir o que é a solidão de um um homem, na pequenez entorpecente de um «dóri», o mar gélido como presença, um fio de pesca como esperança, a dura faina pesqueira como ganha-pão.
Foram heróis, na Terra Nova, esses nossos portugueses, escravos marítimos, salgados nas entranhas, como os bacalhaus que pescavam.
Etimologicamente a palavra «dóri» provém de dor, da dor sentida, para além dos ossos e nos confins da alma. Afogada em aguardente, nas saudades de casa, no contido desejo de voltar.
Sente-se hoje o cheiro do pescado salobre, a caminho do Cais do Sodré, na Rua dos Bacalhoeiros, impregnado na cal das paredes, ida que foi a frota de pesca, perdidos os barcos, recolhidas as velas, ancorada uma vida em terra, como gaivota entristecida sem céu para voar.

3.10.07

Tempo presente

O «blogger» permite fazer o que vou fazer: atrasar o tempo, fazendo com que estas palavras tivessem sido escritas antes da hora em que a Cinderela perde o sapato de cristal.
Faço isso para ficar feliz com a ilusão de que consigo pensar todos os dias, quando há dias em que, robotizado, nem tempo para isso há, e faço isso para que pareça que tenho, como espaço, todo o tempo do mundo.
Claro que há a aparência de verdade de já passarem sete minutos da meia-noite e o desespero de eu estar em Braga, com lembranças de Braga e saudades de Lisboa. Dentro de segundos, graças ao blogger torno o passado presente, como quem empurra para longe de si o tempo futuro.

1.10.07

O vai-vem

Ir para os lados de Aveiro de manhã e de manhã regressar, ter de trabalhar antes de ir, ainda noite escura, e ter de trabalhar pela noite fora, agora que escureceu, só não me dói porque me dói mais a dor dos outros, com vidas ainda piores e que, com dignidade, silenciam o seu queixume.
A meio da viagem, na Antena 2, ouvi um programa sobre William Faulkner e uma das suas frases inesquecíveis. Perguntando-lhe alguém «mas, senhor Faulkner, que deve fazer quem não entende os seus livros, mesmo depois de os ler três vezes?», respondeu com ironia o laureado Nobel: «lê-los uma quarta vez!».
Ao chegar a Lisboa, a cair de sono e a ter de me acordar, pensei que na quarta vez em que viver, talvez entenda a vida que vivo.

22.9.07

Rijo como um labrego

Parece que foi há um século que deixei de ler sem ser por obrigação.
Ontem à noite, com os olhos meios piscos, as letras a trocarem-se, tomei em mãos o Manuel Laranjeira, e de novo as suas «Cartas».
Já nem sei se foi este o último livro dos muitos cuja leitura interrompi, mas reencontrei-o numa carta a Ângelo de Almeida, desanimado, possuído da sua desolação infinita, em «apocalíptica lamentação», enfim o estilo decadente que lhe marca a patológica psicologia, numa sociedade mais doente do que ele.
Os meus amigos quando eu escrevo estas coisas pensam que por algum mimetismo eu estarei num estado semelhante, tal como naquela lei sociológica da imitação que já fez escola há umas dezenas largas de anos atrás.
Ah!, os meus amigos, aqueles que, a escreverem-me deveriam tal como ele desejou ao dito Almeida esperar encontrar-me «rijo como um labrego». Rijo e analfabeto, que as letras matam o corpo, fazendo o coração pensar e a cabeça sentir.