3.3.07

Uma vida debalde

Como todos os defectivos sentimentais, Fernando Pessoa era um esfaimado por afectos. Numa das suas cartas a Ofélia Queiroz lamentava-se, tristonho: «merecia ser mais bem tratado pelo Destino do que estou sendo - pelo Destino e pelas pessoas».
Mas é pela ironia amarga que Nogueira Pessoa - como lhe chama o meu amigo que é sábio - melhor exprime a amargura solitária da sua alma enganadoramente múltipla.
Foi em cinco de Abril de mil novecentos e vinte, numa carta ao seu «bébé pequeno e rabino», já depois de bebida, sozinho, meia garrafa de Porto: «adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo, para descansar o espírito; Assim fazem todos os grandes homens - pelo menos quando têm - 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça».

Ridícula talvez, de amor seguramente, esta carta, a pedir ao tempo que passe e a ela que soubesse ao menos como amá-lo.

P. S. Já tinha escrito isto hoje ao começo da manhã quando li no livrinho «Aspectos críticos da língua portuguesa», de Sandra Duarte Tavares, leitura de sábado, obra minúscula que cabe num canto da pasta, que não existem na língua portuguesa palavras que contenham dois acentos, pelo que se escreve «bebé» e não «bébé». Atenção, porém! O «til», explica-se no mesmo trabalho, não é um acento gráfico mas uma marca de nasalidade, indicando ditongos ou mesmo só vogais anasaladas e por isso mesmo se escreve «bênção» e não «benção». Abençoada língua esta em que, por melhor que se tente, se está sempre errado, mesmo que seja a falar da Ofélia «Queiroz» ou será «Queirós»?!