Voltei ao Ruben A., às suas memórias, ao livro O Mundo à minha procura. Terminara o volume segundo, arrastava-me pelo terceiro, interrompera-o. Recomecei hoje, umas folhas apenas. Chove copiosamente. Chego à busca de casa, às reticências de tia Teodora, talvez por uma coisa melhor, casa mais ao pé, ela que «esquecia-se que o Amor não pode esperar, é já, já, já» e assim, ei-lo, o homem que escreveria Silêncio para Quatro e que um fulminante ataque liquidaria, desgostoso de todos nós, na companhia esperançada de um segundo amor depois de tantos amores, de chaves na mão, na página trinta e cinco, livre trânsito ao desejo de casar, as chaves, enfim, do «albergue de um já já». Na Praça D. Pedro IV, na cidade do Porto.
29.11.08
26.11.08
Ataraxia
Mihail Eminescu, foi um expoente magnífico da poesia romena. Hoje quem o conhece? Victor Buescu, o professor a quem se deve a nobilitação da cultura da Roménia no nosso país, na década de quarenta, traduziu-o. Carlos Queiroz, o autor da extraordinária Epístola aos Vindouros, que a morte levaria aos 42 anos, com desvelo converteu a tradução em poema branco, a ler em língua portuguesa.
Foi-me assim possível, ontem, refugiar-me em busca de abrigo na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, e ter ali por companhia os sentimentos e o pensar desse «latino do oriente», um dos tantos então «naufragados no tenebroso mar eslavo».
Eminescu morreu com 33 anos. No texto de apresentação da obra, Mircea Eliade, resume-nos a biografia. Nele «o instinto da liberdade era mais forte do que o instinto da conservação».
Li, entregue à paz dos livros, como o eremita confiado à guarda do «Deus que transmudou o Caos no Cosmos» uma das Odes. Copiei-a, letra a letra, incerta a caligrafia, para a trazer para aqui, como quem transporta água de uma fonte, com receio que ela lhe escorra toda entre os dedos antes de a dar a beber a quem tiver sede: «Quando nada imortal, nem a morte existia/Nem um núcleo de luz onde se gera a vida/Nem amanhã, nem hoje, nem ontem, nem sempre/Porque Uno era tudo e tudo era Um só ser/Quando a terra e o céu, o ar, o mundo inteiro/se integravamm em tudo o que nunca existiu/Só Tu eras então».
Reintegrado com a vida, regressei a casa. Algum tempo depois, a Natureza chorava copiosamente uma tarde de chuva. O «tambor grandiloquente da rima», martelava-me a cabeça.
23.11.08
A luz nocturna
«Obrigado pela companhia que a sua escrita faz a tanta solidão», disse ela. Tímido, por ter diante de si a totalidade do mundo num só sorriso, embaraçado por nem saber como se agradece um tal favor de verdade, carregando agora o fardo pesado dessa inesperada importância, agradeceu. Tenta hoje lembrar-se como. Mas ficou só a luz nocturna da frase, esse farol a encandear os olhos. Hoje quando escreve já nem lhe dói o ser visto, sim o que os outros possam ver. Aconteceu isto há uns dias, como poderia ter acontecido em cada momento até agora que penso nisso.
20.11.08
A ilusão dos livros
Era uma grande livraria, um grande espaço, um grande edifício, um grande projecto. Esta noite soube que se tinha entregue à falência.
É esta a caricatura final dos sonhos de grandiosidade. Depois é a ilusão dos livros, a transportarem-se para o mar da realidade, como as nuvens no céu a desfazerem-se em chuva.
Esta manhã a floresta do que poderia ter sido deu nos papéis rasgados de uma história que se poderia ter evitado. A Byblos fechou. Esta noite passada.
17.11.08
A fábrica de ídolos
Precisamente por andar a ler a Manhã Submersa do Vergílio Ferreira lembrei-me que tenho a sua fotobiografia, que o Helder Godinho e o Serafim Ferreira organizaram para a Bertrand. Fui ver, pois de memória tinha presente que ali se referia o filme que o Lauro António realizara sobre o livro auto-biográfico onde relata a passagem pelo seminário e no qual o autor da Aparição faz o papel do Reitor. Assim é e na página respectiva vem este excerto da Conta Corrente, o diário bilioso que foi ruminando entre Lisboa e Fontanelas: «Espantoso. Tenho sido cumprimentadíssimo pela minha aparição na TV, na série da Manhã Submersa. Faço o papel de Reitor, tenho sido felicitadíssimo. No restaurante onde hoje fomos, vários olhares fixos em mim, a identificarem-me. Há quarenta anos a escrever livros. Pouca gente deu conta. Mas só com duas intervenções na TV, sou quase tão célebre como um futebolista». Eis a fábrica de ídolos na sua melhor expressão, surpreendida em plena laboração.
16.11.08
O silêncio
Vi-o reeditado e fui buscar a minha edição antiga, ainda da Bertrand. Tinha sido escrito em 1953. A edição do meu exemplar já era a 23ª. Vim a lê-lo em viagem, a ver em cada palavra uma nódoa negra de uma vida dorida, a cicatriz de uma ferida salgada pela memória. E, no entanto, é a história de um rapaz.
Vergílio Ferreira esteve no Seminário da Guarda. Manhã Submersa é disso o testemunho. Só que esta constatação banal é uma ínfima gota de água no revoltoso rio dessa torrencial lembrança de que a escrita é explêndida Literatura. Livro sobre o sacerdócio, é mais um livro sobre a expiação dessa culpa de a Fé não ter resistido à Igreja, a vocação não ter suportado a Esperança. Podia ser, no entanto, um livro sobre o enamoramento e suas mágoas. Nada mudaria.
Há no coração deste rapaz a falta de uma Mãe, no seu corpo a falta de uma Mulher. Viveu substituindo esses amores desejados pelo cumprimento dos seus deveres. De joelhos até já não ser mais possível. A sua prece era o silêncio.
13.11.08
A manhã entardece
Há livros de que só se repara no título depois. O último livro que Nuno Júdice publicou chama-se O breve sentimento do eterno. «O que é triste é para ser. Acontece». É um dos seus versos.
17.10.08
A ilusória inutilidade
Sentei-me num banco do passeio público a ler. Fazia-o sem óculos. O passeio público era o corredor do Centro Comercial Colombo. O conseguir ler apenas com os meus olhos foi porque o corpo de letra era maior. Trouxe-o agora para casa, um livro que Georges Simenon não escreveu. Dois anos antes decidira não mais escrever. Estas memórias ditou-as. Chama-se Lettre à ma mère. É uma récita nostálgica, amorosa, de um amor feito de ausências. Inicia-o por descobrir que ao refugiar-se no mundo interior que lhe era familiar Henriette Brüll parecia estar já no outro mundo. É assim que vêem os olhos dos outros. Vou seguir com os meus, desta vez com óculos. Tinha-os aqui, esquecidos, por uns momentos ilusoriamente inúteis.
14.10.08
David Levine
O que faz a cultura de uma pessoa? Tanta coisa miúda, dispersa, atípica, fora do contexto da vida, longe do expectável, às vezes reles outras grandiloquente demais para a própria capacidade. Lembrei-me disto a propósito de um enorme artigo que não tive a coragem de ler até ao fim. O tema era o jornal literário New York Review of Books. Pensei e foi um caudal de recordações neste fim de tarde em que tenho de sair para rua, sem vontade. Primeiro, ainda com o artigo aberto diante dos olhos, o ter comprado tantos exemplares desse notável jornal, regularmente, dobrando-os muito cuidadosamente na pasta para não vincar indevidamente o papel, hábito nascido do meu psiquismo obsessivo e de ter aprendido a estimar o que é caro, como no tempo em que se forravam as capas dos livros para os não sujar ao lê-los. Depois, a imagem evanescente da menina de olhos negros da banca de revistas ali nos Restauradores, de uma beleza triste esmaecida num sorriso bonito, a mesma que oferecia cromos gratuitos, excedentes das promoções, ao meu ansioso Afonso, tão miúdo então, e que já nem perguntava nada ao estender-mo, mais o seu irmão europeu, o Times Literary Suplement. No meio desta nuvem nostálgica de lembranças, a memória de que o NY nascera de uma greve do New York Times que deixara sem trabalho os críticos literários e outros colaboradores culturais que se reuniram em torno da ideia de uma publicação autónoma que não apenas um suplemento dentro de um jornal. E, enfim, enfim não!, porque a verdade é que foi por aí que comecei e me entristeci e por causa disso aqui estou, foi saber que está praticamente cego o David Levine, cujo explêndido traço caricatural valia mais do que tanto artigo de opinião, tanta recensão, tanta doutrina, tanto do que eu, regular comprador de um jornal que nunca assinei [«eu sei que é mais barato, deixa lá!»], não lia, guardava para depois, um depois que nunca houve até um dia, vivia por empréstimo numa casa na Rua das Trinas, deitei tudo fora, ou deixei lá ficar quando saí, é o mesmo. Não sei porquê, talvez porque fossem os seus desenhos que em cada jornal que comprava me rasgavam os olhos iluminando-me a alma sobre quem era cada um daqueles que a sua pena resumia a linhas enoveladas de uma caricatura, o David Levine tornou-se uma figura inesquecível; criaturas da cultura, da política, do mundo, personagens de um mundo de ironia, suspensos num instante fugaz de existência. Ao contrário do escultor, que é a mão da posteridade, o caricaturista é a dedada de um instante: ali a arrogância da intemporalidade, aqui a humildade de um instantâneo. Está cego, acho que os leitores começaram a notar os sinais, pela incerteza do traço, o tremer-lhe a mão na assinatura. Se há Deus, é para que não veja mais. A Natureza também é assim, poupa-nos ao limite da dor.
10.10.08
O homem que via passar os comboios
Viajar de comboio e no comboio ler O Homem Que Via Passar Os Comboios é uma experiência única, o treca-treca da composição a marcar o compasso do ritmo da leitura. A história é uma narrativa de aprisionamento e de libertação. A personagem é um funcionário de uma empresa holandesa de produtos marítimos, com cartão de capitão mas que a monotonia amarra à mediocridade de um emprego em terra. O acaso da falência fraudulenta da empresa, a que ligara tanto a sua vida que nela resumia a própria vida, lança-o no caminho da aventura. Mata por um acaso, ao não aguentar ouvir rir a dançarina de cabaret com quem sonhara dormir. Quando cheguei ao meu destino, uma mulher que alugava afagos fazendo trottoir em Paris ajudava-o a encontrar refúgio que a sua imprudência torna perigosamente precário. Ele tinha-a querido apenas por companhia, num hotel barato das imediações. É um livro de George Simenon, sem Maigret. Apenas o comissário Lucas, no Quai des Orfèvres, da Polícia Judiciária, mesmo assim, discretamente: o crime é apenas um pretexto, um décor para a alma humana mostrar a sua verdade. Foi ter visto a jovem mulher do velho patrão em camisa de noite, o corpo à transparência, que desencadeou tudo. O tempo futuro nasceu de um tempo possível, que nunca viria a existir.
3.10.08
O tempo simultâneo
Disseram-me que estava esgotado. Talvez por isso quando o encontrei comprei-o. Tinha-o lido há muitos anos. É dos livros cujo breve enredo é difícil esquecer. No caso vi que a tradução era do João Barrento. Lê-se depressa. A escrita é fácil. O efeito explosivo vem depois quando já nem se pensa no que se leu. Ontem, entre três linhas de Metro, a amarela, a azul, a vermelha, consegui alcançar as folhas finais. Depois foi ter-me enganado no que li e vir para casa ruminar contra o que supunha ser um erro. Com o meu pobre alemão fui ao original que está on line. Lá estava o mesmo. Na página quarenta e quatro do meu exemplar a jovem personagem era uma criança de dezassete anos. Duvido que se seja propriamente uma criança com essa idade, mas adiante. Aos dezanove quantas ainda são infantis. Uma delas ia comigo no Metro. Não fosse o corpo a saltar-lhe atrevido de dentro da roupa, supor-se-ia, pelo que dizia, uma garotinha. A mãe dava-lhe cinco euros por semana de semanada, ela deu um cigarro a cada um dos vorazes rufiões da sua idade que a acompanhavam, de mau semblante, piores ideias. Mas na página quarenta e nove pareceu-me ter visto que a mesma personagem, a da minha leitura, sem que o tempo da narrativa tivesse mudado, tinha dezasseis anos.
Só a noite passada venci, voltando a ler, a minha dúvida.
Trapalhão a escrever, trapalhão a ler. Não era a mesma criatura com duas idades simultâneas. Dezasseis anos tinha a criadita, dezassete a filha da patroa, Grete, a irmã de Gregor, exactamente esse, Gregor Samsa, o caixeiro-viajante que um dia acordou transformado em insecto. No seu quarto as paredes eram altas, o céu distante.
Só a noite passada venci, voltando a ler, a minha dúvida.
Trapalhão a escrever, trapalhão a ler. Não era a mesma criatura com duas idades simultâneas. Dezasseis anos tinha a criadita, dezassete a filha da patroa, Grete, a irmã de Gregor, exactamente esse, Gregor Samsa, o caixeiro-viajante que um dia acordou transformado em insecto. No seu quarto as paredes eram altas, o céu distante.
30.9.08
A Hora Universal
Durante muitos anos não usei relógio. Era um tempo em que não havia telemóveis com relógio, nem relógios digitais nos automóveis. Aprendi, primeiro, a espreitar as horas no relógio dos outros, depois a adivinhar que horas seriam. O relógio do Instituto de Biologia Marítima, ao Cais do Sodré, e o da estação de comboios do Rossio ajudavam, o do Aeroporto também.
Nessa altura não só não chegava atrasado a encontro algum, como tinha sempre o sabor agradável de um avanço sobre todos os horários e o prazer de fruir o tempo ganho ao tempo.
Muitas vezes me perguntaram então pelo porquê de não usar relógio. Nunca disse que me tinha impressionado o momento em que os relógios tinham passado de maquinismos discretos para se verem as horas, escondidos no bolso, os antigos com corrente, disfarçados sob o punho da camisa os chamados de pulso, para o despautério exibicionista de estarem afixados quase rente às costas da mão, visíveis, ostensivos, com enormes mostradores, para que, mostrados, se adivinhasse o preço e através dele se intuísse o status.
Acontece que o ano passado me ofereceram um relógio, bom, bonito, discreto.
Usei-o até que outro dia parou. Foi mudar a pilha, pois não poderia ser uma questão de esgotamento da paciência. Voltou a funcionar mas, uns dias depois, parou de novo.
Sepultei-o pois, discretamente, numa caixa onde guardo todos os outros relógios, os da minha infância e os da minha juventude, do tempo em que eu tinha todo o tempo do mundo e o espaço do universo era todo meu.
Agora olho para o sol e sinto o ruído gorgorejante das entranhas e calculo cronometricamente que daqui a pouco é hora de ir comer. Mais logo durmo e quando chegar a lua sonho.
Com a raiva com que ando ao mundo um dia ponho uma bomba no relógio que dá o TMG, a Hora Universal.
28.9.08
Congestão pela tarde
Há na Travessa do Monte um restaurante de comida indiana, em frente do qual está plantada uma agência funerária cujo letreiro a anuncia aberta vinte e quatro horas por dia.
Ora vinha ainda meio azamboado da conjunção gastronómico-funerária quando, ao olhar para trás, num gesto instintivo, como se a da foice me seguisse da casa de pasto para a casa mortuária, vi, na parede de uma casa que se está a afundar num obliquar perigoso, a escada exterior já a fazer um ângulo que desafia a força centrípeta, este mimo de inscrição: «amores, calores, rumores e sabores».
Cheguei ao Largo que se chama da Graça, sem ter achado graça nenhuma. Pela tarde parou-me a digestão e uma dor de cabeça tomou conta de mim.
24.9.08
Um livro interminável
Tenho-o comigo, volto a ele. É um daqueles livros que se desejam intermináveis. É a crónica de uma vida, um livro em que seguimos na peugada de quem viveu, fazendo da sua sombra a nossa forma de viver. Um livro sincero, feito de inesperadas improbabilidades. Ruben Andresen Leitão foi na vida Ruben A. Num momento de génio encontrou Ruben B. O diálogo entre ambos é memorável. Mas esta noite que passou, antes de entrar definitivamente num sono de brutos, li-o, mais umas folhas. Chama-se O Mundo à minha procura. Comecei pelo segundo volume. Acho que já o disse aqui. Fiquei no «impulso que quase me distraía para debaixo de um carro». Foi aí que adormeci como se morto. Atropelado pela vida. Amanhã renasço, para mais umas páginas.
21.9.08
A janela entusiasmante
A Avenida de Berna é, pelo inóspito do vento que a varre vindo das furnas do Monsanto, e pela extensão que duplica quando um peão se engana e dá consigo a vaguear como se fosse para a Rua da Beneficência, a linha férrea a atrapalhar, um sítio mau para um turista desorientado. E há muitos desses vagueantes sem norte. Ainda há pouco, vistas do alto desta janela onde se reflecte o tardio poente do Verão que já foi, ali estavam duas debruçadas sobre folhas de um mapa que se volteava. A esta hora fechou a Gulbenkian, de restaurantes das redondezas quase não se fala porque não há, e no Campo Pequeno raramente há bois e o volteio ao redondel é nas galerias de um shoping subterrâneo. Entusiasmado de tão condoído, imagino-as, perdidas, a caminho do Parque, por ruas tristes sem ninguém, rumo ao sombrio e domingueiro lugar de aluguer soturno de uns corpos tresmalhados. Pelo caminho encontrarão El Corte Inglés e duvidarão de que não sejamos um excerto da Espanha, até porque, perdidas de todo, a última referência que tiveram foi, virar à esquerda ao chegar à Praça de Espanha. Moe-me então um assomo patriótico raivoso porque, as tristes, estão sós e pior do que iso sem companhia.
17.9.08
O construtor Solness
A peça é do Henrik Ibsen, um monólogo, uma hora e meia em palco. Só um artista de excepção resiste, ao esforço de memória, os nervos em pressão constante. No caso a personagem muda de idade, de mentalidade e de ideologia, de sexo até.
Beatriz Batarda é, de facto, extraordinária. Recebe-nos sentada na borda do balco, uma perna pendente, como se a marcar o tempo que falta. Extasia-se em emoção como um grito de dor qual sirene atroando os ares a anunciar a guerra de extermínio. Foi no Teatro Cornucópia. Há meses que não saía. Regressei a casa magoado de beleza.
Beatriz Batarda é, de facto, extraordinária. Recebe-nos sentada na borda do balco, uma perna pendente, como se a marcar o tempo que falta. Extasia-se em emoção como um grito de dor qual sirene atroando os ares a anunciar a guerra de extermínio. Foi no Teatro Cornucópia. Há meses que não saía. Regressei a casa magoado de beleza.
16.9.08
O viajante do imaginário
Uma lua imensa no céu, para os que olham para o céu. Atravessava-a, espreguiçando-se, uma nuvem, novelo patrício de fumo azul, atrás da qual se escondia o príncipe de todos os mares, o mar da tranquilidade. Durante a noite o céu escorreria em chuva, abundante, vivificadora, convocando para a madrugada cada um dos passáros da terra e seus gorgeantes cantares. Na terra, seres irmanavam-se então numa cadeia forjada, corrente a corrente, de ânsias de bondade. Pela hora do jantar, em torno do fogo da amizade, quando os primitivos sentimentos se reunem agregados pela força da pertença, uma tribo acolhia, como numa dança ventral, o viajante do imaginário. Foi então que surgiu, na galáxia demencial que lhe povoa a cabeça, calote esférica onde se revolvem todos os firmamentos, a explosão primeira, mãe de toda a vida e de todo o riso. Sentia-se, enfim, em casa.
9.9.08
Raios o partam!
Consegui acabar de ler a correspondência entre o José Régio e o Vitorino Nemésio. Esperava algo de grandioso, terminei com uma mediocridade gritante. Às cartas entre ambos a edição junta outras, de Alberto Serpa, Adolfo Casais Monteiro e João Gaspar Simões, todas a propósito do que é afinal a ideia do livro, porque esta edição obedece a uma ideia: um conflito literário, feito de «desentendimentos provocados por boatos e picardias de ambas as partes, que terão origem, entre outros factos, na notícia publicada na Presença dando conta do lançamento da Revista de Portugal, tardiamente e omitindo o nome do seu director». Palavras das organizadoras Isabel Cadete Novais e Manuela Vasconcelos.
Estou atónito, aturdido de espanto e minado de incompreensão. Porque se edita um livro destes com a fradilqueirice do pior que o humano tem, mesmo quando o humano são escritores?
Na sua carta de 17 de Agosto de 1938 Nemésio invectiva Casais Monteiro: «ainda bem que V. me deixa a alternativa de malcriado, para eu me livrar da sua acusação de "desonestidade" na nefanda interpretação que dei ao caso da separata (...)». Numa carta desse mesmo tempo Régio dizia a Nemésio: «você, afinal, não soube sacrificar os seus pequenos ressentimentos pessoais a uma coisa que a revista estava sendo».
É este o estilo geral de um epistolário em que no princípio se trocavam pétalas de mimos adjectivados em rosas e verbos de enleantes heras de fraternidade cultural.
Enfim, uma choldra! «O meu pessimismo a respeito da grande maioria dos homens não tem senão crescido», escreveu Régio a Nemésio em 7 de Julho de 1937. O meu também. Edições destas ajudam à bandalheira, ao descrédito, ao fastio, à ideia de que nada muda e há nos grandes cultivados a mesma miséria moral que nos alarves analfabetos que deles se riem.
Maldito livro, pois, mal empregado gasto, não fosse eu não querer ficar com a Obra Completa do Régio afinal incompleta.
Copio da carta com que fecha o livro, escrita pelo Adolfo Casais Monteiro ao José Régio, em 29 de Outubro de 1938. «Citando a sempre oportuna frase do Pessoa: seja como o for, raios o partam!». É isso mesmo, raios os partam a todos, incluindo os que tiveram a peregrina ideia!
8.9.08
Cor de fogo
Dei-me finalmente uns minutos, depois de estar enclausurado a trabalhar desde a madrugada, para passar os olhos por uns momentos de literatura. E cá estou eu com 18 euros de José Régio, como ontem me queixei, como se não pagasse por um livro o que um drogado não paga por um chuto, mas cá estou, dizia, a ler 16,20€, preço FNAC, de cartas do e para o Vitorino Nemésio. Estou extasiado com aquele tempo em que se escrevia como se o tempo humano fosse o relógio da eternidade. Instalado em Montepllier, o autor de Mau Tempo no Canal comunica: «vem aqui quase todos os dias uma sueca de calções de marinheiro (ai o Botto!...] e blusa cor de fogo, que VV nem imaginam». Como tudo isto se compreende e sente desavergonhadamente.
Kafkaesco ou um bródio?
Confesso que estou na fase em que me pergunto se um livro escrito em alemão pode ser verdadeiramente traduzido em inglês ou se quem souber italiano e não dominar a língua de Goethe, não fará melhor em tentar lê-lo através desse riquíssimo modo de expressão. Mais: estou na fase em que, depois de ter deixado de assinar o TLS, porque raramente o conseguia ler todo e muitas vezes não lia sequer nada, acho que era ali que ainda conseguia entender-me ainda com um pouco de densidade cultural fora do estilo jornalístico-socio-político-psicanalítico do New York Review of Books, para falar em duas referências em língua inglesa do «magazine litéraire».
Ora quiz o destino que fosse precisamente numa referência a esta revista, cuja beleza é acrescentada pelos desenhos à pena do David Levine, que eu encontrasse hoje referência a uma nova biografia do Franz Kafka, escrita por Louis Begley. Vou fazer um esforço por ler a recensão e talvez mande vir o livro.
O novo ensaio biográfico põe a questão de se deve ou não aceitar-se a visão que Max Brod, um contemporâneo do autor do Processo, trouxe para o mundo dos interessados em saber quem era, afinal, o criador de Joseph K.
Eu para já aceito, porque não quero ser ingrato à mão amiga que me emprestou o livro do Brod. O Begley que espere a sua vez, até porque me irrita a palavra «kafkaesco» que por ali anda com uma ressonância a simiesco. Um bródio, enfim, já que atiramos palavras onomatopaicas às ventas uns dos outros!
7.9.08
Cara Imprensa
A Imprensa Nacional tem sido editora de livros que outras editoras não publicariam e isso é bom para a cultura. A Imprensa Nacional tem publicado bons livros mesmo quando edita discutíveis livros e isso é excelente para a cultura. Agora o que a Imprensa Nacional não pode é praticar os exorbitantes preços que cobra pelos bons livros que indiscutivelmente edita. É que a cultura não suporta tudo, incluindo os preços da Imprensa Nacional. Eu calculo que o negócio do Diário da República é capaz de não dar grande lucro, pois é um jornal sem anúncios e com notícias indigestas. Mas fazer os que querem outra escrita e que não têm culpa pagar a factura é que não é justo. Vem a isto a propósito de ter comprado dois magros fólios, um com cartas do José Régio ao filosófo Álvaro Ribeiro, outro do mesmo Régio a Vitorino Nemésio. Por ser serviço público, não poderia a Imprensa fazer um descontozinho? Juro que o aplicaria em mais livros, mesmo da Imprensa, mesmo nos discutíveis.
5.9.08
O mau hálito
É extraordinária a agressividade das cidades. A agressividade de certas ruas de Lisboa. São automóveis esganados a caminho do próximo semáforo, conduzidos por gente ávida de vingança e não achando outra se não libertos enfim dos humilhantes empregos e antes de chegarem a casa para descarregarem humilhando os que lá estão. São os moinhos de café que parecem triturar pregos e latas ou parafusos e nos cafés as chávenas atiradas como numa gargalhada de cacos umas contra as outras e os copos. São os velhos surdos e os novos vocais, cada um a seu modo a quererem fazer-se ouvir, mesmo pelos que não querem ouvir. É extraordinária a violência sonora, a selvajaria verbal, a clausura dos locais, abafados, húmidos, pestilentos. São os caixotes de lixo a transbordar, o cheiro a fossa os cigarros retardados, a defecação sistemática dos cães, o passeio público feito retrete canina. São os pombos moribundos e os vagabundos. É a dor lamurienta dos excluídos rapandos nos caixotes e dormindo pelos cantos. É a nossa impossibilidade de sairmos daqui. É o mau hálito disto tudo, a roupa urbana por mudar, a de baixo.
Hoje começou a chover e eu lia em O Mundo à minha procura, do Ruben A., a frase magnífica: «O Verão cansou-se». Como eu o compreendo.
3.9.08
Um pequeno incidente
Ter ido a Vila Franca de Xira por razões de serviço deu oportunidade de visitar o Museu do Neo-Realismo. A arquitectura do edifício é notável, a amabilidade de quem nos recebe cativante, a sobriedade bela do modo de expôr uma arte dolorosa vinca a alma do visitante.
Talvez o meu ser ruminante me tenha feito notar que está ali o Vergílio Ferreira, com o Vagão J em destaque e o livro de viragem, o Mudança, obras do antes de o autor da Aparição entrar na desbunda vociferante contra os «neo-realeiros» que, se o trataram mal, tiveram também muita paciência para o aturar.
Cultura militante, numa luta intestina entre conteúdos e forma, atinge o seu momento mais agónico quando o desconhecido António Vale na Vértice entra na liça marcando a agenda com um artigo intitulado «Cinco Notas sobre Forma e Conteúdo». Bombo da festa Fernando Lopes-Graça. O nome do crítico escondia o seu clandestino autor, Álvaro Cunhal, cujos desenhos no cárcere ali estão.
Lembrei-me disso, como quem se lembra de um pequeno incidente numa história de família.
«Olha o Papiniano Carlos», disseram gaiatamente a meu lado, ao surgir a fotografia. «Nunca mais se falou nele». «Pois não», respondi, em nome dos vivos, dos mortos, dos lembrados e dos esquecidos, enquanto reparava naquela capa para o Carlos Oliveira, cuja escrita é a invulgaridade feita substância, o dito transformado em modo de dizer.
2.9.08
Cavaleiro de Oliveira
Há coisas na Livraria Bertrand que espantam: ter deixado esgotar o Aquilino, tornando raridades disputadas a bom preço livros como O Escritor Confessa-se, a sua notável auto-biografia e tornar praticamente impossível de encontrar a esmagadora maioria da obra do Vergílio Ferreira. Claro que a Bertrand não é serviço público e é livre de fazer funcionar o mercado e, detendo os direitos de edição de um autor, condená-lo à morte pelo esquecimento.
Foi com júbilo que este começo de manhã vi aqui uma notícia: a Bertrand vai voltar a editar o Aquilino, no caso O Galante Século XVIII - Textos do Cavaleiro de Oliveira.
Ora por falar em Cavaleiro de Oliveira, o nome traz-me tais reminiscências que é motivo para um homem deixar no cabide do guarda-fatos a má catadura e tentar sorrir de dentro para fora.
Viva, pois!
30.8.08
Calor tropical
Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no Café Central, que atirava para a rua o grito de uma tabuleta: «o seu café». Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.
28.8.08
A minha bagagem
Há biografias que são simultaneamente a vida dos autores e das obras que os fizeram extraordinários escritores.
Passa-se isso com a notável biografa da Franz Kafka escrita por Pietro Citati.
Kafka é o Celibatário, o grande Solitário, o homem em «vertiginosa claustrofobia», Citati é um espírito puro em liberdade, um escritor numa «fuga grandiosa em relação ao infinito».
Momentos há no livro em que, porém, se indiferenciam, o biógrafo já transformado no biografado, o discurso quase directo, o leitor a ler nos lábios de Citati, como se folheasse cada um dos livros deste advogado asilado na Literatura.
Há neste livro rasgos de génio construtivo, como a apresentação teológica de O Processo, a Lei como a casa de Deus, o Tribunal a emanação de Deus, a Justiça labiríntica «a luz ofuscante», um «Deus verídico e enganoso, próximo e afastado, acessível e inacessível, aberto e fechado, luminoso e tenebroso».
Josef K. espera à porta da lei, perde-se nos corredores da Justiça, cumpre «a felicidade do castigo» da condenação da sua culpa: é a culpa que é a «afinidade entre a acusação, vítimas e juízes» e o Tribunal está sempre atraído pela culpa e é o estigma da culpa que atrai o culpado ao Tribunal.
Mas há sobretudo nesta obra única a constante de uma densa humanidade, como a de Gregor Samsa, que um dia acordou em Metamorfose transformado em insecto para viver, enfim, a oportunidade do amor com a única pessoa que o amava no que indiferencia o humano do bestial, o escritor como animal, o mundo como covil, o corpo como miséria, lastro de uma alma ansiosa de plenitude.
Minado por fundas depressões, querendo «altíssimas paredes» que o defendessem dos humanos, Kafka é um dos mais inteligentes escritores do século XX. Morreu em 24 de Junho de 1924.
Viveu como empregado de uma companhia de seguros, deixou uma obra que, tal como a sua Muralha da China «mantém tensas as cordas da alma». Escrevia até altas horas da noite, em estado de semi-inconsciência, descendo cada vez mais fundo às crateras da sua alma, arrebatado, vivendo uma tensão trágica constante, como se numa Colónia Penal. Incapaz de uma relação conseguida no casamento, chegou à noite do noivado, em Berlim, doente ou imaginando estar. «A minha bagagem compõe-se de insónia, peso no estômago, enxaqueca e dores no pé esquerdo», escreveu à irmã da sua noiva, no preâmbulo da «comédia do matrimónio sem matrimónio».Toda a sua vida é a sublimação dessa incapacidade de não ser um homem só, no Castelo do seu refúgio, vivendo como sentimento o terror nocturno da «madrugada dos funcionários».
27.8.08
A alma desperta
Há momentos em que nos saturamos mesmo dos chamados «grandes vultos» da Literatura. Aconteceu esta noite com o David Mourão-Ferreira. Lia, meio estremunhado, o conto O Viúvo, quando uma súbita vontade de chegar ao fim me acometeu e o texto é curto, a narrativa breve, mas o sono imenso. A monotonia da história dava então mãos à vulgaridade do modo de a contar. A somar ao desespero descobri nestes contos, que juntos formam a antologia Os Amantes, a obsessão pela palavra «luvas».
Achei-o logo no primeiro, Nem Tudo É História, quando o automóvel capotou, na frase «mas era afinal a minha mão, coberta de sangue, que saía do interior dessa luva rasgada»; revi-o neste irritante O Viúvo quando «Adriano começou, pausadamente a descalçar as luvas», ao chegar ao hotel na praia e reencontreio-o quando, chegado a casa de Rita, aberta a porta por «uma criadita, novita e feia, assarapantada como uma borboleta», Adriano «devagar, meteu as luvas no bolso do sobretudo»; voltaram as luvas quando, num diálogo de ciúme assassino, Rita ironiza que a prenda que Paula, a amante de Adriano, agora viúvo de Elsa, lhe haveria comprado era «um par de luvas»; perseguem-me quando, já no limiar da porta «Adriano resmoneia, de cabeça baixa, enquanto começa a calçar as luvas» e sai de cena «muito mais com o aspecto de um órfão».
Enfim, saturara-me de «luvas» e do livro e do escritor quando, já a escrever este post para dizer isso e bem pior, à procura então de mais luvas para justificar a minha embirração tropecei no magnífico Ao lado de Clara, e nele «Ippolita debruçar-se-á sobre o pescoço de Gorella, depois de cuidadosamente lhe amarrar os pulsos atrás das costas; e tratará então de ir colocando, no pescoço de Gorella, com lentidão exasperante, um apertado colar de lascivas mordeduras; e, a seguir, sempre com os lábios entreabertos, vorazmente subirá até à altura do queixo de Gorella; e, por fim, no instante em que a sua língua deixar de obscenamente se revolver (...)».
Parei, hirto e inesperadamente desperto! Esqueço as luvas, perdoo a monotonia, a vulgaridade, foi-se o sono, «enquanto Giorgio, deliciadíssimo com a cena, se lhes terá reunido e as abraçará pela cintura».
Há alturas em que se descobrem, inesperados, magníficos e excelentes «grandes vultos» da Literatura Portuguesa. Era de noite e custava-me dormir. A leitura é uma excelente forma de manter a alma desperta, começando por descalçar as luvas. Obrigado David.
O genial duelo
Encontrei-o na Livraria Simões, em Faro, casa de magníficas surpresas: um livro de Manuel Anselmo, editado pela Sá da Costa, em 1937. Chama-se Antologia Moderna. Firmado em Matozinhos, o meu exemplar tem uma dedicatória quase ilegível. Anselmo tinha então 25 anos e a obra significou para o seu autor recomeçar a actividade de «ensaísta de compreensão literária».
Anselmo tem sido votado a um profundo ostracismo, talvez por ser politicamente de direita, teórico doutrinador do regime deposto em 25 de Abril. A sua lembrança, ainda hoje suscita reparos.
O livro abre com um artigo sobre o «panorama intelectual e literário do escritor Oliveira Salazar». Deixemo-los. Detive os olhos, sim, no seu magnífico estudo sobre a poesia de José Régio sobre quem escreveu: «Nada evitará, jamais, ao Poeta, esse genial duelo entre o seu sonho de grandeza e a consciência da sua pequenez».
Anselmo tem sido votado a um profundo ostracismo, talvez por ser politicamente de direita, teórico doutrinador do regime deposto em 25 de Abril. A sua lembrança, ainda hoje suscita reparos.
O livro abre com um artigo sobre o «panorama intelectual e literário do escritor Oliveira Salazar». Deixemo-los. Detive os olhos, sim, no seu magnífico estudo sobre a poesia de José Régio sobre quem escreveu: «Nada evitará, jamais, ao Poeta, esse genial duelo entre o seu sonho de grandeza e a consciência da sua pequenez».
Coincidência, tenho vindo a ler, aos poucos, outro livro, encontrado por acaso na mesma livraria a Evocação de José Régio de Joaquim Pacheco Neves, diário dos últimos dias do autor de Benilde, a Virgem-Mãe. A narrativa começa no dia 9 de Outubro de 1969. Nessa noite Régio seria acometido de um enfarte. Faleceria no dia 22 de Dezembro desse mesmo ano. Todo o livro é escrito para contrariar a ideia de que ele seria um suicida passivo, «conivente», a quem a morte conveio no momento em que já não podia mais viver.
25.8.08
A vida aos repelões
Depois de ter gozado mais do que a lei manda, Luiz Pacheco dedicou o Diário Remendado «ao Senhor Doutor João Pedro George, colaborador impecável, meu biógrafo improvável», que escreveu o que chamou de «posfácio» de tal obra. O mesmo George edita-lhe agora, com uma introdução, algumas das pachecais entrevistas, num livro tirado pela Tinta da China, belíssimo como todos os livros dessa editora. Vale a pena ler a introdução. E vale a pena notar o aparente fair play de quem foi tratado, precisamente numa entrevista ao JL por «uma espécie de índio chupista». E como se já não bastasse, arrumou-lhe com: «O gajo sabe mais de mim do que eu. Mas isso do posfácio também não interessa: a malta lê meia dúzia de páginas do Diário e larga, ninguém chega ao posfácio».
Interessante, sim, a introdução dizia eu nesta manhã meia confusa de ideias, a escrever depois das onze como se fosse pelas onze de ontem. Nela João Pedro fala de Luiz a propósito da «comercialização da excentricidade», refere-o como «escritor maldito» quando fala na «maldição como estratégia de legitimação», trá-lo a nós leitores como alguém que tem «um grau de liberdade a cujo luxo os outros não se podem dar». Estão quites eles também.
O livro chama-se O Crocodilo Que Voa.
P. S. Uma coisa é interessante, sim, esquecia-me. João Pedro George desmascara quantos andaram a provocar o pior de Pacheco, a viperina língua, o escárnio permanente e quantos fizeram à sua conta manchetes e títulos de sensação! Desde o célebre título de primeira página no defunto O Independente:«Santana só fez merda na Câmara de Lisboa, mas eu acho graça a isso», até ao perguntar: «Quantas coisas fizeste de ilegal ou de condenável?» [Baptista-Bastos], «E vontade de matar alguém, já tiveste?» [idem], há de tudo. Um um crocodilo que voa, sim, mas por vezes muito baixinho.
24.8.08
Os amantes
Dizem que os editores não gostam que os autores se viciem em contos. Têm talvez a ideia de que estão a dizer concentradamente o que podiam engrossar num livro, diluindo-o.
Num conto talvez seja tudo mais rápido, mais intenso, mais breve, como um beijo numa noite de chegada por contraposição a uma noite de amor na hora da despedida.
Vem isto a propósito do último parágrafo de um conto de David Mourão-Ferreira, chamado Os Amantes, escrito em 1968: «E finalmente deito-me a teu lado. Não sei bem se a teu lado se dentro de ti».
Vi-o esta manhã, por ser capa do livro que comprei ontem. Lê-lo-ei esta noite. Acabei agora, com a noite a chegar, o primeiro dos contos, onde está: «É preciso inventar? Ou contar a verdade? Só o que invento me comove; só a verdade te emociona. Temos então de deitar à sorte: ainda não sei qual de nós merece agora reaprender a chorar». Chama-se Nem Tudo É História. Uma única e a mesma história.
Num conto talvez seja tudo mais rápido, mais intenso, mais breve, como um beijo numa noite de chegada por contraposição a uma noite de amor na hora da despedida.
Vem isto a propósito do último parágrafo de um conto de David Mourão-Ferreira, chamado Os Amantes, escrito em 1968: «E finalmente deito-me a teu lado. Não sei bem se a teu lado se dentro de ti».
Vi-o esta manhã, por ser capa do livro que comprei ontem. Lê-lo-ei esta noite. Acabei agora, com a noite a chegar, o primeiro dos contos, onde está: «É preciso inventar? Ou contar a verdade? Só o que invento me comove; só a verdade te emociona. Temos então de deitar à sorte: ainda não sei qual de nós merece agora reaprender a chorar». Chama-se Nem Tudo É História. Uma única e a mesma história.
22.8.08
Pese a admiração...
Eugénio de Andrade deveria detestar António Botto como poeta e por isso escreveu: «como poeta desde há muito que o tenho em pouca conta». Eduardo Pitta, que organizou o volume das Canções, lembra isso e lembra mais: que quando escreveu aquilo, ele ainda não era Eugénio de Andrade, mas sim «José Fontinhas». E para que o leitor perceba bem acrescenta, em nota de rodapé, que José Fontinhas é o «nome civil do poeta Eugénio de Andrade».
Ficam quites, pois, Andrade e Pitta e o leitor, basbaque, a ver.
Ah! Esquecia-me: ainda a propósito do brevíssimo apontamento biográfico que faz sobre o autor do poema «Ama sim, mas não obrigues a alma», diz Pitta que Botto, «homossexual assumido» acabaria erradicado do funcionalismo público, onde teria «modesto emprego», em 1942, «num tempo em que os mecenas não punham Fundações aos poetas».
Ora aí está a piadinha assassina! Atirado Fontinhas ao chão, há que pôr-lhe o pé no pescoço. O tiro de misericórdia vem a seguir. Citando-a à obra de Fontinhas enquanto Andrade, ressalva Pitta: «pese a admiração que por ela nutro».
Naturalmente, nem seria preciso dizer, porque o leitor nesta altura já está esclarecido quanto a ser imensa a admiração.
20.8.08
A Torre de São Patrício
Há no Monte Estoril um Museu da Música Portuguesa. Fica numa casa que Raul Lino desenhou. A bem dizer é mais um arquivo sonoro e de documentação do que um museu. Expostos estão alguns instrumentos musicais que faziam parte da colecção de Michel Giacometti. Poucos. E pouco mais. A casa recebeu também o espólio de Fernando Lopes Graça, mas dele pouco está exposto.
Há em Cascais um casa que inicialmente era a Torre de São Patrício e hoje se chama Verdades Faria em homenagem à mulher de Mantero Belard, seu proprietário, pois adquiriu-a em 1942 e benemérito, porque a doou ao município para que ali continuasse a promoção cultural.
Há em Cascais um casa que inicialmente era a Torre de São Patrício e hoje se chama Verdades Faria em homenagem à mulher de Mantero Belard, seu proprietário, pois adquiriu-a em 1942 e benemérito, porque a doou ao município para que ali continuasse a promoção cultural.
Visitei-a.
Ora há na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, junto a minha casa, o projecto pelo qual em 1919 Raul Lino projectou a «reconstrução da casa do Exmo. Senhor Jorge O'Neill», que era a edificação original da casa de Verdades Faria.
Ora há na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, junto a minha casa, o projecto pelo qual em 1919 Raul Lino projectou a «reconstrução da casa do Exmo. Senhor Jorge O'Neill», que era a edificação original da casa de Verdades Faria.
Há pois entre a casa em que vivo e a casa que visitei a distância entre o estar e o ir, entre a necessidade estática de um lugar e a satisfação remexida de uma ideia.
16.8.08
Uma espécie de Pessoa
«O Destino é uma espécie de pessoa, e deixa de nos falar se mostramos que não nos importamos com o que ele nos faz», escreveu Fernando Pessoa a Ofélia Queirós em 28 de Maio de 1920, no Arcada, perto da hora do jantar. E acrescentava: «Por isso tu deves ter força de vontade de só pensar nisto: gosto do Fernando, não há mais nada».
Pessoa conheceu Ofélia Queirós por esta trabalhar como escriturária no escritório da firma Félix, Valadas & Freitas, Lda., na Rua da Assunção, n.º 42, 2º, de que um seu primo, Mário Nogueira de Freitas, era sócio. Sobrinha do poeta Carlos Queirós mudar-se-ia mais tarde para a C. Dupin & Companhia. Por essa altura o autor da Ode Marítima, morava em Benfica, primeiro no Alto da Belavista e depois na Avenida Gomes Pereira.
Vinte e dois dias antes, Pessoa tinha-lhe escrito: «Então o meu Bébé fez-me uma careta quando eu passei? Então o meu Bébé, que disse que me ia escrever ontem, não me escreveu? Então o meu Bébé não gosta do Nininho? (Não é por causa da careta, mas por causa do não escrever)».
Talvez isto não tenha propósito nem outra grandeza que não seja a da sua pungente humanidade. Talvez por ter acordado cedo, deu-me para ler isto e para isto escrever. Sem mais complicações, é um modo como qualquer outro de começar uma manhã.
15.8.08
A Lebre
Álvaro Guerra escreveu em 1970 A Lebre. Conheço-lhe mal a obra posterior, mas temo que perca excelência. Verei à medida que lhe encontre os livros, sofrendo o mau para valorizar o sabor do bom.
Talvez consiga acabá-lo hoje. O livro é breve, mas estou a lê-lo devagar. Em cada folha vem ao de cima uma hesitação quanto ao haver ainda mais que se diga depois de escritas como estas. Talvez inventando. «E o que não sabemos inventamos. E o que não inventamos nunca será», diz-se na página 42.
A Lebre é um cenário, de predações cruzadas, Miguel e Sofia «a conjugal mentira - mentira conjugada a dois», Inês, «uma aguda sensação de prazer na ponta dos dedos», António que «aos vinte anos ainda não se luta contra o tempo, luta-se a favor do tempo». Notável.
Talvez consiga acabá-lo hoje. O livro é breve, mas estou a lê-lo devagar. Em cada folha vem ao de cima uma hesitação quanto ao haver ainda mais que se diga depois de escritas como estas. Talvez inventando. «E o que não sabemos inventamos. E o que não inventamos nunca será», diz-se na página 42.
A Lebre é um cenário, de predações cruzadas, Miguel e Sofia «a conjugal mentira - mentira conjugada a dois», Inês, «uma aguda sensação de prazer na ponta dos dedos», António que «aos vinte anos ainda não se luta contra o tempo, luta-se a favor do tempo». Notável.
14.8.08
A inefável união
Hildegard Bettencourt e Fernando Lopes Graça traduziram «Tristão», um magnífico pequeno conto de Thomas Mann.
É uma história de um amor trágico, vivida num sanatório. Li-o esta noite, impressionado com a força narrativa com que o autor de A Montanha Mágica consegue acompanhar o caudal dos sentimentos amorosos, ao mesmo tempo que a personagem feminina da história arranca do piano o equivalente a todo arco orquestral do segundo acto de Tristão e Isolda, e surge então, o mistério sagrado da consumação o «despertar da paixão» subindo e elevando «em êxtase até à inefável união», uma música e um momento em que «duas forças, dois seres distantes aspiravam, no sofrimento e na felicidade, à união, e abraçavam-se num desejo louco e arrebatado do eterno e do absoluto». Gabriela morre, de tísica e de aniquilamento, consumida pela «vida vulgar, ridícula e, contudo, triunfante» de um casamento infeliz, uma vida profanada pelo «irritante simplismo», pelo «quotidiano vulgar», pelo que é, em suma, a «eterna antítese e o inimigo mortal da Beleza».
Lê-se como se seguisse a pauta da partitura, a poética e a música uma e a mesma forma de dizer.
11.8.08
A Terra Nova
Há daquelas coisas de que uma pessoa se esquece o que são e depois, quando as reencontra, se penaliza pela amnésia. Uma delas aconteceu hoje, ao comer uma coisa gelatinosa e fibrosa e quase nada saborosa, em que o dente tinha dificuldade em entrar e que no final da refeição deixou o sentimento do vazio que é o prenúncio da fome.
Chamam-se caras de bacalhau.
Ora eu, que nem faço má cara à comida, porque desde pequeno aprendi a lição o que tu pesquinhas há muito quem queira, foi só mesmo em nome desse princípio que lá ingurgitei as ditas caras, empurrando-as com feijão verde, uma batata e ovo cozido na esperança de criar lastro, como se faz no porão dos navios que vogam sem carga.
Regressado, aqui estou com um vago sabor a bacalhau no palato e, por associação de ideias, um travo de Terra Nova, sonho de novidade vivido na solidão de um dóri, de pescador à linha.
9.8.08
Saltos altos
Eu vinha por um caminho estreito, gradeado, paralelo à linha férrea, ladeado por um muro velho e outras velharias, no qual cabe uma pessoa de cada vez e quando se cruzam um tem de pedir licença e o outro tem que lha dar. Ela ia adiante, num caminhar tal modo miúdo que, mau grado o peso que transportava, um saco numa mão, a pasta na outra e a alma carregada de angústias, surpreendi-me ao alcançá-la. Sucedeu no momento em que o acanhado corredor se abriu num baldio descuidado, pedregoso, terreiro feio que dava acesso, enfim, à estação.
Iniciou-se-lhe aí o momento complicado. Alçada nos seus sapatinhos de salto alto, qual insecto de andar bamboleante, pé aqui, pé ali, dir-se-ia uma aranha em forma de mulher. Visivelmente míope, daquelas para as quais, a não existir a vaidade, se exigiriam óculos, franziu a testa para melhor acertar no local da brita que se ensarilhava nos sapatos e a fazia escorregar, em risco até de cair.
Parei até que se decidisse.
Foi então que tomou uma decisão heróica, demonstrativa que ainda sobeja força de alma neste país anémico: deu dois passinhos atrás e ei-la que contornou pelo largo, assentando os delicados sapatinhos num bocadinho que a Natureza atapetara de relva, em apreço a tão frágeis criaturinhas. Resoluta seguiu em frente. O mundo aplaudiu silenciosamente.
Momentos depois ali estávamos, cada um em sua plataforma, ela a caminho de Meleças, o tic-tac dos sapatos a marcarem a sua presença, na plataforma número dois. Transformara-se numa leoa, lançando em redor ondas de volúpia, do alto dos seus sapatos, do cimo da sua arrogância.
31.7.08
Um homem à janela
Tinha-a comprado quando saíu em 1979, numa separata de O Jornal, onde escrevi tantos artigos, enviados ao meu querido amigo e colega de curso Cáceres Monteiro: um inédito do Eça de Queiroz, intitulado «Primeiro de Maio».
Depois a vida, as mudanças forçadas de casa deixaram-no para trás, na companhia de outras centenas de seus semelhantes.
Encontrei-o ontem, ao dar o meu passeio higiénico pelo bairro, tal os que passeiam o cão, eu sem cão nem trela.
A livraria estava fechada. Puz então, hoje de tarde, um papelinho em cima da mesa da casa de jantar, para não me esquecer de ir lá, ao Pó dos Livros, recuperá-lo, antes que esgotasse.
Tenho-o aqui. Trouxe com ele uma biografia do Kafka, na qual o primeiro capítulo se chama «um homem à janela». É uma ideia.
28.7.08
As velas
Definitivamente a escrita deve ser a da personagem não a do seu autor. O atrevimento deste falar através daquele paga-se caro em Literatura, a ficção auto-biográfica uma tentação insuportável. Deliciam-se, claro, os leitores, no que pior há no seu voyeurismo, o traduzir a ausência de uma vida capaz, em cada linha do que lêem descobrindo uma dor, em cada ironia um contentamento. Espojam-se, cães escorraçando as pulgas, os escritores do infortúnio, vivendo dos subentendidos, do que permitem seja lido e interpretado, purgando-se nestas defecações da alma em edições muitas, a sugestão um modo de dizer sem o risco de ter dito.
Definitivamente a escrita deve ser uma outra coisa que não a própria vida. Ao terminar ontem o dia deveria ter escrito que, ao deitar-me, li mais umas folhas do livro onde se fala do general que estudava no colégio «as coisas que não deviam dizer-se». Chama-se As velas ardem até ao fim.
23.7.08
O relógio sem ponteiros
Impossível mais, mas avancei uma folhas nesse notável livro do Vergílio Ferreira que se chama «Em nome da terra». É uma narrativa dorida, feita de compaixão humana, escrita como se arrancada do próprio corpo em decomposição, um hino à vida com a morte à vista.
A personagem foi juiz e hoje, uma perna amputada, fala, como se lhe escrevesse, à grande paixão a que coincidiu, no extraordinário improvável, com a que foi a sua mulher.
Mónica: «tem-se piedade do doente que não abusa de um prazo razoável para o não ser, não de um doente sem prazo nenhum. (...) A piedade é um prazer de quem a tem mas só se a coisa se resolve depressa. Mas como ter piedade por um doente que se não despacha e abusa imenso tempo até se decidir a morrer?»
Eu sei que é uma frase risonha, rude com tanta verdade, pensada e escrita como se num lar de idosos ao abandono, cheios do «ranço da idade», pessoas a viver «a última probabilidade de terem um corpo e aproveitam-na», sem saberem o que é a eternidade esse «relógio sem ponteiros».
Vergílio Ferreira foi professor em Faro em 1942. No Largo onde morou será um dia o Tribunal da Relação.
21.7.08
A criada
Eu sei que há sentimentos feitos de embirrações. Com o Borges comecei por embirar com ele, como já confessei aqui, até começar a lê-lo e descobrir-lhe, na sua língua de origem, a genialidade. A razão é simples: eu considerava insuportavelmente petulante e cretinamente peralvilho um colega meu que enchia de Borges a boca. Foi um caso de rancor trespassado.
Agora descobri que tinha transferido, irracional, a embirração para a viúva do Borges. Ao ler a revista Os Meus Livros que, maliciosamente, os argentinos lhe chamavam «la viudissima», rejubilei, os maus fígados purgados. Eu sei que é maldade, mas é a conselho médico. E que querem? Prefiro a criada do Borges, pronto!
É que, vinte anos depois, ver o notável autor às mãos de advogados e de processos, de testamentos controversos e daquela executora testamentária é de morrer, iletrado e sem direitos de autor.
Noites insones
Trouxe-o por empréstimo. As folhas ressequidas de quarente e oito anos de vida, cortado em oitavo, que era a forma de poupar papel naqueles tempos de penúria, editado pela Civilização.
«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias».
Começa assim, o pequeno conto. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas», continua Stefan Zweig. O texto data de 1914, o mundo dilacerado por uma guerrra que sacrificou milhões. Chama-se «O Mundo não pode dormir», título que deu nome à obra. Quando foi editada uma nova chacina dizimava a Europa, o berço do homem que se julga civilizado.
Trouxe-o comigo, emprestado, pela dor que causa este anseio de paz, este desejo enfim de sono, a condição do sonho, o local de refúgio dos desiludidos.
Stefan Zweig suicidar-se-ia, em 23 de Fevereiro de 1942, com Lott Altmann, no Brasil, recluso no fundo de si mesmo.
Metódico, deixou tudo arrumado e organizado ao pormenor, antes de dar, enfim, sentido à vida. Tinha sessenta anos de idade.
20.7.08
O Mundo que partilhamos
Ontem, ao fim da tarde, em Vila Real de Santo António, descubro um contista, daqueles a quem as editoras sugerem que se atrevam a um romance, mas que são resistentes a teimar na grandeza da pequenez.
No caso chama-se Paulo Kellerman.
Pela noite inicei-me na sua escrita. Abre com um texto no feminino: «lentamente, desligas-te de mim; abandonas-me e esqueces-me, regressas a ti». É a crónica de um amor que findou, um casal a «recuperar os pedaços que cada um cedeu (ou emprestou?) para a construção do nosso amor; pedaços do eu, que formaram um nós. Mas o nós norreu e há que realizar o funeral», escreve, num conto que tem precisamente esse nome «O nosso funeral».
«Você também é um contista», disse-me, acrescentando uma amabilidade, eu tímido, de livro na mão, «já agora, atrevo-me a pedir que mo autografe». Assinou-o e assim ficámos em torno de «Os Mundos que Partilhamos».
18.7.08
Faz impressão, eu sei
Uma tipografia erra e no livro a lombada fica por imprimir. A tipografia assume a culpa e aceita fazer novas capas, a lombada desta vez, enfim, impressa.
Tudo se resolve menos isto: os amigos que, tendo acorrido à apresentação do livro, foram generosos, levaram para casa livros únicos, estranhos, que se tornarão raridades face à edição oficial, a expurgada do erro, em que está tudo a que uma pessoa tem direito num livro.
É embaraçoso, pois já que um livro é um amontoado de letras que se pagam, ao menos que os leitores levem, em troca do que se lhes esportulou, o alfabeto todo, em caixa alta e em caixa baixa, na capa, contra-capa, miolo, badana e, claro, na lombada! Letras comidas, só na sopa.
Mas pronto! Não se aceitam devoluções! Há quem faça tiragens numeradas, limitadas, só para os eleitos. É o caso. Esta tem uma originalidade que a distingue das correntes: o chic da lombada vazia. E assim, em vez do nome do autor, escrevam o vosso, à mão que seja. Não é que outro dia alguém me dizia, sabia você que comprar um livro é apenas adquirir o direito de o ler e nada mais? Atenção, pois, nada de rasgar. Os meus advogados processam-vos!
16.7.08
O efeito rerógrado
Num livro sobre Kant li que «manifestar tanto engenho para ficar de boa saúde é um sinal de doença». O filósofo alemão só continuava de boa saúde porque acreditava estar sempre doente. Eis o poder das convicções no seu perverso efeito retrógrado, a lógica do mundo em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio: o ser hipocondríaco como terapia para a doença real através da doença imaginária.
Se um mundo assim tem uma lógica, ela só pode ser a dos «professores do desinteresse» e a dos «discípulos indesejados», numa noite de insónia nascida da vontade de não dormir. As frases, estas, são do Nietzsche, que era, na sua genialidade, um agregado de doenças do corpo e de mazelas da alma.
11.7.08
Um dia na vida de...
Receber em mãos, vindos frescos da tipografia, pacotes com o livro que se escreveu, que saiu do nada e tenta ser alguma coisa.
Carregá-los, pesados, à força de braço, depois de os ter gerado à força do esgotamento.
Entregá-los então, à espera que alguém os queira e por eles se interesse.
Primeiro, a agonia do papel em branco, enfim, o medo pelo que está lá escrito.
Foi assim, um dia instante na minha vida, entre tanta realidade e tanta ilusão.
10.7.08
Um modo de dizer
Acabei esta noite a leitura do Até ao Fim, o romance que o Vergílio Ferreira escreveu em 1987. É uma história, como é normal num romance, que não tinha de terminar assim, mas deixemos isso, porque um autor também tem direito a arranjar modo de se ver livre da servidão da escrita, inventando um fim.
Leio os livros com um lápis na mão, a sublinhar as frases que têem uma ideia, os parágrafos que exprimem um modo singular de dizer. É isso que, esgotada a leitura, me deixa a sensação da natureza marcante desta obra, por ser rara a página em que não ficou uma marca de importância. «Mas quem é que consegue dizer de que trata um romance, mesmo depois de o conhecer?», escreveu Vergílio, como vem na página 214. «Toda a pergunta inclui já uma resposta», li eu uma folhas antes.
8.7.08
O lado de lá da mesma rua
Houve uma altura da vida em que por causa da penúria não lia. Claro que há a penúria económica, a que faz com que não se tenha dinheiro para livros e a penúria de tempo, a que faz com tempo nem haja para ir a uma Biblioteca.
Quando morava em Abravezes ainda havia a carrinha da Gulbenkian, e nessa altura em não sabia que o Herberto Helder tinha trabalhado lá motorizadamente itinerante e talvez nem soubesse que havia um ser chamado Herberto Helder.
Houve depois uma outra altura em que tentei vencer o atraso nas leituras e o tempo perdido sem ler e gastei o dinheiro que apanhava a comprar livros.
Descontadas as bibliotecas que se recomeçam, porque há os divórcios perdulários na base do virar costas a tudo, comecei a ter tempo sim, mas para ganhar dinheiro e com ele comprar livros que não tinha tempo para ler.
Há o tempo de agora. Com mais dinheiro ou menos dinheiro, tem de haver tempo para a dose diária de leitura, como os diabéticos e a sua picadela quotidiana de insulina.
Vista assim a vida, é tudo mais doce. Um homem abre a janela e descobre que a sua rua aumentou em comprimento e sobretudo em grandeza. Do lado de lá do acaso universal, mãe de todas as aventuras, há quem queira ouvir a nossa voz. É então o momento de escrever.
6.7.08
Um canteiro de flores
Acho que conseguirei muito em breve concluir a leitura do «Até ao Fim». o romance que Vergílio Ferreira escreveu em 1987. Li depressa, como se soubesse tudo o que lá está e o folhear fosse apenas uma forma de rememorar.
Esta manhã, porque acordei cedo e antes de voltar a adormecer logo a seguir, ainda li aquela página em que ele se coloca, através de iniciais, no meio da narrativa, na sua casa em Fontanelas, entre pinheiros, e a mulher, de que não cita o nome e se chama Regina e que queria ter um canteiro de flores.
E veio-me então à memória, lembrança triste em dia triste a casa em frente e eu ter querido comprá-la, nem sei com que dinheiro para no quintal construir um anexo e dividi-la assim com os meus filhos. «Até hoje nunca um filho pediu satisfações a um pai por tê-lo feito existir», diz Miguel, filho de Cáudio.
1.7.08
O irreal da infinitude
Como se escreve um romance? E para que se escreve um romance? Para quê e como e porquê uma história em que a parte inventada tenta parecer real para que a realidade se esconda por detrás de cada página?
Não sei responder e talvez por isso fui à estante e o «Até ao Fim» pareceu-me ser a resposta possível às minhas inquietações literárias. Estive com ele ao jantar, Cláudio e a sua vigília naquela «noite tranquila de inocência», a noite irrazoável pois «não há razão nenhuma que se aguente com sono», e o lugar em que «os cães estacam de ladrar», o Martinho «coveiro, familiar dos mortos, deve-lhes ter perdido o respeito», a irmã do Leonel, prostituta, que «ofereceu-lhe uma peliça, ganhou-a honestamente com a distribuição do prazer».
Li, li, absorto e ao resto indiferente, chegou a pescada «cozida a anzol», vem temperada da copa, passei, dorido, pelo Miguel, o filho que recusa, enojado, «a metafísica da descendência», «essa mistificação de um acto simples egoísta», «farto de hipocrisias, de convenções sociais», as questões fisiológicas do «montaste-te numa mulher chamada Flora. E eu nasci».
Como se lê um romace e para que se lê e porque estou eu a lê-lo, «e tudo é belo como se o fosse», e «todo o mundo reduzido a mim e a ti. Com muitas adjacentes sem importância nenhuma»? Não sei.
Estou de novo em casa, na página 47.
O ar condicionado deste restaurante «escangalhou-se», disse, o eterno sorriso redondo no rosto, a esconjurar a adversidade, a dona do lugar. «Avariou-se», corrigiu-lhe a filha, os olhos profundos, o corpo recatadamente boleado, um porte de contenção ante as adjacências como eu, único comensal na noite de hoje. «Durou trinta anos. Houve tempos em que esta casa enchia ao jantar». Hoje resto eu.
Estou em casa. Também aqui «o dia morre nas altas janelas».
Escreve-se um romance para que um dia alguém o leia, «o olhar calmo até ao irreal da infinitude». Vergílio Ferreira escreveu. Em 1987. Hoje, nesta noite morna, trouxe-o comigo, «a disponibilidade da alegria gratuita, da simples alegria de existir, esquecer, esquecer».
28.6.08
Em nome do Pai
Entraram às dezenas com as motos para dentro do cemitério, a fim de prestarem, com o trovejar dos seus escapes, a última homenagem ao seu camarada motard falecido. Na tarde de calor abrasivo, a raiva exprimia-se assim, brutal como a fatalidade. A paz do cemitério acordou por um instante, como se a trombeta do Final dos Tempos tivesse enfim, rugido, chamamdo os mortos ao Juízo Final.
Escorrendo suor, lágrimas a misturarem-se, uniam a sua forma rude de dizerem que lhes doía a alma.
No enterro ao lado, entre meia-dúzia de lacónicos circunstantes, um diácono tentava fazer-se ouvir, na encomendação do corpo, sem conseguir chegar ao «Dai-lhe Senhor Eterno Descanso e que descanse em paz».
«Já não há respeito por nada», murmurava-se a meu lado, enquanto a polícia, de longe, vigiava o insólito, sem saber o que fazer. «Não te esqueceremos nunca», lia-se na tshirt de duas miduitas que, amparando-se, seguiam, de regresso a casa, chorando o seu irmão de raça.
Foi ontem, no cemitério de Benfica. A cerimónia do adeus marca-se, desde os tempos bizantinos, pelo beijo ao falecido. Abriu-se a urna, antes que a terra a devorasse. Adeus, adeus, até qualquer dia, acenava-se aqui.
Lado a lado, a escolta motorizada, executava, com os estampidos dos motores, a salva de três tiros: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
27.6.08
O formigueiro
Trancam a porta e barricam-se em casa. Deixam de telefonar, primeiro, de atender o telefone depois. Na cidade irrequieta, o formigueiro de gente super-ocupada nem dá, na sua agitação indiferente, pela sua falta. Apenas aqueles para quem os dias são inesgotavelmente vazios e o tempo esgotantemente breve notam qualquer vazio. Comenta-se no jardim antes de mudar de assunto, no café da rua à falta de outro assunto. Deixaram de ser vistos.
No interior da sua reclusão, começa então a preparação do covil do animal moribundo. Amontoa-se o inútil, atulham-se os pequenos quartos com tudo o que não serve, pacotes de leite vazios, uma imensidão de sacos plásticos contendo de tudo um pouco e papéis e caixas e restos de tudo o que pode restar, sobejos, inutilidades, farrapos. Uma fina camada de pó vai soterrando tudo, o ar envenena-se de irrespirável.
A raiva de viver torna-se então na preguiça de consentir a sobrevivência. Num voltear incessante, remexendo no que está, há uma fera que vai soltando as suas garras, desprendendo-se do que a prende à vida.
Um dia acaba tudo naquele antro de miséria fétida. Os sobreviventes fingem não ter dado conta. Há um silêncio de remorsos que se resolve num dia de funeral, a cidade sem saber.
No dia seguinte cada um, em sua casa, remoe os seus rancores, trancando a porta, barricando a sua alma. Em seu redor o formigueiro continua, indiferente ao apodrecimento das almas que matamos no nosso coração.
23.6.08
Desejos
Tinha começado a ler e fiquei com a ideia de que os tinha lido todos. Mas, pelos vistos, estava longe de ser assim. Reuni-os à minha volta e havia tantos que nem sequer começara. Ainda bem, porque mesmo os que li são de tal modo novos aos meus olhos que dá para os reler como se lesse pela primeira vez. Falo do Wenceslau de Moraes. Comecei com o Relance da Alma Japonesa. Há um momento em que ele fala da linguagem e da escrita japonesa e depois de explicar que «o substantivo e o adjectivo são invariáveis, quanto ao número e quanto ao género», se pergunta «porque é que os europeus dão sexo às coisas sem vida, dizendo por exemplo que mar é masculino, que chuva é feminino?». E acrescenta: «havemos de convir que a concepção sexual predomina na emotividade do europeu, exactamente ao contrário do que se dá com os japoneses, que até ao homem e à mulher chamarão mais comummente indivíduo, em substituição dos termos que lhes conferem honras de sexo».
Não sei porque parei aqui. Talvez por ter adormecido cansado do trabalho que é masculino e com desejos de preguiça que é feminina! Só pode!
21.6.08
Amigos meus
Ainda o tenho aqui ao meu lado, o livro feito por Alejandre Vaccaro a partir das memórias da criada do Jorge Luís Borges, Epifania Uveda de Robledo. Abri-o ao acaso e na página 181 eu tinha sublinhado - porque leio sempre de lápis na mão para marcar o que poderia ficar deitando-se fora a inutilidade do resto dos livros, como quem recorte da maçã a casca, às vezes para descobrir que está podre - sublinhara, dizia, aquele momento em que, falando da japonesa Kazu Takeda, pintora, se diz: «Takeda não se considerava amiga de Borges, uma vez que ninguém se pode considerar como tal até que outra pessoa o autorize». Ora se toda a gente se desse ao trabalho de perguntar, em termos de amizade: «posso?»...
17.6.08
Historietas ao jantar
Quanto se janta sozinho um livro ajuda, para se não parecer tão sem ninguém. Ao sair de casa para ir aqui em frente jantar olhei para eles todos, os livros na estante, como se a convidá-los para jantarem comigo. Fui com o Jorge Luís Borges, ou melhor com um livro de historietas que foi escrito a partir de testemunhas da criada do Jorge Luís Borges. Já tinha começado a lê-lo e odiei-o então, talvez por ser a visão de quem vê o génio em roupão e chinelos, na pequenez dos seus maus humores, nos cheiros familiares, nos segredos que se escondem por detrás das janelas públicas. Desta vez tentei começar a lê-lo a partir do fim, enquanto negava o queijo e o presunto, porque não posso abusar do sal, e quando vier a sobremesa diga-me se tem fruta, porque não devo exagerar nos doces. «O que é realmente bom na minha vida de escritor é que as pessoas compram os meus livros, mas não os lêem», disse o autor de Aleph. Estive para interromper com um «com a devida consideração, eu leio, enquanto como pampo grelhado!». Ingrato! Da próxima janto com a criada!
14.6.08
Muitos e diversos
Por amabilidade do Francisco da Conceição Espadinha, que tem confiado na minha pessoa mais do que a minha auto-estima, escrevi para a Editorial Presença, uma apresentação para uma nova edição, traduzida do italiano, de O Príncipe, de Maquiavel.
Confirmei ontem, numa Bertrand, que Diogo Pires Aurélio viu publicar agora também um texto com a mesma natureza, para o Círculo de Leitores. Não tive ainda tempo de o ler. Mas, num folhear apressado, entendo que estamos entre duas lógicas diferentes: a dele, que é cientista político e professor, e nos traz os conceitos que subjazem ao pensamento do Secretário e a minha, que traz para o campo da polémica o ser humano que Maquiavel foi, por ser, no melhor e no pior, idêntico a tantos de nós.
Escrevi, pois, sobre a condição humana, a tragédia da existência, o enigma daquele sorriso. Antes de nós, Martim de Albuquerque, professor também, mas de Direito, tinha vindo a público, continuando a luta que a Sociedade de Jesus iniciara e mantém, desde há séculos, contra a «ética maquiavélica». Martim é um estudioso erudito sobre o assunto.
É bom sermos muitos e diversos. Já em tempos Jorge de Sena soubera encontrar em O Príncipe o humano através do escrito, Manuel Mendes vira nele um democrata, onde Francisco Morais tinha visto um fascista.
É esta a eternidade do escrever, a sorte e a virtude deste pequeno livro: está para além de todos nós.
9.6.08
A intimidade do Amor
Irene Fonseca editou um «Diário Inédito» de Vergílio Ferreira. São sempre difíceis estas opções de se trazerem a lume as intimidades privadas de homens que pela escrita se tornaram públicos. O próprio Vergílio Ferreira hesitou muito em dar-nos conta, volume após volume, da conta-corrente que foi minutando e de que se foi rindo, naquela «caligrafia somítica», o registo dos seus dias vividos depois de ter completado aquela idade inverosímil dos cinquenta e três anos.
Estou a ler, outro dia umas vinte folhas, há minutos mais umas tantas. E não sei o que pense ou o que conclua.
Precisava eu de ter sabido, que no dia em que se casou, a 16 de Fevereiro, anotou no seu diário apenas «casei-me»? Precisava a viúva que nós soubéssemos que, três dias depois, ele, como se lhe escrevesse, tenha anotado: «Gina, amo-te; mas não acabo de entender porque te amo assim, deste modo estranho que não tem nada de amor antigo. Zangas-te se te disser que sou principalmente teu amigo? (...)»?
Ganha com isso a Literatura? E Florbela Espanca de quem, em 12 de Outubro, ele diz que «cometeu a temeridade de não amar apenas em poesia»?
Não sei quem perde. Ganhará com isso o Amor, a verdade de se entender em público a sua natureza verdadeiramente íntima e seguramente privada. Talvez seja isso.
5.6.08
Tarde complexa
Esta tarde assisti a um interessante paradoxo.
No Círculo Eça de Queirós, a propósito de Joaquim Paço d'Arcos, Marcelo Rebelo de Sousa explicava que o facto de ter caído no esquecimento se devia a ter desaparecido e a ter-se transformado aquela burguesia que ele retratava, com a visão cosmopolita de um «estrangeirado», mas com o rigor de quem era dela convivente. A seguir Eugénio Lisboa explicou-nos que, repudiando uma superficial crítica que o identificava como o retratista de banqueiros e marquesas, o autor de «Tons Verdes em Fundo Escuro», se defendera, e com razão, mostrando quanto conhecia e como nos mostrara no seus livros a vida amarga dos deserdados, nascido que fora embora em casa apalaçada mas em zona de varinas e outros plebeus.
Nessa tarde, para chegar ali, àquela sala apinhada, estive retido em frente ao Teatro Nacional, o local onde sedeou a Inquisição, a ver passar uma gigantesca manifestação de trabalhadores.
Num só fim de tarde estiveram todos, os trabahadores, os burgueses e os clericais. Ah! E uma série de vadios e outros vagabundos, daqueles para quem a vida é bela quando faz sol, mesmo que não haja que ler, por não saberem, ou que comerem, por não o terem.
31.5.08
O Prontuário
Haverá quem o faça com facilidade, sem emendas, sem segundas leituras, indiferente aos erros factuais, escrevendo como sai, para ser lido como calhou.
Mas há aqueles que vivem cercados pelos censores do estilo, pelos críticos do modo de dizer, diminuídos pelas exigências inderrogáveis da sintaxe, ansiosos pela perceptibilidade do discurso, receosos da deselegância das repetições, ameaçados pelo excesso de adjectivação e pela impropriedade dos substantivos, avisados de que não tornem a dizer «afinal», e «enfim», podendo dispensá-los, e que não abusem do «um» não sendo caso de indeterminação nem daquelas horrendas frases começadas por «só que».
Como se isso não bastasse, qual rigidez senil a entorpecer o irrequietismo da mão criadora, há os que vivem sob o pavor de escreverem a data errada ou o nome mal citado.
Coitados desses escriturários. Cada linha deles é um acto de atrevimento, o livro que está escrito na sua cabeça é como se estivesse a ser ditado, monótono, palavra a palavra, sob a ameaça de palmatória, a gramática em frente, ao lado o dicionário, por ali espalhada a bibliografia de apoio, e por detrás, na escuridão das noites esgotantes, os olhos ferozes dos leitores cruéis, à espera da primeira gralha, à cata da primeira vírgula duvidosa, num «segue, segue», animador, o do chacal sobre a sua presa, e o pobre, coitado, martelando teclas, será que correcção se escreve com dois «cc's»?
29.5.08
Só se vive duas vezes
A indústria editorial adora espólios de mortos, sobretudo consagrados. Ei-los que surgem, os «dispersos» de Alexandre O'Neill, de quem parecia tudo publicado, mas ainda faltava um molho, encontrado entre os restos, textos embrulhados em 1981, de que tinham saído já 43 numa editora e mais 13 em outra, mas agora vem tudo junto sob o título «Já cá não está quem falou».
Lembrei-me ontem disso, pela noite dentro, por causa de um livro, escrito por um tal Sebastian Faulks, chamado «Devil May Care», que é uma aventura do James Bond, que regressa «com uma vingança», anuncia o editor.
A obra foi lançada ontem, com pompa e erotismo com uma «vamp» boleada e a imagem da Marinha britânica a fazer o «decor», perdido o Império e reduzidos, ridículos, os súbditos de Sua Majestade, a soldadinhos de chumbo.
Coitado do Bond que não morreu quando em 1964 morreu o seu criador. É que agora, diz a capa, o dito Faulks «escreve como Ian Fleming».
Nem quero imaginar o que seja esta semelhança necrológico-literária! Já chegavam todos os que continuaram Bond sem Fleming: Amis, Gardner e Benson, mais os «Young Bonds». Agora temos este Faulks. Volta Ernst Blofeld, estás perdoado!
6.5.08
Chitty Chitty, Bang Bang
Internado no hospital, Ian Lancaster Fleming, na sequência de um ataque cardíaco, escreveu um livro para crianças, «Chitty Chitty, Bang Bang», a história do carro que não era apenas um conglomerado de aço, e fios e borracha e plástico, mas um génio auto-suficiente, como o simbolizava a matrícula GEN II.
A história é de uma beleza cativante, o leitor, mesmo adulto, anseia pela folha seguinte: é a narrativa de um comandante de marinha, e Fleming foi-o, o comandante Pott, que inventava coisas tão práticas e insólitas como batatas cúbicas, que são mais fáceis de descascar.
Fleming teve um filho que se suicidaria com pouco mais de vinte anos. Este livro é uma visão do que poderia ter sido uma paternidade feliz.
5.5.08
A ignorada tristeza
A esmagadora maioria das pessoas têm dias assim: chegam à noite e, para além de terem estado a trabalhar nas suas profissões, é como se nada tivesse acontecido, muitos, porque estiveram confinados ao interior de paredes, lendo enfadonhos papéis, com os olhos de cegueira fixos em écrans de computador, outros porque passaram pelas ruas e pelas pesssoas e nem notaram, no seu rodopiar incessante, que a vida existe ali à mão de a afagar.
O viver contemporâneo é, nas sociedades que construímos, uma forma de estar em coma. Nas cidades o Homem nem percebe que há a Natureza e quase nem repara que há seres humanos dentro de cada indivíduo.
Ao chegarem a casa a quantos nem família os espera, tantos dão de caras com umas pessoas que entre o aparelho de TV e o estarem de saída, por ali passam, porque casamentos, uniões de facto e suas consequências os tornaram convivas forçados do mesmo espaço, partilhando a mesma sanita nem sempre as mesma intimidades.
A esmagadora maioria das pessoas estão tristes e nem sabem porquê.
4.5.08
Vidas vividas
Uma das coisas boas na leitura é ir lendo, hoje um livro, amanhã outro; mas o melhor é nunca ter a preocupação de ler até ao fim. Um livro é como uma pessoa, não se esgota, vai-se vivendo com ela, folheando-a, sem índice, ao sabor do momento.
Comecei há tempos, e disse-o aqui, a leitura de uma biografia do Stefan Zweig, escrita pelo Jean-Jacques Lafaye. É uma visão sentida e direi mesmo dorida do autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher».
Há duas noites entretive uma insónia teimosa com a recta final da história, o momento em que, separado já de Frederike, sua mulher, Zweig chama para junto de si Lotte, a sua secretária e amiga íntima. «Chamando Lotte para seu lado, não é a paixão que fala mas uma legítima compaixão por uma mulher abandonada e sobretudo o amor ao seu próprio trabalho que ela consegue comunicar-lhe pela constância da sua dedicação e o seu sentido de boa ordem».
Fiquei aí, na página 194, antes de me começar a doer a cabeça, no momento em que entendia o que é amar-se um homem pelo que há em si de demónio criador, devorados por isso um a um os sentimentos.
Matar-se-iam os dois, envenenando-se, deixando juntos a vida que os unira. Há vidas que, tal como os livros, não podem ser vividas até ao fim.
3.5.08
Pânico
Encontrei-a na estação de comboios. Sabia que estava a escrever o próximo romance. Só mais tarde, em viagem, descobri que não era um romance. São narrativas, entre o breve apontamento e o conto que não chega a ser novela. Editou-o este ano a Asa, que agora se chama Asa II. Dois dos textos tinha-os lido, em suplementos de jornais, um deles a história de Doris, do farol, o mundo em azul, a mulher ganha ao jogo e perdida pela batota da vida e suas cartas marcadas. É Dulce Maria Cardoso, depois de Os Meus Sentimentos. Sim, «(...) o pai tem de acreditar que, apesar de as mãos tremerem no medo de coisa inexplicável, de os pés se terem tolhido num pavor desconhecido, está tudo bem», diz, num dos instantes do que li, o filho, o contador de tempos, rápido, o tempo sem fim, ao qual «já não será possível escapar». Encontrei-a na estação de comboios, não a pessoa dela mas, o mesmo é dizê-lo, a criatura magnífica e insólita que a habita e nos frequenta.
1.5.08
Muito e abundante
Chega uma altura da vida em que já temos tudo, porque queremos pouco: os mesmos sapatos de sempre, porque o pé se afeiçoou a eles, os fatos de uns anos para os outros, porque o corpo já não muda de formato. Depois come-se menos e os divertimentos começam a ser baratos, estar anónimo num canto a ver a vida chega para ocupar um momento, velhos há para quem o jardim púbico é o cinema a três dimensões, fêmeas maduras que galgaram já o muro dos devaneios a engalanarem-se para sentirem a memória adocicada de serem cortejadas.
Há quem não dispense as viagens incessantes por ressorts insólitos, o último grito em matéria indumentária, os spas e as mil extravagâncias «for the very few», os gastos astronómicos em refeições concorridas e demonstráveis, o excesso esgotante em troca do vazio.
Não é propriamente o meu caso que aprendi com o Graham Greene a viver a vida «por subtracção, em vez de a viver por adição». E, sobretudo, vivo isolado e nem tenho muito tempo para viver bem, quase nenhum para viver sequer.
Ora foi a ler a auto-biografia do Graham Greene, numa tradução da Maria Ondina Braga - como o mundo é pequeno ! - que comecei o meu dia, depois de ter dormido profundamente até às três e meia da manhã. O livro em português chama-se «Uma espécie de vida».
Nas folhas finais da sua narrativa, Greene vê o adiantamento de três anos que o seu editor lhe concedera, para que ele pudesse dedicar-se apenas à escrita, a acabar. Minado de dívidas, socorreu-se da escrita de crítica a romances para The Spectator. Isso aconteceu «Graças a Peter Fleming», acrescenta.
Fantástica coincidência. Estive em Londres para descobrir que Peter é irmão de Ian Fleming e já tinha uma obra reputada editada por Johnatan Cape quando o criador de 007 se iniciou com o Casino Royale». Escreveu um livro fantástico chamado «Uma Aventura no Brasil». E trabalhou, tal como o irmão, tal como Greene, nos serviços secretos britânicos durante a Guerra: aquele no Mi6, Ian no NID, Greene na secção V.
Quase no momento de encerrar a leitura para vir trabalhar - pois hoje é dia do trabalhador! - estava o autor de «O Americano Tranquilo» a contar como é que vivia os seus dias entre uma «vereda lamacenta» e a estalagem «Live and Let Live». E eu, que até ao dia 12 ainda tenho que ler «Live and Let Die» do Ian Fleming, por causa de um livro que tenho mesmo que acabar!
Há momentos em que já temos tudo e darem-nos um livro é, como sucede com as crianças, um mar de espumante alegria!
23.4.08
As entranhas do ser
Uma amiga minha enviou-me um link para os mapas de metropolitano de todo o mundo. No mundo subterrâneo dos que têm de encafuar-se em obrigações, um instrumento desses é mais do que indispensável. Tal como os que fazem vidas clandestinas, refugiados na marginalidade, criaturas da noite e homens da bicicleta, as entranhas da terra são como que uma mãe amiga, esconderijo seguro e lugar de paz. «Vem ao interior da terra e rectificando encontrarás a lápide oculta», escreve-se na câmara de reflexões, uma caveira por companhia. Depois há a luz crua da realidade, apagada a bruxuleante vela da ilusão.
14.4.08
O eu
Através do Eugénio Lisboa revi o José Régio. Depois encontrei-o um dia em Sintra e uma outra passeando em Cascais. Arredio do mundo público da Literatura e das suas tricas, maravilho-me com tudo o que vejo. Esta semana no JL vi que ele tinha escrito sobre si próprio. Não deixei de comparar. Com que desvelo ele escreveu sobre o Régio e com que parcimónia fala de si. Em nossa casa o «eu» era muito mal visto li na biografia de um dos de 'Medici, a propósito de um livro de que estou a rever provas. É isto que marca a grandeza, é sobretudo isto que separa os grandes das miudezas pequenas.
13.4.08
Sentimentos e qualidades
Esta noite encontrei enfim numa Bertrand, ali na Rua de Viriato, «O Homem sem Qualidades», que sabia iria ser publicado este mês, a partir da tradução do original alemão feita pelo João Barrento e que já procurara em vão. Ora eu a julgar que sairia no imediato um só volume, eis dois tomos, o primeiro muito espesso, tudo junto um esforço de perder fôlego e o Musil não se pode ler em passo de corrida, porque aperta o coração e esfalfa os sentimentos. Eis-me, por isso, agora em casa, desesperado, a olhar para eles, estes dois paralelipípedos de papel, e um terceiro ainda virá, sem saber quando me será possível ler o que neles se contém.
Amanhã pela manhã, regressa a rotina e vou ter de acordar de madrugada. Talvez devesse ler, antes de dormir, um texto auto-biográfico que o Eugénio Lisboa escreveu para o JL. Traz dele uma fotografia, oficial miliciano no Quartel em Portalegre como que a explicar porque há nele tanto do José Régio.
Mas estou cansado. Deveria ter começado a escrever, nem ler consigo.
9.4.08
A incontável felicidade
A arte de contar de Jorge Luís Borges não é apenas o saber condensar em poucas páginas uma biblioteca de ideias, mas o supremo saber ver tão profundamente cada uma das coisas que, sendo cego, só podiam estar nas entranhas anímicas de si. É impossível que este homem tenha morrido.
Encontrei há uns dias mais um dos seus livrinhos, na língua original. Trouxe-o comigo e como tantas vezes me sucede, comecei a lê-lo do fim.
Servido de uma memória de prodígio, de um cultura de excepção, o que mais maravilha em Borges é a capacidade de imaginar o irreal possível, tornando quase o absurdo desejável. Com ele o que não há, devia ser.
No caso, falava dos Yahoos uma inventada tribo de estupendos seres, que moravam em Mlch, nome que só parece invulgar a quem julgue que fazem falta vogais numa língua e a língua deles, povo estranho em que só alguns tinham nome - e para que haverá tudo e todos de ter nome? -era formada por monosílabos em que cada um traduz uma ideia geral , como nrz, por exemplo, que significava dispersão de manchas e tanto podia querer dizer céu estrelado como leopardo ou até um bando de aves ou tantas outras coisas, tudo dependendo do contexto e da expressão facial de quem dissesse, pelo que era impossível escrever-se, já que o idioma yahoo pressupunha que as pessoas falassem umas com as outras, não que se lessem, as ideias e os sentimentos expressos através de todo o corpo e seus gestos.
Mas vinha isto a propósito de tal excepcional povo ter um sistema numérico contado pelos dedos em que apenas quatro dígitos individualizavam o mundo da quantidade e assim um, dois, três, quatro, muitos, o polegar correspodendo ao infinito.
Ficou no presente real esse insólito sistema fabuloso de um passado inventado: perguntados sobre se vai tudo bem, erguemos o polegar para dizer que sim, o tudo bem, esse dedo a dizer da incontável felicidade do ser.
8.4.08
O Emaús da escrita
Escreveu-me uma carta à mão, como já não se escrevem, com letra tão irregular como incertos os sentimentos que o animaram ao escrevê-la. E contou-me na carta uma história real. O garoto viaja com a mãe no eléctrico, carro aberto, instável, aos sacões. Por causa disso, a senhora, num brusco movimento do transporte, perdeu um sapato. Aflitos ambos, impossível recuperá-lo, o sapato a ficar cada vez mais distante quando, num gesto repentino e intencional, a mãe joga, ante o olhar atónito do filho, o outro sapato à linha, tentando, a golpe de braço, que fique perto do que perdera.
Pergunta o jovem, perplexo, porquê. «Porque a mim o sapato sobejante já não serve sem o perdido, que já não podemos encontrar, aqui vai este para que, juntos, sirvam a quem possa deles aproveitar-se».
Eis a vida numa moral simples. Li a carta até ao fim. Guardei-a junto às outras coisas que nesta vida junto, e que tanta gente não saberia sequer aproveitar.
1.4.08
O troco
A probabilidade de um taxista apanhar em Lisboa duas vezes o mesmo passageiro no mesmo local pelas onze da noite é pequena, mas existe. A eventualidade de o passageiro dizer o nome da rua para onde vai e o taxista lembrar-se da rua com a qual ela faz cruzamento já é menor; mas aconteceu hoje tudo isso com o taxista que adorava a Rádio Luna do Montijo, pela música clássica que passava, a quem hoje resta a Antena Dois.
Desta vez estava taciturno: pouco serviço, por causa do futebol, «o senhor não vê pois eu também não, mas o pessoal fica todo em casa, além disso esta maldita rádio agora deu em ser só conversa». Pois era, «uma chatice», comentei para lhe fazer companhia. Depois disse-me que tinha ouvido no concerto para jovens o Mendelsohn, que não conhecia. «É o da marcha nupcial», disse-lhe, para não ficar calado. «Há outra do Wagner», ainda quis dizer, mas tinha-se instalado entretanto um silêncio de chumbo. A probabilidade de um taxista e seu passageiro irem sorumbáticamente calados essa é muito maior. Cheguei a casa. «Pague-se de sete», disse-lhe eu e «até qualquer dia» ouvi como se a dizer-me «e guarde o troco».
31.3.08
A qualidade do ser
Por hábito compro o JL, algumas vezes consigo lê-lo quase todo, a maior parte das vezes, arrumo-o para o ler com o da vez seguinte e acabo por passar adiante, lido nenhum.
Desta vez vi na capa a palavra mágica «Musil» e sobressaltei-me. Ainda não abri o jornal, mas já vi, espreitando as folhas entreabertas, que era o João Barreto a anunciar mais um passo de gigante na saga de traduzir este notável militar austríaco que marchou para a Literatura Universal; desta feita virá o primeiro de três volumes, dedicado a «O Homem sem Qualidades».
Enfim, uma tradução com qualidades, as do prestígio do tradutor. De há muito que a velha edição dos «Livros do Brasil», publicando a tradução de Mário Braga precisava de sucessor.
Uma das coisas que eu aprendi com o Robert Musil é que «um acontecimento e uma verdade possíveis não são iguais a um aconntecimento e uma verdade reais menos o valor "realidade"». Nesta equação em que equilibriam a ontologia do ser, a lógica da verdade e a epistemologia do conhecer está contida, quase que timidamente, a totalidade da vida. No mais, o livro é um prodígio de ironia, como quando nos lembra que «a zoologia ensina que a soma de indivíduos diminuídos pode resultar num indivíduo genial».
28.3.08
O acaso e a memória
Falaram-me ontem, depois do jantar, em tom de maravilha, de «O Físico Prodigioso». Retorqui que era o livro mais auto-biográfico que Jorge de Sena escrevera. A minha interlocutora não o sabia. Esta noite vim confirmar o afirmado e tenho aqui a meu lado o livro e o texto introdutório, escrito em Março de 1977, onde o seu autor o admite. Ia para copiar a citação e reafirmar o ontem dito, quando um estranho sentimento de revisitação surgiu como uma sombra de mim. Lembrei-me então que já tinha escrito isso mesmo. Foi em 22 de Junho de 2007, também depois de um jantar. Encontrei o escrito, aqui. Acho que não me consegui desembaraçar do atónito. Para quem não acredita no acaso, começa a ser demais: um dia lembro-me de ter falado em ter morrido e acordo morto!
26.3.08
O livro das horas
Já não sei há quanto tempo tinha deixado de usar relógio. Primeiro, foi para não me enervar, no incessante olhar para o mostrador, a angústia de ser tão tarde. Nessa altura não havia ainda telemóveis, pelo que não se viam as horas a olhar para o telefone. Depois, foi porque o relógio deixou de ser um instrumento para se saberem as horas que faltava perder com a sua passagem ou as que se tinham ganho deixando-as passar, e transformou-se num acto de exibicionismo, usado quase em cima da mão, fora da camisa, para que todos o vissem e lhe adivinhassem o preço, como quem passeia mulher vistosa para inveja do vizinho, ou automóvel de luxo para raiva dos colegas.
Ontem ofereceram-me um lindo e discreto relógio com marca de relógio, ponteiros de relógio, daqueles que marcam horas e numa janelinha que dia é. Saí com ele hoje à rua, a passeá-lo, com o orgulho de o saber escondido dos outros, num agrado só meu. Houve um momento em que vi, no seu quadrante dividido em sessenta partes, que eram onze e quarenta, vinte para o meio-dia.Uma sensação de conforto com a vida invadiu-me, a lembrança antiga de ser quase a hora de almoço.
24.3.08
A insurreição
Há um livro do Carlos de Oliveira que se chama «O Aprendiz de Feiticeiro». Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1921 e morreu em Lisboa em 1981.Do livro saíu uma primeira edição em 1971. Em 1979 o autor, minucioso, corigiu definitivamente o texto. E do texto consta uma admirável narrativa do pensamento de «O Inquilino». É um pensar interrogativo e dubitativo, uma ladainha de hesitações: «Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete?». Etc. Etc. Lembrei-me disto, porque o livro estava à mão, entre aqueles que não encontro. E lembrei-me disto, sobretudo, porque o texto acaba assim: «Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?».
23.3.08
A anunciação da Aurora
Pelas quatro da madrugada a passarada arranca, em cantoria, a anunciar a chegada do dia. Os homens ainda o não vêm, porque perderam a capacidade de sentir. Mas para aqueles pequenos seres emplumados, que a Mãe Natureza tornou inteligentes através do seu minúsculo coração, é a anuncição da aurora.
Já sentiram, aprisionado na vossa mão, espavorido de medo, um passarinho, mesmo de insignificante tamanho, o príncipe canário ou o plebeu pardal? O coração descompassado, parece que rebenta, ribombando dentro do peito.
Eis o que o humano perdeu. Hoje Dia de Páscoa, há quem celebre Cristo ter liberto os homens que o pregaram na cruz.
21.3.08
A loirinha
Vinha no comboio. O homem contava as suas façanhas. Elevava a voz como quem busca mais auditório. Não tinha. Era eu, ali no bar, à espera que me arranjassem naquele Intercidades lugar sentado em troca do bilhete no Alfa, que me tinha fintado atrasando-se muito e adiantando-se de surpresa comigo à espera ao frio na gare, e um outro anónimo, magro de carnes e curto de ideias, a boca escancarada, do género dos que nunca perdem na vida um comboio, só não sabem é o destino para onde vão.
E a façanha, proeza de bravo, prova de virilidade, aquilo que o homem proclamava como sendo o máximo de si, era ter bebido cinquenta cervejas numa tarde. «Cinquenta», repetiu como num eco do dito, à falta de pergunta.
Fez-se um denso silêncio. Refugiei-me no baixar os olhos. «E sem ir mijar, que aí é que está a coisa», atirou-nos, ao que o ouvia e a mim que tinha de o ouvir.
Um aperto dorido atingiu-me então o por baixo da coisa. Pouco depois vinha o revisor, salvar-me. Raspei-me, esgueirando-e por ele. «Não vai uma loirinha?», perguntou-me. «Não, obrigado», balbuciei atarantado, «não me sinto capaz...».
Lá ficou. «Isto já nem há homens neste mundo» deve ter arrotado, entre tremoços, a boca limpa às costas da mão.
20.3.08
Mecânica estatistica
Há um momento da Mandraloga, essa estupenda peça teatral escrita no início de quinhentos que ainda hoje é uma paródia ao triunfo dos interesses sobre a moralidade, em que Callimaco, falando a Siro da sua ânsia por Lucrezia, mulher de Niccia, fala dos trabalhadores manuais como as «pessoas mecânicas». Uns séculos depois, martelando horas a fio ao computador, mecânica por mecânica, penso que os que vivem puxando pela cabeça, também o são.
9.3.08
O homem da maratona
Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.
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