12.4.09

O eclipse

«Isto já não vai com Deus!» diz Loukas Notaras, o ortodoxo, com os turcos já às portas de Constantinopla e Constantino a saber que «a justiça é a comida da ilusão». A cidade cairia às mãos do Otomano no dia 29 de Maio de 1453 e com ela o Império Romano do Oriente. Era uma terça-feira. Constantino XI expiará o seu maior pecado, «a ambição de não ter ambição».
Li tudo isto ao ler Relato 1453 a peça de teatro que Ruben A. escreveu sobre um tema a que Jorge de Sena se dedicara dois anos antes, escrevendo em Araraquara O Império do Oriente.
«Estão nuvens sobre o céu de Constantinopla...É Deus que se esconde...para as despedidas não quer estar presente. Ah!...Deus está com medo dos turcos, os tempos estão diferentes. Vamos morrer...vamos morrer», revolta-se o Imperador.
A ideia ficou. Desde então resta o presságio de que Deus pode ter medo do infiel. A cidade resistiria, segundo a profecia, enquanto a lua brilhasse no céu. Cinco dias antes ocorreu um eclipse lunar total: o sol envergonhava-se.

9.4.09

O triálogo

Em 1951, quase a deixar o seu lugar de leitor do King's College, Ruben A. escreveu uma peça de teatro chamada Triálogo. Lia-a agora, enquanto esperava por uma boleia que ainda não chegou. A narrativa é surreal, «absurdismo surreal em sátira culta» lhe chamou o prefaciador da edição da Assírio & Alvim, onde vem publicada, burlesca diria, com Camões, sim o Luiz Vaz, agora feito burocrata e apoquentado com os despachos, «coisas sem interesse, quadras populares, jogos florais, admissões de serventes e contínuos», mais Uma Velha Lady Inglesa que faz de si marido, julgando-se viúva quando, di-lo ele, «juridicamente» - ah! risos - está apenas «hipotecada» e, Pirandello puro, o próprio autor «convertido em personagem».
Ri-me, sim, com gosto e vontade de rir. E a minha boleia sem vir.
É que há, entre tanto riso, aquele momento em que está lá fora a personagem que quer entrar em cena, o inesperado, o director da agência Nini, sequioso por conhecer o Épico e dele obter uma fala, uma conversa, uma entrevista; mas não, não entrará, porque, remata o Ruben A., actor em cena, «o tipo não pode aparecer porque nesta peça só há três personagens falantes e além disso eu não quero que ele apareça. Tira todo o interesse ao nosso triálogo».
E pronto, eis assim, talqualmente, a paródia, mas não só, pois há mais! Há uma possibilidade, lógica, abstracta, mas cenicamente possível, que o teatro é o domínio da liberdade à solta: ele poderia ser o outro, um qualquer, por exemplo o marido de Madame. Porquoi pas?
Mas oh! Uma Lady Inglesa só poderia, caprichosa, dizer com esta diz: «Não quero que seja meu marido. Era desagradável para ele saber que o tinha esquecido. Não convém que seja o meu marido. Proponho que não seja o meu marido».
Ora! E assim ficou: «Então está bem, estamos todos de acordo que o homem que está lá fora não é o seu marido nem mesmo que ele queira», diz Ruben A., magnífico!
É a risota geral, em todo o teatro até na geral, o curral dos que seguem de pé, aninhados pela arte e pelo bilhete baratucho. Aplaudo em pé! A minha boleia chegou.

Agradecimento

Quase acabei a leitura, aos poucos, do volume de cartas que Wenceslau de Moraes escreveu a Alfredo Ernesto Dias Branco.
É uma compilação de nostalgias. Fala do drama individual e de uma tragédia colectiva. Está ali um português e Portugal. Ambos tristes.
Exilado da vida, vivendo agora só, Moraes deixa que a Natureza se encarregue dele. A propósito de uma fotografia em que aparece com «barbas de farricôco» escreve este momento de fina ironia: «eu que sempre embirrei em entregar o cabelo e as barbas ao cuidado de mãos que não pudesse beijar em agradecimento no fim da operação; por isto só frequentei barbeiros em caso de força maior».

6.4.09

Crónica da vida lisboeta

Perguntam-nos assim? Já leu as Crónicas da Vida Lisboeta? E uma pessoa pensa logo no Armando Ferreira e os seus convites à boa disposição. Ou no Gervásio Lobato. Mas depois dizem: não! Do Joaquim Paço d'Arcos. E um incauto vai à estante onde tem tanto livro dele que até já comprou repetidos e diz: pois não tenho! Bom, mando vir. São porventura artigos de jornal sobre recantos alfacinhas.
Chega hoje o livro. É lindo. Edição da Guimarães. Todos os livros da Guimarães agora são bonitos, de uma beleza patrícia.
Olho para a capa! Susto! Afinal são dois romances que já tenho! Ana Paula, publicado em 1938, que ele começara a escrever em Janeiro do ano anterior, e Ansiedade, editado em 1940.
Será que fazem parte de algum conjunto que na origem assim se chamava?
Vou trepar ao escadote para ir verificar na estante. Os livros de Paço d' Arcos, de seu nome real Joaquim Belford Corrêa da Silva, Paço d'Arcos é o designativo nobiliárquico, estão junto ao céu. Um momento.
Voltei. Pois nada. Ana Paula, dedicado a sua mulher, ostenta como subtítulo Perfil duma Lisboeta. Só isso.
Pronto. Mas não desisto. Fui ao estudo de Álvaro Dória sobre a vida do escritor e leio que com a peça teatral O Cúmplice o escritor inaugurou um novo género «em que também se consagraria. O Cúmplice, para onde transitaram algumas das personagens da Ana Paula, agora postas a agir no palco vivo, e daqui, por sua vez, para a "Crónica da Vida Lisboeta" outras que nesta farão carreira, foi à cena no Teatro Avenida na Primavera de 1940».
Vá lá, uma pista. Mas foi finalmente aqui que se encontrou a chave do enigma. «Crónica da Vida Lisboeta» foi o subtítulo de uma série de livros da sua autoria.
Enfim, fico com os livros todos. Olho neste momento com nostalgia para os que tinha. O Ana Paula está encadernado a pano. Juraria que era de uma tipografia colonial, de uma Missão Católica. Na canto superior da lombada está, discreto, o nome do autor, no inferior o nome daquela a quem pertenceu: Alda Corte-Real. Quem será? E o que leu nesta história? E em que recanto do mundo se envolveu nestas páginas? Quanto ao meu Ansiedade, esse tem uma dedicatória de difícil legibilidade mas em que consigo decifrar «para a viagem da ... 20/10/44». Quem seria? Que viagem foi? Ah! Como será bom viajar! Nem que seja literariamente.

3.4.09

O riso

Comecei a ler as cartas de Wenceslau de Moraes a Alfredo Ernesto Dias Branco. Gosto de ler cartas. Dão o sentimento de quem as escreve e o contexto em que são escritas. São mais vivas que um compêndio de História, mais ricas do que um manual de Psicologia. Encontram-se nelas pérolas de observação. Vivendo frugalmente, cônsul de Portugal no Japão, dedicado à escrita, solitário, Moraes distancia-se cada vez da vida política do país. Chegam-lhe ecos da decadência da Monarquia, vê com pouco entusiasmo o alvor da República. Duvida dos homens da política. «A tristeza é no nosso país a doença dos homens honestos, dos bons; só os patifes riem», escreve em 18 de Fevereiro de 1910.

29.3.09

21.3.09

A Ucrânia

Compreende-se agora, quando se progride na leitura, porque se chama O Apocalipse dos Trabalhadores. Valter Hugo Mãe traz à nossa literatura Andriy e Sasha e a Ekaterine, de Korosten, perto de Chernobyl, na Ucrânia. Andriy emigrado para Portugal, o ser mecânico, robotizado, de quem o país emprega os robustos músculos e a rotina de não pensar, que não lhe querem o pensamento nem sentimentos mas, no trabalho braçal, só a mecânica dos gestos, de quem Quitéria se serve do ritual de cada um dos actos que no sexo se aplicam, essa satisfação necessária.
É uma história em que há também Maria da Graça e o senhor Ferreira e o seu pai, tetraplégico, «quadrúpede de tristeza», e a guarda de polícia Quental, a monotonia e o desejo, mais o emprego de carpideira e o trabalhar nas obras, tudo em Bragança, em Vinhais, em Portugal, que na história é o nome de um cão.
É um livro magnífico de gente «com vontade de não se ver existir».
Lia ontem, voltado ao livro, para chegar a «sete milhões de ucranianos morreram à fome nos anos trinta e dois e trinta e três do século vinte», mais «os sete milhões de mortos na segunda guerra mundial», e os mortos mais os afectados pela catástrofe de Chernobyl.
Foi então, com vergonha de ser humano e de ter vivido neste século que, comigo, «na cozinha dos Shevchenko sentavam-se mais de catorze milhões de mortos a olhar para os pratos de sopa». Com fome.
Ei-los enfim chegados à literatura e aos campos de trabalho: os ucranianos e a raiva de sobreviver. Obrigado pela memória e por escreveres tão bem.

19.3.09

A lei do descanso

Imagina-se no Franz Kafka depressão, melancolia, um universo concentracionário, os tectos baixos. Bem, os tectos baixos existem. Quando Josef K. entra na sala de interrogatório, um salão familiar adaptado a tribunal, instalado improvisadamente numa casa de habitação - onde é que eu já vi isto? - todos os da magna assembleia «eram forçados a inclinar-se para se manterem de pé e batiam com as costas e cabeças no tecto», pelo que «alguns tinham trazido almofadas que haviam colocado entre as suas cabeças e o tecto para não se esfolarem».
Ora, estando já a sorrir com esta pictórica descrição, não se espera é que se solte o riso quando se lê que a menina Elsa, que de noite trabalhava como criada numa taberna, «durante o dia recebia as suas visitas metida na cama». O que se compreende, pois há o direito ao descanso: o que puderes fazer deitado não o faças sentado, o que puderes fazer sentado não o faças de pé.

18.3.09

O regulamento

«Ultrapasso a minha missão ao falar-lhe tão amistosamente», disse o polícia a Josef K., acrescentando, ao referir-se ao seu colega: «também ele o trata simpaticamente à revelia do regulamento». É assim em O Processo de Franz Kafka: a amabilidade é uma irregularidade, a denúncia uma calúnia que solta os mastins da lei.

9.3.09

A redenção

Há no filme O Leitor tantos aspectos de magnificência humana que isolar um só é um atentado contra a suprema arte de ter sabido contar assim aquela pungente lição de humanidade. Mais do que uma história sobre a culpa alemã, ele é uma fábula sobre a inocência do Homem, sobre a redenção possível. Esta noite a lua enchia os céus e os corpos da abundância da renovação.

8.3.09

Era uma vez

Uma biblioteca desmorona-se, um homem morre. O arquivo continha manuscritos de Karl Marx. Há quem pense que a cultura é perigosa e que o marxismo mata. Ontem revi uma grande parte do filme Violência e Paixão do Visconti. Tudo começa em torno de uma biblioteca. Também ali o velho palácio ameaça ruir. Mas a história é bela. O professor vence a solidão e descobre a alegria de viver. A vida triunfava no momento em que, com sono e constipação, deixei o resto para depois. Como não me lembro da narrativa tudo pode acontecer quando retornar ao filme. Espero que acabe bem. Há um momento em que a esperança nasce em que ao menos uma vez as histórias acabem bem. Uma última vez.

7.3.09

Um engate

A boa escrita é um engate. Prende-nos como um anzol, vai-nos dilacerando a carne ao arrastar-nos. Retomei hoje a leitura. «Fazem-me mais triste, eu sei, mas estiveram sempre convencidos de que a obra que deixaram me haveria de fazer feliz», pensava Maria da Graça, a personagem de Walter Hugo Mãe, a mulher-a-dias, que entregava o corpo e o tempo ao senhor Ferreira «com o maldito categoricamente afirmando que lhe punha as mãos pela oportunidade», devolvendo-a, «assim conspurcada ao marido». Uma escrita poderosa, ágil, funda, a contar, toda em minúsculas, que «o amor criado assim, a partir de quem se odeia, é o pior, dizia-lhe a quitéria, é como lutar com a sombra». O livro chama-se O Apocalipse dos Trabalhadores. Não lhe conhecia outro livro. Agora, quando este se esgotar, irei a todos.

27.2.09

A arte do ventriloquismo

Na sua biografia sobre Erasmo de Roterdão, Stefan Zweig surpreendeu-lhe, ao contemplá-lo na impressionante gravura de Dürer e no quadro de Holbein, a expressão de um corpo substancialmente inferior à dimensão da obra que o seu cérebro infatigável criou. A sua vida não residia no corpo mas no pensamento
Máquina de pensar, mestre no estilo irónico, escondendo-se atrás de um discurso em que o se e o no entanto eram defesas ante os poderosos, este homem viu o mundo através dos livros, escondido atrás do baluarte dos livros.
Naquele tempo os que viviam entre espíritos irmanavam-se com a criadagem. Saber pedir era uma forma de sobrevivência. «Erasmo lisonjeia nas cartas, para ser mais sincero nas obras», escreve o seu biógrafo austríaco. O Elogio da Loucura é, como artifício de cinismo, um prodígio de inteligência defensiva. Nunca se sabe quem fala, se ele se Dona Estultícia. É a arte do ventriloquismo na sua melhor expressão.

26.2.09

O acto de dar

Num mundo cheio de pressa e de eficácia há pequenos cosmos de excepção. Aqui na rua há uma pequena loja que, entre outras extravagâncias, vende embrulhos para prendas. Ou melhor, embrulha prendas. Papel diferente, vistoso e colorido, laços e florinhas, cartões e cordões, pequenos selos a lacre, tudo o que dá um ar de imponência e de importância a uma pequena lembrança.
Claro que o invólucro não dura um minuto, a ansiedade de quem recebe, por vezes, estraga logo o magnífico envelope, para que, desventrado, dê à luz o apetecido conteúdo.
O acto de dar é, porém, o aguardar pelo que embrulha o que se dá. Meia-hora está bem? Sim, meia-hora para que fique tudo como deve ser e o acto de oferecer seja uma longa paciência.

22.2.09

O oco

Continuei com as aventuras do Kiá, desta feita envolvendo o Príncipe Rodolfo da Sérvia, o Conde de Castronovo, o encontro onde o Largo da Estefânia se cruza com a Pascoal de Melo e que a senha «o ninho da águia» proporcionou, o anão, o mealheiro quebrado, a mulher austríaca de farto seio e o agente secreto Cabral, a criança raptada e subsituída, o manicómio do Dr. Hernâni e, eis-me onde queria, o interior do Arco da Rua Augusta.
Há nas entranhas desse monumento triunfal um relógio e o mistério do seu vazio. A entrada faz-se por uma disfarçada portinhola. Por debaixo da praça o oco que a estacaria sustenta. Hoje ronda por ali a toupeira do metropolitano e um halo de insegurança.

17.2.09

Confusão

Em matéria de Lobo Antunes a confusão é possível porque todos escrevem ou quase. Em matéria de Lobo Antunes a confusão é impossível pois são todos diferentes de feitio e só vagamente semelhantes de cara. Pois num dos últimos posts chamei João ao António. Estava cheio de sono. Alertado já fui emendar. Vim aqui escrever sobre isso não com medo que me achem ignorante, só para me irmanar com os que dão erros, perdão fazem erros.

16.2.09

O milagre da multiplicação dos peixes

Viver debaixo do mar só deve ser bom quando se vê o céu. Claro que para os peixes o céu é o tecto onde a água se lhes acaba. O reflexo que as nuvens ali projecta deve parecer-lhes uma imagem sem realidade, por isso sumamente bela. Se houver um arco-íris aquático, acredito na refracção da luz como se acredita nos milagres, do anil ao violeta.

2.2.09

Personagens

A universalidade da ideia de contar uma história possível chama-se ficção. A particularidade que faz ver na possibilidade dessa história uma realidade chama-se vida. No fundo é assim. Vivemos todos os dias uma vontade de que as coisas sucedam de modo imaginário. Quando, ante o sucedido, a alma nos sorri, chamamos a isso felicidade. Quando se nos esgota a imaginação, e já nada se recria, os outros julgam que morremos. Para tornar isso verdadeiro, fechamos os olhos e entramos em rigidez cadavérica. Nos registos oficiais abatem-nos ao efectivo. No círculo dos sentimentos privados vão ocupando o nosso lugar com outros frutos da invenção. Há os que deixam livros de memórias, forma de escaparem à menoridade através da grandiloquência. Outros ficam soterrados como personagens de histórias indecentes, forma de se rirem todos da moralidade e suas maçadorias. No meio disto há os que contam. Por eles, lágrimas de saudades imediatas, lembranças risonhas, a paz enfim de renascerem, inesperados, nos nossos corações.

31.1.09

Em frenesi

Fui a uma feira do livro no átrio da estação de comboios da Expo. Ladeava-a uma feira de discos e de filmes. Falo de livros, embora tenha comprado uns filmes, para me reconciliar com o cinema em casa e tenha visto, sem comprar, uns discos que da próxima vou lá filar, como uns cantos japoneses acompanhados com o que, meio pitosga, me parecia um alaúde, entoados pelo que me parecia, e pus os óculos, uma geisha de fino requebro.
Uma feira é a oportunidade de encontrar livros inesperados, que o circuito de distribuição já não recebe. Porque hoje hoje o mercado livreiro gira na base da rotação de stocks. É gerido por gente que vem da banca, que sabe cálculo financeiro e de marketing editorial. Olham para a literatura na base de critérios de amortização de custos e de rentabilização de investimentos, frequentemente como forma de garantir o cash-flow quando a tesouraria aperta.
Mas uma feira é também uma caixa de surpresas. Ao lado da História das Orgias, de que o que menos interessa é o autor, vendem-se as 100 Maneiras de Cozinhar Bacalhau da prestimosa Rosa Maria. No meio, tímido lá estava, em amorosa edição da Frenesi, a narrativa dos sofrimentos dos padres, especialmente jesuítas, crúzios e capuchinhos, fidalgos, principalmente os Condes de Óbidos, da Ribeira Grande, de S. Lourenço, os Távoras e os Marqueses de Alorna nas prisões da Junqueira.
«A experiência tem mostrado que quanto maior é a miséria, maior o desamparo», diz-se numa folha que abri ao acaso agora que cheguei no meio de uma chuvada digna de Noé e sua barca. Grande frase, motivo sobejante para ler. Não digo já, porque tenho que trabalhar, preguiçoso embora, nem mais logo porque hoje é sábado.

O barómetro

O Finisterra do Carlos de Oliveira está a ser o meu barómetro quanto à capacidade de ler. O livro é pequeno mas progrido muito lentamente. Espanto-me sempre com aqueles leitores de alta velocidade, TGV's da literatura, os que estão sempre a reler clássicos em volumes de grande tomo e actualizadíssimos com o vient de paraître. Humano, dependente dos estados de alma e da meteorologia, leitor nos intervalos dos deveres e como fuga às obrigações, não consigo essas proezas na praça da maratona. Esta manhã, ainda por cima, doía-me a cabeça, «o sol agora mais lunar que as sete luas». Ainda só vou na página noventa e três. São cento e trinta e nove, na edição da Assírio & Alvim. Hei-de chegar ao fim. Leio-o linha a linha, cada palavra de sua vez, a irradiante luz da magnífica escrita a ofuscar-me o pensamento.

27.1.09

Malanje ao sábado

Lembrei-me agora, mas passou-se no sábado se não estou confuso com datas e tenho estado. Fui à Rua Anchieta, ao lado da Bertrand, a livraria que tem aquele cheiro doce logo na sala de entrada. Há lá, na pequena artéria que vai dar ao Governo Civil, uma venda de alfarrabistas. Normalmente começo pelo fundo da rua, venho até ao princípio, farejando banca a banca, deixando-me tentar, viciado. Por vezes faço duas voltas, como o pintor dá duas demãos, a engomadeira uma nova passagem para reforçar os vincos numas calças teimosas, a jovem que, não acreditando no Responso a Santo António, passa e repassa pelo bosque dos amores em busca da travessa para o cabelo que, distraída de namoro, por ali deixou ficar.
Ora neste sábado encontrei-o. Editado em 1954, era uma reportagem sobre a cidade de Malanje, em Angola. «Olha que fantástico», disse eu, ao bem-humorado livreiro, com aquele inesperado opúsculo nas mãos. E de facto era notável pelas recordações que me trazia: o senhor Pratt do Banco de Angola, o Santos Pinto, a Casa Americana, o jardim do Caminho de Ferro, a Robert Hudson. Tudo aquilo me dizia tanto.
«Nasci aqui», confessei-lhe, incapaz de reter mais tempo aquele segredo, prendendo-lhe com isso, inesperadamente a atenção, confidente e amigo.
Com ele em frente, bigode farto, sorriso aberto, era já impossível não o levar comigo. «Mas são vinte e cinco euros», cortei, timorato por tal banalidade, um pequeno esgar que parecia traduzir incerteza, tão automático que nem dele me apercebi, a envergonhar-me por estar a regatear um tesouro.
Só que de repente o destino jogou a sua cartada na mesa deste jogo de sorte. «Olha, o meu avô!». Ali estava ele, de facto, numa festa de Natal da Cotonang, a companhia belga de algodão, o velho Rebelo da Silva, pai da minha mãe.
Talvez uma aura de ternura, bálsamo de remorsos e perfume da bondade, me tenha envolto a figura, adoçado a pose. De livro ainda na mão, enternecido por haver ali um passado que era meu, ouvi-o, como num murmúrio segredar-me, meu querido livreiro: «faço-lhe vinte euros».

24.1.09

O gérmen invasor

Há quem escreva sobre o que lê. Eu já escrevi sobre o que li. Hoje vou escrever sobre o que não consegui ler.
Tentei regressar ao Finisterra do Carlos Oliveira. O livro tinha ficado interrompido. Uma pequena marca, feita com o talão azulado de uma etiqueta, assinalava onde.
«A face dianólica de um facto esbarra na linha onde começa a outra face: celestial», diz o narrador. A duplicidade do real, a geometria submersa da realidade tornou-se-me hoje insuportável, como uma tendência mórbida para a indiferenciação.

A veia literária

Senta-se um homem devolvido aos seus livros entreabertos, não finalizados, aos livros que comprou e não leu, ao que não escreveu. Droga de substituição, na literatura estão quase todas as sensações já experimentadas, excepto uma: anular-se assim a vida totalmente substituída, escrita, sem vontade de a voltar a ler. Senta-se um homem entre a ideia de tantos livros. Meticulosamente, deixando bilhete de adeus, abre a veia da criação, esvaindo-se, derradeiro, jorrando a vida que se anula, linha a linha, no livro que lhe faltava finalizar. Carregados de expectativa, os leitores esperam ansiosos.

17.1.09

Um livro

À medida que os anos passam e fazem estragos na memória, à medida que os livros vão sendo muitos e por vezes confundimos o que temos com o que gostávamos de ter, fica sempre em dúvida sobre não estaremos a comprá-los pela segunda vez.

Há vezes em que isso não importa. Já comprei um livro de memórias em edição encadernada porque a de formato bolso, que eu já tinha, editava menos fotografias e eu queria aquela fotografia. Já comprei um livro de aventuras pela segunda vez porque a nova edição tinha capa diferente e eu queria a capa. Já comprei uma biografia repetida porque esta tinha uma dedicatória. Já reincidi na compra de um livro por julgar que o perdera.

Hoje não. Na verdade eu hesitava se me teria alguma vez cruzado portas adentro com o controverso Ana Paula do Joaquim Paço d'Arcos. Ao chegar a casa vi que, aleluia, não tinha. É que comprei-o esta manhã. Mas, repito, espero que se acredite, isso era o somenos. O somais, como diria o outro que acreditava na congruência morfológica desta língua irregular, é que trouxe o livro porque, sendo a primeira edição, editada em 1938, ostentava, para além das manchas de bolor, aquela encadernação a pano, tão tipicamente colonial como a farda de um chefe de posto, e no interior o carimbo da Livraria Magalhães, no Lobito.

Na lombada, além do nome do livro e da obra, tal como nos livros do meu pai, o nome daquele a quem pertencera: Alda Corte Real. Quem seria? Onde estaria? Porque estaria ali a obra? Tanta tristeza num só livro, tanta vida por se saber.

10.1.09

A porcelana

Li umas folhas mais do Finisterra, só umas folhas porque o Carlos de Oliveira tem de ser lido assim, goticularmente.
É uma escrita despovoada, vivida em torno do vento, da areia, da mais esquisita botânica, uma escrita das ocorrências subtis, desconsideradas pelos atletas dos sentimentos, os maratonistas das sensações.
Detive-me ante a exaustão das gisandras depois do seu nocturno clímax floral, parei ante a voz da mãe que modela as palavras em tonalidades independentes de acentuação e «se a palavra tem só uma sílaba, a voz sobrepõe-na ao começo da palavra seguinte».
Isto sim, é escrever sobre a miniatura e a fragilidade, a quebradiça porcelana que os chineses inventaram e os alquimistas descobriram, etérea, perto da névoa.

9.1.09

Entre cobertores

Enroscado em cobertores, tossindo nos intervalos de espirrar, os olhos a lacrimar, purgando pegajosidades e outras repelências, sem ao menos a dignidade de uma febre, a ver as horas a escorrer na inutilidade da prostração, um homem sente-se, no auge de uma constipação a ler perpetuamente este excerto de Nietzsche, do seu livro A Gaia Ciência, com que hoje o dia findou, a frase a rodopiar-me a cabeça, eu num atchim potente de exclamação sentida: «Temo que os bichos considerem o homem como um semelhante que se privou da razão animal sadia, como um animal no delírio, que ri e que chora, como um animal infeliz».
Haverá lá coisa mais sem razão do que este delírio de gripes, que tornam o rei da criação uma insignificância expectorante, reduzido à vil domesticidade de uns cházinhos e outras tizanas meladas, galinha chocadeira da própria canja, aspirina sem metafísica, salta um conhaque que mal não faz mesmo quando não cura e ao menos sempre se esquece!

A branca madrugada

Nestes dias de frio polar o Homem apercebe-se de qualquer coisa profundamente errada estar a acontecer no mundo em que habita. Não que se não esteja em Janeiro, mas porque amanhã pode surgir, de um modo tão inesperado como este gelo, uma vaga de tórrido calor, chuvas de afogar ou uma seca sem fim.
Tudo parece condenado à única sorte fatal, inexorável e definitiva: a suprema lei do acaso gerar a inevitabilidade do caos.
Pó neste tumulto de elementos erráticos, o Homem apercebe-se, enfim medroso, de que pode ter pecado contra o equilíbrio do mundo, desorganizando as leis do Universo, arrostando a cólera da Natureza.
Ei-la agora a branca madrugada em que nas nossas metrópoles se descobre que há cada vez mais velhos, mais mulheres, cada vez menos famílias, um mundo de solidões, desencontros, de histórias de impossibilidades. Neste deserto humano de arranjos de ocasião, de vigílias noctívagas, faz agora tanto frio nas ruas como nas almas gélidas desses sem abrigo dos amores funestos.
Cumpre-se um ciclo, o homem e o seu habitat enfim indiferenciados, o mineral a assenhorar-se de tudo quanto ainda vive, o sol a empalidecer.

7.1.09

O sangrar por dentro

Foi ele quem me ensinou que é possível escrever-se de modo breve. Um dia visitei-o em casa, ali junto à Basílica da Estrela. Bebericando uísque, descemos ao inferno de uma história sobre a qual estou hoje a traduzir um livro e já atrasado, fantástico acaso, com ele no pensamento. Ao chegar à rua, nessa tarde fria de um tão sentido encontro, senti-me tão bêbado que nem sabia onde deixara o carro. A vida tem destes momentos de magnificência. Felizmente há memória para se viver cada momento do tempo para além do tempo do momento.
Ora encontrei-o hoje, através de um livro onde arquivou trezentas das mil e quinhentas crónicas que cinco vezes por semana nos deixava no Diário de Notícias. Editado pela Contexto e eu, retardatário na cultura, distraído no reparar, que só há pouco tempo soube, por uma menção confessional das que fazem nódoa negra na pele, que é uma forma de se sangrar por dentro, que a Contexto era do Manuel de Brito!
Vinha isto a propósito de uma das colunas em que anunciou, por doença, o fim dos seus escritos. Com o fim à vista, Vítor da Cunha Rego escrevia, naquela forma plural de falar de si: «Faremos o possível por tornar normais esses cinco dias».

5.1.09

As Janeiras

«Como é tradição desde os romanos, cantemos as janeiras para afastar os maus espíritos e desejar um bom ano». Cito da Livraria Pó dos Livros. Fica ao pé de casa. Passo por lá, por vezes a caminho do Pingo Doce. Não sorriem muito, mas são amáveis para com os livros. A vida é feita disto, de comezainas e não só de leiturzainas. Lembraram-me que se cantam as janeiras, para desejar bom ano. Cantei-as com eles.

4.1.09

As povoações temporárias

Tinha-o lido descuidadamente. Na altura notei o óbvio, os murgos biliosos, os caules de gisandra, o revérbero entre as nuvens e as misagras, a duna com tanta areia, as aranhas e a teia de sal, os velhos itinerários, relâmpagos de carbureto.
Depois de Finisterra, comprei Uma Abelha na Chuva, de que Fernando Lopes fez cinema, e a um e um tenho comigo todos os livros que o Carlos de Oliveira escreveu. E mesmo o livro que Carlos de Oliveira renegou, a Alcateia.
E depois, porque há sempre um depois nos nossos amores literários, tendo já tudo, naquelas edições em azul da Assírio e Alvim, comprei o volume da Caminho, encadernado, sóbrio, em excesso e duplicação, só por ter a Casa na Duna que voltaria a encontrar na edição da Portugália, que trouxe para casa por causa da capa do João da Câmara Leme.
Retomei-o hoje, deliberadamente. Maravilho-me.
Todos quantos lêm depressa, não leiam! Abstenham-se os devoradores de palavras, os do fast food literário, pedalantes leitores do sprint da novidade, camisolas amarelas do vien de paraître.
Finisterra é um prodígio cinematográfico para se estudar o que se lê. Cada palavra por si e há que voltar atrás e fazer a ligação, ponto por ponto para que a figura ganhe corpo.
Tudo ali arranca de uma fotografia que reproduz a paisagem que a criança descreve, vendo-a de uma janela, num caderno que o homem lê. Tudo continua na almofada que reproduz, em traço geométrico e sugere o mesmo em gravura abstracta, o que da janela se alcança de na fotografia se condensa. Tudo se esgota na folha perdida nos papéis de família e suas notas sobre o povoamento, povoações temporárias, os camponeses de passagem. E o vento, a presença desse vento milenário e suas areias, dunas sobre dunas a perder de vista, as cores crestadas, os lugares malignos em nossa casa, que não merecemos.
Carlos de Oliveira mais do que escrever, desenha, é o arquitecto da realidade e o geómetra da irrealidade. Finisterra é um jogo de volumetrias, de tonalidades, de planos de corte, de projecções de espaços substantivos em planos não poliédricos.
E, no fim, em excelência, a sussurrar que «na paisagem, na fotografia, na almofada, não havia ninguém. Pois não. E eu povoei-as. Quer dizer, povoei o desenho a pensar nelas». Vem na página 16. Da edição da Assírio. A que vou continuar a ler.

3.1.09

Uma história para calar

O Chiado não sei porquê estava cheio de gente. Hesitei se seria sábado ou ainda sexta-feira, que estes feriados e dias santos e comemorativos e mais as pontes e as tolerâncias são uma espécie de desarranjo intestinal na vida mental de um citadino. Nisso quem vive entre o nascer e o pôr o sol tem menos aflições. Eu regressava de comer massada de peixe e foi isso que me devolveu a certeza que seria sábado.
Estava aberta a antiga Sá da Costa, entregue a saldos, a restos, a uma tristeza de adelo. Na frente, ao lado de um caixotão dedicado ao Pessoa, que mais parecia um esquife de luxo para um desgraçado que morreu ignorado, uma segunda edição da fotobiografia do Agostinho Fernandes, o homem que teve a generosidade de colocar a sua fortuna ao serviço da cultura, através da Portugália e de tantas outras formas de apoiar artistas e escritores. Portugal, o Portugal literário essencial não seria o mesmo sem ele.
Acontece que eu tenho receio de fotobiografias. Menos pela vergonha de encontrar nelas em torno do biografado - quantas vezes morto, outra tantas assim enterrado ainda vivo - a pulhice dos que se chegam pressurosos no seu roçarem-se em grupo nas exéquias obsequiantes, muito mais porque às vezes há vergonhas e descaramentos como o Mário Soares a prefaciar a do Ruben A. dizendo que mal o conhecia e pouco o tinha lido, mas mesmo assim aqui vai prefácio.
Não foi, porém, por medo que deixei lá ficar o livro, que me perdoe o Cruz Santos. Lembrei-me de uma história que dá para rir e que tenho de calar, sobretudo quando a menina da caixa, de cabelo à rapazinho e uns olhos que são uma carícia para quem lhos nota, me disse, a voz inocente e no mais indiferente, que eram quarenta e cinco euros.

2.1.09

O escritor e seus fantasmas

Esta madrugada antes de viajar escrevi, assim como antes de adormecer li. Claro que pela tarde, viajante, estava no reino do bocejo e do aborrecimento. Voltei aqui para escrever que do que li o mais impressionante foi um texto decadentista do Ernesto Sabato sobre o romance.
Sabato que era doutorado em física, achava, na sua visão deseperada do humano que «o nosso romance mais do que uma sucessão de aventuras é o testemunho trágico de um artista diante do qual ruiram os valores seguros de uma comunidade sagrada», essa crise que ele sente ter surgido na Idade Média e que abriria as portas à profanização e com ela ao entertenimento, à diversão, às «imagens sem sangue».
Pode não se achar graça e negar razão. Mas quando se lê uma frase como «os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances», perdoa-se tudo.

1.1.09

Um povo triste

Miguel de Unamuno visitou a Guarda em Dezembro de 1908, há cem anos, onde chegou lendo Camilo e «ler Camilo é viajar por Portugal, mas o Portugal das almas». Desapontou-o a cidade «fria, ventosa, húmida feia, denegrida e forte». Percorreu-lhe as ruas, sentiu-lhe a Sé, o Liceu, o café. Ironizou, em riso aberto, com a «força cómica inconsciente» de um comunicado aos jornais sobre o presidente da Câmara do Sabugal.
Mas o que mais vincou a sensibilidade de quem escreveu O sentimento trágico da vida, foi o que o levou a dizer-nos, num retrato do nosso ser, povo de suicidas, que «Portugal tem sede de lágrimas». Uma sede de um povo «antes apaixonado que sentimental», vivendo numa perpétua paixão que lhe consome a vida.

Engraçada

«Extraio ternura de uma pedra», escreveu Raúl Brandão no prefácio às suas Memórias. E lembrei-me, por isso, do seu livro sobre as ilhas desconhecidas, essa sua viagem à Atlântida açoreana, ao Corvo, às Flores, a cólera súbita do mar, esse rodilhar marítimo de uma terra que ameaça desabar. E fui buscá-lo e estive agora com ele, com o António da Ana, o Joaquim Valadão, a grave compostura, o Manuel Tomás, a senhora Emília, a fome, o vento na solidão tremenda, o Pico, os fogaréus e a lembrança dos alfabares, e a filhinha pequena que «morreu mas engraçada». «Engraçada é sinónimo de feliz», explica Raúl Brandão, a noite já a entrar no primeiro dia do meu novo ano, extraindo ternura das pedras.

A caminho de casa

Chegou hoje a utopia de esquecer, e com ela, má, feroz, em bátegas vingativas, a chuva dissolvente. Sob ela, a terra vivia, cinzenta, fechada, adversa, no tempo cósmico do seu calendário, o primeiro dia, a caminho de casa.

31.12.08

Ânsia de paz

Geração após geração, com espumante ou com lágrimas, houve sempre quem ansiasse que ao dia de hoje sucedesse um melhor amanhã. A cerimónia do Ano Novo, a romã fecunda, fértil, fruto.
O que estava escrito ou o que surgiu por acaso ditou entretanto as suas leis. Geração após geração, indiferente ao suceder, o dia de hoje tem sido o dia das esperanças renovadas. Tannhäuser, o homem cujos pecados Deus enfim perdoa, restituindo-lhe a paz.

26.12.08

O reino dos animais

Não esteja triste. Há sempre motivo para alegria. Em caso de emergência fuja para o reino dos animais. A porta é aqui.

Sony & Cher

Estão completamente esquecidos. Vistos hoje são rídículos, antiquados, fora de moda. Mas a canção, o que ela simboliza, traduz, sugere e induz é um hino à alegria infinita do que jamais deveria morrer.

Tempo gasto

Se há algo nos meus dias que eu sinta valer a pena relatar é precisamente o tempo gasto a ler. Não que a vida própria não dê motivo de conversa e, comparando-me com o vejo por aí, daria mais motivo de escrita do que quantas vivências mortiças e banais de que tantos fazem tema de crónica, espremendo-se em busca de um si próprios mais do que seco e irrelevante.
A noite passada voltei ao Ruben A., ao interrompido volume terceiro do livro de memórias, O Mundo à Minha Procura. Quando parei para dormir ia ele no «absorver diário da natureza física através do lado sentimental da vida». Em Campo Alegre, no Porto.
Por andar envolto em Ruben A. fui espreitar, num intervalo para estirar os olhos, mais umas folhas da sua fotobiografia. Nas páginas finais desta publica-se uma entrevista ao ido jornal Diário Popular. Entrevista banal, feita de perguntas óbvias, coscuvilheiras, num momento a perguntarem-lhe como escrevia, quando escrevia e como escrevia. Ficou-me apenas a ideia da resposta merecida, a de que conseguia escrever em qualquer lugar, «mesmo com o barulho da estupidez a mover-se». Barulho ensurdecedor, diga-se.

24.12.08

A simbologia da escrita

Wenceslau de Moraes compilou em 1925 os artigos que escreveu na revista Serões. Chamou-lhe Serões no Japão. Um deles é sobre a correspondência epistolar no país do sol nascente. Acabei de o ler. A ideia do texto é mostrar como é semelhante a escrita amorosa nipónica e a portuguesa. Quase sem querer Moraes mostra-nos a diferença. No Japão não se escrevia, pintava-se, da direita para a esquerda e de cima para baixo em rolos de papel. Por ser assim é como se o pensamento se alongasse na procura do outro e a carta partisse da mão carinhosa que segura o pincel «até ao coração daquele que, longe, sofre saudades».

21.12.08

A Sibila

Impossível não se gostar da Agustina, mesmo apesar do que nela se detesta. Há uma genialidade que a habita e que toca de invulgaridade tudo quanto vê. A Guimarães tem vindo a reeditar agora os seus livros, em edições definitivas de uma beleza deslumbrante, em azul.
Estive esta manhã de sol com os escritos auto-biográficos. E li-a, desventrando-me, porque «assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarem todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas ou a que faltou experiência».
É impossível não viver entre a solicitude e a gratidão ante uma mulher assim pois «com as mulheres tentadoras os homens são solícitos; com as virtuosas são agradecidos, que é um sentimento que dura uma vida».
Leva tempo, mas a leitura chegará ao fim, distraído eu também de «maiores realidades». Muito obrigado, Sibila.

20.12.08

A arca

O livro chamou-se em romeno Tinerete fara de tinerete, em francês Le temps d'un centenaire, em inglês Youth without youth, em português, enfim, em cuja língua o li hoje, dia ferroviário, Uma segunda juventude.
Francis Ford Coppola fez com ele um filme.
É um romance mas podia ser um ensaio sobre a electrocussão e seu efeito no rejuvenescimento. Nele Mircea Eliade leva ao limite a ideia de que a guerra nuclear, erradicará da terra o homo sapiens em benefício de um ser geneticamente modificado para melhor em virtude da intensa descarga eléctrica. Antecipa-se assim o homem pós-histórico, um mundo que se desliga do seu passado, em que se arma e povoa a arca diluviana, esperança num mundo novo.
«A longevidade torna-se suportável e mesmo interessante apenas se previamente se descobriu a técnica dos prazeres simples», diz-se em certo momento. Uma frase destas vale um livro.

19.12.08

Os braços do mar

Há na zona oriental de Lisboa lugares soturnos, onde volteiam fantasmas do que foram casas, sombras do que foram famílias, fogos-fátuos do que foram vidas. Em alguns entra-se por arcos ogivais e são vilas engalanadas de pobreza, de outros sai-se por canadas estreitas com urina nas narinas e um lamento esboroado nos sentimentos. Ficam aí armazéns de comércios que já fecharam, tipografias de repartições que não imprimem. Aqui e além um asilo de filhos da desgraça, pensões dos que ainda não sairam dela. Às vezes são os focos de um teatrinho a iluminar esperanças, os néons de uma cervejaria a anunciar tremoços.
Ao lado, numa marginal de prata que a lua mal ilumina, o rio corre indiferente, sempre jovem na sua renovação aquática, desperdiçando-se nos braços do mar.

16.12.08

A cor dos dias

Hoje, a meu lado, pela hora do almoço falavam do António Alçada Baptista. Ele dizia-lhe que com certeza «o Alçada, porque fundou a revista O Tempo e o Modo e mais a Livraria Moraes e mais essas coisas todas tinha com certeza um projecto pessoal e uma ideia». Ela respondia-lhe, sem perguntar sequer o que eram «essas coisas todas», que não sei quem estava zangado por se dizer que ele escrevia nas revistas femininas, «mas olha que os artigos na Máxima eram muito bons». Ele, sem se ficar e sem reparar nas feminilidades, aditava um «acho que ele queria fundar era um partido da democracia cristã». Era, perguntei-me eu. Ela, como se viesse a propósito, perguntava-lhe se ele tinha lido o artigo que o Vasco Pulido Valente tinha escrito sobre o António. O Alçada Baptista, claro. Eu por acaso não tinha lido. Ele, num vai-vém, comentou então, como se a conversa tivesse lógica, que «ele coitado era católico e progressista, uma contradição». Coitado, claro. Ela rematou que «ele tinha um filho escritor mas que, coitado, era conhecido como o filho do Alçada». Coitado, pois.
Nessa altura eu já me tinha vindo embora. Coitado eu também. Com uma dor de cabeça que deu em vomitar pela hora de jantar. Ai amigo, haja pena dos vivos que os mortos ao menos esses já foram indo para a terra do além de ter de os aturar aos chamados sobreviventes.

15.12.08

Scheiße!

Haja um momento de alegria nestes dias insípidos, depressivos, irritantes, carregados de notícias funestas e de motivos de consternação.
Vem isto a propósito de há uns anos - tenho de fazer contas para reconstituir há quantos - eu ter estado no austero Max Planck Institut für ausländlisches und internationales Strafrecht em Freiburg, na Alemanha, ou seja concretamente aqui, na minha ânsia de estudar Direito Criminal Comparado, o que tomava então conta do meu inquieto ser.
Foram dias belíssimos, entre a biblioteca e um albergue numa mansarda de uma casa particular em que o meu quartinho era tão pequeno que, ao levantar-me, a cabeça batia na trave do telhado. Comi bolo de amoras e bebi schnaps.
O lugar tem toda a quietude da Floresta Negra a marcar-lhe a densidade, mais séculos de sobriedade científica alemã. No que falta para o rigor universitário o velho espírito teutónico povoa-lhe as ruas. Excepção só mesmo a colónia estudantil, cosmopolita e irrequieta na justa medida. É a respeitabilidade feita local.
Ora não é que hoje, com a tarde a findar, eu vejo esta notícia magnífica, a de que desejosos de ornarem a capa da sua revista com algo de simultaneamente belo e simbólico, os editores do Max Planck Forschung, a revista oficial do Instituto, optaram por caracteres chineses que, de facto, com o fundo em vermelho, formam um conjunto sóbrio e apelativo, como se pode ver tendo a maçada de clicar aqui.
Só que - azar dos Távoras! - quis o cruel destino rir-se de tanta circunspecção e de tanto recato e ... os caracteres chineses são, afinal, o anúncio de um bordel em Macau! Segundo os que sabem ler tão esquisitos hieróglifos dizem «Donas de Casa Quentes» e dão conta do que tais acaloradas senhoras são capazes nas suas perfomances em strip-tease!
Não acreditam? Vem tudo aqui, no jornal The Independent!
Mais! Tentando achar uma explicação para remediar o embaraço, uma fonte do agora gozado organismo científico alemão veio dizer que «a língua chinesa tem vários níveis de profundidade». Pior a asneira que o soneto! É caso para dizer: Scheiße! Quer dizer m...
P. S. Voltei aqui para explicar que sei haver na Alemanha mais do que um Max Planck Institut. Falei do que conheço. Isto é preciso muito cuidado! Há sempre quem, não achando graça à piada, tente desmoralizar os que se julgam engraçados. Apre!

14.12.08

Uma esmola

Vi há pouco e aqui tão perto o original de uma carta de Camilo Pessanha a Ana de Castro Osório. Uma carta de amor em Vossa Excelência, porque eram pesados os reposteiros que guardavam os sentimentos da indiscrição de as palavras os trairem.
Quis o acaso, o sucedido que finge sê-lo para que nele acreditemos, que esta manhã eu tivesse lido precisamente uma dessas cartas, agora ali, visível a sua caligrafia miúda, cuidada, para que, mais do que uma missiva, ela própria, no seu papel, na tinta que a inscreveu, em cada uma das palavras que dela constam, fossem uma lembrança de afeição.
Camilo Pessanha pede «para lisonjear profundamente toda a minha pobre sensibilidade dorida, um jornal, de vez em quando, em cujo endereço eu reconhecesse a letra de V. Ex.ª.». Uma esmola, diz, e como é duro ouvir esta palavra no vocabulário sentido de um amor pedinte.

O Príncipe de Salina

«Seduzi-la foi um acto de conquista, desposá-la um acto de rendição», a frase que me resume três horas de narrativa cinematográfica de O Leopardo de Visconti. Assim também para aquela Itália possuída pelos Bourbons, cortejada pelos Sabóias, tomada pelos de Garibaldi. Uma verdade de esperanças fuziladas pela desilusão, numa Sicília em que o orgulho suplanta a miséria, em que o desejo de esquecimento é a mãe de toda a indiferença, mesmo a mais violenta. É a história de uma senhoria, entre dois mundos a nenhum dos quais já pertence.

13.12.08

Um livro sublinhado

Acabei, enfim, de ler a Manhã Submersa do Vergílio Ferreira. Rara é a folha onde não deixei uma marca, um sublinhado, o traço da importância do que ali se conta, de quanto me vincou o modo como se conta.
Ficam-me os livros sublinhados como história da vida, memória a lápis, à margem, em rodapé ao escrito. Biblioteca de desencantos, de esperanças, de similitude.
Livro biográfico, da sua passagem infrutífera pelo seminário da Guarda, a Manhã Submersa conta a ruptura de vocação, a crise de fé do jovem seminarista António Lopes, miúdo de catorze anos, cuja orfandade e pobreza o haviam tornado candidato ao sacerdócio.
Nas páginas finais, confrontada com o irremediável de um filho que negava o conforto da vida eclesiástica, sustento e amparo de todos e orgulho dos seus, a mãe, moída de o ver triste, perde-se a dizer «e então eu digo se não era melhor que tivesses morrido em pequeno». Logo arrependida, a tentar justificar-se, «dorida de necessidade», a tratá-lo com «um carinho medroso», corrige: «eu não devia dizer isto, Deus me perdoe. Mas sinto cá dentro que é como se não fosse mal dizê-lo».

12.12.08

A irrealização

Aproveitando um intervalo, fugido ao vento e às obrigações, li umas páginas de cartas de Camilo Pessanha. Numa delas escrita ao seu primo José Benedito de Almeida Pessanha deixa esta observação densa acerca da aspiração falsa que é a luta pela realização do prazer: «o prazer, não tendo realidade sua, era o aniquilamento do desejo, de forma que esta luta representaria ansiar a morte». Continuando acrescenta: «cada desejo constitui uma dívida da natureza para quem o sente: a morte é a cedência das dívidas antigas, para evitar que ela volte a contrair novas dívidas».
Um homem que assim pensa traz dentro de si a totalidade da sua biografia. Vivendo conforme o desejo, negando-se o prazer de o satisfazer, a sua vida é essa irrealização. Há quem chame a isso infelicidade. No fundo, é apenas o destino.

9.12.08

Dar-se ao riso

Já não sei onde o encontrei. Mas foi num alfarrabista, seguramente, porque é o que agora se chama, nesta época de eufemismos adocicados, um livro «manuseado».
Ao meu ser ansioso oferece a gratificação de serem curtos os seus textos e chegar-se ao fim de cada antes que a atenção se disperse, esvoaçando das linhas para os sonhos que se desalinham.
Ao meu ser literário são magníficas expressões do melhor modo de dizer. Incapacitantes de se escrever sem vergonha.
Ao meu ser moral aflige-me dar conta que terá sido furtado em alguma biblioteca ou alguma biblioteca o despachou, ao liquidar-se, pontapeando-o para o adelo. Está nele um carimbo a gravar a posse, a certificar o extravio.
São pequenas prosas do José Gomes Ferreira. Pequenas prosas digo eu que as achei grandes prosas e as li inflamandamente satisfeito de as ter encontrado.
Chama-se o livrito, Os Segredos de Lisboa.
A última história, ribombante de riso, é a do Delicadezas, untuosa personagem, melíflua e escorregadio de contumélias e outros arrebiques de veneradores salamaleques.
Li-a, com vontade de que a cidade a ouvisse ler e saísse aos urros de alegria e aos guinchos de gargalhada a ribombar foguetes, livrando-se desta tristeza que em breve se anuncia natalícia. «Ah! Se Vossa Excelência me honrasse com a consideração de adivinhar o que eu padeço!», saiu-se o homem, pobre cobrador de cerviz cambada, num momento de agonia e «os olhos entristeciam-se de um segredo fechado».
Eis a maldade dos sentimentos: a comédia da dor própria é tornar-se na alegria alheia. Nasce assim a figura do palhaço. Uns tempos depois surge o circo e com ele o dar-se ao riso tornar-se numa forma de viver.

8.12.08

Feriado

Antigamente era este o dia da mãe. Depois mudaram o dia. Não mudou a ideia de mãe.

7.12.08

António Alçada, com A's grandes

Vinha a chegar a casa quando ouvi no rádio: tinha falecido esta mesma tarde de chuva o António Alçada Baptista.
Ainda hoje tinha estado a falar nele, a propósito de O Tempo e o Modo, projecto para cuja viabilidade se endividou e que fundou em 29 de Janeiro de 1963, no dia em que perfazia 36 anos. Afeiçoada ao personalismo cristão, inspirada na Esprit, ela deu aos «vencidos do catolicismo» - a expressão é de um amigo seu, o João Bénard da Costa - a oportunidade de clamarem por uma visão eclesial e um outro ecumenismo, fazerem da fé uma militância social.
Estou em casa e em volta de mim espalham-se agora livros seus, editados pelo seu amigo Francisco da Conceição Espadinha, editor na Presença como ele o foi com a sua Moraes, chancela a quem a jovem poesia portuguesa tanto deve e que em 1972 foi forçado a vender, por ter nela gasto o que tinha e o que não tinha.
Li-os a esses livros porque me preparei para um entrevista que nunca chegou a conceder-me, então já a sua saúde precária, na qual lhe perguntava como era ao ter rompido com a advocacia, ele que largou o foro, refugiando-se na Literatura, quando sentiu que era, afinal «um porrete» que o seu cliente usava para maltratar, num processo de partilhas, um cunhado com quem se inimizara.
Morreu um homem bom. A sua passagem por este mundo foi a manifestação da sua generosidade e a expressão do amor ao próximo.
Num dos seus últimos textos escreveu: «vivi com Deus desde pequenino mas, à maneira que fui crescendo, ele foi mudando». A existir esse Deus, que nunca lhe «apeteceu deixar», ter-se-ão encontrado agora, terminada que está a sua peregrinação interior.

O desespero

Ontem na Cinemateca por um súbito desejo, fruto de uma prolongada carência: a sala estava cheia.
Há no Othello de Orson Welles o rasgar da sensibilidade do espectador pela sucessão de planos de luz e de escuridão, a penumbra como lugar de expectativa.
Sim, do ponto de vista estritamente cinematográfico é isso, mais o ritmo alucinante da narrativa, os planos arrojados de enviesamento da imagem, os ângulos de observação, os grandes cortes picados, em que a expressão humana invade a sala e com ela jorra um sentimento que fere, agride, dói. E depois há a voz, a corpulência, tudo o que no criador de Citizen Kane impressiona, marca, se apresenta.
Mas há mais, porque há uma obra literária contada em trinta e cinco milímetros.
A tragédia daquele Othello é, sim, a da existência, a de ser-se o que se é, como ele nos diz no diálogo final, visto do alto da cripta onde fez alcova, o tálamo onde comete o seu horrendo crime amoroso, por um funesto amor.
Está ali o mercador de Veneza, marioneta humana às mãos de Iago, essa personagem que na sua amoralidade exprime o pior do renascentismo, a falta de escrúpulos como uma das belas artes. Nisso está fielmente presente William Shakespeare, como em Macbeth.
Mas está mais, muitíssimo mais, a ditar a grandeza do filme, a lição de uma noite: história de horror humano, ao findar o quinto acto, Othello mata Desdemona não pelo ódio do ciúme, mas pelo tão magoado e insuportável desprezo por si. Ganindo de dor, a sua alma dilacera-se à ideia de que ela se lhe entregou, a ele como porventura a tantos outros, tentada pela luxúria da sua inferioridade, mouro, negro, aquele para quem a dúvida mortal é, afinal, o prenúncio do desejo de morrer.
Othello mata para se matar e mata-se de novo. Estranha, invulgar, única forma de viver um amor, fruto do desespero de se julgar assim amado.

6.12.08

Quatro quartetos

«O que podia ter sido e o que foi/Tendem para um só fim, que é sempre presente». É um instante dos Quatro Quartetos de T. S. Eliot.
«What might have been and what has been/Point to one end, which is always present».
Trago-os, esses cortantes versos, lidos por Burnt Norton. Viajam comigo pela viagem do tempo.

1.12.08

A toupeira

Na sua biografia de Stefan Zweig, Jean-Jacques Lafaye escreve que ele «imaginou demasiadas dores humanas para poder escapar delas». Sente-se isso ao ler a formidável novela O Coração Destroçado, a história do comerciante Salomonsohn, em cujo coração, qual toupeira, a angústia cava um túnel, «a ferida que não dói», tal «o sangue a correr para dentro do seu próprio sangue», o «derrame invisível» que o destruirá.
Escravo do dever, agrilhoado às obrigações, torna fácil a vida de uma família, escravizando-se a ganhar o dinheiro que a todos, no entanto, fará perder. É uma história de sordidez moral travestida em amor familiar.
Deus pune e o seu Deus puniu-o com o horror indigno de ter de «engolir a própria cólera, como um cão engole o seu vómito». Ridícula, ainda por cima a razão.
No dizer dos seus, ele era o homem a quem «fazia mal ver os outros contentes». «Fechara-se no seu ser o que quer que fosse; tornara-se inacessível, ausente, como se a sua alma tivesse sido emparedada». Li-o ontem, uma história de resignação.

29.11.08

A companhia esperançada

Voltei ao Ruben A., às suas memórias, ao livro O Mundo à minha procura. Terminara o volume segundo, arrastava-me pelo terceiro, interrompera-o. Recomecei hoje, umas folhas apenas. Chove copiosamente. Chego à busca de casa, às reticências de tia Teodora, talvez por uma coisa melhor, casa mais ao pé, ela que «esquecia-se que o Amor não pode esperar, é já, já, já» e assim, ei-lo, o homem que escreveria Silêncio para Quatro e que um fulminante ataque liquidaria, desgostoso de todos nós, na companhia esperançada de um segundo amor depois de tantos amores, de chaves na mão, na página trinta e cinco, livre trânsito ao desejo de casar, as chaves, enfim, do «albergue de um já já». Na Praça D. Pedro IV, na cidade do Porto.

26.11.08

Ataraxia

Mihail Eminescu, foi um expoente magnífico da poesia romena. Hoje quem o conhece? Victor Buescu, o professor a quem se deve a nobilitação da cultura da Roménia no nosso país, na década de quarenta, traduziu-o. Carlos Queiroz, o autor da extraordinária Epístola aos Vindouros, que a morte levaria aos 42 anos, com desvelo converteu a tradução em poema branco, a ler em língua portuguesa.
Foi-me assim possível, ontem, refugiar-me em busca de abrigo na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, e ter ali por companhia os sentimentos e o pensar desse «latino do oriente», um dos tantos então «naufragados no tenebroso mar eslavo».
Eminescu morreu com 33 anos. No texto de apresentação da obra, Mircea Eliade, resume-nos a biografia. Nele «o instinto da liberdade era mais forte do que o instinto da conservação».
Li, entregue à paz dos livros, como o eremita confiado à guarda do «Deus que transmudou o Caos no Cosmos» uma das Odes. Copiei-a, letra a letra, incerta a caligrafia, para a trazer para aqui, como quem transporta água de uma fonte, com receio que ela lhe escorra toda entre os dedos antes de a dar a beber a quem tiver sede: «Quando nada imortal, nem a morte existia/Nem um núcleo de luz onde se gera a vida/Nem amanhã, nem hoje, nem ontem, nem sempre/Porque Uno era tudo e tudo era Um só ser/Quando a terra e o céu, o ar, o mundo inteiro/se integravamm em tudo o que nunca existiu/Só Tu eras então».
Reintegrado com a vida, regressei a casa. Algum tempo depois, a Natureza chorava copiosamente uma tarde de chuva. O «tambor grandiloquente da rima», martelava-me a cabeça.

23.11.08

A luz nocturna

«Obrigado pela companhia que a sua escrita faz a tanta solidão», disse ela. Tímido, por ter diante de si a totalidade do mundo num só sorriso, embaraçado por nem saber como se agradece um tal favor de verdade, carregando agora o fardo pesado dessa inesperada importância, agradeceu. Tenta hoje lembrar-se como. Mas ficou só a luz nocturna da frase, esse farol a encandear os olhos. Hoje quando escreve já nem lhe dói o ser visto, sim o que os outros possam ver. Aconteceu isto há uns dias, como poderia ter acontecido em cada momento até agora que penso nisso.

20.11.08

A ilusão dos livros

Era uma grande livraria, um grande espaço, um grande edifício, um grande projecto. Esta noite soube que se tinha entregue à falência.
É esta a caricatura final dos sonhos de grandiosidade. Depois é a ilusão dos livros, a transportarem-se para o mar da realidade, como as nuvens no céu a desfazerem-se em chuva.
Esta manhã a floresta do que poderia ter sido deu nos papéis rasgados de uma história que se poderia ter evitado. A Byblos fechou. Esta noite passada.

17.11.08

A fábrica de ídolos

Precisamente por andar a ler a Manhã Submersa do Vergílio Ferreira lembrei-me que tenho a sua fotobiografia, que o Helder Godinho e o Serafim Ferreira organizaram para a Bertrand. Fui ver, pois de memória tinha presente que ali se referia o filme que o Lauro António realizara sobre o livro auto-biográfico onde relata a passagem pelo seminário e no qual o autor da Aparição faz o papel do Reitor. Assim é e na página respectiva vem este excerto da Conta Corrente, o diário bilioso que foi ruminando entre Lisboa e Fontanelas: «Espantoso. Tenho sido cumprimentadíssimo pela minha aparição na TV, na série da Manhã Submersa. Faço o papel de Reitor, tenho sido felicitadíssimo. No restaurante onde hoje fomos, vários olhares fixos em mim, a identificarem-me. Há quarenta anos a escrever livros. Pouca gente deu conta. Mas só com duas intervenções na TV, sou quase tão célebre como um futebolista». Eis a fábrica de ídolos na sua melhor expressão, surpreendida em plena laboração.

16.11.08

O silêncio

Vi-o reeditado e fui buscar a minha edição antiga, ainda da Bertrand. Tinha sido escrito em 1953. A edição do meu exemplar já era a 23ª. Vim a lê-lo em viagem, a ver em cada palavra uma nódoa negra de uma vida dorida, a cicatriz de uma ferida salgada pela memória. E, no entanto, é a história de um rapaz.
Vergílio Ferreira esteve no Seminário da Guarda. Manhã Submersa é disso o testemunho. Só que esta constatação banal é uma ínfima gota de água no revoltoso rio dessa torrencial lembrança de que a escrita é explêndida Literatura. Livro sobre o sacerdócio, é mais um livro sobre a expiação dessa culpa de a Fé não ter resistido à Igreja, a vocação não ter suportado a Esperança. Podia ser, no entanto, um livro sobre o enamoramento e suas mágoas. Nada mudaria.
Há no coração deste rapaz a falta de uma Mãe, no seu corpo a falta de uma Mulher. Viveu substituindo esses amores desejados pelo cumprimento dos seus deveres. De joelhos até já não ser mais possível. A sua prece era o silêncio.

13.11.08

A manhã entardece

Há livros de que só se repara no título depois. O último livro que Nuno Júdice publicou chama-se O breve sentimento do eterno. «O que é triste é para ser. Acontece». É um dos seus versos.

17.10.08

A ilusória inutilidade

Sentei-me num banco do passeio público a ler. Fazia-o sem óculos. O passeio público era o corredor do Centro Comercial Colombo. O conseguir ler apenas com os meus olhos foi porque o corpo de letra era maior. Trouxe-o agora para casa, um livro que Georges Simenon não escreveu. Dois anos antes decidira não mais escrever. Estas memórias ditou-as. Chama-se Lettre à ma mère. É uma récita nostálgica, amorosa, de um amor feito de ausências. Inicia-o por descobrir que ao refugiar-se no mundo interior que lhe era familiar Henriette Brüll parecia estar já no outro mundo. É assim que vêem os olhos dos outros. Vou seguir com os meus, desta vez com óculos. Tinha-os aqui, esquecidos, por uns momentos ilusoriamente inúteis.

14.10.08

David Levine

O que faz a cultura de uma pessoa? Tanta coisa miúda, dispersa, atípica, fora do contexto da vida, longe do expectável, às vezes reles outras grandiloquente demais para a própria capacidade. Lembrei-me disto a propósito de um enorme artigo que não tive a coragem de ler até ao fim. O tema era o jornal literário New York Review of Books. Pensei e foi um caudal de recordações neste fim de tarde em que tenho de sair para rua, sem vontade. Primeiro, ainda com o artigo aberto diante dos olhos, o ter comprado tantos exemplares desse notável jornal, regularmente, dobrando-os muito cuidadosamente na pasta para não vincar indevidamente o papel, hábito nascido do meu psiquismo obsessivo e de ter aprendido a estimar o que é caro, como no tempo em que se forravam as capas dos livros para os não sujar ao lê-los. Depois, a imagem evanescente da menina de olhos negros da banca de revistas ali nos Restauradores, de uma beleza triste esmaecida num sorriso bonito, a mesma que oferecia cromos gratuitos, excedentes das promoções, ao meu ansioso Afonso, tão miúdo então, e que já nem perguntava nada ao estender-mo, mais o seu irmão europeu, o Times Literary Suplement. No meio desta nuvem nostálgica de lembranças, a memória de que o NY nascera de uma greve do New York Times que deixara sem trabalho os críticos literários e outros colaboradores culturais que se reuniram em torno da ideia de uma publicação autónoma que não apenas um suplemento dentro de um jornal. E, enfim, enfim não!, porque a verdade é que foi por aí que comecei e me entristeci e por causa disso aqui estou, foi saber que está praticamente cego o David Levine, cujo explêndido traço caricatural valia mais do que tanto artigo de opinião, tanta recensão, tanta doutrina, tanto do que eu, regular comprador de um jornal que nunca assinei [«eu sei que é mais barato, deixa lá!»], não lia, guardava para depois, um depois que nunca houve até um dia, vivia por empréstimo numa casa na Rua das Trinas, deitei tudo fora, ou deixei lá ficar quando saí, é o mesmo. Não sei porquê, talvez porque fossem os seus desenhos que em cada jornal que comprava me rasgavam os olhos iluminando-me a alma sobre quem era cada um daqueles que a sua pena resumia a linhas enoveladas de uma caricatura, o David Levine tornou-se uma figura inesquecível; criaturas da cultura, da política, do mundo, personagens de um mundo de ironia, suspensos num instante fugaz de existência. Ao contrário do escultor, que é a mão da posteridade, o caricaturista é a dedada de um instante: ali a arrogância da intemporalidade, aqui a humildade de um instantâneo. Está cego, acho que os leitores começaram a notar os sinais, pela incerteza do traço, o tremer-lhe a mão na assinatura. Se há Deus, é para que não veja mais. A Natureza também é assim, poupa-nos ao limite da dor.
P. S. Se alguém quiser entristecer-se, o artigo está aqui, o jornal lê-se aqui. Abre-se e o cartoonista é outro. A vida segue, inexorável. Desculpem-me sugerir isso, o compartilharem um mau momento.

10.10.08

O homem que via passar os comboios

Viajar de comboio e no comboio ler O Homem Que Via Passar Os Comboios é uma experiência única, o treca-treca da composição a marcar o compasso do ritmo da leitura. A história é uma narrativa de aprisionamento e de libertação. A personagem é um funcionário de uma empresa holandesa de produtos marítimos, com cartão de capitão mas que a monotonia amarra à mediocridade de um emprego em terra. O acaso da falência fraudulenta da empresa, a que ligara tanto a sua vida que nela resumia a própria vida, lança-o no caminho da aventura. Mata por um acaso, ao não aguentar ouvir rir a dançarina de cabaret com quem sonhara dormir. Quando cheguei ao meu destino, uma mulher que alugava afagos fazendo trottoir em Paris ajudava-o a encontrar refúgio que a sua imprudência torna perigosamente precário. Ele tinha-a querido apenas por companhia, num hotel barato das imediações. É um livro de George Simenon, sem Maigret. Apenas o comissário Lucas, no Quai des Orfèvres, da Polícia Judiciária, mesmo assim, discretamente: o crime é apenas um pretexto, um décor para a alma humana mostrar a sua verdade. Foi ter visto a jovem mulher do velho patrão em camisa de noite, o corpo à transparência, que desencadeou tudo. O tempo futuro nasceu de um tempo possível, que nunca viria a existir.

3.10.08

O tempo simultâneo

Disseram-me que estava esgotado. Talvez por isso quando o encontrei comprei-o. Tinha-o lido há muitos anos. É dos livros cujo breve enredo é difícil esquecer. No caso vi que a tradução era do João Barrento. Lê-se depressa. A escrita é fácil. O efeito explosivo vem depois quando já nem se pensa no que se leu. Ontem, entre três linhas de Metro, a amarela, a azul, a vermelha, consegui alcançar as folhas finais. Depois foi ter-me enganado no que li e vir para casa ruminar contra o que supunha ser um erro. Com o meu pobre alemão fui ao original que está on line. Lá estava o mesmo. Na página quarenta e quatro do meu exemplar a jovem personagem era uma criança de dezassete anos. Duvido que se seja propriamente uma criança com essa idade, mas adiante. Aos dezanove quantas ainda são infantis. Uma delas ia comigo no Metro. Não fosse o corpo a saltar-lhe atrevido de dentro da roupa, supor-se-ia, pelo que dizia, uma garotinha. A mãe dava-lhe cinco euros por semana de semanada, ela deu um cigarro a cada um dos vorazes rufiões da sua idade que a acompanhavam, de mau semblante, piores ideias. Mas na página quarenta e nove pareceu-me ter visto que a mesma personagem, a da minha leitura, sem que o tempo da narrativa tivesse mudado, tinha dezasseis anos.
Só a noite passada venci, voltando a ler, a minha dúvida.
Trapalhão a escrever, trapalhão a ler. Não era a mesma criatura com duas idades simultâneas. Dezasseis anos tinha a criadita, dezassete a filha da patroa, Grete, a irmã de Gregor, exactamente esse, Gregor Samsa, o caixeiro-viajante que um dia acordou transformado em insecto. No seu quarto as paredes eram altas, o céu distante.

30.9.08

A Hora Universal

Durante muitos anos não usei relógio. Era um tempo em que não havia telemóveis com relógio, nem relógios digitais nos automóveis. Aprendi, primeiro, a espreitar as horas no relógio dos outros, depois a adivinhar que horas seriam. O relógio do Instituto de Biologia Marítima, ao Cais do Sodré, e o da estação de comboios do Rossio ajudavam, o do Aeroporto também.
Nessa altura não só não chegava atrasado a encontro algum, como tinha sempre o sabor agradável de um avanço sobre todos os horários e o prazer de fruir o tempo ganho ao tempo.
Muitas vezes me perguntaram então pelo porquê de não usar relógio. Nunca disse que me tinha impressionado o momento em que os relógios tinham passado de maquinismos discretos para se verem as horas, escondidos no bolso, os antigos com corrente, disfarçados sob o punho da camisa os chamados de pulso, para o despautério exibicionista de estarem afixados quase rente às costas da mão, visíveis, ostensivos, com enormes mostradores, para que, mostrados, se adivinhasse o preço e através dele se intuísse o status.
Acontece que o ano passado me ofereceram um relógio, bom, bonito, discreto.
Usei-o até que outro dia parou. Foi mudar a pilha, pois não poderia ser uma questão de esgotamento da paciência. Voltou a funcionar mas, uns dias depois, parou de novo.
Sepultei-o pois, discretamente, numa caixa onde guardo todos os outros relógios, os da minha infância e os da minha juventude, do tempo em que eu tinha todo o tempo do mundo e o espaço do universo era todo meu.
Agora olho para o sol e sinto o ruído gorgorejante das entranhas e calculo cronometricamente que daqui a pouco é hora de ir comer. Mais logo durmo e quando chegar a lua sonho.
Com a raiva com que ando ao mundo um dia ponho uma bomba no relógio que dá o TMG, a Hora Universal.

28.9.08

Congestão pela tarde

Há na Travessa do Monte um restaurante de comida indiana, em frente do qual está plantada uma agência funerária cujo letreiro a anuncia aberta vinte e quatro horas por dia.
Ora vinha ainda meio azamboado da conjunção gastronómico-funerária quando, ao olhar para trás, num gesto instintivo, como se a da foice me seguisse da casa de pasto para a casa mortuária, vi, na parede de uma casa que se está a afundar num obliquar perigoso, a escada exterior já a fazer um ângulo que desafia a força centrípeta, este mimo de inscrição: «amores, calores, rumores e sabores».
Cheguei ao Largo que se chama da Graça, sem ter achado graça nenhuma. Pela tarde parou-me a digestão e uma dor de cabeça tomou conta de mim.

24.9.08

Um livro interminável

Tenho-o comigo, volto a ele. É um daqueles livros que se desejam intermináveis. É a crónica de uma vida, um livro em que seguimos na peugada de quem viveu, fazendo da sua sombra a nossa forma de viver. Um livro sincero, feito de inesperadas improbabilidades. Ruben Andresen Leitão foi na vida Ruben A. Num momento de génio encontrou Ruben B. O diálogo entre ambos é memorável. Mas esta noite que passou, antes de entrar definitivamente num sono de brutos, li-o, mais umas folhas. Chama-se O Mundo à minha procura. Comecei pelo segundo volume. Acho que já o disse aqui. Fiquei no «impulso que quase me distraía para debaixo de um carro». Foi aí que adormeci como se morto. Atropelado pela vida. Amanhã renasço, para mais umas páginas.

21.9.08

A janela entusiasmante

A Avenida de Berna é, pelo inóspito do vento que a varre vindo das furnas do Monsanto, e pela extensão que duplica quando um peão se engana e dá consigo a vaguear como se fosse para a Rua da Beneficência, a linha férrea a atrapalhar, um sítio mau para um turista desorientado. E há muitos desses vagueantes sem norte. Ainda há pouco, vistas do alto desta janela onde se reflecte o tardio poente do Verão que já foi, ali estavam duas debruçadas sobre folhas de um mapa que se volteava. A esta hora fechou a Gulbenkian, de restaurantes das redondezas quase não se fala porque não há, e no Campo Pequeno raramente há bois e o volteio ao redondel é nas galerias de um shoping subterrâneo. Entusiasmado de tão condoído, imagino-as, perdidas, a caminho do Parque, por ruas tristes sem ninguém, rumo ao sombrio e domingueiro lugar de aluguer soturno de uns corpos tresmalhados. Pelo caminho encontrarão El Corte Inglés e duvidarão de que não sejamos um excerto da Espanha, até porque, perdidas de todo, a última referência que tiveram foi, virar à esquerda ao chegar à Praça de Espanha. Moe-me então um assomo patriótico raivoso porque, as tristes, estão sós e pior do que iso sem companhia.

17.9.08

O construtor Solness

A peça é do Henrik Ibsen, um monólogo, uma hora e meia em palco. Só um artista de excepção resiste, ao esforço de memória, os nervos em pressão constante. No caso a personagem muda de idade, de mentalidade e de ideologia, de sexo até.
Beatriz Batarda é, de facto, extraordinária. Recebe-nos sentada na borda do balco, uma perna pendente, como se a marcar o tempo que falta. Extasia-se em emoção como um grito de dor qual sirene atroando os ares a anunciar a guerra de extermínio. Foi no Teatro Cornucópia. Há meses que não saía. Regressei a casa magoado de beleza.

16.9.08

O viajante do imaginário

Uma lua imensa no céu, para os que olham para o céu. Atravessava-a, espreguiçando-se, uma nuvem, novelo patrício de fumo azul, atrás da qual se escondia o príncipe de todos os mares, o mar da tranquilidade. Durante a noite o céu escorreria em chuva, abundante, vivificadora, convocando para a madrugada cada um dos passáros da terra e seus gorgeantes cantares. Na terra, seres irmanavam-se então numa cadeia forjada, corrente a corrente, de ânsias de bondade. Pela hora do jantar, em torno do fogo da amizade, quando os primitivos sentimentos se reunem agregados pela força da pertença, uma tribo acolhia, como numa dança ventral, o viajante do imaginário. Foi então que surgiu, na galáxia demencial que lhe povoa a cabeça, calote esférica onde se revolvem todos os firmamentos, a explosão primeira, mãe de toda a vida e de todo o riso. Sentia-se, enfim, em casa.

9.9.08

Raios o partam!

Consegui acabar de ler a correspondência entre o José Régio e o Vitorino Nemésio. Esperava algo de grandioso, terminei com uma mediocridade gritante. Às cartas entre ambos a edição junta outras, de Alberto Serpa, Adolfo Casais Monteiro e João Gaspar Simões, todas a propósito do que é afinal a ideia do livro, porque esta edição obedece a uma ideia: um conflito literário, feito de «desentendimentos provocados por boatos e picardias de ambas as partes, que terão origem, entre outros factos, na notícia publicada na Presença dando conta do lançamento da Revista de Portugal, tardiamente e omitindo o nome do seu director». Palavras das organizadoras Isabel Cadete Novais e Manuela Vasconcelos.
Estou atónito, aturdido de espanto e minado de incompreensão. Porque se edita um livro destes com a fradilqueirice do pior que o humano tem, mesmo quando o humano são escritores?
Na sua carta de 17 de Agosto de 1938 Nemésio invectiva Casais Monteiro: «ainda bem que V. me deixa a alternativa de malcriado, para eu me livrar da sua acusação de "desonestidade" na nefanda interpretação que dei ao caso da separata (...)». Numa carta desse mesmo tempo Régio dizia a Nemésio: «você, afinal, não soube sacrificar os seus pequenos ressentimentos pessoais a uma coisa que a revista estava sendo».
É este o estilo geral de um epistolário em que no princípio se trocavam pétalas de mimos adjectivados em rosas e verbos de enleantes heras de fraternidade cultural.
Enfim, uma choldra! «O meu pessimismo a respeito da grande maioria dos homens não tem senão crescido», escreveu Régio a Nemésio em 7 de Julho de 1937. O meu também. Edições destas ajudam à bandalheira, ao descrédito, ao fastio, à ideia de que nada muda e há nos grandes cultivados a mesma miséria moral que nos alarves analfabetos que deles se riem.
Maldito livro, pois, mal empregado gasto, não fosse eu não querer ficar com a Obra Completa do Régio afinal incompleta.
Copio da carta com que fecha o livro, escrita pelo Adolfo Casais Monteiro ao José Régio, em 29 de Outubro de 1938. «Citando a sempre oportuna frase do Pessoa: seja como o for, raios o partam!». É isso mesmo, raios os partam a todos, incluindo os que tiveram a peregrina ideia!

8.9.08

Cor de fogo

Dei-me finalmente uns minutos, depois de estar enclausurado a trabalhar desde a madrugada, para passar os olhos por uns momentos de literatura. E cá estou eu com 18 euros de José Régio, como ontem me queixei, como se não pagasse por um livro o que um drogado não paga por um chuto, mas cá estou, dizia, a ler 16,20€, preço FNAC, de cartas do e para o Vitorino Nemésio. Estou extasiado com aquele tempo em que se escrevia como se o tempo humano fosse o relógio da eternidade. Instalado em Montepllier, o autor de Mau Tempo no Canal comunica: «vem aqui quase todos os dias uma sueca de calções de marinheiro (ai o Botto!...] e blusa cor de fogo, que VV nem imaginam». Como tudo isto se compreende e sente desavergonhadamente.

Kafkaesco ou um bródio?

Confesso que estou na fase em que me pergunto se um livro escrito em alemão pode ser verdadeiramente traduzido em inglês ou se quem souber italiano e não dominar a língua de Goethe, não fará melhor em tentar lê-lo através desse riquíssimo modo de expressão. Mais: estou na fase em que, depois de ter deixado de assinar o TLS, porque raramente o conseguia ler todo e muitas vezes não lia sequer nada, acho que era ali que ainda conseguia entender-me ainda com um pouco de densidade cultural fora do estilo jornalístico-socio-político-psicanalítico do New York Review of Books, para falar em duas referências em língua inglesa do «magazine litéraire».

Ora quiz o destino que fosse precisamente numa referência a esta revista, cuja beleza é acrescentada pelos desenhos à pena do David Levine, que eu encontrasse hoje referência a uma nova biografia do Franz Kafka, escrita por Louis Begley. Vou fazer um esforço por ler a recensão e talvez mande vir o livro.

O novo ensaio biográfico põe a questão de se deve ou não aceitar-se a visão que Max Brod, um contemporâneo do autor do Processo, trouxe para o mundo dos interessados em saber quem era, afinal, o criador de Joseph K.

Eu para já aceito, porque não quero ser ingrato à mão amiga que me emprestou o livro do Brod. O Begley que espere a sua vez, até porque me irrita a palavra «kafkaesco» que por ali anda com uma ressonância a simiesco. Um bródio, enfim, já que atiramos palavras onomatopaicas às ventas uns dos outros!

7.9.08

Cara Imprensa

A Imprensa Nacional tem sido editora de livros que outras editoras não publicariam e isso é bom para a cultura. A Imprensa Nacional tem publicado bons livros mesmo quando edita discutíveis livros e isso é excelente para a cultura. Agora o que a Imprensa Nacional não pode é praticar os exorbitantes preços que cobra pelos bons livros que indiscutivelmente edita. É que a cultura não suporta tudo, incluindo os preços da Imprensa Nacional. Eu calculo que o negócio do Diário da República é capaz de não dar grande lucro, pois é um jornal sem anúncios e com notícias indigestas. Mas fazer os que querem outra escrita e que não têm culpa pagar a factura é que não é justo. Vem a isto a propósito de ter comprado dois magros fólios, um com cartas do José Régio ao filosófo Álvaro Ribeiro, outro do mesmo Régio a Vitorino Nemésio. Por ser serviço público, não poderia a Imprensa fazer um descontozinho? Juro que o aplicaria em mais livros, mesmo da Imprensa, mesmo nos discutíveis.

5.9.08

O mau hálito

É extraordinária a agressividade das cidades. A agressividade de certas ruas de Lisboa. São automóveis esganados a caminho do próximo semáforo, conduzidos por gente ávida de vingança e não achando outra se não libertos enfim dos humilhantes empregos e antes de chegarem a casa para descarregarem humilhando os que lá estão. São os moinhos de café que parecem triturar pregos e latas ou parafusos e nos cafés as chávenas atiradas como numa gargalhada de cacos umas contra as outras e os copos. São os velhos surdos e os novos vocais, cada um a seu modo a quererem fazer-se ouvir, mesmo pelos que não querem ouvir. É extraordinária a violência sonora, a selvajaria verbal, a clausura dos locais, abafados, húmidos, pestilentos. São os caixotes de lixo a transbordar, o cheiro a fossa os cigarros retardados, a defecação sistemática dos cães, o passeio público feito retrete canina. São os pombos moribundos e os vagabundos. É a dor lamurienta dos excluídos rapandos nos caixotes e dormindo pelos cantos. É a nossa impossibilidade de sairmos daqui. É o mau hálito disto tudo, a roupa urbana por mudar, a de baixo.
Hoje começou a chover e eu lia em O Mundo à minha procura, do Ruben A., a frase magnífica: «O Verão cansou-se». Como eu o compreendo.

3.9.08

Um pequeno incidente

Ter ido a Vila Franca de Xira por razões de serviço deu oportunidade de visitar o Museu do Neo-Realismo. A arquitectura do edifício é notável, a amabilidade de quem nos recebe cativante, a sobriedade bela do modo de expôr uma arte dolorosa vinca a alma do visitante.
Talvez o meu ser ruminante me tenha feito notar que está ali o Vergílio Ferreira, com o Vagão J em destaque e o livro de viragem, o Mudança, obras do antes de o autor da Aparição entrar na desbunda vociferante contra os «neo-realeiros» que, se o trataram mal, tiveram também muita paciência para o aturar.
Cultura militante, numa luta intestina entre conteúdos e forma, atinge o seu momento mais agónico quando o desconhecido António Vale na Vértice entra na liça marcando a agenda com um artigo intitulado «Cinco Notas sobre Forma e Conteúdo». Bombo da festa Fernando Lopes-Graça. O nome do crítico escondia o seu clandestino autor, Álvaro Cunhal, cujos desenhos no cárcere ali estão.
Lembrei-me disso, como quem se lembra de um pequeno incidente numa história de família.
«Olha o Papiniano Carlos», disseram gaiatamente a meu lado, ao surgir a fotografia. «Nunca mais se falou nele». «Pois não», respondi, em nome dos vivos, dos mortos, dos lembrados e dos esquecidos, enquanto reparava naquela capa para o Carlos Oliveira, cuja escrita é a invulgaridade feita substância, o dito transformado em modo de dizer.

2.9.08

Cavaleiro de Oliveira

Há coisas na Livraria Bertrand que espantam: ter deixado esgotar o Aquilino, tornando raridades disputadas a bom preço livros como O Escritor Confessa-se, a sua notável auto-biografia e tornar praticamente impossível de encontrar a esmagadora maioria da obra do Vergílio Ferreira. Claro que a Bertrand não é serviço público e é livre de fazer funcionar o mercado e, detendo os direitos de edição de um autor, condená-lo à morte pelo esquecimento.
Foi com júbilo que este começo de manhã vi aqui uma notícia: a Bertrand vai voltar a editar o Aquilino, no caso O Galante Século XVIII - Textos do Cavaleiro de Oliveira.
Ora por falar em Cavaleiro de Oliveira, o nome traz-me tais reminiscências que é motivo para um homem deixar no cabide do guarda-fatos a má catadura e tentar sorrir de dentro para fora.
Viva, pois!

30.8.08

Calor tropical

Cinco anéis, três na mão esquerda. Fatinho colonial, abrasileirado, de uma sarja bera que já fora branca. Sapato a condizer, peitilho esburacadinho para ventilar calores tropicais que por aqui não há. Aclimatado, um coletinho em lã a desdizer tudo, um transistor à orelha encostado, em volta de um relato de bola quase inaudível, no meio da algazarra geral. Falava esganiçado, aflautado, saracoteante. Na mesa ao lado, soturnos, densos, conspirativos, de poucas falas, boné leninista, os da velha guarda do Partido olhavam-no com cautelosa desconfiança. Foi no Café Central, que atirava para a rua o grito de uma tabuleta: «o seu café». Foi então que ela entrou. Esguia de felina, ondulante de jibóia, possante de palanca, mulata espectacular. Fizeram-se tréguas por um instante. O do fatinho nem olhou, os camaradas não tinham orientações para poderem olhar. Todos os demais, casais aparelhados e solitários por vocação, embabascaram-se, absortos nela e do sábado esquecidos.

28.8.08

A minha bagagem

Há biografias que são simultaneamente a vida dos autores e das obras que os fizeram extraordinários escritores.
Passa-se isso com a notável biografa da Franz Kafka escrita por Pietro Citati.
Kafka é o Celibatário, o grande Solitário, o homem em «vertiginosa claustrofobia», Citati é um espírito puro em liberdade, um escritor numa «fuga grandiosa em relação ao infinito».
Momentos há no livro em que, porém, se indiferenciam, o biógrafo já transformado no biografado, o discurso quase directo, o leitor a ler nos lábios de Citati, como se folheasse cada um dos livros deste advogado asilado na Literatura.
Há neste livro rasgos de génio construtivo, como a apresentação teológica de O Processo, a Lei como a casa de Deus, o Tribunal a emanação de Deus, a Justiça labiríntica «a luz ofuscante», um «Deus verídico e enganoso, próximo e afastado, acessível e inacessível, aberto e fechado, luminoso e tenebroso».
Josef K. espera à porta da lei, perde-se nos corredores da Justiça, cumpre «a felicidade do castigo» da condenação da sua culpa: é a culpa que é a «afinidade entre a acusação, vítimas e juízes» e o Tribunal está sempre atraído pela culpa e é o estigma da culpa que atrai o culpado ao Tribunal.
Mas há sobretudo nesta obra única a constante de uma densa humanidade, como a de Gregor Samsa, que um dia acordou em Metamorfose transformado em insecto para viver, enfim, a oportunidade do amor com a única pessoa que o amava no que indiferencia o humano do bestial, o escritor como animal, o mundo como covil, o corpo como miséria, lastro de uma alma ansiosa de plenitude.
Minado por fundas depressões, querendo «altíssimas paredes» que o defendessem dos humanos, Kafka é um dos mais inteligentes escritores do século XX. Morreu em 24 de Junho de 1924.
Viveu como empregado de uma companhia de seguros, deixou uma obra que, tal como a sua Muralha da China «mantém tensas as cordas da alma». Escrevia até altas horas da noite, em estado de semi-inconsciência, descendo cada vez mais fundo às crateras da sua alma, arrebatado, vivendo uma tensão trágica constante, como se numa Colónia Penal. Incapaz de uma relação conseguida no casamento, chegou à noite do noivado, em Berlim, doente ou imaginando estar. «A minha bagagem compõe-se de insónia, peso no estômago, enxaqueca e dores no pé esquerdo», escreveu à irmã da sua noiva, no preâmbulo da «comédia do matrimónio sem matrimónio».Toda a sua vida é a sublimação dessa incapacidade de não ser um homem só, no Castelo do seu refúgio, vivendo como sentimento o terror nocturno da «madrugada dos funcionários».

27.8.08

A alma desperta

Há momentos em que nos saturamos mesmo dos chamados «grandes vultos» da Literatura. Aconteceu esta noite com o David Mourão-Ferreira. Lia, meio estremunhado, o conto O Viúvo, quando uma súbita vontade de chegar ao fim me acometeu e o texto é curto, a narrativa breve, mas o sono imenso. A monotonia da história dava então mãos à vulgaridade do modo de a contar. A somar ao desespero descobri nestes contos, que juntos formam a antologia Os Amantes, a obsessão pela palavra «luvas».
Achei-o logo no primeiro, Nem Tudo É História, quando o automóvel capotou, na frase «mas era afinal a minha mão, coberta de sangue, que saía do interior dessa luva rasgada»; revi-o neste irritante O Viúvo quando «Adriano começou, pausadamente a descalçar as luvas», ao chegar ao hotel na praia e reencontreio-o quando, chegado a casa de Rita, aberta a porta por «uma criadita, novita e feia, assarapantada como uma borboleta», Adriano «devagar, meteu as luvas no bolso do sobretudo»; voltaram as luvas quando, num diálogo de ciúme assassino, Rita ironiza que a prenda que Paula, a amante de Adriano, agora viúvo de Elsa, lhe haveria comprado era «um par de luvas»; perseguem-me quando, já no limiar da porta «Adriano resmoneia, de cabeça baixa, enquanto começa a calçar as luvas» e sai de cena «muito mais com o aspecto de um órfão».
Enfim, saturara-me de «luvas» e do livro e do escritor quando, já a escrever este post para dizer isso e bem pior, à procura então de mais luvas para justificar a minha embirração tropecei no magnífico Ao lado de Clara, e nele «Ippolita debruçar-se-á sobre o pescoço de Gorella, depois de cuidadosamente lhe amarrar os pulsos atrás das costas; e tratará então de ir colocando, no pescoço de Gorella, com lentidão exasperante, um apertado colar de lascivas mordeduras; e, a seguir, sempre com os lábios entreabertos, vorazmente subirá até à altura do queixo de Gorella; e, por fim, no instante em que a sua língua deixar de obscenamente se revolver (...)».
Parei, hirto e inesperadamente desperto! Esqueço as luvas, perdoo a monotonia, a vulgaridade, foi-se o sono, «enquanto Giorgio, deliciadíssimo com a cena, se lhes terá reunido e as abraçará pela cintura».
Há alturas em que se descobrem, inesperados, magníficos e excelentes «grandes vultos» da Literatura Portuguesa. Era de noite e custava-me dormir. A leitura é uma excelente forma de manter a alma desperta, começando por descalçar as luvas. Obrigado David.

O genial duelo

Encontrei-o na Livraria Simões, em Faro, casa de magníficas surpresas: um livro de Manuel Anselmo, editado pela Sá da Costa, em 1937. Chama-se Antologia Moderna. Firmado em Matozinhos, o meu exemplar tem uma dedicatória quase ilegível. Anselmo tinha então 25 anos e a obra significou para o seu autor recomeçar a actividade de «ensaísta de compreensão literária».
Anselmo tem sido votado a um profundo ostracismo, talvez por ser politicamente de direita, teórico doutrinador do regime deposto em 25 de Abril. A sua lembrança, ainda hoje suscita reparos.
O livro abre com um artigo sobre o «panorama intelectual e literário do escritor Oliveira Salazar». Deixemo-los. Detive os olhos, sim, no seu magnífico estudo sobre a poesia de José Régio sobre quem escreveu: «Nada evitará, jamais, ao Poeta, esse genial duelo entre o seu sonho de grandeza e a consciência da sua pequenez».
Coincidência, tenho vindo a ler, aos poucos, outro livro, encontrado por acaso na mesma livraria a Evocação de José Régio de Joaquim Pacheco Neves, diário dos últimos dias do autor de Benilde, a Virgem-Mãe. A narrativa começa no dia 9 de Outubro de 1969. Nessa noite Régio seria acometido de um enfarte. Faleceria no dia 22 de Dezembro desse mesmo ano. Todo o livro é escrito para contrariar a ideia de que ele seria um suicida passivo, «conivente», a quem a morte conveio no momento em que já não podia mais viver.

25.8.08

A vida aos repelões

Depois de ter gozado mais do que a lei manda, Luiz Pacheco dedicou o Diário Remendado «ao Senhor Doutor João Pedro George, colaborador impecável, meu biógrafo improvável», que escreveu o que chamou de «posfácio» de tal obra. O mesmo George edita-lhe agora, com uma introdução, algumas das pachecais entrevistas, num livro tirado pela Tinta da China, belíssimo como todos os livros dessa editora. Vale a pena ler a introdução. E vale a pena notar o aparente fair play de quem foi tratado, precisamente numa entrevista ao JL por «uma espécie de índio chupista». E como se já não bastasse, arrumou-lhe com: «O gajo sabe mais de mim do que eu. Mas isso do posfácio também não interessa: a malta lê meia dúzia de páginas do Diário e larga, ninguém chega ao posfácio».
Interessante, sim, a introdução dizia eu nesta manhã meia confusa de ideias, a escrever depois das onze como se fosse pelas onze de ontem. Nela João Pedro fala de Luiz a propósito da «comercialização da excentricidade», refere-o como «escritor maldito» quando fala na «maldição como estratégia de legitimação», trá-lo a nós leitores como alguém que tem «um grau de liberdade a cujo luxo os outros não se podem dar». Estão quites eles também.
O livro chama-se O Crocodilo Que Voa.
P. S. Uma coisa é interessante, sim, esquecia-me. João Pedro George desmascara quantos andaram a provocar o pior de Pacheco, a viperina língua, o escárnio permanente e quantos fizeram à sua conta manchetes e títulos de sensação! Desde o célebre título de primeira página no defunto O Independente:«Santana só fez merda na Câmara de Lisboa, mas eu acho graça a isso», até ao perguntar: «Quantas coisas fizeste de ilegal ou de condenável?» [Baptista-Bastos], «E vontade de matar alguém, já tiveste?» [idem], há de tudo. Um um crocodilo que voa, sim, mas por vezes muito baixinho.

24.8.08

Os amantes

Dizem que os editores não gostam que os autores se viciem em contos. Têm talvez a ideia de que estão a dizer concentradamente o que podiam engrossar num livro, diluindo-o.
Num conto talvez seja tudo mais rápido, mais intenso, mais breve, como um beijo numa noite de chegada por contraposição a uma noite de amor na hora da despedida.
Vem isto a propósito do último parágrafo de um conto de David Mourão-Ferreira, chamado Os Amantes, escrito em 1968: «E finalmente deito-me a teu lado. Não sei bem se a teu lado se dentro de ti».
Vi-o esta manhã, por ser capa do livro que comprei ontem. Lê-lo-ei esta noite. Acabei agora, com a noite a chegar, o primeiro dos contos, onde está: «É preciso inventar? Ou contar a verdade? Só o que invento me comove; só a verdade te emociona. Temos então de deitar à sorte: ainda não sei qual de nós merece agora reaprender a chorar». Chama-se Nem Tudo É História. Uma única e a mesma história.

22.8.08

Pese a admiração...

Eugénio de Andrade deveria detestar António Botto como poeta e por isso escreveu: «como poeta desde há muito que o tenho em pouca conta». Eduardo Pitta, que organizou o volume das Canções, lembra isso e lembra mais: que quando escreveu aquilo, ele ainda não era Eugénio de Andrade, mas sim «José Fontinhas». E para que o leitor perceba bem acrescenta, em nota de rodapé, que José Fontinhas é o «nome civil do poeta Eugénio de Andrade».
Ficam quites, pois, Andrade e Pitta e o leitor, basbaque, a ver.
Ah! Esquecia-me: ainda a propósito do brevíssimo apontamento biográfico que faz sobre o autor do poema «Ama sim, mas não obrigues a alma», diz Pitta que Botto, «homossexual assumido» acabaria erradicado do funcionalismo público, onde teria «modesto emprego», em 1942, «num tempo em que os mecenas não punham Fundações aos poetas».
Ora aí está a piadinha assassina! Atirado Fontinhas ao chão, há que pôr-lhe o pé no pescoço. O tiro de misericórdia vem a seguir. Citando-a à obra de Fontinhas enquanto Andrade, ressalva Pitta: «pese a admiração que por ela nutro».
Naturalmente, nem seria preciso dizer, porque o leitor nesta altura já está esclarecido quanto a ser imensa a admiração.