19.12.08

Os braços do mar

Há na zona oriental de Lisboa lugares soturnos, onde volteiam fantasmas do que foram casas, sombras do que foram famílias, fogos-fátuos do que foram vidas. Em alguns entra-se por arcos ogivais e são vilas engalanadas de pobreza, de outros sai-se por canadas estreitas com urina nas narinas e um lamento esboroado nos sentimentos. Ficam aí armazéns de comércios que já fecharam, tipografias de repartições que não imprimem. Aqui e além um asilo de filhos da desgraça, pensões dos que ainda não sairam dela. Às vezes são os focos de um teatrinho a iluminar esperanças, os néons de uma cervejaria a anunciar tremoços.
Ao lado, numa marginal de prata que a lua mal ilumina, o rio corre indiferente, sempre jovem na sua renovação aquática, desperdiçando-se nos braços do mar.

16.12.08

A cor dos dias

Hoje, a meu lado, pela hora do almoço falavam do António Alçada Baptista. Ele dizia-lhe que com certeza «o Alçada, porque fundou a revista O Tempo e o Modo e mais a Livraria Moraes e mais essas coisas todas tinha com certeza um projecto pessoal e uma ideia». Ela respondia-lhe, sem perguntar sequer o que eram «essas coisas todas», que não sei quem estava zangado por se dizer que ele escrevia nas revistas femininas, «mas olha que os artigos na Máxima eram muito bons». Ele, sem se ficar e sem reparar nas feminilidades, aditava um «acho que ele queria fundar era um partido da democracia cristã». Era, perguntei-me eu. Ela, como se viesse a propósito, perguntava-lhe se ele tinha lido o artigo que o Vasco Pulido Valente tinha escrito sobre o António. O Alçada Baptista, claro. Eu por acaso não tinha lido. Ele, num vai-vém, comentou então, como se a conversa tivesse lógica, que «ele coitado era católico e progressista, uma contradição». Coitado, claro. Ela rematou que «ele tinha um filho escritor mas que, coitado, era conhecido como o filho do Alçada». Coitado, pois.
Nessa altura eu já me tinha vindo embora. Coitado eu também. Com uma dor de cabeça que deu em vomitar pela hora de jantar. Ai amigo, haja pena dos vivos que os mortos ao menos esses já foram indo para a terra do além de ter de os aturar aos chamados sobreviventes.

15.12.08

Scheiße!

Haja um momento de alegria nestes dias insípidos, depressivos, irritantes, carregados de notícias funestas e de motivos de consternação.
Vem isto a propósito de há uns anos - tenho de fazer contas para reconstituir há quantos - eu ter estado no austero Max Planck Institut für ausländlisches und internationales Strafrecht em Freiburg, na Alemanha, ou seja concretamente aqui, na minha ânsia de estudar Direito Criminal Comparado, o que tomava então conta do meu inquieto ser.
Foram dias belíssimos, entre a biblioteca e um albergue numa mansarda de uma casa particular em que o meu quartinho era tão pequeno que, ao levantar-me, a cabeça batia na trave do telhado. Comi bolo de amoras e bebi schnaps.
O lugar tem toda a quietude da Floresta Negra a marcar-lhe a densidade, mais séculos de sobriedade científica alemã. No que falta para o rigor universitário o velho espírito teutónico povoa-lhe as ruas. Excepção só mesmo a colónia estudantil, cosmopolita e irrequieta na justa medida. É a respeitabilidade feita local.
Ora não é que hoje, com a tarde a findar, eu vejo esta notícia magnífica, a de que desejosos de ornarem a capa da sua revista com algo de simultaneamente belo e simbólico, os editores do Max Planck Forschung, a revista oficial do Instituto, optaram por caracteres chineses que, de facto, com o fundo em vermelho, formam um conjunto sóbrio e apelativo, como se pode ver tendo a maçada de clicar aqui.
Só que - azar dos Távoras! - quis o cruel destino rir-se de tanta circunspecção e de tanto recato e ... os caracteres chineses são, afinal, o anúncio de um bordel em Macau! Segundo os que sabem ler tão esquisitos hieróglifos dizem «Donas de Casa Quentes» e dão conta do que tais acaloradas senhoras são capazes nas suas perfomances em strip-tease!
Não acreditam? Vem tudo aqui, no jornal The Independent!
Mais! Tentando achar uma explicação para remediar o embaraço, uma fonte do agora gozado organismo científico alemão veio dizer que «a língua chinesa tem vários níveis de profundidade». Pior a asneira que o soneto! É caso para dizer: Scheiße! Quer dizer m...
P. S. Voltei aqui para explicar que sei haver na Alemanha mais do que um Max Planck Institut. Falei do que conheço. Isto é preciso muito cuidado! Há sempre quem, não achando graça à piada, tente desmoralizar os que se julgam engraçados. Apre!

14.12.08

Uma esmola

Vi há pouco e aqui tão perto o original de uma carta de Camilo Pessanha a Ana de Castro Osório. Uma carta de amor em Vossa Excelência, porque eram pesados os reposteiros que guardavam os sentimentos da indiscrição de as palavras os trairem.
Quis o acaso, o sucedido que finge sê-lo para que nele acreditemos, que esta manhã eu tivesse lido precisamente uma dessas cartas, agora ali, visível a sua caligrafia miúda, cuidada, para que, mais do que uma missiva, ela própria, no seu papel, na tinta que a inscreveu, em cada uma das palavras que dela constam, fossem uma lembrança de afeição.
Camilo Pessanha pede «para lisonjear profundamente toda a minha pobre sensibilidade dorida, um jornal, de vez em quando, em cujo endereço eu reconhecesse a letra de V. Ex.ª.». Uma esmola, diz, e como é duro ouvir esta palavra no vocabulário sentido de um amor pedinte.

O Príncipe de Salina

«Seduzi-la foi um acto de conquista, desposá-la um acto de rendição», a frase que me resume três horas de narrativa cinematográfica de O Leopardo de Visconti. Assim também para aquela Itália possuída pelos Bourbons, cortejada pelos Sabóias, tomada pelos de Garibaldi. Uma verdade de esperanças fuziladas pela desilusão, numa Sicília em que o orgulho suplanta a miséria, em que o desejo de esquecimento é a mãe de toda a indiferença, mesmo a mais violenta. É a história de uma senhoria, entre dois mundos a nenhum dos quais já pertence.

13.12.08

Um livro sublinhado

Acabei, enfim, de ler a Manhã Submersa do Vergílio Ferreira. Rara é a folha onde não deixei uma marca, um sublinhado, o traço da importância do que ali se conta, de quanto me vincou o modo como se conta.
Ficam-me os livros sublinhados como história da vida, memória a lápis, à margem, em rodapé ao escrito. Biblioteca de desencantos, de esperanças, de similitude.
Livro biográfico, da sua passagem infrutífera pelo seminário da Guarda, a Manhã Submersa conta a ruptura de vocação, a crise de fé do jovem seminarista António Lopes, miúdo de catorze anos, cuja orfandade e pobreza o haviam tornado candidato ao sacerdócio.
Nas páginas finais, confrontada com o irremediável de um filho que negava o conforto da vida eclesiástica, sustento e amparo de todos e orgulho dos seus, a mãe, moída de o ver triste, perde-se a dizer «e então eu digo se não era melhor que tivesses morrido em pequeno». Logo arrependida, a tentar justificar-se, «dorida de necessidade», a tratá-lo com «um carinho medroso», corrige: «eu não devia dizer isto, Deus me perdoe. Mas sinto cá dentro que é como se não fosse mal dizê-lo».

12.12.08

A irrealização

Aproveitando um intervalo, fugido ao vento e às obrigações, li umas páginas de cartas de Camilo Pessanha. Numa delas escrita ao seu primo José Benedito de Almeida Pessanha deixa esta observação densa acerca da aspiração falsa que é a luta pela realização do prazer: «o prazer, não tendo realidade sua, era o aniquilamento do desejo, de forma que esta luta representaria ansiar a morte». Continuando acrescenta: «cada desejo constitui uma dívida da natureza para quem o sente: a morte é a cedência das dívidas antigas, para evitar que ela volte a contrair novas dívidas».
Um homem que assim pensa traz dentro de si a totalidade da sua biografia. Vivendo conforme o desejo, negando-se o prazer de o satisfazer, a sua vida é essa irrealização. Há quem chame a isso infelicidade. No fundo, é apenas o destino.

9.12.08

Dar-se ao riso

Já não sei onde o encontrei. Mas foi num alfarrabista, seguramente, porque é o que agora se chama, nesta época de eufemismos adocicados, um livro «manuseado».
Ao meu ser ansioso oferece a gratificação de serem curtos os seus textos e chegar-se ao fim de cada antes que a atenção se disperse, esvoaçando das linhas para os sonhos que se desalinham.
Ao meu ser literário são magníficas expressões do melhor modo de dizer. Incapacitantes de se escrever sem vergonha.
Ao meu ser moral aflige-me dar conta que terá sido furtado em alguma biblioteca ou alguma biblioteca o despachou, ao liquidar-se, pontapeando-o para o adelo. Está nele um carimbo a gravar a posse, a certificar o extravio.
São pequenas prosas do José Gomes Ferreira. Pequenas prosas digo eu que as achei grandes prosas e as li inflamandamente satisfeito de as ter encontrado.
Chama-se o livrito, Os Segredos de Lisboa.
A última história, ribombante de riso, é a do Delicadezas, untuosa personagem, melíflua e escorregadio de contumélias e outros arrebiques de veneradores salamaleques.
Li-a, com vontade de que a cidade a ouvisse ler e saísse aos urros de alegria e aos guinchos de gargalhada a ribombar foguetes, livrando-se desta tristeza que em breve se anuncia natalícia. «Ah! Se Vossa Excelência me honrasse com a consideração de adivinhar o que eu padeço!», saiu-se o homem, pobre cobrador de cerviz cambada, num momento de agonia e «os olhos entristeciam-se de um segredo fechado».
Eis a maldade dos sentimentos: a comédia da dor própria é tornar-se na alegria alheia. Nasce assim a figura do palhaço. Uns tempos depois surge o circo e com ele o dar-se ao riso tornar-se numa forma de viver.

8.12.08

Feriado

Antigamente era este o dia da mãe. Depois mudaram o dia. Não mudou a ideia de mãe.

7.12.08

António Alçada, com A's grandes

Vinha a chegar a casa quando ouvi no rádio: tinha falecido esta mesma tarde de chuva o António Alçada Baptista.
Ainda hoje tinha estado a falar nele, a propósito de O Tempo e o Modo, projecto para cuja viabilidade se endividou e que fundou em 29 de Janeiro de 1963, no dia em que perfazia 36 anos. Afeiçoada ao personalismo cristão, inspirada na Esprit, ela deu aos «vencidos do catolicismo» - a expressão é de um amigo seu, o João Bénard da Costa - a oportunidade de clamarem por uma visão eclesial e um outro ecumenismo, fazerem da fé uma militância social.
Estou em casa e em volta de mim espalham-se agora livros seus, editados pelo seu amigo Francisco da Conceição Espadinha, editor na Presença como ele o foi com a sua Moraes, chancela a quem a jovem poesia portuguesa tanto deve e que em 1972 foi forçado a vender, por ter nela gasto o que tinha e o que não tinha.
Li-os a esses livros porque me preparei para um entrevista que nunca chegou a conceder-me, então já a sua saúde precária, na qual lhe perguntava como era ao ter rompido com a advocacia, ele que largou o foro, refugiando-se na Literatura, quando sentiu que era, afinal «um porrete» que o seu cliente usava para maltratar, num processo de partilhas, um cunhado com quem se inimizara.
Morreu um homem bom. A sua passagem por este mundo foi a manifestação da sua generosidade e a expressão do amor ao próximo.
Num dos seus últimos textos escreveu: «vivi com Deus desde pequenino mas, à maneira que fui crescendo, ele foi mudando». A existir esse Deus, que nunca lhe «apeteceu deixar», ter-se-ão encontrado agora, terminada que está a sua peregrinação interior.

O desespero

Ontem na Cinemateca por um súbito desejo, fruto de uma prolongada carência: a sala estava cheia.
Há no Othello de Orson Welles o rasgar da sensibilidade do espectador pela sucessão de planos de luz e de escuridão, a penumbra como lugar de expectativa.
Sim, do ponto de vista estritamente cinematográfico é isso, mais o ritmo alucinante da narrativa, os planos arrojados de enviesamento da imagem, os ângulos de observação, os grandes cortes picados, em que a expressão humana invade a sala e com ela jorra um sentimento que fere, agride, dói. E depois há a voz, a corpulência, tudo o que no criador de Citizen Kane impressiona, marca, se apresenta.
Mas há mais, porque há uma obra literária contada em trinta e cinco milímetros.
A tragédia daquele Othello é, sim, a da existência, a de ser-se o que se é, como ele nos diz no diálogo final, visto do alto da cripta onde fez alcova, o tálamo onde comete o seu horrendo crime amoroso, por um funesto amor.
Está ali o mercador de Veneza, marioneta humana às mãos de Iago, essa personagem que na sua amoralidade exprime o pior do renascentismo, a falta de escrúpulos como uma das belas artes. Nisso está fielmente presente William Shakespeare, como em Macbeth.
Mas está mais, muitíssimo mais, a ditar a grandeza do filme, a lição de uma noite: história de horror humano, ao findar o quinto acto, Othello mata Desdemona não pelo ódio do ciúme, mas pelo tão magoado e insuportável desprezo por si. Ganindo de dor, a sua alma dilacera-se à ideia de que ela se lhe entregou, a ele como porventura a tantos outros, tentada pela luxúria da sua inferioridade, mouro, negro, aquele para quem a dúvida mortal é, afinal, o prenúncio do desejo de morrer.
Othello mata para se matar e mata-se de novo. Estranha, invulgar, única forma de viver um amor, fruto do desespero de se julgar assim amado.

6.12.08

Quatro quartetos

«O que podia ter sido e o que foi/Tendem para um só fim, que é sempre presente». É um instante dos Quatro Quartetos de T. S. Eliot.
«What might have been and what has been/Point to one end, which is always present».
Trago-os, esses cortantes versos, lidos por Burnt Norton. Viajam comigo pela viagem do tempo.

1.12.08

A toupeira

Na sua biografia de Stefan Zweig, Jean-Jacques Lafaye escreve que ele «imaginou demasiadas dores humanas para poder escapar delas». Sente-se isso ao ler a formidável novela O Coração Destroçado, a história do comerciante Salomonsohn, em cujo coração, qual toupeira, a angústia cava um túnel, «a ferida que não dói», tal «o sangue a correr para dentro do seu próprio sangue», o «derrame invisível» que o destruirá.
Escravo do dever, agrilhoado às obrigações, torna fácil a vida de uma família, escravizando-se a ganhar o dinheiro que a todos, no entanto, fará perder. É uma história de sordidez moral travestida em amor familiar.
Deus pune e o seu Deus puniu-o com o horror indigno de ter de «engolir a própria cólera, como um cão engole o seu vómito». Ridícula, ainda por cima a razão.
No dizer dos seus, ele era o homem a quem «fazia mal ver os outros contentes». «Fechara-se no seu ser o que quer que fosse; tornara-se inacessível, ausente, como se a sua alma tivesse sido emparedada». Li-o ontem, uma história de resignação.

29.11.08

A companhia esperançada

Voltei ao Ruben A., às suas memórias, ao livro O Mundo à minha procura. Terminara o volume segundo, arrastava-me pelo terceiro, interrompera-o. Recomecei hoje, umas folhas apenas. Chove copiosamente. Chego à busca de casa, às reticências de tia Teodora, talvez por uma coisa melhor, casa mais ao pé, ela que «esquecia-se que o Amor não pode esperar, é já, já, já» e assim, ei-lo, o homem que escreveria Silêncio para Quatro e que um fulminante ataque liquidaria, desgostoso de todos nós, na companhia esperançada de um segundo amor depois de tantos amores, de chaves na mão, na página trinta e cinco, livre trânsito ao desejo de casar, as chaves, enfim, do «albergue de um já já». Na Praça D. Pedro IV, na cidade do Porto.

26.11.08

Ataraxia

Mihail Eminescu, foi um expoente magnífico da poesia romena. Hoje quem o conhece? Victor Buescu, o professor a quem se deve a nobilitação da cultura da Roménia no nosso país, na década de quarenta, traduziu-o. Carlos Queiroz, o autor da extraordinária Epístola aos Vindouros, que a morte levaria aos 42 anos, com desvelo converteu a tradução em poema branco, a ler em língua portuguesa.
Foi-me assim possível, ontem, refugiar-me em busca de abrigo na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, e ter ali por companhia os sentimentos e o pensar desse «latino do oriente», um dos tantos então «naufragados no tenebroso mar eslavo».
Eminescu morreu com 33 anos. No texto de apresentação da obra, Mircea Eliade, resume-nos a biografia. Nele «o instinto da liberdade era mais forte do que o instinto da conservação».
Li, entregue à paz dos livros, como o eremita confiado à guarda do «Deus que transmudou o Caos no Cosmos» uma das Odes. Copiei-a, letra a letra, incerta a caligrafia, para a trazer para aqui, como quem transporta água de uma fonte, com receio que ela lhe escorra toda entre os dedos antes de a dar a beber a quem tiver sede: «Quando nada imortal, nem a morte existia/Nem um núcleo de luz onde se gera a vida/Nem amanhã, nem hoje, nem ontem, nem sempre/Porque Uno era tudo e tudo era Um só ser/Quando a terra e o céu, o ar, o mundo inteiro/se integravamm em tudo o que nunca existiu/Só Tu eras então».
Reintegrado com a vida, regressei a casa. Algum tempo depois, a Natureza chorava copiosamente uma tarde de chuva. O «tambor grandiloquente da rima», martelava-me a cabeça.

23.11.08

A luz nocturna

«Obrigado pela companhia que a sua escrita faz a tanta solidão», disse ela. Tímido, por ter diante de si a totalidade do mundo num só sorriso, embaraçado por nem saber como se agradece um tal favor de verdade, carregando agora o fardo pesado dessa inesperada importância, agradeceu. Tenta hoje lembrar-se como. Mas ficou só a luz nocturna da frase, esse farol a encandear os olhos. Hoje quando escreve já nem lhe dói o ser visto, sim o que os outros possam ver. Aconteceu isto há uns dias, como poderia ter acontecido em cada momento até agora que penso nisso.

20.11.08

A ilusão dos livros

Era uma grande livraria, um grande espaço, um grande edifício, um grande projecto. Esta noite soube que se tinha entregue à falência.
É esta a caricatura final dos sonhos de grandiosidade. Depois é a ilusão dos livros, a transportarem-se para o mar da realidade, como as nuvens no céu a desfazerem-se em chuva.
Esta manhã a floresta do que poderia ter sido deu nos papéis rasgados de uma história que se poderia ter evitado. A Byblos fechou. Esta noite passada.

17.11.08

A fábrica de ídolos

Precisamente por andar a ler a Manhã Submersa do Vergílio Ferreira lembrei-me que tenho a sua fotobiografia, que o Helder Godinho e o Serafim Ferreira organizaram para a Bertrand. Fui ver, pois de memória tinha presente que ali se referia o filme que o Lauro António realizara sobre o livro auto-biográfico onde relata a passagem pelo seminário e no qual o autor da Aparição faz o papel do Reitor. Assim é e na página respectiva vem este excerto da Conta Corrente, o diário bilioso que foi ruminando entre Lisboa e Fontanelas: «Espantoso. Tenho sido cumprimentadíssimo pela minha aparição na TV, na série da Manhã Submersa. Faço o papel de Reitor, tenho sido felicitadíssimo. No restaurante onde hoje fomos, vários olhares fixos em mim, a identificarem-me. Há quarenta anos a escrever livros. Pouca gente deu conta. Mas só com duas intervenções na TV, sou quase tão célebre como um futebolista». Eis a fábrica de ídolos na sua melhor expressão, surpreendida em plena laboração.

16.11.08

O silêncio

Vi-o reeditado e fui buscar a minha edição antiga, ainda da Bertrand. Tinha sido escrito em 1953. A edição do meu exemplar já era a 23ª. Vim a lê-lo em viagem, a ver em cada palavra uma nódoa negra de uma vida dorida, a cicatriz de uma ferida salgada pela memória. E, no entanto, é a história de um rapaz.
Vergílio Ferreira esteve no Seminário da Guarda. Manhã Submersa é disso o testemunho. Só que esta constatação banal é uma ínfima gota de água no revoltoso rio dessa torrencial lembrança de que a escrita é explêndida Literatura. Livro sobre o sacerdócio, é mais um livro sobre a expiação dessa culpa de a Fé não ter resistido à Igreja, a vocação não ter suportado a Esperança. Podia ser, no entanto, um livro sobre o enamoramento e suas mágoas. Nada mudaria.
Há no coração deste rapaz a falta de uma Mãe, no seu corpo a falta de uma Mulher. Viveu substituindo esses amores desejados pelo cumprimento dos seus deveres. De joelhos até já não ser mais possível. A sua prece era o silêncio.

13.11.08

A manhã entardece

Há livros de que só se repara no título depois. O último livro que Nuno Júdice publicou chama-se O breve sentimento do eterno. «O que é triste é para ser. Acontece». É um dos seus versos.